N/A - Avisos: descrição de (qualquer) violência e cena de sexo.
Espero que você fique ansiose para ler o primeiro capítulo dessa aventura, porque eu estou SALTITANTE!
Prólogo
Apesar dos anos de treinamento, no dia do lançamento, estar dentro da cabine de controle, amarrado e ouvindo a contagem regressiva, era diferente. Uma parte de mim estava completamente ciente de que aquilo era tudo que eu precisava fazer. A outra estava travada e assustada, me prendendo no assento confortável de tecido. Pisquei lentamente algumas vezes, tentando afastar a lembrança da nossa saída da órbita terrestre. À minha frente, uma imensidão de cor azul marinho era nossa estrada, decorada por um globo esverdeado. Por alguns meses, esse era nosso novo endereço.
A nave havia partido da Terra às 13:42 em ponto, do dia 02 de janeiro de 2100. O destino se chamava Viridis, um planeta menor que a Terra e nosso vizinho. Ele havia sido descoberto há 80 anos e nos últimos vinte, diversos profissionais buscaram nele uma alternativa de sobrevivência. A terra já não era a mesma dos livros de história. Milhares de espécies animais e vegetais foram extintas, chuvas ácidas já eram rotineiras, havia um crescente número de pessoas acometidas por doenças degenerativas, o aquecimento global foi acentuado e, além de desprovidos de recursos naturais, havia escassez de água potável e nenhuma forma de contornar o prejuízo. Cresci sabendo que um futuro catastrófico seria tudo que restaria para as próximas gerações. Pergunto-me a que ponto a humanidade chegou.
Hoje, 13 de agosto de 2100 às 14:21, chegaríamos ao nosso ponto de chegada. Durante dois anos, além dos ensaios, estudei tudo o que tínhamos do pequeno astro. Esse foi o maior, e único, projeto da minha vida. Sua superfície era plana, extremamente verde e com milhares de aglomerados de água fervente por sua extensão. Sondas haviam sido enviadas, e por isso contabilizamos que a temperatura mínima era semelhante à da Terra, cerca de 42 graus celsius. Essa não era a primeira tentativa, mas era a primeira vez com uma operação tripulada.
O objetivo da missão nº 504, era coletar informações básicas como qualidade da água extraplanetária, saúde do solo, composição do ar atmosférico, existência de toxicidade e possibilidade de fontes de recursos naturais. A minha missão era descobrir a existência de vida, inteligente ou não, assim como os outros tripulantes tinham as suas em particular. Éramos uma equipe de quatro pessoas: o comandante McCarty era engenheiro mecânico, a copiloto Clearwater era nossa médica, Denali era a astrônoma e eu, o astrobiólogo.
Durante os anos de estudos, sabíamos que existia a possibilidade de desmaio na decolagem e não foi diferente. Lembro de perceber o líder e também amigo, ser o mais resistente durante o impulso. Treinados para acordar rapidamente, buscando o controle total da situação, lutei contra a sonolência. Agora, mais de sete meses depois, estávamos nos preparando para passar novamente pelo mesmo ritual. O pouso.
Todos os dias dentro da nave, obrigatoriamente pela manhã, registramos um diário de experiência e uma vez na semana podíamos conversar com nossas famílias. Da Terra, meu pai enviava instruções de como não desnutrir no espaço; minha mãe pedia para que eu desse outra chance a Tanya; e minha minha irmã caçula, Bree, pedia para que eu fizesse piruetas no interior da nave sem gravidade. Ri da lembrança.
A operação tinha o prazo de dois anos de duração, mas os poucos 221 dias dentro da espaçonave pareciam se multiplicar. O tédio me pegou completamente no dia 56, quando já havia lido o primeiro livro do Harry Potter, emprestado por minha irmã, e percebi que não poderíamos parar no Mc Donald's e comprar um milkshake. Bree se divertia quando eu contava sobre as comidas desidratadas e sem gosto que tínhamos. Sem dúvidas, os momentos de conversas com ela me mantiveram são.
"Comandante, os propulsores estão prontos para ativação", fui interrompido pela voz decidida de Leah.
"Após a contagem de cinco segundos, no meu sinal", Emmett respondeu calmamente. Ele olhou por cima do ombro com um sorriso brincalhão para Tanya e eu, sentados atrás das poltronas de comando. "Tudo certo aí atrás, Denali?", perguntou para ela.
"Sim, comandante, cintos afivelados", ela respondeu na mesma direção, após conferir nossos cintos. Fazia parte do procedimento o comandante tomar ciência de todos antes e depois de grandes manobras, mas Emmett fazia isso como forma de libertar a tensão da equipe também.
"Cullen, recipiente à postos?"
"Negativo", respondi apenas e ele se voltou para frente gargalhando, fazendo as meninas rirem. Babaca, ele sabia que eu iria enjoar de novo. Isso era totalmente normal. Fiz uma nota mental para zoar sua coleção de lubrificantes automotivos.
"Muito bem", ele disse apertando várias teclas em uma ordem coreografada. "Cinco…", Emmett começou a contagem e a copiloto endureceu no assento.
"...um. Acionar propulsores", ele falou bruscamente. No segundo seguinte, Leah levantou uma alavanca à sua direita. Em resposta, a nave chacoalhou e um enorme coice nos atingiu. Em órbita desconhecida, quebramos a barreira do som.
Meu corpo grudou na poltrona assim como dos outros tripulantes. Apertei meus dedos por dentro da roupa pressurizada, torcendo para nenhum incidente acontecer. Alguns minutos depois, senti meu corpo amolecer. Olhei para Tanya e ela estava apagada. Minha vista escureceu.
Lá vamos nós de novo, foi a última coisa que eu pensei.
Ainda oscilando, acordei e dessa vez Leah ainda não havia retornado.
"Ela já deveria ter retornado, não acha?", olhei para Tanya, falando preocupada.
"Clearwater falou que durante todas suas missões o pouso era pior", respondi buscando estabilidade para os meus olhos e voz.
"Isso ainda me assusta", respondeu ela com os olhos fixados na amiga.
Depois de quase um ano, éramos como uma família. Apesar das investidas e tenacidade de Tanya, ela era a mais preocupada com todos. Um pouco disso era parte da sua função.
"Vocês poderiam acreditar mais na ciência, por favor?", Leah respondeu e, quase simultaneamente, Denali soltou uma respiração pesada no microfone. Dentro do capacete o chiado fez meus ouvidos arderem. Encolhi os ombros assim como o resto da equipe, arrancando um "desculpa" baixinho dela.
Tão rápido quanto o alívio de Tanya, uma cor vermelha começou a iluminar o painel de controle e um aviso sonoro arrastado apitou por toda a nave. McCarty procurou atento, enquanto a copiloto corria os olhos pelo manual.
"Está tudo certo, comandante", ela respondeu sem que ele perguntasse.
"Eu sei", disse ele com uma voz baixa. "Mas iremos chocar contra alguma coisa", ele avisou.
Respirei fundo. Essa era uma possibilidade pela qual fomos treinados. Repassei os passos a serem seguidos: conferir o cinto de segurança, curvar o corpo sob as pernas e esperar.
"Mas não há nada, não vejo nada, McCarty", a voz de Leah tremia, eu podia sentir suas ondulações.
"Não há nada, mas vamos", ele repetiu. "Todos curvados", por sua vez, a voz de Emmett se manteve firme. "Preparar para impacto".
Alguns minutos depois, sem qualquer aviso, a nave raspou alguma superfície e desequilibrou, nos obrigando a sair da rota original e fazer um pouso de emergência. Como um terremoto, o chão abaixo de nós tremeu e levantou poeira, tampando todo o campo de visão ao pousar.
Nos entreolhamos, incrédulos. Essa não era a primeira missão do piloto e da copiloto, apesar de ser para Tanya e eu, mas era a nossa primeira que todos iriam pisar em outro planeta. Felizmente, vivos.
"Parabéns, Emmett e Leah", deixei a formalidade de lado por alguns segundos e minha felicitação soou como um agradecimento. Nossa comemoração foi interrompida pela voz conhecida da torre de comunicação na Terra.
"Estação Midnight Sun, câmbio", disse.
"Torre, câmbio", Emmett respondeu rapidamente.
"Bem-vindos à Viridis. Parabéns equipe! Estamos acompanhando vocês, bom trabalho", disse o presidente do projeto, Sr. Black. Atrás da voz dele, conseguimos ouvir a sala de lançamento eufórica.
"Prontos para servir a nação…", começou o piloto.
"... com ciência e competência", nós três concluímos nosso lema.
Segundos após nossa saudação, uma voz robótica ecoou dentro da nossa estação:
Tripulação, pouso obtido com sucesso. Nenhum dano detectado nos motores. Vedação intacta. Aguardando confirmação para processo de saída na sala de despressurização.
"Chegamos, meus amigos, chegamos", Emmett gritou sorrindo com os braços abertos.
Chegamos à Viridis, repeti para mim mesmo.
