Lady Roxton reivindicou a mão de seu marido entre as suas. O gesto delicado o despertou da tempestade de sentimentos que experimentava.

Prometemos não criar expectativas._lembrou ela quando a atenção dele se concentrou nela.

Não eram só expectativas que o consumiam, também tinha o medo. Essa não era a primeira vez que Lorde Roxton se via na mesma situação, sentado ao lado da esposa aguardando o resultado de um inseminação artificial. Por mais que tentasse não conseguia afastar de si o assombroso passado. Amava a ideia de ter outros filhos com Marguerite, mas, a simples possiblidade de perdê-la como aconteceu com Danielle frustrava seu entusiasmo.

Depois que Abbie havia plantado no coração da mãe o desejo de ter irmãos, o brilho de uma esperança ascendeu-se na esposa e a vontade de gestar uma criança ressurgiu com mais força em Marguerite. Doutor Challenger havia explicado que as chances de viabilidade do material genético criopreservado diminuía com o passar dos anos, mas, irredutível Marguerite insistiu que gostaria de fazer ao menos uma despretenciosa tentativa. John não podia negar isto a ela, e em seu íntimo era o que ele queria também, embora, agora estivesse com receio.

Não se trata apenas de expectativas…

A mulher ergueu a sobrancelha questionadora, o que mais podia incomodá-lo? Estaria John sendo forçado a ser pai novamente como outrora ela impusera a James?

John… você deveria ter me confessado que não se sentia a vontade para ser pai novamente. Eu estava tão empolgada com a possibilidade que não notei os seus sinais…

Não, meu amor… não é nem perto disso._levou às mãos dela aos lábios e beijou-as com devoção esperando que isso afastasse qualquer dúvida de que ela o infringira qualquer imposição inconveniente. Marguerite trouxera apenas alegrias a sua vida. Os meses que passaram juntos foram os mais felizes de toda sua existência e era justamente as sombras do passado que agora nublavam a plenitude desta felicidade._O que eu mais quero é uma família ao seu lado. Talvez uma dezena de filhos, todos com seus olhos encantadores e com este sorriso capaz de derreter o mais rígido gelo. Só que… você conhece o que aconteceu no meu passado, sabe como a culpa pesou em minha consciência por tantos anos e quando consegui finalmente superá-la o medo de que aconteça novamente me persegue. Não posso perdê-la, eu não suportaria.

Marguerite sorriu mesmo com os olhos rasos de lágrimas de compreensão. Ela afagou a barba bem aparada do marido com o nó dos dedos. Era ao mesmo tempo um carinho suave e profundo. Ele buscou seu olhar.

Meu amor…_sussurrou ela._ não pode deixar que os medos do passado interfiram na alegria do presente e na perspectiva do futuro. Aprendi que devemos viver intensamente um dia de cada vez. O destino foi tão generoso em cruzar nossos caminhos que foram tão tortuosos… isso não lhe é o suficiente para acreditar que tudo acontecerá da maneira que deve ser?

Ela tinha razão. Não podia se apegar a seus receios, ele a tinha a sei lado, eles tinham Abgail e um lindo futuro juntos.

Vocês está certa, querida. Obrigada por estar a meu lado, lembrando-me de enxergar o lado bom de tudo.

A gratidão é minha por você ter me dado a esperança de ser feliz novamente.

Marguerite, John… podem me acompanhar, por favor._Dr. Challenger interrompeu o momento de confidências do casal com uma expressão indecifrável.

O estômago de ambos se contorceu de ansiedade pelo tão esperado resultado. Assim que tomaram assento diante da mesa do médico, o ruivo começou a falar:

Seus exames ficaram prontos._disse com os papéis em suas mãos, se emitir sequer um sorriso ou um lamento. John quase podia apostar que o ginecologista estava saboreando o suspense_As doses hormonais de progesterona em seu sangue indicam que…_ele precisava realmente ser tão metódico? Pensou Marguerite_ indicam que você está definitivamente… grávida!_um sorriso rasgou o rosto do médico_ Parabéns!

John beijou a mulher com amor e ela retribuiu o carinho. Seus olhos derramavam lágrimas de gratidão e felicidade. O marido compartilhava de tais sentimentos.

Agora, preciso fazer uma ultrassonografia em você para termos certeza se a gestação está de acordo com o esperado.

Em poucos instantes Marguerite sentia a sensação gelada do gel sobre seu abdômen ainda liso. Roxton segurava carinhosamente sua mão enquanto o médico aproximava o transdutor da pele clara e macia da esposa. Uma imagem distorcida e com interferência surgiu na tela. Chiados não decifráveis confundiam o casal. George observava o monitor com atenção ao mesmo tempo que transpassava o sensor ao longo do ventre da sua paciente e amiga. Não podendo conter a tensão ela perguntou:

Diga-me algo, Challenger! O que você está vendo aí? Como está nosso bebê?

O homem ruivo os olhou ciente do significado que a notícia que estava prestes a informar causaria no casal e principalmente na mulher. A lembrança o remeteu há mais de seis ano antes, a mesma paciente e a mesma conclusão…

Meus caros, receio que vocês não serão pais de um bebê… parabéns Marguerite e John, estão esperando gêmeos.

….sete meses depois…

Só mais um pouco de força, Marguerite… quando vier a dor você sabe o que fazer._incentivava o médico.

No lado oposto do corpo da mulher, Lorde Roxton se via afligido pela natural tortura que a esposa passava. Se sentia impotente por não poder fazer nada para diminuir tal tormento. Sua única ação era afagar-lhe os cabelos úmidos pelo suor e dizer o tempo todo que a amava e o quanto estava orgulhoso da força e coragem dela. Durante os meses de gestação John se incumbiu de mimá-la ao extremo, fazendo-lhe todas as vontades. Viveram meses de céu na terra, contudo, quando Marguerite insistiu parto natural uma nova onda de apreensão tomou conta do nobre. Seu desejo era quase um mantra no seu ser pedindo a Deus generosidade para que seu amor e seus filhos ficassem bem e saudáveis.

Um choro forte rompeu sua prece silenciosa e seus olhos se desviaram da sua mulher para a criança forte e vermelha que agora era transferida para uma manta nos braços de uma enfermeira que John mal notara que se fazia presente na sala. Em seguida outro som estridente, e ele se viu sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Seu olhar encontrou novamente o da esposa, ela estava exausta, entretanto, nunca a viu tão linda. Um brilho de gratidão interceptou s expressão de ambos. Ele sussurrou com os lábios em suas têmporas quando os lindos meninos foram acomodados no colo da mãe.

Eu te amo.

Marguerite sorriu e se acomodou da melhor forma que pode no abraço do marido. Mais tarde naquela mesma noite, ela solitária amamentava os bebês um em cada seio. A porta se abriu e balões, rosas e ursos de pelúcias invadiram o quarto, atrás deles uma garotinha ansiosa correu e se debruçou sobre a borda da cama.

Mamãe, eles são lindos! Posso brincar com eles?_a espontaneidade era marca registrada da mais nova promovida a irmã mais velha.

Marguerite sorriu e beijou a filha. Antes de que pudesse responder John a antecipou.

Acho que daqui alguns meses eles vão adorar brincar com você, meu amor._explicou o pai pegando-a no colo e colocando-a ao lado da mãe na cama.

Ele mesmo se acomodou de forma protetora sobre a sua linda família. Beijou a cabeça da mulher e afagou os filhos. Permaneceram em silêncio por um longo tempo, Marguerite apenas contemplou o presente que a vida tinha lhe dado. Quando todas as suas esperanças estavam quase sucumbidas um sopro novo e fresco mudou as coisas de lugar e como por mágica ela tinha tudo o que sempre desejara ao alcance de seu abraço. Fechou os olhos e agradeceu entendendo que toda a dor que um dia sofreu foi apenas para saber valorizar o que estava vivendo naquele momento. Suspirou finalmente descobrindo o que era a felicidade.