Entre mal progredir nas aulas de aparatação do fim de semana e não ser capaz de vagar livremente por Hogsmeade, Ron estava em uma forma rara.

- Ainda podemos ir para as sessões de prática. – Hermione apontou uma tarde na tentativa de animar Ron.

- Certo. – Ron disse queixosamente. - Eu não poderei entrar na Dedosdemel, mas posso acidentalmente bater em sua parede quando der uma virada errada na aparatação, tudo com Twycross e seus malditos três D's olhando e criticando. Puxa, isso parece ótimo.

- Bem, você não pegou o jeito da aparatação ainda, mas pelo menos você não se estremeceu. – Disse Harry sem olhar para cima, curvado e franzindo a testa ligeiramente para seu Mapa do Maroto.

Os três estavam sentados na sala comunal da Grifinória depois do jantar naquela noite de sexta-feira. A briga anterior, que começava em Poções, havia sido esquecida, e os meninos foram para a biblioteca onde encontraram Hermione, sua cabeça peluda escondida atrás de uma grande pilha de livros. Hermione colocou a pesquisa da Horcrux em espera brevemente para cuidar de seus próprios trabalhos escolares. No meio de um parágrafo, ela sibilou impacientemente para Ron e Harry que lhe dessem um minuto, pegando seu livro de volta quando Ron tentou tirá-lo de sua mão. Foi pura sorte que Madame Pince não estivesse por perto, senão ela teria colocado os três para fora de sua biblioteca por fazerem barulho, algo que os meninos definitivamente não teriam se importado. Contudo, Hermione finalmente concordou em adiar momentaneamente seus estudos quando Ron ameaçou dar uma mordida em seu livro depois de dizer que estava com fome o suficiente para fazê-lo.

Assim que finalmente conseguiram jantar, Ron se empanturrou ao ponto de quase ter que ser levado para fora do Salão Principal. Agora ele estava em sua cadeira favorita ao lado da lareira na sala comunal da Grifinória, uma perna pendurada no braço enquanto ele esfregava sua barriga. Harry estava na cadeira em frente a Ron, e Hermione estava com as pernas cruzadas no chão, lendo uma cópia um pouco amassada do Profeta Diário.

Alguns alunos também estavam na sala comunal, alguns ouvindo rádio (Ron fez uma pausa para pedir a Dean para aumentar o volume, já que sua música favorita das Harpias estava tocando), enquanto outros conversavam com seus amigos. Parvati estava cochichando no ouvido de Lilá, falando sobre seu novo namorado e mostrando a pulseira que ele lhe dera no dia dos namorados. Harry e Hermione ouviram toda a conversa e ambos tentaram não rir enquanto pensavam ao mesmo tempo sobre o colar que Lilá deu a Ron no Natal passado, que dizia " Minha namorada" em um script extravagante. Na semana anterior ao Dia dos Namorados, Harry brincou que Lilá daria a ele uma pulseira combinando. Alívio era uma palavra nada assombrosa para descrever como Ron se sentiu quando naquele fim de semana não havia pulseira, e ele alegremente passou os doces que comprou para Lilá.

Os três ficaram perplexos com o porquê de Lilá pensar que Ron iria gostar, quanto mais usar, algo que a maioria dos garotos de dezessete anos não seriam pegos nem mortos.

- Estou surpreso que Neville não tenha se estropiado. – Ron riu. - Achei que ele seria o primeiro a deixar pedaços de si mesmo por aí.

- Ron, isso não é engraçado! – Hermione disse com firmeza, virando-se brevemente para encará-lo.

Durante a última prática, um punhado de alunos ficou estropiado e os sons de seus gritos foram horríveis. Um menino conseguiu não fazer barulho, mas desmaiou imediatamente após ter se reunido com seu braço. Ele estava a menos de trinta centímetros de distância de Hermione e ela testemunhou tudo, e levou quase até a tarde seguinte para ela livrar sua mente daquele acidente.

Harry não era melhor do que Ron quando se tratava de aparatação, mas explicou que ainda não gostava muito disso. Ele estava mais preocupado com cada tentativa fracassada de falar com Slughorn para obter a memória de que Dumbledore o vinha pressionando há mais tempo.

- Eu ainda prefiro voar. – Disse Harry. – Mas devo admitir que aparatar parece conveniente, mesmo que ainda me dê vontade de vomitar.

- Você tem coisas maiores com que se preocupar. – Hermione apontou. - Da próxima vez que você tentar falar com Slughorn, talvez você deva ter um pouco mais de tato ao invés de apenas bombardeá-lo com perguntas.

- Hermione, eu perguntei a ele o mais educadamente possível. – Harry respondeu, parecendo um pouco ofendido. - O que você sugere, Edwiges entregando um convite escrito à mão para nós batermos um papo enquanto tomamos chá com bolinhos?

- Talvez vocês possam fazer o cabelo um do outro. – Ron sugeriu. - Você pode ajudá-lo a encontrar uma nova maneira de usar o penteado.

- Não, mas você sabe como pode conseguir. – Hermione disse distraidamente, completamente absorta em seu jornal e ignorando o comentário de Ron. Ela então olhou para cima para encontrar Harry carrancudo para ela. - Harry, eu não quero ser insensível, mas às vezes você tem o hábito de pular de cabeça nas coisas ao invés de seguir em um curso nivelado.

Harry continuou a olhar furiosamente para Hermione, que o estava ignorando propositalmente ao se esconder atrás do Profeta. - Eu acho que você tem razão. – Ele finalmente admitiu, lembrando-se de como ele deixou escapar sua pergunta sobre Horcruxes para Slughorn. - Ele parecia assustado quando eu perguntei a ele, como se ele estivesse em algum tipo de problema.

- Bem, isso não é surpreendente. – Acrescentou Ron. - Se for algo a ver com... – Ele baixou a voz. - Você-Sabe-Quem, então eu ficaria com medo também. Provavelmente estaria esperando os Aurores aparecerem na minha porta a qualquer momento.

- Sim, suponho. – Harry murmurou. - Tudo bem, então. Vou tentar do seu jeito, Hermione. Vou ser sutil, embora não seja provável que faça uma grande diferença.

- Apenas tente, Harry. – Hermione implorou, agora colocando o jornal de lado. - OK? É óbvio que Dumbledore precisa de você, de outra forma ele não teria perguntado. E ainda vou tentar a biblioteca para ver se consigo encontrar alguma coisa.

- Mas você está procurando na biblioteca há quanto tempo? Você ainda não encontrou nada. – Ron apontou inutilmente.

- Obrigada, Capitão Óbvio! – Hermione disparou. – Mas a menos que você tenha uma ideia melhor, a biblioteca é a única coisa em que consigo pensar. Percebi que você também não se preocupou em me ajudar a procurar.

- Bem, nem Harry! – Ron protestou, sua boca aberta. - Por que gritam comigo?

- Porque você é o único idiota o suficiente para dizer algo sobre Hermione e sua amada biblioteca. – Harry riu, balançando a cabeça. - Até eu sei melhor do que isso.

Só então um pequeno gato preto, branco e marrom deslizou seu caminho ao lado de Hermione e caiu em cima de seu joelho dobrado.

- De quem é aquele gato? – Ron perguntou, olhando para a bola de pêlos marbelizada que estava esfregando sua cabeça contra a mão de Hermione, querendo ser acariciada.

- Peg. – Hermione simplesmente respondeu, fazendo cócegas no gato que se contorcia embaixo do queixo.

- Quem é Peg?

- Quarto ano, cabelo cor de areia e óculos. – Hermione respondeu, tentando refrescar a memória de curto prazo de Ron.

- Não, não faço ideia.

- Honestamente, Ron. Você é um monitor; o mínimo que você pode fazer é saber quem são seus companheiros de casa!

- Perdoe-me por não ser o maldito prefeito da Casa da Grifinória!

Dennis Creevey estava sentado por perto com Nigel, um estudante mais jovem que tinha medo de Harry e Ron e os seguia sempre que possível. Os dois garotos ficaram boquiabertos e eles pareceram positivamente escandalizados quando Ron continuou a reclamar, expressando-se pelo uso de palavras particularmente coloridas, até que Hermione ameaçou lavar sua boca com sabão se ele não parasse de praguejar.

- Bichento vai aparecer do nada e atacar aquele gato por se sentar em seu espaço. - Disse Ron, felizmente tendo encerrado sua sessão de linguagem chula.

- Bichento é digno; ele nunca lutaria. – Hermione fungou, continuando a acariciar o gato atrás das orelhas. "Além disso, ele se dá bem com Marble.

- Quem é Marble?

- O gato de Peg, Ronald! O gato no meu colo.

- Oh.

- Ron... – Harry começou. - Eu sei que não temos um jogo há um tempo... mas você tem certeza que não foi atingido por um balaço desonesto na última tentativa?

Enquanto os dois continuavam com suas brigas amigáveis, um plano para ajudar Harry estava se formando na mente de Hermione. Era óbvio que Harry não tinha ideia de como atrair informações de alguém. Hermione admitiria facilmente que nunca foi uma pessoa que domina a arte do dom da palavra, apenas contando educadamente para pedir algo que ela precisava, esperando que um tom agradável fosse o suficiente. Mas Slughorn exigia táticas diferentes, e Hermione conhecia a pessoa certa para pedir conselhos.

- Harry, eu preciso pegar sua capa e mapa emprestados de novo, se você não se importar.

Assim que Harry estava dizendo 'sim' a Hermione, Ron se virou para olhá-la nos olhos.

- Um dia você vai ter que nos contar como você foge tanto sem conseguir detenção. – Disse ele irritado.

- Eu não estou te contando nada. – Hermione respondeu. - E, além disso, há algumas coisas que é melhor você não saber.

- Você acertou. Não sei por que Twycross se sentiu incomodado o suficiente para nos dizer as cem maneiras que alguém pode se estrangular e o que acontece se o fizerem. Eu realmente não precisava ouvir sobre um cara sendo separado de suas partes e como seus companheiros tiveram que aparatar através do país apenas para encontrá-los.

- Ron está certo. – Disse Harry com um pequeno estremecimento ao se lembrar da história sangrenta. Todos os homens cobriram as virilhas por reflexo quando ouviram sobre o mago sendo estripado em uma área mais sensível, mas pelo menos eles se concentraram mais durante a aula. - Mas sim, Hermione. Você pode pegá-los emprestados, mesmo que não nos diga o que está fazendo.

- Não se preocupe. – Disse ela rapidamente. - Voltarei para buscá-los depois das patrulhas.

Bichento não teria ficado muito chateado com o colo de sua ama sendo ocupado por outro, pois ele estava sendo bem cuidado por outra pessoa.

O meio amasso de rosto achatado há muito se cansou do barulho na sala comunal da Grifinória, e os corredores eram muito frios para ele se demorar. Claro, os corredores abaixo no nível da masmorra da escola não eram muito mais quentes, mas o felino conhecia um local mais aconchegante onde seria recebido, mesmo que por uma pessoa que não parecia fisicamente satisfeita com sua presença.

No último mês ou mais, Snape se acostumou a ouvir o leve arranhar vindo da base de sua porta em horas estranhas da noite. A primeira vez que Bichento apareceu em seu quarto foi momentos antes do horário previsto para uma reunião de Snape com Dumbledore. Depois que Snape abriu a porta para encontrar o ar na sua frente, ele olhou para baixo para ver o gato laranja brilhante a seus pés, que então entrou como se fosse o dono do lugar, esfregou-se nas pernas de Snape e saiu cambaleando para se enrolar antes as brasas morrendo na lareira. Snape ficou em estado de choque por alguns segundos, finalmente fechando a porta e voltando para sua mesa.

Várias vezes depois disso, Snape e Bichento sentaram-se na escuridão silenciosa de seu escritório, o gato cochilando diante do fogo enquanto o professor corrigia as redações. No domingo anterior, os dois ficaram sentados por tanto tempo que Snape quase se esqueceu de jantar. Bichento, no entanto, estava com fome e deixou Snape saber em termos inequívocos que ele estava pronto para ser alimentado.

O professor estava corrigindo as redações do terceiro ano sobre vampiros, resistindo ao desejo de escrever um grande número vermelho um na maioria deles. Estava claro que a maioria de seus alunos poderia ter um vampiro olhando na cara deles e eles ainda não seriam capazes de reconhecê-lo. Um aluno claramente leu Drácula muitas vezes, enquanto Snape se perguntava se eles haviam canalizado Bram Stoker para ajudá-lo com sua redação. Esse aluno ainda conseguiu receber notas mais altas do que o resto de seus colegas.

Snape estava escrevendo um número quatro no canto superior direito do pergaminho quando Bichento pulou em sua mesa, pousando em cima da pilha de redações. O meio amassado encarou o mago carrancudo, que apenas o encarou de volta como se esperasse por algo.

Quando Snape obviamente não entendeu a dica rápido o suficiente, Bichento bateu com a pata na mão do mago que estava curvada em torno de uma longa pena com ponta de pluma, arrancando-a de seus dedos e fazendo-a cair com estrépito na mesa.

- O que você quer, seu vadio? – Snape perguntou, pegando sua pena e tentando empurrar o gato para longe de seu trabalho. Mas Bichento se firmou no lugar, passando sua pequena língua rosa pela pata esquerda quando Snape parou de empurrá-lo.

- Você não pode ficar aí a noite toda.

Lambe Lambe.

- Mova-se, sua criatura infernal!

Lambe, pausa, lambe.

- Isso é algum tipo de tentativa de me deixar saber que você precisa de algo?

Olhar fixamente.

- Se você ao menos pensar em molhar minha mesa...

Só então o estômago vazio de Snape roncou de forma reveladora, e o som fez a cauda de Bichento subir.

- É isso? Você precisa ser alimentado?

Bichento ergueu os olhos e arrastou os pés da pilha de redações. Ele caminhou até a ponta da mesa de Snape, lançou um olhar demorado para o bruxo carrancudo por cima do ombro e saltou para o chão.

Snape sabia em primeira mão que o familiar de Hermione era altamente inteligente, o que tornava o gato um companheiro adequado para ela. Mas no final, Bichento ainda era um gato, e ele atualmente tropeçando nas pernas de Snape, fazendo o bruxo berrar e soltar uma série de palavrões quando quase tropeçou.

- Escute, gato. – Ele retrucou, pegando o embrulho de laranjeira que se contorcia e segurando-o na frente do rosto. - Se eu cair e quebrar meu pescoço, vou voltar e te assombrar pelo resto de suas oito vidas ou seja lá qual for o número em que você está. E se você me morder, você vai voltar para a torre da Grifinória com cada pedacinho daquilo ridiculamente o pelo laranja brilhante ausente do seu corpo. Você entendeu?

Bichento soltou um miado preguiçoso como se dissesse 'sim' e caminhou calmamente ao lado de Snape assim que ele foi colocado de volta no chão. Uma bandeja de jantar para o professor havia sido enviada por um elfo doméstico, o elfo doméstico de Potter para ser mais específico, junto com um prato do que parecia ser fígado para o felino. Dobby gritara em voz estridente que 'o gato de Missy Hermy' gostava de fígado enquanto colocava o prato no chão. O elfo doméstico aparentemente achou que Bichento não estava se movendo rápido o suficiente, pois ele pegou o bichano para carregá-lo para o jantar. Dobby era um pouco maior do que o animal, e Bichento soltou um rosnado gutural por ser carregado como um saco.

Snape estava por perto, balançando a cabeça e se perguntando quando sua sala da frente havia se tornado o ponto de encontro do zoológico louco. Ele ficou tentado a abrir a porta e esperar que Potter descesse com sua coruja branca em seu braço. Snape lembrava vagamente que os dois filhos Weasley tinham familiares próprios; uma coruja Scops hiperativa e um puffskein em miniatura em um tom rosado geralmente encontrado em algodão-doce. Certamente eles também participariam. Ainda assim, Snape pensou que poderia ter sido pior. Poderia ter sido uma das criaturas que Hagrid tentou manter por perto, pensando que ninguém sabia sobre os animais incrivelmente ilegais que ele cuidava.

Quando Bichento estava mais uma vez são e jantando sua refeição de fígados de frango (Snape não se preocupou em ver se eles estavam crus ou cozidos), o professor lentamente colocou de lado sua própria refeição, sem provar a comida.

Agora Bichento estava sentado em cima das botas de Snape, parecendo perfeitamente à vontade. Snape não tinha ideia de por que o animal escolheu deitar diretamente em cima de seus sapatos, considerando que havia um espaço mais confortável na tapeçaria de tecido antes da lareira. Antes de voltar para seus aposentos, Snape fez uma visita surpresa à sala comunal da Sonserina, puramente para ver se Draco estava lá como ele havia instruído.

O teimoso jovem loiro estava misteriosamente ausente. Seus dois ajudantes de raciocínio lento foram inflexíveis sobre não saber onde Draco estava quando questionado, e a julgar pelo pedaço de conversa que Snape ouvira na primeira aula de aparatação, na qual o menino não sabia onde estava, o professor estava inclinado a acreditar neles.

Já era tarde, quando Snape costumava fazer patrulhas. Além de fazer isso para evitar as travessuras, já que quase sempre pegava pelo menos um aluno fora da cama, o silêncio absoluto do castelo abandonado também lhe dava tempo para pensar.

Antes de fazer uma última viagem ao dormitório da Sonserina e descobrir que um Draco de aparência taciturna estava lá dentro, Snape foi até o primeiro andar do castelo. O gato de Hermione decidiu que queria ir passear, e Snape teve que se certificar de não pisar naquela maldita coisa enquanto caminhava para cima e para baixo nos corredores escuros. Ele nunca usou sua varinha como fonte de luz, confiando apenas em sua visão noturna afiada para se locomover. Logo no início, ele aprendeu que era mais fácil se aproximar furtivamente de alguém na escuridão.

Algumas vezes, Snape se perguntou se o bichano tinha tentado propositadamente derrubá-lo quando sentiu Bichento disparando em seus pés que se moviam constantemente. Os dois finalmente estabeleceram um ritmo; quando Snape se movia, Bichento se movia, e quando Snape fazia uma pausa, o gato também.

Querendo um pouco de ar fresco antes de dormir, Snape cruzou o castelo e subiu até a torre de Astronomia. Mesmo que estivesse quieto e pacífico, os dois elementos pouco fizeram para perseguir o fio de pensamentos que estavam para sempre em sua mente. Algumas pessoas tendiam a andar de um lado para o outro quando estavam preocupadas; Severus Snape ficou completamente imóvel, parecendo desinteressado quando na verdade era exatamente o contrário.

Parado em silêncio por mais quinze minutos ou mais, Snape sabia que não estava mais sozinho quando ouviu o leve barulho da porta da Astronomia sendo aberta. Havia apenas uma pessoa que teve a ousadia de se intrometer em seu tempo privado; Snape tinha certeza de que o diretor sabia sobre suas incursões erráticas em partes estranhas do castelo, mas ele nunca tentou interromper sua solidão. Severus Snape pode ter sido o espião de Dumbledore, assim como o braço direito do Lord das Trevas, e embora ainda fosse difícil para ele ser Severus Snape, o homem, o bruxo solitário, ele ainda precisava se afastar de tudo, mesmo que apenas por alguns minutos.

Além disso, ele sempre receberia bem a atenção da pessoa que estava atrás dele.

- Eu acredito que isso pertence a você, Srta. Granger.

Hermione enfiou a cabeça no canto para ver a inconfundível forma alta e vestida de preto do Professor Snape. Ele estava de costas para ela e ele falou sem se virar. O professor estava de pé nas muralhas com ameias, olhando para o céu noturno plácido e preto-azulado. A lua estava parcialmente escondida atrás de algumas nuvens, mas lançava luz suficiente para baixo sobre o castelo para fazer um Snape anormalmente imóvel parecer etéreo, mesmo que ele estivesse envolto em preto da cabeça aos pés. Bichento estava enrolado a seus pés, também geralmente calmo, considerando como ele costumava se esgueirar, embora quando a cara amassada viu sua ama, ele se levantou e caminhou lentamente até ela.

- Os deveres de monitor terminaram há duas horas. Então, deixe-me adivinhar, você sentiu uma necessidade implacável de sair furtivamente da torre da Grifinória para ver as estrelas banhadas pela luz noturna de quase meia-noite?

- O risco de ser detida depende da minha resposta? – Perguntou Hermione atrevidamente, abaixando-se para acariciar Bichento brevemente antes de se endireitar e caminhar até Snape. Ela parou no parapeito de pedra, a poucos centímetros dele.

Snape deu uma olhada de lado para Hermione, olhando para ela por um segundo antes de se concentrar novamente. Ela estava vestida apropriadamente pela primeira vez, embora quando uma rajada de ar gélido passou pelos dois, ele sentiu o desejo de colocar suas vestes de professor em cima de sua capa mais curta.

- Uma vida inteira de detenção ainda não a impediria de fazer o que quiser. A não ser amarrá-la a uma cadeira, não acho que haja nada que alguém possa fazer.

- Eu acho que você pode estar certo; eu não tenho esperança. – Hermione riu, olhando para Bichento, que agora estava girando em torno de sua perna esquerda. - Mas eu prometo que tenho um bom motivo para rondar o castelo nesta hora absurda.

Hermione então inclinou a cabeça para o lado e começou a mexer no zíper da frente de seu pulôver roxo. Snape percebeu que ela parecia hesitante em divulgar o que ela considerava importante o suficiente para tirá-la do calor dos dormitórios quase meia-noite. - Posso lhe fazer uma pergunta?

- Só se você olhar para mim e não para o seu zíper, Srta. Granger.

Hermione parou de brincar com seu pulôver e respirou fundo, olhando nervosamente para Snape.

- Por favor, leve o seu tempo, Srta. Granger. - Snape disse sarcasticamente, cortando seus olhos negros para a bruxa.

- Ugh, tudo bem! Mas pare de me encarar, se não se importar. Você me deixa nervosa quando faz isso; sinto como se tivesse feito algo errado.

O canto de sua boca se curvou ligeiramente e foi o suficiente para fazer Hermione continuar com um dos motivos de sua visita.

- Então... – Ela começou hesitantemente. - Estou tentando ajudar Harry com... alguma coisa, mas não tenho certeza de como fazer isso.

- Isso envolve a Pequena Senhorita Ladra-Furtiva e seus companheiros invadindo o estoque de ingredientes de Poções de Hogwarts novamente? – Snape perguntou secamente. - Porque se isso acontecer...

- Não! – Hermione gritou, o calor inundando suas bochechas. - Você nunca vai me deixar esquecer aquele dia horrível, vai?

Para alguém cuja vida dependia de controlar suas emoções e mascarar cada pensamento, Snape não estava se incomodando em fazer isso agora. O olhar fulminante que ele lançou a Hermione foi tão feroz que fez o rubor envergonhado em suas bochechas se espalhar até o pescoço, fazendo seu peito esquentar.

- Deixar você esquecer? – Snape falou lentamente, exagerando cada palavra. - Sem chance. Você sabe quanto tempo demorou para preparar o antídoto? Sem mencionar a hora da reversão do feitiço que tive que executar para livrar você completamente da cauda e dos bigodes. Não é de admirar que você estivesse cortando bolas de pelo mesmo depois que eu terminei.

- Severus!

Mesmo que sua expressão fosse séria, estava claro que o professor estava se divertindo.

- Sabe, quase posso sentir o seu sorriso malicioso. Não há necessidade de manter uma cara séria, você também pode rir. – Hermione ofereceu.

- Eu não rio. – Snape respondeu. - Agora pare de hesitar e me diga por que você escapou da torre da Grifinória de novo.

- Certo. Como eu estava dizendo, eu preciso ajudar Harry em algo, mas ele realmente precisa que Slughorn o ajude primeiro. E aí está o problema, Slughorn não está, hum, exatamente satisfeito com Harry no momento.

- Isso está certo? – Perguntou Snape presunçosamente. - Do jeito que o velho está falando sobre Potter, eu tinha certeza que convites gravados iam cair debaixo do meu prato de café da manhã a qualquer momento. Não importa, devo perguntar o que vocês três estão fazendo?

A hesitação de Hermione foi perceptível e Snape acenou com a mão com desdém.

- Não importa, eu não quero saber. Talvez seja o melhor. De qualquer forma, desejo a você toda a sorte em conseguir que Slughorn ofereça ajuda gratuitamente. O homem exibe uma generosidade que só pode ser comparada com o xerife de Nottingham.

- Cinco pontos para Slytherin pela referência a Robin Hood. – Hermione riu. - Mas acredite em mim, eu percebi. O Professor Slughorn não é exatamente o tipo que oferece ajuda voluntariamente.

- Ele era o Diretor da Casa Sonserina; você está realmente tão chocada?

Hermione olhou para Snape por um momento com a testa franzida. - Eu não acho que vocês todos são assim. – Ela respondeu suavemente.

- Você está parcialmente correta em um ponto; não somos apenas nós, Sonserinos. – Snape continuou. - A maioria das pessoas é egoísta. Elas não estão preocupadas com a próxima pessoa, a menos que seja para descobrir uma maneira de colocar uma perna em cima delas. O mundo é frio e indiferente, e eu entendo perfeitamente sua situação.

Novamente, Hermione teve dificuldade em encontrar as palavras certas. - Certamente todo mundo não é tão ruim...

- Você gostaria de uma doce mentira, ou a amarga verdade, Srta. Granger? A doce mentira será mais fácil, mas eu garanto que o amargo vai durar apenas um momento.

- EU...

- A melhor maneira de roubar informações de alguém como Slughorn é bajular e ser político. O desgraçado geralmente gosta quando alguém cai em cima dele, mesmo que ele não admita. Se é informação que você busca, então o melhor a fazer é parecer que você está disposto a retribuir algum tipo de favor.

- Então, basicamente, Harry tem que atender ao seu ego exagerado? Maravilhoso! – Hermione resmungou, exalando em desgosto.

- Como eu já disse, as pessoas não são inerentemente altruístas. – Snape afirmou com naturalidade. - Mostre-me um homem que diz que quer ajudar alguém sem esperar nada em troca, e eu lhe mostrarei um mentiroso.

- Agora, isso definitivamente não pode ser verdade. - Disse Hermione. - Você me ajudou muitas vezes e nunca fez exigências de mim; como você chama isso?

Ou Hermione havia deixado Severus sem fala com sucesso, o que era uma façanha rara em si mesma e que ela não pretendia fazer, ou ele tinha uma resposta para a pergunta dela, mas estava escolhendo mantê-la para si mesmo. Em qualquer caso, ele ficou ereto como uma vareta com as duas mãos nos bolsos, franzindo a testa enquanto continuava olhando para o céu escuro pontilhado de estrelas que parecia estar baixo o suficiente para ser tocado.

Hermione odiava ficar tão perto do professor e ao mesmo tempo sentir como se eles estivessem a quilômetros de distância. Ela queria se mover até que seus lados estivessem se tocando, para enterrar o nariz na manga das vestes de professor de Severus. Infelizmente, o Barão Sangrento tinha o estranho hábito de frequentar a Torre de Astronomia em horários estranhos da noite, algo que Hermione havia aprendido nas aulas anteriores de Astronomia. O fantasma não foi intrusivo; às vezes ele flutuava nas proximidades, ouvindo a professora Sinistra palestrar sobre as constelações e o sistema solar. Mas não seria bom para o Barão Sangrento pegar Hermione tentando se aconchegar ao lado de seu professor de Defesa, especialmente considerando a hora inadequada e o pequeno fato de eles estarem sozinhos nessa hora.

A ameaça de ser pega não foi suficiente para fazer Hermione ficar do seu lado da torre, e lentamente ela se mexeu até ficar perto o suficiente para sentir a bainha esvoaçante do manto de Snape roçar em sua perna. O mago não fechou o espaço entre eles, nem se afastou. Testando ainda mais seus limites, Hermione deu mais um passo até que seu braço estivesse a menos de uma polegada do de Snape, a sensação do calor de seu corpo quase tangível, mesmo através de suas grossas camadas pretas.

- Eu tenho minhas próprias razões para fazer tudo. – Snape finalmente respondeu, de forma bastante enigmática.

- Oh, eu sei disso. – Disse Hermione, lembrando-se da maneira como o professor lidou com a situação com ela e Draco. - Certo, bem, pelo menos eu sei o que dizer a Harry. Obrigado.

Snape deu um leve aceno de cabeça, e Hermione interpretou isso como um de nada. Hermione ainda estava surpresa que depois de todo o tempo que ela e Severus passaram juntos, a presença dele ainda era o suficiente para fazer seu estômago se encher de borboletas. Claro, embora os arredores fossem íntimos, Hermione desejou que eles estivessem em seu quarto. Pelo menos ela seria capaz de tocá-lo sem medo de ser vista por outra pessoa.

Por uma fração de segundo, Hermione se esqueceu do fato de Severus ser seu professor. Ela se esqueceu de que basicamente todo o mundo bruxo estava em suspense enquanto esperavam que os problemas que se formavam consistentemente entre os lados opostos finalmente chegassem ao ápice. A única coisa em que ela conseguia se concentrar era no fato de que queria ficar na frente de Severus, se esconder sob as dobras de suas vestes de professor, ficar na ponta dos pés e beijá-lo até que o olhar ranzinza desaparecesse de seu rosto.

Os pensamentos de Snape não foram terrivelmente deslocados dos de Hermione. Embora parecesse que ele não estava olhando para ela, houve mais de um caso em que ele a olhou pela periferia, obtendo uma visão generosa da bruxa.

Ele sabia que deveria ter ficado preocupado quando percebeu o quanto a presença de Hermione era uma distração agradável, e ficou acordado até a primeira vez que ela o atacou no Largo Grimmauld. Snape nunca soube o que era levar uma vida normal, mas estar com Hermione quase deu a ele um senso de normalidade. A parte gananciosa dele queria agarrar-se a isso pelo maior tempo possível, mesmo que isso significasse roubá-la de sua família e amigos, estes últimos sendo muito jovens e imaturos para perceber o quão valiosa era a jovem.

Ao mesmo tempo, Snape sabia que deveria deixar Hermione em paz. Tinha pouco a ver com o fato de os dois serem amantes, e mais com o fato de que ele era errado para ela em todos os sentidos, mesmo que ela discordasse.

Mas pensamentos de jogar Hermione por cima do ombro e carregá-la para algum lugar não revelado onde eles poderiam se esconder do resto do mundo nunca aconteceriam. Por um lado, Snape não sabia quantos dias ele ainda tinha. Dois, ele estava inflexível de que quando Hermione sobrevivesse ao resultado do que quer que acontecesse, ela passaria para um bruxo mais jovem com muito menos bagagem do que ele.

- Você é inteligente, Srta. Granger. – Snape disse do nada, chocando Hermione completamente. - Por que você ainda está aqui?

- Eu imploro seu perdão? – Ela perguntou, tentando expor o significado por trás de sua declaração. - Você quer dizer aqui em cima, com você? Isso não deve ser difícil de descobrir.

O semblante de Snape estava inexpressivo quando ele se virou para olhar para Hermione. - Não foi isso que eu quis dizer, embora eu ainda questione o que faz você me procurar continuamente. Não, o que eu quis dizer foi, por que você ainda está aqui? Na escola?

- Para onde mais eu iria? – Hermione pressionou, agora completamente confusa. - Escola normal? Isso não vai acontecer.

- Não, sua garota boba. Por que você não voltou para seus pais e se escondeu com eles? Com certeza você percebeu que as coisas só vão piorar a partir de agora. A autopreservação não significa nada para você?

- Bem, é claro que eu quero viver. – Hermione começou, mordendo o lábio inferior pensativamente. - Já pensei nisso algumas vezes, para ser sincera. Mas então me lembrei que, se as coisas piorarem, posso nem ter pais para quem voltar. E isso assumindo que vou ficar viva no final de tudo isso. E depois?

- Você vai sobreviver, tenho certeza. – Snape disse a ela com uma voz entediada. - Você vai sofrer, talvez por mais tempo do que pretende. Você nunca vai esquecer tudo que passou, mas vai seguir em frente. Você vai conseguir um emprego bem remunerado, se casar, ter uma casa perfeita e enchê-la com uma ninhada de pirralhos suados de cabelos grossos, e então você os enviará para Hogwarts para atormentar cada um de seus professores com perguntas incessantes.

- Isso soa como uma chatice terrível, e um pouco assustador. Metade do tempo eu sinto que estou bancando a mãe da toca para Harry e Ron, e geralmente eu quero dar um tapinha na cabeça deles.

- Eu simpatizo com você nisso. Embora possa ser enfadonho, pelo menos é uma existência segura e previsível que não terá sua progênie indo de cabeça para baixo com bruxos das trevas. Presumo que seja isso que você quer?

- É claro que se eu fosse por esse caminho, gostaria que meus entes queridos estivessem seguros. Eu preferia que não tivéssemos que passar por todos esses problemas agora, mas não adianta desejar que isso desapareça visto que não vai impedir nada.

- Se você não tivesse vindo para Hogwarts, o que você teria se visto fazendo?

Hermione se perguntou de onde vinham todas as perguntas de Snape, já que ele geralmente era o tipo de dar instruções ou fazer exigências. A única vez que ele fez perguntas foi em uma sala de aula, embora talvez ele estivesse de alguma forma tentando ensinar a ela outro tipo de lição que só poderia ser ensinada fora de uma.

- Eu ... eu não sei. – Admitiu Hermione. - Talvez seguir os passos dos meus pais e me tornar uma dentista? Eu realmente não tinha pensado nisso. Ambos queriam que eu me tornasse uma dentista como eles, até receber minha carta de Hogwarts. Mas a ideia de fuçar na boca de outra pessoa nunca realmente me atraiu, para dizer a verdade. Acho que mamãe ficou um pouco desapontada quando descobriu que eu iria para a escola para aprender magia, mas ela nunca disse isso...

- Pelo menos você teve pais que apoiaram seus esforços. – Interrompeu Snape, sua voz ligeiramente endurecida.

Ele pensou amargamente em seus próprios pais, os quais pareciam não ter ambições em relação ao futuro do filho. Às vezes, Snape se sentia como se tivesse sido indesejado, um 'acidente', já que algumas mulheres da vizinhança se referiam aos filhos de outras mulheres que vieram muito depois de afirmarem que eles haviam terminado. Enquanto algumas mulheres pareciam estar sempre grávidas ou apenas deixando de engravidar, havia aquelas que detestavam estar nesse estado simplesmente porque tinham maridos que mal podiam pagar os filhos que já tiveram. Era um segredo, mas algumas haviam descoberto uma maneira de interromper a gravidez desde o início, sem avisar aos maridos.

O que acontecia entre seus pais na privacidade de seu quarto não era da conta dele, mas nunca impediu Severus de se perguntar se sua mãe já havia passado por medidas tão drásticas. Eileen e Tobias Snape nunca deram os cuidados de que precisavam ao único filho que tiveram; Severus não via razão para eles sequer pensarem em trazer outro ao mundo.

- Eu tenho outra pergunta para você. – Snape continuou, mudando completamente o assunto para algo menos importante. - Por que o seu maldito gato come um buraco no meio da comida e depois reclama por mais quando o prato ainda está claramente cheio? – Ele olhou com desdém para a criatura laranja peluda que estava sentada atrás deles.

Hermione examinou seu familiar por um momento, parecendo confusa. Bichento parecia saber que estavam falado dele, pois sua cauda de escova de vidro balançava preguiçosamente o ar uma vez antes de se acomodar ao redor da curva de seu corpo.

- Ele sempre faz isso. – Ela riu. - Ele vai comer um pouco do meio e depois me incomoda para colocar mais comida em seu prato, mas tem que ir pelo meio. Talvez a comida que toca nas laterais não seja boa o suficiente para ele.

- Ele também tem o hábito de arrancar coisas de sua mão quando você não se move rápido o suficiente para ele?

- Bichento! Seu maldito, o que você fez com o professor? – Hermione estava sufocando uma risadinha, especialmente quando Bichento balançou o rabo mais uma vez.

O professor ficou quieto novamente, e ele estava olhando para longe. Hermione quase quis perguntar se as estrelas o estavam entediando, pela expressão em seu rosto. Mas o desejo de fazer mais do que apenas ficar ao lado de Severus superou a ideia de falar, e Hermione cautelosamente moveu sua mão até que estivesse ao lado da dele.

No meio da conversa, Snape tirou as duas mãos dos bolsos da frente e deixou os braços caírem ao lado do corpo. Agora Hermione estava prendendo a respiração sem perceber, lentamente avançando sua mão até que estivesse alinhada com a de Snape. Ainda sem impedi-la nem se afastar, ele permitiu que Hermione curvasse o dedo indicador sobre seu anel e dedo mínimo.

Exalando quando descobriu que Snape não a faria dar um passo para trás, Hermione apertou o dedo ao redor dos dois dele, gentilmente passando o polegar sobre os nós dos dedos.

Embora a manga de Snape estivesse baixa o suficiente para cobrir a maior parte de sua mão, deixando apenas seus dedos expostos, eram suas vestes de professor e a capa de Hermione que escondiam seu pequeno abraço. Por trás, parecia que os dois estavam apenas um ao lado do outro, mas apenas alguém diretamente na frente deles teria visto que eles estavam se tocando. Não havia como permitir que sua cabeça descansasse no ombro, ou pressionar seu quadril contra o dele; Hermione permaneceu completamente ereta, recusando-se a permitir que aquele dedo se desviasse do calor áspero da palma da mão de Snape.

- Vou acompanhá-la de volta aos dormitórios. – Snape disse de repente, apertando levemente a mão de Hermione antes de colocá-la ao lado dela.

- Espere. – Hermione protestou, pegando a mão de Snape, não querendo soltar. - Devemos partir tão cedo?

- Você planejou passar a noite inteira na torre de Astronomia?

- Não mas...

- Então venha, está ficando muito frio para ficar aqui fora.

- Você pode pelo menos me dar um beijo de boa noite? Eu tenho a capa de invisibilidade de Harry se você estiver preocupado em ser visto.

Snape zombou da sugestão de Hermione, seus olhos escuros olhando para o pacote de material cintilante que ela tinha acabado de tirar do bolso.

- Não, obrigado. Usar a capa de Potter uma vez já foi demais, e eu não desejo reviver a experiência.

Hermione parecia desanimada, mas não disse nada. Snape não podia acreditar o quão desapontado a bruxa estava com seu pedido ser negado, e se sentiu à beira de renegar. Assim que ela se virou para andar em direção à porta, ele pegou Hermione pelo pulso e puxou-a suavemente em sua direção, abaixando a cabeça e roçando os lábios nos dela. Hermione pareceu confusa com a mudança repentina, mas tornou-se extremamente receptiva quando sentiu o beijo de Snape. Ela tinha acabado de franzir os lábios com a intenção de continuar e franziu a testa quando ele se afastou depois de um segundo.

- Isso é o suficiente por agora. – Ele disse a ela suavemente, um olhar tenso em seu rosto. - Não podemos esquecer onde estamos.

- Oh, tudo bem! – Hermione respondeu em voz baixa. Snape então passou a mão pelos cachos dela, a carícia tão fugaz que era quase como se nunca tivesse acontecido.

- Vá em frente, então. E não se esqueça do seu gato.

Dando um breve sorriso para o professor, Hermione estalou a língua até que Bichento saiu de um canto escuro e caminhou até a porta. Ele se afastou de um casal tagarela, tirando uma breve soneca em um recesso sombreado da torre. Se ele pudesse falar, diria que a demonstração de afeto deles foi um tanto malfeita, a julgar por aquele beijo lamentável dado à sua amante. Ele diria ao mago que estava se segurando e perguntaria por quê, já que era claro que ele ficava mais à vontade quando a bruxa de cabelos rebeldes estava por perto. Mas Bichento faria o que sempre fazia; dormir, esperar ser alimentado e observar os humanos e seus estranhos hábitos.