Canto 24: Nebulosa de Mérope

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Hoje não é um bom dia.

Me sinto ansiosa e cansada como há muito tempo não me sinto.

Nada de estranho aconteceu no trabalho, mas quando chego em casa, começo a chorar sem motivo. Quero me deitar na cama e ficar lá até eu me sentir melhor, mas não posso. Sarada precisa de um banho, de comida e dormir. Talvez sejam as mesmas coisas que preciso, eu não sei.

Hoje eu não sei de muitas coisas.

Começo a agir no automático, fazendo as coisas que sempre faço assim que chego em casa. Tento não pensar, tento não interagir com a bebê, minha filha, mais do que o necessário, e, sendo o anjo que é, ela me poupa de seus longos monólogos balbuciantes e colabora com todas as etapas de sua rotina.

Eu tenho que agradecer muito aos céus por essa menina ser tão perfeita. É como se ela soubesse quando eu não estou bem e me poupasse, mas ao mesmo tempo, me sinto uma péssima mãe por agradecer logo isso na personalidade dela.

E é só isso.

Hoje eu não tenho condições de sequer tentar me pôr para cima, porque o para cima é muito alto, e eu estou muito embaixo. Eu me sinto no fundo do poço e arrastando uma criança comigo. Odeio que minha vida seja assim, odeio não ter forças para mudar, odeio ser tão inútil.

Coloco Sarada para dormir em seu berço e finalmente me sento para encarar a parede perto da televisão. Percebo que não tenho energia nem para chorar, mas a vontade está toda aqui comigo. Meu peito se contrai na tentativa vã de fazer lágrimas saírem dos meus olhos, até meu rosto se contorce numa expressão de dor, mas nada acontece.

Um soluço se projeta do fundo de minha garganta, mas não há lágrimas. Quem sabe eu já tenha chorado tudo o que tinha e agora não resta mais nada. Esse é o fundo do poço, ou talvez eu já esteja cavando mais para baixo. Eu não sei.

Hoje eu só não sei.

Levanto com o intuito de tomar um banho. Não resta muito a fazer além de dormir. Não tenho fome ou qualquer outra vontade além de me deitar na cama, mas quero um banho antes. Nesse momento, tudo o que eu quero é um banho. Tudo o que eu preciso é sentir a água no meu corpo e dormir um pouco.

Fecho os olhos tentando chorar novamente enquanto a água caí pelo meu corpo. Com a testa encostada no azulejo azul do banheiro, eu tento forçar lágrimas a saírem, mas nada acontece além da vontade de chorar se engasgar na minha garganta. É como se meu corpo se recusasse a me dar esse alívio, como se até essa capacidade me tivesse sido tomada.

É aí que eu escuto a porta abrir.

A essa hora da noite, só pode ser uma pessoa, ou talvez seja um criminoso qualquer em busca de itens valiosos. Talvez ele me mate. Vou implorar pela vida da Sarada, mas ele pode me matar, eu não me importaria. Seria até melhor, na verdade.

Mas sei que não se trata desse tipo de perigo.

Escuto os passos pesados. Ele só vem quando está bêbado. A porta do banheiro se abre e não preciso olhar para ele para ver seu sorriso torto. A água continua escorrendo no meu corpo quando ele entra no box com sapatos e tudo. Ele me diz coisas, me faz promessas. Tudo faz parte da encenação de bêbado.

Você é o amor da minha vida. Minha família. Eu te amo, Sakura. Me perdoe.

Sinto as mãos dele, a pele dele. Sinto ele se apossando de mim e fico em silêncio. Tenho medo de acordar Sarada, então fico quieta enquanto ele faz o que precisa fazer. Penso na minha lista de compras. Só tenho meio pacote de açúcar e preciso de mais arroz. Se eu achar uma promoção de detergente, vou comprar bastante para não precisar comprar por muito tempo.

São essas as coisas que penso para desligar do momento. Ele sempre vem assim, faz o que quer e vai embora. Se eu ficar bem quieta, é como se nada tivesse acontecido. Quando ele termina, ele me beija no ombro. Fico parada, em absoluto silêncio. Ele sai do box e sei que está se enxugando com a minha toalha.

Então o escuto se afastar, e quando finalmente a porta da frente se fecha, eu volto a me mexer. Termino meu banho passando mais sabonete, passando mais xampu. Gasto quase um frasco todo, mas só assim me sinto limpa. Vou tirando todos os rastros dele da minha vista; a toalha eu prefiro jogar fora. Quando alcanço uma nova, eu vou até Sarada só para saber que ela ainda está dormindo.

Olhando para ela, sei que sou uma pessoa péssima, mas no momento tudo o que eu posso fazer por ela é não acordá-la. Ela merece uma mãe que lute, mas só posso oferecer a ela uma falsa tranquilidade. Mas é por pouco tempo, Sarada, acredite. Eu estou tentando de verdade sair dessa vida por você.

Eu já tenho um emprego e vou arrumar um lugar novo para a gente, vamos recomeçar juntas. Eu tenho um plano, que não é muito bom ou sólido, mas ainda é um plano. É o único plano que eu tenho, se eu não conseguir, então... Então eu acho que vou ter que te dar para o Sasuke, porque você não merece viver numa casa onde seu pai bêbado, que nos ignora a maior parte do tempo, abusa de sua mãe quando quer.

Além disso, eu não sei como vai ser quando você crescer, porque enquanto os olhos dele só me enxergarem, então eu posso lidar com isso, mas se ele olhar para você e te quiser, se ele... tocar em você... Sarada...

Você merece muito mais.

Você merece uma casa cheia de amor.

Me desculpa por não poder te dar nada disso. Por ter feito as piores escolhas. Por ser fraca e não conseguir abdicar de você nesse exato momento, mas é que eu não estou pronta. Eu ainda quero tentar ficar com você, porque você é a única coisa que deu certo quando tudo deu errado.

Finalmente eu choro.

Minhas pernas ficam fracas e desfaleço ao lado do berço enquanto meu peito contraí em agonia. Eu choro tentando ser silenciosa para que minha filha não acorde. Nem percebo quando durmo, mas é ali, no chão ao lado dela, que caio nos braços de Morfeu e o sono finalmente me abraça.

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