No último capítulo…

Daniil cuida de Tint após chegarem ao apartamento no edifício St. Gabriel e a coloca para dormir. Depois, toma café com Heero e Relena antes de ir para casa. Mais tarde, Akane vem para o apartamento, trazendo o almoço e produtos para elas cuidarem da pele e do cabelo, e acaba ficando lá, fazendo uma festa do pijama com Relena e Tint. Heero passa o domingo cuidando de suas tarefas em casa e descansando. De madrugada, recebe um telefonema de Quatre e já espera por más notícias. Quase no fim do turno, Quatre e Duo respondem a uma ocorrência no porto. Dentro do galpão onde acontecia um vazamento de gás, Duo encontra um homem escondido e armado, com toda a intenção de atirar.

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22

_Você está ouvindo? –Gracchus captou os ecos de um vozerio. Com um gesto de mão fez Victorious aguçar os ouvidos.

_O que foi isso?!

Parados diante um ajuntamento de botijões, tinham acabado de encontrar o foco do vazamento. Entreolharam-se com alguma hesitação. Deveriam voltar? Será que o tenente tinha encontrado problemas?

Contudo, Gracchus não teve oportunidade de chamar Duo no rádio.

O tiro repercutiu no galpão inteiro. Os dois soldados se encolheram, cobrindo os ouvidos, atordoados com o estrondo.

_Vai explodir! –Victorious gritou por reflexo. Se realmente fosse verdade, ele não teria tido a menor chance de alertar.

Embora fora preciso alguns minutos para se recuperarem, logo escutaram um apito repetitivo, vindo de certa distância. Parecia absurdo serem capazes de captar o soar daquele alarme, mas o barulho do PASS funcionando significava a vida para eles, e bem poderiam identificá-lo dentro de uma torcida comemorando o gol da virada.

_Fui atingido… –Duo gemeu no rádio. –Ele fugiu… –e informou Quatre, sem muita explicação.

_Bombeiro caído! –e, depois da mensagem, Quatre anunciou ao grupo com ele, disparando um olhar incandescente para Saveriu ao seu lado, que saiu correndo obedecendo ao gesto do seu tenente. –Pipa 4 para Central, preciso de paramédicos e atendimento policial na minha localização, urgente!

_Entendido, Pipa 4.

Bayani, que estivera na porta todo o tempo, correu para dentro do galpão quando ouviu o disparo e deu de cara com o agressor em fuga.

_Abaixe a arma! –rugiu.

Mais tiros. O homem continuou correndo sem se preocupar se tinha acertado o brutamonte que viera para cima.

Se levantando logo, ileso, Bayani saiu em perseguição.

Saveriu também não conseguiu detê-lo, sendo acertado na perna. O homem acelerava sem parar, escolhendo o sentido contrário dos giroflexes dos caminhões.

_Você está bem? –Bayani agachou junto de Saveriu, que segurava a panturrilha.

_Ah… acho que sim… –replicou, a voz abafada e entrecortada pela repressão da dor. –Vá ver o tenente…

Seguindo o alarme PASS, que já estava em cadência frenética, Bayani pôde facilmente encontrar Duo, deitado no chão, a mão agarrada ao peito.

_Winner, achei Maxwell. –e notificou pelo rádio.

_Os paramédicos estão a caminho. Toms está indo até vocês com a prancha.

_Tudo bem… ele me acertou… no ombro… –Duo conseguiu avisar, mas nem tentou se erguer.

Quando foi atingido, caiu pesado, de uma vez, e a dor viajou feito uma descarga elétrica por todos os seus nervos, obrigando-o a ficar o mais imóvel possível. Sua mão institivamente amparou o ferimento, usando toda a força do corpo, e só lhe restara esperar o socorro.

Bayani deixou um suspiro de alívio escapar ao perceber que o tiro tinha pegado o lado direito. Tirou a mão de Duo com cuidado para fazer um breve exame:

_Pelo jeito, a bala está alojada, chefe. Aguente firme, a ajuda já vem. –enquanto falava, tirou o tanque de oxigênio das costas de Duo para acomodá-lo melhor no chão, e depois reforçou a compressão que Duo fazia na ferida com sua própria mão. –Eu ainda não acredito que o armazém não explodiu, chefe… –olhou em torno, uma expressão estupefata dentro da máscara autônoma de gás.

Duo fechou os olhos, sentindo um suor frio cobrindo seu rosto. Tentava manter a dor sob controle, procurando na mente algo qualquer em que se concentrar, mas a observação de Bayani não ajudou muito. A fraqueza que subjugava seu corpo só aumentava ao pensar que, se o galpão tivesse de fato explodido, ninguém escaparia com vida daquele acidente…

_E… os outros? –abriu os olhos e perguntou com dificuldade, queria se manter desperto.

_Estão todos bem. Saveriu levou um tiro na perna… Pelo jeito nosso jogo de domingo está cancelado…

Duo desistiu de rir já no meio da ação, tossindo um pouco:

_Nos filmes não parece doer tanto… –e reclamou alto.

Bayani meneou a cabeça, a lanterninha em seu capacete iluminava a palidez que o rosto de Duo assumia a cada segundo.

A viatura de polícia veio poucos minutos após o chamado e Quatre deu as informações que tinha, assistindo o carro partir em alta velocidade, certo de que capturaria o homem que escapava a pé.

_Localizado o foco do vazamento. –o rádio chiou com o relato de Gracchus. –Contamos aqui 22 botijões de 45 quilos em condição irregular.

Ajuntados em um canto do galpão, de maneira imprópria, os botijões tinham em maioria os lacres ressecados e rompidos devido ao calor e desgaste do tempo, fazendo com que seu conteúdo escapasse. Talvez o cheiro pronunciado chamou a atenção de algum transeunte, que não arriscou ficar e ver o atendimento da ocorrência, o que fazia o caso ainda mais suspeito, tornando indispensável uma investigação séria e detalhada.

_Vamos trazer todos para fora. –em seguida, Quatre deu ordem a todas as mãos que ajudassem na tarefa. Entretanto, separou Lech e Zan Wei para cuidar de Saveriu e mandou Toms ajudar Bayani com Duo, até as ambulâncias chegarem.

O capitão do Quartel 110 havia pegado a mensagem que Quatre enviara para a Central e viera prontamente, chegando pouco antes da uma da manhã. Pegou todas as informações com Quatre, aprovou as decisões do tenente e o deixou lidando com o resto, preocupando-se em acompanhar a situação dos baleados. Os paramédicos apareceram dentro de dez minutos e, ao ser colocado na ambulância, Duo saudou o capitão:

_Que tal a noite, chefe? –falou lentamente, mas risonho ainda.

_Não tão boa quanto a sua… –e aproveitando a despretensão de Duo, o capitão gracejou, fiscalizando o procedimento dos socorristas.

Ao lado, Bayani franzia as sobrancelhas, entre preocupado e divertido, carregando o equipamento de Duo com o auxílio de Toms. Antes de se afastar para cuidar de sua próxima tarefa, ele entregou ao capitão o cartão de identificação de Duo, que ficava guardado dentro do capacete.

Duo meneou a cabeça devagar e estalou a língua:

_Ninguém quis me dar carona para casa, chefe… tive que me virar…

O capitão não resistiu em rir a bom rir, guardando o cartão do tenente no bolso interno da jaqueta. Depois, conferiu o estado de Saveriu, que estava sendo acomodado na ambulância.

_Vou segui-los no meu carro. –o capitão então mencionou, avisando a paramédica que subia atrás do volante. Ela assentiu, fechando a porta e dando a partida, sem perder tempo.

Para o Escada, o trabalho prosseguiu noite adentro. A operação foi demorada. Apesar de encontrarem dois carrinhos de carga vazios perto dos escritórios, estes só comportavam um botijão por vez, e a carga e descarga dos vasilhames precisavam ser feita com cautela.

Quatre pediu que Pit levasse o caminhão Autoescada embora, achando melhor liberar o uso dele para o terceiro turno, mas o caminhão Pipa ficou na cena até o fim. Não dava para saber se ele ainda seria necessário, tinham ainda de avaliar se algum dos botijões precisava de resfriamento.

No quartel, todos queriam atualizações. Não havia notícias na TV ainda, mas o jeito que o capitão saíra só podia significar problemas. Depois de dar um relatório breve e tranquilizador, Pit trocou-se e foi para o hospital, juntar-se ao capitão. Os dois se encontraram na sala de espera enquanto Duo e Saveriu passavam pelo atendimento de urgência. Ainda não tinha ficado claro se Saveriu iria precisar de cirurgia, mas Duo tinha dado entrada na sala de operação assim que o sangramento fora controlado.

Logo teriam atualizações.

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Não importava quantos anos passassem desde a primeira vez que ouviu o riff sagrado de "Sweet Child o'Mine". Desde o primeiro celular que tivera, aos trezes anos, esta canção sempre seria o som do seu toque.

Ela bem que já tinha tentado trocar várias vezes… substituir os acordes potentes por uma batida eletrônica, mais atual, só que sempre que fazia isso, não conseguia registrar que era seu telefone tocando, demorando demais para atender, até perdendo a chamada.

A guitarra de Slash era um toque perfeito, não só porque que era ótimo ouvi-la, mas porque esta não podia ser ignorada. Nunca. Ela simplesmente exigia atenção, inclusive àquela hora da noite.

Akane estava deitada de bruços, abraçada no travesseiro, e ergueu a cabeça com esforço. Apertou os olhos com a luz emitida pela tela do aparelho e tomou-o com uma mão. Ainda franzindo os olhos, reconheceu o rosto de Heero no visor e com agilidade deslizou o dedo para aceitar a ligação:

_Alô. –sua voz sem entonação saiu abafada pelo travesseiro. Tinha deitado o rosto outra vez, indisposta em abrir mão do sono. A seu lado, Tint se revirou, perturbada pelo barulho, mas ainda presa entre o repouso e o alerta.

_Ane, é o Heero.

_Eu sei… –suspirou, virando de barriga para cima. –O que aconteceu?

Heero não notou o modo prático dela falar porque simplesmente não o estranhava.

_O Duo foi baleado em uma ocorrência. –explicou de uma vez, sem delongas, porque sabia que era melhor assim.

Ane abriu os olhos e franziu as sobrancelhas.

_Como assim, Heero? –estranhou a frase surreal que ouvira, mesmo sabendo que não podia duvidar dele. A partir de então, seu coração disparou fora de seu controle.

_Quatre acabou de telefonar. Deu poucos detalhes, mas assegurou que Duo está bem.

Ela levantou com ágil suavidade e sentou-se. Inconscientemente, começou a mexer no cabelo, puxando-o todo e ajuntando-o desde a testa, arrumando-o para um lado, escorrido na frente do corpo:

_Falou com o capitão? Ele pediu algum documento? –e não lhe escapava o fato de que seu telefone estava no cartão de identificação de Duo. Ele tinha atualizado recentemente, especialmente para acrescentá-la a lista de contatos. Situações de emergência não aceleravam seu coração só pelo choque, mas ela se sentia na necessidade de agir, e estava a ponto de se pôr de pé quando ouviu Heero explicar:

_Falei, ele já está no hospital e disse que está tudo resolvido. –a voz dele transmitia uma segurança em que ela sentiu-se aliviada em se apegar. Assim, ela soltou o peso do corpo, desfazendo a postura perfeita que assumia naturalmente, mas parecia ainda mais enrijecida pela tensão.

_Está certo… –e suspirou de novo, dessa vez mais fundo, do jeito que fazia quando precisava de um impulso extra. –Eu ainda estou aqui na Lena. Você vem me buscar?

_Estou saindo agora. Estarei aí em quinze minutos.

_Tome cuidado. –ela pediu, já totalmente desperta, falando com voz séria e insossa.

E ao desligar o telefone, ficou alguns segundos encarando a tela. A claridade revelava as linhas tensas do rosto da moça e o modo como as sobrancelhas dela pesavam sobre os olhos opacos de repente.

De plano de fundo, Akane tinha colocado uma selfie da noite anterior. O sorriso de Duo chamava sua atenção e parou os olhos ali ao terminar de registrar o que ouvira de Heero.

_O que foi, Ane? –Tint acabou acordando durante o telefonema, mas não se levantou. Cobrira os olhos com um braço, acompanhando o tom da voz de Akane aumentar e endurecer a cada frase que produzia.

_Ane? –Relena se ergueu de lado e indagou, com calma controlada, a voz macia se misturava com o silêncio feito na verdade jamais tivesse soado. Imitou a feição preocupada que viu na amiga e aguardou a resposta, que demorou um pouco para vir:

_Duo levou um tiro. –e não conseguia reconhecer a frase como sendo sua, mas Ane a captava como vindo de uma direção alheia. Franzia a sobrancelha com mais força, mais intrigada do que sobressaltada.

_Ah não… –os olhos de Relena se encheram de água e, por um instante, ela não conseguiu respirar. Cobriu o nariz e a boca com uma mão, rastejando pelos colchões, tentando se achegar.

_Foi durante uma ocorrência… Heero não soube explicar mais.

_Você está bem, Ane? –Tint sentou rápido e envolveu os ombros de Akane com um braço acolhedor, dobrando o corpo e olhando bem no rosto dela.

_Você precisa de alguma coisa? –Relena ofereceu por sua vez, ajoelhada na frente da ruiva.

Primeiro Akane negou com um movimento fraco de cabeça, sempre olhando para baixo. Sabia que era real, mas não conseguia entender, não queria aceitar. Então ela falou, mas dizia mais para si mesma:

_Está tudo bem… Heero falou que está tudo bem… –e esfregou os olhos com uma mão, esfregou com força, apagando as lágrimas. Não precisava chorar. Não, fora só um susto. Sacudiu a cabeça e ergueu o rosto. –Ele está vindo para cá…

Relena se adiantou e acendeu a luz da cozinha.

_Nós vamos para o hospital com você. –Tint garantiu, se levantando também para ir até o quarto vestir a calça jeans e trocar de blusa.

_Tem certeza que está tudo bem? –Relena mostrou um sorriso sereno e entregou um copo de água gelada para Akane.

_Sim, está sim.

Relena ficou encarando-a um tempo, como que para certificar-se de que Akane falava a verdade. Era tudo tão inesperado… segurou uma mão junto ao peito, sentindo sua palpitação levemente alterada pelo impacto da notícia, mas as lágrimas que vieram já tinham escorrido e não se repetiram. Achou que Ane parecia distante e não gostou disso.

_Vamos nos vestir. –Relena colocou as mãos na cintura e murmurou então, mais como um aviso do que como um convite, deixando Akane sozinha na sala.

Enquanto bebia, Akane procurou Allegra no meio dos lençóis. A gatinha se sentou e ficou encarando-a com intriga nos olhinhos, feito soubesse que algo não estava bem. Tomando-a com uma mão, sentindo-a remexer as patinhas em protesto, Akane saiu do colchão, deixou o copo vazio no balcão da cozinha e pôs Allegra na cestinha, então carregando tudo para o quarto de Tint.

Tint estava terminando de escovar os cabelos. Seguiu os movimentos de Akane com os olhos e experimentou abordar o assunto para ver como ela reagia:

_O que será que houve? –aquela era a pergunta inevitável.

Enquanto procurava as roupas em sua mala, Ane sacudiu a cabeça e, ao tirar as leggings de dentro da bolsa, deu de ombros e vestiu-as por baixo da camisola:

_Talvez foram atender uma chamada em algum bairro perigoso… –apresentou a melhor hipótese que conseguira propor no meio do tumulto que arrasava seus nervos.

_Existe todo tipo de gente por aí mesmo, não?

_Com certeza… –Akane respondeu depois que passou a gola da camiseta pela cabeça.

_Você não está preocupada? –Tint avaliou mais, mas com carinho.

_Sim, um pouco… –Ane trocou um fito com a amiga e suspirou fundo, ainda mais fundo, e mesmo assim não parecia conseguir encher seus pulmões. –Só que eu não posso fazer nada agora… –e sentou na cama. Admitia aquela impotência, mas a odiava. –Eu só quero ver ele… –confessou, a voz exausta e áspera na sua garganta.

Tint parou do lado dela, assistindo-a debruçar-se para calçar uma sapatilha de cada vez e ouviu-a estalar os lábios, lutando contra as lágrimas que insistiam em vir. Admirava a decisão de Akane em se manter fria, só não sabia se era a melhor forma de lidar com a situação.

_Foi só um susto… –Akane murmurou baixinho, cobrindo os olhos com as mãos, ainda debruçada nos joelhos. –Não tem porque se render ao pânico. –lembrou a si mesma.

_Vira pra lá. –Tint mandou e, depois que Akane passou as pernas para outro canto da cama, começou a escovar os cabelos laranja com cuidado.

Começava a entender porque Akane estava tão armada. Estava vendo um lado dela que provavelmente poucos tinham a chance, que ninguém sabia existir. Via ela fazer-se de forte, não deixar transparecer o esforço gasto para seguir em diante. Estava na profissão certa.

_Essa hidratação ficou muito boa… precisamos fazer mais vezes. –Tint assistia os fios brilharem sedosos com a passagem da escova, sem qualquer nó ou embaraçado. –Sabe o que eu queria? –e arriscou sugerir que espairecessem.

_O quê? –Ane até que soava mesmo tranquila enquanto falava. À força, controlava os tremores em seu peito e a respiração estrangulada.

_Fazer umas mechas coloridas, mas com giz pastel, sabe? –Tint ajeitou um pouco os cabelos de Akane com as mãos, aferindo seu peso, assentando-os nas costas.

_Sei… será que pega no seu cabelo? –Ane aceitou o assunto como o distrator perfeito para reencontrar sua calma.

Relena apareceu então, trazendo o celular, digitando algo:

_Estão prontas? Heero chegou. –e apesar de apenas fazer o que devia, ela meio que estragou o momento.

Tint e Ane assentiram.

Heero havia mandado uma mensagem a Relena, avisando que estava lá embaixo e aproveitou para perguntar sobre como Akane estava.

"Ela me parece calma." –escrevia. –"E como você está?"

Tint deixou a escova na cama e esperou Akane para sair do quarto.

Akane pegou sua carteira de dentro da mala e apanhou o celular ao passarem pela sala.

"Bem." –Heero respondeu a mensagem de segundos atrás que Relena enviara.

Nesses momentos, ela ficava exasperada com a mania dele de ser monossilábico. Meneou a cabeça e chamou o elevador enquanto escutava Tint trancar a porta.

"Ele está mesmo fora de risco?" –talvez Heero estivesse omitindo, esperando ver a irmã pessoalmente para revelar os pormenores terríveis.

"Sim."

_O Ned ia detestar isso… –Akane comentou depois, no elevador, uma risada vibrando por trás das palavras.

_O quê? –Relena não entendeu a que ela se referia. Guardou o celular no bolso da calça do agasalho.

_Fazer mecha colorida no cabelo. –Tint explicou, só então se lembrando de ver que horas eram. Verificou o celular: quinze para as duas. Pensou se devia avisar Daniil. Ele certamente ia gostar de saber. Entretanto, resolveu que decidiria sobre isso ao chegarem ao hospital.

_O quê?! Por acaso vocês querem dançar até a morte, é? –Relena riu. –Pode esquecer que dessa vez não vou salvar ninguém…

_Ai, megera! –Tint reclamou com Relena, fazendo um bico de mágoa com os lábios.

Akane deu uma risadinha:

_Você é quem ia ficar a mais linda, com umas mechas cor-de-rosa. –opinou, marota.

_Se todas nós fizéssemos, duvido que o Ned ia ter coragem de castigar todo mundo. –Tint propôs ao saírem do elevador.

_Ah, pode esquecer que a Nadia não vai aceitar. –Akane rebateu logo, pensativa.

_E se a gente pagasse ela…? –Tint logo arranjou um argumento. Afinal de contas, tinha dado certo com a pegadinha para o Wu Fei…

_Mas parem já com isso, vocês duas! –Relena chamou a atenção, rindo do absurdo.

Heero as estava esperando de braços cruzados, parado no meio da entrada, de costas para o hall. As vozes delas em conversa e se despedindo do porteiro chamaram sua atenção, fazendo-o olhar sobre o ombro, encontrando as três moças mostrando sorrisos frouxos.

Akane foi até ele com olhos implorantes, tremeluzindo vulneráveis. Por mais que tentasse, ainda não tinha conseguido se convencer de que não havia razão para aflição. Mas só Heero poderia saber disso, porque só ele poderia confortá-la.

_Não foi grave… O tiro pegou no ombro. –Heero a abraçou e murmurou nos seus cabelos. –Ele está bem.

Ainda com ela nos braços, Heero trocou um olhar com Relena, lhe lançando um fito sóbrio, mas um pouco abalado. Ela sabia por quê. Ele estava preocupado não tanto com Duo, mas com Ane, chateado por vê-la sofrer. Relena sorriu para ele mais discretamente, porém com mais significado, e depois que Ane se separou de Heero, enxugando os olhos com os dedos, Relena se aproximou, estendendo a mão para ele:

_Está tudo bem? –quis saber baixinho, sentindo-o apertar sua mão, assistindo-o assentir e logo voltar a vista para Akane.

Tint chegou perto, trouxe Akane para si e fê-la deitar a cabeça em seu ombro.

_Boa-noite, Heero. –e cumprimentou, mostrando que sabia ser contida quando o momento pedia.

Ele mesurou com a cabeça:

_Podemos ir?

Akane ficou encostada em Tint por apenas um instante e confirmou com a cabeça, a única a responder Heero. Seguiram até o carro, parado bem na frente do prédio. A madrugada estava fresca e bastante silenciosa, a grande avenida quase erma.

_Você não conseguiu descobrir o que aconteceu? –Akane sentou no lugar do navegador.

_Não, eu não quis ligar de novo para o Quatre. Ele está muito ocupado. O capitão vai nos explicar.

_Sabe onde foi a chamada? –Relena falou, do banco de trás.

_No porto. Era um vazamento de gás.

_Meu Deus! E não explodiu tudo quando o cara atirou? –Tint se impressionou, ficando pálida.

_Não. Para isso acontecer, são necessárias condições muito específicas, mas é praticamente uma loteria. –Heero explicou, monótono, tentando tirar a importância do fato.

_Meu Deus… –Relena não gostou do que Heero deu a entender com sua frase final. Sentiu uma fraqueza no fundo do âmago pensando na pior das hipóteses, empalidecendo também.

_Que alívio… –Tint mal conseguiu comentar.

Akane seguia calada, torcendo as mãos caídas em seu colo, virada para a janela. Heero atirava olhadelas de canto de olho nela, impaciente. Não queria que ela chorasse, mas sabia que essa era uma reação totalmente esperada. Ele próprio ainda não tinha se recuperado totalmente do choque. Não havia necessidade para comoção, mas tampouco era a melhor sensação do mundo ser acordado de madrugada e informado de que alguém querido tinha sido baleado.

Não houve rádio ligado nem conversa animada naquele trajeto. Ninguém reparou porque os pensamentos acabaram detidos na situação em que foram envolvidos. Precisavam respeitar a tensão por senti-la. Era saudável assim, não tinham porque manter a compostura fingindo uma aparência de leveza.

Não restou muito a Relena do que observar e tirar conclusões. Ela tinha um talento para se abstrair desse modo e, enquanto olhava os ombros dos dois irmãos na escuridão do carro, acabava assombrada com a variedade de experiências que estavam disponíveis. O que ela tinha feito para ir parar naquele momento? Ela apenas seguira sua vida, que cruzava com tantas outras, todos os dias.

Há pessoas que passam toda sua existência apenas levando a rotina. Ela percebia que este não seria seu caso. Desde que permitiu Akane e Heero misturarem suas trajetórias na dela, escolheu uma história cheia de imprevistos.

O modo como tudo começa de repente e está condicionado a uma infinidade de exigências chegava a assustá-la. De repente, algo desimportante hoje pode fazer a diferença no futuro, para o bem ou mal. Ficava com medo de pensar em tudo o que talvez já tivesse perdido e se preocupava com a possibilidade de estar menosprezando o que tinha

Tinha aprendido muito sobre o viver desde que entrara em contato com os bombeiros. Eles e suas famílias não deviam ter esses dilemas. Viviam todos os instantes com intensidade porque não ignoravam a facilidade com que tudo poderia ser perdido.

Olhou Tint ao seu lado e teve vontade de saber o que ela achava disso, mas sabia que não era conveniente. No fim, às vezes era simples hábito, apenas um hábito diferente do dela… não fazia tanto tempo assim que convivia com os bombeiros para poder tirar tantas conclusões. E na maior parte do tempo que passava com Heero, esquecia-se do que ele fazia e do quanto se arriscava por amá-lo.

Suspirou. Quando fez isso, notou os olhos de lince de Heero procurá-la no retrovisor. Meneou a cabeça, querendo dizer que estava bem, e sorriu, mesmo sabendo que ele não conseguiria ver.

Depois que Heero encontrou um bom lugar para estacionar, todos caminharam até o saguão sem pressa. Akane ia à frente, seguida com atenção por Heero, que abraçava Relena. Tint caminhava ao lado de Relena, também vigiando Akane, que parecia emanar uma aura de isolamento, tal qual ela precisasse de tempo sozinha para enfrentar a situação.

Visto que o segundo turno ainda não tinha conseguido terminar o trabalho, foram recebidos por somente Pit e o capitão. Circunspectos, permaneciam em pé sem necessidade, pois a sala estava estranhamente vazia. Era um pouco como se não houvesse mais nada errado com o mundo e aquela noite tivesse sido reservada para o sofrimento de Duo.

Heero e Pit se deram as mãos em silêncio. Depois Heero parou junto ao capitão, trazendo Relena consigo.

_Boa-noite, senhorita. –o capitão cumprimentou Relena, apertando a mão dela. Mesmo em um pano de fundo desfavorável, ela emanava uma luz graciosa, e era difícil não olhar para ela com encanto e aprovação.

Relena sorriu, tímida, e não quis falar nada. Trocou fitos com Heero, indagando qual era o protocolo a seguir. Nunca tinha feito aquele tipo de visita a um hospital.

Tint ficou flutuando em torno de Akane, ansiosa pelas informações e ao mesmo tempo preocupada com as reações da amiga, pronta para acudi-la.

_Ele está em cirurgia. Ainda não recebemos nenhuma notícia dos médicos. –Pit murmurou para Akane, que assentiu e suspirou. Enganchando nela, Tint ficou encarando o bombeiro com uma presença felina, exigindo que ele falasse mais.

_Só Duo pode explicar exatamente o que houve. O que sabemos é que havia alguém escondido no galpão e que foi esse homem quem atirou em Duo e Saveriu. –o capitão se dirigiu a todos, mas deixou seu olhar fixo em Akane. Estava habituado a vê-la encher o ambiente com sua energia atraente, e incomodava-se por ela estar tão calada. Mas o que poderia esperar?

_Como está Saveriu? –Heero lembrou-se então de indagar.

_A bala o acertou na perna. Fora a dor, ele estava bem, alerta, quando o trouxemos para cá. O irmão dele está a caminho. –Pit mencionou.

_Então vamos esperar. –Akane murmurou enfim, sem graça, sentando na cadeira mais próxima.

Relena se separou de Heero e acomodou-se ao lado dela. Tint fez o mesmo.

_Vou comprar café. –e parando na frente dela, Heero avisou.

Ela ergueu os olhos e concordou.

Seria uma noite longa, mas ela não se importava. Queria estar ali. Não era só na alegria, saúde e riqueza que acompanharia Duo.

_Vou avisar o Danny. –Tint mencionou.

_Sim, faça isso. –Relena concordou.

Enquanto Tint escrevia as mensagens, Relena seguiu observando Akane, tentando pensar em algo para melhorar a situação. Como poderia ser útil? Ninguém falava nada, será que este era o melhor modo de agir? Não podia ser, aquele silêncio entorpecido de éter estava acabando com ela.

_Ane…?

_Hm?

_No que está pensando?

_Ah… –hesitou, sacudindo a cabeça.

_Fale.

_Eu achava que estaria preparada para isso.

_Por que estaria? É desumano exigir isso de você mesma. –Relena pousou a mão na dela.

Akane sorriu com gratidão, voltando olhos comovidos para a cunhada:

_Tem razão. –e uma lágrima cintilante escorreu de seus olhos. –Mas é que faz tanto tempo que eu convivo com isso… e já estive tantas vezes no hospital assim…

_Mas nunca foi por ele, não é mesmo?

Akane assentiu, sem conseguir falar dessa vez, sentindo as lágrimas pingarem barulhentas no seu colo. Dessa vez ela não secou nenhuma. Passaram um minuto inteiro em silêncio.

_Acho que nunca me contou como você e o Duo começaram a namorar… –Relena voltou a falar e pediu, com uma expectativa de encantamento.

A feição de Akane abriu conforme ela foi falando:

_A gente se conheceu quando vim fazer o teste do conservatório. Foi ele que acabou me pegando no aeroporto, porque o Heero ficou preso em uma audiência extraordinária de um incêndio criminoso. –e terminou de contar, com alegria no olhar.

_Uau, já faz quase um ano! –Tint comentou, animada, e já tinha passado da metade da frase quando se lembrou de baixar a voz em respeito ao local e momento.

_A gente se gostou logo de cara, e depois que voltei para casa, ficamos trocando mensagens o tempo todo. Quando voltei para cá, não via a hora de encontrar ele outra vez. Foi muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que parecia que fazia séculos que a gente não se via, era como se eu tivesse estado ontem mesmo com ele.

_Também… aposto que vocês não passavam um dia sem trocar uma mensagem. –Divertida, cativada pela história, Tint deu seu palpite, que não poderia estar mais certo.

_Não mesmo… até hoje é assim! –Akane riu então, cada vez mais solta, praticamente emocionada. –Se for ver, a gente já estava namorando fazia tempo, mas ele só foi tocar no assunto umas duas semanas depois que cheguei aqui. Foi tudo muito natural… acho que o jeito despretensioso dele contribuiu para isso.

_Vocês combinam muito bem. –Relena elogiou.

_Heero não queria que eu escolhesse um bombeiro… –e com essa informação, ela mostrou uma expressão engraçada de conformação e as três riram um pouco com a ironia inesperada do momento. –Mas fazer o quê? Depois que ele conheceu você, Relena, começou a me entender. A profissão deles é perigosa… Mas a vida também é… –e absorta, ela murmurou, reencontrando sua paz.

_É verdade. Vai dar tudo certo. –Relena voltou a pegar a mão de Akane em encorajamento, sorrindo com carinho. Tint deitou a cabeça no ombro de Akane.

_Obrigada por estarem aqui comigo, meninas. –sua voz calorosa e contente deixava clara a sinceridade de suas palavras.

Heero voltou trazendo os cafés e Daniil veio dez minutos depois, entristecido com o acontecido. Os rapazes sentaram cada um ao lado de sua namorada e, embora Heero não tenha desejado conversar, Daniil fez algumas perguntas a Akane e trocara algumas frases com Tint, usando russo às vezes.

Durante o tempo gasto esperando ali, mal acomodados nas cadeiras duras de plástico, acompanharam apenas uma aparição dos paramédicos. Estes cumprimentaram o capitão e se interessaram em saber brevemente o motivo dele estar ali, mas não reconheceram nem Heero, nem Pit, talvez pela ausência dos uniformes ou pela pressa que tinham em voltar ao trabalho.

A emergência que trouxeram fora um idoso que tivera um AVC. O homem estava acompanhado do filho que, depois de resolver a documentação, cumprimentou todos ali e se sentou distante, com uma expressão desolada, corcunda sobre os joelhos, esfregando as mãos diante do rosto. Estava temendo pela vida do pai.

Pit trocou olhares com Heero e com o capitão e, depois de alguns instantes, se levantou:

_Vou lá falar com ele… –e avisou baixo, mais para o capitão, que assentiu e fechou os olhos, incentivando que ele fizesse isso mesmo. Ninguém devia sofrer sozinho.

O irmão de Saveriu morava em Odelia e, mesmo vindo o mais rápido possível, só conseguira chegar duas horas depois de avisado. Veio agitado, o cabelo grisalho despenteado feito ele o tivesse bagunçado diversas vezes durante a viagem. O capitão, vendo como ele estava aturdido, fez questão de acalmá-lo por avisar que, pelo visto, o tiro tinha sido de raspão e Saveriu deveria ser liberado antes do amanhecer. De fato, o homem mal teve tempo de buscar um café para si e já foi chamado por uma enfermeira.

Heero olhou para o lado. Por cima da cabeça loira de Relena, que cochilava deitada em seu ombro, verificou o estado de Akane. Ela seguia alerta, olhando para frente, para o nada, brincando com as mãos, estalando as falanges de vez em quando. Com um suspiro, ele verificou o horário na tela do celular – já era cinco para as quatro da manhã – e, por coincidência, percebeu o aparelho vibrar com a chegada de uma mensagem.

"Estamos chegando aí. Alguma notícia?" –Quatre tinha acabado de subir no caminhão e avisava.

"Nada." –Heero informou, simples e direto, mas não era como se dar tal resposta o agradasse.

E não demorou muito para que a sala de espera fosse tomada por bombeiros. O silêncio estático foi enxotado do ambiente pelo burburinho de conversas dos homens que entravam, tomando todo o espaço. Quatre foi direto até o capitão, ao passo que os demais se espalharam, alguns em direção de Pit e outros de Heero.

_Zan Wei levou o pipa para casa e disse que logo vem para cá. –Quatre reportou.

_Fez bem. –o capitão acedeu.

_O irmão de Saveriu já chegou?

_Faz uma meia hora. Foi chamado por uma enfermeira e ainda não voltou.

_Espero que tenha corrido tudo bem…

O capitão nada replicou, seguro de que não havia necessidade de preocupar, sim, porque caso contrário, ele já teria sido requisitado.

Quatre se dirigiu então ao grupo que viera com Heero. Trocou um olhar com o amigo, mas seu interesse estava em Akane, para quem sorriu com carinho:

_Como você está?

Ela o tinha acompanhado se aproximar com a vista e já exibia um sorrisinho apagado antes de ele falar.

_Está tudo bem… –ao responder, fez um movimento elusivo com a cabeça. Quatre assentiu, entendendo bem como ela se sentia. Ele mesmo estava sem graça. Enquanto trabalhara no galpão, conseguira distrair a mente, porém foi só sentar no caminhão e a incerteza voltou a nublar seu espírito.

_Faz muito tempo que está esperando, não é mesmo?

_É, mas essas coisas costumam demorar… –Akane se remexeu na cadeira e depois penteou o cabelo com as mãos, prendendo-os em um nó frouxo na nuca que não ia segurar muito tempo.

_Verdade… –seu sorriso não se desmanchava, embora os olhos brilhassem pensativos. –Eu vou buscar um café. Alguém também quer?

Akane só sacudiu a cabeça para dar sua negativa. Ele olhou em redor, conferindo as respostas dos demais, mas Gracchus, Bayani e Toms estavam distraídos falando com Heero e Relena e nem o ouviram perguntar. Quanto a Tint e Daniil, eles tinham dormido, um encostado no outro.

Quando retornou com a bebida, Quatre sentou do lado de Heero e logo comentou:

_Encontrei uma enfermeira, ela foi procurar informações para nós.

_Que bom. Não vemos alguém passar por aqui desde que o pessoal da ambo 05 trouxe uma emergência. –Heero explicou, cruzando os braços na frente do peito. –Mas não adiantou muito… não sabiam dar nenhuma informação.

_Desde a hora que o Duo entrou no galpão, ele já cogitou que íamos precisar da polícia. –Bayani mencionou, jogando conversa fora. –Mas como a gente ia imaginar que ia acontecer algo assim… e pensar que por pouco não sobrou para mim também…

_Você conseguiu ver o rosto do atirador? –Heero queria detalhes.

_Não, estava muito escuro… o cara estava desesperado para fugir…

_Foi um milagre o armazém não ter explodido. –Toms repetiu baixo um pensamento que não parava de correr na cabeça de todo mundo.

Gracchus bufou, deixando escapar um pouco da tensão. Empertigou-se ao ver uma jovem enfermeira entrar na sala e fez um movimento com o queixo, sinalizando-a para os demais consigo.

Ela parecia procurar alguém com os olhos e o capitão fez menção de se levantar para ir até ela, mas Quatre fora mais rápido.

_Ele está bem. A cirurgia está terminando e não houve complicações. Daqui a pouco a médica responsável deve vir falar com vocês. –a voz doce dela também alcançou Lech, Farnesi e Pit, que seguiram Quatre para conferir o que ela tinha a dizer. Imediatamente os três cobriram-na de perguntas, do jeito afobado que eles sempre usavam, e a enfermeira olhava de um para outro, sem chances de responder nenhum.

Dessa vez o capitão não aprovou a energia dos soldados e atirou neles uma censura grave com olhar. Quatre também achou que eles estavam se excedendo e, pela segunda vez naquele turno, terminou com o interrogatório:

_Gente, calma! –e aproximando-se mais da moça, tirou a mão que Pit colocara do ombro dela, sem perceber. A seguir, devolveu sua atenção a enfermeira, falando com voz suave e calmante: –Dinah… você sabe de mais alguma coisa?

_Não. A doutora Zhang vai vir falar com vocês daqui a pouco. –e com aquela frase, ela terminou de fazer os bombeiros se dispersarem de volta a seus lugares.

Akane se manteve sentada, mas acompanhou a cena com redobrada atenção. Não conseguiu ouvir com clareza o que a enfermeira anunciou, mas notou que ela dirigiu-lhe um sorriso reconfortante e isto já foi o bastante.

De fato, a enfermeira não mentiu. Passados cinco minutos, a médica responsável por Duo finalmente surgiu, bem quando completava três horas da entrada dele no pronto-socorro. A presença dela era tão imponente que obrigou todos erguerem os olhos quando ela parou no limiar da sala.

Ao reconhecê-la, o rosto cansado do capitão se apaziguou, quase sorrindo. Dessa vez ele conseguiu aproximar-se primeiro. Os soldados estavam tranquilizados o suficiente para lembrar-se de seguir o protocolo, no entanto, como eles tinham incorrido em um erro de excesso de devoção, o capitão não o levaria em conta. Mesmo assim, isso não o impediu de lançar um olhar intimidante para todos ao mover-se até a médica.

Enquanto escutava o que ela tinha a divulgar sobre o quadro de seu soldado, os que aguardavam não tiraram a vista dele, querendo antecipar por sua reação a gravidade da situação. Entretanto, tudo o que o capitão fez foi assentir, alisar a barba e depois atirar em Akane um fito sábio, fazendo um gesto indicativo com a cabeça.

Akane não precisou de mais nenhum incentivo para se erguer ir até a moça alta que envergava a roupa verde com estirpe marcial, as mãos afundadas nos bolsos das calças.

_Cinco minutos… –e mirou Akane com um fito incisivo, seus olhos puxados estreitando-se ainda mais, reforçando a firmeza de seu aviso. Só abria aquela exceção porque tanto o paciente quanto o capitão ali haviam pedido. Caso contrário, só veriam Duo voltando amanhã, para o horário de visitas regular.

Seguindo a seta, Akane localizou rápido o quarto de Duo. Uma enfermeira saia dele, levando nas mãos uma bandeja com seus equipamentos de trabalho. Elas trocaram um aceno de cabeça, e, ao entrar, Ane encontrou Duo com o rosto virado para a porta, feito estivesse esperando-a, o sorriso que ela conhecia tão bem lhe iluminando a face.

_Amor, vem cá… –ele chamou, erguendo a mão esquerda o máximo que os acessos intravenosos permitiam.

Os pés dela queriam correr, mesmo sem necessidade, desesperados em cobrir a curta distância o mais rápido possível. Sentando de lado na beira da cama, percorreu a imagem dele para avaliar a situação. As linhas no rosto do rapaz evidenciavam um cansaço que precisaria de um pouco mais do que uma noite de sono para ser eliminado, mas no mais, ele não parecia precisar estar ali.

_Assustei você? –a voz estava limpa, mas baixa, feito ele não quisesse incomodá-la, e apreciava a face contrariada e tensa dela. Os olhos verdes pararam em cima do pouco do curativo que saia pela gola da roupa de hospital. –Ane… –ele chamou e fez a atenção dela retornar para seu rosto. –Diga que eu te assustei… se não, não valeu a pena… –provocou, alcançando os dedos dela, absorvendo o calor de sua pele. Tinha tanta prática em tirar sinais vitais que, brincando com a mão dela, leu a palpitação ansiosa que a percorria.

_Para com isso… sem graça… –ela o censurou, achando aquele um péssimo momento para brincadeiras.

_Ah… que bom… Então eu consegui…

Ela sacudiu a cabeça, franzido a testa em reprova inconformada.

_Ane, não precisa ser assim, ouviu? –ele continuou, folgazão, querendo tranquilizá-la.

_Afinal, você quer ou não quer que eu me preocupe?

Ele riu baixinho:

_Eu quero, quero sim… –ele estava se divertindo e ao mesmo tempo se encantava por vê-la tão abalada por sua causa. –Mas, olha… está tudo bem. –e acariciava o pulso dela devagar.

_Eu sei… eu sei que está. –e concordou, agastada, as sobrancelhas franziram ao ouvi-lo falar daquele jeito.

_Sabe qual é o seu problema? –depois de entregar um segundo ao silêncio contemplativo pontuado pelos bipes do monitor cardíaco, ele pareceu estar começando um outro assunto.

_Qual? –fungou, infantil e confusa, mas sem energia para protestar.

_Está tão acostumada a cuidar de todo mundo que não dá chances para os outros cuidarem de você.

O fito severo persistia em seus olhos enquanto assentia; por outro lado, seu rosto se contraiu no esforço contraditório de segurar o choro.

_Está tudo bem… Não precisa mais ser forte.

Ela segurou a mão dele com firmeza, há muito tempo tinha desviado os olhos para baixo. Assentiu de novo, enfim começando a chorar, as lágrimas escorrendo por seu rosto lembravam a neve derretendo desde o alto das montanhas com o início do Verão. Era uma corrente intensa e cristalina brotando das pálpebras que então bloqueavam seu olhar sempre tão expressivo.

Chorar ia ser bom para ela, Duo sabia, e se ela não podia se permitir chorar na frente dele, o relacionamento deles não tinha como ser chamado sincero. Ela podia manter o controle para o mundo, mas com ele ela precisava sentir-se livre e segura para desabar. E ela o amava o suficiente para fazer isso. E desabava bem ali.

Ele suspirou, deixando a cabeça pesar no travesseiro fofo, vigiando-a constantemente. O coração dela batia bem na ponta do polegar dele, que acariciava a pele macia do pulso da moça. Percebeu a doutora parada na entrada, sem expressão, a não ser um pouco de intriga ao passo que parecia hesitar em interromper a visita.


Chegou a atrasada!

Boa-tarde!

A autora está aqui com um capítulo um pouquinho mais recheado sobre os últimos acontecimentos no mundo de Pássaro de Fogo.

Como sempre, alinha tênue entre o tudo e o nada se apresenta aqui o capítulo só tem dois momentos, mas é tanta gente para dar conta que o texto fica enorme. :o

Espero que tenham gostado de saber como desenrolou a ocorrência do Duo e do Quatre e como foi a reação dos demais as notícias. Espero que não tenha ficado confuso, nem maçante, nem enrolado demais.

Se encontrarem erros de revisão, desconsiderem. E perdoem as licenças literárias que eu ouso tirar também.

O que queria comentar e reservei para esse espaço aqui é: por que com o Duo, e não com o Heero, já que ele é o personagem principal?

Primeiro, porque, como sempre faço, eu centro a história no casal, mas quando estou vendo, já estou contando sobre o passado dos pais do protagonista (hein, alguém aí falou Segundas Chances?) ahushuashuahsu Sou péssima em foco e os personagens sempre acabam tendo seu estrelato em algum pedacinho.

Segundo, porque eu acho até óbvio e meio esperado que, apesar do Heero ser o principal, ele não estar no centro de tudo. Nem tudo pode acontecer com ele apenas. Duo, como bombeiro também, está exposto aos mesmos riscos, e achei que seria legal exemplificar isso pra dar mais realidade pro mundo, pro enredo e pra situação da profissão dos rapazes.

Será que vou aprontar mais? Será que vou aprontar com mais alguém? Aguardem cenas do próximo capítulo... ehehehehehehe

E com muita honra e gratidão impossíveis de expressar em palavras, anuncio que nesse capítulo houve a participação especial de duas personagens que a Miyavi Kikumaru me emprestou, a Kelly e a Dinah. Não adianto nada, só dizendo que esse "Chicago Fire" aqui acaba de ganhar um "Chicago Med" e vocês testemunharam seu primeiro crossover, mas não adianto mais nada, nadinha de nada. Para mim, isso foi um presente, um elogio que nunca vou ser capaz de retribuir! Trabalhar com suas meninas é um privilégio enorme para mim, Suss! Agradeço a confiança! S2

Espero voltar até o fim do mês com novidades!

Visitem o tumblr apartmenti95. tumblr. com

Agradeço demais e sempre todo o apoio, carinho, reviews, tempo gasto, inspirações, ajudas! Sempre que escrevo, nunca estou sozinha.

Beijos!

08.10.2017

Revisão em 03.11.2017