No último capítulo…
Nedved se vinga de Lya ter colocado o piercing por forçar ela e seu grupo a repetirem exaustivamente a coreografia. Depois do almoço, Akane encontra Lya chorando em uma das cabines sanitárias do vestiário. Ela tinha flagrado Miksa com outra garota e sentiu-se traída, já que tinha pensando que o interesse dele por ela era verdadeiro. Decepcionada e sem forças para a aula, Akane a acompanha de volta ao alojamento. Heero tem um dia ocupado e planeja encontrar seus amigos em um bar. Ao conversar com Relena por mensagem, trocam fotos confidenciais. Ele encontra os amigos para a noite de bate-papo, mas Duo ao chegar, propõe irem a uma danceteria.
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18
Ao deixar o conservatório naquela tarde, Akane ligou para Jean, pedindo que comprasse algo para servir de almoço a Lya. A menina seguia encostada em seu ombro, soluçando toda vez que os pensamentos se tornavam insuportáveis. O taxista não resistiu olhar as duas pelo retrovisor ao parar nos cruzamentos.
Depois, no quarto, Ane fez companhia enquanto Lya tentava comer. Jean tinha sido generoso e comprado um marmitex bem fornido na padaria a duas quadras dali, o que colaborou muito para a fome enfim vencer o desgosto. Contudo, houve muitos momentos em que Lya não sabia se conseguiria segurar qualquer coisa em seu estômago.
Enquanto a assistia almoçar, Ane permitiu-se sentar na cama em posição de lótus, recolhendo-se a seus pensamentos. Maquinava, cheia de vontade de pegar seu alicate multifuncional, o que usava para quebrar as sapatilhas, e cortar o mal de Miksa pela raiz. Bufou. Toda aquela agressividade era sua válvula de escape.
Como ele podia ser tão doente? E como Lya podia ter sido tão inocente?
Miksa quebrara as asas de Lya e Ane tinha de ser muito cuidadosa em seu tratamento para que ela voltasse a voar.
Não era justo.
Contudo, pensar assim não passava de desgaste contra produtivo e Ane sempre fora uma garota de soluções.
_Você quer conversar sobre o que houve? –verificou, inquisitiva, mas carinhosa, atenta ao rosto de Lya para verificar o menor transtorno.
Dando de ombros, Lya não sabia o que queria de verdade:
_Não tem mais o que falar. –respirou fundo e bebeu água. Seus olhos doíam e pareciam pesar cinco quilos cada. –Estou com medo. –e murmurou, timidamente.
_De enfrentar Miksa…? –tinha entendido bem, só queria provocá-la a falar. Sabia que era o melhor método de desapego.
_Sim e também… todo mundo vai saber… –era uma vergonha atrás da outra, precisava ser mais cautelosa com suas escolhas. E ainda que todo mundo avisou, e todo mundo reprovou. Mas não, ela quis teimar e provar todos errados. Não conseguiu, restando agora apenas a infâmia e impotência e uma dor que não cabia dentro.
Ciente de tudo isso e procurando as palavras certas, Ane suspirou:
_Lya, nunca tenha vergonha do que sente.
_Mas eu errei. –a voz desafinou, ameaçando a chorar. –Todo mundo vai me julgar.
_O que os outros vão pensar é problema deles. Sabe que estou aqui para te apoiar, certo? Você pisou em falso e vai ter de viver com isso, é verdade, mas não está sozinha e nem tem que se prender a isto o resto da vida.
_Mas… é difícil… não sei se vou conseguir olhá-lo nos olhos outra vez… –engoliu em seco, em crua preparação. –Ele não presta… mas… eu gosto dele. –confessou baixinho.
_Eu sei. Se não, não teria ficado tão magoada. A questão é: você o perdoaria? Se ele pedisse, perdoaria?
Dessa vez as lágrimas vieram mudas.
_Não. Nunca mais quero pensar nele.
_Muito bem. Ele não pensou em você em nenhum momento. Ele só pensa em si mesmo e não te mereceu um segundo sequer.
_Só que tenho de lidar com ele todo dia… as sessões individuais… as aulas de pas de deux… vou precisar de outro par.
_Não tem que se preocupar com isso agora. Por que não dorme um pouco? Afinal, hoje é a nossa noite.
_Não vou mais.
_Está cedo para decidir. Tenta descansar um pouco. –Ane insistiu, confortante, descendo da cama, ajeitando o travesseiro para Lya.
Lya respirou fundo, apertando os olhos com os dedos, procurando algum ponto de silêncio dentro de sua mente. Toda aquela positividade era-lhe enjoativa, mas não por isso ofensiva ou superficial. Só que ainda não acreditava nela.
Aproximando-se de Lya, Ane beijou-a no alto de seus cabelos, feito ela fosse uma criancinha:
_Ânimo, garota. Você é forte. Você é uma bailarina.
Lya esboçou um movimento de confirmação com a cabeça, procurou encontrar um sorriso para pôr nos lábios ainda envergados de desânimo. Pareceu pálida e sem graça, mas continuou a aceitar os incentivos. Ane piscou-lhe um olho antes de sair, cerrando a porta.
Ainda era cedo para conversar com Tint e Relena sobre o que houvera, mas Ane disparou a mensagem mesmo assim, encostada contra a porta do quarto de Lya. Jean estava lá fora, cercando, interessado em detalhes sórdidos.
_Nem vem que não tem. –Ane virou o pulso entregando o dinheiro de reembolso pela refeição providenciada.
_Tá pensando que eu sou concierge, querida? Eu que vou te emprestar o carro hoje e mereço entender o que está rolando.
_Não tenho nada para falar. A Lya teve uma crise e não estava bem para ficar na aula. Eu só trouxe ela para casa…
_Crise do quê? Ansiosa é a última palavra que usaria pra falar da Lya.
Ane retorceu o rosto, impaciente, e voltou a digitar. Franziu o nariz ao sentir que Jean continuava no aguardo de uma réplica.
_Jean… logo vejo que não é bom em matemática. –e saiu andando.
_O quê? Só diz isso porque sou loiro? –e ficou ainda mais confuso.
Ane riu e deu de ombros. Voltava a esse papo mais tarde.
_Preciso do carro às nove e meia. Te devolvo com o tanque completo. –reforçou, de costas, indo para seu quarto.
Ele estalou os lábios, as mãos na cintura, desgostoso por não poder com ela. Ruivas…
No resto da tarde, ela cuidou de seus assuntos. Já fazia umas semanas que estava bordando uns trajes. Sua mãe os tinha enviado para que tentasse contrabandear alguns no acampamento. Suas concorrentes por lá com certeza não resistiriam à tentação de ter um collant singular para uma apresentação única. Tomou um belo banho, colocou bobes enormes no cabelo, e enquanto alongava seu espacate, bordava lantejoulas, planejando mentalmente o que ia vestir na noitada.
Quando foi buscar Lya, estava pronta. Fanny e Valentina vieram se arrumar com ela e a acompanharam até o quarto da amiga. A elas, Ane não negou a verdade, porque podia confiar que seriam compreensivas apesar de tudo. Narrou a história enquanto se embelezavam, as três feições jovens colorindo-se de tristeza que superava os belos tons de sombras e batons.
_Ela não abre a porta! O que está acontecendo? –Nadia, também já vestida, gesticulou em direção da passagem fechada. Maira exibia uma expressão aflita, mordendo uma unha. –Não respondeu nenhuma mensagem e não atende o telefone.
_Pega leve, Nanusha. –Fanny intercedeu, ouriçada.
Nadia bufou. Não sabia o que passou, e estava bronqueada por Lya ter perdido o ensaio e nem ter avisado nada. Espantara-se por Nedved não ter tido outro surto psicótico. Ele simplesmente perguntou por Lya e, diante da negativa, desenhou uma careta de pouco caso e prosseguiu com a sessão.
_Liliushka! Vamos? Já está pronta? –Fanny insistiu, prolongando as vogais.
_Não vou! Me deixem em paz! –Lya anunciou, longínqua e perturbada.
Valentina contrapôs:
_Nós não vamos deixar você sozinha aqui.
_Se você não for, ninguém vai. –Maira apoiou.
_Isso é chantagem! –a voz de Lya soou mais perto da porta então.
_Está funcionando? –Ane brincou.
Uma fresta foi aberta:
_Eu não acredito que vocês vão desistir de ir por mim. –de repente, Lya murmurou baixo, feito com medo da própria voz.
_Claro que vamos. Que tal uma festa do pijama? Já toco pra Lena e pra Tint e a gente comemora aqui e agora. –Ane mostrou o celular.
_Mas vocês estavam tão empolgadas…
_Ainda estamos, se quiser mudar de ideia. –Fanny piscou um olho e fez Lya rir.
_Está bem. –pareceu ainda desmotivada, mas pelo menos se esforçara em reagir. –Vou me vestir.
_Maira, vamos precisar de seu poder de fogo. –Ane avisou então, forçando a fresta e invadindo o quarto. –Eu cuido do cabelo, você do make. –e começou a comandar sua operação.
_Entendido. –Maira se apressou até a escrivaninha que Lya usava de penteadeira para conferir seu arsenal disponível.
_Nadia, escolha a roupa. Lya, já pro banho. –virando-se e apontando, Ane era enérgica e espevitada.
_Está bem. –as duas rezingaram em uníssono ante a ordem e teve quem riu.
Era uma equipe toda de fadas madrinhas. Fanny foi trabalhar com Nadia, opinando sobre os sapatos e acessórios, e Valentina ficou de assistente tanto para Ane quanto Maira e, em tempo recorde, Lya estava pronta.
Daniil emprestara o carro ao invés de acompanhar Tint e Relena. Como ia ser o único rapaz na festinha, sentiu como se fosse incomodá-las.
Relena dirigiu e quando estava estacionando o Civic, Tint enfim recebeu um comunicado de Akane, avisando do atraso e que conseguira arrancar Lya do quarto. Prosseguiu explicando que estavam chegando e deviam esperar por elas.
As garotas escolheram um barzinho elegante, comentado, localizado no segundo andar de uma galeria hipster. Agora reunidas, as dez meninas em torno de uma mesinha minúscula lotada de drinques coloridos sorriam e conversavam, mas o tempo todo elas se entreolhavam e disfarçavam um fito preocupado em direção de Lya.
Bebericavam aqui e ali, arriscavam um flerte inofensivo, davam uma risadinha, falavam uma besteira, mas receavam dizer algo que não deviam e lembrar Lya da decepção.
Bem que Lya tentava levantar o próprio ânimo, mas suspirava de quando em quando, à deriva em si mesma.
Desperdiçaram uma hora assim. Aquilo não era comemoração.
Não estavam distraídas. Não estavam leves.
_Me deem só um minutinho. –Ane se levantou num estalo que ninguém pôde prever, impaciente, e saiu para o terraço decorativo, o teto todo feito de cordões de lampadinhas. Foi seguida pelos olhos de todas.
Deitado na sua sala no quartel, Duo esperava o turno acabar quando seu telefone tocou.
_Alô? –atendeu com pressa displicente, nem olhou o identificador.
_É do corpo de bombeiros?
_Hã? –reconheceu a voz e comprou a brincadeira. –Sim, senhorita. Por favor, informe qual a emergência e sua localização.
_É um coração partido, precisamos de ajuda urgente. Falta muito para você sair?
_Posso atendê-la em vinte minutos. Para onde devo ir? –seguia com o tom robótico e monótono que a central de chamados costumava usar, divertindo-se com a encenação.
_Traga seus rapazes se eles estiverem com vontade de se divertir. Vamos aguardar vocês no Cimarrón.
_Está certo. Você vai me explicar o motivo de precisar de reforços?
_Minha amiga está muito mal, totalmente desiludida. O clima aqui está péssimo… estão todas chateadas por causa do que aconteceu. –Ane não deu detalhes de propósito, certo de que eram desnecessários.
_Entendido. –saiu da cama em um pulo. –Procurou as pessoas certas.
_Muito obrigada, senhor bombeiro… –ela ronronou, deleitada, interpretando uma inocente brincalhona, sua voz fazendo cócegas nos ouvidos dele.
_Estou louco para te ver.
_Por quê? Não mudei nada desde a última vez. –embaraçou-se, risonha.
Ele sorria sozinho, vendo-a com os olhos da mente.
_Continua linda? –pediu, solene.
_Mais a cada minuto que passa. –gracejou, dramática também.
_Bom saber. Assim não vamos destoar. –a réplica dele causou uma risada irresistível:
_Você é tão convencido. –Ane acusou, moderada.
_Já não disse que nascemos um para o outro? –Duo se justificou, risonho por sua vez.
Ela mordeu o lábio inferior:
_Disse… –agora estava louca para vê-lo também. –Eu preciso voltar, as meninas não sabem do meu plano ainda.
_Copiado.
_Ah, não deixe de chamar o Heero…
_Óbvio. Vamos toda a trupe.
_Perfeito! Beijos, amor.
_Te amo.
Encerrada a ligação, segurando o celular apertado nas mãos, Ane deu a volta para entrar no bar e arrebanhar as meninas:
_Vamos dar um fora daqui.
Tint estranhou:
_Por quê?
_Vamos para o Cimarrón.
Fanny mostrou um sorrisão:
_Agora falou minha língua.
Valentina e Relena trocaram um olhar aprobatório e Lya retorceu o rosto:
_É sério? Querem dançar mais?
_Sempre! –Maira tomou o último gole de seu drinque enquanto todas se erguiam para acertar a conta no balcão. O deslocamento de tantas ninfas era acompanhado com estranhamento por todos os presentes, entre incomodados com a comoção que criavam e fascinados pela graça de suas formas e movimentos.
Nadia, Dana e Mitra pularam nas motinhas.
_Tint! Vem, vamos buscar o Daniil. –avisou Ane, puxando Tint pelo cotovelo.
_Boa! Lena, vai na frente com os pequenos cisnes. –Tint orientou.
Relena assentiu, mostrando um sorriso arrojado:
_Venham, meninas, o carro está ali…
Assim, Lya, Maira, Fanny e Valentina a seguiram, conversando animadas, rindo do que foram chamadas, parando para se dar as mãos e executar porcamente a Dança dos Pequenos Cisnes, bem no meio da calçada, atrapalhando o fluxo, morrendo de rir. Fanny quase caiu, esbarrando em uma lata de lixo. Isso porque ainda não estavam bêbadas. Depois se largaram, e saíram correndo lindamente para alcançar Relena.
_Devíamos ter filmado! –Maira reclamou, entrando no carro.
Gargalharam. Relena estava se contagiando com tanta animação.
_O que você está aprontando agora, Santa Ane? –Tint fechou a porta e apressou-se em passar o cinto, sentindo a motorista arrancar.
_Nada, só chamei os bombeiros… –e olhou sobre o ombro, checando um ponto cego e começando a manobrar.
Com um franzido de sobrancelhas, Tint procurou o que Akane quis dizer com aquela explicação.
_O que você fez foi é começar um fogo, isso sim! –e quando conseguiu entender, abriu um sorriso malévolo de puro prazer.
_Lya está precisando. –com veemência, Akane gesticulou com a mão direita, soltando o câmbio.
_E Heero?
_Já providenciei isto também.
_Pensa mesmo em tudo, cretina. –Tint ligou o rádio e aumentou o som.
_Que amiga pensa que sou? Não deixo ninguém desamparada! –e dando uma risada arrogante e sofisticada, Akane acionou a quarta. O perigo ia dobrado naquele pequeno Chevrolet.
_Liga pro Daniil avisando que estamos chegando. Você não quer acordar os pais dele, quer?
_Bem que eu queria. Aqueles chatos…
Tint e o senhor e a senhora Nikitin não se davam bem e não faziam questão de mudar isso. Eram muito diferentes, muito teimosos, muito incompatíveis.
_Ficar dando mais razões para eles odiarem você não vai colaborar em nada.
_Parece a Lena falando assim, que horror…
_Isso porque a Lena está certa.
_Olha, já fiz tudo que podia… Mesmo se eu fizesse tudo do jeitinho que Daria quer, lendo a mente dela e tudo o mais, ainda assim não seria suficiente para ela e as amiguinhas.
Akane estalou a língua:
_Que péssimo. –ia atenta ao trânsito, pensando em como a situação era triste para Daniil. Ter de escolher entre sua família e sua vida era um dilema que ninguém devia ter de enfrentar. Suspirou, amuada por um instante. Relanceou Tint a seu lado. –Mas Cynthia Yelizaveta, não ligou ainda por quê?
_Está bem, estou ligando, sua insuportável…
Ane deu de ombros e parou o carro.
_Alô? É o D de delícia, A de amor, N de neném, I's de inigualável e L de lindo que está falando?
Daniil ouviu tudo de olhos fechados. Grunhiu penoso:
_Tint… O que foi agora?
_Estava dormindo, bebê? –estava atacada.
Akane tentava não explodir em gargalhadas.
Daniil pegara no sono deitado no sofá enquanto tentava distrair-se assistindo "O Retorno do Rei".
_Estamos aqui fora, viemos te raptar. Venha por vontade própria ou vou invadir o lugar!
_Mas você tem a chave… –ele argumentou, sonolento demais para fazer sentido. Tint riu, amorosa:
_Danny, se arruma e vem. Vamos para o Cimarrón.
_Que horas são?
_Meia-noite. –aproximou.
_Está bem…
_Coitado, não pensei que estivesse tão cansado. –Tint observou, insistindo em olhar para a tela do aparelho.
_Quer ficar aqui com ele? –Ane sugeriu.
Tint colocou-se pensativa e não falou nada. Ia esperar para ver Daniil antes de decidir. Levou dez minutos para ele aparecer, mais abatido que o costumeiro, e debruçar na janela de Tint. Beijaram-se de forma doce, apesar de breve.
_Agora fiquei preocupada… quer vir mesmo? –e a moça verificou, atenta aos olhos do namorado.
_Mas você não falou em Cimarrón? Pensa que vou te deixar ir sozinha para lá? –ele considerou, prudente, antes de abrir a porta de trás e se acomodar. –Boa-noite, Ane. –era sempre muito polido, não importava a situação.
_Está com ciúmes de mim agora? –Tint prosseguiu, altiva.
_Não posso deixar toda a diversão para você… –ele a provocou, a voz de barítono mais sensual do que planejava.
Escandalizada, ela reclamou:
_Ladino!
_Mas de onde veio essa ideia?
_Tramoia dessa lambisgoia aqui… –com uma risada fanhosa, ela respondeu, procurando algo na bolsinha e indicando a motorista com um requebrar da cabeça.
_Lya está muito mal, precisa de distração, de ver gente nova, de suar… –Ane justificou, olhando-o pelo retrovisor.
_Só o que ela precisa é de um boy que ligue no dia seguinte. –Tint disse entre o retoque do batom.
_Não estou dizendo que a cura seja outro amor, mas até que ajudaria… –e deu de ombros, gesticulando com a mão direita.
Daniil mostrou um triste sorriso ponderado. Concluíra tudo, apesar de alheio aos fatos.
Ao chegarem, ele reconheceu seu Civic logo, sinal de que todas já os aguardavam. Elas acenaram para os três de perto do palco, estiveram assistindo a pista e se hidratando em preparação da festança.
_Cumprimentos, minhas jovens. –Daniil mostrou seu sorriso sereno e por pouco não mesurou como um charmoso príncipe.
As meninas riram e responderam numa cacofonia aguda.
Não demorou muito e o mestre de cerimônia anunciou uma reggaeton e Maira puxou as amigas pelas mãos:
_O que estamos esperando?!
As garotas gargalharam de pura exultação. Infiltraram-se entre os demais para aproveitarem sua primeira música da noite.
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Não foi preciso muito para Duo convencer os colegas em encontrá-lo na danceteria dali à uma hora. Foi só mencionar as amigas da namorada que todos se animaram. A equipe do segundo turno do auto-escada era composta oitenta por cento de solteiros dispostos a trabalhar muito e se divertir ainda mais, exatamente o perfil que Duo favorecia. E estavam mesmo sem ideia do que fazer com o resto da noite, só sabiam que não queriam voltar para casa e assistir reprises, nem dormir.
O segundo turno do bomba já era mais pacato, o que parecia mais que mera coincidência, e ouviram o convite sem se motivar, cansados. Tinha sido um turno difícil. Depois do vazamento de gás, as duas equipes fizeram três resgates e atenderam a um incêndio numa festa de churrasco além do limite de lotação que dera bastante trabalho.
_E Heero, Trowa e Wu Fei? Não vai avisá-los? –Quatre verificou depois que Duo terminou seu anúncio na sala comunal.
_A gente fala na hora, melhor pegar eles de surpresa.
_Sabe que detestam quando age assim. –Quatre achou por bem lembrar, com um sorriso sereno.
_Correção: Wu Fei detesta. –fechando a porta de seu armário, Duo brincou. Com o fim do horário de trabalho, foram buscar seus pertences no vestiário para irem para casa se aprontar.
Quatre não resistiu e riu, assentindo:
_E vai provocá-lo mesmo assim?
_Se eu avisar com antecedência, ele se irrita, se eu avisar na hora, se irrita… não vejo diferença! –Duo gargalhou.
_Concordo. –suspirante, Quatre murmurou enfim.
_Eu passo na sua casa.
_Não precisa…
_Eu passo lá daqui uns vinte minutos.
_Combinado.
Quatre não sabia por que Duo insistia em irem juntos se ele corria tanto com sua potente motocicleta. Já fazia cinco minutos que perdera a Davidson de vista. Então, para fugir da rotina, resolveu acelerar seu Corolla novinho, que deslizava pelo asfalto com a graça de um grou.
_Estou pensando… talvez eu devesse comprar um carro. –comentou Duo quando veio a seu encontro, analisando o lindo automóvel.
_E a Davidson? Vai encerrar seus dias de aventura? –e foi a vez de Quatre ser o espirituoso, e ele se saía muito bem.
Duo riu, gesticulando obtuso.
_Não sei… não consigo me imaginar me desfazendo dela… só que de repente não me parece mais tão vantajoso usá-la, entende?
_Converse com sua namorada sobre isso. É com ela que está preocupado, certo?
_Ane não se importa com a moto. Na verdade, gosta muito… –explicou, divertido e acanhado. –Vive dizendo que quer pilotar, mas tenho medo de ela cair, é tão magrinha… não vai aguentar com o peso. –gargalhou. –Enfim, vou fazer umas simulações de financiamento. Faz tempo mesmo que estou de olho no Renegade.
_Você sabe que meu pai trabalha no setor de compras do departamento, não é?
Duo ergueu as sobrancelhas, captando o sentido da indireta em nano segundos:
_Por isso que amo meus amigos! –e passou um braço pelo ombro de Quatre, puxando-o numa quase chave de pescoço, afetuoso, mas bruto, amassando o algodão da impecável camisa azul que o amigo vestira. Quatre era tão cuidadoso que nem ao dirigir amarrotava a roupa. Entretanto, contra tamanha gratidão, não tinha escapatória, e sorriu como sempre, apesar de um pouco incomodado.
Entraram no bar e buscaram os amigos. Fora jogo rápido e logo Duo estava parando a motocicleta na vaga mais espaçosa que encontrou.
_Viram a ambo 12 parada no cruzamento lá atrás? –e veio divagando ao se reunir com os amigos na entrada do salão. Não parava de falar.
_Deve ser um desses irresponsáveis… –Wu Fei se manifestou, sentindo que devia tomar o assunto para si. Nunca deixava de se aborrecer com a trabalheira desnecessária que bêbados e drogados davam, quando na verdade só precisavam se portar com autodomínio. Não entendia como as pessoas podiam ser tão fracas.
Heero meneou a cabeça, impaciente, como sua única manifestação.
_Uma madrugada de domingo nunca é tranquila quando se está de serviço na cidade… –Trowa resolveu comentar. O trabalho na floresta envolvia bem menos variáveis.
Entraram no Cimarrón. Nunca nenhum deles estivera ali, em um bar dançante no próprio sentido da palavra. O salão era imenso, e muitos casais bailavam ao som de um ritmo latino que eles não sabiam reconhecer. Todos os presentes sorriam e pareciam felizes da vida, feito não existisse um problema no mundo. E era exatamente assim ali – só dançarinos entendem como a música e a dança pode obliterar a realidade.
Alguns pares davam espetáculos, outros se contentavam em seguir o ritmo e alguns estavam ali pela primeira vez, divertindo-se com seus erros, se esbarrando de vez em quando com outros na pista, reclamando um com outro de pisões no pé, mas tudo sempre acabava em gargalhada.
Os cinco rapazes curtiram um choque momentâneo.
Definitivamente, Heero pensou, havia um dedo de Ane nisso.
Enquanto os cinco amigos averiguavam a situação, como bons soldados que não entravam em terreno desconhecido sem um ágil reconhecimento de seus riscos, a equipe do auto-escada os alcançou. Os irmãos Bernett do primeiro turno também aproveitaram o convite, deixando o grupo ainda mais numeroso. Foi uma sequência de apertos de mãos e tapinhas nas costas, ninguém exatamente confiante em encarar aquela missão, sentindo de repente que seu treinamento não fora tão completo.
_Alguém fez aula de dança na Academia? –Bernett coçou o pescoço.
_Quando falou em danceteria, achei que era balada… –Adin sacudiu a cabeça, frustrado.
_Vocês estão com medo? –Wu Fei acusou, embora estivesse muito pouco à vontade no ambiente por sua vez. Trowa riu, mas não falou.
Os demais integrantes do escada caretearam ante a menção do sentimento, indecisos. Curiosamente, eles sentiam-se mais dispostos a entrar em um prédio tomado pelas chamas do que se aproximar da pista de dança. Discutiam:
_Oras, eu sei que você dança, Pit…
_Estou fora de forma.
_Mas veja só quanta gatinha…
_Será que vieram todas acompanhadas?
_É só se apresentar como bombeiro que dá tudo certo.
_Farnesi veio até com a camiseta do caminhão! Tudo isso é desespero?
_Vê se não enche!
_É que a mamãezinha dele não colocou as limpas na gaveta…
Dessa vez Farnesi falou um palavrão escabroso. Era tão fácil irritá-lo. Todo mundo riu.
_Onde será que estão as bailarinas que o tenente falou?
A equipe do escada ia se animando aos poucos. Heero apenas assistia eles conversarem, desinteressado, e Quatre a seu lado resolveu tomar à dianteira:
_Cavalheiros, melhor entrarmos. –estava cansado de ficar parado ali, na porta, além de que era uma atitude extremamente deselegante da parte deles.
_Vamos buscar umas bebidas. –assentindo, Lech sorriu simplório e recebeu a aprovação geral.
Duo a todo o momento tentava localizar uma cabecinha laranja no meio da multidão inquieta. Sacou seu celular, tentando alcançar Ane, perguntando-se se ela o ouviria tocar no meio da música.
_A Relena está aqui. –e resmungou para Heero, erguendo e baixando as sobrancelhas, maroto, com o telefone na orelha.
Heero orgulhou-se sempre por não ser uma pessoa pegajosa, excessiva, inconveniente. E não o era agora. Não o seria nunca. Nem em relação à Relena. A ela sempre daria todo o espaço e independência que ela desejasse, modesto o suficiente em aceitar que entrara na vida dela durante seu percurso, sem direitos de dominá-la ou ditar a direção em que devia seguir. E assim como ela não se importava que ele passasse um tempo com seus amigos, ele aceitava que ela saísse com as amigas, queria que ela se divertisse, a confiança já provada.
Por outro lado… ele seria mentiroso se dissesse não querer passar todos os momentos com ela. Os possíveis e os impossíveis. Queria tanto que o coração aquecia, mas ele guardava para si a intensidade, curtia-a toda, egoísta. Estar com ela era sua maior alegria, secreta, sagrada, rara. E nunca chegaria o dia em que o nome dela não soasse doce a seus ouvidos. Quase abrindo um sorriso, seu olhar azul de pronto ficou mais vivo, prendendo-se de repente a cada lampejo loiro que via aparecer entre os festeiros.
_Todo mundo parece dançar tão bem… –Quatre elogiou. Ainda assim, preferia apenas assistir, nada familiarizado com os ritmos.
Wu Fei grunhiu, desdenhoso, sentado junto ao bar, de onde não pretendia levantar a noite toda.
_Por que resolveu nos trazer aqui? Até chamou o escada… –Trowa estava no mínimo intrigado.
_Ane pediu. Queria companhia. Pelo que entendi, uma das amigas dela levou um fora feio e estão tentando animar ela. –Duo ainda estava aguardando Akane atender.
_Lya. –Heero resmungou sua conclusão. Duo não sabia confirmar, mas Heero não precisa disso. O que as amigas dela haviam dito se cumpriu e ela devia ter acordado de seu devaneio.
Os dois continuavam olhando as pessoas, em busca de um rosto familiar. Mas ainda não reconheciam ninguém. Akane tampouco ouvia o telefone.
_Será que ela é bonita? –Victorious tentou imaginar, sorrindo sonhador.
_Esta é a ideia. –Duo deu uma palmada congratulatória no ombro do rapaz. –Não se preocupe, que assim que encontrarmos as garotas, a gente apresenta vocês dois. –e voltou a encarar a tela do celular, a foto sorridente de Ane, muito maquiada para alguma apresentação, exibindo a chamada perdida. Victorious ficou pimpão de pronto. Trowa sorriu, achando-o engraçado, mas não falou nada.
_Quem espalhou para os caras do primeiro turno? Não vai ter garotas suficientes assim. –Bayani estava incomodado com os irmãos, que disparavam olhares charmosos para qualquer garota que passasse por eles. Farnesi, de braços cruzados, estreitava os olhos com animosidade em direção dos Bernett. Pit apenas se preocupava em beber, de carona aquela noite.
_Fui eu. –Lech ergueu o queixo com afronta. Orgulhava-se de ser uma pessoa de boas relações, o folguista preferido. Tinha amizade com todos os turnos e estava chateado porque só conseguira falar com os Bernetts.
Quatre incomodou-se com a ideia de rixa, sem perceber que era tudo saudável e parte da convivência normal dos bombeiros do quartel 110. Mas qualquer pequeno conflito o desestabilizava. Era difícil entender como ele ainda conseguia ser amigo de Heero, Duo, Trowa e Wu Fei, quando a especialidade deles era discordar um do outro.
_Rosnem o quanto quiserem, mas sem morder, hein? –a advertência bem-humorada de Duo desfez as carrancas dos companheiros. A hierarquia acabava fazendo efeito mesmo fora do trabalho.
Heero desconsiderava a cena totalmente, ciente de que a tensão era por um motivo fútil e não persistiria. Toda sua concentração estava em achar Relena. Como Ane não atendeu Duo, não arriscou tentar ligar por sua vez. Escaneava a pista, o coração agitado com a doce ideia de tê-la tão próxima de si, ansioso em descobri-la. A beleza dela, preciosa em cada detalhe, única e incomparável, voltava com tanta força a seu pensamento que podia até sentir o perfume de maquiagem cara e baunilha que a identificava. A mente é melhor que qualquer fotografia, porque registra algo para cada sentido rememorar.
O mestre de cerimônias anunciou a reggaeton, para a alegria da massa, que mergulhara fundo no transe imposto pela música. Mesmo da vista privilegiada que tinha do bar, estranhamente ainda não encontrara nenhuma das meninas. O ambiente era bem iluminado e espaçoso, mas ficava mais lotado a cada minuto e, descontente com os resultados obtidos da observação, Heero decidiu atacar, deixando a garrafinha de Bud e descendo até a pista.
_Para nos ajudar com o refrão, vamos escolher algumas senhoritas para subirem ao palco! –um dos cantores anunciou, fazendo uma pausa no meio da canção, enquanto os músicos seguiam tocando, repetindo o trecho.
Para quem só escutava, como Heero, a batida podia ser irritante. Sem querer, ele levou sua atenção ao palco, acompanhando os dois rapazes trajados de rappers caribenhos apontando para a multidão, escolhendo em instantes quatro garotas. Não foi surpresa achar Akane e Tint entre elas.
Duo estava digitando uma mensagem quando Trowa o acotovelou:
_Não é sua namorada lá?
A dupla voltou a cantar em espanhol uma letra exaltando o requebrar e o rebolar e elas não se poupavam em ilustrar, levadas antes de tudo pelo ritmo e sua comunicação universal.
Embora Quatre esperasse que Duo fosse reagir com ciúmes, ele assentiu e abriu um sorriso carregado de malícia e deleite ao reconhecê-la no palco. Os demais rapazes do escada pararam para apreciar, concluindo que estava sendo muito melhor do que imaginaram. Wu Fei recorreu a um rosnado de menosprezo, voltando a mexer em seu celular.
Heero parou junto às pessoas que seguiam apaixonadamente dançando, cantando e assistindo o espetáculo e, como que pela benção de Terpsícore, abriu-se um espaço que o levava direto a Relena. Com um gingado suave e divertido, ela acompanhava a música, rindo e brincando com as amigas, ora olhando para o palco, ora concentrando-se em aproveitar a felicidade do momento. Dando uma volta, ela ergueu os olhos e o achou ali, a poucos passos de si, um desejo realizado. Sorriu com mais força, mordendo o lábio inferior, respirando fundo.
Havia algo que ele nunca tinha visto na luz dos olhos dela – um propósito intenso e irresistível, ousado e atrevido. Seu íntimo estremeceu com a força daquela sensação.
Usando a leveza e o desembaraço de uma ninfa, ela avançou, deu um pequeno salto para impulso e atirou-se nos braços dele, sem medo de ele não saber o que fazer. E foi como mágica, exatamente como ela sempre quis ser manejada por um parceiro. Primeiro, ao alto, as mãos dele sustentando-a com força e segurança. Depois, depositada com delicadeza sobre o ombro dele, sentada, as pernas em arcos formosos.
Segurá-la não era difícil para ele. Ela era leve e delgada, e em questão de segundos ele a tinha pousado em seu ombro. Fazia tanto tempo que não executava aquela acrobacia, nunca imaginou que ainda se lembrava. Mas espanto maior estava em como fora natural a sincronia, o olhar e o impulso, feito lesse mentes, feito conhecesse o corpo dela como o seu próprio.
Em torno, todo mundo aplaudiu, encantado com a manobra. As bailarinas entraram em êxtase, aproximando-se do casal, vendo uma altiva Relena exibir-se tal qual uma ave majestosa pousada no alto de um pilar esculpido nas formas mais ideais, os músculos nos braços de Heero revelando-se com o esforço. E ao fazê-la descer, ele deslizou-a amorosamente por seu peito, sentindo as linhas firmes que a desenhavam, seu calor eletrizante lavando-o todo.
Relena tocou o chão em sous-sus, mas logo dispensou a técnica, vestida de adrenalina, sem conseguir notar nada no mundo em redor a não ser ele e suas mãos agarradas ao seu quadril. O prazer de ser tocada por ele era sempre novo, sempre total. Abandonou seu peso, jogou a cabeça para trás, deitou-a no ombro dele, cobriu as mãos dele com as suas.
A intimidade e confiança do momento levou o coração de Heero ao delírio. Certamente ela o sentia rufar contra as costas.
Boa-noite!
Esse ficou mais compridinho!
Demorei, né? Nem me fale! Que canseira que esse capítulo me deu.
Mas gostei do resultado! Espero que gostem também!
Esse capítulo está um catálogo automobilístico! :P Dei folga para as comidas dessa vez! Aprovaram as escolhas dos carros?
O alicate que a Ane cita é um no modelo do Leatherman Wave, não achei como expressar em português o que essa ferramenta realmente é. É uma espécie de canivete, mas sua função principal é a de alicate, com outras lâminas e ferramentas no cabo. É uma arma mortal! :O
Para escrever o baile, ouvi várias reggaeton. Gostei muito das do Enrique Iglesias, e "Gasolina" de Daddy Yankee é sempre um clássico. :) Gosto do Pitbull também, se é pra falar do estilo. :P
E se alguém tiver curiosidade de ver a pegada executada por Relena e Heero, pode pesquisar no YouTube o vídeo "Ballet Shoulder Sit from a Running Start", da bailarina Jennifer Kronenberg e seu marido. Não é fácil descrever, por isso não tentei complicar demais explicando cada movimento, deixando como sempre abertura para vocês imaginarem como preferirem.
No início, minha ideia era fazer uma pegada menos elaborada, com arabesque, mas pensei que a shoulder sit ia ficar menos frufru e combinar mais com o espaço e a ideia. O fishdive é lindo de ver, mas impossível de descrever e sem graça de só citar, e não imagino que Heero ainda se lembre de como fazer a manobra tão bem a ponto de executar impromptu, sem ensaio.
A noitada deles não acabou, mas por ora me ausento para ir trabalhar em "Segundas Chances", minha backstory de Dante Yuy de "Tentando a Sorte", publicado no meu Fictionpress.
Deixe seus comentários, críticas, sugestões, enfim...
Agradeço demais o carinho e a atenção de todos vocês!
Beijos e abraços e até logo!
03.04.2017
