No último capítulo…
Zechs leva Akane e Relena para visitar Duo. Primeiro, vão ao apartamento dele pegar roupas e depois ao hospital. Zechs está preocupado com a reação de Relena quanto a proposta de reencontrar Lohan, mas ela está decidida a aceitar o trabalho e assim descobrir se realmente já superou o relacionamento que tivera com o bailarino. No quarto de Duo, reencontram Decker, e ele mostra muito interesse em Relena, deixando com ela seu cartão de visitas antes de ir embora. Akane não aguenta mais encontrar Decker e Duo acha tudo um tanto divertido. Broden chama Heero e pede que ele fique além do seu horário para cuidar que Hilde seja aceita e respeitada pelos bombeiros do segundo turno. Apesar de achar desnecessário, Heero aceita. Quando o Pipa 4 é chamado para uma ocorrência, Heero faz Hilde ir junto como castigo por causa de um comentário dela. Logo depois que ela retorna da ocorrência, fica sabendo que Heero vai continuar cumprindo horário como punição por ter mandado ela na operação. Ao ser presentada a seus subordinados, o alarme soa e eles são mandados assim para fazer um resgate em altura.
26
Heero assistiu Hilde subindo no caminhão pela porta do copiloto. Fazia muito tempo que não trabalhava sob o comando de alguém. Seria uma boa experiência recordar a situação de um subordinado, isto o ajudaria a refletir e se tornar um líder ainda melhor.
_O senhor por aqui? –Lech riu, arrumando o cabelo claro para trás antes de vestir o capacete, já sentado ao lado de Heero.
_Quer dizer que o bailarino vai nos emprestar o seu talento… –Bayani não esquecia a performance de Heero e Relena. As gargalhadas estrondaram no espaço limitado em que os bombeiros viajavam dentro do caminhão.
Hilde olhava para trás, assistindo Heero sofrer as brincadeiras, e Pit apenas sorria, sem tirar os olhos da pista.
_Aposto que Broden botou alguém pra ficar de olho na nossa nova patroa. –Toms foi mais malvado.
_Quem sabe o capitão não pediu para eu verificar outra pessoa? –e falando assim, displicente, Heero defendeu-se, sorrindo com algo de sinistro. Estava preparado para aquela bagunça toda.
_Se eu fosse você, tomaria mais cuidado agora, cara… –Victorious bateu nas costas de Toms, zombeteiro. O rapaz atacado mostrou uma careta implicante, mas não pôde fazer mais do que dar de ombros.
Parando em frente ao prédio assinalado pela ocorrência, todos desembarcaram e olharam para cima. Identificaram o andaime quebrado bem no meio e, pendurado, um pouco abaixo, a pessoa que o estivera ocupando até pouco tempo atrás.
Hilde mal podia enxergar o homem suspendido pelos cabos de segurança, tudo ocorrendo há quase 45 metros do chão, mas ela imaginava que este devia estar bastante fragilizado, mais a cada minuto que passava, requerendo da equipe de resgate a máxima urgência.
O andaime tinha sido instalado para a pintura de um gigantesco painel artístico ali, por isso, não havia nenhuma janela ou balcão naquela parede do prédio. O único modo de alcançarem a vítima era descendo por uma corda desde a laje, percorrendo uma altura de um pouco mais de 5 metros.
_Rapazes, teremos de subir até ao topo do prédio por dentro. Quero Lech, Bayani e Yuy comigo. Gracchus, Pit, posso deixar a Magirus no comando de vocês?
_Sim, chefe.
_Ergam a escada no máximo da altura, vamos levar a vítima até vocês. Farnesi, quero você pronto para recebê-la. –a sorte que tinham era poderem fazer livre acesso aquele lado do prédio, que era voltado para a avenida. –Victorious, monitore todo mundo e Toms, sinalize a rua.
_Positivo. –os dois rapazes confirmaram em uníssono.
Terminando de dar as ordens, vendo todos preparados com as cordas, a tenente e sua pequena equipe correram para dentro do prédio. Chamaram o elevador e perderam um minuto inteiro e precioso esperando-o. Hilde olhava fixamente para o mostrador, feito assim pudesse forçar o transporte a andar mais rápido. Quando as portas abriram, eles ocuparam a cabine, Lech prontamente apertando o botão que os levaria à laje.
Em menos de dois minutos, alcançaram o décimo-oitavo andar e, dali, usaram a escada de serviço para acessar a laje, indo direto até a beirada onde o andaime tinha sido afixado. Hilde debruçou no parapeito e olhou para baixo, analisando a situação do mais perto possível.
_Chefe, como vai querer o sistema de cordas? –Bayani, que estava ao lado dela, indagou ao passo que ambos desencostavam da beirada do prédio.
Os bombeiros olharam em torno e, em um giro rápido, Hilde apontou sua escolha:
_Vamos usar aquela torre de ponto de ancoragem. –havia uma torre de ferro ali, sustentando algumas antenas, instalada em uma plataforma de concreto que dava a ela uma aparência de bastante resistência. O melhor de tudo era sua posição conveniente para direcionar a corda de descida, parecia até que fora colocada ali com aquilo em mente.
_Vamos fazer uma ancoragem simples, equalizada, nesses dois pés. –aproximando-se da torre, Hilde mostrou o que falava com gestos sempre muito assertivos, e a seu lado Lech já estava puxando as cordas da bolsa e tomando as ordens.
Com agilidade, ele e Heero montaram o sistema, até parecia que faziam aqueles nós todos os dias, tão bem-feitos surgiam em tão pouquíssimo tempo.
Hilde colocou o capacete de lado e prendeu a mola mosquetão em seu próprio baudrier, avisando, assim, a voz vibrante e prática:
_Estou descendo. Fiquem de olho no andaime para mim, ok? –tratava o assunto com banalidade, como não podia deixar de ser. Não fora de caso pensado, mas sua disposição para a aventura causou uma ótima impressão nos rapazes. Por sua vez, Heero não se surpreendeu em nada com a atitude dela, na verdade, esta era no mínimo esperável, e deixava o capitão definitivamente sem motivos de se preocupar com ela na liderança do segundo turno. Hilde soube aproveitar a oportunidade e se impôs como a excelente bombeira que era.
Não havia, assim, qualquer razão para questionar a decisão dela. Bayani apenas testou a corda de descida com um puxão e, em seguida, Hilde saltou, descendo de pouco em pouco, o cabo tensionando só com o primeiro impulso. Lech ficou debruçado no parapeito, assistindo dali, trocando mensagens de rádio com Farnesi, que acompanhava o progresso da moça.
Hilde era leve e sua aterrisagem em uma das partes do andaime partido não causou qualquer oscilação nesse. Parando um instante, observou a curta distância que faltava cobrir até chegar à vítima. Tentava não dar muita importância para quão distante o chão parecia, captando-o por sua visão periférica, mas prendia-se no homem, mesmo que não conseguisse enxergá-lo muito bem. Contava com as orientações que recebia pelo canal aberto no rádio para seguir seu caminho.
Com mais um salto e um pouco de força, pulou o andaime. A estrutura, apesar de quebrada, tinha suas metades bem presas no prédio, sem oferecer riscos adicionais para atrapalhar seu resgate. Com mais dois saltos, ela alcançou a vítima, blocando sua posição. Comprovou o estado desacordado do rapaz, todo aquele tempo em que ele passara naquela posição, içado pelo próprio arnês, estava custando toda sua resistência. O caso era grave e o senso de urgência de Hilde só aumentava, forçando-a a agir o mais rápido possível.
Ligou suas cordas e depois criou o cordão umbilical, usando os mosquetões para poder colocar o baudrier da vítima em sua linha de descida também. Conferiu todas as conexões e respirou fundo, jogando o olhar para cima e notando Lech vigiando-a.
Tinha chegado a hora e, por mais capacitada que fosse, era difícil manter-se indiferente agora. O desfecho daquele caso estava completamente em suas mãos e se algo desse errado, o resultado seria irreversível.
Entretanto, não poderia demorar-se mais. Os riscos que a vítima corria ali não permitiam hesitações. Cortou a corda de segurança do homem e sentiu um solavanco com a transferência de peso entre as cordas, mas a ancoragem aguentou firme, confiável. Depois de um suspiro de alívio, ela passou o rádio para Farnesi, sua voz séria evidenciando a tensão do momento:
_Tudo pronto? Estamos indo até você.
_Positivo, chefe, pode descer.
Desblocando sua corda, atenta a oscilação, sentindo o vento fustigando seu rosto, Hilde assentiu e desceu o mais suave possível. Mas não tinha percorrido nem um metro e percebeu algo prendendo o cabo, impedindo que chegasse até a Magirus. Por menor que fosse a distância faltante – um pouco menos que dois metros – ainda não conseguiria concluir o resgate. A escada estava longe demais para que simplesmente soltasse o homem.
Ela insistiu mais uma vez, puxando o cabo com alguma força. Nada.
_O que houve, tenente? –Lech indagou no rádio dela, ressabiado. Trocou olhares com Bayani, que estava cuidando da corda, controlando também a descida de Hilde.
_Estou presa. Minha corda deve ter se enroscado no andaime. Consegue ver alguma coisa?
_Só um momento, chefe. –dizendo assim, Lech chamou Bayani para segurá-lo ao passo que ele se debruçava mais para fora do parapeito. –Ah, droga, não consigo ver nada… –estreitava os olhos, fazia viseira com a mão, mas sua vista não conseguia focar.
_Aqui. –Heero lhe estendeu os binóculos que tirou de um dos bolsos.
Bayani teve tempo de mostrar uma divertida expressão de surpresa ante o item emprestado:
_E não é que é o Gato Félix? O que mais tem aí?
Heero meneou a cabeça, inexpressivo, e depois debruçou também para procurar o embaraço na corda.
_Ali, encontrei. –Lech falou, abafado, o ar preso no estômago esmagado no parapeito. –Parece que prendeu na madeira, chefe. –e no rádio, falou com Hilde outra vez.
_Precisamos soltar eles pra ontem. –Bayani comentou, Gracchus ia informando no rádio quanto tempo de ação tinha transcorrido e sabiam que a cada segundo o risco de perder a vítima aumentava drasticamente.
_Vou descer. –Heero recuperou seus binóculos e preparou as próprias cordas, prendendo-as ao sistema pronto. Colocou o capacete junto ao de Hilde e avançou até a beirada, calçando os pés na parede, e soltando a corda aos poucos.
O vento do final de tarde estava forte, assoviando em seus ouvidos. Ele olhou para baixo um instante, indo com bastante cautela.
_Segura as pontas, Schbeiker. –o rádio vibrou com a mensagem de Lech. –Yuy está indo até aí.
_Positivo.
Heero chegou ao andaime então. Freiando, para poder ficar suspenso, de mãos livres, tomou a corda de Hilde em suas mãos e com um movimento preciso e cuidadoso tirou-a do meio das tábuas onde acabara se prendendo. Para garantir que não ocorreria outra vez, ligou suas cordas e ficou ali, assistindo o cabo, mantendo-o longe das lascas e vãos.
_Tente agora, chefe. –e ele apertou o rádio e avisou, olhando para baixo.
O cabo começou a correr contra a palma de sua mão. Foi deslizando em um ritmo fluído e constante, conforme Hilde lá embaixo ia puxando e pedindo mais corda. Na laje, Bayani também ia controlando a passagem do cabo, livrando-o do atrito com a beira do parapeito.
Farnesi ergueu as mãos e segurou os dois pés do rapaz, dobrando as pernas dele, até que ele todo entrasse no cesto da Magirus. Soltando os mosquetões, manteve-o sentado ali, ao passo que o caminhão manobrou e baixou o cesto ao alcance dos paramédicos.
_Grande, chefe! –Lech comemorou, no rádio, ao passo que alguns aplaudiam, aqui e ali.
_Mandou muito bem! –Victorious também ofereceu seu elogio.
Hilde acenou com as duas mãos, sorridente:
_Parece que formamos uma excelente equipe, hein, rapazes?
E enquanto aguardava sua vez de descer, Heero chegou até ela, colocando-se ao alcance da escada também.
_Que tal meu desempenho, Yuy? –ela indagou, provocando, evidentemente orgulhosa de si mesma.
_Exatamente como esperado.
_Por que tem que ser tão difícil de agradar? –ela choramingou, frustrada, fazendo uma careta bem-humorada.
_Nunca duvidei de que se sairia bem, Schbeiker. –e ronronou, paciente, mas monocórdio, concedendo a ela um pouco da aprovação que ela pedia.
_Mas parece que alguém duvidou. –ela abespinhou, fingindo exaspero.
Heero não alterou a expressão com a declaração astuta dela, mas seus olhos perderam um pouco a profundidade. Ele sempre soube que ela era esperta demais para cair naquela pegadinha:
_Não tem nada a ver com você.
_Tudo bem, eu sei entender.
_Mas não tem motivo para ficar relaxada.
_Como assim?
_Essa sua grande estreia elevou o nível de exigência que tínhamos para você. –e com o retorno do cesto, ele gesticulou para que ela fosse primeiro.
_O quê? –ela reclamou, irritada, mas rindo. –E eu pensando em te agradecer…
_Não tem por que. –e subiu na escada também, respondendo com gravidade.
Ela sacudiu a cabeça, inconformada com a excentricidade dele, mas riu. Era a melhor opção.
De volta ao chão, Hilde olhou para o alto, analisando o ponto onde estivera pendurada. Por mais que na hora não levasse em consideração o quanto estava exposta, dava frio na barriga apenas tentar observar a situação de fora.
_A operação levou trinta minutos, desde que entraram no prédio até você voltar ao chão, chefe. –Gracchus explicou ao reencontrá-la.
Ela gostou do tempo, assentindo, mas não teve oportunidade para descansar, logo sendo abordada pelo responsável do prédio, policiais e repórteres, que chegaram no meio da ação. Heero também recebeu a atenção dos repórteres, mas como sempre, ele se esquivou das perguntas com sobriedade, se afastando em direção do caminhão. Lech já estava ali e entregou-lhe seu capacete.
Hilde prestou atenção à atitude de Heero e também decidiu despedir a jornalista que falava com ela:
_Agradeço a todos pela cooperação, e principalmente a equipe do Escada 5.
Foram precisos quinze minutos para ela lidar com todas essas questões e encerrarem os trabalhos, mas estavam todos animados dentro do caminhão no caminho de volta, conversando sobre o ocorrido na empolgação toda que era comum entre o segundo turno.
_E aí, Gato Felix, será que tem algo de comer aí? –Bayani acotovelou Heero, mais por chacota sem motivo.
Com um franzido de sobrancelha e um retorcer de lábios, Heero tateou um pouco seus bolsos até que tirou uma barrinha de proteína e entregou para ele. Não precisou produzir uma palavra sequer para desbancar a gozação, eficiente.
Farnesi se assustou, arregalando os olhos castanhos, escandaloso:
_ Ô, louco! Não é que tinha mesmo? –com brusquidão, jogou o ombro em cima de Bayani para conferir a embalagem. –Daquelas importadas ainda!
Houve muitas gargalhadas, como não podia deixar de ser.
_Hum, é de chocolate! –Bayani mordeu e avisou, fazendo inveja.
_Serviço completo, esse Yuy!
_Não é à toa que é o melhor…
_Que raiva, Heero, você está fazendo mais sucesso com o time do que eu! –Hilde reclamou, entrando na bagunça. –Não pode isso!
E iam assim, brincando como velhos amigos, e era Hilde quem ria mais que todos, se sentindo muito bem-vinda.
_Escada 5, na escuta? –o rádio surpreendeu a todos.
_Prossiga, Central.
_Resgate em elevador, Rua Maestro Grigor Fonze, número 1574. –a atendente coordenou.
_Positivo, estamos a caminho. –e confirmando o recebimento da ordem, Hilde assistiu Pit alterar a rota.
Aquele turno já estava se mostrando bastante movimentado, do jeito que Hilde gostava. E era apenas o primeiro dia.
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_Vamos sair para comer. –Akane colocou o celular no bolso do agasalho outra vez.
Relena olhou para ela com alguma surpresa no olhar por causa da decisão abrupta. Já estavam na porta de saída do hospital e havia anoitecido.
_Tint disse para escolhermos um lugar para nos encontrar. Daniil também vai. –Akane prosseguiu, correspondendo o interesse da amiga.
_Sabe, boa ideia. Estou cansada demais para cozinhar e lavar louça ainda hoje.
_Onde quer ir?
_Vamos no Primavera Plaza aqui perto, não sei o que estou com vontade de comer.
Zechs estava dentro do carro, entretido com o celular, mas as percebeu chegar pelo som de sua conversa e destravou as portas.
_Só sei que hoje a gente merece uma sobremesa reforçada! –Ane considerou com uma voz cheia de travessura.
As duas se ajeitaram e passaram os cintos, mas nada de Zechs partir. Ele parecia estar estudando algo muito difícil, que exigia toda sua atenção.
_É brincadeira… –e enfim ele resmungou, rindo irritado. –Dê só uma olhada nisso, Lena…
_O quê? –atrás, Ane indagou, sem saber se devia ficar preocupada, franzindo forte suas sobrancelhas laranjas com suspeita. Soltou-se e avançou até o espaço entre os bancos da frente, pescoceando a tela do celular que Zechs entregou para a irmã.
O vídeo foi retornado ao ponto de início e o volume do som ajustado no máximo. O jornalista anunciou a notícia com seu tom assertivo e que aumenta a gravidade de tudo:
_Tensão nas alturas: um acidente com um andaime colocou em risco a vida de um artista que pintava um mural em um prédio na zona central. A reportagem vocês veem agora.
Relena ergueu as sobrancelhas com a introdução, roubou um olhar de esgueira de Zechs e seguiu assistindo. Akane entrara em silêncio analítico, se espremendo pra enxergar.
_O pintor caiu quando seu andaime se partiu ao meio na tarde de hoje. O corpo de bombeiros foi acionado por um homem no prédio do lado oposto da Avenida Campos Elíseos. –enquanto a voz de timbre único – severo – explicava, as imagens do andaime quebrado e do pintor pendurado, sacudindo-se um pouco, ia correndo, uma gravação amadora. Então, a narração se silenciou um instante ao passo que exibia a descida de rapel do socorrista.
_Esse não é o Heero. –Akane logo ronronou.
_Fique vendo. –Zechs replicou, ainda com um jeito incrédulo e engraçado.
Obedeceram.
O jornalista prosseguiu:
_A situação se tornou um resgate delicado. O bombeiro passou a vítima para sua própria corda, mas ao prosseguir a descida até a escada que esperava para pegá-los, ficou com seu cabo preso no andaime. Momentos de apreensão. Outro bombeiro desce para livrar a corda de seu colega que enfim consegue terminar o salvamento.
A imagem de repente sofreu o mais conveniente dos zooms naquele momento, fechando no nome estampado na jaqueta de aproximação do segundo bombeiro: "YUY".
_Heero! –Relena levou a mão livre ao peito, inclinando a cabeça para mais perto da tela, acompanhando ele descer, soltar o cabo do colega e depois também ir até a escada.
_Deixa eu ver, Lena! –Akane reclamou, perdendo todo seu campo de visão.
_Mas não é um insuportável? Sempre que eu estou na cidade o Heero tem que bancar o herói! –Zechs resmungou, achando graça.
_Mas o que é isso, Zechs? –Ane começou a provocá-lo, já que não conseguia mais assistir nada mesmo.
_Estou ofendido! –Zechs pensava que era óbvia a resposta.
_E o você que tem a ver com isso? –Ane gargalhou, confusa.
_Heero está acabando com a nossa imagem. –ele rosnou. –Ele é bom demais para ser verdade.
Akane estalou a língua, revirando os olhos e caindo no banco lá trás, o rosto com uma expressão divertida, apesar de impaciente.
_É meu irmão, queria mais o quê?
Vidrada, Relena terminou de assistir o vídeo. Seu silêncio seguiu pesado, então.
_Lena, está tudo bem? –Akane investigou, olhando o rosto na amiga refletido no retrovisor.
Relena virou para trás, para comentar com Ane:
_Eu nunca tinha visto algo assim… e pensar que era o Heero ali… –sua voz veio baixa e pensativa.
_É incrível, não é? –Ane respondeu aproveitando para dar mais uma alfinetadinha em Zechs. Ele revirou os olhos, sacudindo a cabeça com desprezo.
_E um pouco assustador, também. –seu olhar perdeu um pouco a direção então.
_Também. –sem tirar a razão de Relena, Akane achou por bem reforçar, embora mantivera o timbre leve, mostrando um sorriso despretensioso. O celular apitou em seu bolso, pedindo sua atenção. –Mas para eles, é só mais um dia normal no trabalho. –e explicando assim, leu a mensagem e começou a responder.
Assentindo, Relena sorriu também, ajeitando-se no banco outra vez. Teve vontade de assistir a filmagem de novo. Mesmo se não fosse Heero ali, já seria uma imagem impressionante, mas o fato de ele fazer parte daquela operação a tornava especial para Relena. Vê-lo trabalhar pareceu colocá-la ainda mais próxima dele, tornando-o ainda mais real para si. Percebeu uma perspectiva nova da pessoa que estava conhecendo, uma surpresa maravilhosa.
_Zechs, você tem toda razão. –e ela murmurou então, apagando a tela do aparelho e devolvendo-o ao irmão. –Heero é bom demais para ser verdade. –a voz se ergueu, sonhadora, e de repente ela entendeu que sensação diferente era aquela que aquecia seu peito e acelerava seu coração.
_Que seja, que seja… –à contra gosto, Zechs resmungou. Depois deu um sorrisinho que passou despercebido dela, aliviado em vê-la tão feliz.
_Olha, a Tint está indo lá pro shopping já. Vamos? –Akane avisou, sem interromper sua digitação intensa.
_Ir para o shopping? –e Zechs já estava manobrando o carro para saírem.
_Para jantarmos.
Relena não acompanhava o diálogo deles. Puxara seu celular da bolsa e mandava uma mensagem para Heero:
"Acabei de ver as notícias. Bom trabalho. Estou muito orgulhosa de você." –sorria o tempo inteiro em que escrevia. –"Te amo. Beijos."
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_Mensagem da madame?
Essa pergunta foi a evidência de que sua expressão o havia traído. Ele tentou relaxar os músculos do rosto, mas estava difícil conter a vontade de sorrir. Erguendo a vista de seu celular com um movimento ágil dos olhos, Heero mirou Victorious, que estava ali também diante da bancada com as garrafas térmicas.
Ainda bem que fora ele a flagrá-lo, já que era quem mais sabia se comportar entre os integrantes do segundo turno. Sua única reação foi esperar uma resposta, exibindo um olhar inócuo, uma sobrancelha curvada e um sorriso divertido, mas não zombeteiro.
_A gente se divertiu sábado, não foi? –e ele mesmo continuou o assunto, enchendo seu copo com o café mais uma vez, ciente de que Heero não iria falar nada. Ao menos, tentara.
Fazia uns dez minutos que tinham voltado ao batalhão depois de resolverem o caso do elevador, e Heero só foi lembrar-se de checar o celular quando viu Victorious fazer o mesmo. Foi então que viu a mensagem de Relena. As notícias realmente corriam rápidas.
_Ainda estou na esperança da Lya me ligar… –com um suspirou, Victorious mencionou mais, a esmo.
Heero não conseguia se concentrar na conversa. Ainda bem que Victorious não fez questão de continuarem o assunto, mas saiu com o copo de café em uma mão e o celular na outra, distraído demais com sua partida de Questmonster.
Indo para a direção contrária a do amigo, Heero acabou chegando ao vestiário. Sentou no banco e apertou o botão que iniciaria uma ligação com Relena.
Tocou várias vezes, mas ela não atendeu.
Com um suspiro, encerrou a chamada e releu a mensagem.
Quem diria ser capaz de experimentar tanto conforto com um elogio! Tinha certeza que acontecia assim por causa da origem da frase. Já ouvira seu pai, Esther e Ane falando aquilo para ele, mas como era Relena quem dizia dessa vez, sentia-se sobrecarregado. Não de um modo ruim. Nunca de um modo ruim. Porque cada instante com Relena sempre fazia com que ele quisesse ser melhor. E sempre sentia que esse esforço valia a pena. Quando era para Relena, qualquer sacrifício era fácil.
Enfim sorriu um sorriso simples que resgatava a imagem de menino:
"Muito obrigado, meu amor." –digitou e enviou. Não sabia se devia ter se delongado mais, apenas escreveu o que lhe veio de primeira, de mais sincero. Encarou a tela ainda por mais um instante comprido, vendo se a inspiração ia bater para uma segunda frase. Entretanto, apenas seguiu sorrindo, pensativo, os olhos tímidos e enternecidos, agindo feito estivesse debaixo da vigia cintilante dela.
Respirando fundo, Heero aproveitou o instante de sossego e depois retornou para a sala comunal.
_Yuy, venha aqui. –Broden apareceu no corredor e, parando ali com o rapaz, baixou a voz para interrogar. –Como foi?
_Muito tranquilo.
_Todos se comportaram?
_Não. Mas ela está se sentindo em casa.
Broden riu, era tudo um tanto contraditório na frase de Heero, mas entendia o que ele quis dizer.
_Ótimo. Então você pode ir.
_Sim, senhor.
Assim, Heero foi procurar Hilde. Ela estava em sua mesa, cuidando dos documentos das duas ocorrências. Erguendo os olhos para ele, sorriu com uma graça infantil:
_Escrevi o relatório do acidente com o andaime. Quer dar uma olhada?
Com um movimento da mão, ele aceitou e pediu o papel. Leu rápido, passando a visita com facilidade, e depois devolveu para ela.
_Bom. –e tal julgamento vindo dele significava muito. Heero não menosprezava as palavras. Ela sorriu mais, guardando a folha outra vez. Brincou um pouco com a caneta e comentou:
_Os rapazes estavam falando que nosso quartel entrou para a Batalha dos Distintivos…
Ele assentiu, inexpressivo, comentando somente:
_Foi de última hora. –e não era um detalhe que o agradava.
Controlando o risinho, pouco chocada com a falta de ânimo do colega, e Hilde pediu:
_Ainda dá tempo de eu participar?
_Claro. Nem marcaram a reunião para resolvermos os detalhes ainda… –mais um ponto que o desagradava. E enquadrando bem o rosto dela com seu olhar mais analítico, Heero teve uma ideia. –Você não quer cuidar disso?
_Como sua assistente pessoal? –riu, gracejando do ar pomposo dele.
_Não, como a responsável pela equipe.
_Sério? Puxa, eu quero sim!
_Vou avisar o Declan.
_Obrigada!
Ele sacudiu a cabeça, dispensado a necessidade de gratidão. Era ele quem devia agradecer por ter uma coisa a menos para cuidar.
_Estou indo para casa. –e avisou abruptamente. Este tinha sido seu objetivo em ir até ali, de fato.
_Está certo. Até amanhã, Yuy. –e, levada ainda pela animação da nova tarefa, ela acenou, voltando a debruçar-se no segundo relatório que redigia.
Saindo dali, Heero passou no almoxarifado e pegou a camiseta do Escada 5 que Relena havia pedido. Depois, voltou ao vestiário e tomou uma ducha rápida. O dia tinha sido muito quente e as duas últimas ocorrências exigiram muito de todos, era melhor se trocar antes de ver Relena ao invés de ir do jeito que estava, com o suor do dia inteiro no corpo.
Vestiu a muda de roupa civil que sempre trazia e checou o celular. Ela ainda não tinha visualizado a mensagem. Deliberou se iria tentar ligar de novo e avisar que estava indo para o apartamento, mas como o relógio marcava oito horas, e ela disse estar cansada, resolveu ser mais sensato e comer algo rápido antes de vê-la. Se chegasse lá sem jantar, certamente ela iria querer preparar algo para ele, e sua última intenção era dar trabalho. Por isso, decidiu passar no Shopping Primavera Plaza tomar um lanche.
Ao entrar no estacionamento do centro comercial, Heero teve dificuldades para encontrar uma vaga. O local estava inesperadamente cheio para uma segunda-feira. Ele quase desistiu, mas por sorte se deparou com um utilitário que estava de saída, liberando sua vaga.
Ao chegar à praça de alimentação, entrou direto na fila do Burger King, com o pedido já em mente, e, parando ali, sentiu o cansaço pesar. Não era porque estava acostumado com o ritmo pesado de trabalho que seu corpo não dava falta das horas acumuladas de sono perdido.
Enquanto comia, meditava. Olhava as pessoas indo e vindo, o salão tomado pelo burburinho das conversas. Deixa a vista ir de uma mesa a outra, discreto, refletindo que cada um ali tinha uma rotina própria, um problema que enfrentava, um motivo para se alegrar.
Às vezes se flagrava estranhando aquela capacidade humana de conviver com estranhos que, ao mesmo tempo, tinham tanto em comum entre si. Tantas histórias paralelas, algumas fadadas a, de fato, jamais se encontrarem. Entretanto, ali, se reuniam, e ele podia vislumbrar algo de cada uma.
A mãe alimentando o bebê no carrinho, o casal de namorados que discutia, as adolescentes rindo em bando, o rapaz de fones de ouvido trabalhando no laptop, o gerente de uma loja fazendo entrevista com um prospectivo funcionário. Tudo acontecendo no mesmo contexto.
Houve um tempo em que considerar tudo isso o fazia um tanto solitário. Não agora. Somente se via intrigado, curioso. Era satisfatório pensar que havia vida em todo o lugar. E que ele fazia parte daquilo.
Levou a bandeja até a lixeira mais próxima, aguardando um instante sua vez. Descobriu que aquele dia era a estreia especial do aguardado último episódio de uma franquia cinematográfica, por isso toda aquela movimentação. A sessão seria as nove e quinze e todo mundo devia ter resolvido jantar antes do filme.
Havia um pôster gigante ali próximo e todo mundo parava para tirar fotos, querendo ficar perto de seu personagem favorito, atrapalhando o caminho de quem não viera para o evento. Heero apenas esperava que a administração do shopping tivesse tomado as providências necessárias, aumentando o número de bombeiros civis para aquela noite.
Por mais que Heero prestasse atenção para não se esbarrar com ninguém, quando estava quase saindo do centro do tumulto, foi atropelado por uma garotinha, que cruzou sua frente como um raio cor-de-rosa, soltando um gritinho de alegria:
_Olha, papai!
_Fabi, cuidado! –o homem passou por Heero, pedindo desculpas com um gesto, e se juntou a menina.
Obrigado a parar, Heero olhou a direção que a menina tomou e encontrou a vitrine do pet shop. Havia dois filhotes de Labrador usando as roupinhas dos super-heróis do filme, os rabinhos agitados no ar, curtindo a atenção do grupo que se formava diante deles para apreciar sua fofura.
Heero desviou seus passos para lá também, sem resistir, assistindo os cachorrinhos por cima da cabeça das crianças por um instante. Depois, olhando para o lado, em uma repartição grande mais abaixo, achou um filhote de Husky sentado, estudando-o. Sua feição era séria e concentrada, mais muito dócil e curiosa, as orelhas em pé. Com um movimento tenso nos lábios, Heero esboçou um sorriso para ele e viu seu rabo se abanar.
Levando a vista para o relógio, Heero verificou se não estava ficando muito tarde. Não queria atrapalhar o descanso de Relena, assim precisava se apressar. Checou o celular, mas ela ainda não tinha visualizado a mensagem, o que o deixou um pouco preocupado.
Começou a caminhar para longe da loja e, lançando um último olhar para o cachorro, viu que ele estava seguindo-o dentro de seu viveiro, como se quisesse ir embora com ele. Voltou até o vidro, assim, parando em frente ao Husky, guardando o celular e colocando as mãos nos bolsos do jeans. O cachorro ergueu-se, pondo as patinhas dianteiras no vidro e o focinho para o alto, deixando a língua para fora, e latiu chamando Heero.
Com um meneio de cabeça, Heero sorriu um pouco mais, agachando-se para olhar o cachorrinho nos olhos azuis cristalinos. Ele tinha uma pelagem castanha e branca, tão felpuda que lembrava um bichinho de pelúcia.
_Olá, amigão… –ele murmurou, colocando a mão no vidro também, vendo o filhote trazer seu nariz preto mais perto.
Ah, se não morasse em um apartamento…, Heero se deixou pensar, sorrindo discreto, cheio de carinho no olhar. O Husky ficou nas quatro patinhas e desceu um pouco a cabeça, provocando Heero para brincar. Fez isso algumas vezes, soltando latidinhos, e por fim voltou a se espichar no vidro, a língua pendendo para fora da boca sorridente.
_Você é bem animado, não é?
O problema, entretanto, não seria só o espaço. Heero sabia que provavelmente não teria o tempo necessário para dedicar à mascote, com o estilo de vida agitado e incerto que levava. O animal precisava de um dono que realmente pudesse dar-lhe uma vida boa. Heero torcia para que isso acontecesse, e pelo modo como o cachorro era charmoso, não demoraria muito.
Colocou a mão no vidro uma última vez e o Husky colocou a patinha no mesmo lugar, o rabo sacudindo alto e rápido, sem parar. A garotinha que atropelara Heero de repente se agachou ao lado dele:
_Que lindo!
Heero olhou para ela com um sorriso:
_É mesmo. –concordou, solene demais para a situação, a voz flutuando com um fundo de meiguice.
O filhote gravitou até a garotinha, interessado, a testa pareceu até se franzir, e colou o nariz no vidro quando ela ergueu a mão até ele. Ela ria, contente, e Heero seguiu ali, fascinado com o modo esperto que o cachorro tentava interagir. Pôs-se de pé assim, cruzando os braços com um suspiro, admirando o filhote um segundo mais antes de partir, quando ouviu uma risada calorosa. Podia jurar que era Relena ali consigo, gargalhando do seu jeito doce e encantado. Por isso, acabou olhando para seu lado.
E ali estava ela.
Boa-noite!
A autora está aqui!
A honestidade me impede de dizer que foi fácil escrever isso aqui, viu? Ô louco! Capítulo complicado de montar!
Estou contente de no final, tudo ter dado certo. Parece ridícula a quantidade de trabalho por trás dessas 5000 palavras, preciso descobrir um modo mais fácil de trabalhar, mas se isso significa trazer para vocês um capítulo de qualidade, divertido, interessante para alegrar o dia de vocês, todo sacrifício é válido! Porque essa é minha missão! ;)
Espero que tenham gostado!
Eu me diverti muito, apesar do trabalho árduo.
Quero agradecer com carinho todo mundo que me apoiou, me ajudou, a Jessy, a Lica e a Suss. Quero agradecer de coração todo mundo que lê, que comenta e acompanha!
Deixem seus reviews, fiquem à vontade para dar opiniões, críticas e seus pontos de vista! Gosto muito de saber tudo!
Até Abril!
Beijos e abraços!
30.03.2018
