"Foi você quem me dominou. Acho que você sabia desde o começo. Eu ligo sempre, mas não há respostas. Nem sei onde ou com quem esteve, mas eu te amo de qualquer maneira que você quiser que eu ame."

MAIO, 1998

O jovem Chris Redfield acabara de estacionar sua moto na entrada da RPD. Eram as primeiras horas da noite de uma sexta feira comum. Retirou o capacete com cuidado para não amarrotar seu penteado e prendeu o item em seu braço. Virou o retrovisor para observar a si mesmo, ainda sentado sobre a moto. Levemente, passou as mãos sobre os cabelos enquanto o ajeitava. Dando um sorriso presunçoso, piscou para si com expressões ousadas para quebrar um pouco do nervosismo que sentia. Um nervosismo que ele mal sabia de onde tinha vindo.

Chris podia sentir de longe seu próprio perfume de forte fragrância. Ele se lembrou de que quase acabou com todo o vidro ainda no banheiro de seu apartamento. Ele havia exagerado um pouco, mas não se importou muito com isso. Ele tinha aprimorado sua aparência naquela noite, enquanto usava sua melhor camiseta de gola redonda e mangas frouxas. Finalmente estreava o presente de Natal que Claire o havia dado.

Ao se lembrar da irmã, sua face esmoreceu um pouco. Tinha acabado de falar com Claire ao telefone e o assunto acabou por deixá-los irritados um com o outro. Ela tinha avisado no início da semana que viria para o fim de semana. Por isso, Chris havia enviado dinheiro para que ela pegasse o ônibus em direção a Raccoon City na tarde da atual sexta-feira. O que de fato não aconteceu, portanto quando Chris tentou contatá-la a fim de obter explicações pela ausência, acabou descobrindo o motivo de seu não comparecimento em Raccoon naquele dia.

Na verdade, o irmão mais velho de Claire tinha o desejo de que ela pudesse residir também naquela cidade no segundo semestre do ano de 1998. Ela estava no último mês do ensino médio no colégio interno onde estudava na capital do estado. Chris pretendia subsidiar os custos da faculdade de Claire na Universidade Raccoon, que lhe oferecia um baita desconto por seu trabalho exemplar na delegacia da cidade. O grande adversário que Chris enfrentava naquela causa era o namorado da irmã que aos poucos a incentivava a estudar na mesma universidade que ele estudaria no próximo semestre, do outro lado do país.

Quando Claire tomou conhecimento de que seu irmão pretendia levá-la em uma atividade na Universidade Raccoon naquele fim de semana, optou por não comparecer ali. Ainda insistia querer estudar na mesma universidade que o jovem rapaz que ela mal tinha começado a namorar. Isso irritava o mais velho, que era muito protetor com a moça, desde que ela era sua única família. Prometeu a si mesmo que tomaria medidas drásticas no dia em que topasse com o tal rapaz que sua irmã havia se envolvido. Mas isso seria um assunto para resolver outro dia. Naquela noite, sua mudança de planos tinha uma causa mais importante. E a causa estava dentro da delegacia de polícia que ele trabalhava diariamente.

O início de noite estava fresco, embora havia sinais de que gradativamente, a temperatura poderia cair ao longo da noite. Olhou rapidamente para o relógio de pulso e sorriu ao verificar que estava dentro do horário planejado. Ao entrar no prédio da delegacia, pode perceber o pouco movimento local e cumprimentou bem-humorado alguns colegas que ainda não tinham ido para casa. Mas sua intenção era chegar até sua sala de trabalho, o que para Chris era algo muito fora da rotina. Geralmente, as sextas-feiras, se não estivesse de serviço, o último lugar que visitaria seria seu ambiente de trabalho.

Enquanto caminhava no corredor do segundo andar, reparou que a porta da sala do escritório dos S.T.A.R.S. estava parcialmente aberta, o que não era algo comum já que a ordem vinda do superior era que ela sempre se mantivesse fechada. O que também fazia todo o sentido, já que o Capitão Albert Wesker teve de viajar as pressas naquela manhã para resolver um assunto pessoal sem previsão de retorno, deixando Barry com a responsabilidade da equipe. Aquele dia se mostrava totalmente atípico por aquele detalhe, já que Wesker parecia morar dentro da delegacia e não se encontrava ali há muitas horas.

O capitão do esquadrão era ininterruptamente o primeiro a chegar ali e o último a sair. Sua vida se resumia a ficar sentado em sua cadeira enquanto observava o resto de sua equipe habilmente por trás dos óculos escuros que usava até mesmo em ambientes fechados. Seus trejeitos demonstravam que ele não tinha um apreço ou apego pela sua equipe, embora sempre citasse que era muito bom lidera-los. Chris o julgava como um cara esquisito e misterioso, principalmente pelo tom de voz curioso e pelas expressões excêntricas. Chris se aproveitava disso, já que costumava sigilosamente arremeda-lo para arrancar sorrisos discretos da colega de time, que trabalhava na mesa ao lado.

Para Chris, andar livremente pela delegacia sabendo que não veria seu superintendente por ali era um alívio. Se Wesker o visse fora do horário de expediente vagando à toa, daria um jeito de lhe imputar uma tarefa desnecessária apenas para ocupá-lo. Mesmo não sendo fã do homem, de todos os seus chefes anteriores, Wesker era o que ele mais tentava obedecer, já que seria fim de carreira uma nova expulsão por mal comportamento. Ele não podia perder um emprego tão bem remunerado quando tinha sua irmã mais nova para sustentar. Sua obediência naquele ofício também era uma questão de lealdade com Barry Burton, seu colega de time a quem tinha como um irmão mais velho há anos e que tinha sido a ponte de sua vigente contratação.

A segunda coincidência do dia era que seus amigos mais chegados estavam indisponíveis. Portanto, não conseguiriam arrancá-lo de seu objetivo naquela noite, como sempre costumavam fazer juntos ao vadiarem pela cidade em busca de diversão nos fins de semana.

Joseph Frost estava passando a noite no hospital, devido a algumas lesões que sofrera enquanto tinha se machucado em uma abordagem que acontecera mais cedo. Chris insistiu ao amigo para passar a noite no hospital em observação por mais que já aparentasse bem. Metade dele queria uma recuperação total nas lesões de Joseph, contudo a outra metade insistia em não querer que seu amigo interrompesse seus planos, o que provavelmente aconteceria se ele não tivesse se machucado mais cedo. A equipe Bravo também estava fora da cidade. Eles tinham ido desde o início da semana em um treinamento na capital do estado e voltariam apenas no sábado.

Os pensamentos de Chris paralisavam-se à medida em que seus olhos repousaram na mulher que estava de serviço naquele escritório, enquanto ainda estava no corredor. Ela se encontrava trajada com o fardamento de escritório, que consistia em uma camisa azul clara de botões com um sutil decote causado pela gola alfaiate, ornada com o símbolo do esquadrão nas mangas curtas e uma saia reta azul marinho cinturada até acima do joelho. O quepe, com o logo do esquadrão ao centro, não se encontrava no alto de sua cabeça, mas em cima da mesa dela. O coque alto prendia seus longos cabelos despojadamente. Em sua cintura havia um coldre com uma pistola semiautomática presa ao estojo e uma algema pendurada.

Todas as vezes que ela usava aquele uniforme, Chris aproveitava para admirar discretamente suas pernas torneadas, embora soubesse dos riscos caso ela o apanhasse em flagrante. Havia um revólver bem próximo de sua bela visão e ele tinha conhecimento que ela sabia muito bem lidar com a arma, principalmente depois que começou a treiná-la pontaria nas horas vagas.

Os pensamentos de Chris voltaram no tempo em que a viu pela primeira vez naquela delegacia. Por um instante, quase perdeu a noção de que ela era só uma colega de trabalho. A atração que sentia por ela era inevitável desde a primeira vez em que a viu.

Ao perceber que seu interesse por ela estava se tornando um problema, por ela trabalhar no mesmo lugar e na mesma equipe que ele, Chris optou por tentar afugentar qualquer interesse por aquela mulher. Sua mente sempre o lembrava de que ele teria que enxergá-la apenas como uma colega de trabalho e nada além disso. Por causa daquele desejo reprimido, quando ele a conheceu, a ignorava ou a tratava com indiferença. Qualquer aproximação entre ambos seria um motivo de rendição total por ela, o que ele queria evitar demonstrar.

Enquanto ela, sempre agradável, tentava se aproximar mais dele, já que tinha se tornado o mais distante dela naquele escritório. Ele precisou mudar seus métodos e partir para medidas mais extremadas. E se lembrava envergonhadamente de ter sido um estúpido com ela. Criticava suas habilidades, recriminava suas destrezas e principalmente subestimava sua curiosidade e perfeccionismo, que era o que mais lhe irritava nela e que rendeu altos conflitos de ambos no início da formação do esquadrão.

Ela sempre apresentava opiniões completamente distintas às dele. Isso foi uma bela oportunidade que seu capitão enxergou para puni-lo por tentativa de insubordinação. Wesker os colocou para trabalharem juntos, literalmente lado a lado, no intuito de saber se ela conseguiria transformar o homem irregular do seu time em um homem mais obediente ou seria a causa de sua iminente expulsão. Aquela conduta fazia Chris se sentir uma espécie de experimento para seu intendente, o que ele detestava com expressividade.

No entanto, Chris pode entender que naquele quesito, Wesker não tinha o prejudicado como pretendia. Com o passar dos meses, os dois problemáticos do grupo foram se aproximando como algo destinado a ser. Criou-se ali um vínculo silencioso e aprazível, um estado de interdependência subliminar que não mais se limitava ao ambiente de trabalho. A admiração por ela já sobrepujava o profissional e a medida em que a convivência se tornava mais leve, ele se prendia mais a ela.

Ela passara de uma ameaça no ambiente de trabalho para sua maior confidente, porque era a única que conseguia decifrá-lo, mesmo quando ele persistia em ser um enigma para os demais. No exterior, era uma mulher durona, mas no interior ela tinha suas próprias batalhas. Com a convivência e a confiança gerada naquele relacionamento, ela começou a compartilhar com ele alguns detalhes ocultos de si mesma, alegando que tinha encontrado somente nele a confiança necessária para tal.

Percebendo quem ela era de verdade, principalmente fora do ambiente de trabalho e longe de uma arma como os demais a enxergava, era impossível não sentir uma pausa nas batidas do coração todas as vezes que ela aparecia em sua frente. Ela era muito mais do que um rosto bonito, um corpo belo ou uma profissional exemplar.

Enquanto a admirava do lado de fora, Chris observava todos os seus traços em admiração, como se pudesse suspirar junto com sua mente que a delineava o tempo todo, como um artista que admira detalhes de uma obra de arte.

Se lembrava de como o olhar dela era hipnotizante, mais penetrante que um projétil que transpassara acidentalmente uma vez por sua pele enquanto treinava em um estande de tiro. Um pequeno toque vindo dela sobre ele, que acontecia inesperadamente em momentos diversos, queimava a pele dele, ao mesmo tempo o congelava e o deixava cada vez mais instável. Quando ele se sentia perdido, ela sempre tinha um mapa dele que o posicionava em um local seguro e correto para continuar sua jornada. Ela era uma espécie de fraqueza que detinha o poder de humaniza-lo. Era a calmaria quando ele se encontrava em tempestades e a melhor companhia quando se sentia só. Ninguém tomava aquele lugar que agora era só dela. Era tão única que não havia ninguém em toda sua vida que se comparasse a ela. Era uma relíquia que ele temia perder, por algum motivo petulante e insolente de sua parte. Naquele momento, sem expressar seus sentimentos a ela e sem que eles tivessem tido qualquer momento de afeto físico-sexual anterior, ele já amava a pessoa que Jill era por inteiro.

Chris se pegou sorrindo abobalhado e odiou se encontrar naquele estado. Passou a mão no rosto, na tentativa de esconder qualquer sinal de rubor, por saber que ia encontra-la em breve. Ao sentir suas mãos molhadas de suor, olhou para ambas murmurando um pequeno xingamento mental e as secou em sua calça. Suspirou para oxigenar o cérebro que havia trabalhado bastante em memórias há poucos segundos. Já estava pronto para entrar na sala para cumprimentar a mulher que se encontrava focada em suas anotações, quando pôde ouvir um pequeno som harmonioso vindo dela. Jill cantarolava bem baixinho à música que a inspirava enquanto concentrada. Chris imaginou que provavelmente o que ela anotava em uma espécie de caderno era algo digno de diligência, embora não fizesse ideia do que se tratava. Mas podia encontrar o sorriso dela nas pausas das estrofes da música entoada.

Se aproximando mais dela naquela noite, ele mal sabia o que tinha ido fazer ali, quando poderia estar em qualquer outro lugar em uma sexta-feira. Mas saber que compartilharia de um bom tempo junto a ela, sem terceiros ao redor para roubar a atenção que ele queria só para ele, apenas isso era um motivo suficiente. Como já vinha fazendo, tentaria mais uma vez quebrar a barreira dos assuntos profissionais, porque disso já conhecia até demais sobre ela. Porque a cada nova missão, ela o surpreendia com todas as suas habilidades que se revelavam quando até mesmo ela desconhecia que tinha. Como mais cedo naquele dia.

O Esquadrão de Resgate e Táticas Especiais do Departamento de Policia de Raccoon estava reduzido naquela manhã. Mas houve um chamado de grau importantíssimo e felizmente a equipe Alpha estava integralmente disponível, apesar da ausência do superintendente. A casa de uma família de classe alta, que moravam no bairro onde haviam as mais belas mansões de Raccoon, tinha sido invadida por criminosos desde a madrugada. Ali houve uma tentativa de latrocínio. O dono da casa era um executivo de uma empresa recentemente estabelecida na cidade que prestava serviços à multinacional de maior renome do país instalada naquela cidade, a Corporação Umbrella. Sua esposa e filhos, duas crianças, estavam sendo mantidos como reféns desde a madrugada enquanto o empresário estava em viagem.

Enquanto o trio desbravador da pequena infantaria já atuava no local investigado, com o objetivo principal de resgate das vítimas com vida, Jill, a especialista em comunicações que dava o suporte aos demais colegas enquanto operava dentro de um furgão na área externa, rastreou uma informação de bombas localizadas no porão da casa. Estavam colocadas em áreas estratégicas, no intuito de colocar a casa abaixo em questão de minutos. Jill concluiu que de fato, o motivo dos criminosos ali era provavelmente uma queima de arquivo. Ao se inteirar disso, avisou à Chris, Joseph e Barry pelo comunicador sobre esse novo risco, para que agilizassem logo o resgate, mas temia em não os salvar a tempo. Portanto, sem muito alarde, deixou o furgão onde operava conjuntamente com seu colega Brad Vickers, levando consigo seu estojo e uma pistola com silenciador.

Jill seguiu até o porão sem ser detectada e incapacitou os responsáveis pela segurança e detonação das bombas que ali estavam. Depois de os forçarem a revelar o necessário para impedir a detonação, ela os desacordou e começou a trabalhar para retardar o iminente perigo. Ela tinha poucos minutos para se familiarizar e entender como operar em um detonador de grande complexidade no intuito de impedir a explosão daquela casa. Ao desmontar o aparelho para visualizar seu mecanismo, pode compreender que o grau de dificuldade era muito superior a tudo o que já havia lidado. Por isso, teria que usar suas habilidades intuitivas para ser bem sucedida em sua responsabilidade, o que não era nada fácil pois um pequeno erro seria fatal. Mas ela gostava dessas experiências, gostava de testar a si mesma. Ela sabia que podia dar conta de algum jeito.

Assim que conseguiram conter os criminosos, o restante do time já resgatava os reféns para longe e os demais especialistas em bombas já estavam a caminho. Chris já tinha removido seu colete enquanto sentia uma leve pontada de dor sobre seu ombro esquerdo, quando Brad lhe contou sobre a integrante da equipe que ainda estava do lado de dentro da casa. Chris tentou contatá-la sem sucesso via rádio. Sem respostas, ele já imaginava o que estava acontecendo. Por isso, decidiu ir em busca de Jill. Correu até o porão e ao descer as escadas em discrição finalmente a localizou.

Jill estava agachada, enquanto mantinha uma visão em segundo plano da entrada do porão, pois sua visão primária se prendia no aparelho que manuseava. Enquanto três corpos estavam inertes ao chão, a especialista operava na fiação sozinha, de maneira aplicada, enquanto cantarolava uma canção que sempre entoava em momentos de alta concentração. Sua voz era firme e seu tom era tranquilo e compassado.

You are my sunshine, my only sunshine. You make me happy when skies are gray… (Você é meu raio de sol, meu único raio de sol. Você me faz feliz quando o céu está nublado…)

Enquanto mirava nos pequenos fios, ela já tinha notado a presença de Chris ali como plano de fundo e por saber que era ele ali, não desviou sua concentração e continuou a operar como se ainda estivesse sozinha, ao som de sua própria voz que não parava de cantarolar. A música inibia o som do bip que vinha do aparelho em sua mão que a incomodava e a descentrava.

Enquanto uma mão segurava firme o detonador, ela operava com a ajuda de uma pinça com a outra e estudava a melhor maneira de fazer com que o contador parasse de funcionar. Enquanto isso, sua boina, seu coldre e suas armas estavam fora de seu corpo, repousados sobre o piso de madeira em sua lateral, como também seu rádio que se encontrava desligado, no intuito de não ouvir incitações para largar sua tarefa, tal como Chris já havia tentado fazer. A iluminação era péssima. Apenas uma pequena lâmpada fraca iluminava todo o ambiente e ela usava uma pequena lanterna, presa como uma tiara no topo de sua cabeça para observar perfeitamente o objeto em mãos.

Chris se aproximou com passos muito brandos em direção a ela. Ele se agachou a sua frente e começou a observa-la com indiscrição. Ela já manuseava o alicate delicadamente sobre os muitos fios coloridos. Ele pode coletar alguns detalhes na mulher que parecia evitá-lo de todas as maneiras possíveis. Era como se ele nem estivesse presente ali. Mas ele não a desconcentraria para implorar uma atenção.

Chris percebia que seus olhos azuis brilhantes estavam hora bem abertos, hora semicerrados. Algumas lágrimas involuntárias desciam a medida em que ela se forçava a manter os olhos sem piscar em concentração. Os lábios dela se moviam a medida em que cantarolava, mas pode perceber os segundos onde involuntariamente rangia os dentes para esconder o nervosismo. Sua respiração era pausada, seu peito subia e descia com o movimento do trabalho dos pulmões que inspirava e expirava o ar lentamente. O suor escorria pelo seu rosto, descia através do pescoço e a camiseta de seu uniforme de combate já estava ensopada devido a alta temperatura daquele ambiente abafado, já que não havia nenhum tipo de ventilação ao redor. E seus cabelos, presos em coque, estavam levemente bagunçados e se encontravam assim por causa da batalha anterior em que ela conseguiu incapacitar o grupo de inimigos.

Ele não conseguia dizer uma só palavra. Chris não estava próximo para observar o detonador e sim para observar com admiração aquela mulher. Estar ali tão próximo a ela era uma boa sensação. Diferente dos primeiros dias de convivência onde ele teria que arrancá-la dali na base da força para a segurança dela, Chris agora estava ali presente para lhe dar um apoio moral ou lhe dar um incentivo. Na verdade, ele tinha aprendido a deixa-la trabalhar do jeito dela, sem mais criticá-la. Por isso queria demonstrar que estava incentivando-a por mais que a opção mais viável naquela hora era que eles pudessem deixar o local imediatamente.

Quando Chris observou que o timer já se aproximava dos últimos cinco minutos, ele pensou em interrompê-la e ao tomar fôlego para dizer alguma coisa, se surpreendeu quando a mulher parou imediatamente de cantarolar para se pronunciar sem mesmo precisar olhar para ele.

Nem se atreva a me tirar daqui Redfield. Pra você estar aqui, imagino que já deu tudo certo lá em cima. Então eu também preciso fazer minha parte.

Já cumprimos o objetivo. É melhor irmos embora antes que o pior aconteça com a gente.

Não dá. Se formos embora, nunca vamos descobrir o intuito dessas bombas aqui. Provavelmente é uma queima de arquivo que eu nunca vou deixar queimar. Além disso, essa família tinha segurança e uma casa até essa madrugada. No fim do dia, eles terão tudo isso de volta. Tudo o que eu preciso é me manter tranquila e focada. – Jill pausou seus movimentos e piscou freneticamente os olhos para descansar um pouco sua visão. Aproveitando o momento, olhou para a frente onde seu colega de trabalho se encontrava e o observou levemente irritada. – Por favor, me deixe aqui e vá embora, Chris!

De jeito nenhum. Eu cheguei aqui com você. Só saio daqui com você. – Chris contra argumentou e antes que ela pudesse replicar algo para começarem uma discussão, como nos velhos tempos, ele se pôs de pé para dar mais espaço a mulher e se escorou em uma mesa de madeira no centro do ambiente onde havia alguns materiais de artesanato. – Eu vou te esperar aqui.

Ela engoliu seco ao olhar novamente para a fiação. Aquela atitude a desestabilizou mentalmente enquanto o bip parecia soar cada vez mais alto naquela sala depois do silêncio de ambos. A presença dele não estava ajudando-a a se concentrar porque começou a temer pela vida dele.

Por isso, ela tinha que voltar a cantarolar a música que estava lhe ajudando antes. Tentou começa-la do início, mas o nervosismo fazia com que ela perdesse o fôlego e a vontade de continuar. Ela cantava duas palavras e pausava. Repetia a mesma estrofe no decorrer da música inteira, que já não mais fazia efeito, enquanto o timer não parava de contar regressivamente.

Ela já estava quase perdendo as esperanças e deixando aquele lugar por causa da preocupação com seu parceiro. Com isso, parou de cantar a música e se calou quando começou a respirar profundamente de maneira acelerada. A adrenalina estava parcialmente a cegando. Ela enxergava borrões sobre os fios coloridos e pausou sua atividade, mostrando uma decepção imensa consigo mesma.

Inesperadamente, ela pode escutar a voz do homem que, em tom grave quase desafinado, continuou a última frase que ela havia cantado. Ela olhou para cima e o observou rapidamente para confirmar o que ouvia, impressionada com a maneira sossegada com que ele parecia não mais se preocupar com a segurança de ambos. Com os braços cruzados, ele demonstrava serenidade e tranquilidade ao vigiar se algum dos rapazes desacordados mostravam algum sinal de movimento. Ainda encostado sobre a mesa, era dele que vinha o som que a motivou a continuar cantando e abafando o barulho ensurdecedor do contador. Com isso, ambos começaram a cantar juntos a mesma canção, como um dueto mal ensaiado.

Após uma breve troca de olhares, ela mostrou confiança em si mesma. Com um sorriso tímido sobre o rosto de ambos, a especialista continuou a operar diligentemente concentrada novamente. Quando Jill assumiu o ritmo, Chris a deixou cantar sozinha e percebeu que ela tinha recuperado o entusiasmo necessário para concluir com êxito sua incumbência. Trinta segundos depois o bip parou de soar e ela parou de cantar para conferir se aquilo era real. Ela olhou para o timer e percebeu que os minutos também tinham paralisado.

Finalmente suspirou aliviada e posicionou o detonador com delicadeza no chão, enquanto sua mente ainda processava se tudo o que estava acontecendo era real. Ela se encontrou ofegante como se estivesse saindo de uma apneia. Em seguida, se pôs de pé um pouco tonta e encarou seu colega de time.

Eu consegui! – Jill queria comemorar, mas ainda sentia dúvida sobre sua realidade. Visualizou seus dedos trêmulos antes de voltar a encara-lo a sua frente. – Eu consegui, certo?

Afirmativo. – Chris olhava admirado para ela enquanto balançava a cabeça de forma empolgada.

Os olhos dela lagrimejaram e sua expressão era de um choro contido. Não de cansaço, mas de orgulho de seu feito. Com sua mão direita pressionando seu próprio peito, ela podia ouvir o ritmo cardíaco acelerado de seu próprio coração.

É o meu novo record! Eu consegui lidar com um detonador desse nível somente seguindo minha intuição. Eu nem acredito que sou tão capaz!

Sua voz tinha soado de forma sussurrada por causa das emoções que sentia. Ainda surpresa, caminhou em direção a Chris com poucos passos, como um bebê que está aprendendo a andar. Suas mãos ainda estavam trêmulas e ela sentia que seu coração ia saltar para fora. Sua mente estava demasiadamente atônita e exausta.

Memórias do dia em que reprovou no teste final do curso de desarmamento de bombas enquanto treinava na Força Delta do Exército se refizeram em sua mente enquanto assistia a si mesmo chorando escondido no canto do banheiro do quartel por ter sido a única aluna reprovada no primeiro estágio por causa daquela falha. Se pudesse, ela voltaria no tempo para dizer a sua própria versão aos 19 anos, que ela futuramente conseguiria executar um feito incrivelmente inédito, que anularia todo o efeito em que aquela reprovação lhe assombrou por anos.

Chris caminhou em sua direção e mal poderia esconder o orgulho que sentia dela. Ele sabia da garota que reprovou por causa do curso de desarmamento de bomba, tal como ela tinha lhe confidenciado há poucos meses. Estendeu os braços para ela, que com pequenos passos se aproximou e o abraçou. A clavícula esquerda dele tinha sofrido um pequeno dano enquanto teve de entrar em luta corporal contra um dos criminosos minutos antes. Foi exatamente ali que ela repousou sua cabeça molhada de suor. A dor que ele poderia ter sentido naquele ato fora reprimida, porque a sensação arrebatadora daquele aconchego era exclusivamente singular. Aos poucos, aqueles abraços já tinham se tornado corriqueiros entre eles e a cada abraço ele se sentia mais aficionado por ela.

Enquanto a tinha em seus braços, mal conseguia esconder seus sentimentos por ela. Olhando para baixo, vendo-a abraçada nele, ele tentava esconder o tremor de seu corpo. Com isso, Chris procurou se distrair e carinhosamente lhe tirou a lanterna da cabeça e secou o suor da testa dela com os próprios dedos. Nesse momento, ambos ouviram o rádio preso a cintura de Chris, questionando sobre a entrada da equipe da polícia investigativa no local. Nesse momento, ela se afastou abruptamente dele, percebendo que tinha se aproximado até demais e mostrou-se sutilmente envergonhada.

Podem entrar. O local já está seguro. Cambio, desligo. – Chris respondeu ao aparelho e voltou a posicioná-lo preso a sua calça.

Nossa... agora que eu percebi que... eu acabei arriscando sua vida também. – Jill comentou acanhada com uma mão sobre a boca. – Desculpe por isso. Eu prometo ser mais prudente da próxima vez.

Relaxa. Eu decidi ficar aqui. E só fiquei aqui porque sabia que você ia conseguir. Eu acredito no seu potencial, Jill. – Chris concluiu recebendo um novo abraço dela. Um abraço de gratidão.

Ao recapitular na sua mente o momento especial a poucos passos dela, Chris parou de andar e a contemplava admirado, pensando uma forma agradável de abordagem. Naquele exato momento, Jill sentiu um curto arrepio. Parou de cantarolar ao mesmo tempo em que parou de escrever e virou a cabeça em direção à entrada. Ela demonstrou um pequeno espanto, mas não pode esconder sua satisfação ao notar quem era o visitante. Ela girou sua cadeira na direção da visita enquanto cruzava as pernas com expressões questionadoras.

– Precisa de algum reforço da força tática para desarmar uma bomba, senhor Redfield?

Ela tinha um olhar jocosamente soberbo, enquanto um canto de seus lábios tremia tentando disfarçar a vontade de sorrir. Naquele mesmo momento, sem tirar os olhos do rapaz, alcançou seu diário e posicionando sua caneta naquela pagina, ela o fechou.

– Não. Eu só vim fazer companhia para desarmadora, que vai passar a noite sozinha nessa sala. Vim perguntar se ela quer treinar pontaria para passar o tempo ou se quer comer alguma coisa, já que ela merece algum prêmio pelo bom trabalho executado essa manhã.

– Bem, companhia eu já tenho. Aqueles dois ali só vão deixar aquela mesa quando um míssil ameaçar explodir essa cidade. – Jill respondeu com desdém.

Jill apontou em direção à mesa do capitão Wesker, onde ali o tenente Marvin Branagh jogava uma partida de xadrez contra o parceiro de time de ambos, Brad Vickers. Chris entendeu que ambos jogavam algum jogo de tabuleiro como sempre costumavam fazer nas horas vagas e ao encará-los, o entusiasmo que o acompanhou desde quando tinha chegado naquela delegacia esmoreceu-se. Os jogadores evitaram se distrair com a presença de Chris e continuavam bem quietos, compenetrados em sua partida.

– Que bela companhia que você arrumou logo hoje, não é? – Chris debochou, deixando um sorriso de canto ainda frustrado.

– Bem... se me perguntarem a quem eu prefiro, eu posso dizer que sua companhia é bem melhor. Então, fique à vontade. – Jill se pôs de pé e tirou o capacete de seu braço, repousando-o ao lado de seu quepe e se escorou no canto da mesa com braços cruzados. Ao perceber o movimento lento do braço do colega de time, se lembrou de sua lesão. – Como está o ombro?

– Bem melhor. Não foi uma pancada forte. – Chris demonstrou uma melhora ao balançar o braço, mas escondeu o que realmente sentia ao fazê-lo. O remédio não bloqueava dores causadas por exageros.

– Legal. Nesse caso, os planos de hoje ainda estão de pé para você e a Claire, certo?

Jill alcançou o calendário de mesa que se encontrava sobre sua escrivaninha e o observou. Era o dia da exposição da feira de arte e culinária na Universidade Raccoon. Ao repousar seus olhos novamente no colega de time, ela o examinou minuciosamente. Seu perfume agradável estava forte, seu cabelo estava bem penteado e ele estava usando a camiseta que ela tinha ajudado Claire a escolher para ele como um presente de natal. A camiseta aparentemente estava nova e isso implicava que ele nunca havia usado ela antes.

Provavelmente, como iria à universidade onde as moças bonitas sabiam muito bem como aproveitar as noites de sexta-feira, Chris tinha motivos de sobra para ter se aprontado daquela forma. Jill tentou esconder o pequeno traço de ciúme perante aquela condição. Não tinha motivos para tal, mas não sabia o porquê de ter se importado tanto com aquilo a ponto de ter feito uma investigação mental, que só parou quando viu uma insatisfação no rosto dele.

– Não vai rolar. A Claire não veio pra cidade. Tivemos um problema... mais uma discussão. Sobre aquele mesmo assunto. – Chris se mostrou abatido. – Ela ainda omite, mas eu sei que isso tem a ver com o namorado dela que vai para a universidade lá na casa do caralho e ela teima que quer ir junto. Eu só queria que ao menos ela conhecesse a universidade daqui da cidade. O colégio interno já não é barato para arcar e eu sei que ela pode conseguir uma bolsa por aqui.

– Haverá outra ocasião para isso. Mas se eu fosse você, tentava ser um pouco mais flexível em relação aos sentimentos dela, como já te aconselhei uma vez. Você é sempre muito... – Jill cerrou o punho e tremeu a mão, demonstrando resistência. Em seguida, ao perceber que ele rejeitava aquela característica, se sentiu constrangida em opinar sobre sua personalidade. – Desculpa, não é essa a questão. Só... deixa ela ter o tempo dela. Infelizmente, você não tem como comandar no coração da pobre Julieta em relação ao seu primeiro Romeu.

– Esses assuntos adolescentes... – Chris rolou os olhos. – Não vai ter jeito, vou ter que ser obrigado a seguir seus conselhos.

Chris soou muito aborrecido ao encerrar aquele assunto. Jill percebia a resistência que ele apresentava todas as vezes em que era contrariado. Ela o assistia enquanto ele se dirigia em direção aos três dardos acoplados no alvo preso a parede e arrancou um por um demonstrando certa irritabilidade, enquanto buscava se distrair de seus pensamentos. Ao perceber que ele tinha se afastado para aquele fim, ela o seguiu. Passando por Chris, Jill se sentou em uma das cadeiras de frente ao equipamento de rádio.

Chris tomou distância e com seu braço não machucado atirou o primeiro dardo no centro do alvo. Enquanto isso, sua mente ponderava sobre a opinião que Jill apresentara sobre ele. Claire não era mais o motivo de sua atual irritação. O motivo era saber que, por ter sido um babaca com sua colega de trabalho no início da relação deles, já tinha perdido qualquer chance de ser uma pessoa diferente no ponto de vista dela, quando queria mostrar que na verdade, ele não era daquele jeito e sim tinha se provocado a agir daquela forma com ela.

Jill acreditava que havia o moldado silenciosamente, havia trabalhado sutilmente sua intransigência, mas sua percepção de Chris ainda continuava a mesma na qual descreveu minutos antes. Ele mal tinha como contra argumentar de maneira profunda sobre aquilo, já que os jogadores de tabuleiro presentes estavam ali para atrapalhar seu esquema.

Antes que pudesse se incomodar com a problemática mental e sumir dali imediatamente já que seus planos haviam fracassado, Chris deu uma breve olhada em Jill depois que lançou o segundo dardo diretamente na extremidade do canto esquerdo. Seus olhos o acompanhavam em cada movimento que ele fazia como se o admirasse. A atenção dela estava totalmente voltada para ele. Chris, com suas imbecilidades psicológicas, desperdiçava a oportunidade presente com ela. Com aquele novo incentivo, ele começou a formar uma frase em sua mente, passando a não se importar com quem quer que o escutasse.

– Sabe Jill... eu não sou insensível, como você parece me imaginar. Eu tenho sentimentos e eu me importo com o sentimento das pessoas. – Chris comentou finalizando o terceiro dardo exatamente no último espaço do canto direito, formando assim uma linha reta, do raio às extremidades da circunferência.

– Diferente da sua vizinha que discordaria totalmente disso, eu acredito em você. Mas ela deve ter seus motivos.

Jill implicou com Chris trazendo um assunto que sabia que o amolaria, mas que também seria divertido. Ela sorriu de maneira sínica ao perceber o olhar desconcertado que ele lhe lançava por ter citado um acontecimento do início da formação do esquadrão. O acontecimento que ele detestava ouvir naquele escritório, já que passou meses sendo motivo de piada pelos amigos mais próximos.

A vizinha na qual Jill se referia tinha invadido o escritório dos S.T.A.R.S. em pleno expediente para cobrar Chris de estar evitando-a depois de um pequeno caso, alegando também que tinha o visto com outra moça. A abordagem foi histérica e traumatizante e devido a esse fato, os demais colegas o apelidaram jocosamente de Casanova, depois que Jill o chamou assim em um dos bate-bocas que eles tiveram sobre outro assunto quando ainda não eram amigos. A história da moça histérica era reproduzida naquele meio como uma piada que Chris já estava cansado de ouvir.

– Eu não sabia que ela morava na casa ao lado. Além disso, isso ainda tem graça? – Chris coçou a nuca com um desdém arrogante enquanto Jill escondia a gargalhada por trás dos próprios dedos.

– Desculpa. É que você citou que você não é insensível. Eu ainda ouço os gritos ecoados da pobre moça nessa sala gritando "insensível, insensível". – Jill remendou bem baixinho o que seriam os tais gritos. – Tenho certeza que aprendeu muito com aquela lição. Eu acredito na sua nova versão. Sem sarcasmo dessa vez.

Jill assentia ao levantar as mãos para o alto em rendição, tentando evitar a última gota de sarcasmo que ainda estava presa no seu tom de voz enquanto Chris começou a rir auto piedosamente. De fato, em sua concepção, pelo menos a respeito dela, ele nunca mais tinha falhado naquele quesito. Ela se lembrou do que aconteceu pela manhã e achou que ele realmente era digno de crença. No fundo, ela sabia que ele escondia muito bem sua sensibilidade e somente a revelava em alguns momentos inefáveis, tal como ela já havia percebido e também testemunhado.

– Mas me diga, Chris... Esse assunto lhe incomoda? – Jill insistiu naquela brecha.

– Sim! Porque... eu realmente tento entender o lado das pessoas em relação aos sentimentos. Só que mesmo tempo, eu também vou expor o que acho que seja melhor para elas, principalmente se for alguém a quem eu realmente me importo. Só que não vou usar um tom meigo pra isso, como você usaria. Por isso, que eu acho que as pessoas me veem como um insensível, mas eu não sou assim.

Chris caminhou até o alvo e arrancou os dardos. Logo, voltou para sua posição de lançamento. Naquele momento, Jill expressou um questionamento em seu rosto. Em seguida, se pôs de pé e estendeu uma mão indicando que queria participar daquela interação também. Ele entregou os dardos para ela e se moveu para que ela assumisse seu lugar.

– Acho que entendo seu ponto de vista. – Jill lançou um dardo com a mão direita. O objeto se prendeu um pouco abaixo do centro do alvo. Ela fez uma careta de desanimo e se virou para ele. – Sabe, quando eu te conheci, nem sabia que você tinha um coração dentro do peito. Você fez dos meus primeiros dias aqui um inferno. Sua mudança comigo implica que houve uma evolução da sua parte. Então, sim, eu consigo entender que você não é insensível.

Chris percebeu que ela insistia em segurar erroneamente o dardo com a mão direita, tal como enxergá-lo como insensível de início já que tinha motivos para isso. Sua mente começou a focar em deixar aquela conversa mais esclarecedora.

– Na verdade, eu gostava de implicar com você pela diversão. Não porque eu queria te fazer qualquer tipo de maldade. Eu sempre tive o meu lado humano e sensível, sempre fui naturalmente assim. Obviamente se você precisasse de mim, mesmo naquela época, eu teria agido diferente.

– Olha só! Essa informação é nova para mim. – Jill finalizou colocando mais um dardo acima do centro do alvo.

– Eu reconheço que eu fui um babaca com você. Mas era porque você me ofuscava e sempre batia de frente comigo. Tinha todo um motivo por trás disso. – Chris engoliu seco por saber que o que dizia eram meias verdades, porque ainda escondia o real motivo dela. – Mas olha só como o destino funciona... hoje você é a pessoa que eu mais respeito e prezo nesse prédio. Eu acreditei em você quando a vi concentrada lidando com a bomba essa manhã, por mais arriscado que fosse nos manter lá dentro. E sabe por que eu fiz isso? Eu fiz isso porque eu... Eu sabia que você precisava vencer aquilo. Eu me lembrei do que você tinha me contado em relação aquele assunto e como isso era importante para você. Na verdade, pode não parecer, mas... – Chris tomou um longo fôlego – ... eu me importo com você.

Chris percebeu o quão sensível a última frase soou. Ele tinha se entregado bastante com aquela frase. Jill perdeu o foco do alvo e virou sua cabeça em direção a ele lentamente. Sobrancelhas erguidas, olhos perfurando em espanto a alma dele. Ela aguardava mais detalhes. Ele, temendo uma situação muito explicita de suas emoções, optou pela cautela. Exibindo um leve desdém em suas expressões ele encolheu os ombros.

– ... da mesma forma que eu me importo com a Claire. – Chris concluiu em descontração.

– Ah... – Jill imediatamente se mostrou boquiaberta. –... como uma irmã. Muito sensível e fofo da sua parte!

Chris olhou arregalado para ela, tentando encontrar alguma frase em sua mente para rebater a impressão errônea que causara. Mas Jill já tinha perdido o interesse de segundos antes naquele assunto e tinha cortado qualquer sinal de querer continuar falando sobre aquilo ao voltar a se concentrar no alvo, ignorando-o. Ele sabia que já era tarde de mais para tentar reverter aquela situação. Tinha feito a pior comparação que podia. Contudo, decidiu esconder o ódio que sentia de si mesmo demonstrando uma expressão indiferente. Não poderia complicar mais as coisas.

Por outro lado, Jill mostrou em sua última fala uma falsa empolgação. Ela esperava ouvir algo mais profundo do que a fuga que ele deu ao encerrar aquele assunto que estava sendo bastante revelador a ela, como costumava sempre a fazer. Mantendo os olhos fixos no alvo, ela trocou o dardo da mão direita para a mão esquerda demonstrando impaciência e o lançou diretamente ao centro do alvo, mas já não havia muito para comemorar.

– Mas que porra! Essa sua bendita mão esquerda realmente funciona! – Chris comentou impressionado indo conferir mais de perto ao alvo. Ao virar-se para ela para elogiá-la, percebeu certo desconforto da mulher sobre aquele jogo.

– Ainda não sou tão boa o suficiente. – Admitiu abatida olhando para sua mão direita na qual tinha dificuldade de trabalhar. A frase tinha escondida um duplo sentido que somente ela entendia.

– Mas é claro que é boa. – Chris se aproximou dela, parando em sua frente, tomando sua atenção ao repousar suas duas mãos sobre os ombros dela. – Só tem que começar a praticar mais com a mão direita. Já estamos trabalhando nisso lá no estande, então relaxa. Ninguém mandou ser uma ambidestra, com tendência de habilidades somente para a mão esquerda.

Chris exibia um sorriso motivador, mas foi retribuído com um sorriso melancólico dela. Com isso, ele levou seus polegares para o canto dos lábios dela para formar o sorriso que ele queria ver de verdade em seu rosto. Ela finalmente o exibiu, mas seu olhar não escondia a frustração.

– Não se pode ter tudo ao mesmo tempo, não é? – Jill criticava sua ambidestria, mas também percebeu que estava trabalhando com a ambiguidade novamente. Ela precisava deixar aquela sala imediatamente já que se continuasse naquela linha, poderia acabar por demonstrar o que precisava esconder. Se encontrando aérea enquanto trocavam olhares, Jill despertou-se de seus pensamentos e se afastou dele. Ela soltou os cabelos para prendê-los mais arrumados. – Eu vou lá embaixo, quer alguma coisa?

– Não se preocupe.

– Tudo bem. Vou lá na recepção assinar meu ponto e pegar um disquete para passar o relatório de hoje. Depois vou escolher um livro para me entreter na madrugada.

– Quer que eu vá com você? – Chris deu pequenos passos em direção a ela, mas ela o evitou ao caminhar em direção a própria mesa para pegar o quepe.

– Não precisa. – Jill posicionou o quepe no topo da cabeça e em seguida esboçou um sorriso sincero. – Mas... espere eu voltar. Não vá embora, tá?

– Sim, senhorita.

Chris acenou de forma militar para ela em descontração. Ele estranhava as atitudes de Jill desde que tinha dito a frase que mais se arrependeu em dizer a ela. De alguma forma, ele sentiu que isso a incomodou da mesma forma que a ele. Chris sabia que teria que usar o restante daquela noite para explorar mais sobre aquele sentimento implícito.

"Você é a única que me deixa assim. Foi tão difícil conquistar você. Eu lutei por você, me deixastes vencer? Sequer se importa ou não se importa por onde eu estive? Mas eu te amo de qualquer maneira que você quiser que eu ame."