A.N.: Olá, Lyn por aqui.
Minha estreia nessa plataforma é uma fanfic de 10 capítulos que preparei inspirada em músicas. Aproveitem a leitura.
"Eu estou aqui. Ao alcance de minhas mãos ela parece dormir. Ela está mais doce agora do que o mais louco sonho que eu poderia tê-la visto. Então eu a observo escapar. Mas eu sei que eu a procurarei por toda parte, intensamente. Não há limite em meus esforços para procura-la de alto a baixo."
JUNHO, 1998
O pôr do sol visto de uma área especifica das montanhas Arklay era deslumbrante. Dali dava para observar o imenso condado em florestas densas e a cidade industrial Raccoon bem pequenininha. Infelizmente, a visitação naquela região diminuiu bastante naquele mês. Haviam relatos de pessoas que afirmaram à imprensa local que a área estava repleta de animais selvagens que pareciam monstros pela noite. Por isso, apenas aventureiros e exploradores curiosos eram os únicos que tinham coragem suficiente para ir até lá.
A mulher de cabelos bem curtos em uma regata verde secava o suor da testa enquanto o azul-claro de seus olhos deslizavam sobre aquela visão de um local seguro do mirante. Eles contemplavam a beleza daquele lugar enquanto ela segurava a alça da mochila que trazia em suas costas. Ela logo tiraria da mochila uma garrafa de água para saciar sua sede.
Ao colocar a mochila no chão, sentindo o alivio de não ter mais o peso nas costas, a mulher tomou a garrafa. Ao abri-la, bebeu grandes goles desesperados. Só naquele momento se deu conta de que estava sozinha, que tinha chegado sozinha ali. Olhando pelo trajeto de onde viera, apenas encontrou as árvores que teve de driblar até chegar ao mirante. Uma pontinha de preocupação soou como um alarde em sua mente.
– Chris!
– Eu já estou indo... – Uma voz masculina ofegante gritou de volta em uma curta distância. – Por que apertou os passos? Eu te disse que chegaríamos a tempo de assistir o pôr do sol.
A mulher sorriu em alivio enquanto respondia aquela pergunta em sua mente. Mas aguardaria Chris aparecer em sua frente para que não precisasse se justificar duas vezes. De repente ele surgiu, seu rosto um pouco irritado pelo cansaço enquanto mancava por ter torcido o pé há alguns minutos. Usando uma camisa Henley vermelha e calças cargo, ele se aproximava com dificuldade da mulher que o estendia a garrafa. Assim que saciou sua sede, olhou em direção ao que ela via com tanta admiração.
– Eu gosto da sensação de ver o céu azul celeste sobre o verde da natureza antes do sol se pôr ou logo depois que o sol nasce. Algo nessa visão me faz sentir segura e ao mesmo tempo... livre. Se eu inverter essa imagem em minha mente, vai parecer que o campo verde, com árvores pontiagudas, está prestes a mergulhar em um céu azul semelhante ao mar. Só não me pergunte o porquê que sempre imagino essa loucura. – Ela concluiu percebendo que o rapaz inclinava a cabeça para compartilhar do ponto de vista dela.
– Então por que não tira uma foto disso? – Chris lhe entregou uma câmera de fotos instantâneas depois de ter a tirado de sua mochila. – Depois é só a inverter a foto em sua mão. Ajuda com a imaginação e não te deixa com torcicolo.
Ela recebeu a câmera com um sorriso de canto e fez a foto. Enquanto aguardava a mesma se revelar, segurando-a como uma pinça, percebia que Chris olhava com interesse em direção à um lugar mais alto da montanha, rente à um declive. Mesmo com seu pé machucado, Chris pretendia continuar subindo por que aquela aventura lhe estava sendo muito agradável.
– Jill, acho que ali em cima é um bom lugar para assistir o pôr do sol. A gente pode sentar na ponta daquela pedra e ficarmos com as pernas balançando no ar. – Chris apontou na direção recomendada enquanto olhava para o relógio de pulso. – Ainda dá tempo de chegar lá...
– Aqui está ótimo! Lá em cima, acho que vai me dar tontura. – Jill comentou encolhendo os ombros enquanto franzia o nariz. Chris estranhou aquela rejeição quando ela geralmente não negava uma boa proposta aventureira.
– Acho que a visão dali é mais bonita. – Chris insistiu mais uma vez.
– Mas vai ficar longe para voltarmos naquela área a noite. – Jill apontou para uma local mais abaixo deles. – Afinal, não estamos aqui pelo pôr do sol e sim por causa da nossa investigação pessoal e secreta, não se lembra? Temos monstros para encontrar.
– Os monstros podem esperar. Afinal, muito em breve, vamos estar aqui a trabalho e não livres como agora para explorarmos a região como quisermos. – Chris cruzou os braços. – Algo me diz que você está tentando rejeitar minha proposta, mas não consegue porque vai precisar se justificar.
– Tá bom, vou te confessar de uma vez. É... que não me sinto bem em lugares altos e arriscados.
– Você não tem medo de monstros selvagens, mas tem medo de altura? – Chris intrigou-se percebendo o desconforto que a pergunta trouxe a ela. Jill sentiu um arrepio, que foi perceptível para Chris.
– Eu não tenho medo de altura. – Ela olhou em direção ao local onde não queria ir. – E sim de cair lá do alto.
NOVEMBRO, 2006
A área abaixo do penhasco onde se encontrava a Mansão Spencer na Europa, era uma grande floresta inexplorada rente ao oceano. Desde que a BSAA tinha se instalado naquela região, em busca de dois corpos desaparecidos de prioridade máxima, o mar, a costa e a área vegetal tinham sido parcialmente invadidas pelas equipes de busca.
As buscas foram realizadas por tropas advindas da filial da América do Norte, da Ásia e da África que davam suporte ao quartel general da Europa. Enquanto as buscas aéreas atravessavam de um lado para o outro sobre a região, as buscas marítimas usavam todos os recursos possíveis para detectarem qualquer sinal de ambos no mar. Ao presumirem que se os desaparecidos tivessem escapado com vida do salto abismal da janela da mansão sobre o oceano, poderiam ter se abrigado na costa e na floresta ao lado dela. Assim, as buscas terrestres foram iniciadas dominando toda a região inabitada e inacessível.
Foram necessárias quase cem pessoas atuando diariamente naquela localidade, buscando por qualquer pequeno traço que poderia ser importante às investigações do acontecido. Depois de quase três meses seguidos de busca sem sucesso, as autoridades locais começaram a barrar o andamento da operação de busca e resgate, pois as áreas de preservação natural da região estavam sendo bastante comprometidas por uma causa carente de solução, devido aos dias que já tinham passado sem êxito algum. As chuvas e tempestades de outono acabaram por atrapalhar boa parte das buscas e dos descobrimentos de provas que poderiam gerar alguma contribuição precisa.
Enquanto as equipes encerravam mais um dia de buscas e se concentravam na enorme tenda de apoio para a refeição noturna, um documento oficial se encontrava nas mãos do líder da missão de busca e resgate, o atual diretor da BSAA da Europa. Ele se encontrava em sua própria tenda pessoal, não junto ao grupo. Ao ler a carta escrita e assinada à punho do líder do país, abaixou sua cabeça em desânimo. O homem gregário teria poucas horas para interromper todo o remanescente progresso já conquistado pelo grupo que liderava, mas não era isso o que mais lhe incomodava em ter de fazer.
Enquanto todos os demais se alimentavam no refeitório improvisado, apenas uma pessoa andava de um lado para o outro, em frente à maquina de café. O homem inquieto provavelmente rejeitou a se alimentar junto aos demais. Portanto, permanecia em uma área afastada do movimento de pessoas. Era possível notar o trejeito colérico do soldado ferido enquanto bebericava do café que sorvia com um olhar perdido que demonstrava que ele conversava com sua própria mente.
Os olhos fundos eram uma mistura de cansaço com lágrimas derramadas de maneira escondida. Ele tinha perdido peso o suficiente para que as pessoas ao seu entorno notassem o definhar de um homem outrora robusto e apessoado. Era esse o homem que o diretor mais temia enfrentar naquela noite fria e chuvosa.
Chris Redfield era o principal combatente de toda a corporação na qual pertencia, fundara e atuava na linha de frente. Com trinta e dois anos, viu seus dias de grande apogeu profissional sucumbir em ruinas quando se encontrou derrotado em sua principal batalha de vida. Uma batalha onde ele não pode sequer exercer um mínimo movimento, desde que fora salvo pelo gongo da maneira mais perturbadora possível. A culpa pela chance de continuar vivo, ofertada pela ação mais altruísta que já havia testemunhado, era a causa que o deixava amargurado. Suas ações contrastavam-se entre desespero e frieza, de uma maneira bem reclusa.
Chris se recusava a se alimentar apropriadamente há dias. Começou a evitar contato com as demais pessoas e havia se tornado um homem de face rígida e se apresentava aos demais continuamente mal-humorado. Os colegas mais próximos temiam suas reações espontâneas, na maioria das vezes amotinada. Mas ninguém nunca se atreveu a questioná-lo sobre o acidente que reunia aquela quantidade de militares voluntariados em buscas. Todos sabiam que ele se machucava entre culpa e remorso, vagando entre memórias e arrependimentos e seus pensamentos obstinados não descansariam enquanto aquela missão não se findasse da maneira apropriada.
Afinal, a pessoa que todos tinham maior interesse em resgatar naquela operação tinha salvado a vida de Chris ao morrer em seu lugar. O questionamento que era sussurrado entre os demais atuantes das buscas eram os motivos na qual a vida de Chris fora salva. Os rumores indicavam que o ato da mulher que lhe salvou a vida e a prostração daquele homem ao perde-la tinha um pretexto completamente passional. Mas ninguém se atrevia a abordar aquele assunto devido ao respeito pela patente de ambos.
Essa também era a grande dúvida que o diretor tinha em relação aquele relacionamento de anos dos dois agentes principais da corporação. Portanto, temia afrontar ao agente com as novas informações que recebera. Certamente isso causaria um grande conflito entre eles que podia custar seu alto cargo. Ao chegar na grande tenda do refeitório, o diretor se dirigiu a ele mantendo uma postura neutra.
– Agente Redfield... me acompanhe, por gentileza.
O sotaque britânico pronunciou as palavras de forma séria, mas carregada de consternação. Chris levantou o olhar em direção ao diretor e com um aceno, o observava indo em direção ao lado de fora da tenda. Ele se livrou do copo descartável que amassara e o seguiu para fora da tenda.
Os chuviscos de mais cedo tinham se transformado em uma fria tempestade. O céu em tom marrom-claro se iluminava temporariamente com o brilho advindo dos relâmpagos. Com isso, Chris ajeitou seu casaco de inverno, cobrindo-se com o capuz para se aquecer melhor. Já próximo da tenda do diretor enquanto caminhava, ergueu sua visão e pode observar a sombras das cordilheiras ao redor, sentindo poucas gotas de chuva sobre sua barba crescida e malfeita.
O diretor abriu as cortinas de seu aposento e aguardou que seu convidado entrasse ali também. Como o aquecedor estava ligado, ambos sentiram o alívio do ambiente caloroso e logo removeram os capuzes que os protegera da chuva. Naquele lugar, o que mais lhe chamava a atenção era uma mesa central na qual havia uma maquete da região com seus relevos bem detalhados. Estava quase completamente cheia de alfinetes que indicavam todos os locais já explorados pelos grupos de busca.
Chris espontaneamente se achegou à miniatura e deu uma profunda olhada em cada pequeno pedaço de terra representado. Uma pequena área lhe chamava a atenção, onde havia um riacho próximo. Essa faixa de terra ainda era muito afastada de onde as equipes já tinham atuado. Ele estimava que em menos de um mês já explorariam aquela área. Aquela região era um ponto onde Chris sempre insistia que as equipes alcançassem, mas como os avanços territoriais tinham de ser baseadas de acordo com as permissões do governo local, eles não poderiam simplesmente pular áreas. Por fim, tinham de seguir o protocolo regional até que chegassem nessa determinada área.
O diretor percebeu pelas expressões de Chris, que mais uma vez analisava sua área priorizada na maquete, que provavelmente poderia lhe solicitar novamente um novo pedido de avanço territorial. Mas antes que Chris pudesse exigir aquela atenção outra vez, para explorar sua área desejada, o senhor de barba grisalha arredondada retirou uma folha de papel de dentro de um envelope.
– É melhor que você mesmo leia. Não quero que pense que isso partiu de mim.
A voz baixa e áspera do senhor acompanhava uma mão estendida em direção ao mais novo. Chris, relutante e desconfiado, apanhou a folha de papel e a observou no intuito de adquirir as novas informações. Cada nova palavra lida, cada nova ciência trazia uma agonia inexplicável e seu desespero aumentava exponencialmente. Ele já tinha tido conhecimento do risco daquela ordem acontecer a qualquer momento, mas jamais aceitaria isso. Ele já não vinha aceitando nada do que estava acontecendo em sua vida desde o fatídico dia em que tinha entrado na mansão acompanhado de sua parceira. Ele não aceitaria deixar aquele lugar sem que pudesse levá-la para casa. Portanto teria que invalidar tudo o que lera naquele documento.
– Não... não pode estar acontecendo. O senhor me prometeu que... que tentaria de todas as maneiras... impedir...
Sua voz foi sucumbindo até se tornar um ingênuo silêncio por causa de palavras que pararam de se formar corretamente em sua mente. A aflição que sentia era semelhante aos primeiros minutos em que se encontrou sozinho dentro da biblioteca da mansão quando tinha acabado de perder sua parceira. Chris se tornou incapaz de exercer qualquer expressão ao tentar encontrar coerência em qualquer motivo mental para que aquela realidade não estivesse acontecendo. Não podia acreditar que o tempo para encontra-la tinha simplesmente se esgotado.
O trovão foi o único som ouvido quando ambos se fitaram em silêncio por poucos segundos até que naquela troca de olhares uma solução surgisse para impedir o problema iminente. Em seguida, Chris voltou-se ao papel e reparou que, ao abaixar a cabeça naquela direção, as gotas de lágrimas que lhe embaçavam a visão tentavam se segurar firmemente em seus olhos o quanto podiam para que não desabassem como o céu que parecia ter torcido nuvens encharcadas em cima de suas cabeças.
– Juro por tudo o que me é mais sagrado. Juro pela minha família que tentei impedi-los. Eu recebi uma notificação no início da semana que indicava que isso poderia acontecer a qualquer momento, só não esperava que fosse tão cedo. Por isso, eu já solicitei todo o suporte médico, terapêutico e familiar a você de antemão. – Chris imediatamente tirou os olhos do papel para encarar friamente ao líder que, com aquela desculpa, já parecia se render a ordem do papel. – Prolonguei muito essas buscas por sua causa. Mas dessa vez não consigo recorrer a essa determinação porque... nenhum simples vestígio da agente Valentine fora encontrado. Detesto ser realista, Chris. Contudo me parece que nunca iremos encontrá-la. Eu sinto muitíssimo. Tudo o que eu posso fazer é dar as melhores honrarias póstumas...
– Não! – Chris bradou interrompendo-o. – Não quero essa ajuda, essa piedade. Um ritual em torno dessa desgraça.
Chris visivelmente enfurecido entregou o papel de volta ao chefe de maneira rude. Observou ao redor buscando se acalmar para não expor sobre ele toda a indignação que realmente sentia. Nisto, seus olhos localizaram no painel de investigação, a foto da agente referida.
Desde que ela havia desaparecido, ele não conseguia ver sua imagem em fotos. Tudo o que conseguia era recriá-la em sua mente com todos os detalhes dela. Preferia que sua mente trabalhasse para projetá-la com todos os movimentos dos trejeitos que ela naturalmente executava diariamente do que vê-la com os próprios olhos em uma foto inerte e paralisada. Não era assim que queria se lembrar dela desde que a perdeu. Ao vê-la ali, como um ser imóvel e sem vida, sem o formoso sorriso de canto de lábios que repetia desde quando a conheceu, sentiu uma tontura que lhe secara a boca e que ardia desvairadamente em seu peito, mas não deixou essa sensação transparecer. A fúria que expressava inibia qualquer sinal de sentimento vulnerável.
– Sinto muito. – O diretor lhe tomou a atenção mais uma vez. – Eu só quero que saiba que amanhã o jurídico vai dar entrada na papelada para que ela tenha ao menos a honraria de uma lápide. É o que podemos fazer no momento.
– Lápide? E o que mais? Flores, velas... um velório? Jill precisa ser encontrada e não de uma cerimônia. – O tom demonstrava a dificuldade de aceitação ao mesmo tempo em que diretor percebia o sofrimento perceptível do homem. – Uma cerimônia só pode ser feita se o homenageado estiver presente e nesse caso específico, não vai mais acontecer pelo jeito. Se vocês têm que ir embora, vão todos. Eu não saio daqui se não tiver um resultado decente. Eu dispenso a ajuda terapêutica ou qualquer merda que me façam mudar de ideia. Eu não vou embora desse lugar sem ela. Peço permissão para me retirar.
Chris nem mesmo esperou uma permissão do líder para deixar a tenda dele. O diretor assistiu a partida do agente e caminhou lentamente até sua mesa de trabalho. Ele percebeu o amasso que Chris havia deixado no papel com sua revolta. Por fim, repousou-o junto com outros arquivos amontoados de maneira organizada.
Ao levantar seus olhos em direção ao painel de investigação, seus olhos encontraram a foto da mulher a quem tanto buscavam. O diretor nunca tinha conhecido pessoalmente Jill Valentine, mas todas as pessoas que a conheceram naquela corporação, de alguma forma, deixaram seus trabalhos para trás para se voluntariarem em busca dela naquela região inóspita. As pessoas que se inspiravam nela, de vez em quando, contavam ao diretor alguma experiência que tiveram com a agente Valentine com um tom muito brioso.
Ele pode concluir que a popularidade de Jill não era porque ela tinha um histórico de sobrevivência invejável, habilidades e destrezas extraordinárias; um currículo muito refinado na área; ou simplesmente por ter fundado aquela corporação sendo a agente mais bem-conceituada, no mesmo nível de Chris. Era pelo simples fato de ser a dona de um caráter único, possuir carisma nato e uma humanidade tão altruísta a ponto de servir as pessoas mais do a si mesma. Ele tinha noção de que quando desse a notícia infortunada nas primeiras horas de trabalho do próximo dia, certamente haveria massiva relutância das equipes de busca para deixar o local.
Quando ele foi escalado para ser o líder das buscas, ele não entendeu a priori os motivos por trás. Todos os demais diretores que a conheceram queriam estar ali, mas logo ele, que nunca tinha tido a oportunidade de conhece-la, foi delegado à essa incumbência por voto na diretoria. Olhando para a foto da agente por alguns longos segundos, ele pode entender finalmente o porquê.
Se tivesse conhecido Jill Valentine, ele provavelmente batalharia com maior afinco para não interromper aquelas buscas e acabaria por quebrar ordens de escala global para que isso fosse possível. Ele sabia que teria que ser o lado racional daquele grupo de pessoas que atuavam nas buscas pelo valor sentimental sobre aquela magnífica mulher.
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O estado emocional do homem enlutado já havia alterado bruscamente sua personalidade. Hora era o rapaz intransigente e rebelde de quando as ordens lhe soavam desagradáveis, outra hora era o homem circunspecto que se tornava quando o trabalho ficava exaustivo, outra hora era o enigmático depois de que passou a desconfiar das pessoas na qual tinha que atuar junto a ele. Sua personalidade sensível e pacifica estava sem um motivo surgir desde que a mulher que o provocava a ser daquela forma desapareceu sem previsão de retorno.
Havia nele uma pausa, uma relutância em cada atitude tomada, um medo de errar o tempo todo. Era como se cada atitude dele causasse uma responsabilidade que ele ainda não conseguia assumir as consequências. O herói de todos estava em seu pior momento.
Tinha sido derrotado da forma mais cruel que poderia ter sido vencido. Isso reverberava pelos campos de busca, pelos corredores das barracas e pelas filiais da BSAA do mundo inteiro. Ele tinha total noção do que aquela perda representava para ele e por isso não queria ter perdido. Sem a pessoa que mais confiava ao seu lado, a pessoa essencial que o motivava a seguir em frente depois de tantas dificuldades, ele se sentia perdido. Tudo o que tinha acontecido era como uma explosão que ainda o estava desintegrando dolorosamente aos poucos.
A realidade era cada vez mais dura a cada novo dia. As pessoas ao redor que tentaram enchê-lo de otimismo ou confiança já começavam a trocar de opinião silenciosamente. Entretanto, mesmo sem forças, tentaria o possível e o impossível, o humano e o desumano sem perder os segundos que ainda restavam de sua esperança para finalmente encontra-la. Nada era tão mais importante do que aquele motivo maior.
Carregando uma mala de variadas angústias em cada gesto realizado, Chris se afastava da tenda do diretor com passos largos. Ele fora inundado pelas pesadas gotas de chuva sobre sua cabeça descoberta. Enquanto as gotas de chuva continuamente corriam em seu rosto, ele mantinha a cabeça erguida em direção ao local onde se situava a mansão Spencer.
Seus olhos subiam e desciam no trajeto pelo qual Jill havia passado desde que se encontrou do lado de fora da janela. Experimentando uma dor lancinante, ele conseguia vê-la mergulhando de alto a baixo na frente do penhasco rochoso por mais distante que se encontrasse daquele lugar. Lembrou-se dos dias seguidos em que perambulou no sopé do penhasco, procurando por qualquer sinal dela enquanto internamente enlouquecia por não a encontrar a cada minuto subsequente.
Cada minuto que se passava o levava a chegar nas conclusões mais ilógicas. Como se talvez ela tivesse se fragmentado em pequenos pedaço que eram impossíveis de se juntar ou submergido dessa realidade de corpo e alma para uma outra na qual não era possível acesso. Chris pouco se lixava a saber do causador daquele desastre. Mas sabia que se encontrasse Wesker mesmo sem vida ali, ainda assim cometeria uma atrocidade com o que restaria de seu corpo pela fúria acumulada em si daquele homem que finalmente conseguiu derrota-lo. E a derrota era um assunto pessoal que as pessoas ao redor jamais entenderiam.
Sua visão era péssima por causa da chuva. A neblina também ofuscava a área. Sua concentração ainda estava digerindo as novas informações. Portanto, o temporal não era tão frio quanto as palavras que tinha lido naquela carta. O ambiente alagado ao redor, não se comparava com as inúmeras vezes em que tinha derramado lágrimas desesperançadas e escondidas no fim de cada dia intenso de busca, quando nem costumava a ser uma pessoa tão emotiva.
Chris tinha tentado manter sua esperança e suas expectativas no mais alto que podia para uma situação visivelmente insolúvel. Contudo, todas as vezes em que ele pensava em se render ao óbvio de jamais poder encontrá-la, alguma coisa por dentro o impulsionava acreditar que ao menos ele poderia vê-la uma última vez. Por mais que o desespero e a dor de encontrá-la sem vida pudesse ser ainda mais traumático do que a dúvida que o perseguia durante os últimos meses. O agente sofria o luto de maneira antecipada, se negando a aceitar o que estava acontecendo.
Não se submeteria ao que tinha lido no documento. A pessoa a quem buscava era uma causa muito maior para ser negligenciada daquela forma embora não tivesse mais como recorrer para adiar mais uma vez aquele impasse.
Ainda transtornado por tudo o que tinha acabado de ler, finalmente começou a sentir que teria que atuar sozinho e fazer tudo da maneira dele. Ele tinha sido muito obediente as regras éticas onde deixava a BSAA atuar livremente naquela busca, estando à frente dela. Para ser ajudado anteriormente, ele sabia que não poderia bater de frente a corporação porque ele não tinha os mesmos bons recursos que eles forneciam. Contudo, ao tomar ciência de que a BSAA já não mais o ajudaria, pensou que somente poderia contar consigo mesmo. Alcançando a bússola presa no bolso do seu casaco, ele encontrou a direção do riacho que tanto o atraía.
Começou com pequenos passos, mas logo seus passos eram pesados como uma marcha sobre a grama molhada do campo em que as equipes estavam instaladas. Contemplava a floresta fechada com obstinação enquanto verificava seus bolsos. Encontrou sua faca de combate em um dos lados do coldre de cintura. Ao retirar a pistola do outro lado, verificou se estava carregada e a guardou novamente. Em seguida retirou uma lanterna do bolso oposto do que tinha guardado a bússola. Seguiria seu próprio instinto e entraria floresta a dentro sem mais nenhum equipamento. Ele teria que fazer isso sozinho antes que fosse proibido, como aconteceria no dia subsequente. Sua consciência o impulsionava de modo irrefreável a encontrá-la a qualquer custo começando seu trabalho individual naquela noite chuvosa. O emocional arrancou toda a racionalidade e prudência de suas ações que se tornavam mais inconsequentes a cada segundo.
– Chris!
Um grito feminino, uma voz estentórica e aguda ecoava à poucos passos dantes dele entrar pela floresta. Com a penetração do grito em seus ouvidos, ele reduziu brevemente seus passos. Por um momento ele achou que fosse alguma trava que sua própria mente criou de última hora para impedir o delírio que estava prestes a fazer. Aquela voz sempre surgia nos momentos em que ele mais se arriscava como um bloqueio para que ele não agisse de maneira impensável há muitos anos. De qualquer forma, ele estava obstinado. Nada poderia impedi-lo de ir até a área que mais ansiava explorar.
– Chris... Eu sei que você tá me ouvindo. Volte para cá agora mesmo!
A mesma voz soou mais estridente dessa vez e estava mais audível pela distancia já encurtada. Chris pode entender que a voz era concreta e não fruto de sua consciência. Mas antes que pudesse obedece-la como sempre fazia, desviou-se de qualquer chance de impedimento e continuou a marchar em passos largos sem ao menos olhar para trás.
De repente, um eco de tiro foi ouvido. Funcionou como um estalo para a mente indomável de Chris. Finalmente o despertou do que já estava relutante em cumprir ao mesmo tempo em que o assustou por saber que a vida da pessoa que o perseguia poderia estar em perigo por causa daquele barulho.
Atordoado, se virou para trás e percebeu o quão distante já estava do acampamento. Nesse mesmo tempo, pode identificar uma lanterna apontada para ele e atrás do item, uma silhueta feminina que se aproximava. A mulher começou a iluminar o chão à sua frente. Estava coberta por uma capa de chuva transparente. Ela se aproximava com uma pistola na mão direita apontada para cima, enquanto o braço em frente ao rosto tentava amenizar a intensidade advinda da lanterna dele. Chris abaixou sua lanterna e tomou ciência de que o tiro não era um perigo para ela, mas sim que partiu dela.
– Chris, o que você está fazendo?
A mulher parou em sua frente com um olhar questionador. Instintivamente cuidadosa, cobriu a cabeça molhada do irmão com o capuz do seu casaco. Em seguida, guardou sua arma. Como não ouviu nenhuma resposta e nem mesmo nenhuma expressão vinda dele, ela optou por não o incomodar. Apenas estendeu uma mão para ele com um objetivo claro.
– É melhor voltarmos para o acampamento.
– Me recuso. – Ele afastou a mão estendida dela. – Eles vão parar as buscas, Claire. Não vão mais encontrá-la. Estão desistindo dela.
– Eu sei. Eu soube mais cedo. – Claire analisava a maneira perturbada em que seu irmão se encontrava e se arrependeu de tê-lo deixado sem sua assistência naquele período. – Demos o nosso melhor, Chris. Você já se deu por inteiro nisso.
– Mas eu não a encontrei. Nem viva, nem morta. Eu nem mesmo sei onde ela está. Eu a perdi. Eu não me dei por inteiro nessa. – Chris demonstrava desprezo por si mesmo enquanto balançava a cabeça em denegação. – Jill se deu por inteiro, Claire. Se eu estou aqui falando com você, foi por causa dela. Eu simplesmente não posso voltar para o normal e deixá-la pra trás aqui nesse lugar hostil.
– Por favor, não crie expectativas em relação a isso irmão.
– Você não entende! Assim como ninguém me entende por aqui. Eu preciso... eu só queria vê-la pela última vez pra...
Claire aguardava a conclusão de pensamento do irmão embora já soubesse o que ele iria mais uma vez lhe dizer. Ele sempre lhe dizia a mesma frase, mas dessa vez ele não estava conseguindo completar aquela frase. Era como se suas expectativas estivessem evanescendo tal como seus argumentos ou motivações para encontra-la. Estava mais fraco do que antes, mais abalado do que antes e ela assistia seu irmão desmoronando internamente sem poder fazer muito. Os olhos dele vagaram ao redor e encontraram o grande penhasco onde ela tinha caído. Ele mal conseguia olhar para aquele lugar sem sentir raiva e uma angustia incontrolável sem poder voltar no tempo.
Sem encontrar palavras para mais uma justificativa insignificante para a mesma pessoa que o escutava desde os primeiros dias de sua aflição, abaixou a cabeça em frustração. Por mais que achasse que a chuva camuflasse os olhos molhados pelas lágrimas, ele odiava demonstrar seus sentimentos mais profundos para quem quer que fosse, mesmo que fosse para sua irmã. Ao perceber que isso acontecia, Claire se aproximou do irmão e o abraçou, afagando as costas dele suavemente por cima do casaco molhado.
– Não fique assim. Vamos dar um jeito de encontra-la por nós mesmos. Eu sei que você nunca desistiria dela.
Claire procurou seu rosto e o levantou. Ao perceber as lágrimas silenciosas que ele não conseguia segurar, tentou ignorá-las e forçou um sorriso demonstrando otimismo, mesmo abatida com toda a situação. Ela segurou no braço do irmão e se preparou para tentar leva-lo de volta.
– Eu trouxe algo para você.
Chris começou a se acalmar enquanto seguia em direção a pequena tenda onde ele estava hospedado sozinho. Foi ali que Claire também tinha deixado seus pertences assim que chegara. Ocuparia o leito vazio ao lado naquela noite. Chris a observava enquanto ela removia sua capa molhada.
– Desde quando você retornou?
– Acabei de chegar. Me encontrei com o diretor minutos depois de você. Quando ele me disse que já tinha te contado sobre o documento, eu já saí pelo acampamento procurando por você. Imaginei o quão caótico que isso poderia ter sido. – Claire paralisou por alguns segundos, olhando para o irmão que também retirava o casaco encharcado. – Eu já tinha sido avisada da possibilidade no início da semana, mas não quis te frustrar antecipadamente.
– Devia ter me contado.
O tom de voz do homem era desaprovador enquanto estendia o pesado casaco molhado sobre uma estrutura de ferro do aposento, evitando olhar para a irmã. Ele não se sentia traído por ela pois entendia que ela não tinha lhe dito nada porque isso poderia devastar um pouco mais seu psicológico ao atuar pelas buscas com uma contagem regressiva em mente. Mas se soubesse antes da possibilidade de encerramento das buscas, poderia finalmente ter forçado uma exploração com mais tenacidade nas áreas que ainda não tinha tido a oportunidade de investigar.
– Ter te contado? Como eu poderia fazer isso? Pelo telefone, fax... e-mail? Nem sei se cartas chegam aqui. – Claire tentava fazer contato visual com o irmão que ainda permanecia de costas para não a observar. Então ela optou por desistir da ação e deixar sua fala operar sozinha. – Chris, todos nós sabemos que você é o mais atingido nisso tudo. Mesmo se tivesse como, eu jamais lhe diria algo se eu não pudesse estar aqui como um amparo como estou agora. Como acha que eu ficaria lá longe sabendo que você poderia cometer loucuras maiores do que acabou de tentar quando soubesse do documento?
Sem respostas, ele se sentou em uma cadeira de ferro com os braços cruzados e com as pernas juntas e esticadas. Claire foi até o armário e tirou uma toalha de lá. Caminhou até Chris e entregou a ele. Seu irmão mal olhou para ela ao receber a toalha. O silêncio dele respondia a própria pergunta. Claire prendeu ambas as mãos na cintura enquanto o encarava incessantemente, esperando uma nova reação do irmão que finalmente olhou para cima, voltando-se a ela.
– Não vou voltar para casa.
– Eu sei. Eu sabia que você faria isso. Foi por isso que eu acabei trazendo algumas das suas coisas. – Claire apontou para a mochila cargueira que Chris mal tinha notado no ambiente. – Tenho um contato na cidade mais próxima. Vai poder ficar lá em um hotel que eu já reservei pra você. Assim poderá explorar ao redor por mais um tempo.
Chris admirou-se em saber como sua irmã havia se tornado uma das pessoas mais eficientes na qual tinha a oportunidade de se relacionar. Desde que arriscou sua própria vida em busca dele duas vezes na intenção de preservá-lo quando ainda era bem jovem, sabia que ela era especial. Não era mais a garotinha medrosa na qual ele tinha assumido responsabilidade quando ficaram órfãos. Depois de tanto treinamento físico e mental na qual ele sempre a preparou, ela se tornara uma mulher incrivelmente corajosa. Era um privilégio saber que poderia contar com ela para tudo. Por isso, pela primeira vez naqueles meses terríveis, ele pode sentir gratidão.
– Me desculpe por antes e obrigado por isso.
Sua irmã, que já lidava com sua própria mala, se virou para ele e demonstrou amabilidade. Ela pouco se importava com as atitudes irreverentes que seu irmão havia adquirido nos últimos meses. Ela o conhecia muito bem para entender a bagunça emocional na qual ele se encontrava. Ela sabia muito bem o que foi lhe arrancado abruptamente da maneira mais desastrosa possível para que ele agisse daquela maneira. Era exatamente por aquele motivo que ela estava ali.
Claire sempre foi muito preocupada com o irmão e suas atitudes sempre intransigentes. Já teve muito medo de perdê-lo em uma tentativa ousada de alguma postura implacável. Ela sabia muito bem que Jill era a pessoa que tinha um domínio de não deixar aquele comportamento descontrolável acontecer e que sempre o impediria de fazer alguma besteira. Mas infelizmente, era ela quem estava ausente. Portanto, Claire teria que fazer aquele papel novamente por mais que não tivesse mais experiência naquele contexto.
Pensativa, enquanto ainda lidava com suas coisas, finalmente retirou de dentro de sua bolsa, uma caixa retangular. Ela se virou a Chris que se encontrava estava absorto e caminhou até ele para lhe entregar o item. Ele abriu a caixa e encontrou ali seu pequeno aparelho que reproduzia músicas em MP3. Surpreso ao segura-lo, se lembrou da última vez em que tentou usá-lo e notou que o aparelho tinha quebrado.
– Eu o levei ao conserto antes de trazê-lo. A tela voltou a funcionar normalmente. Tudo o que você tinha antes foi perdido então eu acabei...
– Agradeço o empenho, mas não tenho saco para músicas agora, Claire.
Claire sabia o quanto seu irmão gostava de músicas. Ele cresceu ouvindo música e colecionava seus CDs com muito zelo, além ser hábil em tocar amadoramente os instrumentos de cordas. A música tinha um papel importante na conexão dos irmãos que compartilhavam dos mesmos gostos musicais desde que Claire começou a se entender por gente. Ela sabia que a música poderia atuar como um bálsamo sobre seus ferimentos internos. Principalmente por saber que naquele aparelho havia um adicional que o surpreenderia.
– Nem para as dela? – Claire replicou rapidamente. Enquanto ele mal reagia àquelas palavras, Claire tomou o aparelho e o ligou. – Concluindo o que você me interrompeu em dizer, eu tomei a liberdade de passar algumas músicas das pastas do laptop em seu quarto para esse iPod. Me surpreendi quando vi uma pasta chamada "Playlist da Jill".
Chris se lembrou do CD que recebeu por correspondência enquanto eles começaram a trabalhar em lugares diferentes, logo após o "pânico de Terragrigia". Jill havia sido realocada para atuar na Europa ocidental enquanto ele ficou na Europa oriental. Com isso, eles também acabaram ganhando novos parceiros de trabalho. Ambos então só voltaram a atuar e morar juntos depois que a BSAA tinha sido reformada.
Enquanto ainda separados, ele tentou passar os itens do CD para o aparelho a fim de finalmente escutar o que Jill havia lhe preparado. Mas o MP3 estava quebrado. Então ele adiou esses planos por causa da vida profissional ocupada em que vivia. Portanto, nunca tinha tido a oportunidade de acesso do conteúdo, mesmo se juntando a ela mais tarde.
– Ela montou para mim no ano passado. Nunca parei para escutá-las por falta de tempo.
– Nunca é tarde demais, irmão.
x.x.x.x.x
Olhos perdidos contemplavam os detalhes do teto do abrigo onde Chris repousava todas as noites desde agosto. Desde que tinha se estabelecido em sua cama horas antes, mesmo com os olhos fechados, o sono não vinha. Ao saber que toda aquela instalação seria removida no dia seguinte, a fúria da incapacidade mesclada a vontade de encontrar uma solução para o que mais lhe afligia, ainda deixava sua mente embaraçada.
O clima era frio na presente madrugada, mas ele suava tanto que sua roupa folgada e confortável grudava em seu corpo. Incomodado, removeu o cobertor e se sentou, colocando os pés firmes sobre o tablado. Olhou para a pequena luminária de teto que iluminava com pouco vigor o ambiente e em seguida à sua frente. Ali localizou Claire adormecida na cama outrora vazia em seu compartimento.
Claire tinha encarado um dia inteiro de trabalho, outro dia inteiro dentro de um avião e somente agora dormia e por isso dormia profundamente. Mesmo exausta, tinha passado os últimos minutos antes de dormir conversando com seu irmão no intuito de compreendê-lo e apaziguá-lo, ouvindo horas de lamento da parte dele. Um lamento que até ele se saturava de desabafar, mas sabia que só podia contar para ela. Chris forçou um sorriso ao perceber o quão essencial Claire estava sendo para ele na ausência da pessoa que mais era necessária para aquelas horas difíceis.
A chuva que batia na lona também começou a irritá-lo. Devido as últimas chuvas sazonais constantes, as equipes encontraram bastante dificuldade em desempenhar suas buscas por causa do mal tempo. Buscando uma distração, se levantou e caminhou no pouco espaço presente. Foi até os últimos relatórios registrados pela equipe e folheou algumas páginas em busca de solução, com a ajuda da pequena lanterna presa em sua boca. O barulho dos papéis manuseados fez com que Claire quase despertasse, embora estivesse em um sono muito pesado.
Ao perceber sua inconveniência, ele retornou à cama. Sentado ali enquanto ajeitava seu travesseiro, pode encontrar por debaixo dele, o aparelho que sua irmã lhe trouxera. Pensou que aquele item poderia ajudá-lo com sua insônia ou mesmo anularia o barulho da chuva que, mesmo se apresentando de maneira leve, o incomodava.
Prendendo o fone aos ouvidos, ele começou a escutar os primeiros trinta segundos da primeira música que Jill havia selecionado. The First Day In August de Carole King. As memórias de uma versão mais jovem dela preencheram sua mente naquele momento.
Ele pode se lembrar do primeiro ano em que trabalham juntos. Passeando pela saudosa Raccoon City, se encontraram por acaso em uma lanchonete num dia de descanso de ambos e então decidiram trocar alguns primeiros assuntos enquanto compartilhavam uma mesa. Enquanto comiam, olharam pela janela encontrando a inauguração de uma loja de instrumentos musicais. Foi naquele dia em que ambos descobriram uma coisa em comum pela primeira vez: eles eram músicos. Ao irem de encontro aos instrumentos em que eram hábeis, aquela velha canção vinha da caixa de som ambiente que tocava quase imperceptivelmente. Segundos depois, ambos acompanharam aquele som enquanto faziam uma pequena contribuição de venda não intencional para os funcionários, já que a loja inteira parou para assistir aquela apresentação. Eles lamentaram nunca terem sidos pagos por conduzirem aquela atração que fez com que a venda do piano em que ela tocava e a guitarra que ele dedilhava fossem posteriormente lideres de venda naquele estabelecimento.
Conforme as músicas passavam, ele as associava com vários momentos da vida dela, na qual ele também fez parte. Ele assistia as várias mudanças de características internas e externas dela de acordo com a música tocada como se a visualizasse em uma linha do tempo. Foram muitos anos de convivência desde o dia em que se conheceram, mas foi em um estalo em que se sintonizaram, quando finalmente cederam para aquele relacionamento. A sensação era boa enquanto ele não pensasse na realidade que enfrentava. Era como se ele imaginasse que ela estava apenas do outro lado do mundo segura e aconchegada à trabalho. Todas as vezes em que voltava a realidade de não mais tê-la junto a ele, quando a lembrança era muito significativa, ele pulava a música nos primeiros segundos por causarem um efeito de instabilidade emocional desconcertante nele.
No fim da pasta, uma música com o nome de "Gravação Caseira – 001/2005" tinha começado. Nos primeiros segundos, nenhum som era percebido. Apenas um chiado baixinho que indicava que aquele título realmente fora gravado em um gravador digital. De repente uma voz surgiu. Seu coração palpitou freneticamente enquanto instintivamente prendeu uma das mãos sobre o fone de ouvido, como de costume, ao detectar uma voz advinda do fone.
– Ei Chris. Sou eu. Como estão as coisas por aí? Está conseguindo sobreviver sem mim depois de quase uma década trabalhando juntos? Bem, esse áudio não é sobre isso... quer dizer, pode sim ser sobre isso. Desde que você e eu estamos na companhia dos nossos novos parceiros, acho que seria uma boa ideia se eu deixasse uma parte de mim pra você nesse meio tempo. Sabe, caso sinta minha falta. Tenho certeza que sem mim para se ultra preocupar, seu trabalho será um pouco mais produtivo. – Ela soltou um riso discreto. – Bem, como provavelmente você já deve ter ouvido, as músicas que eu mais gosto estão nesse CD que eu preparei exclusivamente para você. Mas tem uma em particular que eu decidi, não só acrescentar aqui, mas também fazer parte disso. A verdade é que nenhuma das versões conhecidas me agradou, então... eu mesma decidi tocar a melhor versão dessa música. Eu sei exatamente o que você diria para mim agora: "Jill, seu perfeccionismo um dia vai te matar". – Ela tentou arremeda-lo ao tentar soar como a voz dele na última frase. – Mas dessa vez, está valendo a pena, acredite. Pra minha sorte Parker, o meu novo parceiro, tem um piano em casa e me cedeu alguns minutinhos para preparar esse bônus. Tem um bom tempo que eu não toco já que ainda não voltamos para casa, portanto tente relevar os pequenos erros. Espero que se lembre de uma boa época da nossa vida. Tenho certeza que vai voltar no tempo. Espero que goste da minha versão. E não vá fazer besteira por aí, hm? Se cuida, por favor! Câmbio, desligo.
Chris ouviu o pequeno riso dela ao finalizar aquele áudio. A voz aveludada, agradável e terna da mulher mexeu com suas estruturas e o emocionou. Sua voz era viva em seus ouvidos depois de dias. A voz delicada e forte que, enquanto operavam em alguma intervenção de maneira separada, sempre chegava à sua escuta e o tranquilizava por saber que ela estava ali do outro lado e passava bem. Ele sentia tanta falta daquela interação. Ele sentia falta dos gritos das discussões, dos sussurros de antes de dormir e do cantarolar enquanto concentrada em alguma tarefa.
Mal tinha reorganizado a mente depois de tê-la escutado, quando as primeiras notas das teclas mais agudas do piano davam forma à melodia que surgira. Simplesmente, o cântico atemporal que sempre estava preso nos lábios daquela mulher começou a soar nítido em um solo de piano sem acompanhamento vocal. "You Are My Sunshine" tomava conta de seus e a batida era lenta e deleitosa aos seus ouvidos.
Chris se deitou novamente, se cobriu e fechou seus olhos enquanto som o acalmava. Seus olhos marejavam a medida em que ele a imaginava em um ambiente claro, de frente à um piano branco na sala de sua casa, com uma decoração de vasos de plantas ao fundo. Cada parte da pele dela cintilava bem a sua frente, próximo ao alcance de suas mãos. Com os dedos sobre as teclas, Jill olhava fixamente em direção à partitura de "You Are My Sunshine" sem notar que ele a observava.
De repente, parte melancólica de seus pensamentos, em contraste com a visão anterior, projetou o último momento em que ele a viu tocar poucas horas antes de desaparecer pela janela da mansão. O ambiente transformou-se do bege para o roxo. O plano de fundo cheio de leveza onde ela se encontrava agora era um borrão onde uma porta secreta se abria bem atrás dela. Advinda daquela porta, uma fumaça estranha surgia sobre ela e a fazia desaparecer aos poucos, embora a melodia continuasse a soar. Quando se deu conta, não escutava mais "You Are My Sunshine" e sim a tenebrosa "Moonlight Sonata".
Sentindo o desconforto se apoderar dele, Chris balançou a cabeça como se tentasse espantar aquela contemplação. Seus olhos se abriram na mesma hora em despertou-se daquele pesadelo e isso o fez se sentar abruptamente. Tentando coletar o fôlego que perdeu ao vê-la desaparecendo aos poucos em seu sonho, ele inspirava e expirava com força enquanto sentia o suor escorrendo em sua testa e têmporas.
Olhando para o lado, Claire ainda dormia. Ao se encontrar naquela realidade outra vez, Chris podia escutar o barulho da chuva novamente batendo sobre a lona. Levando as mãos aos ouvidos, percebera que ainda estava com os fones presos ali.
Chris alcançou e visualizou novamente o aparelho. Voltou na mesma música a fim de verificar se não foi um outro sonho de sua mente em que ela falava com ele. Finalmente, a voz dela voltou a conversar com ele naquele áudio gravado e ele se aliviou ao saber que a parte boa do que achou que fosse um sonho, era real e era a melhor sensação que teve depois que sua realidade se tornou um tormento. Ele não queria associar as meigas gargalhadas que voltava a escutar dela àquele fatídico momento. O momento onde ele, impotente, nada pôde fazer para salvá-la da morte ou posteriormente encontra-la.
Mas naquela noite, Chris seguiria o que Jill lhe recomendava naquela fala. Deixar com que a boa lembrança o consolasse e confortasse seu coração ferido como um presente que ela tinha preparado exatamente para aquela hora naquele dia. Era como se ela soubesse que ele se encontraria daquela forma e tivesse deixado ele amparado, como ela sempre o amparou. No fundo, ela sempre esteve ao seu lado de uma forma ou de outra.
Chris fechou os olhos à medida em que sua mente involuntariamente procurou se lembrar de algo que há muitos anos ele não se lembrava. O instrumento tocado em seus ouvidos não acompanhava voz, mas ele se lembrava da voz dela enquanto cantarolava essa mesma canção há oito anos, sozinha em sua mesa, dentro do escritório dos S.T.A.R.S. em uma sexta-feira.
"Não há fim nas distâncias em que irei para procura-la de novamente, é sobre isso que meus dependem. Em meio a escuridão eu sinto as batidas do coração dela bem junto ao meu. Ela é o mais doce amor que eu poderia encontrar. Então eu acho que eu a procurarei por todo o lugar. Mas agora ela me diz que tem que ir embora."
