No último capítulo…

O dia é de muita chuva. Depois de um atendimento num acidente de trânsito, Wu Fei vai até o hospital e aproveita para visitar Duo. Na breve conversa que eles têm, fica combinado de Wu Fei ir buscar Duo na sua alta, já que o paramédico vai estar de folga. À tarde, Trowa chega ao quartel 110 para ver Heero e juntos também irem visitar Duo no hospital. Enquanto os dois conversavam um pouco antes da hora de Heero poder sair, recebem a visita de um menininho, Mike, que mora na vizinhança e veio pedir ajuda para salvarem seu gato do alto de uma árvore. Heero e Trowa vão a pé até a casa do garoto e com o profissionalismo de sempre, resolvem o problema, reunindo o dono e seu pet em mais um resgate de sucesso. Na volta, são flagrados por Hilde, que também estava indo para o quartel e dá uma carona para eles. Já, Relena, Tint, Daniil e Akane saem para almoçar debaixo de uma chuva forte. Relena explica mais sobre o trabalho de publicidade que vai fazer com a marca Argos e sobre o fato de ter seu ex-namorado problemático como colega de trabalho. Antes de ir para o restaurante, Akane convida Relena para irem a loja de armarinhos no caminho, tentando ajudar Relena a desabafar um pouco sobre o fato de ter lidar com as cicatrizes que Lohan deixou.

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30

— A chuva apertou. –Relena sabia que estava desconversando, mas sentia-se contente por Akane permitir:

— Não tem problema. Vamos esperar um pouco. É bobagem sairmos agora. –tranquila e prática, comentou, a voz brilhante.

— Sim, logo diminui. –aceitou com facilidade. Instantes depois, recebeu uma mensagem e puxou o celular do bolso para ler. –Deve ser Tint querendo saber se fugimos.

— Ou Daniil preocupado com a chuva.

Riram das duas hipóteses, tão descritivas das personalidades dos amigos. Mas não era nada disso. No ecrã, um aviso de Zechs confirmando a data da reunião com a Argos para aquela quinta-feira.

— Já!? –Akane vibrou, o semblante acendendo, ao passo que elas trocavam olhares.

— Vou precisar conversar com a diretoria do conservatório.

— Acha que haverá algum problema?

— Ele é público, então não sei se há restrições para uso de imagem.

— Sempre é possível combinar um patrocínio. Sapatilhas nunca são demais… –e acotovelou a amiga, sugestiva.

— Que oportunismo é esse? –Relena provocou, simulando uma ofensa.

— Nada disso, isso é empreendedorismo!

Riram juntas, Akane enganchando nela:

— Mas a verdade é que eu acho importante você ter seus projetos pessoais, até para você se tornar mais valiosa. Não acho que o conservatório vai se opor, essa campanha será propaganda para a companhia inteira.

— Sim, tem toda a razão.

Akane assentiu, apreciativa, piscando-lhe um olho:

— Aproveite cada momento ao máximo!

— Não vou deixar nada me atrapalhar!

— Exatamente! Nem o Lohan, certo?

Relena ficou um pouco surpresa com a mudança drástica de rumo. Calou-se então, deixando o olhar se perder na chuva lá fora.

Depois de um segundo observando a amiga, Akane suspirou, pesarosa. Queria ajudar, sentia ser seu dever, mas só conseguiria fazer isso se Relena deixasse. Por isso, foi direta:

— Me conta, Lena, o que houve entre vocês? Falar a respeito pode ser bom.

— É, pode até ser… Mas quando paro para pensar, parece que foi uma tempestade em copo d'água. –e terminou de esmorecer.

— Sabe que sentir isso pode não ser ruim, na verdade.

— Hã?

— Essa pode ser uma prova de que a Relena de hoje tem a clareza certa para entender o que houve com a Relena daquela época.

Rindo, Relena piscou, intrigada com o ponto de vista de Akane:

— Será?

— Só você pode decidir se o que passou vale a pena o mal-estar de agora… Agora é a chance para tirar todas as dúvidas.

— Eu sei que estou pronta para enfrentar ele.

— Então, arrebenta, Lena! E conte comigo! Pareço magrela, mas aqui é puro músculo e ousadia! –flexionando o braço, exibiu os bíceps. –Se precisar, a gente também arrebenta a cara dele juntas!

— Ai não, mais uma pessoa que quer bater no Lohan… –com a mão na testa, Relena encobriu os olhos, encenando uma confusão frustrada.

Akane riu:

— Entendi porque se sai tão bem em Gisele! –gargalhava, cutucando a amiga. –Tem ótimas expressões faciais!

— Deixa disso, tonta! Olha, a chuva diminuiu…

— É nossa chance de almoçar! Vamos! –e desviando de uma poça, Akane saiu correndo para atravessar a rua, puxando Relena pela mão.

— Não! Isso é perigoso, Ane! –mas já era tarde demais, estavam do outro lado. –Não faça mais isso!

Sem nenhuma intenção de obedecer, Akane ria enquanto Relena ajeitava o cabelo e secava com a camiseta os poucos respingos de chuva no rosto.

— Pensei que não iam vir mais! –Tint reclamou, vendo as duas chegarem com os pratos de salada, frango e arroz.

— Agora não dá para falar, só temos vinte e cinco minutos para comer! –Akane sentou e começou a comer, mas levou um chutinho por debaixo da mesa em resposta a sua provocação.

— Conseguiram achar o que precisavam? –alheio a bagunça das meninas, Daniil se interessou.

— Sim, né, Ane? –garfando um pedaço do filé, Relena falou, mas hesitou no meio da resposta. Depois comeu, mastigando delicadamente.

— As camisetas vão ficar maravilhosas! –entre bocados vorazes, Akane assegurou, um arrozinho grudado na bochecha.

— A minha já está pronta? –franzindo a sobrancelha, Tint passou um guardanapo para a ruiva, que confirmou:

— Claro, a primeira que fiz.

— Então, cadê, mulher?

— Para você estragar a surpresa, ostentando o look por aí?

Relena se divertia com a cara de ultraje de Tint. Daniil suspirou:

— Concentrem-se em comer agora, não quero que dancem com indigestão.

— Parece que tem 90 anos falando isso… –apoiando o queixo nas mãos enquanto mastigava um canudo, Tint implicou com o namorado, mas ele só suspirou de novo.

— Zechs mandou uma mensagem, a reunião com a Argos vai ser quinta-feira.

— Jura? Que máximo! Estavam mesmo só esperando você! –o canudo caiu da boca de Tint quando ela comemorou.

— Ele irá com você na reunião?

— Sim, acredito que sim. Espero… –e risonha, franziu a testa.

Daniil sorriu assentindo, parecendo preocupado ainda assim.

— Está tudo bem, sério. Eu não me importo de reencontrar com o Lohan, gente. –sem saber muito bem como se expressar, Relena suspirou, dando um sorriso sem graça, e acabou explicando com um ar solene demais.

Daniil apenas assentiu de novo, mas Tint deitou a cabeça para um lado, careteando.

— Quebra a perna, Lena! Depois conta tudo para a gente! –Akane mostrou seu apoio, esbarrando na amiga a seu lado, sorrindo enorme.

— Hm, que é isso? Qual é desses brilhinhos aí? –estranhando o jeito animado, Tint investigou. –O que você está sabendo que a gente não?

— Nada! Só quero que a Lena lembre que ela é super capaz e que estou torcendo muito por ela, ué! É um momento tão especial… Depois, no fim-de-semana, acho que a gente devia sair para comemorar, inclusive!

— Ah… vendo por esse lado… eu topo! –Tint meditou um segundo e depois desanuviou, mas, ao ver Daniil encarando Ane de um jeito estranho, reclamou, choramingando dessa vez:

— Mas, Dani, baixou o tio cricri de novo?

Com um risinho mal contido, escapando pelo nariz, ele negou com a cabeça:

— Sim, Akane está certa. –e mesurou para a ruivinha, todo cavalheiro. –Nosso foco é você, Lena. Conte conosco para tudo que precisar. –e a impressão que seu olhar dava ao tocá-la era de muito orgulho e carinho.

— Obrigada, pessoal. –comovida, olhou cada um, respirando fundo, finalmente tendo a certeza de que estava pronta.

— Até porque, a gente tem até quinta-feira para planejar nossa operação Beijinho no Ombro! –e, ladina, Tint debruçou sobre a mesa mencionando, conspiratória.

— Mas o que é isso?

— Ué? A gente não é bailarina? Nossa vida é ensaiar! Vamos ensaiar várias tiradas pra jogar no Lohan pra quinta-feira você estar afiada. –apresentou, dando uma piscadinha.

— Yeah… –Akane cruzou os braços, e aprovou, tão ladina quanto a morena.

Relena e Daniil se entreolharam sem saber como reagir, do nada aquelas duas paravam de fazer sentido…

— Bem, terminaram? Hora de voltar. –e desistindo como sempre de tentar acompanhar aquelas malucas, Daniil conferiu, vendo as meninas terminarem seus sucos e chás gelados.

Todos já foram se levantando e se ajeitando, e em poucos instantes estavam de volta no carro. A chuva tinha dado uma brecha, e enquanto caminhavam pela calçada, falando sobre o que esperavam do resto do dia, Relena ia digitando uma mensagem para Heero, contando a novidade sobre a reunião.

Demorou um pouco para ele responder, mas bem menos que o comum:

"Foi rápido. Isso é bom."

Ela sorriu, divertida com o jeito resumido dele. Estava digitando algo para ele quando recebeu outra frase:

"Está empolgada?"

"Sim! É tudo tão novo, tão diferente! Estava mesmo precisando de uma quebra no ritmo."

Releu, assentiu com a cabeça para si mesma e enviou. Era isso, era assim que iria encarar mais aquele momento, como mais um aprendizado para enriquecer seu dia a dia. Não era sobre o passado, muito menos sobre Lohan — era sobre o hoje e sobre ela e tudo o que ela podia ganhar. Estava começando a entender sobre o que Akane estava falando lá na loja.

"Entendo. Quer dizer que eu não fui o bastante." –e enquanto meditava nisso tudo, nem se deu conta de que Heero enviara essa frase meio pensativa, um pouco desapontada, talvez meio irritada.

Curvando uma sobrancelha, riu baixinho. Era possível mesmo que ele estava brincando?

"Tonto!" –mandou de volta, sem graça, o rosto corado e o sorrisinho alegre.

Tint assistiu o comportamento dela pelo retrovisor e estalou a língua, meneando a cabeça:

— Tsc, tsc, tsc… –mas depois sorriu, olhando para Akane divertida.

Akane olhou para a cunhada a seu lado, espiando a tela do WhatsApp e suspirou, encantada, sorrindo também, e logo voltando a falar com Tinta sobre o acampamento.

Relena tinha se esquecido dos outros no carro, sem fazer questão de disfarçar seus sentimentos. Mesmo com ele tão longe de si, Heero a deixava tão à vontade…

"Eu entendo. Sei que não sou uma pessoa assim tão interessante. Uma hora a novidade ia acabar."

"Que alívio, pelo menos eu não vou precisar dizer isso a você, você mesmo percebeu." –provocou de volta, se sentindo tão malvada, mordendo o lábio inferior.

"Pois é. Então, é agora que termina?"

"Hã?" –e, depois dessa ela, ficou realmente incerta se ele brincava mesmo. E agora? E se…

"Não, Heero! Eu estava brincando! Você entendeu, né?" –digitou como uma louca, o corado ficando mais intenso com seu pânico.

"O quê? Está tudo bem? Estava querendo saber se seu horário de almoço acabou."

Ela arregalou os olhos e depois franziu as sobrancelhas. Estalou a língua e fez uma careta contrariada:

"Seu safado! Não apronte comigo assim!" –e conseguia ouvir ele rindo baixinho, disfarçado, lá do outro lado da tela.

"O quê? Eu não fiz nada."

Ela riu, nervosa, mas ainda mais apaixonada. Suspirou fundo, com ênfase, nem percebendo que Daniil estacionou o carro.

"Está tudo certo para irmos a academia hoje?" –e ele prosseguiu, passados alguns segundos.

"Claro! Só que vou para casa antes, tudo bem?"

"Sim, é o tempo de levar Ane para o alojamento. Depois te busco no apartamento."

"Combinado." –e colocou um coração de emoji junto.

"Conversou com o fisio?"

"Não, mas se não der tempo hoje, tudo bem. Faço mais treino de braço."

"Ok. Bom trabalho."

"Obrigada, para você também. Até mais tarde."

"Te amo." –e pra essa frase ela não precisava de esforço pra interpretar. Seus olhos se encheram de luz, assim como seu sorriso, cândido de repente, e suspirou.

Como era bom ter alguém para falar isso para ela. E não qualquer alguém… como era bom ter ele para dizer que a amava! Assustava o tanto que ela o queria bem… e ela amava aquela sensação. Cada dia ele ficava mais importante para si. E cada vez ela se entregava mais para ele e para o amor que representava. Vivia a melhor experiência do mundo:

"Também te amo."

Apagou a tela e escondeu o celular no bolso da calça, caminhando com os amigos para a entrada do conservatório.

— Gente… vem mais chuva por aí.

— Hoje vai o dia inteiro assim.

— Está com jeito.

Ouvia-os comentar e se voltou para as nuvens carregadas uma última vez, o Sol tímido, um halo branco escapando detrás da massa de nuvens.

— Não se preocupem, se continuar chovendo, levo vocês para casa. –Daniil assegurou, envolvendo o ombro de Tint com carinho, mas elegância. Sorridente, ela deixou a cabeça e o corpo pender em direção dele.

— Obrigada, Danny. –Relena respondeu, apreciativa.

— Tira o zóio do meu tesouro… –Tint ronronou, espoleta sem folga, beijando-o no rosto longamente, com meiguice e estalinho e tudo o mais, fazendo Relena rir e Daniil encabular.

— Quero dar uma passada na diretoria, será que dá tempo agora?

— Pode ser. –conferindo seu relógio de pulso, Daniil avaliou, embora não estivesse muito certo.

— Vou avisar que preciso conversar, não espero demorar.

— Vai sim, qualquer coisa a gente enrola o Ned para você. –Tint incentivou, sumindo com Akane em direção do vestiário. Daniil assentiu e seguiu as duas depois.

Subindo para o terceiro andar, rápido, Relena foi até a sala da diretoria, pensando em pedir uma reunião para amanhã cedo, antes do briefing ou até alguns minutinhos hoje depois da aula. Não sabia bem se a Argos já havia entrado em contato com o conservatório, o que era até provável, mas achava melhor fazer também o seu comunicado, assumindo sua própria responsabilidade no projeto e sinalizando sua determinação em fazer acontecer.

A secretária do diretor, enquanto mexia em alguns arquivos na gaveta do armário, a viu chegando e a deteve:

— Relena, veio falar com o diretor? –e exibia um olhar surpreso quanto a presença da bailarina ali.

— Sim, queria dar um recado rápido. –explicou-se, tranquila, esperando permissão.

— Ele não está aqui, não encontrou com ele lá embaixo, no estúdio?

— Ah, não! Vim para cá direto.

— Ele deve estar lá.

— Obrigada! –e rindo, assentiu, dando meia volta e refazendo o caminho.

Cinco minutos depois, já estava na porta do estúdio. O que não entendia era de onde vieram todas aquelas pessoas. Não tinha nem como saber se o diretor estava mesmo ali, o jeito era se embrenhar na confusão que os vários bailarinos do grupo básico e intermediário presentes aprontavam.

Duas garotas espichavam os pescoços para tentar ver alguém, afoitas:

— Não acredito que ele está mesmo aqui!

— Uma chance única, né?

Relena não estava gostando nada do que ouvia:

— Com licença… com licença, meninas… –e foi pedindo, com certa determinação, navegando pelas brechas entre as pessoas.

Seria possível que hoje fosse dia de alguma aula especial e tinha se esquecido completamente?

Ao chegar na mesinha que geralmente Nedved usava para deixar suas anotações e garrafa de água, não encontrou só seu professor, mas o diretor, Treize e também o verdadeiro motivo de tanto furor:

— Ah! Olá, Relena… há quanto tempo, não? –era Lohan quem estava bem ali.

O modo como ele se virou, como se tivesse pressentido a chegada dela, o sorriso que dava, presunçoso, aquele ângulo do queixo de quem dormia em bras bas… Era Lohan mesmo, por mais inesperado e impossível que fosse.

Relena respirou fundo, sem saber que expressão realmente exibia em seu rosto, apesar de senti-lo queimar.

O mais estranho de vê-lo era que não era nada estranho. Sim, era como se ele jamais tivesse saído daquela sala, feito ainda pertencesse ali. Já tinha dominado o lugar, e, notando o modo como todo mundo se espremia para vê-lo, também já tinha intoxicado a atmosfera.

— Soler estava mesmo perguntando de você. –o diretor comentou, sem saber quão infeliz era seu comentário.

Sentindo todos os olhares caindo aos poucos sobre si, ela arranjou um jeito de sorrir em meio a sua perplexidade.

Nada havia mudado.

Será?

Bem, sua visão dele estava bem diferente. E Nedved parecia concordar com esse seu olhar atualizado do ex:

— O que foi mesmo que veio fazer aqui, Soler? –o professor cobrou, irritadíssimo por ver seu estúdio lotado de adolescentes. O diretor riu disfarçado, e olhou de um homem ao outro.

— Vim visitar, Ned, ver você! É assim que recebe seu melhor pupilo?

Sem fazer a menor questão de responder, Nedved sacudiu a cabeça e olhou Relena:

— Vá se trocar. –saindo para um lado, indo falar com o pianista, talvez.

— Aproveitei que estou na cidade à trabalho e vim rever meus velhos amigos… –e como se ainda fosse interessante, Lohan foi desenvolvendo. –Estou animado em trabalhar com você outra vez, Lena.

— Soler me contou tudo sobre a proposta da Argos, Darlian. Inclusive, ele se ofereceu a empresa em ser o porta-voz para comunicar o estúdio sobre o convite feito à você. –despreocupado, alheio a sua contribuição sinistra à conversa, o diretor adicionou. Ao menos ele parecia feliz e aprovativo da proposta.

— Ah…! Se ofereceu…? –ela estreitou os olhos para ele, com dificuldade de disfarçar a injúria sofrida, mas Lohan sorria sem parar.

— Você aceitou, pelo que entendi…? –e só com as sobrancelhas o diretor gesticulou a incerteza que queria sanar.

— Sim, ia avisá-lo agora mesmo, Vansc, mas, pelo visto, não preciso mais. Já sabe da reunião de quinta-feira? –composta, decidiu explicar, sua postura se aprumando também, rivalizando com a altivez de Lohan. A atmosfera sempre ficava mais fria quando a rainha das Willis dava o ar da graça.

— Lohan já me explicou tudo. –o diretor confirmou, prestativo.

— Ficamos boa parte da manhã conversando. –fazendo questão de mencionar, Lohan assentiu com a cabeça, algo de meigo em seu rosto.

— Poupou meu trabalho. –sorrindo outra vez, e respirando fundo, Relena tocou o ombro do bailarino e deu ar de muita gratidão. –Então… Bem-vindo de volta. Agora, realmente, preciso me trocar.

E sem mais, deu as costas e refez seu caminho, dessa vez sem dificuldades, recebendo a admiração do pessoal, que cochichava comentários sobre a novidade que acabaram de receber. Enquanto Relena estivesse dançando ali, todo o destaque que ela recebesse também refletiria no conservatório e valorizava ainda mais o esforço de todos.

Ela estava ciente disso, embora não tivesse sido nunca o motivo de ter aceitado essa proposta. Mas pelos modos de Vansc, ele estava contente com a decisão dela e, como sempre, contando com seu bom desempenho. O diretor tampouco era o motivo de ela estar no projeto, entretanto, com certeza não o iria decepcionar.

Mas iria deixar bem evidente que tudo o que faria, seria por si mesma, conforme prometera. Não podia esquecer de que era imparável.

Entrou no vestiário, o pessoal já estava pronto, algumas garotas inclusive estavam na porta, indo para o estúdio.

— Deu tudo certo, Lena? –Tint indagou, percebendo Relena chegar por cima da sapatilha que estava dobrando.

— Sim, foi bem mais simples do que pensei. –e luminosa, sorriu, abrindo seu armário e puxando sua bolsa, correndo se arrumar.

— Uau, que bom! O Vansc com certeza viu todas as vantagens de cara! –Akane observou, animada, colocando alguns grampos para finalizar o coque.

— Sim, ainda mais depois da propaganda que o Lohan fez… –falou de dentro da cabine do banheiro.

— Lohan?! –Tint quase quebrou a sapatilha.

— Ele está aqui?! Ai! –e se pinicando com um dos grampos, Ane estranhou.

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— Olha, gente, eu não estou morto… Não precisam ficar aí, mudos, com essas caras. –arqueando uma sobrancelha, Duo resolveu dizer alguma coisa. Já fazia uns bons cinco minutos que Trowa e Heero entraram e disseram oi. –Até porque, se isso fosse um velório, está faltando todas as minhas gatinhas chorando por mim…

— Não sabia que tinha animais de estimação… –inesperadamente, Trowa entrou na brincadeira, indagando monótono demais para quem estava realmente surpreso.

— É uma outra forma de chamá-las… –gesticulando com a mão do braço bom, Duo considerou.

Por outro lado, estreitando os olhos, Heero encarou o amigo com ameaça quase assassina, e, como sempre, Duo não se impressionou:

— Ai, e você acredita…?! –e caiu na gargalhada a seguir, mas uma gargalhada comportada, porque movimentos bruscos doíam ainda. –O que eu faço com você, Yuy? –estalou a língua, impaciente.

— Pare com suas graças.

Duo sacudiu a cabeça e começou um assunto, querendo impedir a volta do silêncio:

— Ainda bem que essa é minha última noite aqui… não estou aguentando mais.

— E como vai a recuperação?

— Tudo dentro do esperado. A doutora disse que, apesar do susto, não tenho com o que me preocupar. Logo estarei de volta às ruas!

— Pronto para outra.

— Ah, aí não… O que achei de levar um tiro? Zero estrelas, não recomendo… –e suspirou, bem-humorado. –Ai, ai, mas, me diz, aí, Trowa, que notícias traz do meio mato?

— Nada de novo desde a última vez que nos vemos. Ao contrário de você…

— Olha aí, acho que vou pedir transferência para lá, então… Curtir um trampo tranquilo, para variar.

— Não sei… temo que o efeito seja o contrário.

Duo abriu uma expressão de pasmo e desânimo combinados:

— Meus amigos me amam mesmo…

— Está certo para o Wu Fei te pegar amanhã? –ignorando completamente o lamento de Duo, Heero quis se certificar. Era o modo dele de mostrar preocupação.

— Sim, já combinamos tudo. Vai ser fácil, nem vou tomar muito tempo dele.

— Ele não mandou você chamar um táxi? –zombeteiro, Trowa conferiu.

— Olha, faltou pouco, mas não! Não é inacreditável?

Baixinho, quase apenas um chiado, Trowa riu e Heero deu um sorriso de canto:

— Bom saber. Uma preocupação a menos que você me dá.

— Viu? Nem sempre estou tocando o terror por aí… –se fazendo todo pimpão, destacou.

— E a moto? Conseguiu resolver alguma coisa já? –Trowa prosseguiu com os questionamentos, tinha tino de investigador.

— Sim, conversei com a seguradora no domingo. Eu tenho uma moto reserva disponível, mas nem deu tempo de eu tirar… –deu de ombros. –Como até agora não teve nem sinal da Stargazer, eu vou sacar a indenização e comprar um carro. Estava falando com o Quatre de comprar um Renegade, até já cotei aqui, e ele disse que consegue ver uns descontos para mim.

— Suspeito… Isso é coisa de cara que quer casar… –com a mão no queixo e ar concentrado, detetive Trowa fez sua conclusão, sempre com algo brincalhão por trás.

— Quem sabe eu queira? –Duo deu uma piscadinha em direção de Heero, que ainda não tinha participado do assunto.

— Não vá fazendo dívidas assim antes de acabar o período de experiência. –com um ar severo, Heero cruzou os braços ao avisar.

Fazendo pouco caso, Duo estava com a resposta na ponta da língua:

— Mas desde quando você é do departamento de RH?

E a retrucada foi tão boa que nem Trowa conseguiu conter o riso.

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Notas do capítulo:

Bras bas - Esta posição é o atenção dos bailarinos. Os braços formam um círculo com as palmas da mão de frente uma para a outra e as costas das mãos repousando nas coxas. Os braços devem ficar pendurados livremente mas sem permitir que os cotovelos toquem no corpo.

Stargazer - nome da moto do Duo, inspirada na canção da banda Rainbow.