No último capítulo…
Heero telefona para casa e conta a seu pai e sua madrasta sobre o escola de formação de capitão e seu namoro com Relena. O capitão Yuy e Esther ficam exultantes com as novidades. Akane leva Relena e Heero para jantar em um estacionamento de food trucks para contar a sua seleção para representar o conservatório em uma competição importante. Heero e Relena conversam sobre o momento quando conhecerão as famílias um do outro. Ela se sente confiante, mas Heero leva a seriedade do momento de forma mais ponderada.
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14
"Não se preocupe. Eu te amo."
Heero dormiu embalado naquela frase doce e musical. Acordou tranquilo, seguiu a rotina. A garantia dela o envolveu o dia inteiro, revigorou seu coração como um vinho excelente. E era tão cheia de verdade. Porque ela o amava nunca mais precisaria se preocupar. Sorria sozinho, no íntimo, onde só ele sabia, guardando toda aquela felicidade só para si. Mas a alegria vazava pelos olhos e traía que tudo tinha mudado para melhor em sua vida.
_Escada 5, Pipa 4, incêndio doméstico. Alameda Albatroz, 789. –o sistema sonoro informou depois do alarme.
Heero estava no almoxarifado, escolhendo camisetas para levar para Relena, quando ouviu o aviso. Sem pressa, mas com agilidade, deixou tudo como estava e saiu em direção à garagem. Pisou nos sapatos, retirando-os, entrou nas botas, puxou as calças e ajeitou os suspensórios com um movimento dinâmico. Enfiou o capuz, vestiu a jaqueta e abriu a porta do caminhão, que já arrancava.
Ajeitou o capuz bala clava de Nomex, calçou as luvas e colocou o capacete no banco de passageiro. A sirene ligada avisava a prioridade de passagem pelas ruas movimentadas da cidade. Faltava dez para o meio-dia, e em todo lugar havia carros, vans escolares e pessoas se deslocando pelas calçadas, conduzindo suas vidas agitadas.
De vez em quando Farid buzinava, reforçando sua pressa. O caminhão pipa vinha atrás. Era uma visão imponente para quem era ultrapassado pelos dois enormes caminhões vermelhos, suas latarias sempre limpas e brilhantes, avançando com dignidade para mais uma ocorrência.
A Alameda Albatroz era na parte norte da cidade, em um bairro residencial de classe média. Uma longa e larga rua ladeada por dezenas de bangalôs idênticos, de dois andares. Heero encontrou o local do incêndio pela aglomeração de pessoas a alguns metros da esquina onde viraram. Os caminhões estacionaram fechando a via. Os rapazes do pipa desceram e começaram a sinalizar a interdição para que nenhum acidente indesejado ocorresse. Heero desceu da boleia, analisando a fumaça que saía do segundo andar. Era de um branco acinzentado, mas subia numa velocidade lenta, o que indicava que a queima estava em seu primeiro estágio. Isso não queria dizer, entretanto, que eles tinham tempo de sobra.
_O que aconteceu? –Heero procurou nas pessoas em volta alguém a quem se dirigir.
_Eu vi a fumaça da janela do quarto… –uma mulher de meia idade, trajando seu avental, se apresentou como a responsável pela chamada.
Heero fez um gesto positivo de cabeça.
_Tem alguém lá dentro?
_Minha mãe… por favor, não deixe minha mãe morrer… –falou um moça que chorava, a voz entrecortada por soluços.
_Como é seu nome? –Farid indagou.
_Lina. –e fungou, apertando as mãos. –Por favor, tomem cuidado! Ela é cadeirante… –a moça implorou, as lágrimas escorrendo com mais intensidade em seu rosto vermelho e retorcido pelo pânico.
_Onde sua mãe está, Lina? –Heero pediu com firmeza e bondade.
_No andar de cima. Eu deixei ela no quarto, vendo TV, e fui na vizinha da frente… eu só ia ficar um minutinho fora… –saíra com intenção de emprestar uma xícara de farinha e acabara se envolvendo demais na conversa da velha May.
_Murat, Johnny, ventilem o fundo. Bernett e Hector no telhado. Alex, vamos entrar. –Heero comandou, mostrando com os braços as direções de cada um. –Adin, você vai ajudar os rapazes no telhado, operando a Magirus.
_O que pode ter causado o incêndio? –Farid voltou a falar com Lina, tentando acalmá-la.
Heero pediu pelo rádio por uma unidade paramédica e esperou os rapazes ventilarem a construção de madeira para entrar.
_Eu não sei… talvez… foi meu celular? Eu deixei ele carregando num móvel perto da escada… –Lina se esforçou em pensar, murmurando chorosa.
_Nesse caso, onde fica o disjuntor? –Alex quis saber.
_Na sala. Olhe atrás de algum quadro. –a mulher de avental se antecipou a responder.
Junto da ambulância, chegou também um furgão de reportagem.
Heero meneou a cabeça e suspirou. Não entendia o interesse da imprensa. Algum dos curiosos devia ter dado alguma isca nas redes sociais.
_Farid, fique de olho nos bisbilhoteiros.
_Hey, Heero… –Wu Fei se aproximou, a expressão circunspecta não permitia que nenhuma emoção se evidenciasse.
_Chang. –Heero, que quase nunca se surpreendia, se admirou com a coincidente presença do amigo. Se por acaso eles tivessem alguma intenção de pôr conversa em dia, não era o momento. –Preparem a maca. Temos uma cadeirante presa no segundo andar. Veja se a moça ali precisa de alguma coisa para se acalmar.
_Entendido. –e voltou à ambulância para passar a situação para Sally.
_Ventilação pronta aqui atrás. –Murat avisou pelo rádio.
Heero abriu a porta seguido de Alex e observou. O primeiro andar estava começando a ficar completamente tomado pela fumaça e calor.
Alex foi procurar o disjuntor e Heero checou a passagem para o andar de cima. A escada pegava fogo até certo nível, bloqueando o seu uso.
_Telhado ok. A coisa está feia aqui em cima, chefe. Uma janela está em chamas. –a equipe de ventilação comunicou.
_Pipa? –Heero apertou um botão e chamou Mobley.
_Não conseguimos alcançar ainda. Adin está manobrando o caminhão para nivelar a Magirus.
_Quero PQS agora. –Heero replicou Mobley. Talvez fazer a incursão pela janela seria mais demorado que enfrentar as chamas por dentro.
Lá fora, a labareda que lambia a janela estava cada vez mais alta. As telhas esquentavam, em pouco tempo estariam em combustão.
A repórter acompanhava tudo, cobrindo a operação.
_Podemos chegar mais perto? –pediu a Farid, inocentemente.
_Claro que não, moça! Atrás da linha amarela como todo mundo!
O auto-escada desligou seu alarme de ré e terminou a manobra.
_Magirus pronta, tenente. –Adin informou.
_Mangueira pronta. É só dar o sinal. –o tenente Mobley avisou.
O calor no andar térreo demonstrava que o tempo estava acabando. Heero vestiu a máscara, a fumaça mais espessa. Alex desligou o disjuntor:
_Vou entrar com a Magirus, senhor.
_Vou ficar aqui embaixo. –deu seu aval ao colega. Apertou o rádio. –Onde estão meus PQS's?
A escada estava ardendo, o fogo chegando. E a vítima ainda não tinha sido resgatada.
Lina gritava em pânico. A repórter narrava, com aquele tom meio-funesto meio-casual que sempre usam ao seguir uma situação de perigo. A câmera dava closes na moça, criando drama.
_A fumaça está indo rápido, Yuy. –Farid avisou.
_Alex, já está na Magirus? –Heero conferiu.
_Positivo.
Dois rapazes do pipa chegaram com os extintores PQS. Tomaram a frente de Heero, combatendo as flamas que avançavam pelos últimos degraus.
_Temos pouco tempo. –um dos rapazes confirmou.
Heero começou a subir.
_Senhor, tem certeza? E o risco de desabar? –avisou o segundo.
Heero ignorou e continuou a vencer a escada fustigada. O pó do extintor começou a vazar outra vez atrás dele, matando o fogo em seu caminho.
_Alex?
_Não localizei a vítima no primeiro quarto.
Heero praguejou entre os dentes e terminou de subir, se encontrando com Alex no corredor. O quarto ao lado parecia completamente tomado pelo fogo, mas não havia escolha. Precisavam ao menos tentar.
_Corpo de bombeiros! –empurrando a porta com um chute e vendo a placa de madeira cair, Heero pisou dentro do cômodo em chamas.
O fogo se alastrava pelas as paredes e parte do chão, em direção à janela. No canto mais interno, ainda protegido, Heero localizou a senhora, caída de bruços, as mãos em punho mostrando que ela tinha se jogado para fora da cama e se arrastado o quanto pôde com o ar em seus pulmões.
_Temos inalação de fumaça. –Heero notificou pelo rádio. Farid passou o recado para a ambulância.
Os rapazes com o PQS gastaram todo o pó dentro do quarto, fazendo o possível em dominar as chamas para o resgate ser feito. Ainda assim, a batalha estava árdua. Ouviram um estalo ominoso.
_O telhado está em chamas, tenente! –Farid gritou pelo rádio.
Heero carregou a mulher para fora do quarto e em direção à janela no fundo do corredor, por onde Alex entrara. Gostaria de conferir melhor o estado de saúde dela, mas a prioridade era sair do local de risco.
Descendo e quebrando os degraus podres da escadaria, os dois rapazes do pipa saíram da casa. Alex ficou para trás para ajudar Heero a sair com a senhora pelo cesto da Magirus.
O telhado no quarto onde estavam anteriormente cedeu com um estrondo. Alex pulou dentro da cabine e recebeu a mulher.
_Venha, tenente. –e incentivou.
Heero olhou para trás, as chamas voltando a tomar a passagem para a escada com renovada força.
_Mobley, mande a água. –Heero pediu.
Alex tirou sua máscara e usou na mulher. Ele puxou-a mais para perto de si, procurando abrir um espaço maior para Heero entrar.
Com esforço, Heero saltou dentro do cesto. A escada do pipa estava próxima, sustentando a mangueira enquanto eles faziam a sua descida.
Wu Fei foi correndo com a maca para encontrar o cesto. Heero se despiu da jaqueta e Alex colocou a senhora nas costas dele para saírem.
Em poucos segundos, a mulher estava acomodada na maca e a casa, em chamas. Com a Magirus liberada, puderam usar outra mangueira com mais facilidade.
Lina chorava, agarrada a Farid que a continha de correr até a mãe e atrapalhar os paramédicos. Outros bombeiros andavam pela vizinhança, verificando se os moradores das casas próximas estavam bem e pedindo para eles evacuarem até o fogo ser extinto. Um segundo caminhão pipa chegou como reforço. Mais alguns minutos, e a situação entrara em controle, mas ia demorar mais uma ou duas horas até as chamas apagarem.
Heero acompanhou a mulher ser atendida por Wu Fei e Sally. Sinalizou a Farid o momento de liberar Lina para se aproximar. A mãe ficaria bem, os sinais vitais tinham sido checados. Ela tinha algumas escoriações nos braços e uma torção de tornozelo. Graças à traqueostomia perita realizada por Sally não demoraria ao oxigênio limpar os pulmões e a mulher voltaria a si.
_Obrigada, obrigada… –Lina segurou firmemente no ombro da camiseta pólo de Heero e murmurava em meio a lágrimas de gratidão. Ele abriu um pequeno sorriso para ela e assentiu com a cabeça.
_Estamos partindo. –Sally avisou enérgica, empurrando a maca.
_Abram caminho! –Wu Fei reiterou, gesticulando com a mão livre. Lina os seguiu para a ambulância que deixou o local instantaneamente.
Tinha dado tudo certo mais uma vez. Heero e Mobley prosseguiram coordenando o resto da ação e só deixaram o local quando não havia mais o que apagar.
_Foi um ótimo trabalho. Muito obrigado. –tocando Mobley no ombro amigavelmente, Heero declarou, monótono, porém não pró-forma.
Mobley sorriu, assentindo:
_Concordo, Yuy. Vamos fazer isso mais vezes. –e deu um soquinho no braço de Heero.
Os dois riram, Mobley mais, Heero menos.
A repórter se acercou, ansiosa por algumas palavras.
_Fizemos nosso trabalho. –Heero declarou assim que ela ia abrir a boca e deu as costas. Mobley riu e deu de ombros.
_Vocês ouviram… –e ele provocou, um riso de gato brincando em seus lábios.
_Por favor, senhor, nos dê algumas palavras para o boletim da noite.
_Procurem o capitão. –assertivo, Mobley acenou com a aba do capacete e deu as costas em direção a seu caminhão.
A repórter sacudiu a cabeça, frustrada, e recuou com seu cameraman para partir também.
Heero sentou no seu lugar ao lado de Farid, levando todos de volta ao quartel. Estudou seu capacete, absorto.
_Acho que não vai dar para elas salvarem muita coisa… –Alex comentou com os colegas. –O térreo quase não queimou, mas depois que o telhado desabou, não sei…
Bernett suspirou:
_Foi um resgate difícil. Ouso dizer que foi sorte conseguirmos fazer tudo a tempo.
_Eu acredito em sorte. –Murat sorriu.
_Que cruel. –Johnny, rebateu.
Adin somente deu de ombros. Já cansara daquelas discussões sem sentido com o Murat.
_É hoje que vai enfrentar o cunhado, chefe? –Hector propôs outro tema para conversarem. Não escolheu muito bem.
_Sim. Vamos jantar. –Heero colocou o capacete no colo e virou-se para trás para responder.
_Boa sorte. –Murat desejou, sem perder a piada e todos riram.
_Acho que agora vou concordar! –Johnny se juntou ao gracejo.
Heero meneou a cabeça. Não entendia porque eles tinham que fazer aquela sensação. Estava faltando entretenimento… Será que deveria propor ao capitão aumentarem o pacote de canais da TV?
_O chefe não está com cara de preocupado… –Adin comentou, divertido.
_Quem enfrenta o fogo cara a cara não tem medo de nada. –Farid atalhou, lançando olhadelas para Heero, e o viu assentir.
_Não sei… cinco anos nessa profissão e continuo com pavor de aranhas. –Alex confessou.
_Por que você foi falar? Quando for cochilar, vai acordar soterrado nelas… –Bernett repreendeu, lastimoso, já antevendo todas as travessuras que os colegas iriam arquitetar.
_Ah, se forem de borracha…
_Não conte com isso. –Hector replicou, sinistro. Tinha colegas no departamento de controle animal.
_Vocês não iriam tão longe… –Alex observou, temeroso, tentando dar um tom de riso a sua voz para esconder o quão horrorizado estava com a ideia. Ninguém adicionou nada. –Chefe? – pediu socorro e Heero deu de ombros, desalmado.
Gargalharam. Alex não, claro.
Farid manobrou o grande caminhão de volta a seu lugar na garagem.
_Foi um bom trabalho, equipe. –Heero constatou antes de todos descerem. Os homens aplaudiram e saíram do veículo, prontos para almoçarem.
Chegando a sua sala, Heero viu que deixara o celular em cima da mesa. O aparelho emitia um sinal luminoso de alerta e ele lembrou-se de que Relena o ia posicionar sobre o compromisso daquela noite.
Sentou-se na sua cadeira barulhenta e começou a ler.
"Boa-tarde, amor.
"Zechs vai nos encontrar no fliperama, no fim da Rua Independência.
"O horário de encontro é às sete horas.
"Estou saindo para almoçar com a Tint, o Danny e a Ane. Pelo jeito o Duo também vai aparecer.
"Não sabe o que a Tint aprontou! Ela adotou um gato."
Mandou uma foto de um filhotinho branco que devia ter no máximo três meses. Os olhinhos azuis olhavam maravilhados para a câmera.
"Estamos chamando ela de Allegra.
"Mais tarde te conto em detalhes."
"Estou com saudades." –ele observou que houve um intervalo de tempo entre essa mensagem e as demais. Ela enviou aquela constatação ao meio-dia e 28. Ele devia estar dentro da casa em chamas naquele minuto.
Sorriu, pensativo. Agora era quase três horas da tarde.
Ouviu outra vez a voz amável dela declarar "não se preocupe. Eu te amo".
Suspirou e procurou uma foto dela. Ficou imaginando-a então toda de branco, dançando com a exata sutileza que só ela parecia dominar, deslumbrando a todos com seu talento. Até o modo de ela respirar era poético.
Os olhos coloridos que ela dirigia a ele, cúmplices, encantados, almejantes, estavam vigiando-o todo o tempo. A mão que pesava o mesmo que uma pluma estava em seu peito, bem em cima do seu coração.
_Heero? –uma voz pescou-o para fora de seus devaneios. Duo abriu um sorriso sabido para ele e entrou. –Foi mal… eu sei que atrapalhei…
Heero desligou a tela do celular e o soltou na mesa, ocupando as mãos para não ocupar a mente. Estava perdendo o juízo. Por uma fração de segundos teve certeza de que ela estava ali.
_Não atrapalha.
_O capitão pediu para te entregar esse relatório. Tiveram uma manhã animada hoje?
Heero aceitou o papel, falando:
_Típica. Como foi o almoço com Ane?
Duo sentou e respondeu:
_Bem. Estão empolgadas com a gatinha. Quer dizer, Relena não está muito…
Heero tinha conseguido perceber alguma leve exasperação nas palavras dela, embora ela não tivesse declarado nada.
Duo se ergueu da cadeira, remexeu nos bolsos da calça cargo até que encontrou um guardanapo.
_Ah! Tenho mais isso para te entregar. –e passou a folha deslizando-a no tampo da mesa.
Estranhando, Heero arqueou uma sobrancelha.
Duo deu de ombros, erguendo um pouco as mãos em gesto de inocência.
Heero abriu o guardanapo, que estava dobrado em quatro de um modo desajeitado. Arrumando-o segundo suas dobras corretas, encontrou um beijo perfeitamente estampado com batom. Seguiu com o franzido nas sobrancelhas, mas sorriu, encabulado. Duo se divertiu em olhar para ele, sorrindo por sua vez.
Os dois trocaram um olhar maroto, mas não falaram nada.
Olhando o documento que precisava assinar, Heero tentou se recompor, embora quisesse mesmo sorrir de orelha a orelha.
Duo deixou-o ler, brincando com as canetas no copo prateado comemorativo da semana de prevenção de incêndio de 2014.
_Quando você for promovido, vai continuar aqui? –e começou a considerar.
_Acredito que sim. Não deve ter nenhum esquadrão precisando de capitão. E da minha turma, com certeza não serei o único promovido. –de repente já tratava a oportunidade como certa. Era lógico que, depois de apresentado a ela, iria se empenha em obtê-la o máximo que lhe era possível. E seu compromisso era com a excelência.
_O chefe pode estar pensando em formar novos esquadrões. –Duo divagou, escolhendo uma caneta do copo.
Heero teve de concordar com a proposição.
Duo ficou apertando o botãozinho da caneta em um ritmo lento de cliques espaçados até a voz de Heero, baixa e conspiratória, chamar sua atenção:
_Se você se puser a disposição, eu te recruto.
Erguendo os olhos para o amigo, Duo acedeu com a cabeça, animado e sorridente. Heero fingiu não ter percebido, terminando de analisar o texto e assinando.
_Boa-tarde, amigos. –então surgiu Quatre com o mais gentil dos sorrisos. Entrou e deu continuidade: –Consegui falar com Trowa sobre sábado à noite. Ele confirmou.
_Grande! Agora só falta o Wu Fei.
_Para quê? –Heero averiguou.
_Para combinarmos de sair no sábado à noite e comemorarmos sua indicação.
Heero fez uma expressão de esclarecimento aborrecida.
_Trowa disse que vai falar com ele. –Quatre completou. –E até gostou do horário.
_Qual horário? –Heero não estava apreciando nada tantos planos feitos sem sua consulta.
_Tem que ser a meia-noite, que é quando Quatre e eu terminamos o turno. –Duo explicou simplista.
Heero usou a mesma expressão anterior.
Com um sorrisinho sem graça, Quatre quis aplacar:
_Não gosto do horário também, mas se não for assim, não conseguimos nos ver nunca.
Bufando, Heero cedeu:
_Que seja.
_Não dê piti mesmo, porque sei muito bem que o senhor está de folga esse domingo. –Duo escarneceu depois, se fazendo de rabugento.
Dando de ombros, Heero aceitou a reprimenda. Ligou o computador para redigir seu relatório da operação daquela tarde. Duo e Quatre conversaram um pouco mais sobre os planos do fim-de-semana.
Duo apertou o botão da caneta retrátil algumas vezes durante a conversa com Quatre. Delongaram-se, discutindo sobre um treinamento que queriam fazer com suas equipes. Heero os relanceava, alternando sua atenção entre o modo camarada dos dois conversarem e as frases de seu documento. Mas não os estava condenando. Uma coisa tão boba, mas tão real, passou pela sua cabeça – eram sua família também.
Fora instruído que nada era mais importante do que as pessoas. Enfim realmente compreendia isso. Ele lidava com esse valor o tempo todo em seu trabalho. Corria para dentro da boleia do caminhão 5 porque tinha se comprometido com as pessoas. Contudo, dava-se conta que só agora se comprometia com as suas pessoas.
_Estamos atrapalhando o Heero… –Quatre se interrompeu e comentou com Duo, lançando um olhar bondoso, mas arrependido a Heero.
_Não atrapalham. –e estava ciente de que era a segunda vez que falava aquilo dentro da hora. Gostava disso.
Duo e Quatre sorriram-lhe desembaraçados e prosseguiram tratando suas decisões.
Heero apanhou o guardanapo com o beijo outra vez e admirou a impressão dos lábios de Relena, outro tipo de digital, ainda mais distintiva. Havia pessoas que mereciam, até demandavam, um grau de comprometimento ainda maior.
Apanhou o celular de cima da mesa, abriu a janela de conversa com ela e digitou, apagou, reformulou, apagou, digitou e enviou por fim:
"Estou ansioso em te ver." –Esperava, apesar da terminologia que escolhera, não parecer desesperado. Abriu um sorriso mínimo, só para si, ao desligar a tela. Sabia que tinha dado a resposta certa porque sentiu o coração aquecer.
Farid passou pelo corredor e se impressionou que justo ali estava havendo uma reunião de tenentes.
_Estamos na internet, chefe… – seu objetivo, entretanto era compartilhar a efêmera fama com a qual foram agraciados, indo logo embora com seu café.
Duo saiu prontamente da cadeira e deu a volta na mesinha. Até parecia que era sobre ele:
_Vamos logo, Heero, abra aí. –e colocou um cotovelo no tampo e se debruçou, apoiado no braço. Quatre se aproximou e espiou a tela por cima da cabeça de Duo.
Jogando o nome da emissora mais famosa da cidade no Google, Heero logo encontrou a reportagem que Farid mencionava. O artigo descrevia superficialmente o que houvera, convidando o interessado a ver mais detalhes no vídeo que seguia, no qual a repórter in loco deu seu relato. Frisou exaustivamente que a mulher a ser resgatada era cadeirante e o risco de outras casas, tão próximas, serem atingidas pelas chamas. Na montagem, adicionaram vários trechos dos rapazes executando suas funções. Heero recebeu destaque duas vezes, ao ordenar as ventilações e ao sair com a vítima de dentro do cesto da Magirus.
_Wu Fei estava lá… –Heero apontou quando as costas do amigo apareceram, passando correndo para ir acomodar a mulher na maca.
_E Sally também…? –Quatre reconheceu as tranças loiras da doutora.
Heero assentiu, sem desviar os olhos da filmagem.
_Que tenso, cara… –Duo murmurou sua impressão geral da ação.
A repórter concluía agradecendo ao empenho e presteza dos bombeiros e explicando que a mãe de Lina tinha sido encaminhada ao hospital com quadro de saúde estável.
_Foram rápidos em montar o boletim… –Quatre se surpreendeu com o final da transmissão. –Até que não ficou muito sensacionalista. –e se ele dizia, só podia ser verdade.
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_Suba para conhecer a Allegra. –Relena convidou, amável, quando recebeu o telefonema de Heero avisando que chegara.
Ele checou o relógio no pulso e deliberou.
_Estou indo. –6 e 35. Tinham dez minutos.
_Hey, Heero. –Lindt saiu do elevador e o cumprimentou com um sorriso despojado.
Ele acenou com a cabeça e adentrou a cabine. Sozinho, franziu as sobrancelhas, chocado com a familiaridade da moça.
Ao entrar no apartamento, depois de cumprimentar Relena com um beijo, enfiou as mãos nos bolsos e seguiu-a até o quarto de Tint.
_Você falou de mim para sua vizinha?
_Quem? Lindt? Sim, quando contei que tinha começado a namorar.
Ele pareceu esclarecido, mas aborrecido pela terceira vez no dia.
_Por quê? –ela pediu a seguir, intrigada.
_Ela me cumprimentou pelo nome… –era mais uma reclamação do que uma explicação. Ela achou engraçado, nunca o imaginou tão retraído.
_Lindt tem uma memória perigosa de tão boa… –Relena justificou. Heero seguiu sério, mas não voltou ao assunto. Não tinha por que.
Com uma batida leve na porta aberta de Tint, Relena os anunciou.
Tint estava sentada em posição de lótus do lado de um caixote de madeira, brincando com uma bolinha fofinha de pelos brancos em seu colo. A gatinha parecia de brinquedo de tão pequenininha. Mordia o dedo que Tint ficava mexendo diante de seus olhos e erguia uma minúscula patinha, curiosa. Voltando um segundo de sua atenção para Heero, Tint o cumprimentou radiando exultação:
_E aí, tenente?
Heero agachou na frente dela, e observou o animalzinho de perto. Allegra seguiu alheia a sua presença por algum tempo. Relena dobrou um pouco o corpo, mas não quis se abaixar.
_Ela não é uma coisinha linda? –Tint pegou Allegra com as duas mãos e a levou até seu rosto, apertando-a com gentileza. Relena riu e meneou a cabeça. –Granyushka… Malen'kaya moya…
_Pare com isso… –Relena acertou Tint com a ponta do pé antes que ela engatasse a terceira em sua língua materna.
Tint gargalhou:
_Mas é muito fofa! –e apertou Allegra outra vez.
A gatinha respondeu com um miadinho agudo, olhando com expressão vazia para Heero em sua frente. As meninas riram diante do barulhinho adorável.
_Quer segurar ela? –Tint estendeu-a para Heero e ele ergueu suas mãos. Allegra ficava ainda menor segurada por ele.
Sem se conter, Allegra miou de novo. Ele a trouxe mais perto dos olhos e examinou o rostinho delicado.
_Será que ela gostou de mim? –ele elaborou, circunspecto demais para a situação em que estava. Tint deu risada e Relena apenas assistia bem-humorada, as mãos apoiadas nos joelhos. –É tão pequena…
_Sim, era exatamente isto que eu estava dizendo… em russo… –e mostrou a língua para Relena. Heero devolveu Allegra para a dona, que a recebeu de volta com prazer. –E é tão quentinha… –e depois de apertá-la mais um pouquinho, a pousou na caminha improvisada no caixote. –Eu achei ela ontem à noite, lá em Chinatown, quando saí da aula. Ela estava tremendo de frio em um cantinho, perto de uma lata de lixo. –e enquanto contava, enternecida, voltou a mostrar o dedo para distrair Allegra. –Eu tinha que fazer alguma coisa… ela estava tão sozinha lá…
_E com muita fome… –Relena adicionou, lembrando-se da felicidade que Allegra exibiu depois da porção de ração úmida que deram para ela. Era comovente ver como uma criatura tão indefesa podia ser tão meiga.
_Tia Relena não curtiu muito sua nova inquilina… –Tint provocou, usando uma vozinha fininha feito fosse Allegra falando.
Relena revirou os olhos:
_Deixe disso, Tint. Não tenho nada contra a Allegra. –repreendeu, ponderada. –Só estou preocupada… Não quero que tenhamos um bichinho do qual não possamos cuidar.
Tint sacudiu a cabeça, desdenhando o senso de responsabilidade da amiga:
_Gatos são independentes e não se importam tanto em ficar sozinhos. Ela só vai dar um pouco de trabalho agora enquanto for filhote…
_Sim, mas depois todos nós vamos viajar. Quem vai cuidar dela? Ela é muito novinha e pode estranhar a sua ausência, Tint. –Relena não se ofendia com atitude de Tint e continuou arrazoando, incluindo Heero no assunto com um olhar atribulado.
Heero ouvia tudo em mudez analítica. Levantou-se do chão e ficou observando a pequenina se aconchegando na toalha que lhe servia de ninho. Tint colocou um ursinho de pelúcia junto de Allegra e ela se encostou ao brinquedo e começou a cochilar.
_Tenho certeza de que vão cuidar bem dela. –e garantiu, lançando para Tint e Relena uma mirada sábia. Allegra se sentia bem-vinda ali, notou. Não imaginou que poderia ser diferente.
_Vamos achar uma solução para a semana do feriado, Lena, não se preocupe. –Tint assegurou, tranquila. Gostou de sentir o apoio de Heero.
Relena sorriu, meditativa, e assentiu por fim.
_Agora vocês têm que ir! –Tint lembrou, se erguendo. –Quer lavar a mão, Heero?
Ele aceitou e seguiu-a até o banheiro. Enquanto isso, Relena pegou sua bolsa e mandou uma mensagem a Zechs dizendo que estavam saindo.
Eram 6 e 45. Ser bombeiro dera a Heero aquela precisão ao distribuir e usar o tempo.
_Recebeu meu recado? –Relena indagou, espevitada, ao se acomodar no carro.
Ele a relanceou rapidamente, confuso:
_Sim, claro… –não fazia sentido o que ela queria saber. Se ele não tivesse recebido, como estaria ali?
Ela riu, provocante:
_Não… o outro recado…
Ele tentou não corar. Muito.
_Ah, também. –e olhou para ela outra vez. Ela seguia com a risada enfeitando seus lábios, carinhosa, contagiante, assistindo-o de perto. Ali ele derivou ganhou forças para ousar. Segurou o momento, criando um intervalo de silêncio. Quando sentiu que ela estava intrigada, murmurou: –Confesso que fiquei desapontado. Preferia que tivesse me entregado pessoalmente… –brincava com ela usando uma pitada de presunção.
Ela riu mais alto e deu um tapinha em seu ombro.
_E eu que me achei tão criativa… –se injuriou, fazendo cena, falando alto, gesticulando. –Tão romântica…
_E foi. –ele a relanceou de novo, menos brincalhão então. –Gostei muito.
_Gostou?
_Muito. –e assegurou, bem-humorado, mas composto.
Ela riu, divertida. Tentou não corar. Muito.
A seguir, brincou com uma mecha de cabelo e desviou a vista para a janela. Estivera se perguntando por que ele se embaraçava tanto às vezes, mesmo com ela. Acabara de ver por que. A sobrecarga era desleal. Mordeu o lábio inferior. Se não tivesse alguém os esperando, ia propor que fugissem. Estava com saudades, estava ali com ele e ainda estava com saudades. Sorria para o vidro, não queria que ele visse como estava enlouquecidamente apaixonada.
Ele roubou um último relance dela, seu rosto virado fora de seu campo de visão, o cristal brilhante no seu brinco, –diamante?– o cabelo dourado caindo aqui e ali, a franja fazendo uma sombra. Se não fosse por sua honra, a sequestrava, queria tanto estar sozinho com ela, era só e o bastante. Sinalizou e parou o carro um instante em um lugar seguro.
_O que foi? Não se lembra de onde fica o fliperama? –abrupta, ela se voltou para ele, e afastada de suas elucubrações, esqueceu-se delas.
Ele não podia continuar. Ele não podia esperar mais. Segurou o rosto de Relena com as duas mãos e o trouxe com gentil exigência perto do seu, tomando os lábios dela primeiro com um aviso súbito, uma sútil pressão. A surpresa a fez hesitante por menos de um segundo. Deixou seus lábios se separem, aceitando o beijo.
Se os flagrasse ali, tão entregues àquela força estranha que nem eles conseguiram resistir, as mãos se enterrando nos cabelos, as bocas se procurando como que lutando pelo ar, o coração disparado como se vivendo o instante roubado mais proibido, a pele queimando só pelo desejo do toque do outro, o que Zechs iria pensar?
Bom dia!
Postagem nova!
Eu simplesmente NÃO consigo parar de escrever esta história. Tenho ideias novas o tempo todo, é uma tortura! Estou sendo assombrada, atormentada por essa fic!
O jantar com Zechs era para acontecer nesse capítulo, eu sei que prometi isso, mas parei para refletir que já estava na hora de a gente ver Heero trabalhar um pouquinho. Que graça tem escrever uma fic sobre bombeiros se eles nunca aparecem em ação.
Eu fiz bastante pesquisa, ajuntei referências em outras fics e no seriado Chicago Fire, mas estou ciente que posso ter cometido erros na hora de conduzir a operação dos bombeiros, fora que eu tomei licenças artísticas ao montar minha estrutura do quartel, das equipes, das escalas e outras coisas. Acho que aí vale lembrar que esta fic começou como uma oneshot na qual eu não pretendia investir muito.
Espero que tenham gostado dessa amostrinha do trabalho de bombeiro e futuramente, trarei mais. Não tem como falar do dia deles sem citar uma ocorrência ou outra.
Pássaro de Fogo se situa em uma cidade fictícia de minha invenção para qual uso vagamente São Francisco de base. O mapa em que a cidade está também é minha invenção.
Espero que gostem em geral do capítulo e tirem um tempinho para escreverem para mim suas opiniões e recadinhos!
Agradeço de coração a quem está acompanhando! Obrigada pela atenção e o carinho! Um agradecimento especial para a Lica pela consultoria de gatinho. S2
Beijos e abraços!
20.01.2017
