N/A: Obrigada a todos os comentários! Vocês são fundamentais pra essa história acontecer.
Parte 1 - A Primeira Vista
Depois do pouso forçado, nossa estação precisaria de alguns reparos externos, mas nada demais. Emmett conferiu e tivemos a sorte dos propulsores estarem intactos também. Ele pediu para descansarmos antes do trabalho começar. Da minha cabine, eu conseguia ouvir todos os preparativos para nossa saída.
Como o fuso horário com nosso planeta de origem não era tão grande, e não poderíamos sair até a tempestade de areia passar, organizei meu caderno de anotações ouvindo música de um aparelho de som primo do falecido mp4 que eu consegui carregar com minhas músicas preferidas. O barulho de pedras chocando contra nossa armadura gigante diminuiu com o passar dos minutos, então logo estaríamos pisando em território desconhecido.
Guardei meu aparelho no bolso da calça e ao entrar na minha rede de acesso, para atualizar meu diário de bordo, percebi que ainda estávamos sem transmissão ao vivo. Então, dei início à uma gravação que só chegaria à Terra em algumas horas.
"Dia 13 de agosto de 2100, às 15:48. Deve ser meio-dia por aí e vocês estão almoçando. Eu só queria dizer que chegamos à Viridis", gaguejei com os olhos fixos no homem do monitor. "Ainda não pisamos lá fora", indiquei com o queixo para o lado. Automaticamente, olhei para minha janela. A tempestade estava diminuindo.
"Ei, mãe, não deixe que Bree coma todos os milkshakes. Isso é sacanagem!", mudei de assunto assim que voltei para a tela. Havia um peso no meu peito que eu não queria compartilhar com eles. Essa profissão sempre foi meu sonho, mas tudo estava mil vezes mais complicado. O que restou do nosso planeta não estava errado em colocar uma expectativa em nossa missão, mas nos últimos meses me peguei várias vezes pensando como seria voltar para casa sem nenhuma resposta. Sem nenhuma solução. Eu só queria falar sobre coisas normais, mas não tinha como ignorar tudo isso. E como eu sentia falta deles. "Bom, isso é tudo no momento. Tentarei avisar o quanto…", parei de falar quando percebi que Tanya tinha entrado no meu mini quarto sem bater na porta, chamando meu nome.
"Ops, desculpa", ela saltou atrás de mim. Seus olhos correram até a tela ligada do computador e então continuou: "São eles?", confirmei com a cabeça. Ela conheceu minha família dois anos atrás, quando iniciamos os treinamentos. Tanya e eu saímos algumas vezes e, para uma mãe acostumada a ver um filho preso em um laboratório, meus pais queriam que levássemos a frente.
"Sr. e Sra. Cullen. Bree, tudo bom?", ela falou dando tchau com a mão esquerda e a outra apoiou em meu ombro. "Fiquem tranquilos que estou cuidando direitinho dele. Edward está bebendo água, Sr. Carlisle. Tchau, tchau", disse sorrindo.
"Emmett está chamando todos na sala de reunião", falou baixo, próximo ao meu ouvido. Depois de apertar meu ombro, ela saiu.
"Preciso ir. Amo vocês, se cuidem. De Edward, câmbio desligo", sem jeito, concluí minha atualização. Ela tinha batido com a cabeça durante o pouso? Antes de embarcarmos, conversei com ela sobre nosso verdadeiro objetivo. Não queria lhe dar esperanças, então confirmei que não seríamos nada mais do que fizemos, quando ela me perguntou. Eu sabia que a tinha magoado, mas mentir seria muito pior.
Segui logo atrás dela pelos corredores iluminados demais e coloridos de menos. Tudo dentro da Midnight Sun era branco. Paredes, tetos, pisos, fardamentos, toalhas, lençóis e talheres. Nossas cabines eram os lugares de mais vida. Um dos pré-requisitos que a NASA usou para nos selecionar, foi a ausência de cônjuges. Então nossas paredes estavam cheias de fotos dos pais, dos irmãos e dos animais de estimação.
Leah estava aferindo a pressão de Emmett, que estava sentado na frente da mesa redonda, quando entrei no salão. Tanya sentou-se em uma cadeira qualquer e eu permaneci parado.
"Tripulação", cumprimentei.
"Vamos ver se tem alguém passando mal, foram muitas emoções", Emmett respondeu com um sorriso no rosto, quebrando qualquer formalidade que eu coloquei nas palavras. Agradeci. "Pedi para que Leah conferisse nossa pressão antes da despressurização", disse ele.
"Claro. Você quer que eu faça em você Leah?", ofereci meu mísero conhecimento sobre medicina com uma careta. Minha amiga sorriu.
"Mas você primeiro", ela respondeu.
Depois de todos devidamente examinados, ouvimos Emmett explicar alguns procedimentos padrão para o caso de contratempos e fizemos os últimos ajustes.
"E aí, esperançoso?", ele perguntou, entregando-me uma caneca com café enquanto eu colocava alguns instrumentos de coleta em uma maleta, depois da reunião. Minhas placas de comunicação, apelidadas gentilmente de "quebra-gelo", estavam enfiadas no fundo da mala. Mesmo sem nenhum sinal de vida inteligente no período em que as sondas analisaram pequenas partes do planeta, selecionei imagens que explicassem três perguntas: o que somos, de onde viemos e o que queremos.
"Obrigado", sorri de volta pegando de sua mão. "Precisamos estar, Emm", respondi.
"Olha, cara, sei que todos aqui precisam cumprir funções. Mas eu também sei que Billy Black colocou um grande peso nas suas costas", disse ele, dando duas batidas nas minhas costas. "Vamos fazer isso dar certo".
Eu queria poder agradecer meu melhor amigo por tentar aliviar meu trabalho, mas com as poucas possibilidades na Terra, o mínimo que eu pudesse fazer era pouco. E só eu poderia fazer isso. Assim como apenas Tanya poderia coletar informações físicas do planeta, só Leah poderia cuidar de nós quatro em qualquer situação arriscada, e somente Emmett poderia resolver algum problema técnico caso não conseguíssemos sair desse planeta em alguns meses. Aqui, éramos únicos. Singulares.
Virei para ele e antes que eu pudesse abrir a boca, uma onda de ar balançou nossa espaçonave me fazendo tropeçar. Derrubei o café em algumas lâminas virgens, enquanto Tanya engatinhava em nossa direção. Leah gritou do corredor algumas palavras misturadas, antes de aparecer no salão. Emmett conseguiu se segurar na mesa que tremia. Andei com dificuldade até a janela mais próxima e os outros fizeram a mesma coisa.
Apesar da certeza de não ter batido a cabeça durante o pouso, eu pediria uma tomografia a Leah mais tarde. Do lado de fora da nossa peça invasora, duas criaturas olhavam em nossa direção. Ambas de corpo alongado e azulado se destacavam no cenário esverdeado do planeta.
"O qu-que é aquilo?", Leah gaguejava atrás de mim.
"São ETs", Emmett respondeu quase como se tivesse fogos de artifícios na voz. "São ETs, né?", perguntou para mim, baixinho dessa vez.
"Acho que nós é que somos estranhos aqui, Emm", falei.
"A tempestade parou", Tanya alertou. Meus olhos estavam grudados nas criaturas e nem percebi a mudança do clima lá fora. A areia que antes rodopiava o ar, pairava calmamente no chão. O tremor cessou e nós ainda estávamos nos segurando nas paredes.
"Certo. Todos de trajes extraveiculares. Plano 3 em ação", disse o comandante, caminhando até o compartimento que antecede a zona de despressurização. Sem deixar de seguí-lo, nos entreolhamos confusos. Pensei em intervir, assim como as meninas, mas estávamos de frente com o inacreditável. Aí estava a esperança que queríamos.
O plano três era nossa última opção, porque dentre tantas possibilidades, essa era quase irreal.
Nossas vestimentas, sobre o fardamento, eram mais leves que as roupas dos astronautas nos anos 2020. Eram pretos, levemente moldados ao nosso corpo e o capacete tinha um visor de 180 graus livre e transparente. Apenas o oxigênio foi mantido como antes, preso em cilindros, que por sua vez foram modernizados.
Apesar de não conhecer nada sobre a substância verde que enraizava todo o solo, sabíamos que ao pisar não sairíamos flutuando como na lua. Viridis tinha uma fisiologia semelhante à da terra, então treinamos com alguns pesos nos tornozelos por meses.
Estávamos em fila, fechando as vestimentas uns dos outros, de olhos vidrados na janela oval do portão. Completamente equipado, apanhei minha maleta no chão, torcendo para não ter esquecido nada.
"Ótimo, todos aqui", disse a copiloto. "Antes de iniciar nosso procedimento de abertura, vamos inspecionar".
"Edward. Pipeta, espátulas, tubos de ensaio e quebra-gelo", disse o piloto andando por nós, um por um, sem parar.
"Confere", respondi, apertando a alça da mala nas mãos.
"Aparelho detector de radiação e kit primeiros socorros, confere senhor", respondeu Leah.
"Tanya?", observei Emmett perguntar enquanto fixava novamente os olhos nas criaturas, paradas como estátuas do lado de fora.
"Gravidade 12 m/s² no exato momento, senhor. Temperatura constante em 42 graus. Sem vento, então presumo nenhum sinal de tempestade de areia por agora", disse ela em pausas prolongadas, enquanto lia seu tablet. Emmett confirmou com a cabeça e parou na frente da porta, com uma das mãos apoiadas na cintura e a outra olhando a aparelhagem em seu pulso.
"Iniciando a despressurização em três segundos", disse, então a porta se fechou atrás de nós, separando-nos de fato do resto da nave. No três, uma voz robótica avisou dentro dos capacetes: Liberação de oxigênio em atividade. Despressurização iniciada.
Minha mão tremia como se eu tivesse em uma noite de inverno. Fechei meus olhos tentando buscar a capacidade que eu precisaria para lidar com aquilo. Nossa tensão era palpável e se intensificou quando a voz falou novamente.
Portas em automático.
Emmett foi o primeiro a pisar em Viridis, seguido de Leah, eu e depois Tanya. O nervosismo deu lugar ao cansaço. Caminhamos a passos curtos em direção às duas criaturas azuis. A cada novo centímetro percorrido eu podia sentir meu corpo pesar. Os pesos de 10kgs nos tornozelos durante o treinamento foi uma boa simulação. Mas, para se aproximar melhor da realidade, eu diria que um treino com uma mochila do dobro de peso nas costas, seria mais fiel. Todos nossos equipamentos estavam presos em nossas cinturas ou nas mãos, e ainda sim parecia que eu tinha subido correndo dois lances de escadas com tudo nas costas.
Paramos a 10 metros dos dois seres, provavelmente, que assim como nós, estavam todos de roupa preta com alguma coisa escrita em suas camisas. Todos esse tempo eles permaneceram parados. Cogitei avaliar se estavam vivos mesmo. Calmamente, andei mais alguns metros e apoiei minha maleta no chão, retirando com dificuldade as placas de comunicação. Organizei como no ensaio.
Viradas para eles, a primeira linha tinha uma placa com o desenho de um ser humano sem sexo definido e acima da cabeça o nome dizia "espécie humana", escrita em código binário. Por algum motivo, os físicos acreditavam que eles iriam entender essa linguagem, então incluímos no projeto. Na segunda linha, tinha duas placas. A primeira era o planeta terra ao lado do sol e a segunda da nossa nave. Ao juntar as duas peças, acima dos desenhos, dizia "planeta Terra viagem" na mesma linguagem. A última linha, seguindo o mesmo padrão de compreensão, mostrava três placas. O primeiro era o desenho de um mar e o segundo era um livro. Respectivamente, água e conhecimento. Assim como os outros, o terceiro estava codificado, mas não tinha desenho algum. Era apenas uma placa toda em vermelho e ao centro a tradução binária para a palavra "help".
Voltei para o lado da equipe. A poucos metros, consegui observar que as criaturas tinham corpo feminino. Semelhante ao dos seres humanos, haviam duas ondulações na região do busto. Uma era maior que a outra, apesar de ambas criaturas alongadas. Em suas vestimentas a sigla "SIVC" era garrafal e se destacava em amarelo. Letras? Aquilo eram letras.
A mais alta e de cabelo cinza, caminhou sozinha alguns metros até nosso texto. Olhou de uma ponta a outra, analisando todos os detalhes, cheiros e possíveis armadilhas. Apesar de desconfiada, ela parecia segura. Passados alguns segundos, caminhou de volta até a outra e depois apontou com o queixo em nossa direção. Um som atingiu meus ouvidos, enquanto elas se comunicavam. A tripulação gemeu com o mesmo. Era semelhante a uma tv sem sinal, o ruído era baixinho, mas persistente. Novamente sem palavras, a menor de cabelo preto andou rapidamente até as placas e voltou. Era difícil distinguir o que elas falavam e pensavam de longe, então comecei a andar com a palma da mão direita aberta na frente do meu corpo.
"Cullen, retornar", disse Emmett.
"Senhor, permissão para negar", respondi sem olhar para trás.
"O que você tá fazendo? Não sabemos o que eles querem", disse Tanya estridente no fone.
"Eles também não sabem o que queremos".
Ao lado da nossa apresentação formal, apontei para a placa do ser humano e depois para mim. E na placa da nave, indiquei aquele monte de metal atrás de nós. Ambas criaturas me olhavam atentamente.
"Tanya", a chamei.
"Ouvindo"
"Porcentagem de oxigênio e dióxido de carbono do ar", pedi com urgência. Havíamos estudado a composição da troposfera de Viridis, mas tudo o que tínhamos era advindo da captação superficial das sondas.
"18% de oxigênio e 1% de CO2", ela respondeu prontamente. Ainda eram níveis adequados. Suportáveis.
"Comandante, permissão para retirar capacete", virei para eles antes de falar. Sabia que ele negaria, mas essa era a nossa oportunidade de comunicação extraterrestre e talvez a única de buscar ajuda inteligente. Então, antes de terminar minha frase, comecei a soltar a vedação do capacete manualmente.
"Nega… Você está LOUCO?", a voz de Emmett chacoalhou em meu tímpanos.
Fiquei de costas para meus amigos novamente e tirei o capacete. As duas saltaram para trás e a maior posicionou as mãos em forma de X, formando uma película transparente sobre as duas. Magia?
"Mas o que é aquilo?", pude escutar Leah dizer em meu fone. Antes que eu pudesse observar um pouco mais daquilo, minha respiração pesou. Senti um pouco de tontura, então melhor firmei meus pés no chão de areia.
Respire devagar, lembrei a mim mesmo. Ajustei o equipamento e me aproximei novamente da placa de ser humano.
Apontei para mim e disse: "Humano". A de cabelo preto, tão escuro quanto a imensidão do espaço que estávamos algumas horas atrás, saltou para frente da outra e novamente emitiu o mesmo som de antes enquanto se comunicavam. A outra desfez o que que fosse aquilo e caminhou em minha direção.
Seus passos eram cautelosos, chegavam a ser selvagens. Ela parou a poucos metros de mim, antes de continuar. Tentei não me mover, ignorando as vozes desesperadas de Emmett, Leah e Tanya dentro da minha cabeça.
Mais próximo, percebi que o corpo alongado não era sinônimo de altura. Ela muito provavelmente bateria em meu peito se me desse um abraço. Em medidas humanas, teria um metro e meio, calculei rapidamente. Então a outra talvez tivesse um metro e quarenta? Ela era minúscula na frente dos meus um e oitenta e oito.
Alguns centímetros mais perto, dei um passo pra trás instintivamente. Ela levantou a palma da mão assim como eu fiz antes e recuou a cabeça um pouco. Parei. Me surpreendi quando notei todos os detalhes do seu rosto. Eu não escutava mais nada.
Agora tão de perto, ela tinha no topo da testa uma tiara com três cristais, dois brancos e uma ametista no meio. Os olhos tinham a mesma cor dos cabelos. Cinzas e cintilantes, se destacavam no centro do rosto fino. Em seu pescoço, finas linhas esbranquiçadas subiam até as têmporas como tatuagem. O levantar da sua cabeça revelou longas orelhas pontiagudas e alguns piercings.
A criatura pousou a mão em meu rosto e fechou os grandes olhos. As linhas do seu pescoço começaram a brilhar igual vagalume na escuridão selvagem e alguns segundos depois ela abriu os olhos. Eles brilhavam igual as pedras da lua.
Talvez Emmett estivesse certo, eu estava louco. Mas de uma coisa eu tinha certeza, ela era incrível. Bela.
E aí o que acharam?
