No último capítulo…

A Escada 5 atende um chamado de incêndio doméstico e fazem um resgate arriscado de uma mulher cadeirante no segundo andar. Uma equipe de reportagem acompanha tudo. Duo está organizando um encontro dos cinco amigos para o fim de semana. Heero recebe as informações sobre o jantar mais tarde e um beijo no guardanapo de Relena. Tint adota uma gatinha, Allegra, que também parece ter caído de amores por Heero. Antes de encontrar o cunhado para o jantar, Heero decide matar a saudade que sentiu de Relena durante todo o dia, parando o carro e beijando-a apaixonadamente. Se Zechs pudesse flagrá-los, o que ele iria pensar?

15

Não havia dúvidas de que os dois se amavam.

Tampouco havia dúvidas do que causara os cinco minutos de atraso.

E o que Zechs iria fazer?

Se não soubesse como o amor bagunça a cabeça quando se está apaixonado, até poderia acusar Heero de irresponsabilidade, inconfiabilidade, taxá-lo inadequado, decidi-lo indigno. E, se não estava em Heero todas as evidências de sua inocente e irreversível rendição ao amor, estava em Relena, em toda ela, no cabelo de repente despenteado demais para ter sido só o encosto do carro, os lábios vermelhos demais para ser só batom, os olhos brilhantes demais para ser só do reflexo da marquise.

Zechs riu. Enterrou as mãos nos bolsos:

_Muito trânsito? –indagou, político, quebrando o gelo, usando algo diferente de um olá.

Era Heero quem naturalmente devia replicar, mas Relena, radiante, comentou:

_Um pouco. –Ela se precipitou levada mais pela afinidade natural, já se aproximando para abraçar e beijar o irmão. Depois correu as mãos pelos cabelos, talvez tivesse notado no reflexo da porta como chegaram desarrumados. Zechs sustentou seu sorriso galante.

Heero acompanhou a cena a uma distância adequada antes de ir até o cunhado e dessa vez tomou a dianteira em oferecer a mão:

_Boa-noite, Zechs. –sua voz profunda era sempre temperada por sobriedade e frieza.

Zechs observou a postura do rapaz em sua frente: não era a de um submisso. Ele estendia a mão não como alguém que esperava ganhar favor. Não havia a mínima oscilação no gesto. Podia ser inconsciente da parte dele, afinal, ele era um líder, mas sua atitude exigia que fosse respeitado.

Correspondendo ao cumprimento, Zechs tratou de transmitir firmeza também. Puxou-o para mais perto e deu um tapinha jovial atrás do ombro de Heero. Admitiu para si mesmo que estava irritado com quão bom Heero era. Droga de timing. Da primeira vez que se viram, o rapaz estava naquele uniforme de gala, que arrancou um comentário de louvor até da sua mãe. E hoje o reencontrava depois de vê-lo salvando uma vida na notícia da internet. Riu de novo, genuinamente divertido.

Não havia mais dúvidas de que tinha perdido sua irmã.

Os rapazes separaram-se e acompanharam Relena até a porta. Com uma velocidade tão suave que surpreendeu a ambos os homens, Relena enganchou em Zechs e o adiantou:

_Eu quero que você se comporte.

_Com o que você está preocupada? Acha que vou mostrar para ele suas fotos de bebê? –e considerou, zombeteiro, ainda carregando seu sorriso malandro e airoso, cheio de autoconfiança.

_Zechs, é sério. –ela arqueou uma sobrancelha, fechando a cara. Seu rosto de anjo brilhava, maquiado impecavelmente, o que de repente a fez mais assustadora. Era como ser intimado pela rainha das Willis. –Isto é… importante para mim. –ela reforçou, a voz mais baixa e frágil.

Zechs assentiu, parando eles dois, percebendo que Heero vinha atrás a um passo lento e investigativo, como um grande lobo.

_Eu sei. –e a segurou pelos ombros, acariciando-os um pouco.

Ela suspirou fundo e voltou a sorrir:

_Eu vou dar um pulinho no banheiro.

_Vamos te esperar aqui. –Zechs replicou. Relena olhou Heero perguntando implicitamente se ele concordava em ficar sozinho com Zechs um instante.

Colocando as mãos nos bolsos, Heero assentiu, sério.

Então houve um silêncio desconfortável, até mesmo para Heero. Ele prosseguiu, estatuário, em uma posição de sentido, tentando decidir como lidar com a situação. Não podia simplesmente ficar calado até Relena voltar e deixar nela o peso da mediação. Observou Zechs de relance e o percebeu mergulhado em crítico escrutínio. Não fez nada a respeito. Manteve a pose.

Zechs aclarou a garganta, abriu um sorriso astuto:

_Sem ofensas, mas a Lena disse que isso é importante para ela. É importante para você? –Não havia nenhuma animosidade, só franqueza.

Mudando o passo, Heero se voltou para ele e o encarou:

_Absolutamente. –e confirmou sem qualquer hesitação.

Zechs estreitou os olhos, perdendo o sorriso de uma vez. Assustaria a qualquer um com aquela carranca. Heero, entretanto, estava longe de ser qualquer um. Zechs já tinha notado isso, mas precisava testá-lo.

Heero deu tempo a Zechs de se manifestar, enfrentando-o com as feições sem desconcerto, deveras sem qualquer emoção.

_É bom que saiba que, antes de tudo, ela é importante para mim. Então, trate-a bem, está certo? –e após escolher o que dizer por um longo instante, enfrentando o olhar glacial do bombeiro, Zechs terminou por confessar e pedir. Não podia se intrometer mais do que isso.

_Certo. –usou somente uma única palavra, mas a pronunciou com tanta segurança que bastou para Zechs, que assentiu, meditativo. –Você está certo em se preocupar. –e para a surpresa do cunhado, Heero adicionou, um pouco mais brando. –Não esperava menos que isso.

Zechs voltou a assentir, esforçando-se para não aparecer perplexo demais.

_Ok… –e murmurou, relaxando a expressão, embora não tenha parado de analisar o rapaz diante de si. –Você está indo bem até agora. Mas vou continuar de olho. –o timbre ficou um tom mais leve, permitindo-se um gracejo.

Heero mesurou marcial com a cabeça, aceitando a provocação, certa presunção escapando por seu fito.

Os dois homens trocaram um olhar de entendimento e relaxaram a seguir.

Heero aproveitou para inspecionar o ambiente. O fliperama estava ali há muitos anos, mas ele nunca tinha entrado. Além das várias máquinas de jogos, lá dentro estava localizada uma lanchonete no estilo diner dos anos 50, que não só reabastecia os jogadores mais dedicados, mas também transformara o fliperama em um ponto de encontro bastante popular.

_Voltei… –Relena parou junto de Heero e se enganchou nele. –Tudo bem por aqui? –examinou os dois semblantes, certificando-se de que Zechs estava cumprindo sua promessa. Como pareciam ambos bastante à vontade, os imitou.

Sem deixar que ela se enganchasse, Heero passou o braço pelas costas dela e abraçou os seus ombros. Ela sorriu para ele, extasiada.

_Sim, vamos escolher nossa mesa? –Zechs os observou, divertido, e propôs.

Colocaram-se em movimento. Um garçom os conduziu a uma cabine mais ao fundo. O lugar poderia ser considerado cheio para a quarta-feira à noite, embora fossem poucos os que se reuniam ali para a refeição. Havia uma família, um grupo grande de amigos e um casal de namorados.

Acomodaram-se e receberam o cardápio. O atendente decidiu voltar depois e enquanto estudavam os pratos, Zechs indagou Heero, sem na verdade desviar a vista do menu:

_E então, gosta de videogames? –e começou do zero, amistoso, passando para o objetivo do encontro que era conhecerem-se melhor.

Devolvendo a atenção ao cunhado, Heero sacudiu a cabeça de modo incerto:

_Nunca fui de jogar muito, mas tenho meus preferidos…

Zechs voltou a sorrir, bem-disposto. Prosseguiu:

_Eu joguei muito Counter-Strike, até demais, admito… até que descobri o Call Of Duty

_Gosto de CoD.

Relena passou o olhar de um para o outro e depois meneou a cabeça, risonha.

_É… é impossível não gostar… na universidade, era um sucesso. Ficava difícil até de se lembrar de estudar… –Zechs riu, curtindo as boas lembranças. Não que fizesse tanto tempo assim.

_Faz muito tempo que não jogo. O capitão não gosta que tenhamos videogame no quartel e quando chego em casa, nem sempre estou a fim…

_Sei como é. –Zechs murmurou, simpático. –Mas é um bom passatempo nas competições, especialmente quando já se foi eliminado. –e comentou. Acontecera com ele em sua primeira Olimpíada.

_Você é marinheiro, certo? –Heero indagou, dando sequência na conversa.

_Sim. Classes Laser e 470.

_Em quantas Olimpíadas participou?

_Três.

Heero sacudiu a cabeça, impressionado e apreciativo:

_Isso é ótimo. –e o modo sério com que falava por algum motivo deixava o elogio mais consistente.

Relena sorriu, relanceando os dois outra vez.

_Pois é, já sou quase um veterano. –Zechs replicou, prazenteiro. É claro que tinha orgulho do que fazia.

_Eu já escolhi. –e pousando seu cardápio na mesa, Relena comunicou. –Vou comer esse hambúrguer com guacamole. –soou empolgada. Zechs franziu uma sobrancelha.

_Você está podendo? São 250 gramas de carne. –e soou escandalizado. –Ai! Não está mais aqui quem falou. –riu depois de sentir ela o chutando debaixo da mesa.

_E você, Heero? –ela ignorou Zechs completamente, marota, e se ocupou do namorado.

_O de picanha, duplo, com cheddar e bacon. –e apontou a foto para ela.

_O maior. –ela comentou, divertida, olhando assustada para o tamanho do lanche.

_É. –ele devolveu, feito fosse óbvio desde o começo que era aquele que pediria.

_Gostei desse com cebola caramelizada e gorgonzola. Eles têm algumas coisas bem diferentes aqui, não? –Zechs comentou por sua vez e sinalizou para o garçom.

_Tudo parece delicioso… –Relena sorriu, virando as páginas do cardápio uma última vez antes de entregá-lo.

Cada um explicou seu pedido e quando o rapaz se afastou em direção da cozinha, Relena disse mais:

_Ontem fomos num encontro de food trucks. Também achei muito legal.

_Sério?

_Gostei muito. É moda agora, né? –ela murmurou, olhando o redor, notando que o garoto na mesa da frente estava virado para eles e lançava um olhar interessado. Devia ter uns dez anos. –Você já foi a algum? –e ela indagou o irmão.

_Sim, em Amsterdã, em Londres… os melhores estão em Londres, na minha opinião, mas… a Europa é um dos melhores lugares do mundo para comer, então posso estar equivocado.

Relena riu, concordando:

_Até hoje eu nunca me esqueci dos sanduíches de panini que comemos na rua, em Paris.

Zechs gargalhou.

_Eu sonho com eles às vezes… –ela chacoteou, fingindo-se envergonhada.

_Você fala assim porque está com fome. –Zechs replicou, contagiado pela jovialidade dela. Relena deu ombros, marota.

Heero viu que eles davam-se muito bem. Gostou disso. Deixou que seus olhos sorrissem enquanto os assistia. Distraiu-se apreciando o arredor mais uma vez. O garoto na mesa da frente parecia intrigado estudando-o e mastigando uma batata frita. Percebeu-se notado, desceu do banco e sentou-se direito junto de sua família.

O garçom trouxe as bebidas.

_Agora me conta, Heero, como foi que vocês se conheceram? –depois de um gole de cerveja, Zechs indagou, informal.

_Mas Zechs, eu já te expliquei. –Relena murmurou, as sobrancelhas franzidas.

_Quero ouvir a versão dele, comparar as histórias. –Zechs provocou, lampeiro.

Relena abriu um sorriso de descrença:

_Isso é mesmo necessário?

_Por mim tudo bem. –Heero aplacou, julgando a situação até engraçada. Relena suspirou e tomou um gole de seu milk-shake de chocolate.

Heero não se via encurralado em nenhuma posição desvantajosa. De fato, já tinha pegado prática em contar aquela história, embora só o fizesse quando absolutamente necessário. Teve de contá-la ao capitão e a sua equipe mais vezes do que gostaria.

_Minha irmã entrou no conservatório esse ano. Já deve tê-la conhecido. –começou tranquilamente.

_Akane. Sim. –Zechs o acompanhava.

_Como eu busco Ane todo dia no final da aula, acabei vendo Relena lá. Depois, nos encontramos em uma festa. E a partir dessa noite, começamos a sair.

Nenhum detalhe romântico. Só um prático relatório. As intimidades tinham esse nome por um motivo, Heero asseverou.

Zechs assentiu, processando a informação. Relena olhava o irmão com desgosto bem-humorado.

_E o que chamou sua atenção nela? –e com um ar cordato, Zechs inquiriu.

_Zechs, para com isso… está parecendo uma entrevista de emprego. –Relena expressou sua revolta.

_Talvez seja… –meio sussurrado, Zechs brincou com os dois. Ela gargalhou, perplexa.

_Zechs! –Relena corou, protestando de novo, achando o irmão impossível.

Heero meneou a cabeça, finalmente decidindo que a situação era ridícula. Umedeceu os lábios e fitou Relena.

Ela ainda estava corada da irritação, mas conseguiu corar ainda mais quando ficou debaixo daquela mirada tão intensa e charmosa. Seu rubor era agradável, porém. Mordeu o lábio, os olhos tremeluzindo de ansiedade, de fascínio, acanhamento.

_Seu espírito. –e respondeu, ainda com a vista nela. Era algo que ainda não tinha lhe declarado.

_Só isso? –Zechs se incomodou, decepcionado. Jogou o corpo para trás, se largando no encosto do sofá.

Heero devolveu sua atenção a ele e ergueu o queixo em vaga afronta. Estreitou os olhos, caçador.

_Quando acontecer com você, vai entender. –e enfim replicou, tomando um gole de cerveja. E seu olhar se desviou da imagem do rapaz em sua frente, ficando absorto e risonho.

Por um segundo Relena temeu pela vida de Zechs. Mas a saída marota do namorado não desapontou.

_Bem feito. –ela sussurrou, vingada.

Zechs resfolegou, entretido:

_Está certo, entendi… você não sabe brincar.

Heero deu de ombros, conseguindo ficar ainda mais felino.

_Agora chega disso ou vou ter de dar um jeito em vocês dois. –Relena advertiu.

_Entendido. –Heero acatou, terminando sua cerveja.

_Estava tão divertido infernizar vocês… –Zechs lamentou e bebeu de novo para enfatizar seu desconsolo. Calorosa, Relena riu e procurou o rosto de Heero novamente, trocando com ele um flerte manhoso.

_A verdade é que… –Heero recomeçou, inspirado. –Eu nunca conheci alguém como você. E sei que nem vou. Você é única. –com a voz baixa, de repente terna, ele segredou. Reconheceu sua atitude como impulsiva, mas era culpa dela se ele recorria tanto à guia dos seus instintos.

Era mesmo o espírito dela que o atraía, sua essência falava com a dele de forma irresistível, com o mesmo poder do fogo que não deve ser subestimado.

Sabia-se privilegiado. Em pensamentos, chamou-a de sua. Suspirou.

Zechs fez questão de não estragar o momento, deixando-o correr ante seus olhos. Sem poder desprezar a espontaneidade dos sentimentos dos dois, por pouco não se comoveu. Sorriu, simplório. Estava feliz por Relena.

_Eu sinto o mesmo. –com delicadeza, Relena respondeu, contemplando Heero, deslumbrada.

Aquelas simples expressões valiam mais para ela do que os vários galanteios eloquentes que já recebera antes. Tinham significado, tinham sinceridade, tinham pureza. Ao concordar com elas, transformava-as suas. O apreço dele por si lhe inspirava aquela mesma impressão misteriosa. Ninguém nunca seria como ele para ela. Nunca queria separar-se dele. Sentir isso pela primeira vez era empolgante. Sorriu, faiscante, só para ele.

Zechs pigarreou, cômico, e olhou para fora da mesa:

_Eu não quero ver isso… –gracejou, afrontado.

_O quê? Isso? –Relena alcançou os lábios de Heero com os seus e depositou um longo beijo suave neles.

Ele não tinha como se opor, por mais que se sentisse pouco à vontade em demonstrar afeto em público. Ela era sua maior força e sua pior fraqueza, a amava demais para simplesmente rejeitar o carinho e a devoção que ela derramava nele. Ele queria. Como ia mentir para si mesmo? Era tão lógico. Era aquilo que ele queria desde que a viu pela primeira vez.

_Onde eu estava com a cabeça quando marquei este jantar? –Zechs reclamava, desviando os olhos pra longe da cena.

Se um beijo pode parar o tempo, o deles obliterava tudo. O mundo era feito só deles dois mesmo ao trocarem um breve beijo macio e gentil.

_Já está bom, não? –Zechs importunou, fazendo-se impaciente.

Com um estalinho provocante, Relena se afastou, prontamente usando seu sorriso. Nem tinha prestado atenção no irmão.

Heero acariciou seu rosto, sorrindo-lhe discretamente. Aprendeu que em alguns momentos a intimidade parecia maior se compartilhada.

Zechs grunhiu, enojado:

_Casais felizes… credo…

Relena riu:

_Seu bobo! Por que está falando de nós assim? E a sua crush? –Relena se lembrou provocando uma risada embaraçada no irmão.

Os lanches chegaram então. Heero pediu uma Coca-Cola e Zechs resolveu acompanhá-lo.

_E desde quando este encontro é sobre mim? –e quis desconversar.

_Desde agora. Qual o problema, não somos todos amigos?

_Não, vocês dois claramente são muito mais que amigos. –Zechs argumentou.

Heero quase riu dessa. Relena não tinha motivo para se conter e o brindava com seu riso musical e cristalino.

_Vamos comer… –suspirando, Zechs decidiu.

Relena franziu a testa.

_Conta. –Heero incentivou, arrumando o lanche enorme e encontrando um jeito de abocanhá-lo depois. Estava feliz em sair um pouco do foco.

Zechs pescou uma batata frita da sua porção, mastigou educadamente e bufou. Os dois olhavam para ele com insistência. Tirou o celular do bolso, procurando algo nele. Não demorou muito. Colocou o aparelho em cima da mesa para que os dois pudessem ver.

_Equipe de canoagem da Suíça. –ele legendou a imagem de uma moça boiando na água apoiada em um caiaque, com os cabelos negros e curtos molhados, a franja penteada para trás com os dedos, o sorriso arrojado e os olhos violetas extáticos pela vitória. –Lucrezia Noin.

_Que linda… –Relena murmurou, contente. –E parece ser mesmo durona…

Zechs assentiu, agradado:

_Não imagina o quanto. Mas tem um senso de humor incrível.

_Ainda bem. –Heero observou, pilheriando, circunspecto e trivial. Zechs estalou a língua, ofendido, respondendo ao remoque. Relena deu um risinho travesso.

O garçom trouxe as bebidas dos rapazes e a conta da mesa na frente. Heero e Zechs deram um gole entre as mordidas.

_E o que mais tem para contar? –Relena indagou ao terminar de mastigar. –Ela já sabe das suas sérias intenções? –mencionou, um pouco debochada. Ela se irritava com o jeito folgazão de Zechs, mas não ficava muito atrás dele.

Tranquilamente, ele explicou, sem dar muito crédito para a brincadeira da irmã:

_Nós saímos algumas vezes com grupos de amigos. Trocamos algumas mensagens… confesso que não estou com pressa.

_Por quê? –Relena estranhou, desistindo no último instante de morder o lanche para indagar.

_É complicado. Nós dois temos horários conflitantes, equipes diferentes… –os motivos que Zechs apresentou eram tão vagos quanto sua voz ao mencioná-los. Aos poucos, a insegurança que visita qualquer um diante da possibilidade de ser rejeitado vinha à tona.

_Não são rivais, certo? –Relena averiguou, baixando as sobrancelhas, ainda com o lanche suspenso, preso por suas duas mãos.

_Não. –ele rejeitou a ideia com tranquilidade.

Ela assentiu, satisfeita, e comeu. Zechs prosseguiu:

_É que se comprometer com uma olimpíada e ainda ter tempo para vida pessoal não é uma tarefa das mais simples. Noin é bastante dedicada ao esporte. Não posso criticá-la… afinal de contas, é a melhor do país e foi medalhista de ouro. Está no auge.

Relena sabia exatamente o que ele queria dizer. O equilíbrio era uma descoberta recente para ela, um novo processo, já que sua vida também fora ditada unicamente pelo balé por muitos anos. Ainda não tinha se esquecido como era: quanto melhor se é, mais cobranças se recebe, mais dedicação se exige, mais alvos se apresentam. Se superar se torna tudo para você, que não percebe que alicerçar sua vida nisso não é o bastante.

_Acha que pode atrapalhar o sucesso dela? –Heero quis entender, concluindo.

_Às vezes sim. –Zechs confessou, sensato, sem se embaraçar.

_Talvez você devesse ser franco com ela. Vocês dois são atletas, não é como se não soubessem como funcionam as coisas, as necessidades e os problemas que têm. Se conversarem e se resolverem, podem seguir com as suas vidas. Juntos, quem sabe? –Relena pausou um instante, pesando bem a situação, e terminou por incentivar, positiva e bondosa. Ultimamente, andava mais dada a se arriscar e decidia que era isso que Zechs precisava fazer. Trocou uma olhadela com Heero, lembrando-se de que ele era um dos principais motivos de sua mudança de foco, ajudando-a a amadurecer bastante desde que se conheceram.

_Lidar com pessoas disciplinadas exige muito de si. Mas pessoas deste tipo são perfeitas para se comprometer. Levam a sério tudo o que escolhem. –Heero participou como pôde. Não soou muito cordial, entretanto, cumpriu o objetivo de se mostrar ponderado e observador, falando de própria experiência.

Zechs ouviu os dois com atenção, se dispondo a levar as ideias deles em consideração. Decidindo algo para responder, não pôde falar porque o garoto da mesa vizinha se aproximou de Heero, um tanto tímido, um tanto ansioso, perguntando:

_Você é o bombeiro que salvou a mulher na Alameda Albatroz?

Heero não se surpreendeu nem com a aproximação, nem com a pergunta. Voltou-se para ele, limpando as mãos num guardanapo.

_Minha equipe estava lá hoje sim. –e confirmou, neutro, mas receptivo.

_Eu vi você na TV. Aquilo foi incrível! –percebia-se que ele queria ter dito isso a Heero desde o vira chegar.

_Obrigado. –modesto, Heero aceitou o elogio. Não gostava muito de experimentar este tipo de aproximação, por mais comum que fosse. Sentia que era desnecessário tanto louvor porque gostava de fazer o trabalho ao qual tinha se empenhado e lhe bastava a recompensa do dever bem cumprido. Entretanto, o garoto com ele ali expressava no sorriso e nos olhos vibrantes um encantamento tão grande que Heero precisava aceitar aquela atenção.

_Martin! Hey, desculpem por isso. Não queríamos atrapalhar… –o pai apareceu então, sorrindo um pouco preocupado, voltando para buscar o menino que tinha escapado e finalmente tomado coragem de abordar Heero.

_Não atrapalham. –olhando tanto o pai quanto o filho, Heero avisou com sua compostura de soldado.

_Sabe aquela obsessão que os garotos têm com dinossauros? Então, é a mesma coisa com Martin e os bombeiros. –decidindo que uma explicação era apropriada, o homem confidenciou com os três a mesa, bem-humorado.

_Dinossauros são bem legais, o problema é que estão todos mortos, entende o que quero dizer? –Heero até se sentiu confortável em brincar um pouco, mesmo não sendo um requisito da cortesia que devia a população.

_É! –Martin concordou com ênfase e alívio por enfim encontrar alguém que o compreendia. –Eu vou ser bombeiro quando crescer. –em seguida, o garoto informou com invejável e inocente determinação. Ninguém ousaria contrariá-lo.

Relena sorriu, acompanhando a conversa, cativada pela feição de fascínio que o garoto rendia a Heero e tudo o que era representado pelo rapaz.

_Eu sou o tenente Yuy. –Heero deu a mão para o garoto. Continuou sentado, porém, por que era até mais confortável conversarem assim.

_Martin Zala.

_Sabe, Martin, o trabalho de um bombeiro é muito importante. –entoando suas palavras com rigor, Heero comentou.

_Eu sei. –Martin respondeu o mais solene que sua idade lhe permitia.

_E perigoso. –ampliou, curvando uma sobrancelha.

_Eu sei, mas eu sou corajoso.

_Tenho certeza que sim. –enfim Heero sorriu. Pareceu deliberar por um instante antes de questionar: –É isso mesmo que você quer?

_Sim, senhor! –enérgico, Martin parecia pronto, seguro do que se esperava dele. Era de fato tão inspirador, que Heero não resistiu:

_Então, por que não passa no nosso quartel um dia desses? Escada 5, sabe onde fica?

Martin não sabia bem, assim olhou para o pai, procurando uma resposta. O homem assentiu.

_Um par de mãos disposto como o seu pode ser útil em um dos nossos turnos.

_Isso é sério? –Martin estava no mínimo extático.

_Claro, é só combinar com nosso capitão.

_Que demais! –e garoto pulou em comemoração.

_Muito obrigado, tenente. É muito generoso da sua parte. –emocionado, o pai expressou.

Heero meneou a cabeça:

_Não é nada demais.

_Que máximo! Pai, podemos ir amanhã? –não havia tempo a perder.

_Calma, precisamos conversar com sua mãe.

_Tchau, tenente! –Martin parecia que ia explodir de alegria.

_Obrigado outra vez. –o pai se despediu.

_Tenham uma boa noite. –Heero mesurou com a cabeça.

Martin correu na frente do pai até a mãe, que os esperava a certa distância com seus outros dois filhos. Ele já ia gritando a novidade. O pai o seguiu, risonho.

_Uau, isso foi ótimo… –Relena maravilhara-se.

Heero meneou a cabeça outra vez dispensando o elogio.

_Gosta de crianças? –Zechs quis saber.

_Não vejo porque não gostar.

Zechs achou a reposta de Heero razoável.

_Certo, quantos filhos pretende ter? –verificou, assim.

_Zechs! Eu vou te matar! –Relena cobriu o rosto com as duas mãos.

_É só uma brincadeira, Lena, calma!

Heero ficou um pouco sem graça, mas dessa vez não aguentou e riu.

_Misericórdia, Zechs… Você não consegue se conter por uma noite? –ela não se contentou com as emendas do irmão.

_Dá uma olhada, até o Heero riu. –ele tentou outra vez, risonho.

_Está tudo bem, Lena. –passivo, Heero avisou.

_Não, nós não viemos aqui, com a maior boa vontade, para sermos aloprados assim pelo meu próprio irmão! –ela reclamou, obviamente inconformada, exagerada. –Depois de tudo isso, Zechs, você me força a pedir uma sobremesa! Eu não ia pedir, mas por sua culpa, eu vou ser obrigada! –e informou, enérgica, tentando sustentar o teatro de braveza, o riso escapando pelos olhos.

_Ah, estou entendendo tudo agora, Lena… Quer me culpar pelas suas gordices…

Ela assumiu uma atitude inocente, os olhos azuis convincentes virados para o alto.

Depois os irmãos gargalharam, enquanto Heero só meneou a cabeça, voltando a se concentrar em comer.

Estava sendo mais divertido do que ele imaginou. É verdade que ele não tinha imaginado nada preciso. Havia apenas uma vaga ideia em sua mente de que não seria assim tão fácil interagir com Zechs. Sempre ficava aquela impressão de que ele seria superprotetor, isto porque Heero tomava a situação por si. Ou, quem sabe Zechs agia tão cordial devido à presença de Relena? De qualquer modo, estava entendendo-o e se acostumando com a presença do rapaz.

_Eu assisti a reportagem também. –e depois que descansara das gargalhadas múltiplas, Zechs retomou a conversa.

_O que foi que houve? –demonstrando curiosidade, Relena se dirigiu a Heero. Diante a delonga dele em respondê-la, ela perguntou mais, com seriedade. –Foi perigoso?

_Você quer realmente saber isso? –Heero brincou. Mas ela sorriu, aparentemente acima dos medos iniciais que surgem em qualquer pessoa próxima de um bombeiro.

_Tudo bem, eu mesma respondo: sempre é perigoso. –e Relena soou bastante bem-humorada.

_A verdade é que eu nunca paro para pensar nisso. –Heero revelou, o olhar perdido além do copo do qual bebia.

_Já se acostumou? –Relena propôs.

_Não sei. Não é tão simples assim. –e soava vago de propósito, preferindo não expor as complexidades de sua função.

Zechs assentiu:

_Confesso que fiquei surpreso ao assistir você entrar naquela casa, Heero. Olhando você agora, até parece mentira. –com a voz carregada de assombro, adicionou. Trazia uma expressão humilde e sincera para reverberar sua frase.

Heero o observou, retraído, ouvindo-o continuar:

_Entrar no mar é quase como entrar em uma casa em chamas – nós dois estamos debaixo dos caprichos da natureza. Mas ninguém depende de mim. Se eu me arrisco, é praticamente por prazer… para me provar… você, não.

Heero passou um minuto sem dizer nada. Relena, ao seu lado, sorria agora mais assombrada que Zechs, satisfeita com a atitude do irmão, levada também pelo raciocínio dele a admirar Heero ainda mais.

Embora ainda tivesse o que elogiar, Zechs não quis falar mais. Imaginou que soaria pedante, forçado, rancoroso até se continuasse. Já tinha entendido que Heero era reservado e discreto quando se tratava de sua posição. Tinha certeza que seria perdoado por sua admiração, contudo. Era adequada, compreensível e esperada.

Era a primeira vez que conhecia alguém tão importante quanto Heero. Seu pai poderia ser ministro e Zechs havia se deparado com famosos, ricos e bem-sucedidos diversas vezes em sua vida, pessoas que tinham como afirmar que realizaram grandes feitos e receberam grandes prêmios. Mas nenhuma delas se resignava a estar de prontidão para ajudar qualquer um em qualquer imprevisto ou se dedicava a aprender como resgatar alguém de uma infinidade de perigos.

Não havia mais dúvidas de que Heero era a pessoa certa para sua irmã.


Bom dia!

Já era para eu ter vindo antes aqui com as novidades, mas tive que ponderar algumas decisões antes de postar.

Estamos na parada 15 da nossa jornada romântica. Aconteceu bastante coisa até aqui. O que mais está reservado para Heero e Relena?

Espero que a sinopse não tenha ficado ridícula e o capítulo fofinho demais.

Pássaro de Fogo está sendo composto meio como novela, na hora e de acordo com o que acontece, sem muito plano.

Não sei quantos capítulos vamos ter, eu vou escrever até perder a graça, até sentir que chegou a hora do granfinale.

Quero agradecer a todos meus tripulantes e passageiros nessa jornada! É um prazer contar com vocês!

Beijos e abraços!

05.02.2017