No último capítulo

O homem encontrado no galpão da ocorrência dispara e acerta Duo no ombro e depois Saveriu, na perna, durante a fuga. Quatre chama a polícia, que sai em perseguição. O capitão do quartel 110 chega e acompanha os paramédicos até o hospital enquanto Quatre e os demais cuidam do vazamento de gás, causado por vários botijões mal-armazenados dentro do galpão. Heero liga para Akane, que está no apartamento de Relena e Tint, avisando sobre o ocorrido e vai buscá-las lá para irem ao hospital também. Logo depois de Quatre chegar com os outros bombeiros ao hospital, a cirurgiã aparece na sala de espera e permite que Akane vá ver Duo. Só então ela se consegue chorar enquanto é consolada por ele.

::::::::

23

_Você vai ver, logo vou sair daqui… –Duo sussurrou, reconfortante, secando uma lágrima que restou escorrendo do olho de Akane. –Aí, você vai me ensinar uma daquelas manobras e vamos voltar lá no Cimarrón para você ter seu momento "Dirty Dancing" também. –e propôs então, com um sorriso carinhoso.

Dessa vez, não teve como ela resistir, e riu fanhosa, entre os soluços, já um pouco mais calma.

_Esforço físico só depois de um mês e olhe lá. –e aproximando-se da cama, a doutora Zhang acabou com o barato dele. O timbre da voz era divertido, entretanto, apesar dos braços cruzados e da sobrancelha franzida, imperiosa. Ela tinha sido detida na porta pelas lágrimas da moça, mas percebera então que poderia entrar.

_Isso quer dizer sem Batalha dos Distintivos para mim… –Duo suspirou, decepcionado. –Acha que o Heero vai ficar muito bravo?

_Claro que não. Até porque tem bastante gente para entrar no seu lugar… –apesar da sinceridade em seu consolo, Ane não resistiu em pôr uma pitada de gracejo em sua última sentença.

Voltando a se recostar no travesseiro, Duo mirou-a com alguma astúcia:

_Queria ver o Quatre nessa. –e comentou com ares de ideia revolucionária.

_Acho que ele se sairia muito bem. –ela aprovou logo.

_Melhor que eu?

_Ah, só umas cem vezes… –provocou com sensatez marota.

_Ainda bem que não disse mil… –ele expressou seu alívio com um suspiro, chistoso.

Ane riu de novo, baixinho, e sacudiu a cabeça. Era nessas horas que o amava mais.

A doutora conteve um sorriso e, certa de que eles ficariam nisso até o amanhecer, resolveu terminar a conversa:

_Agora é hora de você ir. Ele precisa descansar.

_Eu volto mais tarde. –Akane assegurou, apertando a mão de Duo.

_Estarei aqui. –ele sorriu, maroto, divertindo-se com sua própria resposta boba.

Com semblante sereno, quase alegre, Akane se inclinou sobre Duo e o beijou no canto da boca.

_Obrigada, doutora. –e para expressar o quanto poder vê-lo significou para ela, lançou um fito humilde para a médica, que apenas assentiu com a cabeça, a expressão no rosto não era mais tão severa. –Ele vai precisar de alguma coisa? –Ane continuou, verificando, enquanto caminhavam até a saída do quarto.

_Por ora, não. –e a médica pausou um instante para se certificar de ter dado a resposta certa. –Providencie uma roupa para quando ele tiver alta. –mencionou a seguir.

_Está bem. Podem entrar em contato comigo se houver algum problema. Meu número deve estar na ficha…

Sem acompanhar a conversa delas, Duo fechou os olhos e enfim se rendeu aos calmantes. Agora que tinha visto Akane, podia dormir sossegado.

::::::::

Heero fora acionado pela pressa de Ane se levantar para falar com a médica. Ele até se pôs de pé, mas, no último momento, estacou e apenas assistiu tudo à distância. Despertando com a agitação, Relena acompanhou o movimento e depois trocou um olhar com Quatre, também atento a Heero, e que resolveu observar:

_Ele deve estar bem. A doutora não iria deixar Ane vê-lo se a situação fosse grave. –mas não olhava para ninguém em especial, como se apenas assegurasse a si mesmo. Heero o olhou de canto e, tomando a teoria por plausível, voltou a sentar-se.

Relena pegou a mão de Heero na sua e deitou de novo a cabeça em seu ombro.

_Vai conseguir trabalhar hoje? –ele indagou baixo, quase num ronrono, brincando com a mão dela. Encontrou assim o anel que lhe dera e seus olhos se realçaram com surpresa e alguma timidez.

_Acho que sim. Na segunda, só temos reuniões de manhã. –ela também murmurou.

Heero não a olhava diretamente, mas deixava a vista fixa na mãozinha dela. Ainda assim, percebeu-a assistindo-o e sorrindo. Assentiu, acusando que a ouvira, e seguiu sério e pensativo. Com o polegar, apertou a pedra, fazendo o anel dela girar um pouco em volta do dedo delicado.

Aquela ação o ajudava a encontrar alguma tranquilidade. Tudo naquela situação o desagradava. Sentia como se tivesse perdido o controle, embora não houvesse nada ali que estivesse no dever dele controlar. Respirou fundo e soltou o ar em um exercício de relaxamento.

O capitão mal tinha sentado e já teve de sair do lugar para atender um recém-chegado. O rapaz parou na entrada da sala de espera, correu os olhos por todos, identificou os uniformes de bombeiro e alardeou sua irritação e desdém com um suspiro:

_Sou o tenente Decker Evangeline. Quero fazer algumas perguntas às vítimas dos disparos no galpão da doca 32.

_Isso será impossível. Maxwell acabou de sair da cirurgia.

_Ele deve estar em condições de falar… preciso de alguns dados para a análise balística.

_Você pode fazer isso mais tarde. –Heero determinou. Colocara-se de pé de novo e chegara ao lado do capitão em questão de segundos.

_Bombeiros… sempre querendo se intrometer em nosso trabalho…

_Por favor, entenda. Esta não é uma questão de rivalidade. –Quatre resolveu aproximar-se também e tentar apaziguar a situação. –O capitão já disse que agora não é hora disso. –e via os olhos verdes do policial faiscando em direção de Heero, que não ficava nada atrás na atitude.

_Vocês estão atrapalhando a ação da polícia. –o tenente Evangeline acusou, a mão fazendo um movimento nervoso, jogando a franja comprida para trás.

Heero revirou os olhos, mudando o peso de perna, cruzando os braços, sacudindo a cabeça – tudo nele revelava inconformidade. Quando conseguiu pensar em algo para retrucar o policial, viu Akane chegar. Ela bateu os olhos em Decker e seu rosto imediatamente formou um rosnado felino:

_Você não…

Decker ergueu as sobrancelhas. Dificilmente se esqueceria de uma sardenta irritante como ela:

_Não acredito… –resmungou.

_Heero, é ele, o almofadinha!

_Do que você me chamou?

_Só aceita, porque tenho apelidos bem piores para você.

_Como ousa?

Ela pouco se importou com o ultrajo dele, e de braços cruzados, imitando Heero, demandou:

_Afinal, o que está fazendo aqui? Veio demonstrar solidariedade ao inimigo?

_Ane… –Quatre tentou repreendê-la, apreensivo com o rumo do encontro.

Por outro lado, o capitão parecia satisfeito em somente assistir. Estava bem interessante, de fato…

_Não devo qualquer explicação a você. –Decker taxou, altivo.

_Ouça bem, tenente: por que não volta daqui algumas horas? Nem Neri nem Maxwell estão em condição de falar com você. –mas o capitão achou por bem reforçar, em tom de encerramento.

_Eu quero ver os médicos responsáveis. –Decker ergueu a cabeça e insistiu.

_Essa informação você consegue na recepção. –Heero enfiou as mãos nos bolsos ao elucidar, prático. Seu olhar azul gelado agia como uma broca mirada no meio do rosto de Decker.

Os demais bombeiros apenas acompanhavam a disputa com reverência e interesse. Iam ter fofoca o bastante por pelo menos dois turnos.

_Não pedi sua solicitude! –Decker tinha realmente um jeito pomposo de argumentar. Almofadinha era um apelido perfeito, o capitão considerou mentalmente, contendo um sorriso.

_Senhores, por favor, estamos em um hospital. –Quatre lembrou de modo autoritário, fazendo Heero e Decker olhar para ele. –Comportem-se de acordo.

_São do quartel 110? –Decker deu passo em direção de Heero, afrontando-o com os olhos, querendo impor sua altura.

_Sim, senhor. –Heero, por sua vez, fez o mesmo, e superava a estatura de Decker em uns cinco centímetros.

_Era de se esperar… –com o desdém fácil que usava, Decker comentou, estalando a língua. –Terminaremos isso na Batalha dos Distintivos, então. –e afastou-se, refazendo seu caminho. Tinha sido escorraçado, mas sabia fazer uma saída triunfal para compensar.

_A recepção vai barrar ele, não é? –Ane quis confirmar, a antipatia que sentia pelo tenente tinia cristalina em sua voz.

_Certamente. –o capitão enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e murmurou. Usou um minuto para os ânimos baixarem, ainda assistindo a direção tomada pelo policial. –Agora, vamos todos embora tentar descansar um pouco. A noite já rendeu o bastante.

Quatre assentiu, pensativo. Heero percebeu que, por um instante, seu amigo pareceu estar sorrindo, o que era muito deslocado, até mesmo para Quatre.

Os rapazes do segundo turno precisariam voltar primeiro ao batalhão, se trocar e pegar suas coisas, e talvez até acabassem ficando por lá mesmo, se houvesse alguma cama vaga. Na contagem para o transporte, levantaram que a caminhonete do capitão e o carro de Pit não conseguiriam levar todos.

_Heero, eu levo as meninas para casa. Assim pode dar carona para seus colegas… –Daniil surgiu então, falando rouco e preocupado, os olhos azuis de brilho triste de repente afiados com a perspectiva de ser útil.

_Você não se importa, Relena? –Heero averiguou, num tom reservado, atento a face dela.

_Claro que não. –com um sorriso, ela respondeu. Despediu-se dele com um beijo de raspão nos lábios e já foi seguindo Daniil.

Akane se achegou e explicou:

_Depois precisamos combinar quem vem buscar Duo, porque a médica pediu uma troca de roupa para ele.

_Está bem. Mais tarde resolvemos isso. Agora, tente descansar… –e a tocou de leve no braço, murmurando com um cuidado reservado para momentos como os passados aquela madrugada. Observou-a de perto, mas a percebeu de volta ao temperamento habitual.

_Você também, descanse. Boa-noite. –e o beijou no rosto e sorriu ao sair.

Desse modo, Heero observou as três moças se afastarem aos cochichos, Akane devia estar explicando o que houvera em sua breve visita. Ele correu a mão pelos cabelos, puxando a franja para trás, gesticulou para Dino e Marfani e, a seguir, convocou:

_Quatre, você vem comigo?

Despertado de seus pensamentos, Quatre ergueu os olhos para Heero e manteve uma expressão parada no rosto por um instante.

_Ah, não… eu não estou de carro! –e apesar de ter exclamado, a voz saiu baixa e aflita.

Heero arqueou uma sobrancelha, sem saber se ficava intrigado ou irritado. O que tinha dado em Quatre de repente?

_Por isso que irei te levar para o quartel. –e decidindo não dar atenção à atitude estranha que via, Heero informou.

_Ah, muito obrigado, mas não posso ir com vocês. Eu tenho que… –sem graça, Quatre recusou a oferta, buscando dar uma boa justificativa para sua ação.

Dino e Marfani se aproximaram com olhares esquadrinhadores. Também sentiram algo incomum sobre seu tenente, que os encarava e deu um passo para trás, desconfortável com a atenção.

Heero suspirou fundo, um tanto impaciente. Notou que Quatre não estava seguro em revelar o que acontecia, e decidiu salvá-lo:

_Está tudo bem. Estamos indo. –e sua segunda declaração dirigiu aos bombeiros consigo, usando seu praticado tom autoritário que ninguém ousava desconsiderar.

::::::::

Ao silenciar seu despertador, Lya percebeu uma mensagem esperando-a acordar.

"Não vou à aula hoje de manhã. Passei a madrugada com Duo no hospital. A gente se encontra no ensaio. Vai dar tudo certo, Lya. Faça o que precisa fazer. A Mashkina não vai perguntar nada." –e por meio de emojis, Akane mandava força e torcida.

Lya preferia muito mais o apoio presencial de Ane, mas era verdade – tinha decidido e não devia explicações. Precisava eliminar Miksa da sua vida em tudo que fosse possível. Ele não merecia ter qualquer poder sobre ela.

"Melhoras para seu namorado. Depois me conta o que aconteceu." –respondeu a mensagem e mandou junto de um coraçãozinho otimista, para não se delongar.

Depois de deixar o celular de lado, respirou fundo e esticou-se toda na cama, o primeiro alongamento do dia. Saiu da cama em um pulo, tomou uma chuveirada e vestiu-se para a aula. Já tinha deixado a bolsa pronta antes de dormir, assim, era só trançar o cabelo, apanhar o capacete e partir.

O dia nascera maravilhoso, o céu estupidamente azul e limpo refletia em seus olhos. Uma brisa gelada a obrigava a usar a jaqueta esportiva, mesmo que estivesse acostumada com frios bem mais hostis. Enquanto estava sentada na scooter para aguardar Nadia, teve vontade de cometer uma nova ousadia. Remexeu rápido os seus pertences na bolsona e, ao encontrar a nécessaire, escolheu aquele batom que só usava nas baladas, um cruzamento de preto e marrom, tão escuro que a fazia duas vezes mais branca e mais loira. Não ia poupar recursos para reparar sua autoconfiança.

Madame Yekaterina Mashkina era conhecida por seu nome de solteira no conservatório. Olhando para ela, ninguém realmente diria que dera à luz quatro filhos e havia se tornado viúva há pouco tempo. Esse fato fazia dela alguém a se procurar para pedir orientação em todas as áreas da vida, e não só uma grande professora de balé. Ela era exigente como Nedved, mas sensata com a natureza humana de um modo que ele não podia ser. Era bom assim, na verdade, pois desse modo, os dois criavam um equilíbrio propício na equipe do conservatório.

Duas manhãs por semana, Mashkina dava a aula de pas de deux para a turma avançada e costumava estar disponível em sua sala por alguns minutos antes de entrar no estúdio. Lya estava bem ciente dessa rotina, embora nunca tivesse precisado vê-la em particular antes.

A porta estava aberta e, mesmo sem querer, Lya captou o diálogo em russo sendo travado dentro da salinha. Embora isso significasse que o assunto era particular, Lya compreendia tudo, incapaz de ensurdecer sua mente ainda mais atenta ao som da língua materna.

Parou no meio do portal e sorriu com desconforto:

_Izvineeti, Yekaterina Vladimirovna. –e se agarrou a alça da bolsa, sem saber o que fazer com as mãos.

Era estranho para uma bailarina de repente não se sentir à vontade com seu próprio corpo. Isto chamou a atenção de Mashkina, que se silenciou no meio do assunto que viera travando com uma moça ali. Fixou a vista na aluna por um curto momento e a seguir sorriu com os olhos para uma menina de cada vez.

_Strass querida, vamos continuar nossa conversa mais tarde. Mas é uma ideia excelente. Avise o Vogel para me procurar no almoço.

_Está bem, vovó. Bom trabalho! –Strass tinha uma presença etérea e luminosa, como uma estrela no céu de inverno. Ela parecia animada, apesar dos movimentos suaves e da voz doce apenas sugerirem placidez. Lya assistiu a moça com concentração, tentando lembrar-se onde já a vira antes.

_Boa aula, querida.

Passando por Lya, Strass mostrou um sorriso simpático e interessado. Sim, aquele sorriso definitivamente era-lhe familiar. Talvez já tivessem cruzado nos corredores.

_O que você precisa? –com um tipo de bondade um tanto incisiva, Mashkina investigou.

_Não quero mais dançar com o Miksa. –Apesar dos esforços de Lya em mostrar segurança, tinha certeza de que sua resposta tão direta soou como desesperada para Mashkina. Não teve jeito, a mágoa vazou, recente demais para ser reprimida.

_Ele é um bailarino excelente e não consigo pensar em um par mais perfeito para você.

A ironia ácida oculta naquela declaração um dia iria divertir Lya, ela sabia bem, mas por ora era só mais um dos motivos para detestar Miksa.

_Eu não consigo mais dançar com ele. Eu quero outro par. –Ela até pensou em explicar a verdade. Depois, inventou mentalmente uma desculpa para dar. Mas apenas terminou se repetindo, cansada de ter de lidar com aquilo e nem se preocupou se agiu com desacato.

Yekaterina cruzou os braços, notando assim que a mágoa não estava somente na voz da moça. O corpo todo falava a respeito do grande embaraço e ansiedade que tratar aquele assunto causava. Havia muito de orgulho ferido e decepção no jeito de Lya parar e desviar os olhos para o chão. Qualquer coisa que Yekaterina dissesse com certeza iria insultá-la ou deixá-la aos prantos. Por isso, concedeu:

_Está bem. Mas vou deixar a explicação que você me deve em suspenso.

_Muito obrigada, professora. –e mesurando com a cabeça, saiu direto para o vestiário.

_Onde estava? –Nadia fechou a porta do armário ao passo que Lya abriu o dela.

_Falando com a Mashkina.

_Ela te chamou lá? –Valentina já ficou aflita.

_Não, eu só precisava resolver uma coisa.

_Alguém tem mais notícias do namorado da Ane? –Fanny levantou do banco ao terminar de amarrar as sapatilhas.

_Vi a Tint no corredor e ela falou algo sobre ele ter levado um tiro… –Maira ampliou.

_Ah! Que perigo! –Fanny levou a mão ao peito, as sobrancelhas indo bem alto em sua testa.

_Pelo jeito está tudo bem… –Lya sorriu, colocando uma mão no ombro de Fanny para acalmá-la.

_Ele é bombeiro também, não é? –Mitra indagou, tentando recordar-se dele da noite no Cimarrón.

_Isso mesmo… ah, eles são todos tão gentis e animados, não é? –Valentina observou, absorta.

_Parece que alguém está de crush novo… –Maira brincou, ao passo que todas saíam para o estúdio.

_E o Niki, vai ficar como? –Dana teve de questionar. Os risinhos corriam feito eletricidade, contagiantes.

_Ah, uma garota pode ter bem mais que dois crushes ao mesmo tempo… –Fanny propôs, traquina. Algumas delas apoiaram o conceito.

_Não é nada disso! –Valentina tentou contradizer, embora estivesse rindo também. –Só achei eles divertidos… são caras legais e não é sempre que a gente vê isso.

Nadia revirou os olhos. Não compartilhava exatamente a mesma opinião…

As meninas tomaram a sala de assalto com seu falatório alto e alegre e risadas. O conservatório há muito tempo não tinha um grupo de bailarinas tão amigas assim, o que Mashkina julgava ser muito bom para o trabalho.

Com seu perene esboço de sorriso nos lábios, a professora bateu palmas duas vezes e observou todos se organizarem para ouvi-la.

_Bom-dia, senhoritas e senhores. Antes do aquecimento, alguns comunicados a serem feitos.

Todos mantinham silêncio respeitoso e dirigiam dedicada atenção a mulher, como soldados.

Yi Sun esgueirou-se para dentro da sala, deslizando para trás da fila.

E embora Mashkina não estivesse olhando na direção dela, murmurou:

_Agora podemos?

Houve alguns risos.

_Desculpe, madame. –Yi Sun levantou a mão, corando. Era impossível passar despercebida.

_Onde está a senhorita Yora? –e Mashkina disse como se aquilo apresentasse um problema.

_Ela teve um imprevisto e não poderá vir hoje. –Maira, como a mais velha, sentiu-se à vontade para informar.

Mashkina pareceu desaprovar o que ouviu, mas apenas prosseguiu com sua intenção anterior:

_Como ia dizendo, dois anúncios: teremos uma audição para um projeto paralelo em breve. Será uma parceria com o grupo de canto.

Todos aplaudiram apreciativos, mesmo que aquilo significasse uma nova prova. A empolgação teve de ser contida, entretanto, por mais que todos quisessem especular o que precisariam fazer, querendo começar a se preparar o mais rápido possível.

_Estou designando novos pares a partir de hoje até o fim do semestre. Agora, atenção: a senhorita Yatsky vai dançar com o senhor Macris e a senhorita Grinin, com o senhor Angelov. Mas visto que a senhorita Yora está ausente hoje, estou dispensando você, Angelov. Vou deixar o senhor Novak com a Grinin esta aula.

_Mas, Mashkina, por que isso agora? Já faz tanto tempo que estou com a Lya… –Miksa começou, mal a professora terminara de nomear. Sua voz viera em um timbre dividido entre contrariedade e charme. Não via o menor sentido em alguém experiente como Mashkina fazer aquela alteração e tratou a situação como um verdadeiro faux pas. –Não é possível que nosso desempenho esteja desagradando. Afinal, somos excelentes juntos, não é mesmo, Lya?

Por coincidência, Lya e Miksa estavam parados em lugares opostos na sala. Ela só o percebeu quando ele deu um passo à frente para questionar a decisão da professora. Tinha noção de que seu coração ia disparar quando colocasse os olhos nele outra vez, uma parte porque ele ainda a agradava e outra parte porque ele era um gatilho para toda a raiva e vergonha que a forçara sentir.

Ouvi-lo dirigir-se a si não ajudou nada a desacelerar sua palpitação. Quem ele pensava que era? Como conseguia agir daquele jeito? A boca dela ficou amarga ao passo que ela cozinhava aqueles pensamentos em ira lenta. Sentia uma repulsa tão grande de Miksa que até respirar o mesmo ar que ele era insuportável.

_Senhorita Yatskaya, tem algo a declarar? –Mashkina a chamou.

Lya lançou os olhos em Miksa. Ele estava bastante longe de si, mas sabia tão bem como era estar próxima dele que o enxergava nitidamente, a ponto de distinguir as pintinhas castanhas de suas íris azuis.

Tinha de concordar com ele. Fazia tempo que estavam juntos. Tinha se acostumado com a sensação do toque de suas mãos e o cheiro de terra e madeira do perfume que ele usava acabara se tornando o cheiro dela também. Fazia tempo, realmente, fazia tempo demais para ser saudável. Era tempo demais dançando juntos, pensando nele, beijando-o e abrigando-se em seu abraço…

Bastava.

A pulsação havia se regularizado, mas então subira a vontade de chorar. Obrigando-se a permanecer impassível, Lya encarou Mashkina e negou com a cabeça.

Miksa não conseguia acreditar. Continuou encarando Lya à distância, levando as mãos à cintura e deixando as sobrancelhas franzidas perturbando a beleza angelical de sua face.

_Sem mais. –Mashkina determinou, passando os olhos por todos. Sua mirada estava especialmente invernal aquela manhã. –Vamos á barra. Vocês têm dez minutos para aquecer.

Em obediência a professora, os bailarinos procuraram seus pares, novos ou velhos, e se dirigiram a seus lugares preferidos nas barras. Miksa assistiu todos se espalharem pela sala ainda como a mesma estátua que tanto Mashkina quanto Lya criou. Seu foco, entretanto, sempre acabava em Lya e em como ela sorria com meiguice e conversava com o Chris e pedia ajuda dele para se alongar.

O que restou a Miksa foi apanhar sua toalha e garrafinha e sair. Até a hora do almoço, tinha muito tempo livre agora e assim decidiu ir para uma sala vazia e exercitar os tornozelos. Nunca era demais…

::::::::

_Alô? Sou eu, Zechs…

_Sim, sim, eu sei… –e ele riu, astuto.

Relena riu também e encostou o ombro na parede:

_Acabei de ver sua mensagem… você vai vir para cá?

_Estou quase chegando… vamos poder almoçar?

_Claro! –e ela procurou o relógio no corredor. Eram quinze para as onze e ainda tinha mais uma hora enfrentando Nedved.

_Estou pensando em ficar aí uns dois dias… temos muito para conversar.

_Ah é? O que anda aprontando, Zechs?

_Vai descobrir em breve. –buliçoso, ele se esquivou da cobrança. –Também queria assistir um ensaio… você me prometeu apresentar a turma…

_Eu sei, não me esqueci… é você que está sempre adiando…

_Ai, acabei de ser visitado pela "Relena Sincera".

Ela gargalhou tão alto que o professor de violino da sala ao lado apareceu na porta, espantado. Fazendo um gesto de desculpas sem graça, ela deu as costas, trocando o ombro que escorava na parede.

_Você pode ficar hospedado em casa. Se quiser passar lá primeiro para deixar suas coisas, pode ir… a Ane está lá. Aí, aproveita e traz ela para cá…

_Arrumou uma nova inquilina?

_Ah, não… é uma longa história… não vai dar tempo de te contar agora. Ela vai poder te explicar…

_Ok, combinado então… quando eu chegar ao conservatório, te ligo, tudo bem?

_Sim, agora tenho de voltar… beijos!

_Até mais…

Em vinte minutos, Zechs chegou ao edifício St. Gabriel. Precisou dar uma volta no quarteirão para encontrar uma vaga, o movimento do horário de almoço era especialmente tumultuado ali por causa da estação central.

Ao passar pelo porteiro, mencionou:

_Estou indo para o apartamento I09. Estão me esperando.

_Nome? –como não era Pargan, ia ter de passar pelas formalidades.

_Milliardo Darlian. –e já emendou com o número do documento de identidade, mas o homem era bastante ágil e o liberou logo.

Aproximando-se da entrada do apartamento de Relena, ouviu música do outro lado. O volume não estava alto o suficiente para incomodar, mas provavelmente impediria Ane de ouvi-lo bater. Ele experimentou tocar a campainha. Teve de apertar duas vezes, mas enfim Ane veio abrir, sem abaixar a música:

_Pois n… Zechs! –primeiro, foi só uma frestinha, pela qual ele enxergou uma sobrancelha arqueada, mas depois ela escancarou a porta, com surpresa e encanto no rosto.

_Olá… a Lena deve ter dito que eu viria…

_Disse? –e então se lembrou do celular. Certamente não o ouviu por causa da música. –Entra, só estava dando uma arrumada por aqui… –e fechou a porta depois que ele passou. Em seguida, desligou o rádio e apanhou seu telefone que estava na mesinha de centro. Leu a mensagem que Relena mandara com o plano completo e entendeu tudo.

_E então, Mascote, passou a noite aqui? –Ele colocou sua mala atrás do sofá e a viu se dirigir até a cozinha.

_Sim… –e riu do jeito que ele a alcunhara. –Fizemos uma festinha do pijama, mas aí… precisei ir para o hospital ver meu namorado. Ele levou um tiro de um fugitivo durante uma ocorrência essa madrugada.

_Sério? –ele sentou no sofá, sem esconder seu choque. –Sinto muito, Ane. Como ele está?

_Bem, fora de perigo. A bala pegou no ombro.

_Deve doer muito. –e ao comentar, Zechs percebeu algo estranho na almofada a seu lado. Ela parecia estar se mexendo…

_Sim, nem imagino… –Ane terminou de lavar a louça e curtiu um instante de introspecção. Gostaria de poder ir ver Duo. Ia pedir a Heero que a levasse ao hospital mais tarde.

_Hey, mas o que temos aqui?

Ane escutou um miadinho suspeito e, indo até o balcão, assistiu Zechs segurar Allegra nas mãos.

_Vocês ainda não foram apresentados, não é? –e sorria para a cena ao se aproximar. Levou para Zechs um copo de água gelada, imaginando que ele quisesse se refrescar um pouco do calor.

_Eu vi alguma coisa no Instagram da Lena, mas confesso que fui pego de surpresa…

_O nome dela é Allegra. –Ane a tirou das mãos dele ao mesmo em tempo que lhe passava o copo. –Não é uma gracinha? –e a seguir, falou, juntando o narizinho rosa dela ao seu. Depois a devolveu ao sofá e, enquanto bebia, Zechs tentou chamar a atenção da gatinha com um panfleto que achou em cima da mesa de centro.

_E mais alguma novidade? –ele amassou o papel um pouco e Allegra gostou do barulho, aproximando-se com curiosidade.

_Ah, no balé, quase nada… eu vou para aquela competição no feriado, sabe?

_Sei… da Karimova?

_Isso… e acho que é só. Heero vai participar da Batalha dos Distintivos, então deve começar a treinar essa semana…

_Mas o que seria essa batalha? –obviamente ele quis entender, vendo Akane sentar-se no chão, encostada no sofá perto de onde Allegra estava. A gata avançou no cabelo dela.

_Uma disputa entre policiais e bombeiros. –Ane não se importou com as patadinhas, pegando o celular para ler e responder mensagens. –Pelo que entendi, vai ser tipo uma Spartan Race, com várias provas…

_Interessante.

_A gente te avisa quando for acontecer para você poder vir prestigiar… –ela ia dizendo sem olhá-lo, digitando loucamente. Houve um instante de silêncio. –Já está na hora de ir. Vou pegar minhas coisas… –e pegando Allegra nas mãos de novo, Ane se apressou em direção ao quarto de Tint, onde estavam suas bolsas.

Zechs assentiu, deixou o copo na pia e foi esperá-la na saída. Entreteve-se com o celular, e ao ouvir os passos dela alguns minutos depois, verificou:

_Vamos?

_Sim. –e trancando a passagem com a chave que Tint lhe emprestara, Ane guardou-a no bolso da jaqueta Dri-Fit, voltando logo a teclar no celular.

_Você gosta da Nike? –já dentro do elevador, Zechs reparou o que ela vestia e pesquisou.

_Gosto sim… Só me chateia uma marca grande como essa não ter produtos específicos para balé.

_Como assim?

_Eles até fabricam algumas peças para aulas de dança ou yoga, mas tudo tem cara de roupa de academia… –e mostrou uma expressão malcontente para complementar seu argumento.

_Entendo… Acho que vai gostar da novidade que eu trouxe para a Lena.

_Ah é? Quero saber! Me conta! –insistia, sem respirar ou dar tempo para ele falar.

Ele sorria e sacudia a cabeça a cada frase dela, terminando por declarar:

_Não posso, é confidencial.

_Mas como assim? Começou e não vai terminar? –ela exigiu e o importunou de uma vez só.

_Mais cedo ou mais tarde você vai ficar sabendo.

_Não, nada disso, Zechs! Desembucha, ou vou falar tudo pro Heero!

_Mas olha só essa menina, que ignorância!

Akane gargalhou travessa ao passo que o elevador abriu.

_Você precisa aprender a brincar, sabia? –ele reclamou, fingindo-se profundamente desapontado com ela.

_Estou esperando! –ela não desistia.

_Sinto muito, Ane. Realmente não posso.

_Palhaçada, viu… –e bufou exageradamente. Ele sorria, sem dar importância ao emburramento dela.

Chegaram ao carro e entraram. Ane puxou o cinto:

_Mas e então? Como vai o seu lance com a Suicinha? Ou será que isso é assunto confidencial também?

_Está progredindo.

_Ela vem para o baile? –analisou o painel e, encontrando o rádio, ligou-o, sintonizando-o rápido na estação de música pop.

Ele não a impediu, embora se alarmasse com a tomada de liberdade:

_Vem sim.

_Ai, gostei de ver! Mandou bem! –e aproveitou a parada no semáforo para propor um high five. Ele completou o gesto com ela, risonho. Havia se esquecido como ela era vivaz e descontraída, o completo oposto de Heero.

Acabou pedindo a ela para telefonar Relena avisando sua chegada:

_Olha, Lena, você tem que dar um jeito nesse seu irmão.

_Me diz o que foi que ele fez dessa vez.

_Ele tem um segredo e não quer me contar!

_Verdade? –Relena sorria e escutou Zechs justificar ao fundo:

_Mas é por isso que o nome é "segredo".

_Ouviu isso? Não é um insuportável? –e escutava Relena rir alegremente do outro lado da linha. –Olha, Lena, chegamos. Zechs parou aqui na esquina, perto do orelhão, ok?

_Ah, estou vendo. Vou desligar.

Akane se virou para Zechs então, assumindo uma postura séria demais para quem ia dizer algo de fato sério:

_Vou avaliar você em quatro estrelas porque não quis confiar em mim.

_Como quiser… –ele deu de ombros, humilde, apesar do sorriso charmoso e divertido reforçar a postura despreocupada dele.

_Espero mesmo que o suspense seja justificado. –e ela já foi abrindo a porta do carro.

_Olhe lá, agora é você que não está confiando em mim. –ele advertiu, falando alto com ela, já do lado de fora.

Akane nem fechou a porta, acenando para Relena que já vinha chegando:

_As meninas estão ansiosas em te ver. Estão preocupadas e querem saber tudo que aconteceu…

_Pode deixar, vou falar com elas. –e tirou suas malas do banco de trás. –Tchau, Zechs! Até mais, Lena! Divirtam-se!

_Vocês dois estão se dando muito bem, não? –Relena acomodou-se e observou.

_Para você ver… quem diria? –ele manobrou para fora da vaga e respondeu com uma presunçãozinha contente na voz.

_Acho que estou com ciúmes!

_Oras, mas não precisa… tem Zechs suficiente para todas…

Relena o encarou por um segundo, atônita, antes de conseguir dizer:

_Menos, Zechs… menos…


Izvineeti: Com licença


Bom-dia!

Capítulo saído do forno!

Este está um pouco diferente, mas é pra deixar vocês com saudades do nosso OTP... ;)

Assistir série não está me fazendo bem, estou sentindo PdF com cara de novela... ehehehehehe

Ainda assim, espero que gostem!

Tem muita coisa rolando e muito mais coisas para rolar!

Aqui, mais uma vez, uma participação especial da personagem da MiyaviKikumaru, a Kelly Zhang! S2 Obrigada, Suss!

Deixem seus comentários, dúvidas, sugestões, críticas e impressões nas reviews, estou muito curiosa pelas suas opiniões e já as agradeço de antemão! Elas são meu maior incentivo e alegria! Por mais que eu me divirta muito escrevendo, nada me faz tão feliz quanto uma review sua!

Agradeço com carinho a todos que tiram um tempo para ler e me acompanham!

Até mais! Beijinhos!

03.11.2017