No último capítulo…
Akane salva Lya após ela ter flagrado Miksa com outra garota no vestiário feminino, levando-a de volta para o conservatório e consolando-a. Mais tarde, as garotas saem para comemorar a seleção para o concurso em um barzinho. Akane decide levar todas para o Cimarrón, uma casa de dança latina, e pede que Duo vá encontrá-la lá, levando os amigos. Quando Heero e Relena se encontram na pista de dança durante o reggaeton, executam uma manobra de balé, a shoulder sit, no improviso, demonstrando sua linda conexão mental.
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19
Envolvendo-a com força usando os braços, Heero fez um segundo tornar-se eterno, o último antes do tempo voltar a correr. Fê-la virar-se para ele, a música ia acabando ao passo que saíam do centro das atenções.
Ela mordia o lábio inferior, ainda mergulhada em delírio. Usou as duas mãos para tocar o rosto dele, descobrindo com as pontas dos dedos a fina camada de barba por nascer ao segurar o maxilar dele com força:
_Você está aqui… –comemorou e buscou juntar sua testa a dele, feito quisesse mais provas de que ele era real. Nunca julgava estarem próximos o suficiente. Foi recompensada ao sentir as mãos dele deslizando por sua cintura, agarrando suas costelas, os polegares pousando nos relevos do quadril, afagando a curva do osso com movimentos circulares.
Heero fora o único que desvendara a rota certeira para tocar sua mais pura essência. Dominara-a inteira sem esforço. Na presença dele, era só nele em que queria, devia e precisava se concentrar, capturada numa inexplicável obsessão da qual dependia sua vida. Não que não vivesse sem ele, não, deveras, só descobria o que realmente era viver quando com ele.
Loucura: era sempre como ela gostava de definir, a única palavra que vinha a sua mente para explicar o que experimentava com ele. Loucura do melhor tipo, aquela que faz tudo ter sentido, um privilégio com que nos deparamos só uma vez na existência. E ele sabia, sabia minuciosamente o que fazia com ela, o eclipse sedutor de seu sorriso garantindo-lhe o cumprimento de todos seus desejos mais ousados, mesmos daqueles que nenhum dos dois conhecia ainda.
A primeira realização estava ali. Não tinham planos de se encontrar e aquela noite que passariam sem se ver não parecia que faria falta. Entretanto, sempre fazia. De repente não viam mais porque se dar ao luxo de desperdiçar oportunidades de ficarem juntos. A vida toda não parecia suficiente de repente para compensar tantos anos separados, antes de se conhecerem.
_Como veio parar aqui?
Os olhos dele percorreram com vagar o rosto dela, desenhando cada traço, dando atenção especial à boca bem realçada pelo batom da cor de um Borgonha raro antes de dar sua resposta:
_Ane não te contou…? –parecia que não queria falar, o timbre muito preguiçoso e rouco. As mãos dela tinham deixado seu rosto para pousar em seus ombros e massageavam timidamente a linha firme dos tendões, produzindo pequenos pontos de contato eletrizante, espalhando-se por toda a pele.
_Ah… claro… Só podia mesmo ser coisa dela…
_Lição número um: ela está sempre aprontando. –o enfado quanto ao fato que ele apresentava só aumentava seu charme.
Relena se permitiu rir por um instante, a luminosidade do rosto terminando de tecer a nuvem de fragrância, amor e fervor em torno deles. Não havia nada mais que ele desejasse vestir do que aquela sensação.
_Seus amigos também vieram?
E nem percebiam que dançavam vagarosamente, sem acompanhar a reggaeton que seguia, mas o seu próprio ritmo.
_Sim. Ela chamou todos para tentar animar a Lya.
_Depois vou cumprimentá-los.
_Depois…
Ela riu mais provocante dessa vez e colou seu corpo ao dele, seu suspiro satisfeito roçando o pescoço de Heero, cujas mãos escorregavam mais e mais para a base das costas dela, encontrando descanso na curva suave e firme da lombar.
_Consegue fazer todas as pegadas? Sabe que daria um ótimo bailarino… –ela brincou. A sugestão fê-lo retorcer o nariz em protesto. –O que gosta mesmo é de exibir sua força… –marota, seguia com o desafio.
_Sempre faz sucesso. –as sobrancelhas foram jogadas para cima, dando-lhe um ar de conformada inocência.
_Seu terrível…
_Estou errado?
_Heero! –ela o esmurrou no ombro, risonha, enrubescendo, testando o quanto ele era forte. Não duvidava que ele fosse capaz de com apenas um movimento tirá-la do chão, tomá-la nos braços, carregá-la para longe.
Porém, ele preferiu uma abordagem mais sutil e muito mais eficaz. Silenciou-a com um silvo abafado em sua bochecha antes de tomar seus lábios. O que começou como um carinho recatado, doce e delicado, um mero selar de lábios, tornou-se um beijo de bocas abertas e línguas que se acariciavam, sedentas e famintas.
A música terminou enfim com aplausos e comemorações. Os cantores se despediram e a banda voltou a tocar salsa. Na beirada da pista, Duo e os rapazes encontraram Akane e as garotas. Com um pouco de tardança, Heero e Relena também se aproximaram, as mãos dadas, sujeitando-se a aturar brincadeiras e cumprimentos pelo sucesso da manobra.
_Quem diria, hein, chefe? –Bernett gracejou, assentindo com um bico de exagerado pasme.
_O senhor tem um passado que ainda não nos contou… –Adin corroborou, as sobrancelhas franzidas em exagerada desconfiança.
_O que mais você faz, Yuy? Consegue ficar na pontinha dos pés também? –Bayani foi além, criando uma corrente de riso. Até ergueu os braços e deu uma voltinha.
_Ótimo port de bras! –Ane brincou e se pendurou no bíceps dele. Bayani a ergueu alguns milímetros do chão durante alguns segundos, envoltos nas gargalhadas. Duo puxou Ane pela cintura a seguir, trazendo-a de volta a si.
Sem se ofender com a companhia, sensato, Daniil sacudiu a cabeça, seriamente impressionado, sendo o mais apto a julgar:
_Foi perfeito. –não costumava usar aquela palavra com prodigalidade.
_Quando vai ser minha vez? –Tint se sentia em casa com a bagunça e teve que tirar sua casquinha. Debruçou-se no ombro de Heero e piscou várias vezes para ele, se fazendo de pidona irresistível.
De sobrancelhas franzidas, ele atrapalhou-se e teve que contar com a providência de Akane:
_Pode parar que não te dei essas liberdades… –tirou as mãos de Tint de cima do irmão, interpondo-se. –Só Relena tem acesso total…
Houve mais algazarra divertida depois de um comentário tão malicioso. Era óbvio que Relena ficou sem graça. Agradeceu a chegada de Quatre e Trowa arrastando Wu Fei por causar uma bem-vinda dispersão, bem como uma janela para que fugisse com Heero para longe da atenção brincalhona de todos.
Houve mais apresentações e inofensivo papo furado e, em pouco tempo, o entrosamento estava completo. Os rapazes convidaram as garotas para uma bebida ou arriscaram serem ensinados por elas alguns passos. Victorious foi rápido em chamar Lya para a pista. Ela sorriu com curiosidade, mas não a suficiente para vencer sua recém-adquirida suspeita. Preferiu ir se sentar um pouco e é lógico que ele a acompanhou.
_E você? –perscrutando com qualidade felina, Tint se dirigiu a Trowa.
_Vou somente observar… minha namorada não pôde vir. –explicou-se, monótono.
A seguir, usando a mesma curiosidade, voltou-se para Wu Fei:
_Eu não danço! –e de pronto ele agressivamente proclamou o sacrilégio. Por pouco todo mundo não parou e se virou para ele, só para recriminá-lo – com certeza tinham suas tochas e forcados armazenados em algum lugar somente aguardando situações como essas…
_Como não? E está fazendo o quê aqui? –Tint bateu de frente.
Wu Fei ignorou-a na cara dura. Não ia dar ouvidos aos desafios de uma mulher. Daniil ficou analisando o rapaz pensativamente. Quanto mais ela ficava parada afrontando Wu Fei com as mãos na cintura, mais ele parecia não enxergá-la.
_Todo mundo consegue dançar… –Fanny deu seu contra-argumento antes de desaparecer na pista com Adin.
_Também acho. –Ane reforçou. –Tudo o que se precisa é do incentivo certo.
_Pois eu tenho todos os incentivos para não dançar essa noite. –mas para ela Wu Fei se permitiu replicar, birrento, parecendo especialmente malvado.
_O que significa isso, Duo?
_Nós apostamos. –com hesitação, ele admitiu. –Senão, ele nem vinha…
_Então é assim? Fogo se combate com fogo! –ela anunciou e sumiu, dramática.
Duo fez uma careta de preocupação. Não fora bem isso que aprendera na academia… foi atrás dela, entretanto, por mais que procurasse, não a via. Como era fácil perder alguém lá dentro! Indo até o bar, sentou ao lado de Quatre, pedindo sua última cerveja da noite.
_Por que não está dançando? –Quatre indagou, tranquilo.
_Ane está em missão secreta outra vez… –e riu-se, um pouco aflito sobre o que ela podia estar aprontando. Mexer com Wu Fei era exatamente cutucar tigre com vara curta e as consequências sempre eram drásticas. Não sabia se tinha o que era necessário para lidar com elas.
_Vocês parecem se dar muito bem. –Quatre riu, jovial, e sua vista se desviou para um lado antes de abranger todo o ambiente mais uma vez.
Duo prestou atenção no gesto, intrigado. Naquela direção, estava Lya tentando dar atenção a ladainha de Victorious. Ela sorria e acenava com a cabeça, mas seus olhos sempre voltavam procurando a figura de Quatre.
Os lábios de Duo folgaram em um sorriso malicioso ao passo que ele levantava as sobrancelhas em percepção. Lya roubava fitos rápidos, mas muito intensos, seu sorriso tornando-se ledo e tímido toda vez que se voltava para Quatre, que já tinha reparado no comportamento dela.
_Hey, o que está esperando? –Duo murmurou. –Não gostou dela?
_O que houve? –Trowa escolheu o melhor momento para aparecer.
_Lya está paquerando Quatre. –Duo o atualizou.
_Pare com isso. –Quatre rejeitou a ideia e tentou manter-se frio.
Duo estalou os lábios:
_Oras, é verdade. Espere só, Trowa, fique vendo.
Fizeram uma pausa. Trowa disfarçou, mas viu bem como Lya buscava contato visual com Quatre. E ela foi bem-sucedida.
_É verdade… –e Trowa repetiu, conclusivo.
Quatre se empertigou, corando um pouco até.
_Vai lá conversar com ela! Veja como é bonita e meiga… não acha que até parece um pouco com a Hilary Duff? –em um tom cúmplice de voz, Duo persistiu.
_O que isso tem a ver? –Trowa investigou, suspeitando da coerência de Duo.
_Ah, Quatre me disse que ela era seu ideal de garota.
_Quando eu disse isso?! –Quatre nunca ficara tão enrubescido em sua vida, a pele normalmente pálida agora contrastava forte contra o cabelo platinado.
_Você disse que achava a Hilary Duff bonita! –Duo riu sem reservas.
_Sim! Mas isso não tem nada a ver! –confuso, Quatre não conseguia se defender.
_Não? –continuando com sua investigação, Trowa contestou, muito sério.
Sem saber que reação ter, Quatre olhou de um para o outro e ainda achou espaço para checar se Lya tinha acompanhado a situação e a compreendido. Ela sorriu para ele, de longe, gentil, e arriscou acenar. Victorious não percebia nada.
_Temos algo a anunciar… –de repente, a música ficou baixa e o MC apareceu falando –e para isso, chamamos até aqui o senhor Chang Wu Fei!
A atenção de todos foi levada para o palco e Quatre respirou aliviado por não ter que ficar dando explicações. Nunca mais teria conversas descontraídas com Duo… ele não perdoava nada! Era culpa de sua irmã Iria se ele conhecia a Hilary Duff e não perdia um episódio de Lizzie McGuire.
Por sua vez, Wu Fei não entendeu o que estava acontecendo. Fora flagrado no meio dos degraus que o separavam do bar e, de cenho franzido, voltou-se sobre o ombro para averiguar.
_O senhor Chang Wu Fei poderia fazer a gentileza de vir ao nosso palco?
Lançando um fito assassino para Duo, apontou para ele recriminatório, mas Duo negou com cabeça, erguendo as mãos em inocência. Fazia tanta ideia do que acontecia ali como todo mundo.
_O que é? –Wu Fei indagou então, marchando até o palco, cortando caminho pelo meio da multidão.
_Hoje é um dia muito importante para Wu Fei… –começou o MC.
_Do que você está falando? –chegando, Wu Fei reclamou alto, não gostando nada daquela palhaçada.
_…e em comemoração aos dois anos de felicidade completados hoje, chamamos a senhorita Bardakçi para dançar uma valsa mais que especial com seu namorado!
Houveram aplausos e torcidas e, antes que Wu Fei pudesse processar o que havia, ele foi abordado por uma moça miúda e esbelta, de cabelos castanhos cor de mel e olhos verdes cristalinos.
_O que está acontecendo? –reclamou com ela, que reconhecia como uma das bailarinas a quem acabara de ser apresentado, mas cujo nome nem fizera questão de registrar.
_Cala a boca e dança logo. –mostrando um torcido desdenhoso nos lábios, ela devolveu, parando na frente dele.
"Danúbio Azul" começou a ser executada, ao vivo.
_O quê?! –ele vociferou. –Eu não vou dançar!
_Aturar rabugice não fazia parte do preço.
_Preço? –e sem perceber, Nadia já tinha puxado sua mão e colocado em suas costas.
_Achou que eu ia aceitar esse vexame todo de graça?
_Você perdeu a cabeça? –e sendo levado pela presença da moça, seus pés valsavam sem querer.
_Não, foi você quem perdeu. –e sorriu pela primeira vez, ardilosa.
_O quê?! –ele rosnou, percebendo tarde demais a armadilha em que caíra. Olhou em redor e percebeu sua estúpida plateia, e depois encarou a odiosa mulher consigo. Por mais que não quisesse colaborar, obrigou-se a dançar e não dar evidência de quanto aquilo o tinha enfurecido.
O queixo de Duo caiu de tanto pasme ao ver Wu Fei valsando no centro da pista, acompanhado por uma das amigas de Akane.
_Que tal? –ela reapareceu a seu lado.
_Como você fez isso?
_Você me deve 100 pratas.
_Mas eu apostei 50 com Wu Fei!
_Mas já paguei a Nadia! Não acha que valeu a pena? Ver Wu Fei perder a aposta…
_Não tem preço. –Trowa completou, mais que aprazido com a cena.
_E não é que ele sabe dançar? –Quatre parecia encantado.
Sim… já que estava ali, Wu Fei não fez feio. Conduziu a moça com boa habilidade, porém a cara seguia amarrada, estragando qualquer sugestão de que ele estava apaixonado pela garota. Não ia negar que ela era um par excelente.
O espetáculo durou meros dois minutos, encerrado em entusiasmados aplausos. O MC reforçou os parabéns ao casal, desejando-lhe muitas felicidades, antes da música voltar à usual e todos os pares prosseguirem sua dança.
Wu Fei soltou-se de Nadia com frieza e se afastou sem olhar para trás. Nunca mais queria ver aquela garota na vida.
_Quem foi o imbecil? –chegando ao bar, intimou os três amigos estáticos junto ao balcão. Estreitou os olhos, analisando as feições de cada um, o menor tremor servia para delatar o culpado.
Duo nunca tinha visto Wu Fei tão furioso antes. Nem Quatre teve coragem de tentar acalmá-lo dessa vez. Trowa apenas o olhava de volta, indiferente.
_Não respondem? Covardes! Traidores! –Wu Fei seguiu vociferando, até que seus olhos pararam em Ane, debruçada no ombro de Duo, terminando de beber a cerveja que roubara dele.
Os olhares dos dois travaram, ela tirou a garrafa dos lábios só para mostrar um sorriso incontido de triunfo.
Arreganhando os dentes, Wu Fei rugiu:
_Sua… sua… abusada! –nada o impediria de esganá-la ali e agora.
_Parabéns! Por conta da casa! –o barman apareceu colocando duas garrafas de cerveja diante dele, imaginando que ele viera buscar bebidas para si e sua amada.
Os quatro olharam as cervejas em cima do balcão por um segundo antes de estourarem em uma enorme gargalhada. Wu Fei queria dar mortes dolorosas para cada um deles.
Lya e Victorious se aproximaram no meio de seu acesso de raiva:
_Você namora, Chang?! Não sabia! –o rapaz ousou bancar o inocente. Aquilo era insulto demais para Wu Fei. –Meus parabéns!
Mortificado, Wu Fei não conseguia falar nada, bufando.
_Que estranho… Eu podia jurar que era a Nadia lá com você… –Lya encafifou.
Ane não conseguia parar de rir, mas sacudiu a mão, pedindo para a amiga deixar para lá.
_Maldita… malditos todos vocês! –Wu Fei ficou resmungando.
_Vamos, Duo, nossa vez! –e puxou o namorado pela mão antes que Wu Fei despertasse do estupor e resolvesse praticar todos os métodos de tortura que ocorriam em sua mente.
_Pare com isso, Wu Fei, nem foi tanto vexame assim. –Trowa retrucou, monótono. –Agora sossegue e beba a cerveja mais cara da sua vida. –mas não perdeu a chance de zombar. Tomou a segunda garrafa para si, inclusive.
Ao se esquivarem da atenção da turma, Heero e Relena foram até o bar e pegaram garrafas de água antes de retornar a pista. Mal tinham se perdido novamente entre os casais, aparecera o MC com o anúncio que chamava Wu Fei. Atônitos, acompanharam a valsa diante de si, Heero tinha os braços cruzados, perplexo como nunca antes.
_"Lição número um"? –Relena indagou para ele, meio de lado, sem desviar a vista de Nadia, que parecia realizar uma tarefa bastante custosa, por melhor dançarina que fosse.
_Sim, só pode ser…
Os dois acabaram rindo um pouco, sem resistir ao absurdo da situação. Depois procurariam maiores explicações: o show foi rápido, logo os permitindo voltar a seu bailado.
Heero seguia determinado a conduzi-la em uma coreografia que não fazia a menor ideia de como executar. Deveras, pouco se importava em dançar, muito menos em dançar bem, desde que a tivesse em seus braços. Dando dois passinhos para lá, dois para cá, fingiam bem estar ali pelo exercício.
_E o que houve com Lya? –por cima do ombro de Relena, a enxergava sentada numa banqueta, sendo entretida por Victorious.
_Ela viu a verdade sobre os afetos de Miksa da pior forma possível. Pegou ele com alguém no vestiário.
_Mas ela tinha se envolvido com ele?
_Sim… até chegaram juntos para a aula dessa manhã. Não sei como ele consegue ser assim.
_E vocês ainda têm que conviver com alguém desse tipo… –Heero rosnou, revoltado.
Com um sorriso de desgosto, ela assentiu:
_Funciona se limitarmos nosso contato estritamente ao profissional. –Lidar com Miksa não era difícil depois de se dar um "fora épico" nele. Ao mesmo tempo, ele não era exatamente uma companhia a se apreciar. Havia sempre uma atmosfera de desconforto quando ele chegava perto demais ou oferecia palavras amigáveis.
Heero meneou a cabeça, sem poder aceitar tão facilmente o conceito. Era diferente para ele trabalhar com um idiota daquele grau. Mas Miksa estava cercado de garotas o dia todo, o que conferia a ele certo status de predador. Sempre haveria alguém disposta ou inocente para aceitar as emboscadas dele.
_Detesto pensar em você perto dele.
Ela suspirou. Como reprovar Heero?
_Coitada da Lya… –Relena limitou-se a lamentar de novo.
_Foi do pior modo possível, mas ela com certeza aprendeu a lição. –Heero asseverou.
Relena escolheu desconsiderar a frieza dele:
_Mas deve ser tão difícil… ela parecia estar muito apaixonada. –nunca passara algo semelhante, mas já tinha se decepcionado antes com alguém que amava e conseguia se simpatizar. Era uma dor muito intensa e profunda, uma ferida no orgulho e no amor-próprio. Tanto que, ao se deparar com suas lembranças, Relena até preferiu parar de pensar no assunto.
Dançaram ainda mais uma música, voltando a conversar aos poucos, movendo-se pela margem da pista. Aquela canção tivera um ritmo mais lento, mais apropriado para a disposição dos dois. Heero a fez girar algumas vezes, rir e apaixonar-se ainda mais. Era sempre possível. Trocaram um novo beijo, mais singelo e demorado, entrelaçando os dedos das mãos. Trocaram novos olhares, cúmplices e encantados, sintonizando as batidas do coração.
Escapando por um instante, o olhar dele avançou para além da cabecinha dourada consigo e acompanhou Duo e Akane parar de dançar e conversar com expressões tensas. Duo olhava o celular e falava algo com uma incomum expressão de irritação. Heero não gostou nada da ideia de estarem brigando, mas sabia que não era saudável ir intrometer-se.
_O que houve? –Relena suspirou e olhando por cima do ombro na mesma direção não localizava nada que fosse de importância.
Sacudiu a cabeça, digressivo, querendo que ela voltasse a se concentrar nele. Sorriu-lhe com os olhos, tocou a franja dela com seus lábios.
_Vamos embora daqui? –ela esticou-se e o beijou no queixo.
Outra vez respondeu sem palavras, aceitou com um gesto de cabeça. Não iam avisar, não deviam nada a ninguém, Relena até tinha vontade de sair correndo. De algum modo, era empolgante fugir daquele modo.
Do lado de fora, muito movimento na rua e nas calçadas causado pelas pessoas que levavam as festas para além das casas noturnas e barzinhos por ali, preenchendo o ar com risadas e bagunça.
_O tempo abriu… –o primeiro impulso de Relena foi olhar o céu enquanto se abraçava, de repente sentindo a aragem fresca demais.
Heero achegou-se dela e envolveu seus ombros com o braço, juntando-a ao seu peito. Ela se acomodou e rapidamente pegou o ritmo da passada dele, que os levou depressa até onde parara o carro.
_Mesmo assim, o céu continua tão escuro… eu gosto tanto de ver as estrelas…
Enquanto abria a porta para ela, Heero decidiu averiguar do que ela falava. Fazia muito tempo que não se preocupava em olhar para cima. Nem tinha notado como o céu ali era simplesmente uma grande mancha azul enegrecida.
_Lá em casa, dá para ver várias constelações do terraço… –continuou, depois que ele se juntou a ela no interior carro. –Em Odelia, quero dizer… –Heero assentiu, indicando entender a que tinha sido referido. Relena suspirou e ligou o rádio em um volume baixinho. Tocava uma balada dos anos 80. –Papai até instalou um telescópio para nós. –deixou sua cabeça cair para um lado, deliciando-se com as lembranças. –Eu e Zechs competíamos sobre quem via mais estrelas cadentes… tínhamos um placar e tudo… –riu, divertindo-se com a memória.
Heero sorriu, relanceando-a com o olhar várias vezes enquanto ela falava. A voz dela tinha uma qualidade bastante calmante. Passado um intervalo de silêncio, decidiu que talvez fosse bom respondê-la com algo pessoal:
_Eu costumava ir acampar… nas noites mais quentes, dormia fora da barraca e conseguia ver muitas estrelas também. –por algum motivo não achava o que tinha a dizer tão interessante.
_Você foi escoteiro? –mas para ela, era, e não conteve soar fascinada. Não estranharia nada se a resposta fosse sim.
_Não… –ele riu, sabendo que fazia o tipo e que iria frustrá-la. –Em minha cidade, acampar ou sair para pescar é um passatempo comum… Ia muito com meu pai, mas quando fiquei maior, fui sozinho também, um ou outro fim-de-semana no Verão.
_Sozinho? –ela se assustou.
Heero ousou sorrir, saudoso:
_Sim, não tinha perigo. –pausou. De repente, as lembranças pareciam tão reais: o barulho das botas na trilha de folhas, o cheiro das árvores, o canto dos bichinhos. À noite, a fogueira crepitava, misteriosa a luz quente dava uma sensação de proteção e a impressão de que só ele existia no mundo. Sorriu para si mesmo. –Eu assisti uma chuva de meteoros assim, uma vez… por acaso.
_Que mágico… –Relena suspirou, enxergando o momento com os olhos da mente, fascinando-se mais do que ele próprio se fascinou.
Heero guiava o carro devagar, de repente pensativo dentro da atmosfera sossegada que preenchera o espaço das palavras. A rádio oferecia uma trilha sonora distante naquele volume que reduzia a voz dos cantores a sussurros.
_Tive uma ideia. –ele ia agir sem planejamento, algo em que não tinha prática, mas que estava aprendendo rápido. E não ia dar pistas, com medo de tirar a graça, e só torcia para que ela gostasse.
Primeiro, passou no drive-thru da cafeteria 24 horas mais próxima e pediu dois cafés ao leite com creme extra.
_Quer alguma coisa para comer? –virou-se para ela, mas a viu negar com a cabeça.
_Nós vamos acampar? –ela divertiu-se em concluir, notando que tomavam a direção da serra. A bandejinha de papelão com os copos seguia bem quentinha em seu colo, mesmo que a temperatura parecesse cair em seu redor conforme chegavam ao ponto mais alto da cidade.
_Quase isso. –ele parou o carro então e desligou os faróis.
Relena observou o cenário e reconheceu a balaustrada logo à frente. Estavam no mirante.
Tirando a chave do contato, Heero tomou a dianteira em sair do carro. Desapareceu da janela, indo para o porta-malas. Ela foi obrigada a imitá-lo e, equilibrando os cafés, foi encontrá-lo atrás da porta aberta do bagageiro.
_O que está aprontando? –cobrou, animada, assistindo ele tirar uma enorme manta dobrada lá de dentro.
_Não sei se a visão das estrelas aqui é boa, mas com certeza a cidade lá embaixo até que pode passar por uma galáxia… –comentou, sem jeito mas bem-humorado, carregando a manta debaixo do braço.
Relena considerou a sugestão dele e contemplou o céu. Era bem diferente ali, de fato, exibindo um tom de azul mais nítido, salpicado de pontinhos brancos. Sorriu, vibrante, e assentiu. A seguir, procurou a vista da cidade, de repente sem conseguir decidir qual era mais impressionante. Distraída com sua observação, nem se deu conta de que Heero tinha ido até o capô e testava com a mão o resfriamento do motor. Quando ela o alcançou, ele tirou a bandeja dos cafés das suas mãos e colocou no teto do Elantra.
_Consegue subir? –ofereceu-lhe uma mão como apoio. Era muito parecido com montar um cavalo, ela intuiu. Usou o pneu como degrau e a mão dele para dar estabilidade e, com poucos movimentos ágeis, executados com a graça e a aparente falta de esforço que ela usava para tudo, ela acomodou-se próxima ao para-brisa.
_Não vai afundar? –cogitou, insegura sobre a lataria.
Heero sentava ao seu lado segundos depois:
_Não se preocupe com isso. –e estendeu a manta no colo dela, cobrindo-se também.
Relena buscou os cafés e entregou-lhe um. Ficaram recostados um no outro, os olhos presos no espaço. Bebericavam do líquido quente e aconchegante.
_Vamos competir. –ela propôs. Com um gesto infantil, ergueu a mão e dividiu o céu em dois. –Esse é o seu pedaço…
_Não é justo, o seu é maior. –ele a importunou, o timbre enfadado.
Ela estalou os lábios, impaciente. Usando o indicador, demarcou o céu de novo:
_Melhor assim?
_Não sabe que não pode ficar apontando para as estrelas?
_Como você é chato! –reclamou, rindo. –Por que não posso? –e desafiou.
_Dá verruga. –era incrível como ele conseguia manter a seriedade para brincar mesmo com algo tão bobo.
_Não dá nada! –ela replicou, rebelde, antes de gargalhar. –Onde ouviu isso?
_Minha mãe dizia para mim… –e murmurou, desviando o olhar.
Relena exibiu um sorriso triste. Deitou a cabeça no ombro dele.
_Sua mãe também foi acampar com vocês?
_Só uma vez, quando brincamos no quintal…
_Que gostoso… você parece ter tido uma ótima infância.
_Você também.
_Eu vi uma…! –Relena ergueu-se de supetão e apontou o trecho do céu por onde uma estrela deslizou.
Ele alcançou a mão dela e a tomou na sua, levando as pequenas falanges dobradas até seus lábios. Com os olhos, ela acompanhou o movimento, e seduzida, debruçou no peito dele. Miraram-se por um instante.
_Eu vi uma… –ele sussurrou, escrutinando o olhar celestial dela, a voz rouca afagando a face da moça com alguma aspereza.
_Você está roubando. –ela soltou um risinho e contornou a mandíbula dele com uma mão.
Em sua defesa, Heero apenas mostrou um pequeno sorriso de canto, metade menino, metade malandro.
Baixando seu rosto com cuidado, Relena encontrou a boca dele com a sua e prendeu o lábio inferior dele em seus dentes. Ele a beijou, e, pegando-a pela cintura, trouxe-a mais perto, segurando-a com firmeza.
Não seria muito difícil caírem dali, a imprudência deixando tudo mais divertido. Nenhum dos dois tinha sido tão arrojado quando adolescentes…
Da forma com que ele se encostara ao para-brisa, ela não tinha que se inclinar muito para seguir beijando-o, e com a mão mantinha o rosto dele gentilmente voltado para si. Ao procurar uma posição mais confortável, acabou se acomodando sentada em uma das coxas dele.
Percorrendo a linha do corpo dela com preguiça, ele percebeu o arrepio que a lambeu toda, como se estivesse coberta por chamas. O calor de seus corpos juntos se tornava abrasador, deleitosamente sufocante.
Relena separou-se e ergueu-se um pouco, respirando com alguma dificuldade, as maçãs da face coradas, ardentes, os olhos refulgindo extáticos. Alisou o peito dele por cima da camiseta, distinguindo cada músculo, contornando suas linhas sólidas. A força dele, querendo ou não, fazia muito sucesso com ela.
Cuidadosamente, Heero a puxou de volta para si e, com alguns ajustes, fê-la deitar-se em seu peito. Relena virou o rosto para ele e lhe sorriu. Ele a olhou de soslaio, enlevado, e roçou com os lábios o alto dos seus cabelos.
_Eu amo seu perfume… –e ronronou, reverente, ouvindo-a fazer um barulhinho de deleite.
Suspirou pesado, depois ela. Voltando a vista para o céu, ambos assistiram duas estrelas caírem, uma bem próxima da outra.
_Você viu? –ela murmurou, assombrada.
_Você vai fazer um desejo? –ele afagou o ombro dela.
_Vou. –e suspirando, ela fechou os olhos. –E você? –afinal de contas, caíram estrelas suficientes para eles dois.
_Não preciso.
Boa-noite!
Foi difícil encontrar um fim para esse capítulo, espero que tenha ficado bom
No geral, estou muito contente com tudo!
A parte da Hilary Duff é especial para a Mari! ;)
Tomara que não estejam enjoados desse momento, porque essa madrugada de domingo ainda não acabou! Ufa!
Visitem o tumblr da fic: apartmenti95. tumblr. com
Obrigada demais pelo carinho e atenção! Deixem seus reviews!
Beijos e abraços e até o próximo capítulo!
27.04.2017
