. Canto 23: Beta Cephei

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Estou deitada em minha cama com Sarada ao meu lado. Cheguei em casa faz algumas poucas horas, com energia suficiente apenas para cuidar das necessidades da minha filha. Ela tá aqui, cheirando a neném limpo e dormindo de barriga cheia, enquanto eu ainda devo estar cheirando a hospital.

São duas da manhã, meu turno foi um inferno, minha cabeça parece que vai explodir a qualquer momento, mas a única coisa que importa é que minha filha, minha Sarada, tá limpinha e cheirosa enquanto dorme.

Eu sei que deveria me levantar, comer alguma coisa, tomar um banho... talvez isso me fizesse sentir um pouco melhor, mas não consigo. Eu não tenho mais energia para nada. Até mesmo dormir parece uma atividade que vai despender uma quantidade de energia que eu não tenho; por isso fico apenas aqui, deitada na minha cama, vendo Sarada dormir no silêncio noturno do apartamento.

De alguma maneira, minha mente vazia acaba vagando pelas lembranças. Acabo pensando nos meus pais, em como eles estão agora.

Enquanto eu tava lá no ponto de ônibus, vi os dois dentro de um carro. Não sei se eles me viram, mas eu os vi com certeza. Estavam em silêncio, ambos olhando para frente e ainda pareciam exatamente como eu me lembrava.

Eles me expulsaram de casa quando descobriram minha gravidez, há mais ou menos um ano e pouco. Não nos falamos mais desde então. Eles nunca me procuraram, e eu também não tentei entrar em contato.

Quando eu engravidei, ainda no primeiro mês, tentei abortar duas vezes por conta própria, com esses chás e receitas estranhas da internet. Sarada foi persistente, e eu acabei desistindo dessa ideia. Na época, eu não contei a ninguém. Fingi que nada estava acontecendo enquanto minha barriga crescia.

E aí minha mãe finalmente notou.

Eu tava no último semestre da faculdade, minha vida já tava horrível o suficiente, e minha mãe me olhou com aquela cara de decepção, enquanto meu pai, com sua voz de nojo, disse que não tinha criado uma filha pra isso.

Sim, eles são bem religiosos, e o fato de eu não querer dizer quem era o pai da Sarada contribuiu para que eles tomassem a decisão iminente de me jogar pra fora de casa, sem nenhum tostão.

O que aconteceu depois disso foi eu ficando na casa de alguns amigos, incomodando-os até ao menos concluir o curso, mas eu sabia que não podia contar com a boa vontade deles por muito mais tempo. Logo eles me falaram que eu não podia ficar mais lá, e minha única alternativa foi procurar o pai da minha filha no momento mais humilhante da minha vida, porque ele apenas me ignorou.

Ele nem chegou a me olhar direito enquanto eu falava que precisava de um lugar para ficar, que estava gravida dele. Aquele homem apenas me olhou por um segundo e disse que não era problema dele.

Minha sorte foi o Sasuke, que chegou na hora e deve ter tido pena de mim. Ele não fez perguntas. Apenas me disse que ia tomar conta de tudo, e assim o fez. Tá fazendo até hoje.

Talvez eu devesse falar mais sobre o Sasuke, sobre o pai da minha filha, sobre a situação da concepção dela... mas não é disso que se trata. É sobre como estou agora, diante da minha filha, sentindo falta da minha mãe.

Eu passei dias tão difíceis, momentos tão ridiculamente complicados, e a única pessoa que eu podia contar era comigo mesma. Todo o processo da gravidez, o parto, o pós-parto... tudo isso eu encarei absolutamente sozinha. Eu queria poder falar com a minha mãe, fazer perguntas, pedir ajuda.

Eu quis tanto pedir ajuda.

Mas eu sei que assim que eles descobrirem, vão dizer que foi culpa minha. Que tudo o que aconteceu na minha vida fui eu que procurei; e que se eu ainda estou vivendo dessa forma, é porque eu quero fazer isso.

O olhar de decepção da minha mãe, o último olhar que ela me deu, eu nunca vou esquecer.

E enquanto choro sem saber direto o porquê — afinal, são tantos motivos — eu olho para Sarada com a promessa de que ela sempre terá a mim, principalmente nos momentos mais difíceis. Quando ela mais precisar, eu estarei aqui pra ela.

É aí que eu ouço a porta abrir.

Prendo a respiração por um momento, sabendo exatamente quem é. Depois de um momento que parece ser uma eternidade, escuto sua voz bêbada chamar meu nome. Fecho os olhos com força antes de tomar coragem para me levantar. Sarada tá aqui e eu tenho que levá-lo pra longe dela.

Não o olho. Passo reto pra sala, sabendo que ele está logo atrás.

Parece que não tem jeito. Vou ter que tomar um banho, desses bem longos. É o que eu penso enquanto choro em silêncio, tentando pensar em qualquer coisa que me tire da realidade, que me faça esquecer minha própria miséria.

Mas hoje tá impossível.

Principalmente porque ele começa com aquelas promessas, dizendo que nunca vai amar alguém como me ama. Eu continuo chorando, querendo que ele se afaste de mim, que ele me deixe em paz, e penso em Sarada, sobre como eu tô sendo tão ingênua com ela... se momentos antes eu pensava em nunca a deixar, agora eu estou pensando que o melhor para ela seria ter outra mãe.

Sarada é perfeita. Ela é um bebê incrível e merece todo amor que alguém pode dar a ela, todo carinho e cuidado, e apesar de todas as dificuldades pelas quais passei por conta dessa gravidez indesejada, é ela quem me traz felicidade.

Nesse pensamento, soluço em meu choro, porque logo ela fará um ano, e eu ainda sou incapaz de nos tirar dessa situação. Ela tá crescendo, ela tá... e eu... eu ainda tô aqui, sendo acalentada por ele, que para por um segundo para enxugar minhas lágrimas, como se se preocupasse comigo, e inevitavelmente vejo seu rosto.

Nos olhos dele, eu me odeio. Me odeio por permitir que ele esteja aqui, me tocando desse jeito. Me odeio por permitir isso, e penso que minha mãe, nas coisas que ela me diria se eu dissesse o que está acontecendo na minha vida, estaria certa. Talvez seja mesmo minha culpa.

E tudo o que eu posso fazer pela Sarada é pedir a Deus que minha ela fique bem. Que quando ela crescer, ele nunca olhe para ela. Que seja eu sempre. Que seja apenas eu.

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