No último capítulo…

Heero e Zechs se enfrentam no fliperama, encarnando a atemporal rixa de Mortal Kombat, Sub Zero versus Scorpion. Através empate, os dois se veem com mais motivos para se aceitar e se sentem mais amigos, já se prometendo, um desempate no futuro. Relena está muito contente que ambos estão se dando bem. Akane leva Lya para por um piercing e, acompanhadas também por Nadia, passam um jantar agradável, em um bate-papo animado sobre fofocas do balé. Lya não disfarça mais o quanto está apaixonada por Miksa e, ao encontrar com ele no alojamento, aceita seu convite para um passeio, totalmente fisgada. Akane e Nadia lamentam a péssima escolha da amiga, mas Lya continua sem aceitar os seus avisos.

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17

O som do taco acertando o chão parou a música.

_Znovu. –ninguém ali precisava de um tradutor para saber o que aquilo significava.

Nedved devia estar querendo provar algo.

Akane e Nadia colocaram as mãos na cintura para descansar e Fanny trocou um fito chocado com a pianista. Valentina, Lya e Dana pararam em primeira posição, as mãos juntas em frente ao corpo, mantendo os rostos inexpressivos porque não iam admitir que não aguentavam mais.

Relena e Tint, junto do resto do corpo de baile, assistiam a tortura ser conduzida. Alguns ainda pareciam surpresos, mas não as bailarinas principais. Elas também não revelavam sua opinião no rosto, apoiadas nas barras, alongando-se de quando em quando, aproveitando o tempo.

_Ditador… – Tint virou-se de costas para Ned e cochichou, alongando uma perna, levando o calcanhar a tocar sua cabeça. Relena franziu as sobrancelhas e tomou um gole de água.

Já tinham visto isso acontecer muitas vezes. Já tinham passado por isso também. Mas havia qualquer coisa de especialmente sanguinária em Ned hoje.

A música reiniciou e as bailarinas obedientes retomaram o pas de six desde o início, sorrindo mais compulsoriamente do que deviam, mas era o melhor que podiam fazer. Interpretavam então as chamas do Pássaro de Fogo, formando um círculo, descrevendo lindos movimentos com os braços e pernas. Depois o desmanchavam, desfilando diante de todos, realizando giros e piruetas em fila, sempre em movimento pelo espaço. Ned travou os olhos com os de Lya ao vê-la passar. Bateu o taco:

_Znovu. –e não exclamava, o que só frisava o tamanho do seu aborrecimento.

Miksa correu a mão pela testa e Daniil abraçou-se, apoiando um cotovelo em uma das mãos. Não podiam ficar a manhã inteira nisso por causa de um piercing.

Mas Ned pediu e o desejo dele era uma ordem.

De novo.

A cada vez que iam, as meninas faziam questão de se esforçar e ser ainda mais precisas e entregues na coreografia. O apoio delas estava com Lya e a vida delas era dançar e não queriam prejudicar ninguém. Bailavam, as piruetas mais sincronizadas já executadas em um ensaio.

_Znovu. –as veias na testa calva de Ned começavam a saltar.

_Terrorista… –Tint sussurrou e Miksa bufou.

Relena dividiu uma olhadela com Akane, que estava mais corada de raiva do que de cansaço enquanto recorria à garrafinha d'água que Mitra lhe passou.

_Nedved… –a primeira bailarina deu um passo a frente, sem sorrisos. Ned desviou os olhos de falcão para ela, captando seu movimento bem antes do que sua voz. –Não seria melhor fazermos uma pausa? –e a voz foi inflexível, deixando-a irreconhecível. Se desse a entender que tinha pena das meninas ou que discordava do juízo dele, nunca iria conseguir fazê-lo concordar com ela. Assim, assumiu um ar imperioso e endureceu os olhos ao pedir.

O instrutor olhou fixo e desconfiado para ela um instante que retumbou na sala toda. Depois ele olhou para a pianista e para as meninas esbaforidas. Ninguém ousava se mover até ele reagir. Ele deu com o bastão no chão:

_Quinze minutos! –gritou. Não, ele também não podia resistir à visita da rainha das Willis. –Laios! Na minha sala! –esbravejou e foi o primeiro a sair pela porta.

Mitra assumiu o porte de um soldado em sentido e engoliu em seco:

_Oh Deus… –ganiu baixinho.

Com as sobrancelhas encurvadas, Akane a tocou no ombro, mas seus olhos estavam em Oz, que retorcia os lábios com desdém em direção das duas, as pálpebras mortas mal disfarçando seu fito contrariado.

Mitra saiu atrás de Ned, e embora ninguém desse importância para o ocorrido, Ane não tirou a vista dela até vê-la sair pela porta. Já sabia o que ia acontecer. Bufou.

_Parabéns. Agora você já pode colocar em seu currículo que sobreviveu a Chacina de Nedved. –ao se aproximar, Tint zoou em tentativa de incentivar Ane.

A ruiva puxou a toalhinha do elástico da legging com agressividade. Com certeza prender a toalha ali também contribuíra em intensificar a cólera de Ned. Foi o melhor lugar que achou –era ali ou enfiar dentro do decote, e já tinha enjoado de ficar indo até a barra para buscar o pano.

_E que tal se eu acrescentar "furou os pneus do carro de Nedved"? –e assim secou-se, parecendo uma boneca de cera esquecida perto demais do fogo, a respiração entrecortada ao replicar.

Tint teve que rir bastante antes de responder qualquer coisa. Relena escancarou os olhos:

_Não cometa nenhuma loucura… o Ned só está reafirmando a autoridade dele.

_Eu coloco debaixo do tópico "realizações" ou "experiência"? –Ane fingiu-se surda a voz da razão.

Mas Relena respirou fundo e insistiu:

_Ane… –tocou-a no ombro, abrindo um sorriso nervoso.

_Acho que em "experiência" vai causar mais efeito. –Tint adicionou, sabotando o trabalho de Relena, ainda sem fôlego de tanto gargalhar. –Uma vez, eu…

_Não dê ideias! –Relena cortou logo, enganchando nas duas e levando-as para reabastecerem suas garrinhas. Quinze minutos para Ned costumavam ser só cinco minutos na vida real. Se elas queriam aproveitar o intervalo, tinham que se apressar e já gastaram um minuto precioso com aquela baboseira.

A primeira coisa que Ane fez ao chegar ao vestiário foi cair largada no banco. Tint até brincou de abaná-la um pouquinho com a toalhinha.

Lya entrou logo depois:

_Eu estou tão envergonhada…

Nadia estava atrás:

_É bom mesmo, sua desgranhenta! É culpa dessa sua pedrinha que tivemos de dançar cinquenta vezes!

_Você contou? –Ane ergueu a cabeça, importunando, felina.

Nadia gesticulou aleatória, enfurecida. Fora apenas hipérbole:

_Foi o que pareceu!

As risadas encheram as paredes azulejadas. Nadia não participou.

_Engraçado é que ontem ele não falou nada. Pensei que nem tinha visto… –Lya sentou no espaço que Ane liberou e ficou a se secar, também muito suada.

_Ele precisou de doze horas para traçar o plano maligno dele… –Ane resmungou, levantando-se.

_Eu acho que valeu a pena. –Tint se curvou e estudou o zigoma de Lya mais de perto.

Lya sorriu, consolada com o elogio, e Nadia revirou os olhos. Sem usar força, Ane golpeou a coxa de Nadia com a toalha:

_Chega disso! Está ficando igual ao Ned!

Nadia sentou ao lado de Lya e relaxou os ombros:

_Que seja… –estava esgotada demais para brigar agora.

_Isso nem foi o pior que ele poderia fazer… –de repente, Relena comentou séria e pausou para efeito, todos os olhares voltados para ela, interrogativos, pasmos, intrigados, preocupados. –Não sabem? Na sala dele ficam guardados os amaldiçoados sapatinhos vermelhos…

Houve mais uma pausa para assimilação de sentido. Depois, as risadas, a anedota inteligente demais para ter uma reação imediata.

_Que droga! Por que eu não fiz essa piada antes? –Tint se revoltou e nem conseguiu rir do comentário malvado.

_Agora vamos voltar. –e persuadindo maternal, a primeira bailarina foi até a saída, indisposta a causar mais tumulto.

De volta ao estúdio, separaram-se. Lya foi até Miksa, que estava entretendo um grupo de bailarinas e Daniil tirou Relena da companhia das demais para discutir algo.

_Ainda bem que Lorde Khushrenada e a senhorita Une não estão. Odiaria passar esse vexame todo na frente deles. –Nadia resmungou, arrumando sua garrafinha junto à parede e pendurando a toalha na barra.

Tint, que se esforçava muito em tolerá-la, deu uma olhadela para Ane e meneou a cabeça:

_Alguém está implorando pelos sapatinhos vermelhos. –mencionou entredentes, para Nadia não entender.

_Por que não começamos com as sandálias da humildade? –colaborando, Ane sussurrou, e Tint perdeu a expressão de menosprezo de uma vez, voltando a rir a bom rir.

Nedved fez seu retorno e antes de se dirigir a turma com suas próximas instruções, falou com a pianista por alguns instantes. O resto do ensaio transcorreu normalmente, como se nada estranho tivesse ocorrido antes. Mitra voltou atrasada, os olhos vermelhos e o rosto inchado, mas Nedved não a censurou, se é que a viu chegar. Ela ocupou seu lugar prontamente embora para ela estivesse sendo muito difícil fingir que nada aconteceu.

Três horas depois saíram para o almoço. O dia estava nublado, mas não havia previsão de chuva. Era só a mudança de estação.

Em geral, o convívio era harmonioso entre todos no corpo de baile, mas para irem comer se dividiram nas suas panelinhas habituais, formadas por conveniência ou afinidade.

Tint aproveitou do oásis para reclamar sobre como Nadia reclamava de tudo. Daniil tentava abrandar a birra da namorada e Relena e Ane conversaram sobre Allegra. Todos discutiram também a atitude de Ned, cada um expressando seu ponto de vista.

_Ned pode ser dono dos nossos corpos, mas não precisa estragar nossa alegria… –Tint considerou, mexendo o canudo no seu suco de laranja.

_Isso é mesmo. Afinal, hoje é sábado e tem muita diversão esperando pela gente! –Ane lembrou, empolgada.

As duas recuperaram-se rápidas da revolta ao pensarem na noitada que planejaram. Iam comemorar a seleção para o concurso no acampamento em alto estilo, estava tudo planejado. Relena concordou sorrindo debilmente e Daniil suspirou, perguntando-se como podiam ter tanto pique quando o que restava de seu poder precisava reservar para o trabalho da tarde.

_Devo estar ficando velho… –lamentou, um traço de sorriso caçoando sua derrota. Tint estalou a língua em reprova e Ane e Lena riram, carinhosas.

A trupe retornou ao conservatório meio em cima da hora e teve de se apressar em escovar os dentes e se ajeitar para a próxima sessão de ensaios. Nedved ia trabalhar somente com os bailarinos principais e seus suplentes, mas o ensaio de Ane e os demais era com a Mashkina. Tudo ia acontecer no mesmo horário, mas Yekaterina Mashkina era mais flexível e aceitaria Akane em seu estúdio mesmo se ela se demorasse um pouco mais arrumando o cabelo.

O vestiário lotado e barulhento em cinco minutos mergulhou em silêncio profundo, e ela ainda estava enrolando, deitada no banco só mais um minutinho, sem resistir em responder as mensagens que Duo acabara de enviar. Ele e os rapazes também iam sair aquela noite e combinavam de se ver depois.

"Vamos torcer para estarmos sóbrios os suficientes para isso." –Duo mandou de volta, maroto.

Ela meneou a cabeça, os olhinhos brilhando de diversão, e já ia adicionar que era só blefe dele quando ouviu um soluço vindo de uma das cabines sanitárias. Depois, um gemido misturado com rosnado. Deixou o celular de lado e foi até a origem do som. De repente tudo voltou a ficar muito quieto.

_Quem está aí? Está tudo bem? É a Ane… –foi até a única cabine trancada e anunciou. Guardou silêncio, espreitando.

_Droga… –foi a resposta que recebeu, um grunhido triste. –Vai embora… –quem quer que estivesse lá dentro, já tinha chorado tanto que não tinha mais forças para nada. –Você não pode perder seu ensaio.

_E você pode? –Ane devolveu, um ouvido encostado na porta. –Vamos conversar. Eu sei que é você, Lya… abre a porta.

_Não… para você dizer que tinha me avisado?!

_Eu não ia dizer isso. –Ane encostou a testa na porta então. –O que aconteceu, Lya?

A trava clicou ao ser virada. Dando um passo para trás, abrindo espaço para a placa de madeira se mover, Ane espiou pela fresta que se abriu, lassa. Lya não fez mais que destrancar a passagem.

_Ele estava… Bem aqui, Ane! Aqui… aqui do lado… com alguém… –e voltou a chorar descompassadamente, com raiva agora. –Eu… não queria ter… ter… –não sabia como explicar –Presenciado, mas quando eu entrei… não conseguia me mover, não conseguia me afastar… não acreditava e queria ter certeza… eu…

Puxando Lya com cuidado pela mão, Akane a levou até o banco e sentaram. Lya não conseguia se endireitar, tinha coberto o rosto com as mãos, e dobrava o corpo, a cabeça caindo em direção do ombro de Ane.

_Que horas foi isso?

_Antes do almoço. Todo mundo saiu, mas eu voltei para pegar meu celular que esqueci no armário. Foi aí que eu… ouvi os dois…

_Lya, você está escondida no banheiro desde essa hora?

Ela assentiu.

_Eles não perceberam eu entrar. Eu não conseguia sair… me escondi no box e… ouvi tudo… tudo… –parecia pronta para enlouquecer. Entregou-se a outra crise de choro.

Akane nem ia perguntar se ela tinha certeza do que estava falando. Seria um insulto. Respirou fundo, sentindo seu interior esmagar-se, seu rosto se contraiu de desgosto. Como um relâmpago disparado do centro de um cataclismo, o ódio tomou seu coração. Mas continuou respirando fundo, para não perturbar ainda mais a menina consigo.

Buscou papel e a ajudou a secar o rosto:

_Eu vou te levar para casa. Onde estão suas coisas?

_No banheiro… –apontou a cabine de antes.

Ane buscou a bolsa esquecida no chão perto do vaso sanitário. Depois, abriu o armário de Lya e tirou o que mais fosse necessário para irem embora. Chamou um táxi. Lya nem perguntou sobre a scooter. Esta simplesmente não era o transporte mais adequado para o momento. Mais tarde poderiam buscá-la.

_Você não entende… –as lamúrias prosseguiam, feito nascidas de uma dor física muito profunda. –Ontem… e essa manhã… ele… estava comigo, Ane… comigo…

_Chega de pensar nisso, Lya… –ela sussurrou suavemente, amparando-a ao entrarem no carro.

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"Não precisa se preocupar em me pegar hoje. Fui embora mais cedo."

"Entendido. Está tudo bem?" –Heero confirmou e três horas depois ainda estava aguardando resposta.

Tinha sido um dia agitado. Atendera um incêndio residencial, fizera dois resgastes, um deles envolvendo um limpador de vidros no oitavo andar de um prédio no centro, e fora em duas visitas de perícia.

No seu caminho de saída para o último compromisso do turno, uma inspeção em uma instalação nova de uma indústria química que faria com Peskin, passou pela sala de Duo:

_Teve notícias de Ane?

_Hm… estávamos conversando, mas faz umas horas que ela não manda nada… por quê?

Heero parou para avaliar a informação e depois só meneou a cabeça.

_Está no comando. –murmurou, seguindo para saída.

_Não esquece de hoje a noite! –Duo foi até a porta, vendo as costas de Heero se afastarem.

_Se você deixasse… –Heero rosnou, sem se virar.

Duo colocou as mãos nos quadris e sorriu maroto, meneando a cabeça.

Bem nesse momento tocou o alarme:

_Escada 5, Pipa 4, vazamento subterrâneo de gás. Avenida Norte-Sul com Fortaleza. –delineou o sistema de som.

As galerias de novo. Era um problema constante e Heero só desejou que não fosse um acidente grave. Antes de chegar à viatura de Peskin, ouviu as sirenes e pôde assistir os caminhões avançarem em rumo da ocorrência, com pressa.

Às oito horas, estava em casa. Não chegou antes porque Peskin insistiu que bebessem uma cerveja antes de se separarem. Perguntou muito de Relena, do curso de capitão e dos planos que Heero tinha. Ao invés de se sentir repelido, se acostumara com o jeito sintético e sisudo do rapaz conversar e gostava de passar tempo com ele, o que parecia estranho devido a sua personalidade animada.

Heero se sentou um pouco na sala e checou o smartphone outra vez, mas não havia nenhuma mensagem. Arrancou os sapatos com descuido e se esticou todo no sofá. Resolveu navegar na internet e procurar notícias sobre a ocorrência daquela tarde e averiguar se tudo tinha corrido bem.

As galerias tinham pegado fogo. Ele não tinha porque se surpreender ao ler isto. Foi preciso duas horas para apagar todo o incêndio. Um bueiro, além da área de risco prevista, explodiu e causou um acidente de trânsito, mas nenhuma vítima fatal. O carro que estava passando no momento que o bueiro estourou perdeu a direção pelo susto e bateu em um poste. Ainda assim, Heero sabia qual era sensação de ter de correr para extinguir um gêiser de chamas antes que este alcançasse o tanque de gasolina de veículos ao redor.

Fora uma chamada bastante complicada, contudo como Duo e Quatre não mandaram mensagens significava que ainda teria de ir àquele estranho happy hour extraordinário.

Mal tinha chegado, já teria de sair de novo. Pensando que era hora de ir se arrumar, mandou uma mensagem para Relena antes de entrar no banho.

"Como foi seu dia?" –sem romantismo, sem culpa, indagou, verificando que fazia poucos minutos desde a última vez que ela estivera online. Se ela entrasse e respondesse, talvez ele perdesse a hora.

Como por sua causa seus amigos sairiam de casa num horário tão inconveniente, não queria desrespeitá-los por atrasar.

Mas de fato, o aplicativo avisou que havia uma mensagem e ele não conseguiu evitar verificar, deslizando a camiseta para fora do corpo com agilidade.

"Bem cansativo. Estou me aprontando para sair com as meninas agora." –ela respondeu e mandou um sorrisinho. –"E o seu?"

"Típico."

Relena pousou o aparelho na penteadeira e verificou o estágio de sua maquiagem no espelho – concluído. Com o peignoir cobrindo negligentemente seu lingerie, soltou os cabelos e bateu uma selfie. Decidiu não pensar muito e selecionou e enviou.

Nunca tivera a intenção de ser provocante, e analisando a fotografia, praticamente nada havia sido revelado. Era seu rosto que ocupava a maior parcela do retrato, o colo um pouco sombreado, disfarçado pelos cabelos, os seios apenas sugeridos pelo caimento fluído e transparente do tecido rosado. Seu sorriso espontâneo, lunar, e as estrelas dos seus olhos, favorecidos pelos retoques da maquiagem, seduziam mais que qualquer imagem explícita e meticulosamente planejada.

Ao encarar a tela, Heero imitou o sorriso dela – suave, seguro e simples – uma covinha surgindo de um lado apenas. Se tinha que sair, se tinha que ver alguém, era com ela que queria estar. E não sabia o que responder, se é que precisava. Não tinha prática, não, nenhuma, e estático ali, o aparelho na mão, a imagem dela perdendo o brilho aos poucos até o écran desligar, pensou no que Duo faria.

Tirou uma foto também.

Relena colocou o aparelho de novo na penteadeira, suspirou, e com os dedos ficou modelando os fios loiros. Encarava-se no reflexo, tentando se entender. Será que tinha se excedido? E agora? Podia confiar nele tanto assim? A foto não era inapropriada demais?

Começou a corar.

Olhou-se e fechou o peignoir apertado. E se ele pensasse que estava se oferecendo? Que ideia foi essa? Tinha se exposto demais…

Ele não respondia nada.

Ligou o aparelho e olhou a mensagem.

Dois tiques azuis.

Era tarde.

Passaram-se alguns segundos nos quais ela tentou se acalmar.

Voltou a analisar a foto e colocar defeito em tudo. Quando é que fora tão vã?

Estava com os olhos na janela de conversa quando a mensagem chegou, carregando com suas mãozinhas logarítmicas uma surpresa irresistível.

Os lábios dela se partiram conforme os olhos se arregalavam. Depois sorriu de alívio, mantendo o corado, deslumbrada.

Havia algo tímido no fundo daquele olhar álgido, e ao mesmo tempo, ousado, imperioso, lembrete de que o gelo também podia queimar. Não havia sorriso, apenas a sugestão de um retorcido severo nos lábios. A franja caía de um lado, intensificando o mistério do semblante que poderia ser contemplado uma vida toda e seguir indecifrável. Ela estava palpitante, os olhos delineando lentamente aqueles zigomas, o maxilar, o queixo, o pescoço, os ombros e as clavículas e por fim o pouco que aparecia do peitoral nu.

Não que ela tivesse se ocupado demais com o pensamento, porém, naturalmente, já tinha se pegado imaginando como seria o corpo dele… as camisetas sempre tão bem assentadas, envergadas com tanta estirpe, só podiam guardar músculos fortes e bem torneados, modelados pelo trabalho pesado e o exercício. Ele não era exageradamente robusto, ressumbrava vigor e saúde, e apesar de viver cercada de físicos perfeitos, era bastante satisfatório para ela se deparar com aquele relance do que poderia ser dela.

_O que você está fazendo aí, tão quietinha? –o ronrono de Tint nunca soou tão alto e alarmante a seus ouvidos. Mas ela conseguiu ser fria. Apertou o botão com sutileza e alternou a tela.

_Estava… –odiava mentir, mas se não mentisse agora, nunca mais teria paz na vida. –olhando uns tutoriais de maquiagem. –mas falou baixo e pouco convincente.

Tint terminou de se aproximar e apertou os olhos, lendo a feição rosada e sonhadora pintada na face da amiga.

_Suspeito… –avisou, entre dentes, apanhou o pincel que tinha emprestado de cima do móvel e saiu. Sabia muito bem que tipo de produtinho deixava alguém assim.

_Alguma novidade da Ane? –Lena resolveu perguntar, para colocar os pensamentos de volta nos trilhos.

_Nada. Mas não se preocupe. Ninguém é melhor que ela para içar a Lya da fossa. –Tint respondeu gritando, já do corredor.

Heero saiu do banho e logo conferiu seu aparelho por novas mensagens. Não havia nada. De repente estranhava aquele silêncio. Dava a impressão que algo estava errado.

Investigou. Entrou nas janelas de conversas de Ane e depois de Duo para ver as últimas vezes que estavam online. Ela, às seis horas e ele, às nove.

Sua paranoia quedou injustificada.

Já era nove e quarenta. Decidiu o que vestir enquanto secava o cabelo na toalha e estava pronto em vinte minutos. Saiu então para jantar. Ia encontrar os rapazes em um bar na Norte-Sul e sabia que lá não haveria nada substancial para comer.

Lembrou logo do fliperama. Era o lugar ideal para lanchar e ainda matar o tempo até o encontro. Dirigiu-se até o arcade e sem pressa aproveitou sua refeição. Depois, comprou algumas fichas. Havia uma atração nova ali, uma máquina lotada de pelúcias, personagens de um desenho animado lançado há pouco tempo. Decidiu testar sua coordenação motora fina e quem sabe servia de prática para controlar a Magirus.

Oito tentativas foram necessárias para pegar o jeito, mas cada vez que o brinquedo capturado caía ou garra parecia ter fechado, mas ficava vazia, mais determinação ele sentia para vencer. Embora tenha gastado mais dinheiro do que devia com um joguinho, tinha pescado um bichinho para cada uma das meninas e o quarto, que era uma espécie de lobinho, ele decidiu guardar para si como troféu.

A brincadeira tomou o tempo que ele precisava. E ao chegar ao bar, já encontrou Trowa e Wu Fei. Cumprimentaram-se com pouco entusiasmo. Nenhum dos três era de fazer muito alarde.

Sentando-se ao lado de Trowa, colocou o telefone em cima da mesa e sinalizou a garçonete.

_Grande coisa sair para beber quando não tem ninguém para dirigir. –chiou Wu Fei.

_Deu para se embriagar agora? –Trowa averiguou, aristocrático. –Não era coisa de 'pessoas fracas que você atende por aí'?

_Quem disse que quero beber até cair? Sabe como o limite do bafômetro é baixo. –Wu Fei devolveu com a violência de uma raquetada.

_Se um de nós for pego dirigindo sob influência é o fim da nossa carreira. –Heero asseverou.

_Falando em carreira, parabéns pela indicação, Heero. –lembrou Trowa.

_É verdade. Vamos comemorar o seu provável aumento de trabalho.

Trowa reprovou o comentário de Wu Fei franzindo as sobrancelhas.

_Só espero não ficar preso no escritório ao ser promovido. –considerando, Heero moveu-se um pouco para a garçonete servi-lo.

_Não vai ficar, pode ter certeza. Acho que a ideia do chefe é formar novos esquadrões… duvido que ele tire de cena operacionais tão eficientes. –Trowa racionalizou.

_Eu ouvi dizer que vão ser quatro vagas. Está concorrido. –Wu Fei contribuiu em um raro momento de fofoca.

O assunto acabou aí. Os três também não eram muito de falar. Heero não se importava que fosse assim. Observou os amigos e depois o arredor enquanto bebia da garrafa. Descobriu de repente o que estava errado consigo – estava perdendo o hábito de ficar sozinho.

Wu Fei controlava a hora, vigiando o mostrador de seu relógio de pulso.

_Está com pressa de ir embora ou o quê? Acabamos de chegar.

Wu Fei revirou os olhos ante a reprimenda de Trowa.

_Foi você que atendeu a ocorrência do vazamento de gás hoje? –Heero resolveu investigar com Wu Fei para distraí-lo.

_Não, foi a Sylvia. Eu estava no atendimento de rotina dos moradores da Ponte dos Voluntários.

Trowa gostou daquele tema e discutiram o acidente. Falar de trabalho era uma especialidade deles. Era uma conversa fácil de travar, que não comprometia.

_Catherine está bem? –e então Heero resolveu perguntar da namorada do amigo.

_Sim, está trabalhando. Houve uma cirurgia de emergência e o doutor Howard só confia nela. –com tranquilidade, girando a garrafa vazia no tampo, Trowa mencionou. Catherine era instrumentista no maior hospital da cidade.

_Ela vai ganhar por fora? –especulou Wu Fei, desagradado com todo o conceito. Era um profissional da saúde e odiava infrações de qualquer tipo em sua área.

_Não sei quais são os combinados dela com o chefe.

Wu Fei careteou.

_E como vai indo com Relena? –ignorando o amigo rabugento, Trowa deu sequência no assunto.

_Tudo bem.

_Quer dizer que dessa vez é sério?

Wu Fei não participava dessa conversa por não poder contribuir, totalmente sem interesse em relacionamentos românticos.

_Sim. –Heero confirmou sem hesitar.

_E quando é que não é sério com Heero? –uma nova voz entrou na conversa. Duo chegava, menos atrasado do que de costume, mas atrasado do mesmo jeito, acompanhado de um Quatre arrependido.

Sustentando uma expressão de tédio, Heero terminou sua cerveja:

_Pensei que tinha esquecido de hoje a noite. –repetiu as palavras que Duo usara, provocando-o.

_Esquecer? Jamais! Agora vamos embora… Boneca, a conta! –e já chamou a atendente.

_Hã? Mas o combinado não era aqui? –Wu Fei se inquietou, abominando a mudança impromptu.

_Sim, mas surgiu algo mais interessante.

Quatre guardava seu pacífico silêncio, sorrindo como única reação. Para ele, não fazia diferença.

_E para onde vamos? –Heero ser ergueu e deixou uma nota no balcão. Trowa fez o mesmo, mas Wu Fei seguiu sentado, metódico, aguardando Duo responder.

A garçonete veio e pegou o dinheiro e, por algum motivo, ficou esperando, abraçada na bandeja. Talvez estivesse deslumbrada com o conjunto que os cinco amigos formava, sem saber escolher qual gostava mais. Reparou em tudo.

Quatre estava elegante em roupas claras, de azul e cinza, os olhos verdes descansados, refletindo sua infinita calma, nenhum fio parecia fora do lugar em seu cabelo loiro.

Trowa, pelo contrário, usava preto e azul-marinho, a franja da cor do mel jogada sobre um dos olhos de lince, todo despojado. Parava de forma arrojada, com as mãos nos bolsos, observando a discussão de cima, o mais alto da turma.

Wu Fei, com os braços cruzados em frente ao peito, exibia uma carranca que de algum modo era mais charmosa do que ameaçadora. Devia ser assim porque o rigorismo combinava bem com suas feições minimalistas de chinês. Seus olhos escuros brilhavam, exaltados por sua constante contrariedade. Sacudiu a cabeça, tirando do rosto os cabelos negros, cortados em chanel, e seguiu implacável.

Heero também tinha as mãos nos bolsos das calças jeans, exercitando uma paciência pouco usual. O cabelo já tinha secado e por isso aparecia em um tom de castanho achocolatado, e seus olhos miravam o além, vazios, sem dar importância para a discussão.

Duo suspirou exageradamente, a jaqueta de couro até sacudiu de leve. Com os espertos olhos azuis, comunicou-se com Quatre e, depois, relaxando, cruzou os braços longos atrás da cabeça ruiva, a cabeleira feita em uma longa trança:

_Para um lugar perto daqui, na Belvedere. –informou.

_É uma danceteria. –Quatre ampliou.

_Mas eu não sei dançar! –Wu Fei raquetou de novo.

_Aprende, ué. –Duo devolveu.

_Eu não sei por que nunca quis aprender! –ace.

_Faz sentido. –Trowa observou, intelectual demais para a disputa.

_Eu hein, isto está parecendo High School Musical. Aposto que chegando lá, você dança! –Duo prosseguiu.

_Aposta? Quanto? –Wu Fei mordeu a isca.

_50 pilas. –Duo ofereceu, erguendo as sobrancelhas, raposo.

_Então eu vou!

Quatre trocou um olhar confuso com Heero, que só meneou a cabeça, sentindo uma estranha vontade de rir.

_Vamos logo. –e comandou, pondo-se em movimento.

Wu Fei pagou para a garota que ainda os avaliava. Saíram os cinco.

_Será que tem onde estacionar? Talvez compense ir andando. –começando a estratégia, Trowa parou perto de seu carro e supôs.

_Tem uma rua lateral… qualquer coisa, o seguro cobre. –Duo provocou, já montado na Davidson.

_Precisamos seguir você? –Wu Fei aproximou-se na Kawasaki, acelerando agressivamente, averiguando com pouco caso.

_Pode ir, fica na frente da pracinha, sabe de qual estou falando?

Wu Fei assentiu e disparou para fazer o retorno. Duo saiu também, o motor roncando, seguido pelos carros.

Ninguém pediu mais informações quando deviam. Somente acataram a mudança.

Heero desconfiava que houvesse um dedo de Ane em tudo isso.


Boa noite!

Estou orgulhosa desse capítulo.

Me contem o que acharam! :D

Muito obrigada por todo carinho e pelo tempo concedido!

Beijos e abraços!

14.03.2017