No último capítulo…
Heero e Relena se reencontram na segunda-feira chuvosa. De tão bem tratada, Relena pensa que deve fazer algo para retribuir todo o carinho de Heero. Cada vez mais, Lorde Treize deixa claro que desaprova o relacionamento deles. Daniil, por outro lado, está a favor de Heero. As amigas de Akane voltam com ela de carona e Maira conta sobre o fora que Relena deu em Miksa. Zechs convida a irmã e o namorado para jantar. Heero é escolhido para cursar a escola de formação de capitães.
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13
O telefone não recebia muita atenção naquela casa. Heero não entendia o porquê da falta de prontidão, mas era que seu pai já tinha há muito passado da fase de pensar que qualquer ligação era uma emergência.
Ele estava no carro, do lado de fora do quartel, o aparelho no viva-voz enquanto aguardava alguém atender. Preferia que não fosse Esther. Deus sabia o que Akane já tinha vazado para a mãe… Queria falar com o pai primeiro. Depois, responderia qualquer curiosidade que Esther tivesse.
Heero logo viu que não era muito bom na lei da atração:
_Alô? –Esther tinha a voz de uma daquelas atrizes dos antigos musicais de Hollywood, melodiosa e plena.
_Sou eu.
_Heero! Que ótimo ouvir sua voz! Como você está?
_Está tudo bem. E por aí?
_Bem, tudo bem. Trude está ruim da coluna outra vez, acho que não vai conseguir escapar da cirurgia… vou precisa de uma costureira nova… E é tão difícil encontrar boas costureiras hoje em dia!
_Mande minhas lembranças para Trude.
_Ela vai ficar muito feliz. Sim, sim, mas por que ligou? Está mesmo tudo bem, certo? Seu pai está aqui, quer conversar com ele?
_Quero.
Ele ouviu um silêncio. A seguir, ao fundo, a voz potente de Esther estava chamando o capitão. Heero conseguia visualizar o caminhar ágil, mas controlado, de seu pai até a mulher, o olhar um pouco tenso pela intriga do momento. Ao saber quem ligava, suas sobrancelhas se ergueriam alto em compreensão e seus olhos se iluminariam bondosamente ao falar:
_Pronto. Filho, como está?
_Estou bem, está tudo bem.
_Muito serviço por aí?
_Muito papel…
_Fazer parte da equipe de perícia tem suas vantagens… –o capitão ofereceu sua compreensão com uma ironia desgastada.
_É, tem sim… Desculpe por demorar tanto para ligar.
_Não precisa se preocupar com isso, todo mundo sabe como funciona. Também, Ane compensa com seu relatório diário.
_O quê?
Heero ouviu o pai rir, muito divertido.
_Eu vou falar com ela… –e monótono, Heero avisou, julgando o comportamento desnecessário da irmã intolerável.
_Ela não faz nada de errado, por que vai acabar com a graça dela? –o capitão rebateu, provocando-o mais. Conseguia ouvir que o filho estava contrariado do outro lado da linha. –É uma brincadeira! Ela encaminha um… relatório semanal apenas. –e riu mais.
Heero segurou-se para não se contagiar com a risada rouca e sincera. Um relatório semanal já poderia ser relevado. Ouviu o pai prosseguir:
_Esses dias atrás ela mandou… mandou uma foto de vocês no casamento da menina do Fred. Ela não entrou muito em detalhes, sabe, mas… –Heero ouviu Esther rindo ao fundo então. Os olhos dele começaram a errar para todas as direções, vagarosamente, em angustiante espera do comentário que viria. –Aquela moça linda, loira, parecia muito contente em estar do seu lado lá, hã?
_Sim, pai.
_Sim? –o capitão riu, contente, espirituoso. –É só isso o que tem a dizer, galã?
_O nome dela é Relena Darlian. É minha namorada. –e Heero não sabia por que teve de corar tanto depois de falar isso. Estava conversando com seu pai, afinal. Eles nem estavam se vendo. Ele estalou a língua e suspirou.
_Que ótimo, filho! Meus parabéns. –dessa vez, sem rir, o capitão mostrou seu contentamento. A voz dele não era feita de curvas suaves, mas trazia bondade e calor.
_Obrigado. –e seus lábios enfim cederam a um sorriso.
_Fale mais, Ane não quis responder nenhuma de nossas perguntas… quer dizer… sabemos que ela é a primeira bailarina lá no conservatório, filha do ministro, mas…
_Não tenho mais nada a adicionar.
O capitão riu de novo, admitindo seu fracasso. Heero era reservado demais. Sempre fora, não foi a distância que o fez assim.
_E é sério?
_Sim. Vou conhecer os pais dela mês que vem.
_Muito bom, estamos ansiosos em conhecê-la também. Ela parece ser uma pessoa maravilhosa.
_Ela é mesmo.
_Claro que é.
Heero riu admirado com o orgulho que o pai transmitia em sua voz.
_Tem mais uma coisa que vai acontecer mês que vem. –e resolveu introduzir a próxima novidade.
_Conte.
_A escola de capitães.
_Você foi selecionado? –o pai perguntou baixo, investigativo, embora só quisesse confirmar a informação que concluíra em pensamento.
_Sim, cada quartel vai enviar um candidato.
_Isso também é ótimo, é incrível! Está sendo um ano maravilhoso para a nossa família.
Ao fundo, Heero distinguiu bem Esther perguntar:
_O que houve, querido?
_Heero vai ser promovido capitão.
_É um processo, pai. –Heero corrigiu.
_Oras, filho, faça-me o favor!
Heero riu, sem querer se comprometer.
_Parabéns, Heero! –a voz de Esther apareceu mais alta, exultante.
_Boa sorte, filho. Continue fazendo o seu melhor e tudo vai acontecer.
_Obrigado. Eu vou desligar, tenho que ir buscar Ane agora.
_Muito bem. Se precisar de algo, ligue.
_Claro. Vocês também.
_Tchau, filho.
_Eu te amo, querido. –Esther falou de novo, bem alto.
Heero seguiu sorrindo. Despediu-se, pensativo. Enquanto dirigia, recapitulava como fora morar com os seus pais e percebeu-se sentindo falta daquilo. Claro que era possível manter-se presente por telefone, mas engava-se ao pensar que é a mesma coisa. Se ver apenas uma vez por ano também não era exatamente satisfatório. Sentia que devia ter aproveitado mais seu tempo em casa.
Ao estacionar, já era cinco e dez. Os músicos já estavam saindo e ele reconheceu um bailarino aqui e ali. Deixou o carro e foi caminhando contra o fluxo de pessoas, ninguém mais o olhava com curiosidade por causa do uniforme de bombeiro.
Chegando a janela do estúdio, percebeu uma reunião lá dentro. Mas não era com o grupo todo. Nedved estava falando e gesticulando tempestuosamente. Seria mais uma bronca? Akane estava no meio. Quando é que ela não estava no meio? Pelo menos não estava sozinha. Devia ter sido algo inocente, levado sim, mas sem maldade… talvez um atraso ou alguma brincadeira fora do lugar?
De qualquer modo, a expressão dos jovens não parecia de preocupação. Eles apenas estavam concentrados, tal qual ouvissem instruções vitais para uma operação de resgate. Heero achou interessante ficar assistindo.
Relena deu um passo à frente. Ela deve ter gastado apenas um minuto ali, mas foi o suficiente para Heero ficar vidrado nela. Alheia a presença dele, se dirigiu ao grupo de bailarinos sem gesticular, o seu longo rabo de cavalo balançando suavemente com os movimentos de sua cabeça. Estava toda de branco, mais luminosa ainda do que o usual, e nada em seu corpo parecia destoar.
Ao terminar de falar, ela aplaudiu e todos a imitaram. Nedved virou-se para Tint e confirmou algo com ela antes de sair. Junto dele, saiu a senhorita Une. Ela sorriu para Heero e acenou com a cabeça, mas se quisesse se manter no passo frenético de Ned, não poderia se distrair. O lorde não parecia presente aquele dia.
Os bailarinos na sala comemoravam e, ao mesmo tempo, se falavam de forma espantada. Não levaram uma bronca, afinal. Começaram a sair.
Os rapazes lançaram um olhar amistoso para ele em cumprimento. As garotas lhe sorriram, principalmente Fanny, Valentina e Maira, que se sentiam agora muito mais próximas do rapaz, e mandaram acenos delicados e alegres.
Relena chegou e golpeou Heero de leve no peito com a toalha:
_O que é isso? –e cruzou os braços, imperiosa.
_Eu avisei que distraio as bailarinas… –Heero deu sua evasiva espertamente.
_Oras! –Relena se ofendeu.
E riram.
_Desde os catorze anos… –Ane se aproximou e contribuiu. –Foi difícil crescer com um irmão mais velho tão bonito. Nos vestiários, eu era ameaçada…
_Chega, Ane. –Heero interrompeu com firmeza.
Ela deu uma risada buliçosa.
_Por isso que nunca deixei Zechs ir me buscar… –Relena aconselhou, tocando Akane no ombro.
As meninas riram depois, malvadas, mas Heero meneava a cabeça, perplexo.
_Zechs vai levar vocês para jantar amanhã, não é? –Akane indagou depois para mudar de assunto. Viu os dois assentirem em reflexo. –Que tal saírem comigo hoje? –e sorriu, despretensiosa, as mãos na cintura.
Relena sorriu, contente, e olhou Heero para ver como lhe parecia.
Ele deu de ombros:
_E o Lian Gong? –quando lera a mensagem horas atrás, imaginara que a irmã iria querer se juntar a Tint.
_Liguei lá, mas acabaram as vagas… –explicou, desapontada por um curto instante. Havia outros lugares em que poderia aprender a técnica, porém queria fazer o curso com Tint. –Mas então? Por minha conta! O que me dizem? Quero comemorar com minhas pessoas favoritas! –insistiu, afoita.
_Heero? –Relena consultou, mas seus olhos diziam que gostava da ideia.
_Bem, por mim pode ser. –ele colocou as mãos nos bolsos, assentindo com a cabeça.
_Viva! –Akane comemorou e beijou cada um no rosto. –Já volto! –e saiu correndo dando alguns saltinhos até o vestiário.
Relena riu contente e Heero franziu as sobrancelhas:
_Do que ela está falando?
_É ela quem tem que dar a novidade…
Ele acedeu, pensativo.
_Eu também tenho algo pra contar. –depois murmurou lentamente, lembrando-se do que houvera aquela manhã.
_Bom? –Relena colocou as mãos nos ombros dele e fitou seu rosto. Heero tinha uma expressão sorridente, marota até, mas seus lábios permaneciam no lugar.
_Sim… mas complicado. –considerou, apreciando o rosto dela com a mesma estima que lhe era rendida.
Relena esticou-se e o beijou de leve nos lábios. Sentiu-o segurar sua cintura, trazendo-a mais perto de si.
_Nada que não possamos resolver juntos. –e ela assegurou, firmando mais seu agarre em torno do pescoço de Heero.
Ele a beijou por sua vez com um pouco mais de desejo.
_Vou me trocar. –ela avisou.
_Te pego em casa. Pode ser daqui uma hora e meia?
_Sim. –e o beijou mais uma vez. Sorriu, mordeu o lábio inferior, e enquanto se separava dele devagar, correu a mão pelo seu rosto. Ele teve tempo de deter a mão dela por um segundo sobre sua bochecha antes de deixá-la ir.
Assistiu ela se afastar. O passo dela era elegante e harmonioso, o quadril oscilava com graça e compostura, seu corpo viciado nos movimentos fluídos e precisos após anos de prática. Ela voltou-se para trás ainda duas vezes antes de sumir, sorrindo com flerte e jovialidade.
O prazer dela era olhar para trás e ver que ele ainda tinha os olhos presos nela e que seguia parado naquela postura alerta, só suavizada pelas mãos despojadas enterradas nos bolsos da calça azul-marinho bem cortada. Ele jogava os ombros levemente para trás toda vez que assumia aquela pose e os músculos dos seus braços se delineavam na medida precisa. Lembravam-na da força guardada ali e de quão seguros eram seus abraços. E ela tinha certeza de que se ela corresse para ele, ele a pegaria e a ergueria em arabesque. Não resistiu sorrir ante sua ideia disparatada.
Akane já estava pronta para retirar-se quando ela entrou no vestiário.
_Quer que eu te espere? –a ruiva sugeriu, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
Relena negou com a cabeça.
_Ok, te mando uma mensagem. –Akane avisou e antes de cruzar a porta, escutou Relena chamá-la.
_Ane? –e parecia levemente cismada com algo.
_Sim? –solícita, Akane parou e dirigiu-lhe toda sua atenção.
_Você pedia para Heero treinar as pegadas com você? –Relena conferiu, falando baixo e absorta.
_É, pedia às vezes… –espontânea, Ane confirmou.
Relena assentiu ante a resposta esperada.
_Por quê? –com uma sobrancelha curvada e um sorriso traquina, Akane perscrutou a amiga, cheia de suspeitas.
Relena deu de ombros, marota, e Akane saiu gargalhando.
_Fica esperto com sua garota, bonitão… –Akane avisou assim que reencontrou o irmão e deu um tapinha nas costas dele enquanto iam caminhando para a saída.
_O que houve? –ele não gostou do tom travesso dela nem da expressão malandra que ela trazia na face sardenta.
Ela sacudiu a cabeça, dúbia, e não explicou nada.
Em silêncio, seguiram até o carro. Tiveram de andar bastante e a brisa estava fresca e agradável, limpa e leve.
_Às vezes sinto falta do cheiro dos pinheiros. –Akane murmurou enquanto entrava no automóvel.
Heero parou diante do volante e pensou no que ela falou. Nunca tinha prestado atenção nesse detalhe, mas foi só ela mencionar a ausência do aroma que ele voltou a sentir. Assentiu, meio que para si mesmo e preparou-se para ligar o carro. Girou a chave e arrumou o câmbio obsessivamente algumas vezes antes de engatar a primeira, pisando suavemente na embreagem.
Akane jogou a bolsa no banco de trás, passou o cinto e correu a mão pelos cabelos.
_Eu liguei para casa hoje. –e ele mencionou depois de ter verificado os espelhos e saído.
_Mamãe estava mesmo preocupada sobre isso. Ela estava curiosa sobre Relena. –Akane comentou, ligando o rádio.
_Fazia tempo mesmo que eu não ligava. –ele parecia intrigado com sua própria constatação.
_Você sempre foi de ligar pouco. –ela observou.
_Sim. –respondeu, monótono.
Um instante foi passado em silêncio.
_Mas se ligou, é porque algo importante aconteceu… –e felina, ela retornou murmurando, sem deixar escapar nada.
Ele voltou-se para ela e a fitou de relance, criando suspense.
_Vou esperar estarmos com Relena para contar.
_O quê? Eu também sou da família! A Lena é mais importante que sua própria irmã agora?! –ela armou um enorme bico mimado e cruzou os braços com força e expressão, infantil.
Ele riu divertido, a voz escapando rouca e baixa.
Trocaram olhares rápidos, vigiando-se, e ele deu de ombros prestando atenção no movimento dos veículos a seu redor. No interior do Elantra, só o som de um novo sucesso pop.
_O que é isso? –ele se incomodou afrontado com a musiquinha.
_Justin Bieber. –ela explicou, trivial, ainda emburrada.
Ele careteou, franzido o rosto, e ela não aguentou e gargalhou. Foi visitada por um ímpeto de inspiração:
_Vai, me conta logo, ou vou aumentar o som! –e grudou o dedo no botão do volume.
Ele seguiu estoico.
Ela começou a apertar o botão e a voz do canadense começou a aumentar, justo no refrão com suas súplicas melosas por perdão.
_Pare com isso… –Heero tentou tirar a mão dela de perto do rádio, mas não se sentia à vontade em soltar o volante. –Vai quebrar! –e foi mais áspero e urgente com a segunda reprimenda.
Ela gargalhava malvada:
_Pode contar com isso! –e ainda começou a cantar junto, gritado, fazendo seu melhor para desafinar.
Pararam no sinal e, aflito, ele apertou o botão de desligar do rádio de uma vez. Quase que ele quebrou o aparelho, na verdade.
_Está bem… eu conto. –e resmungou entre dentes.
_Bom garoto. –ela encostou-se de volta ao banco, seus olhos brilhando satisfeitos como duas esmeraldas polidas.
Ele revirou os olhos e atentou-se a mudança do semáforo.
_Vou para a escola de capitães. –limitou-se ao núcleo da notícia. Os detalhes ele explicaria mais tarde, na presença de Relena. Repetir-se cansava.
_Aí sim! –e soltou um gritinho de alegria. Tentou bagunçar o cabelo dele, mas ele se desviou e ela desistiu, rindo. –Parabéns! Então hoje a gente comemora você também! –e essa noção agradou-a muito, tanto que ela parecia que ia sair pulando ali dentro mesmo. Queria ter confetes, queria poder abraçá-lo bem apertado.
_Bem lembrado: afinal de contas o que você quer comemorar? –ele aproveitou para tirar o foco de si mesmo.
_Fui selecionada para a equipe que vai representar o conservatório em uma competição! Vai ser na semana do feriado. Vamos para um acampamento fazer várias oficinas e temos de montar uma coreografia baseada no que aprendermos nas aulas para apresentar no final.
_Interessante. E vai ser na semana do dia 13? –a viu confirmar mal ele tinha terminado de falar. –Junto com meu curso. –concluiu.
_Sério? Que coincidência incrível!
_Já contou para a Esther?
_Ainda não. Papai e mamãe vão ficar tão felizes! Nós dois cheios de sucesso! Somos demais!
_Quem mais está no seu time?
_Bem, somos doze, seis rapazes e seis garotas… então a Valentina, a Fanny, a Lya, a Nadia e a Maira vão… –citou somente as meninas pois ele as conhecia por nome. –E a Tint vai também, como nossa supervisora.
_Isso não vai prestar. –ele anteviu, reprobatório.
Ela riu, sem se ofender:
_Eu sei! Vai ser tão divertido!
Heero estranhou a resposta dela e sacudiu a cabeça.
_Eu passo aqui daqui uma hora e meia. –e avisou ao estacionar.
_Combinado.
_Já sabe aonde vamos?
_Claro. É bem descontraído. Fui lá com as meninas um dia desses.
_E por que não quis comemorar com elas?
_Ah, nós vamos no sábado… queremos beber…
Ele estalou os lábios, contrariado. Ela deu de ombros e abriu a porta:
_Pena que o Duo não pode ir com a gente hoje… –e suspirou pesadamente. –Até daqui a pouco!
Ele foi buscar Relena primeiro. Ligou para ela enquanto saía do carro, de banho tomado e cabelo molhado. Tinha escolhido uma camiseta dessa vez, já que Akane dissera que o ambiente era informal. Vestira a verde, a sua favorita, e pensou nos pinheiros outra vez. Talvez gostasse da cor por causa das árvores que nunca se entregavam ao inverno. Inspiravam perseverança, uma característica que ele considerava fundamental.
Entrou no saguão e viu Pargan em seu lugar determinado. O homem sorriu silenciosamente.
_Já estou descendo. –Relena avisou no lugar do alô.
Deu a última olhadela no espelho, apertando os lábios um contra o outro, assentando o batom. Tinha perdido tempo demais escovando o cabelo com o secador, não conseguira caprichar na maquiagem. Mas Ane falou que ia ser uma coisa light, então era bom mesmo que ela não se arrumasse demais. Era mais uma daquelas noites frescas, então, por cima do vestido de alças roxo jogou um quimono franjado, de cor creme e estampado com flores lilás.
Pegou a bolsa e conferiu se todas as luzes estavam apagadas e saiu enfim. O elevador chegou logo, o que a agradou, porque não queria se atrasar. Não teria importância nenhuma se acontecesse, mas, por algum motivo, a ideia de demorar-se demais a preocupava.
Heero, entretanto, pacientemente aguardava-a, checando algo em seu celular. Sorriu ao vê-la chegar e estendeu a mão para apanhar a dela e irem juntos até o carro.
_Ane disse aonde vamos?
_Não… –soou meio aborrecido. Preferia estar no controle. Guardou o telefone no bolso da calça jeans e abriu a porta para ela.
Sentada no carro, ela permitiu-se respirar fundo e relaxar. Colocou a bolsa no colo depois de acertar a saia sobre as pernas. Ele não conseguiu deixar de notar o movimento e roubou um relance de suas coxas. Ela estava distraída, olhando a paisagem pelos vidros, e ele sorriu discretamente.
Akane já estava na calçada, a bolsinha no ombro, o celular na mão, os cabelos soltos todos jogados de um lado. Chamou a atenção de Heero a camiseta enorme que ela usava, cortada na barra para ficar mais curta, a gola canoa personalizada também, tão grande que um lado caía no ombro. Era cinza-mescla e no centro tinha estampado apenas em linhas pretas o brasão do caminhão auto-escada do seu quartel. Ela combinou a camiseta com minisshorts jeans e tênis Converse.
_Olha nós aqui outra vez. –ela brincou depois de se acomodar no banco de trás. Depositou o telefone na bolsinha e suspirou. –Tudo bem?
_Sim. –Relena respondeu, virando-se para trás. –Que blusa legal! –e reparou também no símbolo que aprendeu a reconhecer como a cruz de São Floriano decorado no centro por uma grande oliveira envolta em chamas e o número 5, na base da árvore.
_É do caminhão. –Heero murmurou, deixando Relena confusa:
_Hã?
_O Duo que me deu… –Akane mencionou, contente, esticando o tecido e olhando o desenho por sua vez. –Achei o brasão lindo desde a primeira vez que vi.
Relena olhou para Heero, buscando compreender.
_Os caminhões tem um brasão decorativo para distinguir. São uma fonte de motivação ou marcam algum evento importante em que o caminhão ou o esquadrão participou. O nosso caminhão tem a oliveira em chamas e o caminhão tanque tem um cálice de prata transbordante.
_Que fascinante. –Relena se endireitou no banco, sorridente. –Eu também quero uma camiseta dessas. –e cobrou, interessada.
_Pode deixar. –ele respondeu. –Eu preciso te levar para conhecer o quartel. Você gostaria de ir? –e após um instante de reflexão, ele ofereceu.
_Oras, eu gostaria muito! –ela sorriu, aprazida com o convite, sacudindo a cabeça afirmativamente para dar ênfase.
Ele imitou o gesto dela, discretamente, lhe lançando um sorriso tímido e breve, mas não por isso menos empolgado. A seguir, procurou Akane no retrovisor interno:
_Para onde vamos, Ane?
_Para o porto, na área da doca 6. –ela direcionou. –E ligue o rádio, por favor.
Relena riu e obedeceu.
_Heero tem rádio no carro de enfeite. Só eu uso. –Ane frisou.
Ele nem se dignou a rebater e Relena riu de novo.
As garotas conversaram no caminho, especialmente sobre o curso e a competição. Akane tinha pesquisado na internet a respeito do evento, mas ainda tinha muitas perguntas para Relena sobre o que esperar. Relena, veterana em suas participações, tinha todas as instruções para dar. Heero não se preocupou em se envolver no assunto, bastando-lhe ouvir e aprender.
Estacionou frente a um armazém, junto a outros carros. A área do cais 6 incluía também a marina e por isso era bem frequentada. No fim de semana, alguns armazéns funcionavam como restaurantes de frutos do mar ou danceterias e vários iates se aproximavam com suas festas particulares. Akane os levou para um espaço asfaltado bem próximo dali, cercado de um alambrado. Ao passarem o portão aberto, logo ao lado, havia uma espécie de guichê, e enquanto Akane se dirigiu a cabine, Heero e Relena analisaram os diversos furgões e Kombis estacionados formando um círculo grande dentro do pátio. Eram todos food trucks. Várias pessoas se agrupavam nas mesinhas próximas aos toldos dos carros, lanchando e aproveitando a boa comida.
_Fantástico! Eu não sabia desse lugar! –Relena se animou, curiosa em ver os veículos e suas opções de mais perto.
Heero limitou-se a um silêncio admirado.
Akane não demorou muito em retornar e entregou a cada um duas fichas que valiam vinte.
_Prontinho. Quem está com fome? –e riu, levantando a mão.
Como o espaço não era amplo a ponto de se perderem, Akane se separou deles, indicando um furgão que preparava hambúrgueres artesanais incrementados, deixando os dois explorar o estacionamento. De mãos dadas, eles foram passeando ao longo dos carros e entre o burburinho agradável de conversa.
_Que demais… –Relena comentou, olhando tudo, com dificuldades de optar. Heero sorriu para ela e também observou os anúncios das especialidades de cada cozinha móvel.
E então decidiu contar para ela sobre sua provável promoção ali, já que Akane o tinha chantageado a revelar antes.
_Essa manhã o capitão me chamou na sala dele. –achou difícil contar de uma vez para ela, como fizera para todos os outros. Perguntava-se por que.
_Verdade? –ela demonstrou seu interesse, lhe direcionando uma olhadela alegre.
_Ele queria falar de uma escola de formação de capitães que vai acontecer em Samarine. O quartel me indicou para cursar. –curtindo um acanhamento inconveniente, ele explicou, mais baixo e mais rouco.
_Que ótimo! –se mostrou contente, certa de que aquilo era algo desejável para ele, que gostava tanto do que fazia e era tão bom profissional.
A empolgação dela foi pura e brilhante, o olhar que ela lhe rendeu foi mais longo dessa vez, mas não era a reação esperada de alguém que compreendia o que aquele privilégio significava na carreira dele. Heero não esperara, entretanto, que ela deduzisse:
_É a primeira etapa para chegar à promoção a capitão. –tomando fôlego, ampliou, dessa vez até sentiu o rosto arder. Ficava embaraçado com a ideia da recompensa, não conseguia considerar-se inteiramente digno dela. O reconhecimento era uma grande dádiva que ele usaria muito bem e aceitava com humildade e seriedade, mas sentia-se como se estivesse ostentando-o indevidamente ao compartilhá-lo ali com Relena. Talvez ficasse com essa impressão por valorizar a opinião dela grandemente.
Diante do que ouviu, Relena estacou, forçando-o a parar com ela. Entendeu a extensão do progresso que aquele curso significava.
_Isso é maravilhoso! –e um grande sorriso extasiado lhe enfeitou os lábios, seus olhos radiantes debaixo das várias lâmpadas que decoravam o lugar. Avançou e o abraçou, procurando seus lábios para um beijo de parabéns.
Ele não teve alternativa a não ser corresponder aos gestos carinhosos e calorosos. Sorriu também, suave e discretamente. Sentiu as mãos dela envolver seu rosto ao beijá-lo mais uma vez antes de fitá-lo nos olhos. Ele enxergou-se no reflexo, sem jeito e empertigado, e decidiu aliviar as expressões e deixar-se contagiar com a alegria dela.
_Estou tão feliz por você… –praticamente sussurrou. –Imagino que esteja orgulhoso.
Ele hesitou, encostando sua testa na dela por um segundo. Estava orgulhoso? Devia estar? Podia estar?
_Estou honrado. –mencionou, circunspeto.
_Você merece. –ela assegurou, como se soubesse a dúvida que mais o afligia. Ele sorriu e a beijou então, ousando ser mais intenso. Seus dedos correram pelos cabelos sedosos e ricamente perfumados e enroscaram-se neles com delicadeza.
Relena suspirou, enlevada, suas mãos pousando no peito de Heero, um arrepio delicioso correndo seu corpo conforme a mão dele acariciava seu cabelo. Não queria que ele parasse nunca mais.
Mas isso não era possível.
Com cuidado, ele se separou dela, deixou-a vislumbrar um raro sorriso, e apanhou sua mão outra vez. Andaram em silêncio, ocupados com sua própria felicidade. Agiram como se estivessem completamente sozinhos, degustando intimamente aquela felicidade despretensiosamente presenteada pelo outro. Depois, se lembraram acompanhados, trocaram um olhar de deliciosa constatação e sorriram um para outro um sorriso peculiar de gratidão e encanto. Ela enganchou-se nele e encostou-se a seu ombro. Ele a beijou no alto dos cabelos. Era a pura ventura de estar apaixonado.
E em algum momento decidiram o que iriam comer.
O trio sentou-se bem no meio da área de alimentação, amontoados em torno de uma mesinha redonda, e jantaram com deleite, com riso e com afinidade. Falaram agora do curso de Heero. Ele deu os detalhes mais práticos e observou:
_A escola acaba no sábado, no dia da festa em Odelia.
_Hum, foi isso que quis dizer com o complicado? –Relena murmurou, mastigando um pouco ainda e acudindo a boca com um guardanapo. Tinha optado por um sanduíche de porchetta bastante robusto e saboroso.
Ele acedeu e abocanhou uma porção do ceviche que escolhera.
_Você quer ir se arrumar em casa? –Relena ofereceu.
_Eu não quero me impor, dando a impressão que seus pais precisam me hospedar antes de nos conhecermos…
_Não seria imposição alguma, mas entendo o que quer dizer.
_Reserva um quarto em uma pousada… lá em Odelia tem várias, pode deixar que eu acho uma bem baratinha para você. Aí, você se troca lá, deixa suas coisas… se houver uma mudança de planos, ainda vai compensar.
Heero já tinha considerado essa hipótese e concordou com a irmã.
Conversaram sobre a festa. Relena contou que doaria um par de sapatilhas autografadas para leiloar. Akane pesquisou algumas imagens da reserva e falaram sobre o trabalho da equipe de biólogos e veterinários que cuidavam do parque, que continha pântanos, lagos e florestas. Heero lembrou-se de que Trowa havia trabalhado lá, e reproduzira alguma opinião que ouvira do amigo.
O tempo correu rápido. Os food trucks começaram a entregar seus últimos pedidos, recolher suas placas, fechar suas portinholas. Heero conferiu as horas: passava das dez e meia. Eles nem conseguiram pedir sobremesa.
_Temos que voltar outra noite! –Ane determinou, já no carro, prendendo o cinto.
_Eles estão aqui todo o dia? –Relena conferiu.
_Não, só de terça e quarta. Nos outros dias, cada truck tem seu itinerário.
_Gostei bastante. –Heero declarou. –Tem de tudo um pouco.
Akane foi deixada primeiro. A seguir, estacionando diante do St. Gabriel, Heero e Relena demoraram-se um pouco, trocando algumas palavras sobre assuntos rotineiros e dando-se ao luxo de simplesmente desfrutar da presença um do outro.
_Não estou acostumada a saídas improvisadas… é muito bom… –Relena murmurou, tranquila. Fugir da rotina era uma grande coisa para ela.
Heero não tinha nada a dizer. Somente sorriu. Akane era cheia de inventar moda, o que se provava uma benção e uma maldição para qualquer um que convivesse com ela. No momento, entretanto, era só benção.
De repente, o rádio se fez presente no final do assunto. Já fazia algum tempo que Relena tinha abaixado o volume, mas eles caíram em uma mudez cúmplice que deu lugar à música. Naquele som baixo, a voz do locutor parecia distante e deslocada. Heero decidiu desligar o aparelho de vez.
O silêncio foi chocante e solene, Relena olhou Heero com surpresa e suspirou. Ele sentiu o suspiro como se fosse em sua pele e a ficou vigiando, pensativo e admirado sobre como ela conseguia afetá-lo tanto. Nunca tinha conhecido alguém como ela.
_Eu liguei para casa hoje, para contar da escola. Meu pai e Esther estavam curiosos sobre você. –ele resolveu contar.
_E o que disse a eles? –virou-se de lado no banco, se voltando para ele.
_Que estamos namorando. Mas o que querem mesmo é conhecer você. Pelo jeito, já se apaixonaram por você.
Ela riu, melodiosa.
_Isso é ótimo. –e deitou a cabeça no banco.
Ele acariciou o rosto dela e a fez sorrir.
_Eu também falei para meus pais de você. –e ela segredou, sem se mover, deixando-o acariciar mais uma vez.
_E o que conversaram? –ele arrumou um fio de cabelo trás da orelha dela e recolheu a mão, intrigado.
_Disse que iria apresentar vocês na gala. Pediram que eu mandasse fotos. Mamãe também elogiou seu uniforme de príncipe. –e piscou um dos olhos.
Ele meneou a cabeça, bem-humorado.
_Enfim, eles também estão curiosos… –ela observou depois, absorta.
_Natural. –Heero não duvidava. Com certeza, o senhor e a senhora Darlian queriam entender o que levou a filha a se envolver com um homem tão diferente dela, tão distante de sua realidade. Não pensava em preconceito, mas em lógica. Provavelmente se veria com o mesmo questionamento se fosse o ministro, ainda mais quando olhava para Relena. A estirpe dela exigia equiparação.
Então se lembrou de Zechs. Se o senhor Darlian era sensato, cabia ao filho ser astuto. Heero sabia disso porque era o que acontecia em sua própria casa.
_No que você está pensando? –Relena o estivera assistindo naquele intervalo.
Notou as expressões sérias e tensas manifestando as meditações do rapaz. O mundo interior de Heero era bastante intricado, ela supunha. Ele era muito inteligente e, ao contrário do que aparentava, bastante sensitivo. E sorriu sozinha pensando que o único defeito dele era amá-la demais. E esse defeito era o que mais a atraía. Não encontrava espaço em seu coração para se afligir com a opinião que seus fariam dele. Não seria nem capaz de ouvi-los desaprová-lo. Seus instintos diziam que nada no mundo poderia ser capaz de separá-los.
_Já tem alguma coordenada para amanhã? –e Heero resolveu consultar.
Ela achou as palavras que escolheu inusitadas. Combinavam com ele.
_Vamos nos encontrar mais ou menos no mesmo horário que hoje. Amanhã confirmo com Zechs e te mando uma mensagem no almoço.
_Está bem.
Percebiam então que estavam exaustos. Mas não para um último beijo.
_Não se preocupe. Eu te amo.
Primeiro post do ano!
Que tudo corra bem para que eu mantenha o ritmo também em 2017.
As coisas continuam acontecendo em um ritmo suave aqui em Pássaro de Fogo.
Já aprenderam que não podem ler essa fic com fome? Pois eu não.
A família Yuy parece estar tendo um bom ano. Vamos torcer para que continue assim.
No próximo capítulo, o jantar com Zechs!
Espero que estejam gostando! Deixem comentários!
Até logo!
Beijos e abraços!
14.01.2017 (revisado)
