No último capítulo…
Após a primeira ocorrência da manhã de segunda-feira, Heero se depara com o substituto de Duo na sala do capitão Broden, a jovem Hilde Schbeiker, que coincidente é a ex-namorada de Duo. Relena e Zechs vão almoçar juntos e ele faz a proposta para ela trabalhar como garota-propaganda para uma linha de artigos de balé de uma marca nova, a Argos. Ela fica interessada, embora um pouco incerta sobre ser a pessoa adequada, mas o agravante para a decisão dela é ter de trabalhar junto de seu ex-namorado, Lohan Soler. Zechs diz que ela não precisa se expor ao contato com o rapaz outra vez, se não desejar, visto ela e Lohan terem vivido um namoro complicado. Depois, de volta ao conservatório, Zechs assiste um ensaio. Conhece Treize e Une e com o lorde tem uma discussão sobre o futuro de Relena. Akane ouve de Lya sobre a conversa dela com Mashkina e a mudança de pares, e Lya confessa ainda estar muito magoada com Miksa. Quando Miksa aborda Lya no final do ensaio, querendo sair com ela, recebe a rejeição da moça. Intrigado, ele fica sem ação, sem entender, porque de repente ela parece querer se afastar dele.
::::::::
25
Relena e Zechs foram os últimos a ficar no estúdio. Até todos conversarem com ele ou serem apresentados, o conservatório se esvaziou. Relena passou no vestiário antes de ir embora e achou Akane ali, que acabara de voltar da sala da Mashkina.
_Estava explicando sua ausência hoje de manhã? –Relena bocejou e sacudiu a bolsa, acomodando sua bagunça.
_Também. Mas não foi por isso que ela me chamou.
_Ah é? Você está com aquela cara…
_Qual?
_Da lição número um.
_Hã?
_Deixa para lá. –Relena deu um sorrisinho e bagunçou a cabeça.
_E o que Zechs queria falar com você no almoço? –Ane franziu a sobrancelha, mas deixou para lá. Tinha curiosidades mais prementes.
_Só conto se me disser o que a Mashkina queria.
_Mas como assim? Quando ficou oportunista desse jeito? Está andando demais comigo!
Riram.
Abrindo o armário, Akane pegou a jaqueta, vestindo-a por cima do collant, e depois checou o celular:
_Coitado do Heero, me esperando até essa hora… deve estar querendo me matar.
Relena franziu as sobrancelhas ao mesmo tempo em que sorria, achando engraçado a forma banal com que Akane comentara aquilo. E vendo a amiga usando o celular, lembrou-se de fazer o mesmo, pescando o seu do meio da bagunça. Havia duas mensagens de Heero no WhatsApp.
Ela leu rápido. Na primeira, ele dizia que não havia problema em deixar para começarem o treino no dia seguinte. Já na segunda, enviada perto das quatro horas, ele avisava que ia precisar trabalhar até mais tarde.
_Ele não vem… –Ane murmurou em voz alta.
_Heero te mandou uma mensagem avisando também?
_Sim… disse que vai dar uma força pro pessoal do segundo turno, por causa da licença do Duo. Mas é só hoje.
Relena assentiu, escreveu uma resposta para Heero para confirmar a mensagem recebida e mandou-lhe um beijo. Estava com saudades de repente. Suspirou enquanto digitava, percebendo Akane movendo-se a seu lado, guardando o celular no bolso do agasalho. Assim, ocorreu-lhe algo:
_E como vai embora? –Relena apertou o enviar e indagou. –Quer levar a minha scooter?
Foram caminhando em direção à saída.
_Sabe, não é uma má ideia… Mas melhor eu chamar um táxi… –Ane apresentou, com jeito de quem decidia na hora. –Quero ir lá no hospital ver o Duo, mas antes tenho que passar no apartamento dele e pegar umas roupas para quando ele tiver alta.
_Entendi. Quer companhia então? Aí, Zechs nos leva.
_Tem certeza? Você está cansada, não quero incomodar. –Akane sorriu, muito contente em ver o interesse de Relena, entretanto, ao mesmo tempo, a última coisa que queria era ser inconveniente.
_Não, tudo bem, eu quero ir com você. Você leva a gente, não é, Zechs? –Já estavam diante dele, mas não havia como ele saber sobre o que elas estavam conversando:
_Levo sim, mas aonde?
_Fazer uma via sacra. –Akane avisou, bem-humorada.
_Ane precisa ir buscar umas roupas para o Duo e levar ao hospital.
_E sua scooter? Vai deixar aqui? –ele se preocupou, sem resposta para aquele impasse.
_Vou, já fiz isso antes. –mas Relena já tinha tudo planejado.
_Não tem perigo, a da Lya ficou aqui o fim-de-semana inteiro. –Akane corroborou.
Zechs assentiu assim e destravou as portas do carro. Depois que todo mundo se acomodou e ele deu a partida, Akane continuou com o assunto:
_Zechs, você tem de dar um jeito nessa sua irmã.
_O quê? Mas agora é ela?
_Pois é! Ela não me conta o que foi que vocês conversaram! Combinaram em me torturar, é?
Os três riram.
_A curiosidade matou a gata. –Relena virou para trás e com uma expressão de desusada traquinagem, fez uma piadinha, mas fraca.
Akane só riu porque Relena ficava muito fofa falando assim:
_Obrigada pela parte que me toca... –e provocou, fazendo questão de salientar só o que lhe interessava na reprimenda, causando mais risos nos irmãos Darlian.
_Eu te conto quando chegar a uma decisão. Prometo. –e depois Relena se ajeitou de novo no banco, explicando. Zechs sorriu, olhando-a de canto, e percebeu ela suspirar.
_Ah, deve ser algo sério então. –Akane considerou, ficando meditativa. Não ia coagir Relena. Entretanto: –É algo que envolve o Heero?
_Eu acho que não... –Relena não tinha parado para pensar nisso. Suspirou de novo. Talvez fosse precisar de ajuda para decidir, afinal. Fez uma careta preocupada.
_É aqui? –Zechs quis saber, parando o carro diante de um prédio de três andares.
_Sim. Já volto. –Akane já foi abrindo a porta antes de Zechs manobrar para estacionar, pulando para fora e avançando até a antiga construção.
Ela deixou para trás um silêncio insosso no carro e Zechs voltou-se para Relena com objetivo de analisá-la.
_Este assunto está te incomodando. Era por isso que não conseguia fazer o salto do jeito que o Nedved queria, Lena?
Ela sorriu e olhou o irmão antes de negar com a cabeça:
_Eu já sei separar as coisas... Quando danço, não penso em nada além de dançar. Essa é a minha liberdade.
Ele assentiu, mas não pareceu contente.
_Lena, se você não quiser ver o Lohan novamente, não precisa. Ninguém vai te julgar.
_Eu sei, eu sei disso... E é por isso mesmo que estou chateada... Eu não quero dar mais importância a essa situação do que é necessário. Mas sei que só fico com essa sensação porque envolve o Lohan. E isso me desaponta comigo mesma.
_Não precisa se preocupar. Eu vou pedir para a Anneliese procurar outra pessoa.
_Não, Zechs. Eu quero fazer a campanha. Se eu recusar o convite por causa dele, aí que estarei realmente dando poder de controle para o Lohan, um controle que ele nunca deveria ter tido. E quem sabe, me reencontrando com ele, eu consiga superar tudo?
_É outro jeito de se ver as coisas. –ele a congratulou, dando um soquinho no queixo dela.
_Acha que tenho que falar com Heero sobre isso? –e ela ainda parecia melancólica e hesitante, não conseguia evitar.
_Falar sobre seu ex-namorado egocêntrico e tóxico, que se aproveitou de você e foi embora como se nada tivesse acontecido? Se quiser ver sangue na lona, acho que sim. –Zechs pilheriou, forçando um pouco a ironia.
_Zechs! Heero não é um bruto! –Relena abriu um sorriso chocado, dando um empurrãozinho no braço dele.
_Com você, com certeza não, mas ele te ama. Dependendo do que acontecer, pode ser que ele queira sim dar uma surra no Lohan. Até eu quero, às vezes. Saiba que não acertei as contas com ele porque você não deixou.
_Pare com isso você também, Zechs. Isso não é jeito de resolver as coisas. Quem sabe o Lohan não está diferente?
_Agora você foi otimista demais.
Os dois trocaram caretas e terminaram o assunto ali, vendo que Akane se aproximava carregando uma bolsa esportiva com o logotipo do corpo de bombeiros.
_Pronto! –fechou a porta. –Ah, Zechs, liga o rádio. –recebida por tamanha mudez dos dois, percebeu enfim a ausência da música.
Relena obedeceu, já acostumada com a função de selecionar a estação para a viagem. Colocou na rádio jovem, com suas vinhetas engraçadas e músicas do momento. Envolvida no ruído e na conversa que Akane conseguia fazer acontecer com facilidade, foi obrigada a se distrair e nem notou já quando chegaram ao hospital.
_Vou esperar vocês aqui no carro. –Zechs virou a chave e tirou o cinto.
_Não vamos demorar. –Akane confirmou, sempre inquieta, abrindo a porta e pegando a bolsa.
Receberam permissão na recepção para irem ao quarto, o mesmo da madrugada, e seguiram a linha no chão, caminhando lado a lado. O hospital estava bem mais agitado aquele horário e cruzaram com várias pessoas durante o trajeto.
Olhando o redor, sem se interessar particularmente em nada, Relena aos poucos se rendeu as considerações de antes, percebendo que não gostara de como Zechs se referira a Lohan, o que a desconcertou um pouco. Não era possível que ela ainda se doesse por ele. Não tinha acabado de falar que ele não merecia exercer influência sobre ela? E ainda assim parecia ainda haver uma linha invisível amarrando-a nele.
Muito tempo já tinha passado. Ela já tinha conhecido outras pessoas depois dele, tinha encontrado outros amores, mas por algum motivo, Lohan ainda monopolizava uma parte de seu coração, por menor que fosse.
Talvez tivesse a ver com o jeito brusco que ele saiu de sua vida, num turbilhão.
_Tudo bem, Lena? –Ane não pôde deixar de notar que de repente Relena tinha entrado em uma mudez tensa.
_Ah, desculpa, estou cansada…
_Eu que te devo desculpas. Acabei te envolvendo nessa bagunça toda.
_Não, tudo bem. E nem é por isso… desde sábado que a gente não dorme direito e os ensaios estão cada vez mais puxados… Estou ficando velha… –pontuou o desabafo com um sorriso nervoso.
Akane riu e puxou Relena suavemente, envolvendo seus ombros:
_Você tem consciência de que não sabe mentir, não é?
_Eu… –Relena não sabia o que dizer. Corou, sem graça, e desviou o olhar, ouvindo Akane rir mais, baixinho.
A parte sobre o cansaço não deixava de ser sincera e tudo o que Relena apresentara fazia total sentido, mas não explicava em nada porque ela de repente estava tão introspectiva.
_Não se sinta pressionada a se abrir comigo, mas se precisar, estou aqui.
_Está bem, Ane. Obrigada. –sorriu, emocionada com o carinho que recebia. Talvez sua cunhada pudesse sim oferecer uma visão mais clara das coisas. Começou a considerar a oferta dela, assim.
O quarto de Duo estava com a porta aberta e, pelos ruídos lá dentro, notaram que ele estava acompanhado. Talvez algum de seus colegas de trabalho tivesse vindo visitá-lo, Ane concluiu. Talvez fosse um plantonista ou enfermeiro. Contudo, dentre todas as possibilidades, a mais inesperada se realizava ali – Ane pisou no cômodo e deu de cara com o tenente Evangeline guardando as anotações no bolso da jaqueta.
_O que é isso? Quer ganhar título de funcionário do mês na polícia agora? –sem necessidade, Ane se exaltou. Deixou a mala de Duo em uma cadeira esquecida a um canto e pôs as mãos na cintura. –O senhor não tem folga não?
Decker revirou os olhos:
_E que explicação devo a você?
Duo, reclinado na cama, respirou fundo:
_O tenente já estava de saída, não é mesmo? –e reforçou, lançando para Decker um olhar incomodado.
_Pelo menos conseguiram capturar o atirador? –Relena pediu, preocupada.
_É claro. E Maxwell já confirmou a identidade do homem. –e de tão ocupado em se gabar, Decker só notou que havia outra moça com Akane ao terminar de falar.
_Isso é um alívio… –e a face serena dela era exatamente o que Decker sempre esperava encontrar nas jovens que ajudava; era por estas que trabalhava. Pena serem tão raras.
Um sorriso delicado abriu-se nos lábios de Relena, que parecia alheia ao modo como o tenente a estudava, mas a Akane não escapava nada:
_Vou começar a cobrar. –limpou a garganta e anunciou.
_Hã? –Relena franziu a testa, intrigada, e Decker estalou os lábios, sua paciência com Akane esgotada. Ao fundo, Duo riu:
_Parece que o tenente encontrou outro caso a investigar. Mas fique sabendo que este está sob outro departamento.
O gracejo de Duo colocou Relena na defensiva, fazendo enfim com que notasse a insistência do policial em apreciar sua silhueta. Os olhos de Decker passeavam sem pressa pelo rosto dela e depois pousavam em seu colo, descarado. Há tempo alguém não a fazia sentir-se tão exposta assim, obrigando-a a corar um pouco.
Relena deu um passo para longe do rapaz e cruzou os braços na frente do corpo, mudando completamente de postura por assumir uma feição séria, que lhe caia muito bem e funcionava, graças a sua praticada teatralidade.
Entretanto, Decker não se deixava afugentar tão fácil, e desconsiderando todos avisos, prosseguiu:
_Se precisar de algo, faço questão de ser o primeiro a saber. –tirou de dentro da jaqueta um cartão e entregou-o a Relena, falando em voz macia e confiante, um sorriso luminoso que velava com encanto as intenções que tinha para ela.
Akane ficou boquiaberta com a ousadia dele, mas não disse mais nada, acompanhado a saída de Decker com os olhos.
Relena baixou a visita para o cartãozinho, lendo o nome do tenente de polícia e o número que seguia. Depois, riu nervosa:
_Era só o que me faltava.
_Não duvido nada que ele dê um jeito de puxar sua ficha… –Duo provocou, bem confortável em seus travesseiros.
_Não fale isso nem de brincadeira! –Relena se opôs, embora sorrisse ainda. O modo como o policial a encarava lhe transmitia uma péssima sensação. Por mais que ele deixasse claro o tempo todo que a achara muito bonita, o elogio dele parecia inconveniente, e o charme que ele lançava era atordoante antes de atraente.
Akane condenou Duo com uma carranca, mas sua zanga não durou muito. Bufou, sacudindo a cabeça, preferindo mudar de assunto:
_Eu trouxe suas roupas. Tem uma camiseta e uma camisa, eu não sei bem o que vai ser mais fácil para você vestir.
_Obrigado, amor.
_E você está bem?
_Sim, do jeito que tem que ser. Pelo que a doutora disse, terei alta na quarta-feira mesmo.
_Quando chegar em casa, me manda uma mensagem. –Akane sentou com ele, na beira do colchão.
_Pode deixar. E você, como está? –ergueu a mão até o rosto dela e acariciou de leve sua bochecha.
_Eu estou bem. –sorriu, pensativa, suspirando depois.
Relena ia assistindo a troca enquanto brincava com o cartão de Decker, cortando-o e dobrando-o entre seus dedos.
_E a sua mãe? –Akane finalmente lembrou-se de questionar. Toda a hora lhe ocorria de abordar a questão, mas toda hora acabava esquecendo-se de fazê-lo. –Falou com ela?
_Não, não teve como… –Duo moveu os braços para mostrar quanto sua resposta era óbvia. Ane só sacudiu a cabeça:
_Quer que eu a avise?
_Ane… deixa que eu resolvo isso quando sair. Sabe como ela é: vai entrar em pânico e não é para tanto.
_Sua mãe não mora na cidade? –Relena encontrou uma brecha para participar da conversa.
_Não, ela vive em Laslin. Não gosto de preocupá-la à toa, assim só chamo ela em último caso.
_Quer dizer, nunca. –Ane complementou.
_Melhor assim. Ela já não tem mais idade para se preocupar com marmanjos.
Relena riu e Akane deu de ombros, se rendendo a um sorriso. Trocou com Duo um olhar de compreensão.
_Mamãe nunca aprovou minha escolha de profissão, mas acabou se conformando porque sabe que eu iria arranjar outros modos bem piores de pôr minha vida em risco. –Duo explicou mais, pegando a mão de Akane na sua e massageando as falanges dela com o polegar. –Eu sempre fui um garoto problema... –e levando então a mão de Ane aos lábios, deu-lhe uma mordidinha.
_Seu bobo... –ela reclamou, risonha.
_Mas é por isso que a Ane se apaixonou por mim. –ele encadeou, apertando o nariz dela entre seu polegar e indicador por sua vez, achando o jeito aborrecido dela uma gracinha.
_É, com certeza ele está bem. Diria que até está curado… –Ane olhou Relena e concluiu. –Sendo assim, vamos embora. Por causa das suas traquinagens de bad boy, estamos exaustas…
Ele riu, sem levar a repreensão em conta. Ane debruçou-se e beijou-lhe os lábios com leveza e carinho:
_Avise se precisar de qualquer coisa. –Akane reforçou.
Relena acenou, gentil:
_Melhoras, Duo.
::::::::
Heero estava em sua sala, adiantando seu estudo do material preparatório para o curso de capitão. Havia muita coisa para revisar e aproveitava para pesquisar os novos equipamentos e ferramentas que tinham sido lançados desde sua última capacitação. Tinha terminado todos os relatórios, inclusive os da equipe de perícia, e o batalhão tinha curtido uma tarde bastante tranquila.
Relanceou o relógio na mesa e se admirou em ver que faltava apenas uma hora para seu turno acabar. Aproveitou e checou seus e-mails, procurando a resposta sobre a inscrição na Batalha dos Distintivos. A entrada do 110 tinha sido confirmada, mas agora Heero precisava dos horários e locais de reunião para receber o caderno de regulamento e começar a montar a equipe. Todo ano havia alterações, assim, só saberiam o que os esperava quando se encontrasse com os organizadores.
Fez uma careta quando esbarrou no pensamento de que reencontraria Decker na reunião. Relena não aprovava aquele jeito de Heero ser, mas ele não conseguia evitar basear suas opiniões sobre as pessoas em primeiras impressões. O incrível é que ele nunca errava. E a primeira impressão que tirou de Decker, provavelmente uma que todo mundo derivou, era de que ele não era confiável e só jogava em um único time: o próprio. O relato que Ane ofereceu sobre o episódio na delegacia também não fazia nada para ajudar a impressão que o tenente de policia passava.
De qualquer modo, a comissão organizadora ainda não havia enviado nada. Provavelmente, amanhã.
Soltou o corpo na cadeira, sentindo necessidade de se esticar um pouco. A cadeira rangeu alto, lembrando-o que alguns pingos de óleo seriam bem-vindos.
_Yuy! –e vindo da sala ao lado, a do capitão, escutou seu sobrenome. Havia um tom meditativo no chamado, como se Broden precisasse de uma opinião para decidir algo, o que fez Heero dobrar sua presteza em atender o chefe.
Aparecendo na porta aberta, Heero fez um sinal com a cabeça, mostrando atenção.
_Feche a porta.
E depois de obedecer ao capitão, Heero sentou na cadeira diante da grande mesa. Broden estava com os braços cruzados e olhava em frente, mas não parecia enxergar Heero mais.
_Quero que fique até o fim do segundo turno.
_Como assim?
_Estou preocupado com a Schbeiker. –e coçou a barba, apertando seus lábios.
Heero não respondeu nada, apenas estreitando os olhos e cruzando os braços. Antes Broden parecia tão satisfeito de ter recebido Hilde e confiante nas habilidades dela. E ela parecia estar completamente ambientada também, passando a tarde toda de papo com os bombeiros do primeiro turno, tirando dúvidas, querendo saber de ocorrências passadas, e falando de amenidades também. Conseguiu ouvir todas as vezes que ela, orgulhosa, mencionava seu gato de três anos, mostrando fotos. Era incômodo para ele, mas sabia que seus bombeiros se renderam aos charmes da jovem tenente. Especialmente os irmãos Bernett.
_Acho que me expressei mal. –Broden retomou, parecia mesmo estar falando sozinho. A presença de Heero era mera desculpa para ele deliberar sua apreensão. –Eu liguei para o 130 e falei com o Hawk, não há nada de errado nas referências da Schbeiker. O problema é a equipe do segundo turno.
_Com todo o respeito, capitão, eu ficar não vai ajudar em nada eles respeitarem ela.
_Eu sei. –Broden suspirou, seguindo alheio. Faltava algo para ficar completamente tranquilo.
_Posso ficar até às 9. –Heero bufou e resmungou por fim, cedendo.
Broden focou os olhos nele e começou a negociação:
_Acompanhe pelo menos a primeira ocorrência.
_Só se for uma ocorrência grave. –Heero sabia muito bem como Hilde ficaria aborrecida se percebesse ele em sua cola. Não era justo agir assim com ela.
_Certo…
_Senhor, os rapazes são bastante atrevidos, mas são grandes bombeiros. Entendem como funciona a hierarquia.
_Tem razão. Por isso que gosto de você, Yuy. É um homem prático. De qualquer modo, vou querer você aqui até às 9.
_Entendido. –Heero respondeu, confirmando o contrato. Sabia entender que aquela ansiedade no capitão era boa.
_Pode ir.
E isso levou Heero de volta a sua sala. A cadeira rangeu quando ele sentou, como sempre, e ele bufou, como sempre. Era hora de acabar com isso. Carregou a cadeira até a garagem para procurar o problema e resolvê-lo de uma vez por todas.
Hilde estava sentada lá com os irmãos Bernett e outros rapazes do pipa.
_Foi um dia bem parado, hein, tenente? –ela mexeu com Heero, ao vê-lo colocar a cadeira próximo da porta de saída de veículos e deitá-la.
_Sabe que este tipo de comentário é proibido perto do final do turno, não é? –ele murmurou, ninguém podia saber com certeza se ele brincava ou repreendia.
Ela não se afetou, não tinha perdido a prática de lidar com ele.
_Claro que sim, mas o meu está só começando… –e ousou provocá-lo, embora sua voz viesse carregada com uma meiguice e humor que rendia os corações dos que a ouviam.
Heero não estava incluso:
_Então a próxima ocorrência é toda sua, tenente.
_Com prazer!
De fato, o alarme tocou mal eles tinham acabado de falar.
Hilde pareceu um tanto impressionada, e riu, pondo-se de pé. Heero, entretanto, demorou-se ainda estudando a mola e as rodinhas em sua cadeira, procurando a origem do rangido.
_Pipa 4, múltiplas colisões, carros em chama. Saída Leste, quilômetro 12. –veio a informação pelo sistema sonoro, pedindo muita urgência de resposta.
Mobley surgiu correndo pela porta, encontrando os seus bombeiros prontos.
_A senhorita pediu carona. –erguendo um pouco o rosto ao ver Mobley passar acelerado em direção do caminhão tanque, Heero avisou alto, usando o polegar para mostrar Hilde. O tenente do pipa riu, franzindo uma sobrancelha:
_Então pode subir.
_Eu? Mas… –e olhou para Heero, confusa. Não era o caminhão dela que chamavam, e ainda assim, Heero queria levar o trato a sério.
_Se não fosse a sua boca santa… –e Tarik puxou ela até o escada, pôs o capacete em sua cabeça e depois jogou a jaqueta nela.
Ela olhou Heero bem nos olhos:
_Você vai ver! –ameaçou, meio risonha, ao mesmo tempo em que pulava nas botas e erguia seus suspensórios.
Heero ficou quieto, inexpressivo, deixando para os irmãos Bernett demonstrar a reação. Os dois riam e provocavam Heero:
_Vai ficar assim, senhor?
_Ah, vai deixar ela pensar que manda…
Heero simplesmente endireitou-se e limpou as mãos nas calças. Depois, saiu, indo buscar a chave de boca e um pouco de óleo Singer.
Ele já teria de ficar para supervisioná-la até tarde… melhor deixá-la pensar que era por uma brincadeira boba. De qualquer modo, era mais interessante ir à ocorrência do que ficar ali, consertando uma cadeira velha. Ele até sentiu um pouco de inveja ao ver o caminhão tanque sair. Pelo jeito, ia ser uma chamada das grandes.
Terminando seu trabalho com a cadeira, Heero a levou de volta ao escritório e a experimentou, sendo recebido pelo agradável som do silêncio. Olho a mesa, os livros e anotações espalhados aguardando-o, mas decidiu ir para sala comunal, checar as notícias na TV, esperando ver alguma cobertura do acidente em curso na rodovia. Supervisionaria Hilde desse modo também.
Consultando o relógio, faltava 5 para às 4. Sentado no sofá, enquanto via a repórter descrever as batidas entre os automóveis, pegou o celular e mandou mensagens para as meninas sobre sua alteração de horário. Para Akane, digitou:
"Não vou poder te buscar essa tarde. Vou apoiar o segundo turno até o tenente substituto se ambientar. Se não tiver dinheiro para ir para o dormitório, me avisa que pago um uber para você. Se cuida."
Sabia que quando ela respondesse mais tarde, choramingaria um pouco, mas traria um relatório completo de seu dia mesmo assim antes de perguntar sobre o dele, como fazia às vezes durante o fim-de-semana, quando não se viam. Com certeza ia investigar sobre esse novo integrante e outros detalhes sobre como estava o clima no batalhão.
Já para Relena, escreveu:
"Vou trabalhar até mais tarde hoje. Vou apoiar o turno do Duo até o substituto dele se ambientar. Devo sair perto das dez, mas vou tentar te ligar antes, tudo bem? Beijos."
Encarou a mensagem um instante antes de enviar. Sabia que era um pouco estoica. Estava tão acostumado a escrever apenas relatórios e memorandos insossos. Precisava praticar mais. E não ia despedir-se com declarações de amor porque preferia fazê-las em sua própria voz, ao vivo, no telefonema.
Abriu a foto que ela mandara aquele último sábado, toda corada de blush e amor, os olhos acesos, o sorriso sereno, brindando com a sua beleza todos os sentimentos que eles dividiam. Era sempre uma visão de conforto tê-la diante de si, o que o fazia mais certo de sua escolha. Fechou o aplicativo e, bloqueando o celular, guardou-o no bolso.
A cobertura do acidente prosseguia, o Pipa 4 operando ali junto do Pipa 1, até conseguiu reconhecer o capacete de Mobley entre os colegas, dando os comandos. Lançou um olhar que lutava em manter-se atento a tela. O número do capacete de Hilde ficou em evidência de repente também, ao passo que ela acompanhava um grupo que serrava ferragens.
Ele bocejou e apoiou a cabeça na mão e o cotovelo no braço do sofá. Entretanto, não conseguiu cochilar nem aqueles cinco minutos. Murat o tocou no ombro com um leve sacolejo:
_Vamos, senhor, nosso turno acabou.
Heero abriu um olho só primeiro. Depois, vendo o rapaz se afastar, despertou de vez, respirou fundo.
_Tenho trabalho acumulado, vou ficar mais um pouco.
_O senhor quem sabe. Até a amanhã.
_Até. –e dizendo assim, foi até a garrafa de café e encheu seu copo, voltando a assistir em seguida.
Ao mesmo tempo em que os rapazes do primeiro turno partiam, os membros do segundo turno chegavam. Quatre sorriu ao ver Heero e sentou-se um pouco ao lado do amigo:
_Ainda por aqui? –e também lançou a vista para o aparelho televisor, interessando-se logo na reportagem.
_O capitão pediu, quer que eu acompanhe a nova tenente.
_Ah, já veio um substituto para o Duo! Quem é?
_Schbeiker.
Quatre sorriu, tenso, mas levou um minuto apenas para relaxar a feição e parecer mais divertido. Gostava dela. Trabalharia bem com qualquer um, mas era bom saber que continuaria a ter alguém familiar para dividir o turno. E não comentou nada nem sobre a moça, nem sobre a decisão de Broden.
Quando a segunda equipe do escada se completou, indagaram quem iria assumir a responsabilidade por aquele turno.
_O substituto já está aqui. –Heero intrometeu-se na discussão, ainda jogado no sofá.
_É você, Heero?
_Não, o capitão vai dar as instruções necessárias.
Os rapazes continuaram falando do assunto. Ninguém do primeiro turno havia dado com a língua nos dentes, Heero concluiu. Sorriu e continuou a assistir as equipes do caminhão pipa trabalhar.
Às quatro e meia, Broden apareceu na sala. Olhou em redor, foi até a garagem, intrigado com a ausência da tenente. Pensava em fazer o anúncio sobre a presença dela a equipe na entrada, mas naquela condição era impossível, sem tê-la para apresentar.
_Onde está ela, Heero?
Heero suspirou e apontou a TV:
_Meu trote de recepção.
_O quê? –Broden acompanhou na transmissão a equipe do Pipa 4 enrolando a mangueira antes de partir da cena e franziu suas largas sobrancelhas.
_Agora é só dizer a ela que minha punição por aprontar foi ter de fazer hora extra. –em um tom discreto, Heero murmurou, e não desviou a vista para o capitão.
_Oras, Yuy, sempre pensando em tudo. Espero que ela caia nessa. –Broden apenas sorriu e sacudiu a cabeça ao comentar, não quis demonstrar muito que gostara do estratagema.
_É fraca, mas serve.
O Pipa 4 retornou vinte e cinco minutos de pois. Assim que estacionou, os rapazes comandados por Mobley saltaram e foram se trocar, ansiosos em partir, despedindo-se de todos os colegas que encontraram pelo caminho. Hilde arrumou seu equipamento de volta no caminhão autoescada e entrou na sala comunal, louca por uma bebida gelada.
_O capitão pediu para ir vê-lo. –Heero, ainda preso ao sofá, avisou, monótono.
Ela assentiu, serelepe, abrindo a geladeira e procurando uma garrafa de refrigerante ou de água. Depois de se servir de um copo de Pepsi, foi de encontro ao capitão. E ao reaparecer na sala, vinha com o capitão, que reuniu todos e anunciou:
_A tenente Hilde Schbeiker vai servir como substituta do Maxwell até o fim da licença dele. Espero ver a cooperação de todos com as ordens dela.
Pit foi o primeiro a ir até Hilde, com a mão estendida:
_Prazer, eu sou o motorista da madame.
Ela sorriu, mesurando com a cabeça e apertando a mão dele. Bayani e Farnesi trocaram olhares de admiração e intriga, mas ninguém mais teve tempo de conversar, com o alarme soando bem naquele minuto:
_Escada 5, queda de andaime. Avenida Campos Elíseos, 1265.
Os rapazes correram em direção do caminhão, mas Hilde parou na frente de Heero, as mãos na cintura:
_O capitão me deu a notícia. Quer dizer que tem alguém de castigo essa noite?
Heero já estava de pé quando ela começou a falar com ele e deu de ombros. Ela tinha comprado o argumento, afinal de contas.
_É nossa primeira ocorrência juntos. Não me decepcione, tenente. –e ousou provocar, radiante e soberba, ao passo que os dois avançavam até o caminhão que Pit já acelerava.
_Sim, senhora. –manhoso, Heero respondeu, a face inexpressiva quase desdenhosa.
Boa-noite! Quase que não dei conta de aparecer aqui este mês!
Estou muito contente em apresentar a vocês o novo capítulo!
Me demorei mais do que quis, envolvida com um outro projeto que logo conhecerão e também com detalhes desse projeto.
Por favor, deixem suas preciosas reviews que muito me alegram! Quero saber tudo, opiniões, dúvidas, críticas, enfim!
Março está logo aí! Logo retorno! Mantendo firme a contagem de um capítulo por mês, desde a primeira publicação! S2
Beijos!
24.02.2018
