Demorei, mas voltei com um capítulo ENORME!


Parte 2 - Propósitos

Fazendo minha cabeça retornar para a órbita, aquele ser de cabelos cinzas proferiu sem ensaio nenhum as últimas palavras que eu pensei: "Bela", com olhos que me prendiam. Dessa vez meus ouvidos não arderam, nenhuma TV fora do ar.

"Isso falou?", Tanya gritou no meu ouvido. Senti um tremor passar por todo meu corpo. Como ela poderia se referir a elas de forma tão objetificada?

"Com todas as letras", Leah respondeu.

"Consegue me entender?", perguntei baixinho enquanto ela deixava cair a mão.

Ela apenas balançou a cabeça em positivo. Eu estava vivendo a ciência, meu deus.

"Vocês viram isso?", perguntei ainda olhando para ela.

"Sim", responderam de uma vez só.

"Ainda bem que tudo fica gravado, Edward", a voz de Emmett transmitia um desespero interno e ao mesmo tempo felicidade.

"Você. É. Humano", ela afirmou pausadamente. Tive a sensação de ser abraçado por um casaco de veludo, sua voz era tão mansa.

"Sim", respondi baixo demais. O sopro das suas palavras era cítrico. Cheirava a limão. A outra criatura se aproximou de nós dois e parou logo atrás da outra. Seria rude demais perguntar o que elas eram?

"Viridissianos", ela respondeu com um rosto seguro. Falei em voz alta?

"O que isso quer dizer?", o comandante disse. Continuei olhando para elas. A de cabelo preto tinha cicatrizes no lugar das linhas brilhantes no pescoço. Ela era realmente pequena, de rosto alegre, mas ao mesmo tempo assustada, se escondendo. Parecia ter saído de dentro do livro Alice no País das Maravilhas.

"Acho que é o que elas são, senhor", respondi. "Viridissianas", repeti a palavra ainda com dificuldade. Inacreditável. "Meu nome é Edward e aqueles são meus amigos. Qual o nome de vocês?", perguntei apontando para trás e olhando para ambas.

"Meu nome é Titân…", ela se interrompeu, tirando pela primeira vez os olhos dos meus, levando-os ao chão. Possivelmente a gravidade em Viridis era instável, pois meu corpo parecia pesar, um vazio me consumiu. "Meu nome é Bella. Alice. Amigas", disse ela franzindo as sobrancelhas. Se ela tava confusa, eu tava pior.

Estranho. Se eu não tivesse lidando com uma situação completamente extraordinária, diria que ela tinha lido meus pensamentos. Ela repetiu duas palavra que eu pensei, respondeu o que perguntei mentalmente e agora eu consegui ouvi-la perfeitamente. Sem mencionar aquela armadura em forma de X.

"Você e seus amigos precisam sair daqui", essa foi a maior frase que ela elaborou em minha língua. "Diga a eles que é perigoso aqui fora", foi tudo que ela disse antes de se virar para Alice e emitir o mesmo som irritante de antes.

"Por que?", perguntei.

"Edward, abortar contato", Emmett exigia.

"Vocês conseguiram escutar? Ela disse que é perigoso", respondi rapidamente.

"Claro, elas estão aqui fora", a voz irritante de Tanya já estava me tirando do sério.

"Dá… pra você… calar a boca só por um minuto?", soltei. Ouvi ela resmungar baixinho.

"Edward, o que você pretende fazer? Você não já se arriscou demais?", Leah perguntou.

Sem qualquer explicação, caminhei de volta para meus amigos, parando a poucos metros deles. Algumas vezes olhei para trás, para confirmar que elas ainda estariam ali. E estavam. Paradas como estátuas.

"Comandante, gostaria de pedir desculpas por minhas atitudes indisciplinares, primeiramente. Sinto muito. Depois, quero dizer que esse é o motivo por terem enviando um biólogo para o espaço. Antes de tudo isso acontecer, fomos relembrados de nossos objetivos e funções. Ficou muito claro a minha. Eu preciso, antes de tudo, levar algum tipo de solução para casa. O que eu conseguir, ainda será pouco, porque estamos correndo contra um tempo que não conhecemos. Tudo está em colapso e isso aqui", apontei para o chão, "é tudo o temos. Então, eu peço permissão para continuar a explorar esse planeta".

"Você perdeu completamente o juízo. Não sabemos o que elas querem, nem se os nomes delas são esses mesmo. Me poupe", disse a física, com os braços cruzados na frente do corpo, revirando os olhos.

"Tanya, agora não", Leah respondeu.

"Edward, você tem noção que isso é loucura, né? Porque eu tenho, mas não posso deixar que vá sozinho. Iremos todos", Emmett me surpreendeu. Sorri em resposta.

"O que?", a irritante reclamou. Como eu pude beijar ela?

"Acredito, assim como ele, que estamos aqui por um motivo e viemos fazer todo esse projeto valer. Eu também não estou 100% seguro dessa decisão, mas é uma oportunidade única e que não irá se repetir. Quem estiver indisposto de ir, deve revisar os motivos por ter saído da terra a sete meses atrás", Emmett falou olhando para Tanya.

"Sim, senhor", ambas responderam.

Andando, olhei para Bella e Alice. Elas olhavam as placas estiradas no chão. Quão ridículos nós fomos. Pensamos que o código binário seria a única forma de comunicação, mas nunca imaginamos que tivessem um alfabeto como nós. Presunçosos. O ser humano e sua natureza arrogante.

Senti a equipe me acompanhar à passos mais lentos. Ao lado de Bella, parei e observei ela chutar de leve a placa vermelha.

"São feitas de plástico, nada demais", falei sorrindo. Ela paralisou por um momento. Meu corpo ficou tenso como da primeira vez que pisei em Viridis. As linhas em seu pescoço brilharam e ao passo que eu me assustava, elas se apagaram.

"Tudo bem?", perguntei e fui respondido com uma cabeça balançando. "Então, vocês conseguem entender tudo isso?", apontei para o chão.

"Sim. Compreendemos esse tipo de codificação, mas não é usual. Vocês são do planeta marrom e precisam de ajuda", ela resumiu. Era doloroso demais reconhecer o planeta terra na frase.

"Isso", confirmei, antes de continuar. "Por que aqui fora é perigoso?"

"Vocês realmente não percebem?", ela disse com os olhos arregalados. Mantive o silêncio para que ela entendesse que eu não entendia o que ela queria dizer. "Tudo o que vocês estão pisando é Tálio", meu corpo gelou.

"TÁLIO?!", Emmett gritava. "Exijo que coloque seu capacete agora mesmo, isso é uma ordem, Edward", ele disse. Obedeci. Enfiei minha cabeça no capacete e fechei o visor. Era estranho respirar oxigênio com facilidade novamente. Leah e Tanya permaneceram caladas. Nem precisei virar para ver o rosto de Tanya, mas sabia que sua mente estava gritando "eu avisei". Foda-se.

Olhei confuso para as duas à minha frente, procurando um capacete ou máscara que fosse. Como elas poderiam estar tão à vontade, mesmo em contato com um elemento químico tão tóxico.

"Não somos afetados. Diferente de vocês", respondeu somente. Ela realmente parecia me ouvir. Alice andou até as placas, tirou a areia de cima e levantou a vermelha. Seus olhos diziam alguma coisa que eu não conseguia traduzir. Estavam curvados para baixo, mas expressavam urgência. Seu olhar zapeava entre Bella e eu segundos antes dela falar. Sua boca se movimentava como a minha quando falava, mas o som era o mesmo chiado de antes. Devido à perfeita capacidade de falar de Bella, elas pareciam se comunicar em outra frequência.

"Se vocês querem ajuda, precisam ir com a gente ou sair daqui. Foi o que ela quis dizer", a garota de cabelos cinza falou.

"Nós iremos", confiança era tudo que eu não podia cobrar deles. Acabamos de invadir seu planeta sem nenhum aviso prévio e ainda estamos implorando por ajuda. Zero espaço para desconfianças.

"Me acompanhem", ela disse. Assim que Bella virou de costas, percebi que ela carregava em sua cintura um cinto de pele, quase da mesma cor da sua pele. Preso por uma corda, ele vibrava. Caminhamos por alguns vinte metros em silêncio, toda a tripulação estava mais afastada e por último Alice, que agora abria um bastão antes dobrada, fechando nossa procissão.

Paramos próximo a enormes pedras. Diferente das outras que encontramos no caminho, essas não eram metálicas. Presumi que não tivessem a mesma composição do resto que ficou para trás.

"São feitas de minerais, como as do seu planeta", ela respondeu. Isso tava me assustando. Essa foi a primeira vez que ouvi Bella sorrir. Foi uma risadinha baixa, parecia os estilhaçar de vidro no chão. Notei que ela estava olhando de soslaio para mim, quase como se me observasse também. "Segurem-se", ela pediu.

Bella fez novamente o X com seus braços. Então, como antes, uma onda de ar invadiu o ambiente. Tudo ao nosso redor tremia. Firmei bem o pé no chão, enquanto examinava minha tripulação fazer o mesmo. Tanya como sempre, resmungava alguma coisa. Leah estava vidrada nos nossos sinais vitais em sua aparelhagem no pulso. E Emmett olhava atento para Alice atrás dele. Ela sorria com a nossa falta de costume.

Com tudo ainda tremendo, Bella andou mais um pouco e acompanhei. Eu não tinha explicação científica nenhuma, depois de uma breve batida no chão e alguns passos, tudo estava calmo novamente. Senti um jato de ar descer até o chão atrás de nós. Olhei rapidamente, mas não encontrei nada além de Alice agitando seu bastão.

"Bem-vindos à Z-02", disse Bella. Leah perguntou o que era e Bella nos contou que a Z-01 era consumida de tálio e nós pousamos na fronteira e por isso eles nos avistaram. Essa era a área habitada do planeta. Estávamos de fato entrando em uma cidade extraterrestre.

Corri até estar ao lado dela e perguntei: "Como vocês sabem que aqui dentro não está contaminado também?", ela me olhou timidamente.

"Há mais de cem anos atrás, o antigo rei Izar condenou Viridis com uma maldição Sileo. Seriam 10 anos de prosperidade e 100 anos de desgraças. Ele era como eu", seus olhos caíram. Queria perguntar o que ela quis dizer com aquilo, mas ela foi mais rápida em continuar e se ouviu minha mente, ignorou. "Então, para nos proteger, o sábio Yu pediu para que os ancestrais criassem um escudo protetor. Esse mesmo que acabamos de atravessar. Depois disso, fomos assolados por desgraças e todo o solo lá fora se tornou infértil. Mas seguimos seguros, por enquanto". O escudo! Por isso raspamos em alguma coisa antes do pouso.

"Por enquanto…?", instiguei para que ela continuasse, mas a atenção dela já não estava mais em mim. Ao longe conseguia ver, por trás de algumas árvores, um grande muro e a poucos metros uma guarita no alto de uma estrutura de madeira, que se camuflava no meio das árvores. No chão, havia uma tenda e uma fêmea parada, em posição de guarda.

Bella olhava firmemente para cima enquanto nos aproximávamos. Alice passou por nós correndo, segurando seu bastão.

"Qual palavra vocês usam para duas pessoas que em breve vão ficar ligadas para sempre, como um só? Só consigo lembrar de conúbio…", ela perguntou raspando o dedo indicador no couro cabelo. Eu nunca tinha ouvido essa palavra.

"Você quer dizer casamento?", falei.

"Antes disso, humanos fazem outros rituais", disse enquanto indicava para seguir com a mão aberta. Observei que ela tinha todos os dedos da mão. Por que nós desenhamos alienígenas com três dedos? Bella me olhava confusa. Balancei a cabeça para desfazer a imagem.

Noivado?, era a única palavra que me veio à mente. As palavras mal tinham saído da minha boca, quando ela já agradecia.

"Crisp.. Aquele é o noivo de Alice", observei que essa era a segunda vez que ela se confundiu ao dizer os nomes. "Aqui chamamos de Unum, mas não temos o ritual de noivado como vocês. Eles estão se casando há três luas", completou. Do alto, ele descia pela escada.

"Você tá me dizendo que o casamento de vocês dura dias?", Tanya soltou as palavras com rispidez.

"Normalmente, nossos casamentos são como o noivado de vocês. Então, dura alguns meses. É um período de conhecimento e conexão que só os dois podem decidir. Mas o Unum deles será mais rápido. A família dela quer comemorar o nascimento", ela sorriu olhando para a outra. Talvez um pouco de sanidade voltou para a cabeça de Tanya, porque nem ela nem ninguém disse nada. Entendi que aquele era um assunto pessoal e nós éramos estranhos. Mas, eu realmente precisava testar a nossa nova forma de comunicação, se é que ela fosse possível.

Grávida?, pensei. Bella olhou pra mim e afirmou com a cabeça. Ela me ouvia. Isso era quase inacreditável. Respirei fundo.

Observando melhor, Alice já aparentava uma barriguinha sutil. Fazia sentido o posicionamento de proteção que Bella havia tido em torno de Alice quando eu tirei meu capacete. Ela estava protegendo a amiga e o bebê. Lembrei da minha família, do quanto estar aqui significava mais para eles do que pra mim. Eu faria qualquer coisa para protegê-los.

Pense em qualquer coisa, qualquer coisa, implorei a mim mesmo. Ela ainda me encarava. Isso atravessava tudo que a medicina conhecia.

Você não pode dizer seus nomes de verdade, certo?, perguntei mentalmente para ela.

E novamente ela confirmou com a cabeça. Alice estava no pé da escada enquanto o homem com orelhas pontiagudas como as delas, descia. Ele pegou Alice pela cintura e, apertando-a contra seu corpo, esfregou o nariz levemente no dela. Se eles conhecessem, eu diria que era como um beijo de esquimó. Voltei a atenção para Bella. Sua bochecha perdeu a cor azulada e pegou um tom de rosado. O cinto em sua cintura vibrou novamente. Interessante.

Ele tem cara de Jasper, pensei olhando para ela, enquanto ela sorria. Bella levou mais alguns segundos até continuar o que dizia.

"Esse é um dos nossos Guardiões da Fronteira… Jasper", ela respondeu. A espécie masculina tinha cabelos loiros demais, quase brancos, e algumas cicatrizes no rosto, assim como sua noiva tinha no pescoço. Ele parecia um guerreiro, carregando consigo um bastão semelhante ao de Alice. Talvez por isso, ela deveria ser uma guardiã também.

Ele olhou pra ela gesticulando e liberando mais uma onda sonora desconhecida. Ouvi Emmett gemer atrás de nós. Enquanto eles conversavam , Jasper examinava nós quatro. Seus olhos eram dourados e, diferente de Alice, pareciam preocupados.

"Por aqui", disse Bella finalmente. A outra guarda subiu até a guarita, tomando o posto de Jasper, enquanto ele entrava na tenda. Apesar de Jasper ser quase do meu tamanho, agradeci pelas duas fêmeas terem parado do lado de fora. Temi que Emmett não coubesse. Já do lado de fora, Jasper trouxe quatro circunferências azuis sob a palma da mão.

"Isso são tradutores", Bella falou, segurando um. "Vocês devem pôr no ouvido e assim conseguiram se comunicar". Ela simulou como fazer enquanto falava. Os outros três se aproximaram, desconfiados.

"Comandante?", Leah falou com uma voz escorregadia.

"Vamos manter o planejado. Eu começo. Leah fique atenta aos sinais físicos", ordenou ele. "É só colocar?", e Bella só concordou, enquanto ele retirava o capacete.

Emmett colocou a peça dentro da orelha e, como se algo fosse lhe atingir, cerrou os olhos fortemente. Em um segundo, uma camada semi-transparente cobriu a cabeça dele e, no seguinte, desapareceu. Emmett passou a mão na sua frente e não tinha nada lá.

O som de TV fora do ar invadiu novamente meus ouvidos. Dessa vez era mais grave, fazendo todos se curvar um pouco, com as mãos tampando os ouvidos, menos Emmett. Olhei na direção do som, e Jasper gesticulava para ele com um rosto suave.

"Sim, está tudo bem", o comandante respondeu e em seguida fez positivo com o dedo em nossa direção. Eu, assim como as meninas, tirei o capacete e coloquei o ponto tradutor no ouvido e me encolhi com o zumbido que fez, o mesmo que rádios faziam ao sintonizar algum canal. Em frente aos meus olhos a mesma película se formou. Simultaneamente, o som diminuiu e a camada se desfez. Olhei para Tanya e Leah, elas se entreolhavam.

"Consegue ouvir minha voz, Edward?", impossível não ouvir. Como se eu tivesse assistindo um filme em um TV 8K ou até mesmo ouvindo música em uma das cabines de imersão que tínhamos na Terra, eu ouvia a voz de Bella com total limpeza. Não havia ruídos, interferências, apitos, zumbidos ou falhas. Era apenas a voz aveludada e mansa de antes. Arrepei ao perceber que essa foi a primeira vez que ela disse meu nome.

"Sim", respondi olhando-a.

"Finalmente posso falar sem ferir alguém, já era hora", disse Alice com tom fino, segurando a mão de Jasper. Em suas mãos livres, estava o bastão de cada um, aberto e encostado no chão. Ela vibrava com a felicidade.

"Sigam-me", disse a voz penetrante de Jasper, contrariando seus olhos divertidos.

Caminhamos por uma floresta aberta, seguindo uma trilha de terra. Até agora tudo me lembrava das imagens que vi nos livros de história do meu planeta mais de oitenta anos atrás. Certo que as árvores tinham folhas com recortes estranhos, mas a maior diferença era a variação de cores. Era tudo muito colorido, desde o gramado até as enormes árvores. Um tipo específico chamou minha atenção. Olhei para os outros humanos e eles estavam tão paralisados quanto eu.

Ela se destacava na noite que caia. Parecia uma árvore comum, com um tronco grosso e volumosas folhas no ápice, se não estivesse… brilhando. Todas as folhas eram da cor de fogo e de perto ardiam um pouco os olhos. Era linda.

"Que espécie é essa?", perguntei. Jasper se enrijeceu na minha frente.

"Perdão, ainda estamos nos acostumando em ver estrangeiros conhecendo o nosso lar", disse Bella. "Isso é uma nisbör", falou apontando com o queixo para a árvore.

"Bom, não é uma árvore", ela corrigiu. "Essa espécie de planta nasce de uma grande árvore semelhante à essa, porém maior e mais brilhante. A chamamos de Oritur, aquele de onde tudo surge ou recomeça".

"Acredita-se que a Oritur está no planeta desde o surgimento. Há quem diga que ele irá nos salva", disse Jasper.

"Vocês vêem as folhas?", perguntou Alice e eu confirmei. "Alguns grupos têm desmatado boa parte dessas plantas para fazer uma espécie de entorpecente com as folhas e vender em outros planetas habitados". Uou, informação demais.

"Espere, você tá me dizendo que existem contrabandistas intergalácticos?", perguntei parando no trajeto.

"E que existem outros planetas habitados?", Leah perguntou.

"Outros ETs!", Emmett exclamou atrás de nós. Péssima hora, amigo.

"Sim. Ora, vocês não pensaram que só existiam vocês e nós em todo universo, né?", Alice foi educada, porque era pior: pensávamos que estávamos sozinhos no espaço. Egoístas.

"Sim também para os contrabandistas", respondeu Bella enquanto voltávamos para nossa caminhada. Mais alguns minutos e estávamos ao lado do muro, no escuro da noite que já havia caído e com ela a temperatura. O céu de Viridis era tão escuro quanto na terra, com a diferença de que daqui eu conseguia ver meu planeta ao lado de uma grande estrela brilhante.

Olhei minha aparelhagem no pulso. Como contávamos as horas como no horário terrestre para facilitar o contato com a torre de comunicação, apesar do fuso horário, haviam passado quase duas horas desde quando tudo aconteceu. O dia aqui parecia passar mais rápido.

Para a minha surpresa não atravessamos a barreira de rochas quando tivemos a oportunidade, permanecendo na trilha de antes. Com um pouco, comecei a enxergar algumas luzes no meio da floresta. Mais de perto pude ver algumas casas de madeira suspensas em árvores e outras de pedra no chão, próximo às fogueiras. Os viridissianos rapidamente notaram nossa presença, parando de fazer o que faziam e focando atenção em nossos trajes.

"Quantos peregrinos a profecia dizia?", disse a voz grave cochichou.

"Cale a boca, criatura!", e uma voz feminina lhe respondeu.

"São eles, mama!", exclamava alguma criança.

Espere…. o que?, Bella me lançou um olhar rápido, como se eu tivesse lhe chamado atenção em minha cabeça. Mas logo ela ignorou.

Andamos um pouco mais ainda sob vários olhares curiosos, até finalmente chegar a uma casa maior que as que vimos antes.

"Essa é nossa casa", disse Alice para todos nós. Entramos todos, e por sorte a casa não era tão baixa. Por dentro, assim como na floresta, havia muita cor. Uma grande sala com almofadas e mini acentos no chão estavam ao centro e na periferia, havia um compartimento pequeno, com algumas madeiras encostadas no pé da porta e comidas de cores duvidosas em cima da mesa. Próximo à janela, havia uma escada vertical que provavelmente levava para o quarto. Debaixo da escada, duas portas estavam fechadas.

Bella permaneceu próximo a porta que entramos, enquanto os outros se sentavam no chão. Alice avisou que serviria um jantar e Jasper a acompanhou.

Profecia, huh?, olhei para Bella, de braços cruzados.

"Sim", ela pareceu mais aliviada quando eu finalmente dirigi palavras para ela. Bella parecia se limitar a ouvir minha mente em outros momentos. Eu não saberia explicar, mas estava gostando de poder conversar com ela de forma tão particular.

"Izar nos amaldiçoou por ódio", disse enquanto se dirigia para a roda na sala. Eu a acompanhei. "Ele já era idoso e precisava de um descendente para ocupar seu lugar. Mas, como não podia ter filhos de sangue, odiava a ideia de renunciar seu reinado. No ano da Escolha, Tesla se tornou nossa rainha e até hoje seus descendentes ocupam seu lugar, geração após geração", disse.

Eu podia sentir o cheiro de comida que vinha da cozinha. Bella continuou enquanto Jasper trazia cuias e colheres Quase me queimei quando tentei ajudá-lo. Os kits soltavam fumaça, apesar de vazios, quase que esterilizados.

"Izar se enfureceu quando percebeu que uma mulher havia lhe sucedido, então lançou a maldição. Ele era como eu", disse soltando faíscas ao mexer as mãos. Já era a segunda vez que ela dizia isso em poucas horas.

"O que você quer dizer com isso?", perguntou Leah.

"Existem três tribos em Viridis. Os Realus, são a nossa realeza, todo e qualquer um que se torne rei ou rainha e suas famílias. Hoje quem nos governa é a rainha Zafrina. Os Sanus são nossos guerreiros e normalmente estão ligados a algum elemento natural, como Alice e Jasper". Lembrei de quando Alice mexeu seu bastão um pouco depois do chão parar de tremer, assim que atravessamos o escudo.

"Meu elemento é Terra", disse Alice orgulhosa da cozinha ao nosso lado. "E o dele é Fogo", falou apontando para Jasper. Agora os talheres faziam sentido. Ele poderia me esterilizar também.

"E a minha, são os Magunus. Assim como eu, o rei Izar era um mago e só nós conseguimos aplicar o Vox, uma espécie de tradução verbal que permite compreender qualquer linguagem", ela me olhou com timidez. Novamente sua bochecha se tingiu em rosa. "E através do toque, também consigo ler mentes".

Outro olhar, só que agora de desculpas. Então, sem pensar demais, encostei meu joelho no dela, que estava cruzado, pois estávamos sentados no chão. O toque foi sutil, mas o suficiente para que aquilo que ela carregava na cintura vibrasse mais um vez.

"Alguns anos depois, o sábio Yu recebeu a profecia: Após o Sileo, forças irão derrubar e energias destruir. De pé, o peregrino será guiado pelo perito. E juntos, revelar o bem que ainda resta", Alice e Jasper acompanharam em um tom mais baixo a última frase da profecia. "Todos os descendentes da rainha tentaram desfazer a maldição e ninguém conseguiu".

"E qual o final dessa maldição? Pobreza total?", supôs Tanya. Eu tinha esquecido completamente da presença dela. Estava acostumado a ouvi-la falar demais e nas últimas horas ela se privou do ridículo algumas vezes.

"Implosão total de Viridis", senti a pele de Bella tremer. O quão irônico era buscar ajuda em um planeta do qual estava em apuros como nós? Vidas inocentes iriam morrer por ódio, enquanto nós morreríamos por egoísmo e ganância. Afinal, quem realmente precisava de ajuda?

"Muito bem, a comida chegou", avisou Alice trazendo uma grande panela de metal. A sopa tinha uma aparência bem bonita, não muito diferente das que minha mãe fazia. Todos foram servidos, então Jasper continuou de onde Bella havia parado.

"Quando éramos crianças, começaram a se formar alguns grupos contra a realeza. Eles alegam que nenhum Realus tem se importado com a maioria, que agora vivem pobres nos arredores do reino. Os mesmo se uniram aos apoiadores de Izar que existem até hoje", ele levantou uma sobrancelha. "Então revoltas e vandalismo era normal, até o número de assassinatos e suicídios aumentar. Foi com isso que alguns pupilos de Yu, responsáveis por acompanhar a degradação do planeta, perceberam que a velocidade da implosão desacelerou".

"Mortes? Mortes ajudaram o planeta?", perguntou Tanya novamente. "Isso é ridículo", ela disse.

"Tanya, por favor, que tal um pouco mais de respeito?", falei com um tom áspero demais na voz. Ela rolou os olhos, afastando-se um pouco da conversa.

"Sim. Desde então, estamos recebendo qualquer tipo de ajuda científica ou não. Sabemos que o corpo dos seres vivos apresentam uma porcentagem alta de carbono e que ele é o verdadeiro freio. Alguns dos nossos sábios tentaram produzir carbono sintético para reverter o quadro, mas só funciona com puro", os olhos de Bella estavam atentos.

"Então", interrompeu Emmett, enfiando mais uma colher de comida na boca, "Nós viemos atrás de ajuda, mas vocês é que estão em apuros? Como isso vai funcionar?", indagou ele de boca cheia, deliciando a sopa que eu ainda não havia tocado.

"Hoje, vocês dormiram aqui", Bella começou a falar, "E amanhã de manhã levaremos vocês até a rainha. Ela saberá o que fazer".