No último capítulo…

A Harley Davidson de Duo é roubada durante o tempo que ele passou no Cimarrón com os amigos. Akane pede a Quatre que leve suas amigas embora e vai com Duo a delegacia, fazer o B.O. Lá, além da demora para serem atendidos, encontram o Tenente Decker Evangeline, que os trata com pouco caso e termina por desafiar Duo e seu quartel para a Batalha dos Distintivos. Heero e Relena voltam do mirante, no caminho são informados do que houve com Duo por mensagens. No apartamento de Relena, ela prepara o desjejum para si e Heero. Daniil e Tint chegam algum tempo depois, ele trazendo ela bêbada para casa.

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21

Daniil ajudou Tint a chegar na cama. Logo que sentou, ela jogou as pernas para cima do colchão enquanto ele puxava o cobre-leito e o dobrava para deixar na poltrona.

_Você viu a cara deles?! –a moça ainda ria uma risada sem cadência.

_Sossegue, Tint. –ele tirou seus sapatos e os arrumou perto da cama.

_Eu não aguento como eles ficam sem graça!

_Eu sei que você está bêbada, mas não acha que está pegando pesado demais nas brincadeiras? –ele sentou junto dela na cama.

_Bêbada? –ela só prestou atenção nisso e imediatamente se ultrajou. –Eu não estou bêbada!

Daniil a encarou por um instante, ensopando o algodão com demaquilante. Baixou uma sobrancelha, charmoso, exibindo alguma dúvida.

_Não acredito que consegui enganar até você!

_Tint…

_Sério! O que está pensando? Eu sou russa!

_Sei… –ele começou a limpar o rosto dela, tirando o blush e a base.

_Russos não ficam bêbados fácil…

_Sim, eu sou russo também, caso tenha esquecido.

_Pois então! Sabe o que minha mãe colocava na minha mamadeira? Sabe? Ela colocava…

Daniil veio com algodão até um dos olhos dela e teve de se dedicar para tirar toda a sombra preta que ela usara.

_Vodca. –e respondeu no meio da frase dela.

_Ela colocava vodca… –ela continuou falando apesar de ele ter completado sua frase. Emendou, comemorando: –Isso, ela colocava vodca na minha mamadeira!

_Chega, Tint… –mas a Daniil era óbvio que ela estava bêbada. O cheiro do álcool também não o enganava. Nem a péssima dicção.

_É sério! Não acredita em mim, Dany?

_Acredito, acredito. Agora fique quietinha. –e para terminar logo com aquilo, ele aceitou, limpando os lábios dela com outro chumaço de algodão.

_Hã? Cadê a Allegra? –ela tateou a cama ao longo de seu corpo.

_Está na cesta.

_A Relena tinha razão… –e caindo pesadamente no travesseiro, Tint desabafou.

_É verdade.

_Mas eu nem falei no que ainda!

_Nem precisa. A Lena sempre tem razão. –sorriu, carinhoso, meio brincando, meio sensato em sua declaração.

_Seu tonto... –ela se acomodou no travesseiro e, virando de lado, ergueu os olhos para ele. Suspirou antes de voltar a falar. –Quase não passo tempo com a Allegra. Não adiantou nada eu ter salvado ela… e ainda vou ficar a semana do feriado toda fora… –choramingou.

_Não se preocupe com isso agora. Descanse um pouco. Amanhã você vai ter bastante tempo para brincar com ela… –ele cobriu a namorada e acariciou a curva do quadril dela por cima do lençol. Abaixou-se e deu-lhe um beijo de boa-noite. –Durma bem. –e ao se afastar, apagou a luz.

_Boa-noite. –ela aconchegou-se, não conseguindo resistir mais em fechar os olhos.

Ele fechou a porta e voltou para a sala. Relena e Heero estavam terminando de comer.

_Não vai aceitar mesmo tomar café aqui? –Relena insistiu. Heero se levantou e tirou o prato dela, levando a louça suja para a pia na pequena cozinha, intencionando lavá-la.

Daniil usou um segundo para decidir, mas por fim aceitou. Apesar de também estar exausto, não fazia mal forrar um pouco o estômago antes de voltar para casa.

Enquanto comia, conversaram sobre o roubo da moto, o treinamento para a Batalha dos Distintivos e os planos para as próximas semana.

Os dois rapazes foram embora juntos e, no elevador, Daniil continuou falando sobre os exercícios que costumava fazer. Quando se vê o bailarino no palco, é difícil de imaginar o quanto de força e resistência ele precisa ter para sua performance no espetáculo. Ele parece executar cada movimento tão despretensiosamente, mas criar essa impressão é o que dá mais trabalho. Heero respeitava qualquer conselho que Daniil oferecesse sobre rotinas de exercício porque, pelo que acompanhava da irmã, sabia que o balé era uma modalidade de cultura do corpo doentiamente exigente.

Com uma despedida amigável na saída do prédio, cada um foi para seu carro. Faltavam poucos minutos para às cinco da manhã.

Passando por uma avenida, Heero avistou uma ambulância dos paramédicos atendendo um acidente de moto. O brilho dos giroflexes ativou seus sentidos e ele diminuiu a velocidade ao passar por ela, cauteloso e interessado em verificar o grau de gravidade da situação. Tudo parecia ter sido resolvido, entretanto, e terminado bem.

Suspirou. Por sempre ter lidado com emergências, era difícil se desligar do trabalho. Porém durante as horas que passava ao lado de Relena, ele conseguia simplesmente ser ele próprio. Era a primeira vez que podia dizer isso e sentia que um grande peso tinha sido removido das suas costas. Agora entendia porque todos sempre insistiam nele arranjar uma namorada.

Entretanto, como tudo que fizera, sempre houvera o tempo certo e a pessoa certa para si.

Jamais se sentiria desse modo se não fosse com Relena. Sem pieguice, ela tinha sido a melhor coisa que lhe acontecera. Não tinha mais como imaginar sua vida sem ela.

E isso dava um pouco de medo.

Aquela conclusão não o surpreendia, mesmo que não estivesse acostumado a sentir medo. Seu trabalho não permitia essa humanidade, mas exigia tudo aquilo que fosse contrário ao medo – coragem, bravura, inconsequência. Senão, ele não teria a força e a energia necessária para se entregar aos perigos em prol de um desconhecido.

Havia algo diferente naquele medo, porém. Era do melhor tipo, porque nesse medo ele tinha certeza de que a amava.

Riu de si mesmo, parado no farol. Não gostava muito quando ficava sentimental assim…

Só que não conseguia evitar mais.

Sem planos para aquele domingo, a não ser descansar, ele tomou uma ducha antes de se jogar no sofá, ligar a TV e ficar navegando na internet pelo celular. Antes de pegar no sono, deu tempo de verificar se havia mensagens novas no grupo. Nada. Apesar de não demonstrar, estava preocupado com o que houvera com Duo. Mas não era como se ele pudesse fazer alguma coisa. Só queria mais detalhes, especialmente sobre aquela entrada imprevista na Batalha dos Distintivos.

Heero tentava antecipar o que levara Duo a tomar a decisão de participarem na disputa. Mesmo Duo não era assim tão irresponsável para resolver algo importante assim de forma tão repentina, o que fazia Heero crer que algo muito sério tinha acontecido. Mas pelo jeito, teria que esperar até amanhã para saber tudo.

Perdeu a batalha para o sono, dormindo enfim depois de quase 24 horas. Não se arrependia nem um pouco de ter bagunçado todo seu relógio biológico, por mais sofrido que fosse voltar à rotina na segunda-feira.

Tirou mais que um planejado cochilo, acordando levemente deslocado perto das 2 horas da tarde com um pouco de dor no pescoço. Checou as mensagens outra vez. Nada. Grunhiu, um pouco contrariado com isso. Tomou uma ducha, lanchou e saiu, pensando em levar a roupa para lavar e correr no parque.

As mensagens começaram a chegar depois das quatro.

Ane tinha ido para o apartamento de Relena, mandou fotos do que estavam aprontando. As três garotas mostraram os rostos cobertos de máscara de argila verde e os cabelos enrolados em toalhas, Tint segurava Allegra para ela também aparecer na selfie.

Duo mandou um recado em áudio explicando em detalhes com sua ginga despojada como fora o encontro da madrugada com o policial almofadinha, já fazendo uso livre do apelido que Ane dera ao Tenente Evangeline. Duo fez de tudo para provar que dessa vez não tivera um pingo de culpa, e apesar de revirar os olhos ante os esforços do amigo, Heero já estivera convencido disso. Não respondera nada, porém.

Ao tirar o fardo de roupas do carro, lembrou das pelúcias que ganhara de prenda no fliperama e deliberou por um tempo se ia até a casa de Relena entregá-los. Entretanto, vendo as meninas tão à vontade naquele momento só delas, resolveu que seria maldade atrapalhar. Mandou algumas mensagens para Relena apenas, para ela responder quando tivesse tempo, sem conseguir ficar completamente distante dela.

Depois de cumprir os afazeres pensados para aquela tarde, Heero retornou a seu apartamento tomar mais uma ducha e um lanche. Domingo é um dia de preguiça e desânimo por natureza que a gente quase nunca sabe aproveitar, mas a verdade era que ele não via a hora de voltar ao trabalho. Gostava muito do senso de propósito que só a rotina podia dar e enxergava uma semana especialmente atarefada, com o compromisso de ir à academia toda noite e os assuntos da Batalha dos Distintivos para resolver.

Acordou com o toque do celular, apesar de ainda ser cedo para isso. Nem em seu quarto ele estava, na verdade. Adormecera no sofá de novo, de televisão ligada, com o celular na mão. Antes de aceitar o telefonema de Quatre, teve o cuidado de verificar as horas: passava um pouco da uma da manhã. Previa más notícias.

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Um alerta de mensagem recebida cortou o silêncio do quarto e de pronto ativou sua dor de cabeça. Tint grunhiu, tateando o criado mudo até achar o aparelho, abrindo os olhos só para ler o recado. Tudo bem, talvez ela tivesse exagerado sobre sua resistência a bebidas.

Com dificuldade, desvendou o código que avisava que Akane queria ir ao apartamento. Perguntava se já tinham almoçado. Enfim Tint consultou o relógio: já era uma e meia.

"Pode vir. Quero tapiocas." –respondeu com toda força que conseguiu ajuntar. –"Ampelopsina e Advil." –pensou e achou melhor expandir sua lista.

Grunhiu e fechou os olhos, deixando a cabeça cair pesada no travesseiro outra vez.

Toda sua movimentação acionou outro alarme. Allegra saiu no máximo da pressa de sua cestinha e começou a desfiar seus miadinhos agudos, pedindo tudo o que tinha direito: colo, carinho, água, comida e areia limpa, não necessariamente nessa ordem.

"Você falando assim, até parece que está de ressaca. Você não era russa?" –Ane não deixou passar.

Tint grunhiu de novo recebendo a resposta e se levantou de uma vez para obedecer às lamúrias de Allegra. Até que foi bom se mexer um pouco.

Depois que cuidou da gatinha, foi tomar uma ducha e acordar Relena. Foi tempo suficiente para Akane chegar.

_Quanta coisa! Você veio de mudança, é? –Tint exclamou ao abrir a porta e ver Akane com uma mala esportiva em cada ombro e quatro sacolas de plástico nas mãos, que tirou dela, para ajudá-la.

_Cuidado, nessas duas está o almoço. –Ane soltou as alças só depois de ter certeza que Tint as tinha segurado. –Eu trouxe uns produtos para a gente hidratar o cabelo e fazer uma limpeza de pele… depois de tanta farra, precisamos nos recompor.

_Ah, que ótima ideia. Estou achando mesmo meu cabelo tão opaco. Tira as pontas para mim? –puxou uma das longas mechas e estudou sua textura e conferiu as pontas duplas.

_Claro! Cadê a Lena? Vamos comer…

_Lena, a Ane trouxe o almoço, vem… –Tint arrastou os chinelos até a porta do quarto da amiga.

_Já vou. –acabara de sair do chuveiro.

_Está bem. –e indo até seu quarto, foi ver o que Allegra estava fazendo, resolvendo trazer a cesta dela para a sala. –Moya malenkaya, podoydi syuda… –chamava e olhava para trás, para ter certeza de que a gatinha vinha.

Vendo a cesta indo embora, Allegra irresistivelmente a seguiu, curiosa.

Akane já tinha tomado conta da cozinha e arrumado as tapiocas em pratos:

_Já está melhor? Nem quis o remédio mais…

_Hm, vou tomar já… –procurou o frasco nas sacolas, alheia ao que Akane ainda fazia na pia, de costas para ela.

Separou o comprimido e viu Ane pôr um copo de mimosa na sua frente.

_Mas o que é isso?! Vou tomar tira-ressaca com champanhe por cima? A gente tá bem, hein?

_Que nada, essa eu preparei com San Pellegrino.

_Mas virgem não tem a menor graça!

Relena apareceu na sala então.

_O que é isso, causando logo cedo?

_Cedo só se for para você, Bela Adormecida.

As três se entreolharam e caíram na risada.

_Essas tapiocas estão com uma cara ótima.

_Atacar! –Akane serviu a dose de mimosa para Relena e elas começaram a comer, ali em pé no balcão mesmo.

_Agora, conta mais do que aconteceu lá na delegacia… –Tint investigou, a boca cheia.

O assunto já delineado na mensagem rendeu, Ane fazendo questão de dar um relato cabal de tudo.

Depois, Tint discorreu sobre o que houve no Cimarrón depois da partida de Ane. Também não era pouca coisa o que tinha para falar.

_Sua vez. –anunciando assim depois de encerrar seu assunto, Tint mordeu sua tapioca pela primeira vez no que parecia anos.

Relena até já tinha terminado a dela. Estivera ouvindo tudo com deleite e tranquilidade, mas não entendeu que o incentivo tinha sido para ela, entretanto. Continuou distraidamente reabastecendo seu copo da mimosa e, notando o silêncio, ergueu a vista para as duas e franziu a testa:

_Hã? Minha vez de quê?

_Que gracinha… –Tint provocou, acusando Relena de falsa desentendida. –Está pensando que não notei que você fugiu com o tenente?

_Só não dê detalhes muito gráficos, tá legal? Não estou afim de saber o desempenho do meu irmão… –Ane gracejou picante, comendo seu último pedaço do lanche.

_Então sai daqui, Ane, porque eu estou… –Tint brincou de empurrar Akane, mas a ruiva travou os pés no chão, empurrando Tint de volta, e gargalharam alucinadas.

_Vocês duas são doentes! –enquanto isso, Relena reclamou, bufando e recolhendo os pratos vazios. Passou uma água neles e retornou ao balcão para mais um gole do drinque.

_Não precisa ficar acanhada, Lena… –Tint insistiu. –Nada que você disser vai me chocar…

_Para com isso, Tint!

_É, Tint, chega… quero saber o que a Lena e o Heero fizeram!

Tint revirou os olhos ante as reprimendas e suspirou, cansada. Ergueu as mãos em sinal de rendição, decidindo de concentrar em comer.

_Não foi nada demais. Heero me levou no mirante… a gente ficou assistindo as estrelas lá um tempo e conversando…

_Que romântico… –Ane debruçou no balcão, encantada.

_Ok, nada mal… –Tint deu de ombros, mas fora sincera em sua opinião.

_Ele comprou café e tinha uma manta no carro. A gente se encostou no para-brisa, sentados em cima do capô… –Relena explicou mais. Mas então as palavras se perderam em sua mente, as lembranças do momento emudeceram-na, dando um brilho sorridente a seus olhos.

Akane e Tint assistiram ela assumir aquele ar sonhador e corar sozinha e soltaram risinhos travessos.

_Já vi que você não está contando tudo… –Tint levou o prato dela até a pia e na volta bagunçou os cabelos de Relena, tirando-a do transe.

_Tem coisas que eu nem sei explicar… –Relena justificou, de modo meigo.

_Não se preocupa, a gente sabe como é… –Akane comentou, alegre.

Relena sorriu para ela e assentiu, pensativa. Era verdade. Ainda assim, as meninas ali se encontravam em diferentes momentos de relacionamento e tinham diferentes maneiras de levá-lo. Tint e Daniil tinham uma relação bem balanceada, fazendo bom uso dos contrastes de suas personalidades, e Ane e Duo exibiam uma afinidade tão grande, daquela na qual um completa a frase do outro, e aquilo inspirava Relena a encontrar seu próprio modo de amar Heero. A cada segundo, se apaixonava mais por como era sempre tratada com tanto carinho e consideração por ele, que mesmo de modo acanhado, agia como um perfeito cavalheiro.

_Eu tenho muita sorte. –ela pensou alto, sorrindo com força, ainda pensando nele. Onde ela encontraria alguém igual?

_Tenho certeza de que Heero pensa do mesmo jeito… Você faz muito bem para ele. –Ane apresentou, calorosa. Sabia do que falava. Relena estava ciente de que ninguém conhecia Heero melhor que ela.

E, sem saber o que fazer – se agradecia feito tivesse ouvido um elogio, se ria ou se respondia algo bem-humorado – Relena continuou sorrindo e terminou por apenas assentir.

_É assim que acontece quando a gente encontra a pessoa certa… –Tint suspirou, sentando no chão e brincando um pouco com Allegra.

De fato, todas elas sabiam. Todas elas eram sortudas.

Passaram o resto da tarde naquele entrosamento bom, falando um pouco de tudo, enquanto uma ajudava a outra a passar a máscara de argila no rosto ou pentear o cabelo cheio de creme. As horas foram passando e elas nem sentiram, entre risadas, e selfies e segredos trocados, e fofocas bobas e invejinha branca.

Para jantar, improvisaram uma salada com sardinha, bem leve, e depois jogaram os colchões no chão, apagaram tudo e só deixaram a televisão ligada, assistindo "O diário da princesa" reprisando no Disney Channel. Allegra acompanhou as meninas em tudo o que fizeram, o tempo todo, e, quando as meninas deitaram na sala, ela caiu exausta perto de Tint, satisfeita pelo melhor dia da sua vida até agora. Nunca tinha ganhado tanta atenção.

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_Como foi a noitada? –com a chegada de Toms ao vestiário, a equipe do Escada 5 ficara completa. Lech respondeu de pronto:

_Você perdeu! As amigas da patroa são um verdadeiro incêndio, não é não, chefe? –e acotovelou Duo.

_E eu que pensei que bailarinas fossem todas certinhas… –Bayani observou, malicioso.

Terminando de vestir a camiseta, Duo puxou a trança pela gola e replicou:

_Antes de conhecer você, eu também pensava que todos os bombeiros fossem machões…

_Não esperava essa do senhor, chefe! –Bayani rebateu, magoado, mas depois as gargalhadas altas e potentes explodiram dentro do vestiário.

_Quem mais aproveitou foi o Pit. Está bombando no Instagram até agora com o show que deu com a Valentina… –Farnesi mencionou, acotovelando Pit, que pareceu ficar bastante sem graça:

_Já falei que estou enferrujado…

_Se aquilo era ferrugem, me pergunto o que acontece se colocarmos um pouco de óleo nessas dobradiças… –Lech brincou. –E, Vic! Até agora não soube se você conseguiu pegar a Lya ou não…

Victorious não estivera muito empolgado em participar da conversa, se mostrando distante, mas ante o som de seu nome, olhou para os lados e explicou:

_Tive uma concorrência pesada…

_Já vi que tomou uma bela bota!

_Era couro de crocodilo, era, Vic?

_Pena ela calçar o seu tamanho!

_Parem já com isso, o pobre rapaz está sofrendo…

As brincadeiras progrediam e Victorious parecia mais e mais chateado.

Assim, Farnesi decidiu oferecer:

_Fala quem foi que tirou seu doce que a gente vai dar um jeito nele. –Ele era o mais malhado de todos, o mais alto, de pavio mais curto, e só um louco entraria em uma briga com ele. Sendo assim, todos ali eram loucos, porque nada disso impedia seus colegas de equipe de o provocarem. Eram mesmo verdadeiros bombeiros, sem qualquer medo da morte… ou apenas muito bons amigos.

_Não, não foi isso que eu quis dizer! –Victorious demorou, mas acabou estourando. –Ela falou que tinha acabado de sofrer uma desilusão muito grande e que… que palavras que ela usou mesmo? Algo com 'Ir com calma' e 'precisar se recuperar'…

Todos fizeram silêncio então, refletindo no que ouviram.

_Boa-tarde, equipe. –e foi nesse momento que Quatre chegou.

_Oras, Vic! Pode falar! Foi o charme do tenente aqui que roubou a Lya de você! –Duo pulou do lado de Quatre e abraçou-o pelo ombro.

As risadas foram causadas mais pela expressão de horror que Quatre exibiu do que pelo embaraço de Victorious, que de boca fechada, aproveitou a deixa e saiu.

_Rolou, Quatre?

_Ah! Ele até levou ela para casa! –e Duo fez questão de mencionar, soltando o amigo.

A rapaziada comemorou e encurralou Quatre para um fuzilamento:

_Ela beija bem?

_Ela deixou você passar a mão?

_Que cor era a calcinha dela?

_Você prefere Lyatre ou Quatrya?

_Puxa, mas os dois são péssimos…

_Quando sai o casório? Quero bolo!

_Qual vai ser o nome do bebê?

Claro, era tudo para perturbá-lo. Apenas a primeira pergunta fora suficiente, mas aquele interrogatório, degradante na opinião do Tenente Winner, deixou-o completamente paralisado de horror.

_Ah, acho Quatrya o melhor…

_Não! Chega! –Quatre berrou no meio da zona. –Parem com isso agora! –tinha ficado vermelho, mas dessa vez não fora por vergonha. –Onde sobra imaginação para vocês, falta respeito! Parem já com isso agora! Não houve nada entre eu e ela, e mesmo que tivesse acontecido qualquer coisa, eu nunca iria dizer a vocês! Onde já se viu?! Quanta indiscrição! Isso é tudo culpa sua, Duo Maxwell! –e virou-se para Duo com motivações assassinas no olhar.

Mas Duo não estava mais lá há muito tempo…

Quatre bufou algumas vezes e saiu do vestiário pisando duro. O silêncio perdurou por um longo instante, porém foi destruído por outra rodada de barulhentas gargalhadas.

_Já é seguro sair agora, chefe… –e Pit avisou, buscando Duo atrás da fileira de armários, onde o tenente tinha furtivamente se protegido da fúria de Quatre.

_Por que vocês têm de fazer isso com ele… –e estalou a língua, chateado, fazendo teatro de reprova. –Não sabem que Quatre é melhor que todos nós aqui? Não podem abusar dele assim…

Com o decorrer do dia, a festa, o roubo da Davidson, a entrada na Batalha dos Distintivos era um assunto que ia e voltava, e até o jantar, o quartel estava inteirado dos ocorridos da madrugada que alguns da Escada 5 tinham passado.

_Você já me perdoou, Quatre? –no retorno de uma das várias ocorrências atendidas durante a tarde, Duo desceu do caminhão e foi encontrar o amigo. –Eu admito, posso ter passado dos limites dessa vez…

Quatre estava pendurando sua jaqueta no gancho do caminhão e acusou a aproximação de Duo por cima do ombro. Virou-se então, estreitando os olhos:

_E o que eu posso ter contra você, Duo, além do excesso de bom humor? –suspirou, colocando as mãos na cintura, parecendo conformado. Sempre soube que a rotina no batalhão contava com uma boa quantidade de piadas e trotes sem noção que, em geral, significava uma demonstração sincera de amizade.

_Por isso que gosto de você, Quatre! Você entende… você sabe brincar… não é como o Heero.

Quatre sacudiu a cabeça – não fora exatamente essa a impressão que quis causar.

_Aquela carona no fim do turno está de pé? –e com um sorriso amarelo, Duo cruzou os braços atrás da cabeça.

_Hã? –Quatre franziu as sobrancelhas, contrariado de repente. Teria sido este o objetivo de Duo desde o início? –Acabei de me lembrar… sua mãe me pediu para dar uma passadinha lá quando eu saísse… –ninguém era santo e Quatre aprendia rápido.

Lech e Bayani, ainda por ali, não perderam a chance de caçoar:

_Ô, louco! –baderna era com eles mesmos…

O queixo de Duo caiu, nunca tinha esperado algo assim vir de Quatre, mas conseguiu gargalhar depois, continuando esportivo:

_Ok, eu mereci esta! –e após se recuperar, alcançou Quatre e o acompanhou até a sala comunal. –Se quiser, te passo umas dicas… Ela odeia quando deixam a toalha molhada em cima da cama, viu?

_Duo! –Quatre corou até as raízes do cabelo, sem acreditar no que estava escutando. Definitivamente, Duo não sabia quando parar. E ele tinha muito o que aprender, recorrendo a risada como única atitude segura.

_Será que o Victorious me leva embora? –Duo pensou alto e distraído, parando no balcão da cozinha, procurando algo para comer.

_Nem pensar, chefe. –a resposta veio imediata e do próprio Victorious.

_Mas que colegas mais vingativos eu tenho, não…?

Da sua sala, o capitão só podia ouvir as risadas. Sacudia a cabeça, um sorrisinho esgueirando em seu rosto, por sua vez. Não entendia como o pessoal do segundo turno conseguia tanto motivo para graça…

_Escada 5, Pipa 4, vazamento de gás. Avenida Leste-Oeste, Doca 32. –O alarme, que estivera calado nas últimas duas horas, resolveu disparar bem na véspera do fim do expediente.

Já estavam esperando por essa sacanagem, tinham trocado olhares um pouco preocupados e tentado agir naturalmente, querendo passar despercebidos da maldição da última chamada.

_É, acho que essa é a nossa música, galera… –Duo se ergueu do sofá, onde estivera confortavelmente matando tempo no celular, e todos correram para o caminhão.

Pisaram nos sapatos, entraram dentro das calças e subiram os suspensórios de um modo rápido e prático, tão sincronizados que suas alegações de não saber dançar se tornavam mentirosas.

Pit era sempre o primeiro a estar pronto, pulando atrás do volante para levá-los até o problema. Mal todo mundo subiu no caminhão, este deslizou para fora da garagem e cortou a noite preguiçosa, iluminando a rua com seus flashes azuis e vermelhos.

Vazamentos de gás eram uma ocorrência comum, entretanto, aquela estava localizada no porto, e era difícil ignorar a tensão que nascia da possibilidade de um acidente mais grave acontecer. Ninguém tinha esquecido ainda a explosão dos containers de meses atrás, tanto que os batalhões decidiram refazer os treinamentos específicos para aquela situação.

Com todas as instruções frescas na mente, as equipes desceram no pátio do lado de fora de um galpão instalado na doca 32 e começaram a reconhecer o local. Aparentemente, não havia nenhum foco de incêndio. Era exatamente meia-noite.

_Farnesi, encontre o quadro de força e desligue a energia. Toms, Lech, para o telhado, ventilar. Bayani, Gracchus, quero que deem uma volta, isolando a área e verificando se tem alguém por aí…

_Quem fez o chamado? –Quatre murmurou, procurando em torno, com o aparelho detector de gases em mãos, fazendo leituras iniciais. Ninguém os estivera esperando ali.

_Será que foi uma denúncia anônima? –Duo colocou o capacete e perguntou a esmo. –Quatre, quero você no comando aqui fora. –e ajeitando a máscara pendurada no seu rosto, avisou. –Vou levar Vic comigo.

_Tomem cuidado. Estarei monitorando vocês. –Quatre mostrou o rádio para enfatizar que dava uma de suas ordens sutis.

Duo aceitou, seu grande sorriso confiante escondido pelos equipamentos, e Victorious recebeu o detector que Quatre tinha aprontado.

_Saveriu, Marfani, ajudem o Tenente Maxwell fazer a entrada.

_Sim, senhor.

Os homens se aproximaram mais do prédio, indo até a porta de aço principal. O leitor não apontou nada crítico por ora e Saveriu já ia encaixando a barra Halligan quando Gracchus surgiu, avisando:

_Encontramos uma porta destrancada, chefe…

_Vamos por lá, então. –Duo apresentou. –Farnesi, como está a energia? –verificou pelo rádio.

_Acabei de desligar a chave geral, chefe.

_Beleza. Toms, já estão aí em cima?

_Positivo, chefe. Vamos começar a ventilação.

_Cavalheiros, sigam-me por gentileza… –Duo convidou, por sua vez, caminhando agilmente até a porta lateral. Bayani estava parado ao lado dela, sinalizando-a, e só se pôde notar sua expressão desagradada de perto:

_Marcas de arrombamento, chefe. Melhor ficarmos espertos. –vestiu a máscara então, para acompanhar a entrada.

_Quatre, esteja pronto para acionar a polícia. –Duo passou o rádio.

_Copiado.

_Vou entrar. –e avisou, ciente de que o amigo iria querer estar a par de cada movimento deles.

_Corpo de bombeiros! –Victorious gritou, indo na frente com o detector.

Com as lanternas jogando seus fachos de luz no caminho, eles investigavam o redor, olhos e ouvidos bem abertos. O galpão estava cheio de pallets carregados até o alto, mas a escuridão não permitia identificar o que continham, embora não parecesse materiais reagentes com o gás. A abertura feita no telhado deixou o luar entrar com mais força, e as pilhas de mercadoria projetaram sombras profundas em alguns cantos.

O silêncio dominava o espaço como uma grande criatura adormecida, e os três bombeiros não tinham coragem de perturbá-la, seus passos já pareciam ecoar alto demais. Iam contornando os pallets, iluminando os corredores entres estes que criavam um tenebroso labirinto, ainda sem ideia do que seria a origem do vazamento.

O leitor indicava o grau de inflamabilidade como estável, mas Victorious notou a concentração cada vez mais alta conforme ia tomando o norte do galpão. Gracchus o acompanhava de perto, mas Duo se desviou sem perceber em direção do que pareciam as cabines do escritório.

Teve a impressão de ver um vulto. Preferia mil vezes estar enganado. Aquilo não podia ser boa coisa… se tinha alguém ali, não era nenhum candidato a funcionário do mês, sacrificando horas de sono pelo seu trabalho. Entretanto, ele tinha que verificar. A partir do momento que entrou, se tornou responsável por qualquer coisa que acontecesse e por qualquer um que estivesse lá.

Escutou o que pareceu cadeiras pesadas caírem no chão.

_Corpo de Bombeiros! –avisou, jogando luz dentro da sala. Conseguiu enxergar os movimentos pelas sombras lançadas e seguiu avançando lentamente, continuando a falar. –Estamos evacuando a área! Vazamento de gás! Perigoso continuar aqui!

_Não chegue mais perto!

_Corpo de bombeiros! –Duo diminuiu ainda mais o ritmo de seus passos, jogando o facho de luz na porta aberta do cubículo, encontrando a figura de um homem aproxidamente da sua altura. –O senhor tem que sair daqui!

_Parado, senão eu atiro! –cobrindo o rosto quando a luz tentou revelar suas feições, ele comandou.

Duo abaixou a lanterna um pouco, preocupado em ter ofuscado a vista do homem:

_Senhor, não faça isso… –e ergueu as mãos, mostrando-se totalmente desarmado. –Não sabemos quanto do gás chegou até aqui. Um disparo e tudo pode ir aos ares.

_Não me importo! Saia daqui agora! Saia ou eu vou atirar!

_Duo? Duo, responda! O que está havendo? –no rádio, Quatre fez sua checagem. Sua voz sempre suave e baixa assumia um timbre imponente e pressuroso em serviço, soando alto aos ouvidos dos dois que se enfrentavam ali.

_Eu sei que vieram me buscar! Não vou me entregar! –o homem rebateu, a voz áspera e enraivecida não permitia que fosse subestimado. Segurou o revólver com as duas mãos.

Os olhos azuis de Duo não se desviavam por nada da figura apontando a arma para ele. Por um segundo, seguiu imóvel e não falou nada. Respirou fundo. Não poderiam ficar naquilo a noite toda.

_Abaixe a arma, senhor! É só o que peço… –Duo se moveu à frente, sua ideia era pular em cima do homem e, pelo menos, tirar o revólver dele. Se ele fugisse depois disso, deixaria com a polícia. O importante era a arma não ser disparada.

Entretanto, o risco era alto e a situação imprevisível:

_Eu disse para não se aproximar! –o homem berrou enlouquecido e apertou o gatilho.


Ampelopsina: mais conhecido como diidromiricetina, é o principal componente de cápsulas para combate a intoxicação por álcool (ressaca). O certo é tomar uma antes de deitar.

Halligan: uma ferramenta especial usada para abrir vários tipos de portas.


Boa-noite!

Retorno!

Entre a empreitada da fic do Zechs x Noin para o evento de junho e a do Dante, "Segundas Chances", demorei mais do que queria para retornar ao "Pássaro de Fogo".

Vou tentar compensar todos postando o próximo capítulo até o fim desse mês, para não ficar muito atrás no programa de postar um capítulo por mês.

Não tenho muito que comentar do enredo por ora, acho que as coisas quero falar se encaixam mais no próximo capítulo.

Espero que tenham gostado e continuem acompanhando!

Agradeço do fundo do coração a todos que leem, os que comentam, e aguardo com ansiedade todas as suas opiniões!

Visitem o tumblr da fic apartmenti09. tumblr. com

Beijões!

09.09.2017