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Canto 12: Auriage
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Hoje é um Sábado, e estou de folga.
No momento, acabei de dar banho na minha filha agitada, que só não me molhou mais porque a tirei da banheira. Agitando a tiara que separei para os cabelos dela, Sarada se distrai enquanto eu passo pomada e coloco uma fralda nela.
Adoro que ela esteja balbuciando tanto ultimamente, tentando falar alguma coisa em seu próprio idioma de bebê. Confesso que estou ansiosa pela primeira palavra que vai sair da boca dela, esperando que seja um lindo e irresistível mamãe.
Ela grita em sua agitação, jogando a tiara para o lado. Dou risada, porque não tem muito o que fazer além disso. Hoje, eu tenho certeza que a danadinha tá pra me fazer de palhaça, é só olhar para esse rostinho sapeca e sei que ela só vai me deixar descansar quando ela não tiver mais nenhum pingo de energia – e isso só vai acontecer lá pras onze horas.
Termino de arrumar ela, colocando um conjunto vermelho e sapatinhos com elástico, porque ela tá com uma mania péssima de arrancar fora qualquer coisa que eu coloque nos pés dela. Nos olhamos, e ela ri. A danada tá tramando alguma coisa, eu posso sentir.
Pego ela no braço e saio do quarto no intuito de deixá-la com o Sasuke para poder me trocar.
Sim, o Sasuke tá aqui.
Ele passou um tempo sem aparecer, mas não deixou de me mandar mensagens. Disse que estava numa viagem de negócios, apesar de eu saber que o emprego dele é do tipo que não o tira da cidade. O Sasuke é dono de um punhado de postos de gasolina.
Ele e o irmão.
Acho que tá na conta de uns dez ou onze postos, fora uns apartamentos alugados que eles têm por aí e algumas outras coisas menores. Tudo isso rende um dinheiro muito bom, o suficiente para que vivam com conforto.
Quando finalmente saio do quarto e o vejo sentado no sofá naquela camisa polo azul escura, ele levanta o olhar para me encarar com uma expressão confusa.
— Você tá querendo se mudar?
Merda.
Ele tá com os folhetos de um condomínio novo que tão construindo do outro lado da cidade que o Chouji levou pro trabalho. São casas de baixo custo num bairro distante do centro, mas muito seguro. A Karui, esposa dele, trabalha de vendedora imobiliária para a construtora, e depois que eu comentei que adoraria me mudar, ele vem me trazendo todo folheto de novos empreendimentos.
Agora que trabalho, acho que posso financiar um lugar pra chamar de meu e parar de viver de favor, assim eu vou poder regular as visitas sem me preocupar em ser despejada, já que ninguém vai poder tirar a minha casa de mim; mas nenhum banco está disposto a entrar nessa sem que eu dê uma boa entrada, e por isso eu fico de mãos atadas.
... quer dizer, esse novo condomínio tá sendo construído em parceria com o governo, que tem um desses programas habitacionais que facilitam a aquisição, ou seja, não precisa da entrada, e só por isso eu peguei os folhetos e trouxe para casa.
E agora o Sasuke viu.
— Ahn, n-não... – minto, tentando não parecer hesitante demais. — Um amigo me deu o folheto, e... Eu só esqueci de jogar no lixo.
Ele olha para mim e sei que não acreditou em uma só palavra. Sarada balbucia algo e mexe as pernas com mais força, querendo alcançar um brinquedo no sofá. Notando a agitação, Sasuke se levanta com o brinquedo e encurta o espaço entre nós.
Agora Sarada tem seu brinquedo, e eu tenho o olhar avaliativo de Sasuke na minha direção.
— Talvez não seja uma ideia ruim — diz, antes de tirar Sarada dos meus braços. — Digo, se mudar para um lugar maior. Ela tá crescendo e vai precisar de mais espaço.
Olhando para ele, eu nem sei o que dizer. Concordo? Discordo? No momento, eu só me sinto idiota por ter deixado os folhetos largados na sala, porque agora ele sabe, e ele não podia saber.
Eu não quero viver às custas dele. Nunca quis.
Sasuke me salvou, mas ao mesmo tempo, me sinto enjaulada entre os motivos que me fazem apenas querer nunca mais vê-lo e as razões pelas quais eu ainda não posso simplesmente sair daqui.
As palavras de Ino me surgem de repente, e é estranho pensar que eu notei isso antes dela. Sasuke jamais acreditaria em nenhuma de nós.
Às vezes me pergunto se ele sabe de algo, se algum dia teve alguma dúvida, mas quando ele entra aqui com esse cabelo bem cortado, numa camisa polo azul que custou uma fortuna, dizendo que quer ir fazer compras comigo, eu fico pensando... e talvez ele não saiba. Talvez ele sequer tenha a capacidade de duvidar.
Nos olhamos.
— T-talvez — digo em minha visível insegurança.
O que se passa na cabeça dele quando ele sorri daquele jeito, como se tivesse achando engraçado minha hesitação?
— Tem um apartamento ótimo no mesmo prédio que o meu — ele fala, parecendo ter tido uma ideia brilhante. — Vou ver se consigo alugar ele pra vocês.
Meu coração para, mas Sasuke não parece perceber, porque continua:
— Seria ótimo ter vocês por perto. Facilitaria as coisas. Eu poderia ser mais presente pra Sarada e...
... não diga...
—... pra você.
Se recomponha, Sakura! Se recomponha! Eu grito em minha mente, mas céus... Só de pensar em morar perto do Sasuke, já me sinto tendo uma crise de ansiedade, porque isso significaria não apenas a presença dele, mas também... a presença do outro.
— Sasuke, um apartamento no seu prédio deve custar uma fortuna — digo rápido, quase atropelando as palavras enquanto tento não parecer tão aflita. — Você já faz tanto por mim, não quero que se preocupe com mais nada.
Ele, no entanto, apenas sorri.
— Pagar aluguel não vai me deixar pobre, Sakura. — Ele ri, talvez pensando que não tenho noção de quanto dinheiro a família dele tem. — E pensa, eu vou poder te levar pro hospital, ficar com a Sarada quando você precisar, te ajudar melhor no dia-a-dia. Vai ser bom pra nós dois.
À medida que ele fala, eu vou ficando cada vez mais ansiosa, pensando que não quero nada disso. Quero ir sozinha pro hospital, de ônibus, com a Sarada. Não quero ajuda e principalmente, não quero deixar a Sarada com ele. Não preciso desse tipo de assistência. Não preciso dele ainda mais perto de mim.
Por melhor que esse pacote pareça, nada disso me beneficiaria de verdade. Nada disso melhoraria minha situação, muito pelo contrário. Isso só pioraria tudo, e mais que isso, eu não preciso de nada disso. Eu não quero nada disso.
E é nesse desespero que eu deixo escapar em tom amedrontado:
— Sasuke, eu não quero.
Droga, o que eu fiz?!
Quando ele me olha, o cenho franzido em confusão, me pego querendo voltar no tempo para segurar essa minha língua. Como assim, "eu não quero"? Eu não tenho direito de querer ou não algo dele. Sasuke me dá tudo, e eu tô aqui, dizendo que não quero coisas com esse tom de voz quase desesperado.
Nós ficamos num silêncio brevemente constrangedor, o qual Sarada faz questão de quebrar quando derruba o brinquedo que estava segurando no chão. Ela quase se joga dos braços dele para buscar, e ele a segura firme enquanto eu me abaixo para devolver o brinquedo a ela.
Quando entrego o brinquedo na mão dela, vejo Sasuke me olhando de maneira séria, e tenho medo de descobrir o que está se passando na mente dele.
Meda de situação, eu realmente fodi tudo?
— Tudo bem — diz ele por fim. — Nós podemos... ver os dos folhetos, se for mais confortável pra você.
Apesar das palavras, sinto como se ele estivesse dizendo tudo aquilo de maneira afetada. Eu quero morrer. Eu quero sumir.
Ele me devolve a Sarada, que sorri para mim antes de enfiar o brinquedo na boca. Meu Deus, essa coisa acabou de cair no chão, penso enquanto puxo o brinquedo da boca dela, mas ela insiste, e eu, como péssima mãe que sou, desisto também.
— Sas-
O telefone dele toca antes que eu termine de chamar o nome dele, na intenção de tentar arrumar as coisas com uma desculpa qualquer, mas agora é tarde. Ele atende, e pela voz que vaza do autofalante, sei que é o tio deles.
Uchiha Obito.
De uma maneira extremamente educada, ele concorda com o que quer que seja que o tal Obito esteja dizendo, acenando positivamente com a cabeça num gesto automático. Nunca vi Sasuke recusar um telefonema do tio, ou respondê-lo de um jeito que seja menos respeitoso do que se espera.
Quando ele desliga, dá um longo suspiro enquanto pragueja algo sobre o irmão, e só então ele se vira para mim, ainda sério, e diz:
— Preciso ir.
Ele explica que aconteceu uma urgência num dos postos que administra e se desculpa por não poder me acompanhar, como esperava fazer quando chegou de supetão bem na hora que eu ia fazer as compras pro mês.
Quando ele vai embora, eu me sento no sofá e dou um longo suspiro, torcendo para que tudo fique bem.
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