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Espero que gostem desse capítulo DIFERENTE!


Parte 3 - Explicações

Bella's POV

A casa de Isla e Crispian estava sendo meu suporte desde que saí do amparo real. Lá, eu tive alimento, abrigo e treinamento. Nunca reclamei, porque tive quase tudo. Mas meu tempo já havia terminado.

Esperavam que ao atingir a fase adulta, encontrássemos nosso próprio destino longe das amarras da rainha. Ela não fazia aquilo de propósito, é claro. Haviam muitas novas crianças como eu, uma Maguna. Então, não era difícil imaginar quão ruim seria abrigar mais adultos do que recém-nascidos.

Conheci Isla no treinamento de lutas e Crispian era nosso monitor, estava um ano à nossa frente. Eles se apaixonaram e eu pude ver eles formarem a família que estavam construindo. Eram, na verdade, meu único exemplo de família. Na casa deles, me sentia bem, porém deslocada. E foi por isso que Isla me ofereceu o quarto de visitas, que logo seria do bebê em seu ventre. Mas hoje eu não dormi nele.

Um pouco por segurança e um pouco por medo, dormi em um colchão no andar de cima, do lado oposto da cortina que privava o quarto do casal. Embaixo, os humanos dormiram no meu quarto, amontoados. A de cabelo curto e o grandalhão não, mas talvez a loira quisesse formar o segundo casal da casa com Edward, julgando por suas investidas mal sucedidas. Tanya, escutei seu nome algumas vezes, era uma criatura bonita, apesar de irritante, como ele mesmo pensava às vezes.

Por outro lado, ele não era irritante nem bonito. Edward tinha um cheiro, um físico e semblante que beirava a perfeição. Durante nosso treinamento, estudei um pouco sobre os humanos e o planeta Terra. Sabia que ambos eram perecíveis, extremamente falhos e perceptíveis a erros. Enquanto o DNA humano apresentou diversas mutações genéticas ao passar dos milênios possibilitando com que soubessem como lidar com aquilo, o código genético viridissiano só apresentava um erro: os Magunus. Eu. Sempre fomos considerados um sinal de dias ruins. Mas desde o rei Izar, a fama só se concretizou cada vez mais.

Sem conseguir dormir, levantei e me dirigi à casa de lavagem para me limpar e trocar de roupa. Como todos dormiam, voltei para a janela sem me preocupar em esconder a cauda. Apesar da escuridão dentro de casa, nosso astro noturno iluminava meu cabelo cinza. Desfiz as pequenas tranças escondidas e fiz uma trança única. Joguei o prolongamento para trás e foquei meus pensamentos no céu pouco estrelado de Viridis. Além da insônia, alguns pensamentos turbulentos me perseguiam. Eram tão altos que, às vezes, eu tinha quase certeza de que estavam vindo de fora.

Se eles não conseguirem nos ajudar? E se eles forem embora sem ligar para o fim de um planeta e milhares e milhares de vidas inocentes, assim como os outros fizeram? E se ele nem se importar com o nosso desespero? E se morrermos?

Edward era o mais interessado, mas eu ainda tinha medo. Tanto por seu planeta quanto pelo meu. Estávamos duplamente em apuros.

Um… rabo?, a voz gritava. Virei rapidamente, quase derrubando os vasos de plantas no chão.

Edward estava atrás de mim, apenas com uma calça de tecido grosso e branco. Ele tirara aqueles trajes escuros e a camisa. O peito nu com alguns pelos ruivos refletiam próximo à penumbra. Lembrei-me de olhar para outro lugar. Normalmente, os humanos não gostavam de ser encarados por muito tempo.

"Achei que estivesse dormindo", disse ele finalmente, com uma voz rouca de sono, em um baixo volume.

"Não estava com sono", e assim voltei a encarar a janela, virando somente a cabeça. Meu corpo ignorou o comando e permaneceu de lado, sendo atraído pela voz dele.

Desculpa se te assustei, não quis ofender, pensou Edward.

"Não assustou", respondi. "Você já deve tá com sede de novo, não?", perguntei virada por completo para ele.

"Um pouco, mas não quis incomodar", seus olhos eram sinceros. Os mais.

"Tudo bem, nós falhamos. Não estamos acostumados em receber humanos em casa", falei um pouco rápido demais.

Fiz os mesmo movimentos de antes. Nós não precisávamos tanto de água quanto os humanos. Era estranha a quantidade. Conjurei as palavras do feitiço em sussurro e movimentei minhas mãos no ar, como se dançassem. Uma faísca de luz roxa saiu delas e eu direcionei a energia para uma jarra de argila.

"Acho que isso serve", eu queria poder enterrar meu corpo na colina mais próxima. Edward tinha os olhos arregalados. O que ele estava pensando? Ele já havia me visto fazer isso antes, logo depois do jantar. Isso não era mais uma surpresa.

Isso é lindo, novamente a voz dele invadiu minha cabeça. Olhei novamente e Edward encarava minha cauda novamente, segurando um copo com água.

"Lindo?", havia resquícios de amargura na minha voz, eu sabia disso porque ele recuou um pouco.

"Desculpa, não sei bem o que isso representa pra você, mas eu nunca vi igual"

"Bom, representa minha anormalidade", dei-lhe um sorriso seco.

Depois de beber, ele se aproximou. Devagar, como se tivesse receio.

"Bella, está tudo bem?", ele cochichou. Tentei ser fiel aquela conversa, afastando a mente dele da minha.

"Sim", respondi somente, arrependendo-me em seguida. "Eu s-só não consigo lidar com esse peso".

"Que peso?"

"Você não vê? Depois de tudo que contei sobre a maldição e sobre nossas tribos, você não consegue perceber que é culpa minha?"

Não, isso não tem a ver com você!, ele gritou. Impossível não ouvir.

"Eu sou uma Maguna, então essa cauda e esses poderes foram capazes de colocar um planeta todo em extinção", eu queria gritar. Sentia meu peito inflamar.

"Não. Izar foi capaz de por todos vocês em perigo. Ainda não acabou, Bella", disse ele à três palmos de mim. A voz de Edward era firme.

Fiquei de costas para ele. Eu simplesmente não conseguia lidar com os olhos dele, então fixei meu olhar no céu novamente.

"Qual o nome da lua de vocês?", disse ele, bem ao meu lado.

"Saxis", respondi, agradecida por ele mudar de assunto. "Consegue ver que ela não está completa?", ele concordou com a cabeça. "Todos os dias ela aparece um pouco mais evidente e quando esta surge completa, significa que passou-se um mês".

"Isso é completamente novo. Você ficaria decepcionada se eu disser que a nossa lua não tem um nome?", disse ele passando a mão no cabelo com um corte bem baixo. Seu sorriso era tímido.

"Não", sorri dele. Ele realmente parecia envergonhado por não ter uma história para me contar. Ficava lindo com as bochechas levemente rosadas. "Obrigada", falei.

Não me agradeça, pensou ele, sorrindo ao pôr as mãos no bolso da calça.

"Você tá certo, ainda não acabou. E eu preciso encontrar uma forma de ajudar o meu povo", falei decidida.

"Ei", ele colocou uma mão em meu ombro enquanto dizia. Senti um calafrio nas costas, quase me fazendo recuar. "Vou te ajudar. Estive pensando que talvez eu tenha alguma informação útil em minhas anotações. Na Terra, eu era biólogo…", e seus olhos pousaram confusos no meu cabelo. "... ainda sou, na verdade. Quer dizer, eu posso ser biólogo aqui, né?", ele realmente parecia assustado com as próprias perguntas. Totalmente à vontade em um planeta totalmente desconhecido. Edward parecia em casa e essa sensação me dava leveza. Era quase como se estivéssemos no lugar certo.

Gargalhei. Não sei de onde surgiu aquela vontade de rir, mas eu coloquei para fora. Ele me acompanhava com os olhos, até não se segurar também. Edward conseguiu me fazer flutuar em uma mistura de sensações com tão pouco. O humano perguntou mentalmente do que ríamos, mas eu não consegui responder. A mão dele caiu e agora a outra segurava a barriga enquanto ria.

"Tem gente que precisa dormir, sabia?", disse Isla, ou melhor, Alice, com as mãos apoiadas na cintura e um bico nos lábios. Pensei em dizer-lhe os nossos nomes, mas ainda não era hora.

"Perdão, Alice", Edward respondeu, se pondo mais ereto.

"Eu…", tentei me desculpar, mas estava concentrada demais na tentativa de abafar minha risada e não acordar mais ninguém.

"Está bem, acho que já está na hora de acordar mesmo", e assim sua fisionomia chateada foi embora. "O que acham de fragus e pão?", perguntou em bom tom.

"Pão eu conheço, mas o que são fragus?", disse Emmett ao sair do quarto. Era impressionante e engraçada a fome dele. Era o mais animado do grupo, apesar de ter falado que nós éramos "ETs", quando na verdade, eles eram os nossos. Ouvi Edward perguntar das garotas, mas elas ainda dormiam. Nada em especial para Tanya ou Leah. Antes dele notar algo diferente em mim, prendi a cauda no local habitual.

"É uma bebida?", perguntou Edward para Alice.

"Não. É uma fruta, seu bobo", respondeu ela quase saltitante. Quase em sintonia, Crispian desceu a escada vertical e caminhou até ela, que por sua vez, tocou o rosto dele com carinho. Ele lhe deu um selinho na boca e correu a mão por sua barriga. Nunca usei minha capacidade de ler mentes com meus amigos, nunca toquei o rosto deles com essa intenção e nem nunca precisei. Mas, diante de uma cena como essa, quebraria a regra só para saber como eles se sentiam por ter um ao outro. Por serem uma família.

Crispian sentou à mesa, próxima ao balcão de trabalho da cozinha, entre Emmett e Edward e, finalmente, eu.

"Tome", disse Isla colocando vários fragus brancos por fora, partidos ao meio sob a mesa, revelando a carne suculenta de cor azul. "Provem", disse enquanto buscava outro prato de pão e geleia de crug, uma mistura de fragus e menta.

Emmett não esperou muito para experimentar, seguido de Edward. Ambos mastigaram as frutas e olharam com aprovação. Coloquei uma fatia na boca e me deliciei. Era realmente saboroso.

Hmmm, interessante. Textura de laranja, mas gosto de uva. Hmm, é bom, as palavras de Edward refletiam prazer em seu rosto, quase gritando mentalmente. O gemido dele se fixou em minha cabeça, ecoando em replay. Coloquei alguns pedaços de pão na boca, tentando focar no ardor que o crug causava. Eu devia ter evitado ouví-lo.

"Gostei, tem sabor de uva…", antes de terminar a frase, Emmett começou a rir alto, apontando para Edward. "... Que porra é essa, Ed?", disse ele amigavelmente.

"O que?", Edward passou a mão bruscamente no rosto, tirando os farelos do pão que tinha acabado de pôr na boca. Ainda sem entender, olhou para o amigo e começou a rir também. "Que porra é essa você, cara. O que é isso azul na tua boca?"

Olhei para Isla e Crispian atentos ao que acontecia, e começamos a rir. Os dois humanos ficaram nos olhando sem entender.

"A cor azul do fragus desbota na boca, é normal, pessoal", respondeu Crispian ainda sorrindo. Tapei a boca e olhei para Edward.

"Você sabia e nem avisou?", respondi que sim com a cabeça sem me conter. "Engraçadinha. Em você eu quase não percebo…", ele disse olhando para a minha boca. Seus olhos cor de âmbar tremiam de um lado para outro enquanto ele falava. "... Talvez seja porque azul combina muito com você". Minha cintura tremeu.

Ele havia mesmo dito aquilo em voz alta? Queria que tivesse sido em sua cabeça, porque assim eu não precisaria responder. Apenas lhe dei um sorriso e lhe mostrei minha língua azulada. Ele me devolveu uma língua azul também, e depois um sorriso que me fez esquecer que éramos de lugares tão diferentes.

Alguns minutos depois, o sol já dizia olá. As humanas acordaram e todos terminaram o lanche em uma conversa compartilhada de informações aleatórias sobre o planeta terra e o planeta viridis. Logo começamos a nos organizar. Hoje seria um grande dia para a rainha, porque ela faria um pronunciamento público ao entardecer. Crispian nos lembrou de chegar o mais cedo possível no reino para não ocupar os preparativos de Zafrina, na tentativa de levar algum tipo de notícia boa.

"Estive pensando que posso ter alguma informação química que ajude vocês em meu caderno de anotações. Já que o problema é o carbono…", ele deixou a frase solta no ar, enquanto os seus colegas terminavam de colocar os trajes pretos, que ele já pusera. Eu estava com uma vestimenta semelhante ao do dia anterior. A diferença é que hoje minha blusa não era preta e sim amarela, mas dessa vez, a sigla foi destacada em preto.

Edward começou a se agitar enquanto procurava dentro de uma maleta. Ele não disse nada, então me permiti ouvi-lo.

Tinha certeza que estava aqui… estava aqui. Okay. Eu coloquei tudo dentro da maleta, depois elas chegaram e nós viemos para cá. Eu não perdi, pensou ele, refazendo o trajeto mentalmente. Queria ajudar, mas eu só conseguia imaginar onde ele poderia ter deixado. Alguns mestres disseram que nossa tribo era capaz de visualizar o que a pessoa pensava, como vídeos das lembranças de uma mente. Eu nunca consegui. Fechei os olhos implorando para conseguir, concentrando-me nos lugares que Edward falava. Só consegui imaginar um lugar com paredes, piso e teto na cor branca. Que imaginação fraca. Como de costume, falhei.

"Não consigo achar meu caderno", Edward falou alto. "Simplesmente não acho!"

"Calma, você não o tirou em nenhum momento daí?", perguntou Leah tranquila.

"Não. Desde a nave, eu só abri essa maleta duas vezes e eu não lembro de ter o visto", respondeu. Pode ter caído quando tirei as placas? Mas eu juntei tudo do chão. Não pode ter sido ontem quando guardei o MP4 que achei no meu bolso, Edward completou sua resposta mentalmente, analisando todos os seus passos.

O que era um MP4?

"Você pode ter deixado na nave?", perguntei tentando ajudar. Todos me olharam confusos, porque essa era uma possibilidade bem óbvia. Edward, por outro lado, me encarava com os olhos arregalados.

PORRA!, exclamou mentalmente.

"Eu não coloquei. Não coloquei na maleta", ele disse apertando os olhos fechados, colocando uma mão na testa em desaprovação.

"Ótimo, né? E agora?", Tanya abriu a boca pela segunda vez no dia, mas seu mau humor era o mesmo da primeira vez.

"Agora que você precisa voltar lá, Edward", respondeu Leah para ele. "Sei que é perda de tempo, mas eu já teria que voltar e buscar um aparelho de radiação. O meu parou de funcionar assim que chegamos ontem aqui", continuou ela, mostrando o aparelho apagado. Eu diria que não precisaria usá-lo aqui, mas eles eram humanos e o pouco que sabíamos sobre eles era que adoeciam por qualquer coisa. Então, qualquer medida era uma precaução.

"Okay, então nós iremos", Emmett disse.

"Creio que não todos", disse Crispian. "Digamos que não podemos mesmo perder tempo. Aconselho que parte de vocês se dirijam até a rainha, enquanto os outros voltam até a nave", disse ele, enquanto abraçava Isla pelas costas e colocava uma pequena rosa na orelha pontiaguda dela.

"Você está certo. Eu voltarei à nave, enquanto todos vocês vão na frente", Edward concordou. Ele não podia ir sozinho, nunca atravessaria o escudo. Eu também não queria ter que aturar Tanya e seu mau humor. Só precisava pensar em algum nome humano… um qualquer que fosse…

Olhei para Isla arrumando seu cabelo e lembrei que, lendo um livro sobre humanos, algumas mulheres em décadas mais remotas, foram chamadas de Rosalie. Foi o mais rápido que pude pensar. Era, na verdade, o nome que mais combinaria com a atração que Greta exalava.

"Bom, se não for pedir demais", indiquei a mão para o meu casal de amigos, "mas, vocês poderiam levá-los até Rosalie, e ela saberá o que fazer. Eu acompanho Edward", me ofereci. Eles me olharam confusos com o nome que lhes dei, mas logo compreenderam quando expliquei que era de nossa amiga que eu falava.

Estava tudo certo. Nos dividimos em dois grupos e partimos. O trajeto estava silencioso. Sem muitas turbulências, afinal ainda estava amanhecendo. Nos primeiros quilômetros não falamos nada. Também não invadi sua mente.

"Então…", Edward interrompeu o silêncio. "Por que você o amarra na cintura?", indicou com o queixo para minha cauda. Respirei fundo.

Se isso for demais, não preciso saber. Eu só queria conversar com você, pensou olhando em meus olhos.

"Não, tudo bem", respondi. "Digamos que, assim, evito ser confundida. Alguns nativos associam com os apoiadores de Izar e outros apenas acreditam em superstições", sorri com a imagem. Continuei quando ele manteve um silêncio respeitoso de todas as formas.

"Tudo começa pelo nosso nascimento. É visto como um sinal de dias ruins", enquanto eu falava, Edward permaneceu olhando para frente. "Pois bem… nós somos uma mutação genética que não é bem aceita, porque quando uma fêmea engravida de um magunu, ele se alimenta da placenta e do útero da mãe, ocasionando a morte dela. Com pais traumatizados, muitos são deixados para morrer ou, no meu caso, dados para a realeza".

"Não sei de quantas formas isso me deixa com raiva, Bella", ele disse com os olhos semicerrados. "E por que são dados para a realeza?", perguntou interessado.

"Porque eles aproveitam nossos poderes, nos treinando como soldados ou criados. Por exemplo, minha amiga Rosalie trabalha como uma das curandeiras do reino. Já eu, preferi ser da Comissão Intergaláctica de Sobrevivência Viridis".

"É o SIVC que tinha na sua roupa ontem?", perguntou ele, apontando para o próprio peito.

"Sim", respondi, ele era um bom observador. "É uma espécie de equipe como a sua. Só que aqui, nós recrutamos visitantes e os levamos até os sábios reais para compartilhar algum conhecimento que pode nos ajudar a sobreviver", falei com pesar. Anos trabalhando nisso e nunca havia feito o mínimo: encontrado uma solução.

"Vamos pensar em alguma coisa", ele disse, percebendo minha autocobrança. "E sua cauda é linda, repito", disse ele em voz alta dessa vez. Meu rosto deveria estar queimando e explodindo em mil cores. Senti a cauda vibrar. Ele soltou uma breve gargalhada mansa. Quase sensual.

Ele tinha matado a curiosidade, agora era minha vez.

"O que é um MP4?", perguntei imitando ele, olhando para frente.

"Ah", Edward parou, apoiou a maleta no chão e tirou de dentro um retângulo preto enrolado em um fio branco com duas pontas, "Isso é um aparelho que usamos para ouvir música", contou ele.

"Então é um instrumento?", ele fez uma careta confusa, enquanto me mostrava o aparelho e voltávamos a andar. "Nós também ouvimos música, mas diretamente dos instrumentos", expliquei.

"Não, não", disse sorrindo. Edward se aproximou e ligou o aparelho. Ele funcionava como um computador. "Gravamos as músicas e enviamos para cá. Assim você pode ouvir suas músicas preferidas quando quiser", me entregou uma das pontas redondas do fio e colocou a outra em seu ouvido. "Experimente".

Imitei-o. Edward clicou em um botão e um chiado atingiu meus ouvidos. Tentei me concentrar na música, mas não conseguia ouvir nada mais do que sons irregulares. Ele começou a cantar a melodia, fechando os olhos para aproveitar melhor.

"Acho que não funciona para mim", falei entregando-lhe.

"Como assim?", disse retirando também.

"Escuto apenas um chiado", respondi decepcionada.

"Sei o que quer dizer. Antes de você fazer o vox, era assim que eu te escutava. Era como um rádio", disse ele e logo continuou: "Espere, você sabe o que é um rádio, né?". Engraçadinho presunçoso.

"É um aparelho de sinalização e comunicação humana que funciona através de ondas eletromagnéticas de frequência entre 30 hertz e 300 gigahertz", respondi enquanto ele levantava uma das sobrancelhas. "Estudei algumas tecnologias humanas, mas nunca tinha ouvido falar de MP4", sorri fazendo-o me acompanhar.

"Talvez esse seja o problema", disse apenas. "Não temos a mesma frequência". Senti meu coração acelerar com as palavras dele. Ele estava certo. Mas, de alguma forma, sentia que nossa conexão era muito maior que os tradutores em seu ouvido. Claro que eu não diria. Não agora.

Ele estava certo novamente. O vox fazia a mesma função do tradutor. Quem sabe se eu ouvisse sua mente enquanto ele ouvia música…

"Coloque de novo no ouvido e recomece", falei, "Tive uma ideia".

Assim que Edward deu play na música, concentrei-me em sua mente. Um instrumento de teclas iniciou a melodia. Parecia um piano, os humanos gostavam do som suave que tinha. Era calmo, tranquilo. Bonito. Sorri.

"Chama-se Clair de Lune, é uma música clássica. Gosto de ouvir para trabalhar", disse e continuou: "Mas eu tenho algumas mais animadas, talvez você gost…"

"Eu gostei dessa", respondi olhando para ele, colocando minha mão sob a sua. Era um sinal para que não mudasse a melodia. Minha pele quase pinicou, ansiosa por sentí-lo um pouco mais. Busquei focar na música e no que ele dizia. A calma que a música dava a Edward, era a mesma que eu sentia quando ele sorria. Como se me ouvisse, ele abriu seus lábios gentilmente, mostrando-me os dentes, sorriu. Respirei fundo antes de continuarmos nosso trajeto.

Após a hora de caminhada, nos aproximávamos da entrada da nave humana. O objeto gigante e assimétrico de metal estava do mesmo jeito que deixamos. Talvez a única diferença fosse a camada fina de areia que se formava toda vez que o vento surgia. Edward pressionou a mão sob um leitor na própria porta e ela se abriu, acendendo todas as luzes internas.

Eu nunca tinha visto nada tão branco quanto o interior da nave. Edward primeiro pegou o aparelho que Leah pediu e colocou dentro da maleta para não esquecer. E então começamos a procurar. A área de controle estava vazia, ocupada apenas por grandes poltronas, um painel cheio de botões e uma abertura de vidro que indicava a frente da nave. Fomos para as áreas de convivência. A mini cozinha e a sala não tinham nada, só uns objetos caídos no chão e algumas bagunças.

Andei pelo corredor branco e lembrei de quando tentei ajudar Edward a se lembrar de onde poderia ter deixado seu caderno. Talvez eu não tenha falhado tanto assim…

Edward disse que não esteve em nenhum dos outros quartos e quase tive que desviar o rosto para não mostrar meu alívio por ele não frequentar o quarto de Tanya. Qual era meu problema? Eles poderiam ser o que quisessem e eu nunca saberia. Pediu para que eu começasse a procurar em seu quarto, enquanto ele vasculhava o laboratório.

Apesar de manter o padrão de branco, próximo ao aparelho eletrônico, um pouco menos atualizado do que nós tínhamos em Viridis, tinham algumas fotos pregadas na parede. Era de Edward e um casal, e dele com uma garotinha. Pela semelhança, era sua família. Um sentimento de ansiedade me atingiu, talvez porque eu nunca conheceria aquelas pessoas e ao mesmo tempo sentia que elas eram tão importantes para ele que fazia sentido conhecê-las.

Toquei a foto em que ele estava com um animal peludo no colo, todo sorridente e sem camisa. Ele era tão lindo. Fiz pressão demais e derrubei a foto em cima do computador. Acidentalmente, esbarrei no teclado sensível e a tela do monitor acendeu. Não queria que ele pensasse que eu estava vasculhando mais do que precisava, então tentei desligar a tela mas já era tarde demais.

Uma gravação começou a passar na tela. Era Edward e ele passava informações para a família. Tentei decorar para depois lhe perguntar o que eram milkshakes. Ele parecia se despedir quando uma loira o interrompeu. Perdi a conexão com o que tinha ao meu redor. Estava completamente presa na imagem em minha frente. Tanya disse nomes tão íntimos na sua boca, enquanto falava, que tive certeza que ela já fora mais que uma amiga. Ela apertou o ombro de Edward e falou em seu ouvido. Ele parecia calmo. Eu não tinha motivos para me sentir assim, mas eu estava quebrada por dentro.

Senti meus olhos arderem e lágrimas escorrerem. Não quis acreditar. Faziam anos que não chorava, mas agora não seria a hora certa para isso. Sequei os olhos e quando me virei, Edward dizia alguma coisa, mas ainda não o escutava. Fechei meus olhos e tentei me concentrar no nosso único objetivo. Respirei fundo e abri os olhos.

"Bella?", ele disse. "O que aconteceu… você tava chorando?", ele mudou de assunto na metade da frase, aproximando-se.

"Não", apenas respondi sem olhá-lo. Ele examinou atrás de mim até encontrar o que eu assistia.

"Não sei o que você viu naquela gravação, mas eu só estava falando com meus pai, então Tanya entrou para avisar que Emmett nos chamava", ele falou. Eu conseguia ouvir sua mente repetir as mesmas palavras. Ele não estava mentindo, mas não significava que ela não tinha algum espaço especial em sua vida.

"Edward, você não tem que me explicar nada. Ela é linda e humana como você. Fazem um lindo casal", falei tudo que pensava. Eu não queria mentir pra ele também.

"O que?", seu rosto estava transformado em agonia. Edward se aproximou segurando em meus ombros e continuou: "Não vou mentir para você, Tanya e eu namoramos por alguns meses durante nosso treinamento, mas isso já faz anos. Eu nunca a amei. Na verdade, eu nunca amei ninguém…", ele disse olhando-me nos olhos. Dessa vez não desviei.

"Edward, por favor…", eu só queria continuar procurando o bendito caderno.

"Não!", ele disse diminuindo o espaço entre nós dois. "Eu nunca amei alguém até conhecer você… o seu jeito de sorrir, a sua forma de pensar, a sua beleza, como você ajuda as pessoas, como você fica envergonhada, como você me olha… eu nunca amei alguém, mas não preciso que me confirmem. Senti algo por você desde o início, Bella".

"Edward, nos conhecemos há dois dias", e isso foi o suficiente.

"Diga-me que não estou antecipando as coisas e que você sentiu o mesmo? Se não, me desculpe, eu não vou mais…", o interrompi tocando seus lábios com os meus. Eu já havia beijado antes, mas nunca dessa forma. Quando percebeu meu toque, Edward passou a mão em minha cintura e colou no meu corpo. Pressionei os dedos no cabelo ralo de Edward, deixando minhas mãos caírem e segurarem seu rosto entre elas. Quase pude sentir o coração dele bater, de tão agitado que estava. Nossos corações estavam em sintonia, tão quanto nossos lábios, enquanto minha cauda alertava o nervosismo mais uma vez. A maciez dos lábios dele fizeram massagem nos meus e eu pedi passagem para minha língua. O sopro do hálito de Edward tinha gosto e cheiro de menta. Suas mãos passeavam nas minhas costas, dando-me calafrios. Sorri nos seus lábios procurando um pouco de ar.

"Bella…"

"Eu senti o mesmo", e ele sorriu também.

"Eu sabia", empurrei ele convencido. Engraçadinho.

Eu senti tudo, pensou ele. E então eu o ouvi de novo. Enquanto beijava Edward todo barulho do mundo cessou, porque o único som que eu conseguia ouvir era o do coração dele.

Mesmo ainda envergonhada, voltamos ao que viemos fazer. E lá estava o caderno, jogado em cima da cama de Edward. Guardado na maleta, saímos da nave e voltamos para dentro do escudo. Eu sentia um magnetismo vindo dele, que talvez nunca eu conseguisse explicar. Em suas palavras eu via verdade. O rosto dele transparecia a sinceridade que eu sempre procurei nas criaturas que nos visitaram antes. Estava óbvio. Edward era o Perito que tanto esperamos. Era a pessoa certa, para Viridis e para mim.

"Titânia", falei apenas. Agora tinha coragem e confiança o suficiente para lhe dizer. Dizer que nossos nomes eram sagrados e que tínhamos medo de sermos amaldiçoados como nosso planeta um dia foi.

O que?, ele pensou, enquanto me olhava atento e sereno.

"Meu nome é Titânia".


E AÍII? QUEM GOSTOU DA BELLA DIZENDO O SEU VERDADEIRO NOME PARA EDWARD? E O BEIJO DELES?!

Chegamos na metade da história!