No último capítulo…
Heero acaba acompanhando Hilde na primeira ocorrência na liderança dela. Um resgate arriscado os espera, em altura. Um pintor caiu do andaime em que pintava um mural. Durante a descida de Hilde para buscá-lo, a corda dela fica enroscada e Heero então precisa descer para soltá-la. Ao sair do hospital, depois de visitar Duo, Akane agita para irem comer fora. Zechs mostra para ela e Relena o vídeo da ocorrência que Heero atendeu aquela tarde. Depois de terminarem o trabalho, Heero conversa com o capitão Broden e consegue permissão para ir para casa. Decide ir visitar Relena, mas antes, pára no shopping para jantar. Se deparando com um husky na vitrine do pet shop, brinca um pouco com ele pelo vidro, e quando resolve ir embora, encontra Relena parada a seu lado.
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27
As filas estavam longas naquele fim de tarde de segunda-feira, tudo por causa da estreia do mais novo filme de super-heróis. Mesmo assim, comeram bem e conseguiram uma mesa que coubesse todos.
_Qual é o seu preferido? –Ane indagou, mastigando. Sentaram diante de um enorme cartaz, obrigados a analisá-lo.
Relena olhava a imagem fixamente, com jeito de quem deliberava, e Tint estalou os lábios:
_Escolher por que, tem um para cada dia da semana…
_Não é isso que quero dizer! –Akane riu, exagerada, e fez questão de esclarecer, provocando a amiga. E seguiu falando de quem gostava mais e por que. Relena ria das duas, achando-a impossíveis. Zechs e Daniil ao lado conversavam sobre esporte, política e economia, como dois participantes de um clube de cavalheiros, muito embora estivessem no meio da praça de alimentação comum, debruçados sobre os copos de refrigerante do McDonald's. Todo mundo saiu da dieta aquela noite.
_Vamos embora? –Daniil murmurou quando o assunto de repente morreu.
_Preciso comprar comida para a Allegra.
_Então vamos ao pet shop perto da saída. –Relena propôs, para aproveitar que estavam ali.
Ergueram-se todos e carregaram suas bandejas até o lixo e foram caminhando devagar pelos corredores, Daniil e Tint na frente, com Ane revezando um pouco entre eles e Zechs e Relena, que vinham logo atrás.
_Toda essa gordura saturada vai me dar pesadelos hoje… –Zechs brincou, suspirando arrependido.
_Até parece que a Zenia não está mandando preparar tudo o que você gosta lá em casa… –Relena não perdoou.
_Não posso partir o coração dela. Ela pensa em tudo com tanto carinho.
_É pecado desperdiçar comida feita com amor. –Ane proferiu o adágio, a voz inflexível indicando que levava a sério o que dizia.
_Alguém que me entende…
_Bobo…
Riram os três da conversa fiada.
_O que a Mashkina queria contigo? –Tint olhou Ane sobre o ombro e indagou enquanto paravam na frente de uma vitrine por um instante.
_Então… –Ane levou as pontas dos dedos aos lábios, pensativa. –Eu estou num pacto de silêncio com a Lena aqui, só conto se ela contar…
_Oras, contar o quê? –Tint brecou, gesticulando grande, encarando as duas amigas. E quando seus olhos azuis caíram em Zechs, entendeu tudo. –Verdade! –deixando Daniil de lado, correu em Relena e agarrou pelo braço. Lançou uma olhadela feia para Zechs e fingiu falar de um jeito segredista. –O que Zechs queria?
Ele riu e sacudiu a cabeça, revirando os olhos:
_Negócios de família. –falou com ar ofendido, como se fosse um disparate ela se intrometer.
_Interessante… Desistiu da Suicinha, foi isso? –coçando o queixo, ela voltou-se para ele e tomou seu braço também, de modo que terminou enganchada nos dois.
_Não. Nunca. –ele desmanchou a seriedade para responder, radiante.
_Que pena… –Tint careteou.
_Mas Tint… –Relena reclamou então.
Tint apenas ergueu uma mão em rejeição da censura. Estavam todos rindo, ao mesmo tempo.
Nem perceberam que tinham chegado ao pet shop, havia tamanha aglomeração na vitrine que já iam passando reto. Conseguindo roubar um relance do que tanto atraía a atenção das pessoas, Tint avisou:
_Ai, que coisinhas mais lindas! –e, soltando-se de Relena, apontou dois filhotes vestidos com roupinhas de super-herói. Ela sacudiu a cabeça, divertida, o que não inventavam hoje em dia? –E olha o husky ali, Lena! Não é a cara do Heero? –falando assim, empolgada, riu e só então soltou Zechs, correndo até o vidro e agachando na frente do cãozinho, que deitado, apenas levantou a cabeça e mexeu as orelhas um segundo.
Relena deu uma gargalhada alta e maravilhada, se vendo obrigada a concordar com a percepção aguçada de Tint. O cachorrinho tinha olhos azuis centrados, um pouco entediados, e uma pelagem castanha que combinava com a cor dos cabelos de Heero. Meneando a cabeça, encantada, imitou a amiga e, quando abaixou, o husky ficou de pé, espreguiçou e bocejou, desenrolando a língua, pronto para receber a atenção dela.
_Que fofura… –Relena murmurou, um sorriso enorme nos lábios e os olhos brilhando. Colocou a mão na vitrine devagar e aproximou mais o rosto do vidro. O filhote veio até as duas e ficou de pé na frente de Relena, como se quisesse encostar seu narizinho no dela.
_Que barriguinha mais linda! –Tint deu um gritinho.
O Husky voltou a sentar e, com sua feição séria e alerta, ficou assistindo-as conversar e brincar com ele. Tint fez um vídeo curto até, postando na sua Story do Instagram. Depois, com o coração praticamente partido pela ideia de que jamais poderiam comprá-lo, as garotas se ergueram e entraram na loja.
Distraíram-se escolhendo petiscos, Zechs mostrou um brinquedinho para duas, perguntando-se se Allegra iria gostar.
_Ué…? –Tint olhou por cima do ombro então. –Cadê o Danny e a Ane?
Relena franziu a sobrancelha:
_Eu podia jurar que eles estavam atrás de nós! Você não viu eles, Zechs?
_Não. Também pensei que estavam com a gente…
_Bem que estranhei a Ane não fazer nenhum escândalo com os filhotinhos… o que será que aconteceu? Nos perderam? –e encafifada, Tint puxou o celular para telefonar para Daniil.
Relena se afastou para procurá-los. Talvez eles somente estivessem em outro corredor da loja. Até o pet shop estava cheio, os filhotinhos fantasiados realmente chamaram a atenção esperada. Sorriu sozinha, lembrando-se do husky, e sem perceber, já tinha investigado a loja toda e chegado à porta de saída.
Com um suspiro, levou as mãos à cintura, a pose de bailarina surgindo sem esforço. Estranho… onde teriam ido parar os dois? Quando ia voltar até Tint, com nada além de confusão para oferecer, divisou um vulto na multidão que seu coração reconheceria mesmo se ela estivesse de olhos fechados. Coisa de apaixonado: ela sabia pelo jeito que o peito disparava, até o ambiente ficava diferente quando ele estava presente.
Esgueirou-se um pouco para fora e ficou espiando, rindo baixinho, roubando relances do que ele iria fazer, gingando com a cabeça para poder vê-lo entre as pessoas que não paravam no lugar. Distinguiu bem ele parado diante dos labradores, assistindo-os com atenção, uma feição que ela julgava relaxada. Depois, perdeu-o um segundo, até ele reaparecer alguns passos a distância, como se esboçasse partir.
Relena deu um passo para ir atrás dele, mas ele deu meia-volta, mudando de ideia, e ela se escondeu atrás de um homem, por pouco não sendo descoberta. Suspirou de alívio e tomou a posição anterior, de onde teve uma visão privilegiada de Heero agachado diante do pequeno husky.
Aos poucos ela chegou mais perto do rapaz, a ponto de parar ao lado dele. Sabia que ele não ia estranhar pelo grande número de pessoas em redor. De fato, ele estava distraído demais com o filhote para notá-la. Ela não sabia o que assistia – o filhote pedindo a atenção de Heero, colocando as patinhas no vidro, ou o próprio Heero, que exibia discreta meiguice naquele sorriso que o rejuvenescia uns quinze anos. Ela sorria, contagiada, tentada a agachar-se com ele. Entretanto, flagrar Heero em um momento tão espontâneo assim era uma oportunidade rara demais para desperdiçar.
Sempre enxergou a bondade e o carinho que existia nele, mas vê-lo demonstrar toda aquela doçura só fazia ela se apaixonar ainda mais por ele. Maravilhada, comovida, dava-se conte de como é diferente quando vemos alguém conhecido interagindo com outros, alheio a nossa presença. Neste instante é que provamos se o que sabemos da pessoa é verdade. Ela não se desapontava e, pela segunda vez naquele dia, que conhecia um lado novo dele, um que ela somente tinha imaginado.
Heero admirou o cachorrinho por quase cinco minutos. Ela viu quando ele hesitou, ficando sério e preocupado de repente. Analítico como era, com certeza estava considerando os prós e contras de levar o animal para casa. Pela forma que ele baixou a cabeça e tocou o vidro, Relena soube a decisão dele. Sorria, transbordando de amor e desvelo. Seu coração batia, aquecido, sem qualquer peso ou preocupação.
Ele parou a seu lado quando ergueu do chão e nem percebeu. Ela riu então, olhando para o rosto dele, divertindo-se demais com sua espionagem.
Heero empertigou-se por um segundo, intrigado com aquela deliciosa risada, e virando-se para a direita encontrou o sorriso luminoso de Relena vigiando-o, na mais deliciosa das coincidências.
Apesar de ele ter desconfiado inexplicavelmente que a acharia ali, surpreendeu-se mesmo assim. Assistiu ela respirar fundo em expectativa, sem desmanchar o sorriso, corada de felicidade.
_Relena… –ele pronunciou baixinho, como se nem todo mundo fosse digno de ouvir aquele nome. Os olhos sorriam com muita força, e toda a postura dele relaxou ao passo que um sorriso leve de canto se abriu nos lábios dele.
Agora, aquele sorriso de encanto ela conhecia bem: era tímido e intenso ao mesmo tempo e falava de muita gratidão e admiração.
_Boa-noite, meu amor. –e solfejando assim, baixinho também, tomou outro fôlego e ergueu os braços para enlaçá-lo pelo pescoço.
Em questão de segundos, Heero tinha abraçado a cintura dela, cobrindo os lábios da moça com um beijo macio e delicioso, suficiente para um cumprimento, mas de nada servindo para saciá-los.
_Que surpresa te ver… –encerraram o beijo e Relena soltou-o lentamente.
_Boa? –a voz soou quase brincalhona, embora as feições seguissem graves.
_Maravilhosa! Pode fazer sempre! –riu e, tomando a mão dele com a sua, o levou para o interior do pet shop. –Estava esperando você ligar…
_Te mandei uma mensagem…
_Sério? Não vi, desculpa…
_Não era nada demais. –sorriu, tranquilo, lembrando-se do elogio que ela havia feito. –Já ia te ligar… Vim aqui só comer alguma coisa e estava indo embora, mas acabei me distraindo aqui. –ele foi explicando, de início, muito sério, até admitir que fora seduzido pela fofura dos cãezinhos.
Ela riu, animada:
_Ai, Heero estou apaixonada por aquele husky… –e confessou, com voz chorosa, mas empolgada.
Não tinha como ele censurá-la. Apenas estalou os lábios e manteve silêncio. Ao mesmo tempo, ela puxou o celular do bolso da blusa e leu a mensagem, enquanto paravam ao lado de Tint, na fila do caixa.
_Pensei que agora tinha perdido você também! O que está acontecendo hoje? –ela bufou, ajeitando os pacotes de ração no braço. Heero, notando a dificuldade dela em equilibrar os pacotes e as latinhas, tirou tudo da mão dela. –Ah, meu herói! –mostrou-se agradecida e jocosa, só então percebendo o rapaz ali. –Como foi que chegou aqui, tenente? –por isso, a bailarina alardeou, o timbre suspeitoso de um detetive.
_Fui procurar a Ane e o Danny e acabei achando o Heero, acredita? –Relena explicou à toa, falando lentamente porque dividia sua atenção com o que lia no WhatsApp.
_Vocês não combinaram?
_Não. –Heero respondeu, mais definitivo impossível.
_Gente, quer prova maior que o destino está a favor de vocês?
_Que bobagem, Tint… –Relena riu.
_Bobagem nada!
_E cadê o Zechs?
_Ah, foi buscar mais um saco de areia para mim… Resolvi aproveitar, precisa ver como os preços estão ótimos.
_Isso mesmo, se vai ficar hospedado em casa, tem que trabalhar.
_E o serviço de Uber não basta? –Zechs chegou a tempo de ouvir a irmã e defender-se.
Relena deliberou, erguendo os olhos do celular, mas só moveu a cabeça de uma forma dúbia.
_Que nada, eu estou cercada de cavalheiros. Posso me acostumar com isso… –Tint fez menção a como de repente tanto Heero e Zechs estavam a seu serviço.
Enfim, todos riram, menos Heero, que apesar de deixar um sorrisinho surgir, baixou as sobrancelhas, preocupado com o que ela falava.
_É que fomos muito bem criados. –Zechs explicou, por algum motivo cheio de si. –Não é, Heero? –e incluiu o rapaz como forma de cumprimentá-lo.
Heero mesurou com a cabeça. Então os dois colocaram as compras de Tint no balcão do caixa e se afastaram.
_Ué, mas não vão pagar para mim também? Que cavalheirismo é esse?
Se alguém a ouviu falando, fingiu que não. Ela revirou os olhos, mas depois riu, conversando com a atendente, pedindo um segundo pra achar a carteira na bolsa lotada.
Daniil chegou no mesmo instante, parecendo desorientado:
_Me perdoem a confusão. –olhou para baixo, franzindo o sobrolho, dando uma impressão vaga de frustração consigo próprio. –Quando olhei para trás, me vi sozinho. Nem percebi que tinha passado direto pelo pet shop. Aproveitei para ir à farmácia, então. –e redimiu-se, explicando, sóbrio e comiserado na medida certa. Terminou seu depoimento exibindo a sacola com a pomada para as bolhas e as cápsulas de vitamina e cafeína.
_Sem problemas, Danny. –Relena assegurou, meio emocionada com o jeito vexado dele. Ele cumprimentou Heero, mas não estranhou a presença do bombeiro, respirando fundo e tentando iniciar algum assunto:
_Relena disse que hoje você fez um salvamento bastante arriscado. Meus parabéns.
Heero ergueu as sobrancelhas, feito nem se lembrasse mais do que houvera aquela tarde.
_Não foi realmente uma ocorrência do dia-a-dia. A equipe trabalhou muito bem.
Relena sorriu, reparando em como ele falava. Era sempre a equipe. Ele nunca nem pensava em assumir qualquer crédito ou aceitar qualquer louro, como se não visse motivos para sua patente segregá-lo dos demais. Era um exemplo de postura, uma lição para ela como primeira bailarina. Mesmo que tivesse seu próprio camarim e status de estrela, não seria nada, jamais conseguiria levar o espetáculo sozinha, sem sua equipe.
Acariciando o cabelo que caía sobre a orelha dele, ela encostou-se ao seu braço, carente do calor que emitia. O perfume dele, de shampoo e desodorante, a fazia suspirar sonhadora, intoxicada. Eram essas pequenas coisas que mais conquistavam, nesses detalhes tão simples, mas indispensáveis, encontrava o verdadeiro tempero do amor.
Ele continuou conversando com Daniil, respondendo-o sobre quais ocorrências eram mais comuns, explicando algumas especificidades com certo acanhamento de quem não gosta de estar no foco do assunto. Relena sabia como a atenção indivisa de Daniil conseguia ser opressora às vezes, mas era um grande sinal de respeito da parte do rapaz.
_Cheguei! –Ane surgiu então, com jeito de cansada. Parou com as mãos na cintura e bufou, para só então perceber quem estava ali, o olhar acendendo rápido. –Heero! –e só por um instante pareceu que ia pular em cima dele. Relena riu, soltando-o:
_E onde a mocinha foi parar? –e cobrou, severa, mas traquina.
_Eu fui no banheiro. –e fez-se triste com a repreensão, causando risadas. –A fila estava bem grandinha… Aí acabei parando na vitrine para brincar com os filhotinhos… Ai, você viu, Heero, sua versão canina ali? –e fez aquela associação também, a voz empolgada em um surto de fofura.
Heero franziu a testa, sem aceitar muito bem o comentário.
_Que gracinha aquele husky… você era fofo assim de bebê também? –e ela ergueu a mão para apertar uma bochecha dele, mas Heero desviou, empertigado, fazendo-a gargalhar. Usou uma abordagem mais descolada então e passou um braço pelo ombro dele, pendurando-se no pescoço de Heero, obrigando-o a se encurvar um pouco:
_É assim que se faz, tenente! –e, atacando-o, bagunçou os cabelos dele sem piedade, moleca.
_Ane! –ele rosnou, escapando dela, atordoado. Levou as mãos à cabeça imediatamente, tentando resolver o que ela tinha aprontado.
Ela ria a riso solto:
_Era um recado do papai…
_Hã? Mas Ane! Você já foi contar para ele? –ele rosnou, de repente mais sem graça do que irritado.
_Claro! Você mandou muito bem no resgate de hoje… Não pode esconder essas coisas do pai não!
Ele bufou, impaciente com ela, mas enxergava no brilho dos olhos verdes e do sorriso felino todo o amor e a admiração que ela guardava só para ele. Relena ria da cena, ao fundo, comunicando sua alegria a Zechs e Daniil com olhares divertidos, e então, enfim Tint chegou com suas compras.
_Agora vamos montar a logística! –Ane anunciou, correndo os olhos pelos três motoristas. Heero franziu a testa, disfarçando uma risada. –Lena, você vai embora com o Heero, a Tint com o Zechs e eu com o Danny.
_Eu vou? –Relena riu, achando ótimo o modo comandante da amiga.
_Sim. Me passa os documentos, o Danny me deixa no conservatório, pego sua motinha e de manhã te devolvo. O capacete está no carro do Zechs, não é?
Relena assentiu, tranquila, completamente de acordo com a ideia, muito ao contrário de Tint:
_Eu estou é achando tudo isso muito suspeito… –ela interferiu, os olhos espremidos como se houvesse algo a ser investigado.
Ane soltou o pescoço de Heero, mas enlaçou o dela:
_Por quê? –e exagerou em sua interpretação de indignada. Relena assistia tudo com interesse alegre, enganchada em Heero, com Zechs ao seu lado. Daniil vinha logo atrás. Moviam-se todos em direção do estacionamento já.
_Primeiro você e o Danny somem ao mesmo tempo e agora ele quem vai te levar embora? –e provocou.
_E o que que tem? –Ane fez pouco caso, e foi gesticulando de modo engraçado, nem Tint resistiu em rir. –Só estou tentando roubar seu namorado, não há nada para ver aqui…
_Não, tudo bem… tudo bem… Deixa estar! –Tint fez drama, soltando-se de Akane. –Traída pela própria amiga! –e enganchou em Zechs a seguir. –Vamos embora, Milliardo, isso foi muito para meu coração aguentar. –a Televisa com certeza a contrataria depois de tal interpretação.
_Mas e o Danny?! –Relena perdeu um pouco do controle da voz, estupefata e, ao mesmo tempo, achando engraçadíssima aquela encenação, querendo participar. –Você não se importa que ele tenha te traído?
Tint só sacudiu a cabeça, como que arrasada, e se encostou ao peito de Zechs, tirando uma óbvia casquinha dele. O teatro durou um instantinho só, ele parado como um pilar, frio e inexpressivo, ao passo que ela parecia a Allegra, esfregando o rosto na camisa dele. Depois o largou, ela e Akane gargalhando como duas perfeitas malucas.
_Daniil, você está vendo a Tint? –Relena olhou os lados, procurando o amigo.
Ele vinha tranquilo e aparentemente alheio às travessuras da namorada. Verificava qualquer coisa no celular, e ergueu os olhos para Relena com um sorriso suave, as luzes fracas e sinistras do estacionamento subterrâneo aumentando ainda mais a melancolia de príncipe dos corvos que o vestia.
E sem fazer muito caso, ele só indagou:
_O que houve? –de fato, não tinha ouvido nem Relena falar com ele.
_Será que não entende, Lena? –Tint cochichou, alto demais para ser realmente um sussurro. –Tenho que aproveitar. Depois que a Suicinha chegar, acabou a graça.
_Quer dizer que está com medo da Noin? –Relena gargalhou, atacando. Zechs se abstinha de participar, uma expressão jocosa no rosto dourado, curioso com a resposta da bailarina.
_Claro! Já viu ela remando? Deve ser forte pra caramba! Eu sei comprar minhas brigas.
Todos riram.
_Não parece, não… –foi a vez de Akane alfinetar.
Tint mostrou a língua para ela, mas depois voltaram a rir juntas. Esperando Daniil, chegar perto de si, Tint parou, abraçou ele pelo pescoço e o beijou no rosto, fazendo ele quase derrubar o telefone no chão.
_Só o Daniil mesmo pra me aturar… –e comentou, humilde e meiga, em drástica mudança de atitude, deitando a cabeça no ombro dele. Agora não era mais encenação, o corpo dela se comportava diferente quando junto ao dele.
Com espontaneidade, ele sorriu e alisou as costas dela. A quietude profunda nele de algum modo servia para contrabalancear os arroubos de loucura da moça. Ele era o ruído branco para tranquilizá-la e concentrá-la.
Pararam ali para Ane pegar as bolsas e o capacete no carro de Zechs, bem como se despedirem, porque cada um acabou estacionando em um lugar. Parecia que não queriam se largar. Era um grupo interessante de assistir, mesmo incompleto. As meninas não paravam de conversar e os rapazes, mesmo que falando pouco, sentiam-se entrosados também, e se não tomavam parte do assunto, riam dele, infectados da vivacidade delas.
Ao passo que Tint e Zechs ficaram ali, as outras duas duplas seguiram caminhos opostos.
Ninguém nunca questionava os arranjos para Heero e Relena ficarem juntos, a turma toda agente pelo romance dos dois.
Ela arrumou a alça da bolsa no ombro e segurou a mão dele:
_Desculpa cancelar nosso treino hoje. –e começou a falar, à toa, lançando para ele um olhar pensativo.
Heero voltou-se para ela e sorriu com um movimento sutil, porém que ela aprendera a captar:
_Está tudo bem. Conseguiu dormir? –atencioso, quis saber.
_Sim, deitamos logo que chegamos. Tint e eu só fomos para o conservatório de manhã porque tínhamos reunião e prática livre. Aí, a gente cochilou escondidas no estúdio. –riu, inocentemente traquina, e suspirou. –Deu para dormir umas duas horas, mas não é a mesma coisa…
_E o que mais fez hoje?
_Ensaiamos, Ned pegou pesado, como sempre. Mas o grupo está tão comprometido, estou realmente feliz de poder participar desta montagem.
_Isso é muito bom. Com certeza vão fazer uma apresentação fantástica.
Ela sorriu, contente com a torcida dele, prosseguindo:
_Depois, fui com a Ane ver Duo no hospital.
_Quero ver se passo lá amanhã. Hoje foi especialmente agitado…
_Nem diga! –e se soltando dele, foi para sua frente, andando de ré, cutucando-o na barriga. –Foi assustador ver você descendo pelo prédio, sabia? Assustador e incrível! Quando te vejo, sinto que posso fazer tudo!
Ele riu, segurando-a pelos ombros, os dois sempre caminhando em compasso perfeito:
_Como assim?
_A sua coragem me contagia. –recitou como se o afrontasse, baixo como se segredasse.
_Lena… –ele resmungou, sem jeito, e disfarçou o quanto a meiguice dela o encantava.
O sorriso dela ficou mais brilhante, infantil. Estudou o rosto dele. A luz vinda do teto baixo dava destaque aos ossos fortes dos zigomas e ao nariz fino. Os olhos glaciais se perdiam na sombra entre os fios da franja, misteriosos, mas sorridentes.
A façanha dele daquela tarde era apenas uma entre tantas que ela nem conhecia. E mesmo que ele agisse com pouco caso quanto a elas, ele não deixava de ser admirável. A coragem que usava motivava Relena a ser mais forte ao ponto de convencer-se de que não havia nada que não pudesse enfrentar. Nunca havia sentido algo igual antes.
Chegaram ao Elantra, parado junto a uma das largas colunas de sustentação do prédio.
_Recebi um convite para fazer uma campanha publicitária hoje, no almoço. –ela começou, respirando fundo, se deixando empolgar.
_Verdade? Do quê? Shampoo? –provocou, brincando com os cabelos soltos dela, ao mesmo tempo em que beijava o alto de sua cabeça.
_Não…
Encostaram-se abraçados ao carro.
_Que pena, seria um grande sucesso… –ronronando assim, prendeu as mãos fortes aos quadris dela.
_Vamos com calma… quem sabe mais para frente? –ela riu, trocando com ele um longo olhar apaixonado. –É para a Argos, vão lançar uma linha de artigos para balé.
Heero não era do tipo de fazer muita festa, porém com um franzido de sobrancelhas acabou entregando sua admiração à notícia:
_E como te pareceu a oferta? Gostou dos termos?
_Confesso que gostei bastante da proposta. É algo que nunca fiz… Vou dar uma olhada nas fotos dos produtos ainda, mas antes de responder, queria falar com você, saber o que acha.
Aquela atitude de Relena terminou de arrancar a expressão de surpresa dele. Só podia pensar em uma resposta:
_Não vejo nenhum problema. Vai ser ótimo para sua carreira, mas só aceite se sentir confortável com o trabalho.
Ela assentiu lentamente, o sorriso por fazer, um suspiro longo oscilando o peito. A lâmpada acima deles tremeluziu com um chiado, tornando o silêncio que caíra ali palpável de repente. Com um suspiro, ela se achegou dele mais, encolhendo-se contra Heero.
_Aquilo que a Tint disse… –ela sorriu hesitante, só para si mesma, a bochecha esmagada no tecido macio da camiseta pólo.
_O quê? –com um movimento preciso tanto em velocidade quanto em pressão, ele roçou os dedos pelas costas dela, subindo-os e descendo-os.
_O destino. –declarou, procurando olhá-lo nos olhos. –Você acredita em destino, Heero?
Ele prendeu o fito nela, mas aos poucos ela viu esse se desmanchar, feito ele meditasse no que ela indagara.
_Não. –usou aquela palavra que não deixava espaço para dúvida. Em sua área de trabalho, não podia. Não podia acreditar que tudo o que as pessoas sofriam estava predestinado. Presenciara tantos acidentes que em maioria poderiam ter sido evitados. Uma escolha, um deslize, uma desatenção – sempre havia uma causa, consciente ou não. Era o que escrevia nos relatórios e era no que preferia acreditar, porque assim sentia ter ainda controle sobre si.
Relena não tinha mais o que falar mais após tanta decisão. Conformou-se então, apreciando a declaração completa dele em uma palavra, esmiuçando tudo que ela poderia representar. Era poderosa, garantindo mais a confiança que Heero infundia nela. E de pouco em pouco, sua mente se perdia, se rendia a algo mais importante. Cada vez que a mão dele subia em suas costas, ela tomava fôlego, sua respiração sendo regida por aquela ação, a calmaria espalhando-se para todo seu corpo.
Era exatamente daquilo que precisava.
Para sempre.
Ela semicerrou os olhos e sorriu. A lâmpada piscava, contribuindo para a atmosfera onírica, o ar parado em redor, o calor entre os dois aumentando gradualmente. Ele a segurou com mais firmeza junto a si e colou os lábios aos delas, que se entreabriam receptíveis, instintivos, convidativos. Fechando os punhos, ela amarrotou a camisa dele, querendo-o perto, mais perto, nunca o suficiente.
A lentidão do beijo criava pequenos ruídos molhados e gemidos abafados, o oxigênio se tornando dispensável, os dois funcionando à base da eletricidade gerada pelo delicioso contato de pele e de alma. O sangue fervia correndo nas veias, carregando uma energia que parecia suficiente para passarem a noite inteira dedicados àquela carícia.
Relena enquadrou Heero com seus olhos extáticos, sentindo o esforço dele de respirar, o hálito dele acariciando seu pescoço, a mão dele na sua nuca, a outra na sua coxa. Sorrindo para ela, assombrado, deslumbrado, satisfeito, Heero soltou-a suavemente e beijou sua testa demoradamente.
Naquele instante, em que a noção do real se perdia, ela entendeu. O destino podia ser um conceito romântico, embelezando uma coincidência, dramatizando uma desgraça. Mas quem dava crédito de tudo a ele perdia o verdadeiro prazer da vida.
Bom-dia!
Aqui é a autora.
Desculpe a demora. Antes tarde do que mais tarde, porque nunca não é uma opção. ;)
Mais um capítulo onde o tudo e o nada acontece… talvez isso seja algo que aprendi com a Rebecca Sugar? E com o Moccia, quem sabe?
PdF é meu lugar feliz, onde tudo é cor-de-rosa. ; )
Não precisam levar muito à sério. S2
E também, não estranhe, quem acompanha minhas obras, porque o destino é um tema que eu amo abordar. Estou sempre aqui e ali falando dele. ^^' Meu vício de escritora e minha convicção.
Espero que continuem gostando.
Obrigada demais a quem acompanha, a quem comenta, a quem me cede um pedacinho do seu tempo.
A Jessy, Lica e Suss que me ajudaram com esse capítulo, com uma palavra de apoio, com uma betagem… obrigada do fundo do coração!
Revisei, mas pode ser que ainda encontre algum deslize, peço perdão por esse.
Deixem seus comentários, por favor.
Visitem o Tumblr da fic apartmenti95. tumblr. com
Beijos e abraços!
14.05.2018
