Marguerite Krux nunca se recuperou emocionalmente do trágico acidente no qual perdeu os bebês que esperava. A culpa aliada a impossibilidade de engravidar novamente culminou no término do seu casamento. Cinco anos depois da tragédia, ela descobre, por acaso, que tem uma filha vivendo a alguns quilômetros de Londres e sendo criada por um charmoso lorde viúvo. Determinada, Marguerite decide que custe o que custar fará parte da vida desta criança, afinal esta é a sua última esperança.

Capítulo 1

cinco anos antes

Sinto muito, Sra. Smith. Fizemos tudo o que estava a nosso alcance, mas, seus bebês eram muito frágeis… infelizmente não sobreviveram_lamentou Dr. Challenger. Ele era seu ginecologista há anos e tinha acompanhado de perto toda a luta daquele casal, em especial da mulher, por se tornar mãe.

Foram inúmeros tratamentos de fertilidade, todos sem sucesso, exceto por uma fertilização in vitro. Marguerite havia se submetido a uma coleta de óvulos meses antes, e após a fecundação com sêmen de seu marido James, a transferência havia sido considerada um sucesso. Dois dos quatro embriões implantados no útero de Marguerite haviam se desenvolvido e sobretudo a mãe estava radiante com a chegada dos gêmeos. Porém todos seu sonhos e expectativas foram ceifados quando aquele caminhão desgovernado atingiu o carro que ela pilotava. Uma cesárea de emergência foi realizada, a gestação estava entrando em sua vigésima oitava semana, todavia, se tratando de uma gravidez gemelar os bebês ainda eram muito pequenos e cheios de limitações fisiológicas, mesmo com toda a assistência hospitalar que dispunham não foram capazes de sobreviver.

Lágrimas de desespero escorriam dos olhos claros da linda mulher e molhavam o casaco claro de James. Ele também estava comovido, nunca fora sua intenção ser pai, mas, quase se contagiava pelo entusiasmo da esposa, e agora diante da impossibilidade real de jamais ser pai de um filho de Marguerite o fazia de certo modo, sofrer.

Mas… _começou ela entre soluços_eu ainda tenho óvulos, não tenho?_ sua voz era um misto de desespero e esperança._podemos tentar novamente…

Marguerite sentiu o corpo do marido tensionar em contato com o seu, ignorou, afinal naquela situação, milhares de motivos eram capazes de causar tal reação. Talvez o trauma havia sido tão forte pra ele que não se sentia encorajado a tentar de novo.

Eu lamento, Marguerite._o médico a chamou pelo seu primeiro nome em uma atitude evidente de empatia e até mesmo carinho._verifiquei seus registro… não há material viável para nova fertilização._disse finalmente.

Ela nunca imaginou que pudesse suportar tanta dor. Uma parte de si havia morrido para sempre.

*

cinco anos depois

Marguerite olhava incrédula para o recibo a sua frente. O papel datava seis anos antes, havia sua assinatura na folha mas ela nunca assinaria tal documento, jamais desistiria de seu maior sonho por dinheiro algum…

Uma decorrência de eventos começaram a se formar em sua memória, a perda dos bebês, a inviabilidade dos óvulos, a estranha reação de James que culminou no fim do seu casamento meses depois. Ela sempre imaginou que o marido a culpou pelo acidente e por isto colocou tanta distância entre eles, o término foi inevitável e mais uma dor foi crescentada a sua vida solitária e triste. Por meses procurou uma reconciliação, mas ele sequer a olhava nos olhos. Marguerite implorou para que James não a abandonasse, porém, sua resposta foi: "Eu não posso, Marguerite. Sinto muito, siga a sua vida". Tentou de todas as formas entender o que aquelas vagas palavras significavam até que desistiu e se resignou a aceitar o fim do casamento como aceitou o fato de nunca poder ser mãe.

Ao encontrar o antigo recibo da clínica de fertilidade que ofereceu uma alta quantidade de libras pelos seus óvulos tudo começou a se encaixar como em um quebra-cabeça. James não a deixou por que a culpava pelo acidente e sim por que ele era o verdadeiro culpado por toda a sua desgraça. Era triste, chocante e revoltante. James havia vendido seus óvulos e falsificado sua assinatura. Isso explicava o alto investimento que o ex-marido havia feito na bolsa de valores pouco tempo antes do acidente. Investimento esse que adicionou um novo fracasso a decadente carreira de economista de James. Em meio a toda ira que se acumulava no peito de Marguerite uma luz de esperança a atingiu. Então, suas células sexuais congeladas não eram inviáveis como acreditava Dr. Challenger, e provavelmente estavam ainda estavam armazenadas no banco genético. Seu sonho não estava perdido. Ela poderia enfim ser mãe.

Freneticamente procurou o celular dentro da bolsa e discou o número de seu melhor amigo e advogado, Edward Malone.

Ned!_o chamou aflita quando a pessoa do outro lado da linha atendeu._preciso ir a um lugar e preciso que você vá comigo.

*

Sra. Smith, entenda que…_Dr. Askwitch, o responsável técnico pela luxuosa clínica de fertilização in vitro se encontrava coagido frente as inesperadas descobertas da mulher que o acusava de todos os tipos de crimes.

Não sou mais a Sra. Smith!_ela o interrompeu imperativa._Eu não quero entender absolutamente nada, a clínica que administra cometeu um erro gravíssimo, propositalmente ou não, eu farei questão de puni-los com todo o rigor da lei, assim como meu ex-marido. Não sairão impunes disto, eu garanto!

Srta. Krux, eu entendo a sua revolta, mas eu não posso…

Claro que pode!_gritou ela._Eu exijo saber onde estão os meus óvulos. Pretendo fazer uma implantação assim que possível!

A questão não é essa… _começou o médico._ existem regras em relação ao sigilo.

Sigilo? São minhas células!_Marguerite estava irredutível, havia explicado a situação para o Malone a caminho da clínica, e sequer ouviu a argumentação de Ned, estava decidida a enfrentar quem quer que fosse.

A recepcionista entrou na sala trazendo um envelope, entregou ao geneticista e saiu sem dizer uma só palavra. O médico abriu a ficha e verificou o documento com uma expressão preocupada. Marguerite notou o cenho do homem se franzir, "alguma informação indesejável", ela pensou. Um súbito medo estremeceu sua confiança e arrebatou um pouco de suas esperanças. O que poderia estar escrito naquele papel, seus sonhos seriam ceifados novamente?

Srta. Krux, espero que entenda._tentou o médico_bem… suas células foram usadas em outra mulher.

A notícia a atingiu como um tiro a queima roupa. Como ela não havia pensado nessa possibilidade? Marguerite era uma mulher muito bonita, com características físicas desejáveis a qualquer criança. Era tão óbvio que alguém já tivessem usado seus óvulos. Seus olhos se vidraram e as pernas falharam, ela precisou sentar-se. Oh Deus, um filho ou uma filha, ou, talvez mais de um… não seria capaz de ignorar isso.

Quem?_perguntou ela com a voz fraca e os olhos rasos d'água.

Sinto muito, eu não posso revelar a identidade do casal…

Você não pode?_disse com fúria crescente._Vou dizer o que não pode… está disposto a arruinar sua carreira e a fama desta clínica famosa? Por que sairei daqui direto para os jornais, aniquilarei toda e qualquer reputação que possam ter! Este será seu fim e de todo este seu império, contudo… se colaborar e me disser a identidade desta mulher eu posso relevar tudo isso…

Marguerite, eu não acho que seja uma boa ideia…_Malone estava consciente que a mulher venderia sua alma ao diabo firmando com o geneticista tal acordo. Eles poderiam processar a clínica e exigir uma indenização, até conseguir a possibilidade de conhecer as eventuais crianças que foram geradas a partir do material genético da amiga, mas o que ela propunha era muito errado do ponto de vista jurídico.

Eu não me importo se estou fazendo algo certo ou errado, é um acordo. Não conseguirei dormir esta noite sabendo que posso ter filhos espalhados pelo mundo sem que eu saiba seus paradeiros…

Na verdade apenas um._interrompeu o médico. Ele sabia que o que faria a seguir extrapolava toda a ética médica, mas, não podia arriscar sua carreira e sua reputação. Conhecia pessoas como Marguerite, mulheres desesperadas por serem mãe, e não havia na natureza uma força mais protetora que a materna. A Srta. Krux não faria nada que colocasse em risco a sua relação com a filha, ao contrário, se ele lhe negasse tal informação ela o destruiria até a última gota, nada seria capaz e pará-la._Aqui está a ficha médica da mulher, se chama Danielle Roxton.

Marguerite pegou os papéis em suas mãos trêmulas, leu com cuidado. Fez mentalmente os cálculos e concluiu que seu filho completaria cinco anos em pouco tempo. Erguendo os olhos encarou Malone que exibia um olhar apreensivo.

Partirei hoje para Avebury._anunciou.

*

Papai, você pode ler novamente a história da Girafa Mafalda?_Abbie pediu ao pai pela décima vez, embora cansativo, Lorde Roxton era incapaz de recusar um pedido da filha. Seus olhos amendoados de um verde acinzentado eram tão cativantes e irresistíveis, sabia que jamais lhe negaria algo.

Eu adoraria, meu bem, mas, talvez, você prefira um passeio. Está um lindo dia._ele afastou a cortina e mostrou a menina a paisagem estonteante de Avebury, um passeio era um convite irrecusável num dia como aquele.

Onde iremos, papai?_perguntou a garotinha animada.

Onde você quiser ir._respondeu ele.

Desde a morte da esposa, Lorde John Roxton havia dedicado toda sua vida entre a filha adorada e os negócios da família. Não havia espaço para mais nada, nem para mais ninguém. Sua irmã, Verônica, insistia que já era hora de enterrar de vez o luto e abrir seu coração novamente a uma nova paixão, porém, o nobre não pensava da mesma forma. A culpa pela morte de Danielle ainda era uma dor presente, a qual ele tinha dúvidas que passaria algum dia. A esposa nunca lhe escondeu que era estéril, mas, diante do desejo absurdo do marido em ser pai se submeteu a um procedimento de fertilidade. A felicidade parecia plena quando descobriram a gravidez, foram meses de profundo amor e espera, entretanto, como um castigo dos céus pela sua teimosia, Danielle teve complicações durante o trabalho de parto e morreu em seguida. Roxton nunca se recuperou disto, a filha era o único motivo de seu sorriso e só por isto ainda era grato. Faziam quase cinco anos, mas o remorso o assombrava como se tivesse acabado de acontecer.

No anel das fadas._Abbie interrompeu os pensamentos do pai._podemos ir ao anel das fadas?

O círculo de pedras não ficava longe da propriedade Roxton, era o lugar favorito da pequena Abigail, ele sorriu docemente para a criança.

É claro querida, o que você quiser.

*

Depois que o êxtase das descobertas havia passado e Marguerite voltou a pensar racionalmente, ela se viu dirigindo sem nenhum plano com destino a propriedade Roxton em Avebury.

"Eu não posso simplesmente chegar lá e dizer aquele casal que o filho deles é na verdade meu… e deles também. No mínimo iram me expulsar de lá e não permitiram que me aproxime nunca mais", pensou enquanto dirigia.

Concluiu que precisaria de uma estratégia, uma forma de ganhar a confiança dos Roxtons e depois lhes contaria a verdade. Havia muita luz do sol ainda, e ela sempre foi uma pessoa que se inspirava ao ar livre. As paisagens de Wiltshire eram magníficas, e caminhar um pouco a faria ter ideias.

Estacionou o carro no acostamento da estrada e caminhou pelo campo. Respirou profundamente a brisa da primavera. Apesar de todos os seus problemas, pela primeira vez em anos, ela tinha algo que realmente a motivava. Como se durante os últimos cinco anos houvesse estado adormecida ou anestesiada.

Risadas infantis despertaram seu interesse e ela se viu guiada por aquele adorável som. Não percebeu quando seu lenço de seda escapou de seu pescoço e voou para longe dela. Estava hipnotizada pela imagem de uma linda garotinha de cachos negros correndo sem parar em volta de um círculo de pedras. Marguerite se viu naquela mesma idade, este era o seu passatempo favorito. Seus lábios se curvaram em um sorriso involuntário e seu coração se aqueceu deu um jeito inexplicável, ela então teve vontade de chorar. Estava tão vulnerável que a imagem de uma criança já lhe provocava lágrimas.

Milady, deixou cair seu lenço._a voz masculina e profunda surgiu atrás dela fazendo-a sobressaltar._Sinto muito, não queria assustá-la.

Marguerite virou-se e seus olhos encontraram o do belo homem que lhe oferecia o lenço. Era moreno, alto, cabelos bem cortados, um olhar que transmitia bondade.

Obrigada._sussurrou ela._eu estava distraída, observando aquela linda menininha.

O rosto de Roxton exibiu um sorriso orgulhoso.

É minha filha Abigail, mas nós a chamamos de Abbie.

Ela é linda, parabéns.

Muito obrigada._sorriu novamente o homem, tão hipnotizado quanto ela pela menina serelepe.

Marguerite Krux. É um prazer._ela estendeu a mão em direção ao rapaz.

John retribuiu o gesto com um brilho diferente nos olhos, parecia que ele havia dedicado um pouco mais de tempo a observar a linda mulher e tudo que enxergava lhe parecia bom. Um sentimento adormecido em seu peito voltou a vibrar, com entusiasmo ele levou as mão dela aos lábios.

John Roxton._apresentou-se._ Estou encantado.