No último capítulo…

Na volta do jantar no shopping, Tint vai com Zechs e, desconfiada, pede que ele siga Akane e Daniil no outro carro. Ela tem certeza de que eles estão preparando uma surpresa para o seu aniversário de namoro. Entretanto, não vê nada de mais. Relena conversa com Heero sobre o endosso da Argus e ele a apoia aceitar. A motivação dele a ajuda a ficar mais segura, apesar de ela ainda estar tensa sobre o Lohan. Ao chegar no apartamento, já avisa Zechs sobre sua decisão. Ela pesquisa algumas fotos do Lohan no instagram e relembra um pouco do relacionamento dos dois. De manhã, Akane vem ao apartamento i95 para dar café da manhã aos amigos e irem juntos para o conservatório, Conta sobre seu projeto com o grupo de coral do conservatório e descobre sobre o projeto de Relena. Relena enfim revela todos os detalhes para as amigas, avisando sobre seu companheiro. Tint não fica nada contente em saber de Lohan.

29

A primeira ocorrência daquele dia viera tarde, eram quase onze horas já. A manhã estava bastante chuvosa, os limpadores de para-brisa trabalhavam sem parar em ritmo vigoroso. Sally dirigia, as mãos firmes no volante, as sirenes ligadas demandando uma brecha no trânsito. Os carros saíam pelo acostamento, fazendo o possível para livrar o caminho, muito embora o engarrafamento se agravasse conforme a ambulância se aproximava do acidente.

Chegaram ao local ao mesmo tempo da ambulância 3, cada um de uma direção. Desceram com pressa das viaturas, ambas as duplas indo correndo avaliar a situação. Wu Fei trazia a tábua e a mala, correndo no meio do chuvisco que caía incômodo.

Um carro havia derrapado e cruzado de um sentido para o outro da rodovia, causando uma batida frontal bastante violenta.

— Vamos ficar com o Chevy… –Sally mostrou com a cabeça e a outra dupla se dirigiu prontamente ao pequeno Fiat.

— Tiveram sorte. –Wu Fei resmungou, notando que os utilitários contavam apenas com seus motoristas. O estrago poderia ter sido bem maior.

— Eu e você encaramos a sorte de um jeito bem diferente. –Sally encontrou tempo para provocá-lo, sua voz bondosa, mas zombeteira, aliviava a tensão do momento.

O squad 7 também já estava na cena, livrando as vítimas das ferragens. Foi um trabalho rápido como devia ser. Depois de colocar o colar cervical e checar os sinais do socorrido, um homem de uns 40 anos, os bombeiros ajudaram Wu Fei a colocá-lo na tábua e carregá-lo até a ambulância. Sally já subiu atrás do volante, preparada para arrancar. Tudo naquele serviço exigia pressa e precisão.

Enquanto ela dirigia, Wu Fei fazia o possível para manter o homem vivo. Aparentemente, saíra ileso, mas a pancada com certeza acarretara diversos traumas internos que exigiam atendimento especializado o mais rápido possível.

A polícia já tinha livrado um corredor para que a ambulância passasse até o hospital mais próximo sem contratempos.

A equipe aguardava na entrada de emergência, pronta, de modo que o trabalho de Wu Fei com a vítima terminou assim que encontrou com o plantonista. Nenhum rosto familiar hoje. Com um suspiro áspero, trocou olhares com Sally depois que soltou a maca, estacando.

— Vamos precisar repor alguns materiais. –ela avisou, olhando a prancheta com o formulário do atendimento que precisava terminar de preencher. –Não é aqui que seu amigo está internado?

— Maxwell? Sim. –ele mencionou, vendo-a assentir, e depois confirmou.

— Pode ir lá dar uma olhada nele se quiser. Temos tempo. –enquanto falava, a loira se movia até o balcão da enfermaria, a voz ficando solta no ar.

Wu Fei demorou em se mexer, franzindo a testa, contrariado com a ideia. De qualquer modo, não havia nada melhor a fazer ali. Debruçando no balcão da recepção, conseguiu o número do quarto e, numa caminhada relutante, se dirigiu na direção da seta, as mãos nos bolsos da jaqueta.

No corredor, ouviu uma risada alta de mulher, o que o ajudou a encontrar Duo mais rápido:

— Oras, tenente, onde está sua modéstia?

— Está achando que estou mentindo para a senhorita?

Wu Fei parou no umbral nesse instante, vendo a mulher recolher os apetrechos e apoiar a bandeja em volta do braço:

— Mentir é muito forte, apenas acho que está exagerando um pouco. –ela sorriu, os olhos cintilantes de tanto rir.

Com um suspiro desapontado, Duo estalou os lábios e então notou a nova visita:

— Chang! –Duo comemorou, desistindo de se encostar-se aos travesseiros. –Aí está alguém que pode me defender!

Arqueando uma sobrancelha, Wu Fei criou uma expressão felina de sarcasmo. A enfermeira pareceu curiosa, olhando de um para o outro.

— Não é verdade que eu assinei exclusividade como modelo pro calendário da companhia depois do sucesso do ano passado?

— O quê?

— Esse ano vou sair em todas as páginas! –ignorando a revolta da interrogação, Duo voltou a abordar a moça.

— Tudo pela boa causa, hã? –ela cutucou, risonha, ao passo que Duo assentiu, inocente.

— Até parece que alguém vai querer ficar olhando o ano inteiro para um mané cabeludo!

— Mas esse é justamente meu maior charme! Junto do

meu amiguinho aqui, claro. –e dobrando o braço bom, revelou o bíceps, que apesar do estado de repouso, surgiu orgulhoso com facilidade. Piscou um dos olhos para a enfermeira, que ria, animada com o humor do paciente.

— Virou Sansão agora? Está delirando?

Duo pareceu surdo ao descaso do amigo, fez o bíceps saltar várias vezes, lamentando apenas não poder usar os dois braços.

— Parece que as doses de analgésicos de alguém estão altas demais… –Wu Fei observou então, lançando um olhar ultrajado com que ouvia, cobrando também da enfermeira.

Ela não se abalou, conseguindo comentar com muito custo no meio da crise de riso:

— Se esta não fosse uma receita da doutora Zhang, eu até concordaria. –e, recuperando o fôlego, ela verificou se não tinha esquecido nada. –Bem, já batemos papo demais. Volto mais tarde, Maxwell.

E com um sorriso final, a moça despediu-se, sacudindo a cabeça, alegre.

— Puxa, Wu Fei, você não coopera! Quase convenci ela a me arranjar gelatina extra!

— Todo esse número por isso?

— Quero garantir colágeno suficiente para não ficar com uma cicatriz… como vou posar assim?

— Você é uma perda de tempo.

— É errado ser vaidoso? –Duo tentava, mas era impossível fazer Wu Fei rir. Desse modo, a graça virava descobrir quanto tempo levava para ele explodir.

— Já deviam ter dado alta para você, está ocupando leito de gente que realmente precisa.

— Isso sim que é visita para enfermo. E falando em alta, vai estar de folga amanhã?

— Quem quer saber?

— Ah, então está… –perverso, Duo sorriu, o olhar escorrendo para uma direção qualquer com a conclusão tirada.

Wu Fei rosnou, odiando ter se entregado:

— O que você quer? –exigiu, inconformado.

— Preciso que me leve para casa. Vou sair depois do almoço e não tem ninguém pra me buscar.

— Seu capitão não pode arranjar isso para você?

— Não quero incomodar o pessoal.

— Você não querendo incomodar… que milagre!

Sally apareceu na porta, o sorriso dançando nos lábios e nos olhos, sua chegada atraindo a atenção dos dois:

— Pronto para irmos? –com as duas mãos nos bolsos de trás das calças, avançaram no quarto, olhando de um rapaz para outro.

Duo soltou o peso no travesseiro:

— Oh, olá, Sally!

— E aí, tenente? Como está indo de férias?

— Uma maravilha! Nada como levar um tiro para a gente ganhar estadia 5 estrelas!

Ela caiu na gargalhada. Wu Fei revirou os olhos. Lá ia o amigo de novo começar com as graças dele.

— Os benefícios fazem o emprego valer… –Sally brincou depois, piscando um olho.

Duo riu, concordando, e decidindo que não queria detê-los mais, voltou-se para o amigo, que mostrava um leve emburramento:

— Então, combinado? Eu te mando uma mensagem para confirmar o horário.

— Que seja… –e já foi indo para a porta.

— Até mais, Maxwell! –ela acenou, seguindo o companheiro.

— Fico te devendo! –Duo anunciou, contente, vitorioso.

— O que houve? –e lá fora, Sally quis entender.

— Nada, só vou levar ele para casa amanhã.

— Muito bem. Amigos são para essas coisas.

Sem o que responder, se irritava em não poder rebater que não eram amigos. Estalando os lábios, enfiou as mãos nos bolsos e adiantou os passos, indo comprar um café, enquanto Sally assistia e ria, indo já para a ambulância.

::::::::

— Que chuva! Quem diria? –Akane comemorou, parada na saída do conservatório.

— Andou fazendo muito calor. –Relena observou, sorrindo para a cortina prateada. Estavam mesmo precisando de um refresco.

— Daniil chegou! –Tint avisou, olhando o celular e depois apontando o Civic parando no meio-fio. Era o máximo que ele podia fazer para elas não molharem muito, mesmo que a distância da porta até a rua fosse suficiente para estragar qualquer chapinha.

Com um suspiro, preparando-se para entrar na chuva, as três correram. Akane soltou uma gargalhada empolgada, Relena foi a primeira a chegar, mas Tint pulou em uma poça sem querer:

Blin! –gritou alto, escandalosa, rindo furiosa. Akane riu também, mas foi até ela ver o desastre:

— Vamos, vamos! –estendeu a mão, ajudando-a, as duas rindo como bobas.

A chuva só fazia engrossar, os pingos gelados alvejando-as, impiedosos.

— Oh, čórt! –xingou de novo, voltando a correr até o carro. Daniil abriu a porta para ela, que praticamente mergulhou no interior do automóvel. Ane entrou também, tomando cuidado para na pressa não bater a porta, as duas continuando a rir alucinadas.

Čórt vozʹmí!

Što proisxódit? –sobressaltado, Daniil indagou, olhando bem para ela, procurando algo de errado.

— Pisei numa poça, acredita? –e olhou para os pés encharcados, além de meia perna esquerda.

— Será que não vai dar friagem? –Relena se preocupou, esticando-se para tentar ver o que houvera.

— Quer voltar e trocar de calça? –sempre cuidadoso, Daniil sugeriu.

— Ah não, vamos embora… –ela suspirou, prendendo o cinto. Assim, partiram.

— Ninguém mais quis vir almoçar com a gente?

— Não, todo mundo já tinha carona.

— Eu até procurei a Mitra para ver se ela queria ir, mas ela sumiu… –Akane mencionou, pensativa, olhando pela janela.

— Ela deve ter encontrado alguém para almoçar com ela.

— Onde vamos comer?

— No lugar de sempre.

— Hoje não é dia de sair da dieta.

— E ontem era?

— Ah, não seja implicante, Mascote!

— Ai, o apelido pegou mesmo… –rindo bondosa, Relena comentou, olhando para Akane a seu lado, que deu de ombros:

— Eu não ligo! Nunca percebeu que o mascote é o membro mais mimado de uma casa?

— Oras, sua insolente! –Tint tentou bater nela desde o banco da frente, e Akane encolhia as pernas para o canto, gargalhando. Relena assistia e ria, sem resistir. Daniil apenas dirigia, tranquilo, cantarolando com o rádio, ignorando a bagunça.

— E não vai falar mais sobre o endosso da Argos?

— Sim, quero saber mais. –Daniil buscou o rosto de Relena no retrovisor e incentivou.

— Bem, precisamos aguardar Zechs marcar a reunião. Tem que ser aqui… não estou em condições de viajar.

— Isso quer dizer que vamos ter outra chance de socar o Lohan? –com descaso, ácida, Tint brincou.

Relena careteou, repreensiva com a insistência daquele disparate, mantendo, porém, um brilho bem-humorado no olhar.

— Lohan? O que tem ele? –Daniil ainda não tinha sido informado do detalhe e estranhou.

— Ele vai ser meu colega de trabalho. –Relena revelou, respirando fundo.

O silêncio que seguiu a declaração foi estranho, inoportuno. Tint olhou para Daniil, procurando sua reação, mas ele apenas franziu as sobrancelhas para Relena. Trocaram um olhar intenso que, além dos dois, Akane conseguiu sentir.

Ela estava acompanhando a conversa com interesse, colhendo em cada sugestão tudo o que precisava para entender a questão. Franzindo uma sobrancelha, analisou a loira ao seu lado. Depois, arqueou a outra sobrancelha, alternando-as, procurando a feição de Daniil. O ar estava tomado por desconforto. Não gostava do modo como ambos levantavam barreiras de repente. Pelo visto, seus serviços eram necessários ali. Aproveitando-se da situação, concentrou-se em seu celular, fazendo discretamente algumas pesquisas.

A chuva continuava cadente, nem forte, nem fraca. Conseguiram uma vaga bem perto, de modo que poderiam usar os vários toldos pelo caminho para se manterem secos até o restaurante.

— Olha, é uma loja de armarinhos ali, não é? –Akane apontou uma fachada azul do outro lado da rua. –Estou precisando comprar umas contas pros bordados das camisetas… Vem comigo, Lena?

— Hã? –Relena voltou-se na direção que ela mostrava enfim.

— Rapidinho, quero que me ajude escolher umas cores para eu bordar a sua camiseta do caminhão. –e fez referência a blusa que Relena estava vestindo agora.

— Ah, está bem! –se animou.

— Não vamos demorar, podem ir na frente. –Ane anunciou para Tint e Daniil, já parando na guia, olhando para o lado que vinha o fluxo, procurando sua chance de atravessar.

Daniil sorriu, assentindo, e Tint provocou:

— Se eu fosse você, Lena, não ia não… essa louca! –e berrou a última palavra, peralta.

Akane mostrou a língua e saiu correndo, aproveitando o intervalo no trânsito. Relena deu de ombros e riu, indo atrás.

— Que dia para se esquecer o guarda-chuva! –debaixo da cobertura da loja, a loira suspirou, secando os braços.

— Mas é tão emocionante. Dá uma sensação de liberdade! –e riam.

Encostando-se ao balcão, admiraram as caixas de acrílico contendo uma grande variedade de miçangas, canutilhos, lantejoulas e cristais, agrupadas e separadas por cor. Era de fazer as menininhas interiores dela suspirarem.

— Tão lindo…

— Como não levar tudo?

— É uma tarefa muito árdua! –Akane confessou. –Para sua camiseta, eu acho que poderíamos fazer detalhes dourados.

— Sim, ficaria diferente. –Relena esticou a roupa pela barra e analisou a estampa, linhas pretas sobre o tecido cinza-claro.

— O ouro vai fazer uma referência bonita às folhas da oliveira. –pensando alto, ela assentiu para si mesma, analisando o desenho para tirar todo seu potencial. –Além de ser a sua cara.

Relena sacudiu a cabeça, rindo, suspirando. Não teve tempo de falar mais, pois a atendente apareceu. Akane tirou uma lista da carteira e mostrou para a moça tudo o que precisava.

— Mas quanta coisa! –logo entendeu que não era uma visita casual e coincidente.

— Estou trabalhando em umas camisetas pra usarmos no acampamento, uns collants pra vender e… outra coisinha mais. –e quanto ao item final, piscou um olho, espirituosa.

— Ela ainda não percebeu?

— Com certeza, deve estar desconfiadíssima! Ontem até pediu pro Zechs seguir a gente!

— Não acredito!

Akane caiu na gargalhada ao confirmar, solene, contagiando Relena. Enquanto a moça separava tudo que fora pedido, as duas amigas saíram caminhando pelo pequeno salão. Havia vários displays com fitas, rendas e mostruários de lãs e linhas.

— Tint é terrível… –recuperando o fôlego, Relena comentou, carinhosa.

— Uma amiga de verdade.

— Sim.

— Estou me divertindo muito em preparar tudo para ela.

— Mal posso esperar para hora de ver.

— Vai ser muito especial. –Akane comentou, sorrindo vulpina.

— Não duvido. Não sabe como foi fantástica aquela noite no apartamento do Heero.

— Que noite? –e fez-se confusa, brecando de uma vez. Relena riu e deu uma cotoveladinha nela. –Quer pôr renda na camiseta?

— Não, vai tirar a atenção dos bordados.

Akane assentiu, aprovando a visão da amiga.

— Está entusiasmada com o novo projeto? Quem sabe na próxima estação eles não deixem você participar do processo criativo?

— Se acontecer, você vai ser minha consultora.

— Oh, poderíamos fazer uma parceria com o atelier da mamãe.

— Com certeza! –abrindo um sorriso de quem não tinha considerado o empreendimento, assentiu. Dando uma olhada numa placa exibindo vários patches, quedou absorta um instante antes de voltar a falar. –Fiquei muito surpresa, para falar a verdade. Nunca pensei que chamaria esse tipo de atenção.

— Bem, acho que é uma coisa que vai se tornar cada vez mais frequente. –despretensiosa, Akane observou, sorrindo contente.

— Pelo visto, sim. –abnegada, confirmou, ainda pensativa. Primeiro, o interesse do balé belga, agora, a marca de roupas… Enfim estava recebendo o reconhecimento que plantara com toda sua dedicação e esforço.

— Você é uma bailarina incrível. –Akane declarou então, olhando-a no rosto, dando peso a suas palavras.

Relena sorriu, graciosa, mostrando um recato nobre e sincero com o elogio inesperado:

— Obrigada. –e sabia que era assim porque dançar era o maior amor da sua vida. O seu sentido. A sua verdade.

— Agora… o que preciso saber sobre o Lohan?

A pergunta pegou Relena de surpresa, mesmo que não devesse. Depois ela deu-se conta disso. E não teve dificuldades em responder:

— Bem… nós trabalhamos juntos no conservatório, ele foi principal antes do Dani e…

— Você está falando do Soler. Ele eu conheço. –e tocando-a no ombro, mencionou, cuidadosa. –Mas não é ele que parece irritar todo mundo…

— Ane… isso foi há muito tempo. Não foi nada demais.

— Não estou muito certa. Daniil pareceu bastante preocupado… e Tint, possessa. –e as duas riram.

— Isso porque eles gostam muito de mim. –murmurou, simplista, achando-os exagerados.

— Ah! Ainda bem que sabe! –com tom severo, Akane cobrou. Relena corou, sentindo-se flagrada, percebendo-se arrogante sem intenção. Entretanto, vendo o sorriso gentil e brando da ruiva, sorriu também. –E eu também. Por isso, quero entender.

Sem esboçar reação, Relena recebeu as palavras e acabou desviando o olhar. Akane prosseguiu olhando para ela, latente, como se disposta a ficar o dia todo ali aguardando-a falar.

::::::::

Não ligava muito para sorte ou azar, porém, achava irônico chover justo em seu dia de folga. Durante a maior parte da viagem enfrentou chuviscos esporádicos, mas ao chegar à capital, a chuva o recebeu com toda sua força, uma cortina de contas se derramando sem fim, confrontando seu para-brisa.

Era uma e meia quando chegou ao centro, as nuvens cobriam cada pedacinho do céu. O aguaceiro estava em toda a parte. Seguiu certeiro até seu destino, estacionando próximo ao quartel e desbravando o tempo ruim com a capa de chuva e o enorme guarda-chuva. Entrou pela garagem, sem cerimônias. Alex, Hector e Farid estavam jogando em algum tabuleiro na mesinha perto do auto-escada.

— Boa-tarde, Barton. –o primeiro que notou Trowa ali cumprimentou.

O moço loiro assentiu em cortesia, despindo da capa e pendurando num canto qualquer que sabia não atrapalhar ninguém.

Scrabble? –e puxando a cadeira vazia, sentou com a companhia, admirando intrigado as palavras feitas no tabuleiro.

— Nem vem, cara, estou ganhando! Não é para ajudar ninguém! –Hector chiou.

— Não vou. –monótono, Trowa replicou, embora os olhos felinos analisavam tudo em pequena e larga escala. –Só estou esperando.

— O quê? –Alex estranhou, careteando.

Heero apareceu na porta da garagem, olhando de lá para cá até parar os olhos no perfil do amigo:

— Trowa.

— Heero. –e ergueu-se de pronto, indo até o rapaz, de modo que os dois voltaram para o interior do quartel.

— Já almoçou? –olhando sobre o ombro, Heero conferiu.

— Só tomei um café na estrada… Quem cozinhou hoje?

— Johnny.

— Ah… pensei que ia ter falafel hoje.

— Bem, Murat sempre deixa alguns congelados, se quiser fritar…

— Não, a regra é clara.

Heero riu baixo, sacudindo a cabeça, enchendo um copo de café enquanto Trowa procurava as sobras do almoço para requentar.

— Já foi ver Duo?

— Não, ainda não. Ele mandou uma mensagem hoje, avisando que já conseguiu alguém para buscá-lo depois da alta.

Trowa assentiu, programando o micro-ondas:

— Wu Fei?

— Sim.

— É complicado ter apenas amigos no trabalho…

— Mas no nosso caso, é inevitável.

Trowa teve de concordar. Ele sempre tinha, visto que Heero e ele tinha um modo muito semelhante de pensar, o que acabava tornando a conversa dispensável entre os dois.

Servindo-se também de café, sentou-se na bancada para esperar o prato esfriar um pouco e comer. Heero ligou a TV procurando por notícias da cidade, esperando preparar-se para uma eventual ocorrência.

— Onde estão todos?

— Os irmãos devem estar treinando com Johnny. Murat está lavando roupa. O Pipa acabou de sair para fazer uma visita em uma escola e o Broden foi até a central.

E remexendo o frango, a quinoa e os legumes no prato, Trowa mencionou:

— E quer dizer que a Schbeiker está aqui agora?

— Segundo dia.

— E como os rapazes reagiram?

— Duo vai ter problemas quando voltar.

Trowa riu baixinho:

— Se deram tão bem assim?

— Sabe como o Segundo Turno é.

— A energia deles vai ser útil na Batalha dos Distintivos.

— Contando com isso. Inclusive, coloquei ela para cuidar disso.

— Providencial.

— Não podia perder essa chance. –não era apenas sobre aprender a delegar, mas também sobre administrar o próprio tempo, entender que não precisava dar conta de tudo. Estava chegando a outra fase da vida, com prioridades novas nunca antes pensadas.

— Que horas quer fazer a visita? –o assunto se renovava rápido e bruscamente.

— Pode se ausentar no expediente?

— Quando Schbeiker chegar, fica mais fácil. –Heero cansara da TV e abrira um jornal esquecido na mesa de centro.

— Certo.

Houve silêncio depois disso, profundo, palpável, mas não desconfortável. Depois que terminou de comer, Trowa cuidou da louça usada, ainda prolongando a mudez, concentrado em sua tarefa.

— Parece que o dia está tranquilo… –e quando sentou junto ao amigo, olhou os lados e considerou o sossego do quartel com espanto.

Heero baixou o jornal e olhou feio para ele, retorcendo os lábios.

— O quê? –cobrando, Trowa encarou o amigo de volta, intrigado com o que podia estar errado.

Sem responder, Heero esperou. Mas depois de um minuto inteiro, nada do alarme soar. Soltando um suspiro agastado, assentiu com a cabeça para si mesmo e voltou a ler. Talvez funcionasse diferente para os bombeiros florestais. Trowa, impassível, apenas decidiu checar mensagens no celular.

Ouviram então um baque alto vindo da direção da entrada. Sem precisar pensar, Heero saiu do sofá e se pôs alerta instantaneamente, indo até o hall verificar a porta.

— Senhor bombeiro? –a vozinha irrompeu no dito sossego que Trowa acabara de apontar.

— Estou aqui. –já fazendo a curva e entrando no corredor da recepção, Heero respondeu grave, mas tranquilizador.

A criança permanecia perto da porta, indecisa sobre onde ir ou o que fazer. Sua jaqueta estava encharcada, e segurava apertado o guarda-chuva amarrotado com as duas mãos, formando uma poça no chão.

— O que aconteceu? –Heero se agachou na frente do menino.

— Senhor bombeiro, preciso de ajuda. –ele repetiu, secando o rosto com a manga.

— Você está sozinho? –Trowa, que viera no encalço, foi até a porta e abriu uma fresta, rapidamente abrangendo os arredores.

— Freddo está o dia todo naquela árvore… não consegue descer! –soluçou.

Erguendo as sobrancelhas, Heero trocou um olhar com Trowa e bufou, tranquilizado:

— Certo. Como você se chama?

— Mike.

— Quantos anos você tem, Mike?

— Oito.

— Sua mãe sabe que está aqui?

— Não… mas não tive escolha! Queria chamar vocês, mas ela não deixou. Ela disse que o Freddo ia descer quando quisesse. Mas eu já fiz de tudo, e ele continua lá, olhando para baixo.

— Agiu rápido. Muito corajoso. –Trowa murmurou, sorrindo bondoso, porém o menino seguia aflito, as lágrimas gordas deslizando pelo rosto.

— Então, que tal mostrar onde o Freddo está?

— No meu jardim. Vamos, vou levar vocês!

— Vou buscar as ferramentas. –Heero anunciou, erguendo-se e indo até a garagem.

Os rapazes continuavam jogando ali e assistiram, curiosos, Heero vestir o casaco de aproximação.

— Tenente, está tudo bem? –Farid resolveu perguntar, entre entretido e intrigado.

— Tenho uma ocorrência para atender. –sério, Heero comunicou, indo até o depósito.

— O alarme soou?! –Hector se pôs de pé em um salto, em uma mistura de exibicionismo e solicitude. Todos riram ao passo que Heero explicou:

— Nada disso… é só um garotinho. Volto logo. Estou com o rádio, é só chamarem.

— Está certo. –Alex assentiu.

— Preciso que alguém seque o chão na recepção. –e encerrou sua passagem ali com a instrução.

Munido de um estojo de ferramentas, Heero reapareceu no hall um minuto depois, encontrando o menino sentado nos ombros de Trowa:

— Mesmo sem o caminhão, você vai em grande estilo.

O menino comemorou, ao passo que recebia o guarda-chuva em suas mãos:

— Demais!

Heero sorriu com a cena:

— Prontos?

— Lá vamos nós. –Trowa se ergueu.

Heero abriu e segurou a porta para que Trowa passasse, tomando todo cuidado para Mike não bater a cabeça. O menino abriu o guarda-chuva, que acabava apenas protegendo ele mesmo, mas nem Trowa, nem Heero estavam se importando em molhar. Além do mais, a chuva serenara um pouco, cooperativa com a missão.

— Naquela direção! –Mike apontou à direita ao chegarem à calçada.

— Entendido, chefe. –Trowa confirmou, seguindo sua marcha tranquila, a distância coberta com facilidade, graças aos seus largos passos marciais.

— Freddo tem medo de chuva! Precisamos chegar rápido! –ouvindo um trovão ressoando ao longe, o menino deu um pulinho. –Ele nunca subiu tão alto! Ele gosta de ficar em cima do armário… nunca vi ele em árvore antes. –lá do alto dos ombros de Trowa, o menino ia disparando fatos aleatórios sobre a situação. –Ali, ali! –e bateu as perninhas, o guarda-chuva caindo para trás, descobrindo-o todo, quase indo ao chão.

Habilmente, Trowa agachou e desceu o menino, que disparou até uma mureta de tijolos. Nenhum dos dois correu, seguindo o percurso com os olhos. Logo Mike estacou debaixo de uma árvore e ergueu a vista.

— Freddo! –clamou, agitando-se, verificando todos os galhos. –Freddo!

Juntando-se ao menino, os bombeiros olharam para cima, pacientes. A árvore criava um telhado que os punha a salvo da chuva, mas o dia nublado e a sombra da folhagem dificultavam a visão do animal.

— Que cor ele é?

— Cinza, rajado, como uma tartaruga! –afobado, Mike detalhou, indo de lá para cá, tentando distinguir algum movimento ou vulto. –Freddo! –chamou, e como este não respondia, começou a soluçar.

Avaliando a altura da planta e a estrutura dos galhos, Heero tentou refazer o caminho que o animal usou para escalar. Usou suas conclusões para otimizar as buscas, mas a pelagem de Freddo era uma camuflagem perfeita para o cenário.

— Não chore, Mike. –Trowa pediu. –Vamos escutar.

O menino fez um bico, franzindo o rosto, fungando, mas segurou o choro com bravura. Foram precisos poucos segundos para detectarem um miado choroso, ecoando a tristeza do menino. Aguardaram o miado se repetir algumas vezes, o tamborilar da chuva abafando um pouco o som.

Usando o zoom da câmera do celular, enfim Trowa achou um borrão com olhinhos e orelhas murchas misturando a base da copa:

— Ali. –e, como se soubesse notado, Freddo miou de novo, erguendo a cabeça.

— Ele foi mais alto! –Mike colocou as mãos na cabeça e girou em direção de Heero. –Por favor, senhor bombeiro! Salve meu gatinho!

— Qual o plano, senhor? –com ar levemente jocoso, Heero pediu, e olhou no relógio a hora que a operação começou. Além da patente superior, Trowa era mais praticado nesse tipo de manobra.

— Me dê um pé, eu vou buscá-lo. –sem pestanejar, explicou, olhando e recalculando os movimentos que precisava usar com muita facilidade.

Encolhendo-se um pouco, Heero juntou as mãos em concha e esticou os braços na frente do corpo. Ágil como um leopardo, suave e silencioso, Trowa saiu do chão, pisando no degrau que Heero criara e prendeu-se nas fissuras do tronco robusto. Logo alcançou um galho, que lhe ofereceu mais apoio, e num piscar já estava sentando na copa e esticando-se para agarrar Freddo.

Miando, o gatinho seguiu estático. Uma trovoada preencheu o ar, vinda de longe, e o gato estremeceu, mas Trowa não se temeu ser atacado, segurando firme e trazendo a bolinha de pelos molhados para junto de seu peito.

Por mais fácil que fosse a descida, era também mais perigosa. Em outra situação teriam usado um sistema de cordas, que garantiria uma descida mais suave, porém, Trowa tinha habilidades especiais que justamente o direcionaram a atuar nas selvas da região. Como um acrobata, apoiava o gato junto a si e encaixava os pés e mão nos lugares certos em tamanha velocidade e destreza, que não foi possível ver o momento em que ele aterrissara.

— Freddo! –Mike avançou na mascote completamente protegido por uma das mãos do rapaz, e voltou a chorar. –Obrigado, seu bombeiro! Obrigado! –e tomando Freddo em suas mãozinhas ansiosas, abraçou o gato, colando seus rostos. –Nunca mais, nunca mais faça isso Freddo!

Trowa se achegou, reparando no estado de Freddo. O bichano não se mexia muito, mas pareceu suspirar de alívio quando conseguiu se aninhar no colo do menino. Logo sairia do choque. Acariciando os cabelos de Mike, sorriu tranquilo, ao mesmo tempo em que Heero determinou:

— Vamos, é melhor entrarem. Freddo precisa se aquecer.

O menino desviou os olhos que derramava no gatinho para dar atenção a Heero. Havia um brilho intenso de gratidão ali, um contentamento tão inocente que chegava a divertir. Reagindo com um pequeno sorriso, Heero assistiu o menino por mais um instantinho, admirado com o poder que possuía. Um gesto tão pequeno significava tanto, ele sempre se esquecia disso.

— Posso falar com sua mãe? –mirando a entrada da casa, tentou captar algum movimento.

— Sim! Vem! –e desembestou de novo a correr, dando a volta na casa para acessar seu interior pela cozinha. –Mamãe! –e mesmo à distância foi possível ouvir o chamado empolgado.

Batendo as mãos nas pernas das calças, Trowa esforçou-se em ficar mais apresentável e seguiu Heero que já ia na direção sugerida pelo menino. Encontraram a mulher na varanda, aos fundos, secando as mãos no avental. Mike puxava-a pela barra da saia:

— Eles vieram!

— Quem? –e perdida na agitação do filho, demorou-se em notar as presenças. –Oh! –e empertigou-se, constrangida por um segundo, estacando.

— Boa-tarde, senhora. Somos bombeiros do quartel 110 aqui na quadra de baixo. –sóbrio, mas educado, Heero explicou.

— Mike! Você usou o telefone sem minha permissão? –cingindo a cintura com as mãos, ralhou.

— Não, mamãe, eu fui buscar eles! –sem se impressionar, Mike rebateu com a verdade, doce e ingênuo.

— Mike! Saiu sozinho!? Filho!

— Era uma emergência, mamãe! Eles salvaram meu gatinho! –sacudindo os braços, o menino deu um pulinho no lugar, Freddo começando a escorrer do agarre.

— Mike foi muito corajoso. Mas ele sabe que não é bom sair sozinho, sem avisar, ainda mais nesse tempo, não é mesmo? –Trowa entrou na conversa então, fitando o rapazinho nos olhos, insinuando a bronca.

— Sim, não vou fazer mais isso. Eu só fiquei muito preocupado com o Freddo. –e voltou a acomodar o gato no seu colo, pensativo, resgatando um pouco de seu estado aflito.

— Ah, Mike… dando trabalho para os senhores… –ela seguiu sem graça, um pouco mais tranquila.

— Trabalho nenhum, senhora. –Trowa confortou.

— Está tudo bem. –Heero reforçou, deixando o sorriso aparecer esboçado em sua feição.

— Obrigada. –ela suspirou, deixando o fito cair no menino que alisava a cabeça de Freddo.

— Cuide bem de Freddo, certo, Mike? –a moda de despedida, Trowa pediu.

— Pode deixar!

— Até mais. –mesurando com a cabeça, Heero encerrou a conversa. Apertou o braço do menino com carinho, de leve, e então os dois partiram.

— Tchau! –Mike respondeu. –Foi incrível, mamãe! O bombeiro subiu tão rápido! –e mal os dois deram as costas, depois de últimos acenos, Mike prosseguiu com seus comentários impressionados para a mãe.

— Verdade? –foi possível ouvi-la responder, a voz já abafada pela porta da cozinha.

— Bem, missão cumprida. –Trowa observou, relanceando a árvore ao passarem por ela, retornando a calçada.

Assentindo, Heero trocou o estojo de ferramentas de mão e viu as horas de novo no relógio de pulso. Gastaram 30 minutos. Suspirou. Deu um toque no rádio:

— QAP, câmbio.

— Na escuta. –e como esperado, Farid estava do outro lado da linha, soando distraído, certamente ainda dedicado ao jogo.

— Situação? –pergunto, um trovão disparou mais próximo dali de repente.

— Tudo em ordem, câmbio.

— Entendido. Estamos chegando. Câmbio desligo.

Lado a lado, iam os dois debaixo da precipitação cada vez mais intensa, ininterrupta. Um carro veio devagar ao longo meio-fio, seguindo-os na mesma velocidade. Baixando o vidro, Hilde pôs a cabeça para fora e mexeu com eles:

— Não sabia que hoje era dia de visita à vizinhança…

Em sincronia, os dois a encararam com suas expressões circunspectas.

— Vocês dois juntos, só podem estar aprontando. –e na ausência de resposta deles, ela prosseguiu, estacionando o carro.

— Tivemos uma ocorrência. –Trowa murmurou. Estava de folga, realmente, mas não resistia a voz do dever.

— E foram assim, a pé? Algo pequeno, imagino?

— Nenhum salvamento é pequeno demais para o 110. –Heero replicou, pensativo. Hilde não se assustou e nem se ofendeu com a aparente censura. Divertida, franziu as sobrancelhas, consciente de que havia algo muito especial por trás daquela observação.

— Hm, tem razão. –e acedeu, confirmando com a cabeça, sorrindo. –Bem, se já terminaram, entrem no carro… vem tempestade aí.


Squad – grupo de bombeiros especializado em resgates técnicos, não somente controle de incêndios.

Blin – russo, um eufemismo para expressar surpresa ou raiva, podendo ser traduzido por "droga, meleca, porcaria".

Čórt e Čórt vozʹmí – russo, interjeição para expressar surpresa ou raiva, podendo ser traduzido por "inferno, demônios".

Što proisxódit? – russo, "o que houve?", o que aconteceu?"

QAP – linguagem de rádio, significa "está na escuta?".


Boa-noite!

Aqui é a autora!

Demorei, mas não falhei! S2 Um capítulo sofrido de escrever, mas imagino que agradável e divertido de ler! As aventuras cotidianas de todos seguem, sei que devem estar muito ansiosos em conhecer o Lohan. Ehehehe Eu confesso que também!

Em breve, ele vem nos brindar com sua beleza, podem acreditar!

Agradeço de coração todos que acompanham, que leem, que tiram um tempinho para minha história, e peço desculpas pela demora.

Quero agradecer a Jessica Yoko pela ajuda e torcida, a Mari, a Lica e a Suss por todo o apoio e a todos vocês que aguardaram pacientemente!

Deixem um comentário para me contar o que acharam, dúvidas, sugestões, reclamações, elogios... o que desejarem! Me alegram muito!

Até breve, porque há muitas emoções ainda a nossa espera!

Beijos e abraços!

02.02.2019