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Canto 16: Constelação de Touro
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Estou sentada em meu sofá na companhia de Ino.
Ela veio sozinha dessa vez, o que não é exatamente incomum, mas depois de tantas visitas de Sasuke sem ela, fiquei surpresa quando ela apareceu.
Foi um pouco estranho vê-la depois de tanto tempo, mas Ino continua completamente linda. Seus olhos ainda são brilhantes, seus cabelos são sedosos, suas roupas bem passadas e o jeito de falar continua o mesmo. Ela ainda é Yamanaka Ino.
Conversamos sobre uma viagem que ela fez para visitar seus pais. A mãe dela ganhou um desses gatos caros, ela me conta, e diz que a casa está coberta de pelos, mas que o desgraçadinho é um amor. Enquanto ela fala, reparo nos brincos de pedras brilhantes e no jeito que a pele dela parece mais viçosa. De alguma forma, Ino parece tranquila e relaxada, muito mais do que eu já vi em toda sua vida.
— E é isso, querida. – Ela suspira — Inojin agora não para de me pedir um bicho de estimação. Vou comprar um peixe, porque a bagunça fica só dentro do aquário.
Dou uma risada do jeito com que ela diz aquilo.
— Eu não sei como é de verdade, mas cuidar de peixe parece ainda mais trabalhoso que desses outros animais mais... comuns.
— Vou descobrir e te falo. – O piscar de olho cúmplice vem junto com um sorriso esperto. Eu gosto desse jeito dela tão dado.
— Conto com você – eu digo, tomando um pouco do chá que servi assim que nos sentamos. — Mas o Sasuke-kun parece ser o tipo que apreciaria um gato dentro de casa.
Eu não sei o que falei de errado, mas de repente ela muda. O olhar que ela me dá é quase analítico, como se quisesse descobrir algo por trás das minhas palavras, mas acho que não viu nada além do óbvio. Ela sorve um pouco do chá enquanto se prepara para algo e de repente percebo que ela está prestes a dizer algo importante, só não sei para quem.
— Não importa mais o que o Sasuke quer – ela me diz com um tom de voz brevemente endurecido, mas não o suficiente para fazê-la parecer irritada. Na verdade, Ino soa bastante indiferente. — Estamos nos divorciando.
Meu queixo cai.
Não vou ser hipócrita, porque eu já havia pensado nessa possibilidade, mas nunca achei que fosse ser real. Todos esses pensamentos pareciam mais como um desejo estranho de estar no lugar dela, algo como inveja, mas eu nunca achei que isso aconteceria num plano real.
Também não faço ideia de como está a minha cara, mas Ino continua me encarando com esse olhar corriqueiro, como se não tivesse me contado nada surpreendente, e isso só evidencia nossas diferenças.
Não sei o que dizer, hesito. Também não sei o que pensar. Tento imaginar o motivo por trás de tudo isso, imaginar se posso perguntar sem parecer que tenho algum interesse oculto. Não acho que Ino tenha me visto como uma ameaça ao casamento dela em qualquer momento de sua vida, mas agora eu não sei.
— Sakura, faça a pergunta – ela me pede, mais como no tom de quem dá uma ordem antes de tomar outro pequeno gole do chá verde. Mas não parece irritada, não parece vingativa. Ino parece só... muito resolvida.
— P-por quê?
Ela suspira e então tira um segundo para pensar. Quando seus olhos viram na minha direção, vejo que ela está decidindo o que vai dizer, ou como vai dizer.
Na verdade, ela pensa o deve dizer.
— Não posso dormir na mesma cama que um homem que não confia em mim – ela diz antes de colocar a xícara de chá meio vazia na mesa de centro. Quando volta à posição ereta, uma das mãos busca um pingente e finalmente noto que não usa aliança.
Nós nos olhamos e não sei o motivo, mas sinto que ela quer me perguntar algo. Ino hesita e, por fim, se resigna quando passa a mão nos cabelos, balançando a cabeça negativamente, mais para si do que para mim.
Eu não entendo. Ela mesma pediu para que eu fizesse a pergunta, entretanto me responde de uma maneira vaga. É como se ela quisesse que eu desvendasse uma charada, mas acho que não tenho material suficiente para juntar os pontos. Foi minha culpa? Eu ainda não sei dizer direito.
Fico mais tensa, abaixo a cabeça.
— Ino, eu sinto muito – digo, encolhida, ainda sem saber direito o que fazer, ou se devo continuar perguntando sobre isso.
Levanto o olhar de maneira amedrontada e a encontro me olhando com... pena? É isso?
— Não sinta – ela me diz de maneira certeira e toma um momento antes de continuar. — Sasuke não é exatamente um príncipe encantado. – E então me olha como quisesse me dar um aviso antes de complementar: — Lembre-se disso, querida.
Meu corpo esfria e o almoço revira em meu estômago.
Foi minha culpa.
De alguma forma, meu corpo estremece e minha mente fica urgente. Eu quero dizer a ela que não tenho nada com o Sasuke, que não tenho interesse nele, apesar de achá-lo bastante atraente. Mas de forma alguma eu tentei acabar seu casamento.
Nos meus sonhos, sim... Em vários momentos, eu entrei nesse devaneio perigoso sobre tê-lo encontrado antes, sobre nos apaixonarmos em uma realidade diferente, sobre... Sobre ele me salvar como um príncipe encantado salva a princesa numa torre, mas eu não sou uma princesa. Eu sou uma fodida.
Uma fodida que destruiu um casamento.
— Ino, eu juro que eu e o Sasuke, nós não...-
— Sakura – ela me interrompe com um ar de riso. — Você não tem nada a ver com nosso término.
A olho surpresa, confusa. Se eu não sou o motivo, então por que ela me diz essas coisas? Por que ela me fala que Sasuke não é um príncipe encantado com esse olhar de alerta? Foi ele quem me salvou. Se não fosse ele, eu estaria morando na rua, e Sarada estaria em um orfanato qualquer esperando para ser adotada.
Ino coloca a mão sobre a minha perna e sorri de um jeito sincero e gentil, mas ainda não entendo o que ela quer dizer. Nós nos olhamos por um momento e sinto que ela me fala a verdade em tudo o que diz. De algum jeito, eu consigo sentir isso.
— Sasuke é uma boa pessoa, mas quando se trata da família dele, ele é... complicado. Como eu te disse, não posso ficar com alguém escolhe não acreditar em mim.
Ela me olha de um jeito significativo, como se pudesse ler meus pensamentos e ver a minha alma. Eu estremeço. Ela sabe? O quanto ela sabe? O quanto ela descobriu? Como ela descobriu?
— ... e nós duas sabemos que ele também não vai acreditar em você.
...
— Eu não sei do que você está falando.
— Sakura...
— Você precisa ir embora.
— O quê?! Sakura, eu não quis-
— Ino, vai embora!
— Calma! Ei- não precisa me empurr- Sakura..-
Apesar de resistente, consigo arrastá-la pra fora do apartamento. Fecho a porta com força e escoro minhas costas nela para impedir que Ino force uma entrada, apesar de saber que alguém como ela não faria isso.
Me sinto tão desesperada que mal escuto Sarada chorar.
Sasuke não pode descobrir, porque se ele souber, então acabou pra mim.
Acabou tudo.
Ino bate na porta repetidamente, chamando meu nome de novo e de novo, mas eu me recuso a ouvir. Escorrego para o chão e abraço os joelhos, aterrorizada. Como ela soube? Como? ...
— Sakura! – A voz de Ino se projeta por trás da madeira da porta. — Eu sei que você tá aí e que tá me ouvindo, e quero que você saiba que eu vou acreditar em você. Eu vou acreditar em cada palavra sua. E se você precisar de mim... Quando precisar de mim, conte comigo. Meu número vai ser o mesmo. Ligue pra mim. Eu vou estar esperando.
Entre a fala de Ino e o choro de Sarada, tudo o que eu quero é deixar de existir. Me sinto envergonhada, suja, usada. Me sinto o pior tipo de ser humano e tudo o que eu queria é que essa sensação fosse embora, e sei que ela só vai quando eu morrer.
Desejo que um raio caia em minha cabeça, que eu tenha um mal súbito e morra, ou que eu simplesmente durma e nunca mais acorde. Tudo o que eu quero é jamais ter nascido. Tudo o que eu quero é não precisar passar por essas situações, sentir essas coisas.
Eu sou tão fodida que sequer amparar o choro da minha filha eu faço. Apenas fico aqui, parada, com as costas contra a porta enquanto Ino continua a bater na porta mais algumas vezes, chamando meu nome novamente, mas eu não quero ouvir.
Tudo o que eu quero é que ela vá embora e me deixe em paz. Que ela esqueça que eu existo e suma de vez. Eu quero só um pouco de silêncio e paz. Eu quero sumir.
E por mais que ela insista, eu sei que ela não pode me salvar, não pode me ajudar... Ela não tem poder pra isso. Não tem jeito, porque eles podem tirar a Sarada de mim, e...
Em algum momento o ruído cessa. Quase posso ouvir ela suspirar exasperada e ouço passos. Ela finalmente vai embora, mas a últimas palavras ainda martelam na minha cabeça, e luto para afastar aquela ideia absurda. Luto para afastar essa esperança vã.
— Quando você estiver pronta, Sakura, eu vou te ajudar.
Ninguém pode me ajudar.
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