No último capítulo…
A terça-feira continua chuvosa. Depois do almoço, Relena conta a Heero sobre a sua reunião com a Argos já na quinta-feira. Ao chegar ao conservatório, vai procurar o diretor para comunicá-lo da novidade e o encontra no estúdio junto de ninguém menos do que Lohan. Não tinha esperado encontrá-lo tão cedo. Como é típico dele, ele faz tudo ser sobre ele, mas Relena não se deixa afetar. Heero e Trowa vão visitar Duo no hospital ver como ele está e se tudo está correndo bem. Ele recebe a alta amanhã.
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31
Com a magia do Pássaro de Fogo lhe dando forças, o príncipe Ivan ergueu alto acima de sua cabeça o ovo que guardava a única parcela viva do vil Koschei.
A criatura cadavérica sempre se achou astuta por ter separado e entesourado sua alma em um recôndito separado de si, permitindo-o assim tornar-se imortal. Porém, suas bruxarias nefárias chegavam então ao fim. Não havia como impedir agora aquilo que sempre foi inevitável à toda raça humana: a morte. Em perfeita sincronia de gestos, agindo de uma só mente e um só coração, o Pássaro e o Príncipe decretaram a condenação do demônio e, de uma vez, Ivan atirou o ovo ao chão!
Se estivessem no palco, esse era o momento em que a luz se apagava de uma vez, dando o sobressalto no público com trovões criados pela orquestra. Mas ali era apenas o ensaio e tudo o que tinham era o piano e Relena terminara sua parte. Saiu para o lado, caminhando exausta, pegando a garrafa que deixara no cantinho da parede e a toalha pendurada na barra recuada. O balé inteiro tinha aproximadamente 40 minutos de duração, mas parecia muito mais longo quando se estava dentro dele.
Nedved parou a execução, aproveitando a troca de cena, para reclamar do desempenho de Daniil e Miksa, porém não tinha novidade nisso. Todo mundo sabia levar a obsessão perfeccionista do professor no profissional, e os verdadeiramente bons entendiam que só eram tão bons graças às exigências de Nedved. Relena ficou acompanhando a cena, depois de beber água sentiu o suor escorrer ainda mais rápido pelo seu rosto e pescoço.
Treize não se cansava de assistir, mesmo que já estivesse difícil manter a contagem de vezes que o corpo de baile tinha apresentado o "Pássaro de Fogo" naquele estúdio. Quanto mais visse, mais se convenceria de estar no lugar certo com a proposta certa. Eram bailarinos de muita dedicação, e tinham atingido um nível de técnica que não se via mesmo em companhias de renome. Iria estabelecer um novo critério de qualidade quando fizesse suas aquisições de talento ali.
Lohan não sentia essa mesma empolgação. Ele encontrou um canto fora de caminho e sentou lá, esperando sabe-se lá o que, porque, pelo modo que agia, não estava ali para prestigiar seus colegas. Ficou o tempo todo usando o celular, tentando ouvir mensagens de áudio e respondendo, só de vez em quando seguindo Relena com os olhos.
Para ela, estava ótimo assim na verdade. Ficou até surpresa por ele não dar pitaco nos conselhos de Ned, como inclusive costumava fazer quando dançava ali, ou de inventar participar do ensaio. Sem ter que aguentar a vigília intensa dele, conseguiu até se esquecer de sua presença.
— Olha, que idiota! –Tint esbravejou entre dentes enquanto se recuperava da cena de apresentação das princesas. –Parece o irmãozinho de alguém obrigado a ficar esperando a aula acabar!
Akane riu disfarçado (Ned odiava expressões de felicidade), e apesar de entender a implicância de Tint, sua atenção estava em Relena, esperando ver como ela se sentia.
Ainda não era hora de ela entrar para fazer a Dança Macabra, e estava parada perto da porta, assistindo Daniil e arrumando o rabo de cavalo que tinha afrouxado. De repente, os olhares se cruzaram. Relena sorriu e Akane falou só com os lábios:
— Maravilhosa! –e jogou um beijinho.
Relena tentou não rir (Ned estava do seu lado) e respirou fundo, até porque sua deixa estava chegando, mas ia com o coração leve. Nunca tinha se sentido tão apoiada. O clima da companhia nunca estivera tão bom, como se tivessem entrado em algum tipo de auge. E o que mais a fascinava era a percepção de que viviam um presente que criaria memórias maravilhosas no futuro. Quase dava saudades do que vivia agora.
Era satisfação que chamava. E blindava. Tanto que olhar Lohan se aproximando dela virava algo irreal. Ele não encaixava mais ali, nem tinha nada mais a ver com ela.
— Exausta, hã…? –ele chegou com seu ar de galã de liquidação, usando a familiaridade que achava ainda ter direito. Para ele, nunca tinha feito nada ruim. –O Ned não muda… transtornado… Os principais nem precisavam passar por esses ensaios repetitivos…
Ela teve lentidão para processar o que ele falava, mas respondeu:
— Eu gosto. –e saiu andando atrás de suas coisas. Era a última passagem e ela já tinha terminado sua parte.
Lohan ergueu as sobrancelhas, impressionado, divertido. Antes de Relena apanhar a bolsa do chão, ele fez isso:
— Então, está pronta para ir? –e ergueu a bolsa para ela, aproveitando para investigar as feições da moça.
— Hã? –julgando as ações dele desnecessárias, ela puxou a bolsa para perto do seu peito.
— Que tal comermos alguma coisa? Aquele lugar descendo a rua ainda existe?
— Ah… não, obrigada. –franziu a testa e reforçou sua negativa com um gesto da cabeça. –Preciso ir para casa. –e justificou-se, apesar de não precisar.
— Estava esperando que fosse fazer mais sala para mim… –fez drama, enfiando as mãos nos bolsos das calças, achando que seus olhos pidões a fariam mudar de ideia.
— Lamento, mas tenho assuntos para cuidar. –e foi educada, apesar de não precisar.
— Certo, certo… –ele duvidou, buliçoso –Tipo o quê?
Ela franziu as sobrancelhas, finalmente transparecendo toda sua irritação. Não sabia como, nem o quê, mas tinha que dizer alguma coisa que o fizesse parar com aquela graça.
— Se me permite a intervenção, meu caro, creio ter ouvido a Senhorita Darlian declinar. –antes da voz, a presença daquela terceira pessoa foi sentida, e o peso daquela mão em seu ombro o obrigou a olhar para trás:
— Hã? –e achou Treize parado ali, com seus olhos felinos estreitos e apontados para si. –E você é?
— Grata, Lorde Khushrenada. –Relena sorriu contidamente e não desperdiçou a chance para escapar assim como fazia o Pássaro de Fogo em sua última cena.
— Khushrenada… –Lohan repetiu, reconhecendo aquele nome vagamente. Ergueu as mãos em sinal de inocência e deslocou-se para outra parte da sala.
Indo direto para o vestiário, Relena enfiava a mão na bolsa à procura do celular. Conferiu as horas e suspirou, sentando no longo banco por um minuto antes de ir embora. Só ali conseguiu sentir o coração acelerado e o corado do rosto. É verdade que estava agitada com todo o esforço da coreografia, mas também estava agitada por dentro. Estava com raiva.
Somente natural.
E o que mais a enfurecia foi ver que Lohan ainda a desestabilizava. E a ousadia dele! Voltar e agir como se ela ainda o quisesse…
Mesmo que fosse à toa, aquilo ainda a abalava. Mas não achava que confrontá-lo resolveria. Ele ainda ia dizer que a errada era ela.
Bufou, tirou as sapatilhas, vestiu o agasalho e saiu. E gostou de não precisar enfrentar os interrogatórios dos colegas sobre a visita inoportuna. Sabia que assim seria mais fácil esfriar a cabeça.
Saltou na scooter e partiu, misturando-se rápido em meio ao trânsito que já começava a avolumar. Caía um chuvisco fininho, quase uma bruma.
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— Tenente, faça alguma coisa. –Tint pegou Heero pelo braço, murmurando e mostrando com a cabeça Nedved trocando farpas com um rapaz, que, pelo tipo, era obviamente um bailarino. Só que ele não estava vestido como quem viera para a aula. –Você tem permissão pra matar?
Heero franziu as sobrancelhas já naturalmente tensas, pedindo explicação só com o olhar, mas Tint já o largou e saiu andando fazendo uma mão chifrada na direção do rapaz, inconformada. Lya riu, indo atrás da amiga, mas Heero voltou seu olhar indagador para Akane que vinha em seguida:
— O que está acontecendo?
Parando ao lado dele e colocando as mãos na cintura, ela respirou fundo, ambos olhando Nedved esbravejando.
— Aquele cara não é bem-vindo. Só que acho que a Lena deveria te explicar os detalhes.
— O que ele tem a ver com ela?
— É seu ex.
As sobrancelhas de Heero aliviaram a expressão, tornando-se pensativas.
— Te conto o que eu sei no caminho, aí, quando ela desabafar, você só finge surpresa. –um pouco mais baixo, ela apresentou a solução simples.
Assentindo com a cabeça, Heero aprovou a ideia:
— Eu sou bom nisso.
Sem se importar com a chuva, os dois foram molhando até onde Heero havia estacionado. Foram em silêncio, só voltando a falar quando entraram no carro.
— Você está preocupada com ela?
— Olha, motivo até tem, mas pelo que conversamos acho que o caso dela é de observação. O problema é que esse cara é um Chernoboy… –careteou na hora da descrição.
Ele assentiu soltando um murmúrio monossílabo.
— Como se chama? –parando no primeiro sinal, que já era na próxima esquina, perguntou.
— Lohan Soler. –e ia mexendo no celular enquanto respondia.
— E por onde andava?
— Na Europa. É principal em Mônaco.
— E agora voltou…
— Por causa da campanha da Argos. Ele também vai participar.
— Ah é?
— Ah é… e… agora que falou, esse job da Lena é bem mais épico do que parecia! –deixando o queixo cair, Akane parou de digitar no celular abruptamente.
Heero riu, baixo e astuto, mas riu, achando graça na epifania da moça. Pelo modo que ela estava encarando a situação, sabia que tanto sucesso em seu próprio nicho só podia ser bom sinal.
— Então, pelo que estou entendendo, Relena vai precisar de muito apoio.
— Vai… tenha paciência com ela, hein? Ela está meio cismada de que precisa enfrentar isso sozinha.
Assentindo com a cabeça mais vezes, ele sinalizava não só que aceitava a sugestão como entendia de onde vinha tudo aquilo. Ela era corajosa e podia ser bastante teimosa. O tipo de aprovação que ela pedia era respeito por suas decisões, como qualquer líder nato. Cada vez mais fazia sentido se apaixonar por ela.
E pela cara que ele fez, Akane soube que não tinha que passar mais nada para ele. Sorriu, contente, e voltou a digitar.
O silêncio da moça foi bem-vindo. Nem pediu para ligar o rádio hoje. Ele sorriu de canto, bem disfarçado, mas depois foi ao que realmente importava — pensar em como lidar com a situação da namorada.
Tanta novidade que ele tinha que absorver… não pensou que ia gostar tanto, mas não descartava o desafio que era administrar tudo.
Deixou Akane no alojamento e como Relena queria ir pra casa dela antes da academia, fez o mesmo.
Não demorou muito, tomou uma ducha e logo se vestiu, viu no espelho que precisava fazer a barba, mas cuidaria disso na volta. Mandou uma mensagem para ela avisando que estava indo buscá-la e saiu.
O céu continuava carregado apesar de não estar chovendo. Não dava para saber se tinha parado de vez ou estava só preparando mais.
O percurso até o prédio de Relena também não levava muito tempo, tanto que quando parou o carro na frente do saguão, ela já estava saindo, calculou facilmente quando ele chegaria. Estava com um conjunto de agasalho verde e com os cabelos trançados. No ombro, a bolsa esportiva, e apesar de ignorar o que tanto ela precisava levar, estacionou e saiu do carro e foi ajudá-la.
Ela sorriu ao vê-lo chegar, um rubor suave de empolgação pintando seu rosto. Ele sorriu também, seu sorriso maroto — ela sempre via o sorriso dele assim porque nunca era grande, evidente, porém discreto e acanhado, como um lobo. Achava meigo. Se encararam um instante e não resistiram trocar um beijo lento e apaixonado. Era a primeira vez que se viam naquele dia e a saudade era inevitável. Deviam ter pressa, mas ali, nem lembrava o porquê. Quando se encontravam, nada mais importava.
Relena sentia-se feliz por ter tanta prática em se pôr na ponta dos pés e conseguir cobrir os centímetros de altura que os separavam. Enlaçou-o pelo pescoço, era tão natural seus corpos juntos, dava sentido a todas as canções de amor que já ouvira antes. Riu no meio do beijo.
— Como você está? –ele murmurou ainda sem descolar os lábios do dela.
— Ótima. –e se afastando um pouco, olhou-o nos olhos e respondeu, charmosa, mas nunca antes tão sincera. –Incrível…
Ele riu de novo daquele jeito canino que ela achava tão meigo:
— Estou falando sério. –e tirou a bolsa dela, passando para seu cotovelo.
— Mas eu também. –e aproveitou para aninhar-se nele e ocupar seus dois braços: um com a bolsa e outro com seus ombros.
— Se você diz…
O sorriso dela fez um barulhinho e foram andando até o carro dentro do entrosamento do silêncio.
— O que tem nessa bolsa?
— Por quê?
— Hm… por nada.
— Não acredito que acha que está pesada… –ela brincou, estranhando, mas ele só murmurou:
— Não é isso. –na verdade, era. Estava pesada de um jeito inesperado para uma bolsa de academia, mas isso não significava que ele não dava conta de carregar.
Os dois já tinham conferido onde ir, por coincidência tinham inscrição na mesma academia, e por coincidência não estavam frequentando há um tempo. Talvez, se não tivessem se conhecido através de Akane, teriam se esbarrado na VorteX Fit. Era engraçado pensar assim e bem romântico, além de combinar muito com eles.
— Você comeu? –depois de se acomodar no carro, Relena perguntou.
— Umas duas horas atrás… não gosto de comer antes do treino.
— Entendi. Eu decidi tomar banho antes de vir e não deu tempo de comer… mas tem um pacote de bolachas de arroz na bolsa.
— Vai ser suficiente?
— Não me provoque assim!
Ele riu baixinho:
— Bem, se desmaiar, eu faço o resgate. –e já estava guiando suavemente seu Elantra pela avenida.
— Seu besta. Quantos anos você tem? –ela praticamente gritou, incerta sobre de onde vinha aquilo. Ele era terrível e ela não sabia.
— Hey, essa doeu. –jogando o olhar para ela por um segundo, reclamou, mas ainda risonho.
— Ah, bom saber… –e estava ficando difícil ela sustentar sua cena de brava, vendo-o e sentindo-o tão contente, jovial. Devia ser sinal de que ele estava totalmente à vontade.
— Certo, parei. –e recuperando o ar sóbrio e tranquilo, Heero suspirou. –Como foi seu dia?
— Corrido… não consegui mesmo falar com o fisioterapeuta sobre os exercícios.
— Está sentindo dor?
— Um pouco… Ned fez a gente destruir a sapatilha hoje. –riu. –Peguei o par ontem e já tive de jogar fora… ainda bem que são patrocinados.
— Então hoje está precisando mais de uma massagem do que de mais exercícios.
— Hm, aí está algo que você poderia fazer por mim.
As sobrancelhas dele se ergueram subitamente e o silêncio foi profundo. Relena ficou olhando-o no aguardo de sua reação, mas foi apenas isso. Então, ela riu mais, encostando a cabeça no ombro dele antes do sinal abrir:
— O que foi?
— Você está impossível hoje. –ele murmurou, dava para ver que ainda estava sem graça, mas seguia divertido.
— Eu? –protestou, rindo. –Foi você que começou!
— Negativo. –roubava relances dela. Ela estava rindo, logo estava tudo bem, certo? Não sabia bem como funcionava isso, mas também não era um insensível para não perceber algo errado com ela. Suspirou, dividindo sua atenção entre o tráfego e as feições dela até anunciar: –Chegamos.
— Então vamos.
Relena só recuperou sua bolsa quando foi procurar a carteira e pegar a carteirinha para passar a catraca. Heero estava parado ao lado dela, esperando-a entrar primeiro, brincando com sua carteirinha em mãos e olhando ao longe o interior do galpão, onde havia uma música ambiente animada e um burburinho abafado de conversas.
— Ai, Heero, acho que vou ter que ir embora…
— O que houve? Esqueceu sua carteirinha?
— Não é isso… Olha só porque a bolsa estava pesada. –e já estava rindo quando comentou.
Quando Heero baixou o queixo, seus olhos caíram direto na cabecinha branca e felpuda de Allegra, com seus grandes olhos azuis e diminuto nariz cor-de-rosa.
— Miau. –e cumprimentou.
— Temos uma viajante clandestina. –ele observou, só acreditando porque via, e seu olhar sorria ao captar a situação.
— Como foi que eu não vi ela aí dentro! –com muita habilidade, Relena sacou o celular e tirou algumas fotos da cena, rindo ainda, muito admirada daquela surpresa –Ai, Heero… –mostrou a foto. –E agora?
Acariciando o cocuruto da gata, ele apreciou a foto e não disse mais nada.
— Relena? –alguém chamou com ar indeciso. –Sim, é você mesma! Até que enfim! –o rapaz veio se aproximando. Usando o uniforme da academia, estava claro que era professor ali.
— Mas ainda não vai ser hoje, Dolf.
— O que tem aí? –ele já tinha chegado na catraca e espiou a bolsa.
— A gatinha da Tint.
— Ela tinha me falado dela! Psipsipsi…
Allegra apenas o encarou, atônita.
— Bem, amanhã a gente volta… a Allegra resolveu boicotar nosso treino.
— Certo, olhe lá… –e, apesar do ar de estar se despedindo com a cobrança, Dolf parou e mostrou que não estava ignorando a presença do rapaz. –E você deve ser o Tenente…
— Tint tem falado demais… –Relena ficou sem graça, revirando os olhos e rindo depois.
Dolf estendeu a mão para Heero, que retribuiu:
— Sou eu mesmo.
— Já te vi por aqui antes, também.
— É verdade. Pegar firme de novo.
— Sempre bom! Hoje estão perdoados, mas amanhã sem falta! –e se afastou por fim.
— Então… vamos para casa? –Relena suspirou. –Ai, Allegra… olha o que você apronta!
— Ela só queria participar do treino. –Heero deu de ombros, organizando sua carteirinha na carteira outra vez.
— Mas foi tudo o contrário. –ajeitando a alça da bolsa no ombro de novo, deixou-a aberta de modo que Allegra colocou a cabeça para fora, virada para trás, apreciando o passeio.
Mal cruzaram a saída, o celular de Relena começou a tocar.
— É a Tint. –atendeu. Não estava em viva-voz, mas Heero conseguia distinguir bem o que a moça do outro lado da linha falava.
— Ela sumiu, Relena! –primeiro Tint falou em russo, e depois repetiu para a amiga entender. O desespero era o mesmo nas duas línguas. –Eu já olhei em todos os cantos, a Allegra não está aqui!
— Tint… –com carinho, Relena tentou interromper, mas não deu certo.
— Eu cheguei, ela estava no sofá, ai eu entrei no banho, você não estava mais em casa… aí… achei que algo estava estranho… Relena, e se ela caiu da janela? –estava pirando.
— Tint, escuta… está tudo bem…
— Não, Lena, sua desalmada! Não diga isso!
— Ela está aqui comigo, Tint, calma! –teve que desembestar em falar, se não não ia ser ouvida.
— O quê?! –dava vontade de rir do jeito de Tint, mas ela estava tão preocupada que fazer isso era maldade.
— É, eu sei… inacreditável. Ela veio comigo escondida na bolsa.
— E não sufocou?!
— Minha bolsa tem as laterais naquela redinha.
— Meu Deus! Quase infartei aqui, Lena!
— Aguenta firme, estamos voltando com ela já.
— Está bem, vem logo. –choramingou e desligou.
Relena respirou fundo, curtindo o absurdo da situação, e aproveitou para mandar a foto de Allegra para Tint ir se tranquilizando.
— Será que é uma boa ideia comprar uma dessas bolsinhas chique para carregar Allegra por aí?
— Vai precisar de um capacete também, então. –Heero completou, pensativo. Relena riu:
— Faz sentido. –só ele para pensar nisso. E por mais por fora que ela estivesse do mundo pet, tinha certeza de que devia achar um capacetinho para comprar.
— Segurança em primeiro lugar. –assentiu, estaria falando sério? Relena riu um pouco mais.
— Tenho certeza que Tint ia adorar essa ideia. –deu uma olhada sobre o ombro, e Allegra seguia confortável, curtindo a viagem. –Como Duo está?
— Fui ver ele hoje, amanhã já vai ter alta. O tiro não pegou em cheio, depois do repouso vai estar 100 por cento.
— Está contente em ter 40 dias de férias?
— Ele não… já eu, sim.
— Heero! –ela levou um segundo para entender o que ele quis dizer e repreendeu. –Ele é seu amigo!
— E…?
Ela riu mais, e ele prosseguiu:
— É o único jeito daquele cara nos dar uma folga.
— Certo… mas duvido que não vai ficar com saudades.
Heero parou para pensar, dando a ela um pouco de razão, mas passou rápido:
— Não. –deu seu sorriso levado de lobo depois.
Relena seguiu sorrindo e houve um silêncio momentâneo. Aproveitou para responder algumas mensagens, Tint estava ansiosa em recuperar Allegra e Akane estava comentando o espírito de aventura da felina.
Entraram no carro:
— Me fale mais sobre seu trabalho com a Argos. –Heero pediu.
— Bem, eu não sei quase nada ainda… estou ansiosa pela reunião. Ainda bem que meu irmão vai me ajudar, ele já tem experiência com essas publicidades. Pelo jeito que ele fala, parece ser um bom negócio para mim.
Heero só assentiu com a cabeça diante do que ouviu, conduzindo o automóvel. Relena roubou um relance dele e depois se voltou para o pára-brisa, a acariciar Allegra:
— Mas, como é a primeira vez que isso me acontece, fiquei sem saber o que decidir. É bastante responsabilidade, e já estou bem ocupada. Espero dar conta.
— Vai conseguir.
Ela sorriu, olhando-o de novo. Naquela frase, tão simples, ele conseguia fazer caber um mundo. Ouvia ali toda a confiança e apoio dele, sentia toda sua certeza. Seu olhar era tão profundo e fortalecedor, fazia ela se sentir capaz de tudo. Era impressionante, que conexão era aquela?
Ele não a olhava diretamente, mas sentia como ela brilhou depois do que falara a ela.
Assentindo com a cabeça, Relena murmurou:
— Sim, tem razão. Muito obrigada, Heero.
— E se precisar, sabe quem chamar. –e precisava quebrar o gelo com mais uma tiradinha presunçosa. Gostava de como ela ria depois que ele fazia isso.
E ela riu mesmo.
— Sabia que eu te amo? –e depois de recuperar um pouco o ar, Relena confessou.
— Claro. E eu também. –ele ronronou de volta. E percebeu ela brilhar ainda mais. E, mesmo que mantivesse seu jeito colo, percebia um certo calor em seu próprio rosto também…
Tint estava deitada no sofá, falando com Daniil no celular, mas assim que ouviu a porta mexer, pulou em pé:
— Cadê ela, quero ver!
— Calma, Cinthia! –Relena provocou, gargalhando, tirando a alça do ombro o melhor que podia, já que Tint estava pendurada na bolsa.
— Malenkaya! –choramingou. –Por que fez isso comigo? –tirou a gata devagar de dentro da bolsa, colocando seus olhos no mesmo nível, e Allegra soltou um miado. –Ai, que bichana serelepe… puxou mamãe. –e mudou rápido a gata de posição, ninando-a como um bebê, abraçando-a.
— Tudo fica bem quando acaba bem. –respirando fundo, Relena murmurou, indo recolher o celular de Tint que estava no chão. Percebeu que a chamada estava em andamento ainda. –Alô?
— Relena? Ah, que bom que chegou. Então Allegra está bem?
— Claro que sim, Danny. O que essa doida te falou.
— Que Allegra saiu de mala… não sei, não entendi nada. Estava quase indo aí.
E Relena foi explicando toda a história para Daniil, sentando no sofá, enquanto tirava os tênis. Tint veio do lado e ficou mimando a gata em seu colo, colando a orelha para ouvir como seu namorado reagia.
— Que história! –ele se espantou do único jeito possível: achando graça. Era um fato meigo, de qualquer forma, apesar do susto.
Aí, o assunto não se prolongou muito mais, até porque daqui a pouco iam se rever no conservatório e, como estavam todos cansados, queriam se recuperar. E ainda era só terça-feira.
Relena devolveu o telefone para Tint e apertou o narizinho de Allegra como se fosse um botão:
— Danadinha. –e se levantou, indo para a cozinha, só então vendo o que Heero estava aprontando.
Ele pegara todos os legumes que tinham na geladeira e cortara uma porção em pedaços pequenos e já estava espalhando tudo em assadeira.
— Descanse até eu terminar o jantar. –comandou monótono, concentrado no que fazia. Só depois roubou um relance dela.
— Eu vou ficar mal acostumada assim… –passou uma mão pela cintura dele e com a outra roubou um pedacinho de brócolis e colocou na boca. –Primeiro a Ane vem com o café da manhã, agora você prepara nosso jantar…
Tint assentiu, impressionada, o olhar vago como se estivesse avaliando algo seríssimo:
— Não dá pra resistir…
Relena revirou os olhos, divertida, e depois suspirou, conferindo:
— Não quer ajuda?
— Esse é o meu turno. –ele reforçou, marcial
— Você quem sabe… –provocou, beijando-o no rosto.
Os legumes não demoraram muito para dourar, e, até esfriar um pouco, Heero fez três grandes omeletes com o resto de mussarela de búfala que achou na geladeira.
Comeram os três sentado no chão em volta da mesa de centro da sala.
— Hm, sua gororoba está aprovadíssima. –Tint elogiou na primeira bocada.
— A gente sabe que a comida é boa logo de cara. –Relena concordou, meio que mastigando.
— Eu não fiz nada de mais. –ele achou estranho o jeito que elas comiam com tanto gosto. Provavelmente foi a fome que fez elas gostarem tanto.
— E… cadê o Zechs? –Tint pareceu ter se lembrado dele naquela hora.
— Ele foi ver uns amigos que estão na cidade. Deve chegar tarde.
— Ele vai com você na reunião da Argos? –Heero quis se certificar.
— Sim, vai ser meu empresário. –brincou, mas era mais ou menos isso mesmo que ela queria que Zechs fizesse.
— Ainda bem, assim, qualquer coisa, ele quebra o Lohan no meio! –simplista, Tint disse por impulso.
— Tint, sossega. –estalando a língua, Relena pediu. Nunca ia achar que tinha de ser assim.
Tint respeitou a amiga, mas não deixou seu ranço por Lohan passar batido e revirou os olhos.
Acompanhando a troca, Heero naturalmente quis entender melhor:
— O que está acontecendo? Quem é ele?
— Lohan fazia parte do grupo principal até uns cinco anos atrás. Ele vai estar na campanha comigo.
— Entendi. –e continuou olhando para a namorada, fixo, intenso, mas pensativo, no aguardo demais.
Relena hesitou. E quando percebeu, viu Tint olhando para ela, do mesmo jeito fixo, mas não tão gentil quanto Heero, uma das sobrancelhas curvadas, acusativa.
— E qual o problema com esse cara? –por fim, suavemente, Heero vocalizou a exigência que estava implícita.
Havia um enorme elefante naquela sala. Colossal. E Relena não estava tão pronta para lidar com ele como pensava. Mas não podia enrolar depois disso, ou só complicaria as coisas ainda mais.
Olhou feio para Tint, que só deu de ombros, e continuou a comer.
Heero aguardava, intrigado, porém tão paciente, Relena admirava aquela frieza toda até em momentos de crise. Dava para ver que era uma coisa natural nele, por isso que ele era um bombeiro tão bom.
— Lohan é…
— Um cretino. –direta ao ponto, Tint completou, olhando direto para Heero.
— Meu ex-namorado. Mas sim, ele é um cretino mesmo, não posso negar.
Heero assentiu:
— Mas ele está sendo um cretino agora?
— Bem, se querem minha opinião, acho que ele é um cretino em todos os momentos.
Relena suspirava:
— Não… a gente só se falou hoje à tarde, por alguns minutos. Eu posso lidar com ele. Está tudo bem. –e sorriu, assentindo.
Heero analisou como ela falava, tentando decidir se podia acreditar nela ou se ela só não queria incomodar. Como a voz não oscilou e os olhos dela seguiam brilhando, confortáveis em encará-lo, aceitou o que ela falou e assentiu com a cabeça.
— Qualquer coisa, você já sabe.
— Você faz o meu resgate.
Voltei!
Demorei muito, mas aqui está mais um capítulo!
Espero que gostem!
Lembrem que essa história não deve ser levada muito a sério.
Eu não revisei pra não prolongar a demora de postagem, perdoem algum erro que encontrarem.
Beijos e abraços!
26.03.2022
