No último capítulo…

Heero e Relena chegam para o jantar com Zechs, que se prova um verdadeiro maroto, provocando os dois sempre que possível, deixando a noite para lá de divertida. Os dois rapazes se conhecem um pouco melhor e Zechs expressa seu respeito por Heero e por sua profissão, contente por Relena ter encontrado alguém de bastante dignidade para namorar. Depois do lanche, Heero é abordado por um garotinho que o assistiu agir no vídeo do jornal. Martin é fascinado pelos bombeiros e Heero o convida a ir conhecer o quartel.

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16

_Eu não faço nada demais. –Heero nunca esperara encontrar tanto reconhecimento na pessoa do cunhado. Eles mal se conheciam.

Por isso ficou contente por não ter dado a entrevista e sabia que seria julgado ilógico por essa opinião se a expressasse. Se Zechs tinha concluído tudo aquilo apenas pela reportagem que assistiu, o que mais pensaria dele se o ouvisse falar? Não havia nada para falar. Acabaria fazendo alguma declaração vazia e insossa, arriscada a não cair bem no ouvido.

O que mais os outros tinham concluído?

O pequeno Martin foi reafirmado de que os bombeiros eram heróis.

Mas tantas pessoas assistiram, julgaram e comentaram o vídeo…

Heero não parava para pensar no perigo e também não parava para pensar que seu trabalho era público.

Olhou em redor e pensou no que Zechs dissera.

Podia ser uma honra, mas podia ser um fardo também.

Por isso que sempre preferiu a distância dos holofotes. Seu pai ensinara que para fazer o bem, não é necessário plateia. Era até preferível o anonimato.

Era um modo de pôr um limite e conseguir superar as próprias falhas também. Por que infelizmente, nem tudo era apenas sucesso.

_Não diga isso. Não há nada errado em ser reconhecido. –Relena acudiu, tocando-o no ombro, iluminando-o com o mais doce dos sorrisos. –Eu danço pelos aplausos também.

Ele sorriu timidamente para ela e continuou pensativo. Era uma ideia a qual se acostumar.

Então, lembraram-se de voltar a comer. Acabaram retomando a conversa minutos depois, dessa vez com assuntos mais leves. Zechs voltou a falar do endosso em que ia participar para uma marca de relógios esportivos de alta tecnologia. Frisou que não era uma questão de dinheiro, mas sim de divulgação da própria imagem. Ouvindo as explicações de Zechs, Heero refletiu que aquele era outro tipo de reconhecimento.

_Então, vocês vão me acompanhar na sobremesa? –Relena aproveitou um intervalo na conversa para propor. Sinalizou ao garçom e pediu o cardápio outra vez.

_Vou analisar as opções. Estou de férias, mas não posso abusar… meu técnico é mil vezes pior que o Ned. –Zechs considerou, preocupado de repente, alfinetando a irmã.

_Não é nada. –ela desdenhou, rápida, abrindo a carta direto na página dos doces e correndo os olhos apreciativa pelas imagens ilustrativas.

Heero imitou a ação, apesar de seu desinteresse. Cada um deliberou silenciosamente o que pedir, caso pedisse.

_Mas no fim, você não me contou o que houve. –e a voz de Relena cortou o instante de concentração sutilmente.

Ninguém se manifestou, sendo óbvio que ela se dirigia a Heero, que suspirou, fechou o cardápio sem escolher nada e o colocou de lado. Relena decidiu pelo sundae e Zechs por um pedaço de cheesecake.

_Um incêndio em um dos bangalôs da Alameda Albatroz. Uma senhora cadeirante ficou presa no segundo andar. Tivemos de entrar para resgatá-la e retirá-la de Magirus. O incêndio se alastrou bem rápido. A família perdeu praticamente tudo, a casa foi condenada pela Defesa Civil, mas a senhora está passando bem. Recebi uma atualização do estado de saúde dela antes de sair do quartel. –pausadamente, Heero narrou fato por fato sem se preocupar com coesão. Relena o escutou com o queixo apoiado nas duas mãos.

_Você precisa assistir ao vídeo. –Zechs reiterou.

_Eu vou.

Lançando um olhar de viés para Zechs, Heero terminou de beber sua Coca-Cola. Zechs entendeu bem que estava se intrometendo demais e riu, divertido, voltando a dar sua atenção a Relena.

Mal tinha chegado o sorvete, ela já estava atacando a taça com gosto enquanto tentava comentar sobre o concurso que iria acontecer no qual Tint iria ser tutora e Ane iria participar. Murmurou que só não ia também esse ano porque coincidira com a gala de Odelia. Gostava muito do acampamento e partilhou algumas boas lembranças com eles. E o que mais lamentava era não poder ir para participar da oficina da Karimova. Em seguida, mencionou por cima a ideia do conservatório de selecionar mais um casal de bailarinos principais.

_Mas isto é totalmente em off. –pontuou antes de mais uma colherada bem servida.

Heero e Zechs ficaram surpresos e acederam com a cabeça quanto ao sigilo.

_Como estamos aqui, não podemos deixar de brincar em um dos videogames. –Zechs largou o garfo ao comentar.

_Essas coisas nunca foram meu forte. –Relena replicou, desanimada, bebendo o fim do sorvete derretido misturado com a calda de chocolate.

_Não fale assim… você sempre foi uma ótima oponente. –chocado com a reação da irmã, Zechs buscou confortá-la.

_Isso porque eu sempre perdia. –ela rebateu, agressivamente aborrecida.

_E você Heero, arrisca um jogo de Mortal Kombat? –ele se ergueu do lugar.

_Sempre foi minha especialidade… –Heero constatou, também se pondo de pé e colocando as mãos nos bolsos.

_Que coincidência… –Zechs ronronou.

Relena meneou a cabeça, divertida, seguindo os dois.

Eles compraram suas fichas e pararam na frente da máquina. Trocaram um fito ousado e, depois de inserir as fichas, selecionaram seus personagens. Quando Zechs viu que Heero escolhera Sub-Zero, não teve dúvidas em selecionar Scorpion. Relena ficou assistindo, sem saber o que pensar sobre a rivalidade frívola:

_Alguma chance de nós sairmos daqui antes de fechar? –ela checou, brincalhona, pensando se devia procurar algo com que se distrair por sua vez. Gostava das mesas de Pinball.

_Isso vai ser rápido. –Zechs afirmou, convencido.

_Não tenha tanta certeza. –Heero franziu uma sobrancelha, sensato.

Zechs selecionou o modo torneio.

O narrador comandou com sua voz sinistra:

_Fight.

Os dois nem piscavam. Davam combos em cima de combos e o primeiro embate terminou em poucos segundos, abrindo para o segundo round. O primeiro fatality foi Zechs quem realizou. Enquanto Scorpion incendiava seu adversário, ele lançou um olhar divertido e confiante que Heero não retribuiu.

Passaram para a próxima partida. Eles viravam os joysticks e apertavam os botões com tanta velocidade e precisão que era impossível acompanhar as sequências. Quando Relena deu por si, já estavam no outro round e em segundos Sub-Zero dava seu fatality, censurado.

Nenhuma demonstração de vitória da parte de Heero, só o esboço de um sorriso. Zechs armou uma carranca e deu o sinal do início do penúltimo round. Estava um a um. Só havia duas possibilidades agora: ou a vitória ou o empate completo.

O grupo de amigos que agora também jogava acabou se interessando pela competição e parara junto de Relena, deixando seus jogos de corrida para lá.

Nada iria desconcentrá-los agora, muito menos a pressão da plateia ao redor que, animada, torcia e vibrava com as façanhas dos dois rapazes que jogavam como se esta fosse a única ocupação que tinham, o dia todo, a vida inteira.

Relena não estava de toda contente com a tensão que eles emanavam. Tinha entendido que seria uma noite divertida, um momento de descontração para estreitar os laços entre eles. Agora, ficava preocupada vendo o jeito que jogavam, como se nada mais importasse, receando que aquela brincadeira estragasse o propósito da noite.

A competitividade de Zechs ela conhecia de primeira mão, por mais bondoso que ele fosse, tanto que sua verdadeira vocação se revelou ser o esporte. Não se surpreendeu ao ver que Heero também levava o jogo bastante a sério, visto sua notada tendência em estar no controle. Ela não interveio, entretanto, por que, por outro lado, eles pareciam estar gostando bastante de se enfrentar. Talvez fosse algo natural para eles, ela decidiu, e continuou assistindo com atenção indivisa a sequência entontecedora de golpes que eles executavam.

A molecada comemorou quando assistiram o segundo fatality do Scorpion. A personagem se multiplicou comicamente na tela, com os braços levantados, e depois todas as suas cópias atacaram Sub-Zero de uma vez, fazendo-o deixar escapar um grito atrás da tela preta da censura.

_Scorpion wins. Flawless victory. –o narrador proclamou com sua voz mecânica e profunda. –Fatality.

_Qual é a graça se censuraram tudo? –entretanto, um dos amigos reclamou, cruzando os braços. Relena olhou o desconhecido ao seu lado, um tanto chocada, mas acabou admitindo sua tivesse razão, segundo o ponto de vista do objetivo do jogo, pelo menos.

É claro que depois dessa rodada a autoconfiança de Zechs aumentou em duzentos por cento. Ele respirou fundo, tentando evitar que isso atrapalhasse seu desempenho. Tinha a chance de derrotar Heero, e roubando uma olhadela de seu adversário, estranhou vê-lo impassível e focado, sem uma linha no rosto traindo contrariedade, frustração ou apreensão. Era a estátua de gelo de sempre. Seu personagem não podia combinar mais com ele.

_Está pronto? –Zechs resolveu falar algo para animar a batalha final.

Virando o olho na direção dele, Heero o perfurou com seu fito azul diamantino:

_Você está?

O pessoal estava curtindo o evento feito fosse uma final de copa do mundo. Relena deixou-se contagiar e incentivou:

_Mostra para ele, Heero!

_Era para você estar torcendo para mim. –Zechs olhou para trás e a repreendeu com uma expressão engraçada de ultrajo e desgosto.

Rindo, ela deu de ombros, descaradamente favorecendo o namorado.

A partida final se iniciava.

Vencer o torneio se tornara questão de honra para Zechs. Já a Heero restara apenas frustrá-lo com o empate. Mesmo assim, ele aceitara a missão com prazer, apesar de não ter nenhuma intenção em aborrecer Zechs. Podia ser só um jogo, mas por que jogar se não era para levar a sério? Deixou um sorriso felino esboçar em seus lábios e desferiu uma sequência de golpes no adversário, tantos que levou vários segundos para Scorpion poder reagir. Roubou um relance de Zechs e percebeu-o totalmente concentrado no game.

Zechs não piscou, porém, não viu o primeiro round passar. Tentou o possível, mas não conseguiu reagir aos ataques de Heero. Sub-Zero tinha a vantagem na última luta. Praguejou algo entre dentes apesar de sua compostura.

_Eu pensei que você estava pronto… –Heero espicaçou, mordaz, mesmo que não sorrisse.

Algumas jogadas depois, a tela se escureceu outra vez depois de Sub-Zero agarrar Scorpion pelo pescoço:

_Sub-Zero wins. Flawless victory. Fatality.

Com alguma descrença, Zechs soltou os controles e sacudiu a cabeça lentamente. A torcida festejava a disputa não menos eletrizante pelo desfecho de empate. Relena se aproximou do irmão e deu um tapinha consolatório no ombro dele.

_Eu sei… eu sei… –e murmurou, burlesca, recebendo uma olhada afiada dele em retribuição. Gargalhou, divertida, e depois se voltou para Heero. –Meu campeão. –deu um beijinho no rosto dele e levou a plateia ao delírio.

Heero não se deu ao trabalho de dizer nada, embora seus olhos estivessem vestidos de um brilho intenso.

_Ele não venceu nada, Lena… nós empatamos. –Zechs fez questão de frisar, careteando desgostoso. –Você estava prestando atenção?

_Tanto faz… –ela sacudiu os ombros, prendendo-se ao braço de Heero, que deixou uma risadinha rosnada escapar.

Zechs sacudiu a cabeça em um último gesto de inconformidade antes de recompor sua pose.

_Fica a deixa para um tie break… –Heero concluiu, prático, tentando não deixar muito aparente que preferia ter vencido.

_Se não estivesse tão tarde, ia ser para já. –Zechs suspirou e comentou.

_Não faltarão oportunidades. –Relena tomou a liberdade de lembrá-los.

_Certo… estão todos satisfeitos? Vou lá fechar nossa conta. –e avisou enquanto o trio se afastava para liberar a máquina. De repente, o Ultimate Mortal Kombat 3 tinha ganhado bastante destaque. Os jovens que antes assistiam estavam prontos para experimentar, suas fichas caindo nas slots com um ruído de expectativa.

_Até que me saí bem mesmo fora de forma… –Heero comentou, tranquilo, abraçando Relena pelo ombro. Ela se aninhou no peito dele, risonha. –Não quis jogar nada?

_Não… e confesso que me diverti bastante assistindo vocês dois. –ela explicou. –No fim, parece que você e Zechs se deram bem…

Heero não respondeu, pensativo. Tinha conduzido Relena até próximo do caixa, onde Zechs aguardava a maquininha de cartão concluir o pagamento. Não ficaram a distância de serem ouvidos, entretanto.

_Eu sei que ele é terrível… –ela prosseguiu, alegre. –Mas eu o amo muito.

Heero assentiu, agradado com o modo carinhoso com que Relena falava do irmão. Saber que Zechs sempre a tratara tão bem fazia seu respeito se confirmar.

_Não se preocupe. –ele beijou o alto dos cabelos dela. –Eu não sou ciumento. –e brincou com ela, pois sentira que precisava dizer algo mais.

Relena se afastou dele para poder olhar bem em seu rosto antes de explodir em uma deliciosa risada diante da ironia do gracejo. Heero sorriu caloroso e divertido, orgulhoso por sua piada ter sido aprovada.

_Você também é terrível! –ela o provocou entre risos enquanto ele sorria rendido ao encanto dela. Ela esticou-se e conseguiu roubar um beijo dele.

Heero nunca tinha ganhado um beijo tão risonho antes. Ele gostou da ideia e a abraçou pela cintura, confiante em beijá-la de volta com um pouco mais de intensidade. O estabelecimento estava praticamente vazio e dessa vez não se importavam se fossem flagrados por Zechs.

Foram interrompidos antes, contudo, pois o telefone dele tocou no bolso em um alerta de mensagem e Relena ouviu o seu reagir dentro da bolsa ao mesmo tempo. Ele procurou o aparelho e percebeu que alguém mandara algo no grupo. Tint criara um Instagram para Allegra e mandava o link, recrutando todos para segui-lo.

Relena leu a mensagem com ele:

_Dá uma curtida… –incentivou.

_Eu não tenho conta. –murmurou em resposta. Para que precisava de um Instagram? Ela riu e sacudiu a cabeça diante do acabrunhamento dele. Alguém estava digitando algo no grupo, mas quando o alerta disparou, Zechs já chegara com o comentário:

_Oras, isso me deu uma ideia…

Relena ergueu os olhos para ele da primeira postagem da Allegra e curvou as sobrancelhas em interrogativa.

_Vamos tirar uma foto de recordação. –ele logo esclareceu, bonachão.

Os três se ajuntaram com Relena na frente, entre os rapazes, e Zechs empunhou seu celular, fazendo a selfie.

_Manda para mim! –ela pediu prontamente, ao passo que Zechs conferia o resultado:

_Ficou muito boa… Posso postar? –pediu, dirigindo-se a Heero especificamente.

Ele levou um segundo para decidir, mas assentiu. Não sabia bem porque deveria privar o cunhado disso. Não via a razão das pessoas gostarem tanto de redes sociais. Será que ia ter de abrir um Instagram afinal de contas? Criar um perfil do Facebook já tinha sido custoso. Entrava pouco, mesmo que já tivesse aprendido a ver sua utilidade.

Muito satisfeita, Relena olhava a foto em seu celular e, com o toque de alguns botões, compartilhou-a no grupo, caminhando e teclando, guardada dentro do abraço de Heero, ao prosseguir com os rapazes em direção à saída.

_Espero que tenham se divertido. –Zechs mencionou por fim, caloroso e contido, recuperando sua atitude lassa. –Gostei muito de conhecer você, Heero.

Heero assentiu, marcial e digno, expressando sua silenciosa recíproca.

_Sempre é bom passar tempo com você, Zechs. –Relena guardou o telefone na bolsa e reforçou, lhe direcionando um grande sorriso.

_Ainda bem. –ele brincou com ela. –Prometo que aproveitarei minha temporada aqui para ficar mais com você. –e assegurou, admitindo que precisava dar-lhe mais atenção. Comparada a todo o tempo que passaram juntos, a separação deles era recente e estranha a ambos.

Relena abraçou o irmão em despedida e depois foi a vez de Heero apertar a sua mão.

_Obrigado pela noite. –Heero foi sincero.

_Até mais, se cuidem. –Zechs exibiu um sorriso discreto ao mesurar com a cabeça.

_Tchau, Zechs… –indo a direções opostas, Relena voltou-se para trás uma última vez, deixando vazar pela expressão o quanto ficara grata com o passeio.

Ele se sentia realizado ao vê-la tão contente. Acenou, cheio de estirpe, usando a mão e a cabeça, deu as costas e partiu de uma vez. Agora tinha certeza de que Relena estava em boas mãos.

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_Você tem certeza? –Akane exigiu saber antes de entrarem.

_Mas é claro que tenho. Já faz tempo que eu te disse que queria um! –Lya se armou, colocando as mãos na cintura, bloqueando a porta do estúdio de body art.

_Não, não é disso que estou falando. –Akane atalhou, a voz lenta. –Quero saber se tem certeza de que não está fazendo isso para o Miksa.

Lya teve de parar antes de responder dessa vez.

_Tenho certeza. –e respondeu confiante.

Akane assentiu, satisfeita enfim, e entraram.

Nadia ficou dando voltinhas no limitado espaço de espera, conferindo as fotografias de trabalhos anteriores expostas pelas paredes como portfolio. Lya debruçou no balcãozinho aguardando o atendimento e Akane ficou junto dela.

_Olha só a ruivinha… –uma moça surgiu de trás de uma cortina barulhenta de pingentes, vinda de uma das salas de trabalho. Ela sorria felina, jogando o cabelo coberto de mechas de todas as cores possíveis para trás, bagunçando seus fios lisos. –Resolveu aceitar minha sugestão e fazer aquela tatuagem na costela?

_A hashtag "força, foco, fé" tem muito a ver comigo, mas não estou à altura de carregar uma breguice dessas a vida toda… –eloquente, Ane se escusou, divertida.

Dinah caiu na risada, concordando, ao passo que Lya retorceu as sobrancelhas, boiando na piada interna.

_Quem precisa dos seus serviços é minha amiga aqui… –e indicou Lya consigo com uma quebrada de cabeça, e a loira se endireitou e grudou a vista na aparência linda, mas não convencional de Dinah. A artista não tinha só os cabelos coloridos, mas exibia um olho azul e outro castanho, compondo toda uma exuberância junto aos piercings vários no rosto e orelhas.

_Pois não? –e com seu timbre ronronado, colocou as mãos na cintura descoberta entre o top cropped e a calça baixa.

_Meu nome é Lya e eu quero colocar um piercing microdermal. –ao recitar essas palavras, ela se sentiu dentro de um programa da TLC.

Com a aparição de Dinah, Nadia gravitou até as outras meninas, acompanhando o diálogo. Dinah trocou um olhar com ela:

_E você, gracinha, vai fazer um também?

_Ah, não, só vim fazer companhia. –incomodada, Nadia se opôs, sem conseguir se lembrar do porque aceitara vir. Não concordava em nada com a ideia. Até pensou que Akane ia conseguir fazer o que ela não pôde – convencer Lya a abandonar aquela vontade. Pelo contrário, deu todo o apoio e ainda indicou o estúdio onde o namorado fazia as tatuagens.

Dinah não precisou se esforçar para perceber a oposição completa dela e resolveu focar em Lya:

_Vai querer no rosto?

_Isto, no zigoma esquerdo.

_Ótimo. Já pensou no tipo de joia?

_Queria uma pedrinha simples, azul, para combinar com a cor do meu olho.

Dinah somente assentiu, foi atrás do balcãozinho e tirou uma tabela com amostras. Houve uma discussão de cinco minutos nos quais Ane e Lya percorreram a vista pelas opções e apontaram o tamanho de cristal que combinava mais.

_Esse vai ficar lindo e bem discreto. –Dinah corroborou. Nadia apareceu e olhou por cima do ombro de Ane qual tinha sido escolhido. –Ideal para uma bailarina. Vai vir com ela, Ane?

Lya e Akane trocaram um olhar deliberativo. Havia de repente algo escrito nos olhos de Lya que denunciava hesitação.

_Claro!

_Não precisa ficar nervosa, Lya… você não vai nem ter tempo de sentir dor. –Dinah consolou, ronronante. –E você, quer ver como faz? –e se dirigiu a Nadia, que ainda olhava o mostruário de aplicações.

_Ah, tudo bem… –estava ali por causa da amiga e não ia abandoná-la agora.

As quatro jovens marcharam até a sala. Nadia se preocupava em verificar se tudo estava limpo e esterilizado. Akane, já acostumada com o ambiente, tinha total confiança no trabalho de Dinah.

Lya deitou na maca e apoiou o rosto de lado. Dinah se aproximou e não levou nem um minuto para pôr o piercing na pele sem falhas da moça que, de fato, só sentiu a dor depois que o procedimento terminara. Depois limpado o pouquinho de sangue, ficara pronta para ir deslumbrar o mundo com seu novo brilho.

_Ai… –Nadia se concentrou no inchaço leve e na vermelhidão que via na face de Lya. –Você não podia ter colado uma pedrinha no dente? –e lamentou ao olhar o resultado de perto.

_Ficou lindo! –Ane vibrou, observando o Swarovski captar a luz intensa da sala e cintilar. –E o Ned nem vai achar tão ruim…

Lya abriu um grande sorriso exultante, admirando seu acessório novo no espelho que Dinah lhe oferecera. A lente com aumento a deixava ver como o acabamento era perfeito, feito ela tivesse nascido com o cristalzinho preso em sua pele.

_Gostou? –Dinah indagou só para cumprir protocolo. Também não precisava se esforçar para saber a resposta. Eram tão transparentes aquelas meninas…

_Sim! Ficou do jeitinho que imaginei! E não doeu nada!

Dando as instruções dos cuidados a sua cliente, Dinah as conduziu de volta a entrada para o pagamento.

_Obrigada pela preferência. –e brincou com Ane e Lya, porque, quanto a Nadia, ela ainda retorcia o nariz, contrariada. –Espero vê-las em breve! –para se despedir, abraçou as amigas, mas acenou com a cabeça em direção de Nadia, que só devolveu o mesmo gesto.

_O que foi aquilo sobre a tatuagem na costela, Ane? –Lya quis se inteirar enquanto caminhavam pela calçada de volta as scooters.

_Eu vim com o Duo aqui terça, no almoço, para ele terminar um sombreado. Conversando, disse que a única coisa que eu faria era uma frase na costela, e aí começamos a brincar… sabe como Duo é… –e riu gostoso, lembrando todas as frases absurdas que ele sugeriu. "Força, foco, fé" fora a melhorzinha.

Lya riu um pouco e entregou-lhe o capacete.

_Já que saímos, podíamos ir comer agora. Tem uma lanchonete aqui perto que prepara aquela… como chama, Liliushka?

_Tapioca, Nanusha.

_Hum, estou dentro.

Montaram as três nas motinhas e não perderam tempo.

_É disso também que fazem aquelas bolinhas do bubble tea, né? –Lya comentou depois que já estavam comendo, sentadas na calçada beirando o café. Recheara a sua com queijo branco e peito de peru.

_Amo bubble tea! –Nadia murmurou, mastigando. A sua opção foi a mais fitness de todas – rúcula e tomate seco.

Ane, por outro lado, ousou pedindo ovo mexido, presunto, queijo e tomate de recheio. Se coubesse, tinha caprichado mais e comia com muito gosto.

_Sua tapioca está com uma cara ótima. –Lya tomou um gole do suco gelado e observou, antes de voltar a comer, por sua vez.

_Toma cuidado… comendo assim, vai acabar que nem a Laios. –Nadia alfinetou.

_Oras, o que tem a Mitra? –Lya franziu as sobrancelhas douradas e seu piercing cintilou.

_Não viu o Oz brigando com ela? Ele não conseguia erguer ela direito. Quase caíram praticando o fishdive esta manhã.

_Ah, eu acho que faltou ele respirar direito… –Ane murmurou.

_Nada, ela está engordando. –Nadia seguiu secretando veneno.

_Coitada. –Lya lamuriou.

_Ele me disse que vai pedir pra Mashkina trocar ele de par. –Nadia disse mais.

_Ah, só porque você quer! –Lya atacou, rindo maliciosa.

Nadia corou, exposta e ultrajada.

_Não tem nada a ver comigo! Você fala assim só porque está bem com o Miksa. Eu tenho que dançar com o Piers Ivo!

Ane meneou a cabeça, achando graça:

_Qual o problema com ele?

_É um molenga! Não me acompanha, não me segura do jeito certo… Não sei o que está fazendo no grupo avançado!

_E ainda vai para o acampamento… –Lya pilheriou.

_É um absurdo!

Ane riu da revolta de Nadia:

_Eu dancei com ele no teste. Não foi tão mal assim.

_Então pega pra você… eu admito: quero mesmo o Oz. Além de impecável, é um gostoso – prontofalei. –corou horrores, mas assumiu.

Lya e Ane riram escandalosas e concordaram.

_Prefiro o Miksa ainda… –mas Lya avisou depois. –Sempre…

_Ele é excelente bailarino. –Ane conteve-se a essa opinião.

_Por que tem que fazer essa cara toda vez que falo dele? Ele é muito simpático e bonito. É um ótimo par, o melhor que já tive…

_Pra dançar, é mesmo. Mas melhor parar aí. No mais, ele é furada.

Lya deu de ombros. Não aceitava a opinião de Ane. Já era a segunda vez que ouvia algo assim sobre o Miksa da parte da ruiva. Entretanto, não tinha parado para considerar porque ela desaprovava o rapaz. Lya continuava escolhendo ignorar o modo como ele tratava o resto do elenco feminino da companhia.

Nadia bufou, abstendo-se de fazer qualquer colocação. Já tentara abrir o olho da amiga e, sem sucesso, decidiu largar ela se virar. Ane ter assumido aquela tarefa não a surpreendia, embora não cresse que ela ia conseguir tampouco. Pelo menos nisso Ane não apoiava Lya. Já bastava o lance do piercing… Paciência nunca tinha sido o forte de Nadia. Ela não era só cheia de si, era capaz demais.

Foi providencial o telefone de Akane tocar. Tint queria um relatório da aventura. Só não tinha acompanhado porque era dia do Lian Gong. Ficou desapontada por Ane não ter colocado um microdermal também. Achava que lhe cairia bem.

_Não sabemos como o Ned vai reagir. –Ane mencionou a esmo.

_Acho que ele nem vai notar… –Tint apresentou, simplista.

_Ele vai é surtar. –Ane distinguiu nitidamente Relena ao fundo, propondo um tanto derrotista.

Tint estalou a língua.

_É, ele não gostou nada quando viu os furos da minha orelha. Como se fizesse alguma diferença… –razoável, Ane se lembrou. No dia da sua primeira audição para o conservatório, notou o jeito que ele encarou o piercing no hélice que ela usava, feito um corvo assassino.

Trocaram mais algumas palavras e encerraram a conversa.

_Será que não tiraram nenhuma foto? –com a curiosidade pouco saciada, Tint perguntou em voz alta. Relena estava brincando com Allegra em seu colo:

_Amanhã você vê como ficou.

_E quando vai levar Zechs para nos visitar nos ensaios? –colocando o celular no chão, diante de si, Tint virou-se e deitou sobre a perna. Estava alongando seu espacate na eterna busca e manutenção da abertura perfeita.

_Nem começa, Tint.

_Ué, mas ele não disse que queria ver sua turma?

_Disse… talvez semana que vem… vamos programar.

_Ah… eu até que tenho chance com ele ainda, sabe?

_Ah é? –jocosa, Relena quis saber mais.

_Sou bem parecida com essa tal de Noin…

_Eu falei pra você não começar, Tint. –seca, Relena rebateu, olhando de forma amável para Allegra enquanto a gatinha tentava brigar com uma das borlas da manta jogada no sofá.

_Uma garota pode sonhar… –murmurou, o celular entre seus cotovelos, o corpo então deitado no chão e as mãos apoiando seu rosto, enquanto seguia admirando a selfie recebida da noite anterior, o zoom focado na figura de Zechs e seus sedutores olhos azuis.

Relena olhou do alto do sofá o que Tint fazia e sacudiu a cabeça, reprobatória:

_E como fica o Danny nisso tudo? –e resolveu instigar, a voz se desfazendo em uma gozação exasperada.

_Não sei… só espero que ele esteja preparando algo especial para nosso aniversário. –e Tint suspirou, desligando a tela, erguendo o corpo e se deitando sobre a outra perna dessa vez.

Relena revirou os olhos, achando engraçado. Pegou seu celular por sua vez e clicou Allegra deitada de barriga para cima, praticando seus golpes de predador mortal nas franjas da almofada. Pensou que o nome da gatinha combinava com a disposição dela e estava se apegando mais rápido do que pensara.

Então decidiu mandar uma mensagem para Zechs. Afinal de contas, ele tinha prometido passar mais tempo com ela.

Quando as garotas voltaram ao alojamento, encontraram o diabo sobre quem falavam saindo risonho do prédio, caminhando e jogando o cabelo feito um modelo de passarela.

_Senhoritas… –ele as cumprimentou, inclinando a cabeça.

_Boa-noite, Miksa. –Akane respondeu.

_Miksa… –Lya suspirou.

Nadia sorriu com pouca vontade.

Os quatro pararam para conversar.

_Como estão?

_Está tudo bem. Estávamos jantando… –Lya liderou a interação.

_Você está diferente, Natalya… estou vendo algo no seu rosto… –Miksa apertou os olhos e ergueu a mão até onde percebera algo brilhar. Não a tocou, porém, deixando-a curtir a tensão.

Akane se perguntava se era tudo calculado da parte dele. Ele era bonito, mas arrogante, ela não gostava do jeito que ele se aproximava das garotas sabendo que era irresistível.

Nadia cingiu a cintura com as mãos ante tanta petulância dele.

_É, coloquei hoje… é um microdermal. –comentou de forma charmosa, movendo-se com um pouco de vergonha.

_Ficou linda. –ele praticamente murmurou. Seu sorriso era o que falava mais alto. –Eu estava pensando em dar uma volta. Não querem me acompanhar? A noite está tão agradável…

_Vou pôr meu sono em dia… –Nadia explicou.

_Eu tenho umas coisas para fazer… –Akane sempre tinha algo para fazer e ninguém estranhou sua justificativa. Mas a verdade era que ela não queria estar com ele. Era um mala e ela preferia fazer uma hora de esteira a aguentar a conversa mole que ele tinha todas as intenções de derramar sobre elas. Como se um fora não fosse suficiente…

_Entendo. Sem problemas. –mas ele era educado e gentil, ainda assim. –E você, Natalya?

_Acho uma ótima ideia! Se não se importar, é claro…

_Por que me importaria? –e mesmo que Nadia e Akane não estivessem sob efeito do feitiço Miksa, o sorriso dele aqueceu seus corações pelo segundo que elas permitiram. Lya praticamente derreteu. –Será um prazer! Fiquei sabendo de um vernissage incrível. Quer dar uma olhada comigo? –ele foi falando e rumando em direção do local que estacionara seu Toyota, esquecendo-se completamente das outras duas garotas.

_Tchau, meninas! –Lya foi seguindo-o, sorrindo, abanando o rabinho feito um cachorrinho, e quase não se lembrou de se despedir. –Não está falando dos trabalhos daquele grafiteiro, o Xisto, está? Estou louca para ver… –e nem esperou as amigas responderem, deixando claro para todos, esforçando-se que ficasse bem claro para Miksa, que só ele importava para ela no mundo.

_Esse mesmo! –ele devolveu. Conforme foram se afastando, sua conversa foi ficando ininteligível, mas não as risadas bobas de Lya.

Nadia comunicou sua ojeriza com Akane por meio de um olhar afiado. Akane franziu o rosto, odiando ter que concordar com a colega:

_Isso não vai terminar bem. –reclamou, começando a caminhar para a porta.

_Desde que termine. –Nadia replicou, aborrecida.

Akane olhou sobre o ombro, para trás, feito ainda pudesse vê-los. Podia bem ter ido. Mas Lya ia detestar a vela e sua presença provavelmente não adiantaria nada em dissolver aquela obsessão pelo primeiro bailarino Don Juan. Talvez só a aumentaria

Ao subirem as escadarias, Nadia estava falando com ela sobre um circuito de exercícios que viu uma bailarina famosa no Instagram demonstrar e que queria tentar e, embora estivesse prestando atenção, Ane sorriu sozinha pensando que admirava muito Lya e todos os que deixam bem claro o quanto estão apaixonados.


Boa-noite!

Espero que tenha gostado do capítulo novo! Demorei um pouco para aprontá-lo, mas depois de muito tempo na prancheta, consegui tudo o que queria.

Trabalhar com o Zechs foi uma delícia! Não se preocupem (ou se preocupem, não sei) porque ele ainda vai aprontar mais! huashuashua

O que acha do Miksa? Vocês se arriscariam com ele?

Quero agradecer de coração a todo mundo que acompanha! Obrigada demais pelo apoio e o carinho!

Deixe seus comentários! Estou sempre muito interessada na sua opinião!

23.02.2017