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Eu queria começar a contar essa história dizendo que ela não tem um final feliz, mas a verdade é que eu não sei.
Não acredito em destino, nem em predição do futuro com base nas duvidosas ciências ocultas, mas tem uma coisa que dá pra usar quando se quer prever o resultado de toda uma vida, e essa coisa se chama passado.
Meu passado não é dos melhores.
Quer dizer...
Mais ou menos.
Até poderíamos começar do momento em que eu nasci, mas não faz sentido. Eu não quero falar do passado agora. Não é a história que eu quero contar – ainda. Eu quero falar sobre o agora, e sobre o que acontece a partir daqui, dessa cadeira dupla que ocupo num ônibus milagrosamente vazio.
Os que acreditam em sinais até poderiam dizer que esse é um deles, mas seria muito confuso um sinal como esse surgir assim, logo num dia chuvoso em pleno verão. Não era para chover agora, mas os pingos de chuva caem com aquele barulho típico na lataria do veículo e eu não trouxe um guarda-chuva.
Sarada, deitada em meus braços, resmunga alguma coisa em seus sons bonitinhos de bebê. Ela dorme, alheia ao mau tempo — apesar de às vezes soltar esses ruídos indecifráveis, como quem reclama do mormaço de dentro do veículo por conta do fechar de todas as janelas.
É, a chuva caia, mas o calor ainda é certo.
Olho para Sarada e penso que sou uma péssima mãe. Qualquer uma em meu lugar teria trazido um guarda-chuva, porque mesmo que não estivesse chovendo, o sol ainda era forte o suficiente para queimar a pele de neném dela, mas eu não trouxe. Pensei que não ia precisar.
Assisto as gotas atingirem os vidros arranhados da janela à minha direita; eles escorrem com velocidade naquele rastro molhado até caírem no chão. Não penso em nada. Apenas assisto aquilo se repetir de novo e de novo e já me sinto mais vazia daquele pensamento anterior, afinal, eu não sou Deus ou algo assim para saber quando vai chover.
Nos aproximamos do ponto onde devemos descer. Penso que talvez eu devesse esquecer de sinalizar ao motorista que quero descer, afinal, tenho certeza de que aquilo não vai dar em nada e quero me poupar de mais frustrações, mas algo em mim, uma parte lá no fundo, diz que eu preciso tentar.
E é essa parte que sempre me fode.
A parte esperançosa.
Eu desço no ponto certo por fim, tentando correr para debaixo de uma marquise com o máximo de dignidade que uma mulher de vinte e quatro anos consegue ao carregar uma criança de seis meses nos braços. Me escondo lá por um momento, então vejo a minha situação de chuva e suor ao olhar para meu reflexo na vitrine da loja enquanto Sarada me olha quase confusa.
Eu sei, Sarada. Eu sei.
Sorrio para ela cutucando a bochecha saliente e ela ri. Ela é uma bebê bem tranquila. Acho que foi a única coisa que deu certo na minha vida, porque se ela fosse daquele tipo de criança que chora o tempo todo, acho que eu já teria me matado.
Eu já pensei nisso várias vezes, mas nunca tive coragem de ir até o fim. No final, até para morrer você precisa de certo ímpeto, e isso é tudo o que eu não tenho. Talvez por isso que eu esteja nessa vida de merda.
Sabendo que estou brevemente atrasada, me apresso como posso pelas ruas. Evito o meio-fio, com medo de tomar um banho das poças de água acumuladas. Os motoristas nunca se importam com os pedestres quando passam por eles em velocidade.
A chuva dá uma trégua e eu finalmente chego ao meu destino: o Hospital Senda.
O prédio é bem antigo, mas eles modernizaram algumas alas e a fachada também. Eu nunca tinha entrado ali, percebo, passando pela vastidão do estacionamento frontal para alcançar a recepção geral logo à frente das portas largas.
Os funcionários me olham, talvez esperando que eu declare ter alguma emergência com relação à bebê que carrego, mas não se trata disso. Sarada está com a saúde perfeita, é claro. Outra coisa que deu certo na minha vida, mas não vem ao caso.
Chego perto do balcão, onde encontro uma bonita moça de cabelos curtos e olhos amendoados. Ela me olha de maneira educada, mas parece atarefada com os vários papeis em sua mesa de trabalho.
— Oi, eu vim por uma entrevista de emprego...
Ela olha para mim e depois para Sarada. Não a julgo, eu também faria a mesma coisa se estivesse na situação dela, afinal, quem é o louco que traz uma bebê de seis meses para uma entrevista de emprego num dos maiores hospitais da cidade?
Me sinto uma doida por estar ali. Uma idiota. Eu deveria dar meia volta e ir embora, mas ao invés disso digo a ela meu nome e o cargo para o qual estou me candidatando.
— Só um segundo.
A recepcionista me pede antes de tirar o telefone do gancho e apertar um botão. Escuto ela informar minha presença a alguém e então, depois de um momento, ela concorda e desliga o telefone. Espero um pouco ansiosa, um pouco envergonhada.
— Segue por esse corredor aqui até o final, tá? Você vai ver uma escada em espiral, sobe por ali e vai dar em outra recepção, que vai estar vazia provavelmente, aí você continua pela esquerda até uma porta azul claro...
— Pera – peço, tentando organizar as coisas na minha mente. – Corredor, escada, recepção, esquerda, porta azul – digo em ordem e a vejo concordar.
— Boa sorte.
Agradeço, sabendo que vou precisar de toda a sorte do mundo — aquela que definitivamente não tenho — se eu quiser mesmo esse emprego. O problema é que já eu não sei se o quero mesmo... Quer dizer... Dinheiro não é exatamente um problema já que o Sasuke provê todo o dinheiro que preciso para me manter, mas havia outras questões.
Quando eu falei sobre a entrevista, ele pareceu feliz de alguma maneira. Achei que fosse por não ter que me dar mais tanto dinheiro – porque apesar do emprego, eu ainda precisaria de algumas coisas para manter a Sarada –, mas ele disse que o valor que me repassava continuaria sendo o mesmo.
Talvez ele achasse que eu jamais conseguiria, no fim. Por isso fico com esse receio de conseguir o emprego e ele resolver que não precisa mais me dar nenhum dinheiro. Talvez ele me ache uma ingrata..
Sarada resmunga, enfezada de repente, e olho para ela com uma súplica, mas o tatear dela pelos meus peitos denuncia sua principal necessidade naquele momento. Minha filha tem fome. Quero dizer para ela aguentar só mais um pouquinho, mas penso que sou uma merda de mãe por estar cogitando deixar a menina com fome por conta de um emprego que eu nem preciso.
Não tem jeito.
Puxo minha blusa para deixar meu seio ao alcance da bebê esfomeada, que não hesita em mamar como se não comesse há meses. Suspiro no meio daquela recepção vazia antes de pensar se devo continuar meu caminho pelo corredor da esquerda, mas não tenho tempo de decidir.
A tal portinha azul clara se abre de repente e uma moça sai de dentro como se procurasse algo. Ela me encara, parecendo surpresa, e depois se recompõe.
— Haruno Sakura?
Sorrio constrangida em uma confirmação atrapalhada. Ela me sorri de volta com certo profissionalismo.
— Vem. Sua entrevista vai ser aqui.
Quando me vê dar um passo na direção dela, a mulher some, de volta à sala de onde veio, e eu solto o ar sem nem saber que estava segurando. Olho para Sarada, tentando não parecer tão hesitante, e ela me olha de volta como se perguntasse o que eu estava esperando. Sorrio para ela.
Continuo meu caminho pelo corredor curto, alcanço a porta que estava entreaberta e a empurro com o braço, tentando manter Sarada firme o suficiente para que ela mamasse com conforto.
A sala é bem pequena, um tanto abarrotada de arquivos. Tem um computador que parece ser de última geração, mas eu não sei ao certo porque não entendo nada de computadores. Talvez ele seja só bonito. Também vejo um quadro com uma foto em preto e branco de uma ponte. Não faço ideia de onde foi isso, mas parece intenso demais.
— Sente, por favor.
Ela pede, distraída, enquanto mexe numa pilha de papéis, e eu trato de ocupar a cadeira de estofado azul caneta logo à frente da mesa de vidro. Fico em silêncio, mas Sarada faz alguns barulhos, acho que... Olho a placa na mesa sinalizando o nome da mulher, Shizune.
Acho que Shizune não ouviu os barulhinhos da Sarada mamando. Torço para que ela não escute. Torço para que ela tenha algum problema estranho e raro e não consiga ver bebês. Torço para que, quando ela me disser que eu não tenho o perfil desejado, ela não me olhe com pena ou faça alguma piada sobre minha filha.
Abaixo a cabeça enquanto espero.
Shizune suspira, quase exasperada, e resmunga algo sobre a bagunça da sala. Não respondo. Sarada solta o bico do meu peito e faz uma pequena careta antes de voltar a mamar. Dou uma risada sem perceber, às vezes ela é tão esfomeada.
— Ah, tá aqui! Haruno Sakura! – A mulher diz, mais animada. — Sabia que tinha imprimido seu currículo.
Dou um sorriso para ela, sem saber como responder, e ela se empertiga na cadeira me olhando como se realmente estivesse pronta para uma entrevista. Shizune tem um ar profissional, apesar de parecer bem gentil; ela usa brincos bem discretos, duas bolinhas cor pérola, e está vestida numa blusa de cetim por baixo do terninho marrom.
— Meu nome é Kato Shizune e sou uma das responsáveis pelo RH aqui do Senda. Muito prazer em conhecê-la – ela disse de maneira formal, parecendo ter feito aquele discurso tantas vezes que sequer precisava pensar para repeti-lo.
— O prazer é meu – digo polidamente, mas sei que soei um tanto apressada. — Ah, e... desculpe pelo atraso, a chuva acabou deixando o trânsito ruim.
— Tudo bem – ela disse, com um sorriso tranquilo. — O trânsito dessa cidade é uma loucura mesmo. Você dirige?
Pisco atordoada.
Eu tenho a carteira de motorista, mas isso é bem diferente de dirigir. Eu sei tirar o carro do lugar caso eu precise, mas não tenho prática. Nem carro tenho. Hesito em responder porque não sei se já é o começo da entrevista. Não sabia que para essa vaga precisava de habilitação.
Não sei como responder.
— Calma, Sakura. Não começamos a entrevista ainda – ela ri. – E não precisa ficar nervosa. Não vou te perguntar nada do que você já não saiba.
Tento sorrir, mas acho que minha expressão era mais para uma careta.
Se eu tinha uma chance de conseguir o emprego, eu sei que agora joguei tudo por água abaixo. Li na internet que a maior parte dos RH são formados em psicologia, então ela já deve estar me avaliando e listando todos os meus defeitos desde que colocou os olhos em mim.
Nervosa, insegura, atrasada, mãe...
Respiro fundo.
— Quer uma água? – ela me pergunta ainda com seu ar profissional.
— Não, obrigada – digo, mas a verdade é que eu quero, sim. — Faz tempo que não faço uma entrevista de emprego, então me sinto um pouco nervosa. – Admito para tentar ganhar alguns pontos.
— Tudo bem – ela me diz, parecendo se divertir com tudo o que digo. — Imagino que esse docinho de coco tenha a ver com isso, né? Como é o nome dela?
Encolho os ombros.
O que é que eu tô fazendo aqui?
— O nome dela é Sarada – digo, tentando disfarçar o constrangimento.
— Um nome diferente – Shizune comenta, e a bebê nos meus braços finalmente relaxa, concluindo sua refeição. — Ela tem quantos meses?
— Seis. – Respondo enquanto limpo a boca dela, logo depois de colocar minha teta pra dentro do sutiã. Shizune não tem que ficar vendo meus peitos. Já basta a humilhação que está sendo toda essa entrevista. — Faz sete em três dias.
Sinto que ela quer continuar me perguntando sobre Sarada, mas algo faz com que ela desista. Shizune parece ser uma pessoa legal, dessas que sabe que é indelicado ficar perguntar tanto sobre uma criança que você nem conhece.
Ela se recosta na cadeira e espera que eu coloque Sarada numa posição confortável para fazê-la arrotar. A olho com cautela, sabendo que pareço uma garotinha de 15 anos assustada, mas a verdade é que, apesar da idade, eu sinto que não cresci em nada.
— Antes de começarmos, eu queria te dizer que o hospital tem uma creche vinte e quatro horas para os funcionários – ela me informa com aquele ar calmo. — A criança também pode usufruir de todos os serviços do hospital sem custo até os 14 anos, e após isso o trabalhador ganha um desconto nos procedimentos e consultas. Além disso, para mães como você, com um bebê tão pequeno, é oferecido um auxílio na forma de bônus salarial. Não é muito, mas já deve ajudar com umas fraldas.
Escuto aturdida enquanto ela diz todas aquelas coisas, sem entender o porquê de ela estar me falando tudo aquilo. Será que ela vai me contratar por pena? Pessoalmente, eu até gostaria que fosse por mérito, mas não reclamaria se fosse por pena.
Sarada arrota, finalmente.
— Eu tô falando isso, Sakura, pra que você não ache que tá desperdiçando o seu ou o meu tempo com essa entrevista. – Os olhos dela são calmos, e sua postura ainda é profissional, apesar de parecer que ela não fala assim com todo mundo. — Não é porque não tem com quem deixar sua filha que você não tem chances para essa vaga, tá bom?
Concordo com a cabeça, me sentindo um pouco mais confiante. Sarada resmunga alguma coisa e ri logo em seguida. Dou um sorriso para ela antes de voltar meu olhar para Shizune, que se inclina na minha direção para pegar meu currículo.
— Vamos começar?
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