No último capítulo…

Os grupos de amigos se encontram e logo se entrosam. Akane ajuda Duo ganhar a aposta com Wu Fei, armando junto de Nadia uma pegadinha para fazê-lo dançar. Quatre encontra uma admiradora nada secreta em Lya. Heero e Relena dançam, conversam sobre o que houve entre Lya e Miksa e depois fogem do clube para irem ver as estrelas no alto do mirante da cidade.

20

Duo só tinha reparado agora que seu celular estava tocando no bolso. Os alertas tinham começado há algum tempo até que alguém lhe telefonara. Na zoeira, só conseguiu distinguir a atendente dizer "atividade" e "desligado".

_Ane, acho que roubaram minha moto! –parados no meio da pista, ele checou no celular os alertas de movimentação do veículo que foram mandados durante o tempo que estivera ali. O mais recente avisava que o dispositivo de localização tinha sido desligado.

_Mas e o rastreador?

_Deram um jeito de tirar! Eu não acredito!

Saíram os dois da pista. Ele queria ir lá fora verificar.

_Tem certeza que parou ela aqui? –Ane insistiu ao se depararem com a vaga agora preenchida de motonetas.

_Absoluta!

Ela sacudiu a cabeça, frustrada.

_Temos de ir à delegacia… –murmurou, voltando com ele para dentro do clube.

_Mas que droga… –ele resmungou, triste e desapontado, caminhando junto dela com as mãos nos bolsos da jaqueta.

_Quatre querido… –Akane se debruçou apoiando nos ombros dele. –Você me faz um favor?

_Claro… –ele não se chocou com o dengo e a intimidade, mas sorriu resignado, sereno. Ela sorriu de volta, encantada com os modos tão apurados dele.

_Pode levar as meninas para casa por mim? Vou com Duo até a delegacia.

_O que houve? –a menção da delegacia o distraiu quanto ao teor do pedido. Voltou-se para Duo, muito preocupado, percebendo enfim a careta de frustração no amigo:

_Roubaram minha moto, acredita? Aquele papo todo… Chamei azar.

_Não pense assim. Está tudo no seguro, não é mesmo?

_É, mas vai saber quanto tempo vai levar pra resolver.

_Pelo tanto que você paga, tem que resolver imediatamente. –Ane apresentou, enérgica.

Ele assentiu, achando sentido no que ela dizia.

_Quem são as garotas, Ane?

_Maira, Fanny, Valentina e Lya… preciso avisar elas… –Akane girou em torno de seu eixo com a graça que o balé lhe conferia, buscando cada uma das meninas, mas certa de que jamais as encontraria todas rapidamente.

_Pode deixar que eu faço isso… –Lya ainda estava por ali e murmurou, o sorriso tímido não combinava com a disposição ansiosa dela. Era bonitinho de se ver. Akane assentiu, alegre em vê-la parecendo melhor. Trocaram um entendimento silente e voltando-se a Quatre outra vez, Akane suspirou:

_Muito obrigada.

_É, valeu mesmo, Quatre… –Duo correu a mão pela franja, puxando o cabelo para trás, acelerado demais para ter malícia em brincar com Quatre, que de repente pareceu meditativo e viu Ane lhe piscar um dos olhos, em incentivo.

Ele seguiu com sua expressão de bom ânimo, mas preferiu não responder nada.

No carro, Duo consultou no celular a delegacia mais próxima. O boletim de ocorrência era a prioridade agora. Enquanto Ane dirigia, ele postou um aviso no Facebook sobre o roubo de sua moto e configurou alguns alertas no Craiglist para tentar rastrear a Davidson, ou pelo menos partes dela.

No hall da grande central, a madrugada parecia ainda mais agitada do que nas casas noturnas e barzinhos da Avenida Belvedere. Havia tumulto por causa de um flagrante, reclamações pela demora do atendimento, e logo atrás deles entrou uma companhia barulhenta formada por dois casais que pelo visto vinham detidos por causa de uma briga de bar.

Percorrendo o espaço com os olhos, Duo encontrou o balcão de atendimento. Parecia momentaneamente vazio.

_Vamos sentar ali. –indicou para Ane. Próximo havia um bebedouro, e antes de se juntar a namorada, ele encheu dois copos.

Na outra fileira de cadeiras, oposta à que o casal ocupava, havia uma mulher que chorava muito. Era quase impossível não reparar nela. Apesar de ela não fizesse muito barulho, as lágrimas desciam grossas em desespero.

Realmente, ia demorar.

_Você tem certeza de que parou a moto naquele lugar? –Ane começou um assunto depois de beber toda sua água, encafifada com o ocorrido.

_Absoluta. –Duo não a criticou por insistir – ela tinha sido criada em uma casa de bombeiros e treinada a considerar todos os detalhes. Seria esta a primeira hipótese que ele próprio levantaria.

_Como será que deram a partida?

_Com alguma chave mestra ou algo assim…

Ela assentiu, ansiosa. Começou a rasgar a borda de seu copo, fazendo dele um botão de rosa abrindo-se em flor. Não havia nenhum policial atrás do balcão, nem mesmo um sistema de senhas. Suspirou, acabrunhada.

Duo pegou a mão dela com a sua, entrelaçando-os dedos, pousando-as no seu joelho. Ela deitou a cabeça em seu ombro. Enquanto esperavam, ele distraiu-se com o celular. Ninguém estava acordado para dar qualquer apoio a seu post no Facebook, não obstante, Trowa já tinha se manifestado com uma curtida.

Meia-hora se passou e o escrivão seguia ausente.

_Não acredito… incompetência. –reclamou.

Ane ainda tinha disposição em sussurrar:

_Calma…

_Não, Ane… tanta demora… aquela mulher ali está chorando há uma hora. O que está acontecendo aqui? Ninguém resolve nada.

Ela focou os olhos na moça que chorava e secava o rosto com o mesmo lenço.

_Hey, moça… –Duo chamou, discreto. –Senhora… –insistiu ao ser despercebido.

Enfim, a mulher focou os olhos vermelhos nele.

_Vai ficar tudo bem. –ele consolou, sorrindo maroto e simplório. Ela estava lívida e desgastada, mostrando uma surpresa tão descrente de alguém enfim ter se interessado nela que isso apenas irritou Duo mais quanto ao descaso do atendimento.

Saiu do lugar, Ane se desencostando dele perceptiva com suas intenções, e foi até o balcão do escrivão. Espalmou a madeira:

_Tem alguém aí? –gritou, tentando controlar a revolta.

_Posso saber qual o problema? –um rapaz alto surgiu de dentro da área restrita. Vestia à paisana e jogou a franja comprida e castanha para o lado com um movimento esnobe, fuzilando Duo com o olhar.

_Está demorando muito. Quando vão começar a atender? –sem muita entonação, Duo cobrou, procurando um esclarecimento qualquer.

O fuzilar do policial foi se transformando em um fito estreito e esverdeado de suspeita e aversão:

_Cuidado ou vou fichá-lo por desacato.

_Só estou constatando um fato. –ergueu as mãos em inocência, por mais irônico que fosse o gesto ali.

_Então, cientista, se contente em esperar sua vez! O flagrante tem prioridade! –dispensou, o rosto formando a feição de um rosnado de pouco caso.

Duo deu de ombros ao murmurar:

_Esperar até quando? A senhora aqui precisa de ajuda logo.

_Não se meta. Quem é você para falar assim? –aproximou-se do balcão, o queixo erguido, analisando o rapaz diante de si.

_Ninguém importante. Só que no meu trabalho, cada minuto é precioso se alguém precisa de mim. –Duo fazia questão de não demonstrar o quão provocado estava.

O policial careteou escarninho, medindo Duo:

_E por acaso seu caso a resolver aqui é questão de vida ou morte? Se enxergue!

Akane, que apenas assistia tudo transcorrer do lugar em que sentava deixou enfim o ultraje tomar conta de seu rosto. Não ia demorar muito e ia ela própria enfrentar aquele oficial almofadinha.

_Pensei que a academia ensina ajudar as pessoas, não as maltratar. –Duo retrucou, então impaciente.

Houve uma pausa. A mulher que chorava fungou alto, cessando o pranto.

_Só um momento. –o policial pôs o indicador em riste. –Sabia que conhecia você de algum lugar… quer dizer que temos um arrastador de mangueira aqui? –e provocou bem alto, gargalhando a seguir, odioso.

_Conte com isso, cata-bala.

_Tenente Evangeline… –um policial uniformizado se aproximou. –O delegado está chamando. –e atravessou o balcão depois de dar o recado, retornando a suas rondas.

_Pena terminar nossa conversa aqui. –o tenente estreitou os olhos de forma felina e altiva e já começou a dar as costas.

_Não acho, não estava indo para lugar nenhum. O dia que vocês precisarem do meu caminhão…

_Não vamos. –já quase desparecendo na passagem, o tenente Evangeline sacudiu a mão, cortando a declaração de Duo com desinteresse.

_…vou fazer questão de atender antes do prazo. Lembre-se bem: escada 5, quartel 110. –e praticamente rosnou dessa vez. –Só pra mostrar como a gente faz.

Se dignando a parar e voltar sua atenção a Duo, o tenente Evangeline retorceu os lábios com desdém agressivo e só depois partiu de vez.

Duo soltou todo o peso do corpo de volta à cadeira.

_Que desnecessário tudo isso… –Ane reprovou a atitude do policial, sacudindo a perna cruzada. –Vou denunciar na ouvidoria.

Sem saber se tinha sido bom perder o controle com o tenente, Duo estalou os lábios e correu a mão pelo rosto. Talvez agora jamais fosse atendido, cutucando a eterna birra entre policiais e bombeiros.

Contudo, para a grande surpresa de todos, em menos de cinco minutos eis que surge a escrivã em seu alinhado uniforme branco e preto. Ela carregava consigo uma estirpe e altivez semelhantes à do tenente, embora tivesse um sorriso acessível no rosto pálido de acabamento de porcelana.

_Outra almofadinha. –com um murmúrio, Ane apontou. A escrivã não lhe inspirou a menor confiança.

_Quem é o próximo? –a oficial solfejou com timbre felino.

O rapaz que estivera ali bem antes de todos, esperando sabe-se lá quanto tempo, gesticulou em direção da moça, que controlara o pranto e aceitou a gentileza. O registro do boletim dela foi demorado e foi encaminhada a fazer exame de corpo de delito.

Duo teve de esperar mais de uma hora para sua vez de ser atendido. A escrivã era minuciosa e dava atenção praticamente individualizada, vez em quando correndo os dedos pelos longos cabelos platinados, meticulosamente escovados.

_O próximo. –sinalizou, olhando Duo direto nos olhos.

_Eu hein…

_Boa-noite, senhor. No que posso ajudar? –ele mal tinha se aproximado do balcão e ela já estava falando.

Akane também foi acompanhar o registro de perto.

_Boa-noite. Quero comunicar o roubo da minha moto.

E em seguida, Duo deu todas as informações e apresentou todos os documentos que a escrivã pedia ao passo que ela digitava em um silêncio deleitado e esdrúxulo. Ane a estudava de perto, o que não parecia incomodá-la.

Quase no final da narrativa, o tenente Evangeline reapareceu atrás da colega de trabalho. Não se manifestou, só olhou na tela o boletim que tinha sido produzido e revirou os olhos, pouco impressionado com a ocorrência:

_Tanto barulho por isso?

_Eu só quero acionar o seguro… –Duo reagiu a implicância intrometida do tenente com uma civilidade não merecida. Ane sustentava uma expressão incrédula de nojo.

_Isso aí só pode ser coisa dos Dolls. Esse é o terceiro caso só essa semana. –Evangeline comentou mais, com pouco caso.

Ouvindo, Ane não resistiu e cobrou, monótona e autoritária, de cenho fechado:

_Que bom que sabe. E vão fazer o quê a respeito?

_Não tem nada a ser feito. A essa altura, a moto já está fora do estado, com placas e documentos novos, pronta para revenda.

_Se tivéssemos sido atendidos antes, quem sabe não seria diferente? –Ane insistiu, ácida.

_Nós estamos investigando! –a defensiva do tenente só indicava o quanto ele ressentira a crítica.

_Não parece. –Duo retrucou, acabrunhado, cruzando os braços.

A escrivã mantinha sua pose impecável durante a troca, seus olhos de bruma como que cintilando de diversão. Resolveu, entretanto, interromper antes que o tenente se atrapalhasse mais:

_Agora, no que posso ser de ajuda, caro Decker? –e se virou para ele, que parecia um urubu pairando em suas costas.

_Não preciso de nada, Catalonia! –mimado, ele retrucou. A escrivã pareceu se entreter com a irritação dele e voltou a digitar. Decker enfiou a mão no interior da jaqueta e tirou um panfleto de lá, estendendo-o direto para Duo: –Achou que ia falar mal da minha academia e sair com a razão, comedor de fumaça? A hora da verdade está marcada. –e partiu, com efeito.

Duo seguiu o movimento do policial com os olhos e depois estudou o papel. Mais essa agora…

_O que é? –Ane pediu, birrenta com Decker ainda. Duo passou-lhe a folha, seu semblante caindo em algo que parecia arrependimento. –"Batalha dos Distintivos"? Uau! Ele chamou para a briga mesmo! –e os olhos da menina se acenderam em aprovação.

Catalonia riu baixo, dando os últimos comandos no teclado e imprimindo o boletim.

Enfim estavam livres para partir. Caminhando até o carro, Akane releu o flyer:

_Por que Heero não falou nada? –investigou, franzindo as sobrancelhas como um gato insatisfeito.

_Porque não íamos participar. Estou lascado… –reclamou, soltando um suspiro exausto.

_Por quê? Não dão conta? –pentelha, teve de provocar.

_Claro que damos! –ele contrapôs, risonho.

_Então! Não vejo a hora de ver vocês darem uma surra naquele bostinha!

_Heero vai ficar possesso…

_Só nas primeiras vinte e quatro horas. Depois, tudo o que ele mais vai querer é fazer aquele petulante beijar a lona.

_Quanta agressividade! Só podia ser ruiva!

Ela brecou com brusquidão, armando uma careta emburradíssima, mesmo que os olhos sorridentes e excitados traíssem sua diversão.

Duo andou de costas enquanto continuava:

_Está precisando de algo em que descarregar essa violência toda… –e voltando-se para frente, seguiu sozinho pela calçada.

_Pode ser em você mesmo. –ela correu e pulou nas costas dele.

Segurando suas pernas, ele lhe deu suporte para seguir montada:

_Traíra! –e lhe beliscou a coxa.

_Tonto! –ela reclamou de dor e esmurrou o ombro dele algumas vezes.

Quando chegaram ao carro, Duo a fez descer do cavalinho sentando-a no capô. Debruçou-se sobre ela depois, encurvando-se, prendendo-a entre seus braços apoiados na lataria.

_A batalha não vai ser boxe. –se lembrou de comentar.

_O quê?! Quer dizer que ninguém vai quebrar aquela carinha linda? –encostou a testa na dele, chocada com a notícia.

_Só se rolar por fora…

_Hm, tomara… –desviou a vista para um ponto além, murmurando para si mesma.

Riram.

_Mas o que vai ser então?

_Um esforço de equipe. –ele murmurou, fazendo mistério.

Depois de tanto brincar, tiraram tempo para trocar um beijo no qual as bocas se degustaram com muito carinho e pouca pressa.

_Você achou mesmo ele bonito? –descolando os lábios dos dela, Duo fez charme. –Magoei… –e a torturou com uma profusão de cócegas nas costelas:

_Ah! Duo! Para! –esperneou, tentando escapar dele, embora nunca parasse de rir.

_Então diz… –ele exigiu, falando contra seu rosto, no afã, por pouco não a mordeu.

_O quê? –gargalhava, batendo no peito dele, puxando-o pela jaqueta.

Em um abrupto e cruel intervalo, ele a encarou e ergueu as sobrancelhas, trocando com ela um pensamento. Com um meneio de cabeça, ela deteve as mãos dele em sua cintura, tentando impedir o recomeço do tormento:

_Você é o único para mim… –ronronou. Tinha terminado largada sobre o capô e ele cobriu-a ainda mais com seu peso. –Desse jeito vamos ser presos por atentado ao pudor… –manhosa, Ane avisou, os olhos faiscando perigosos na meia-luz que o poste jogava neles, suas mãos indo até o rosto do rapaz e ladeando-o com um pouco de força.

_Então vamos logo embora daqui… –Duo beijou o pescoço arfante dela e a puxou para ajudá-la a se erguer.

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_Relena…? –Heero acariciou o ombro dela por cima da manta. Estava tão imóvel que ele desconfiava que cochilara. Sorriu, franco, como nunca fazia em público. Que privilégio ser tão confortável e íntimo a ponto de ela sentir-se segura para abandonar-se aos seus cuidados… dizia mais sobre o que tinham do que milhares de declarações de amor.

Encontrou os cabelos dela e os penteou com os dedos. Não sabia dizer com precisão quanto tempos estavam ali, mas fora o suficiente para experimentar mais uma parcela da plena felicidade, o peso dela deitada em seu peito ancorando a realidade.

Se ajeitando um pouco, conseguiu tocar a testa dela com um beijo. Um murmúrio sonolento escapou-lhe os lábios e ela logo se ergueu, franzindo as sobrancelhas e estudando seu entorno.

_Ah, que vergonha… –e riu baixinho, voltando a aninhar-se na curva do pescoço dele. –Acabei cochilando…

_Acho que já fomos produtivos o suficiente por hoje. –envolvia os ombros dela, alisando-os com vagar.

Ficaram mais um minutinho naquele abraço apertado, o último gosto do momento, antes de cuidadosamente separarem-se. Heero a ajudou descer e ela entrou no carro ainda enrolada na manta.

_Que horas são? –já no sopé da serra, Heero indagou. Até então não tinham conversado nada. Não tinham sentido a menor necessidade. A presença um do outro era o suficiente. Estavam muito contentes.

_Quatro e quinze. –tirou o celular da bolsa e conferiu.

Ele assentiu com um suspiro enquanto ela aproveitava que tinha o aparelho na mão para checar o que as amigas tinham aprontado. Pelo menos uma foto devia ter aparecido no Instagram da Valentina. Não se enganou – ela estava em um vídeo curto arrasando ao dançar zouk com um dos colegas de Heero. A postagem era de meia-hora atrás. Nas stories, haviam cliques no espelho do banheiro e pequenos momentos registrados com o Boomerang das meninas aprontando a valer.

No WhatsApp também tinha uma mensagem.

_Ah, não… –mas essa não divertia.

_O que houve?

_Roubaram a moto do Duo.

_Sério?

_Ane postou no grupo que estava na delegacia uma hora e meia atrás… Que péssimo!

Heero armara uma carranca descontente, mas não vocalizou lamentos, não vendo porque seriam práticos. Relena, entretanto, prosseguia:

_Coitado… Ele gostava tanto da moto… Ainda bem que existe o seguro.

_Ane disse mais alguma coisa?

_Disse que demorou muito para serem atendidos, mas que deu tudo certo e que agora está ansiosa pela… "Batalha dos distintivos"…?

_O quê? –Heero não controlou o rosnado, jogando nela um olhar atônito.

A mudança nada sútil dele a confundiu. Releu:

_É o que diz aqui… o que é isso, Heero?

Ele estalou os lábios com raiva:

_Mais essa agora… nem estávamos escalados para esse ano! –grunhiu em fúria mal contida. –Duo deve ter arranjado confusão com algum policial. Não acredito nisso… que droga!

_Heero? Por que está tão nervoso? –mas longe de assustá-la, a repentina mudança de humor dele causou surpresa divertida em Relena.

_Por que o Duo não consegue ficar longe de confusão? –prosseguia, resmungando e meneando a cabeça sem conformar-se.

_Essa batalha é algo muito ruim?

_Não é isso. É uma competição esportivas, entre policiais e bombeiros, para caridade…

_Então qual o problema? –especulou, bondosa, dando tempo para ele se acalmar.

_Vai acontecer bem depois do treinamento em Samarine e não vou ter tempo de me preparar. –fazendo as curvas, gesticulava com o volante usando um pouco mais de agressividade que o necessário.

_Então, deixa ver se entendi: sua preocupação é perder?

_Claro!

Houve uma pausa longa e fria, criando mais contraste com o momento em que ela começou a rir:

_Era de se esperar…

_Não entro em nada que não possa ganhar. –ouvindo-a, ele bufou, descarregando o resto da tensão, achando ânimo para provocá-la um pouco.

_Pensei que você pudesse ganhar tudo… –provocou de volta, faceira.

_Não é bem assim…

_Do jeito que sempre agiu, foi o que me fez entender…

_Oras… –fingiu irritação com ela.

_Propaganda enganosa! –mas ela continuou com ultrajo, se esbaldando na chance de importuná-lo.

_Pare com isso, Relena… –ele não queria rir, mas manter a compostura estava ficando cada vez mais difícil.

_Mas que tanto precisa fazer? Tenho certeza que se fosse agora, iria se sair muito bem. –não conseguia ver nada de errado no físico dele… só se o problema fosse falta de resistência, o que também duvidava. Ainda tinha que vê-lo cansado…

_Pode ser… –respondeu assim para dizer qualquer coisa, pensativo sobre a conjectura dela. Se seu esquadrão fora desafiado, não havia mais como voltar atrás… ele nem queria voltar atrás. Não ia dar esse prazer aos seus colegas policiais, por mais amigável que fosse a rivalidade… afinal de contas, eles jamais iriam perdoar a retirada.

_Você quer alguma ajuda? Podíamos ir à academia juntos…

Ele a relanceou depois do convite, vendo o rostinho de anjo convertido num brilho de orgulho pela boa ideia. Sorriu, maroto, sem resisti-la.

_Sim, podíamos…

_Tenho que fazer meu treino de força… ando meio relapsa… –ela confessou, pensando que aquele era mais um domingo que matava a academia.

_Senhorita Darlian relapsa? Quem poderia imaginar? Que vergonha. –estreitou os olhos, estranhando o que ouvira, a voz baixa e desdenhosa a fez lembrar-se de Nedved:

_Heero! Até você?!

_Isso sim que é propaganda enganosa… –e atacou, aprendendo rápido.

_Seu chato! O que deu em você hoje? –e esmurrou o ombro dele, bem fraquinho.

Sem controlar mais, Heero soltou um risinho fanhoso, tão curto, quase imperceptível:

_Tem razão, com esse muque, não vai muito longe. –e observou, sério de um jeito deslocado, sinal de exagero, alternando sua atenção entre a figura dela e a rua.

Depois de encará-lo vários segundos com ultrajo congelando seu rosto, ela decidiu que rir era o único remédio.

_Você não quer subir? Vem tomar café da manhã…

Já tinham estacionado em frente ao St. Gabriel há uns dez minutos e Relena ainda se sentia indisposta em separar-se dele. Por isso, convidou, falando suave contra os lábios dele que tinham acabado de beijá-la. Abriu os olhos então para identificar a opinião de Heero.

Mesmo que fosse muito cedo para o desjejum, a oferta de passar um pouco mais de tempo ao lado dela nunca lhe soaria descabida. Seu olhar azul severo iluminou-se com a passagem de um sorriso. Beijou a testa dela e assentiu, já tirando a chave do contato e intencionando sair do automóvel.

Com um riso travesso preso em seus lábios, ela se livrou da manta, apanhou a bolsa e abriu a porta do carro com empolgação infantil. Encontrou-o do outro lado do Elantra e enganchou-se nele, debruçando-se toda no seu ombro:

_O que gosta para o café?

_Normalmente tomo uma xícara de café preto ao acordar e depois como um pretzel ou uma torrada quando chego no quartel… nada grandioso.

_Precisa levar sua dieta mais a sério se quer mesmo vencer a batalha. –provocou, virando o rosto pousado no ombro dele, para que pudesse olhá-lo no rosto e pôr mais força em sua repreensão.

_Sim, senhora. –murmurou paciente com a travessura dela, a voz leve e despreocupada, enquanto envolveu a cintura da moça com um braço ao entrarem no elevador.

Pagan sorriu para as costas deles, sem culpá-los por terem se esquecido de cumprimentá-lo.

_Vocês tem cápsulas aqui para sobreviver a uma catástrofe natural… –Heero abriu o armário que Relena indicou ao procurar. Elas tinham uma máquina Nespresso e ao abrir as duas portinhas, Heero se deparou com as prateleiras forradas de caixas de cápsulas de vários tipos e sabores.

Relena riu enquanto terminava de esquentar o molho holandês ao mesmo tempo em que cuidava dos ovos.

_A validade é longa e confesso que viciamos… a ideia de poder tomar um cappuccino a qualquer hora… e é tão fácil de preparar… –desligou o fogo do molho e mexeu os ovos na água fervente da outra panela.

_Só tomo instantâneo… –ele resmungou, analisando as cápsulas, procurando as instruções de uso. Não queria apenas ficar parado olhando-a cozinhar e pensou que adiantar o café seria uma boa ideia.

_Pegue água na geladeira… –ela lembrou de avisar, sem reparar que ele não sabia por onde começar.

Acostumado com operações complexas comandadas em ordens simples, ele obedeceu prontamente. Já tinha ligado a máquina na tomada.

Notando o silêncio atrás de si, Relena o vigiou pelo ombro e sorriu:

_Vai precisar do manual, senhor bombeiro? –não era santa a ponto de passar por alto a confusão dele. Riu, travessa, ganhando um condenatório olhar de esgueira vindo dele.

_Posso me virar sozinho. –e voltando a analisar a pequena cafeteira, retrucou, monótono. Passados alguns instantes, encontrou onde devia colocar a água. Sorriu sozinho então.

_Depois que você experimentar esse café de cápsula, também vai comprar uma máquina dessas… –ela comentou à toa, terminando de preparar os ovos beneditinos. Fritou o bacon no óleo de coco, cortou a metade do abacate que sobrou da mistura do molho e passou a montar os pratos.

A primeira xícara de café estava quase pronta quando o chocalho de chaves foi ouvido do lado de fora da porta.

_Danny, tem certeza que é aqui…? –Tint resmungou manhosa enquanto a porta abria e logo surgiu na sala, sendo amparada por Daniil e trazendo os sapatos em uma das mãos. –Hm, mas que cheiro é esse? –Espertou logo. –Nós viemos a uma lanchonete?

_Não, Tint, eu te trouxe para casa. –ele a tratava como uma criancinha. Procurou Relena com um olhar cansado assim que pôde.

_Oras, o que vocês dois estão aprontando? –e Relena gracejou, estendendo o prato de ovos, bacon e abacate regados ao molho holandês para Heero.

_Uau, quanta proteína! Alguém andou se exercitando bastante… –Tint observou, sóbria o suficiente para seus comentários maliciosos. Ergueu e baixou as sobrancelhas negras e depois riu de um jeito escandaloso que fez lembrar uma hiena. –Foi para isso que vocês dois fugiram, né? Espertos… fazem bem… estão certinhos… –e alongava as vogais, alegre e corada.

_Tint, chega… –Daniil ia empurrando a namorada para o sofá, embora ela resistisse e tenha terminado debruçada sobre o balcão.

_Sempre soube que você mandava bem, Heero… –Tint prosseguiu, tentando focar os olhos nele com pouco sucesso.

Heero meneou a cabeça, franzindo a testa, sem se importar com a indecência da garota.

_Tint…! –Daniil praticamente rosnou, mas ela caiu na risada outra vez, aérea.

Relena tentou parecer bastante séria e aborrecida ao repreender a amiga:

_Quanto você bebeu, Tint? –mas a verdade era que queria rir.

_Só dois… –os lábios da russa se retorceram de um jeito improvável quando ela respondeu.

_Dois litros… –Daniil corrigiu, exausto.

_Sério? –Heero não gostou do que ouviu, investigando com ar desconfiado. Já que Tint sentara ao balcão, ele foi para o sofá.

_Não, me desculpe… exagero de minha parte. –e entendendo que Heero temia por uma emergência médica, Daniil explicou, ficando muito circunspecto, suas olheiras enegrecendo mais imediatamente.

_Está tudo bem, Danny. –Relena pegou sua xícara e tomou um gole. –Quer um café? Tem ovos para vocês também… acabei fazendo seis… não sabia se íamos repetir.

_Se eu comer isso, vou vomitar… –Tint torceu o nariz com bastante força, girando o pescoço quase 180 graus para longe do prato de Relena. –Eu estou cansada, Danny… vamos dormir… –choramingou.

Relena tirou da geladeira uma garrafa de água de coco e Daniil encheu um copo para Tint, o tempo todo falando com ela em russo, captando sua atenção aos poucos.

Aceitando as admoestações do namorado junto do isotônico, Tint bebeu tudo em poucos goles e deixou que ele a ajudasse ir até o quarto.

_Agora é nossa vez, viu? –afoita, ela provocou, lançando uma piscadinha de um olho só em direção de Heero. Daniil pareceu virar rocha ao lado dela, um constrangimento sem medida se apossando dele.

_Ela fica pior ainda bêbada ou é impressão minha? –Heero terminou de mastigar e murmurou, tentando não se ultrajar.

_Não, é só impressão… –se juntando a ele no sofá, Relena se permitiu rir enfim e avisou, tentando por sua vez não ficar sem graça.


Boa-tarde!

Demorei bem mais do que o planejado para voltar, mas acabei me envolvendo com um projeto em inglês e perdendo um pouco o pique aqui.

A noite dessa turma não acaba nunca... como é que não ficam cansados? Invejaaaa ehehehehe

Espero que tenham gostado do capítulo.

Deixem seus comentários que aguardo com muita ansiedade e lerei com muito prazer!

Obrigada pelo apoio e carinho!

Até a próxima!

Beijos e abraços!

08.06.2017