"Eu fiz tudo que poderia ter feito. Todas as cartas eu já enviei. Coloquei minha vida na palma de suas mãos..."

MAIO, 1998

Chris observava Jill deixando aquela sala com um questionamento em mente. Enquanto escutava as batidas de seu salto sobre o assoalho, desaparecendo gradativamente no corredor afora, os jogadores de xadrez finalmente deram sinais de vida.

– Mas que jogada burra, Brad! Xeque-mate. – Marvin bradou e chamou a atenção de um Chris pensativo que se encontrava sozinho perto da mesa de Jill. – Não foi dessa vez. Quem manda se desconcentrar do jogo para se concentrar em conversas alheias.

O tenente ria sentado na cadeira do capitão, a medida em que reorganizava as peças sobre o tabuleiro para um novo jogo. Chris decidiu se aproximar do grupo e eles por fim se cumprimentaram. Quando observou o tabuleiro, notou que algumas peças estavam bem deterioradas e que o tabuleiro estava quase desbotado.

– Onde acharam esse troço? – Chris pegou o que achou que fosse a torre branca na mão para analisar o porquê de tão decadente.

– A gente sempre encontra essas quinquilharias por aí. Provavelmente era do museu. Não podemos nos desfazer das artes. Aí a gente recicla pra nossa própria diversão nas horas vagas.

Marvin explicara à Chris enquanto o observava recolocando a peça no lugar. Brad continuava quieto, de braços cruzados estirado sobre sua cadeira ao mesmo tempo em que se mostrava pensativo. Provavelmente estava frustrado por ter perdido mais uma partida. Marvin foi o primeiro a se manifestar ao assistir tal atitude de seu adversário do outro lado da mesa.

– O que foi, Vickers? Vai amarelar ou vai jogar uma nova partida? Tenho a noite toda disponível, bebê chorão.

Tal como Jill estava de serviço pelos S.T.A.R.S., o tenente Marvin tinha que passar aquela noite ali para supervisionar os policiais de plantão. Como o movimento era fraco e ele sabia muito bem como seus subordinados eram pessoas comprometidas, tomou aquela hora da noite para descanso. Mas, ao invés de fazê-lo, jogava freneticamente xadrez com Brad desde o fim do expediente. Brad tinha em mente que teria que vencer pelo menos uma partida antes de ir embora para casa, para não ser zoado pela delegacia inteira pelo resto do mês.

– A próxima partida é minha! – Brad afirmou ao entrelaçar e estalar todos os dedos de sua mão em prontidão. – Eu só tava pensando aqui... – Ele ergueu sua cabeça em direção ao homem de pé ao seu lado. Chris se virou para ele ao perceber a encarada de Brad. – Você sabe que nunca vai ter uma chance com a Jill desse jeito, não é amigão?

Enquanto Chris se assustava com a fala audaciosa do colega de time, ele podia escutar as altas gargalhadas que Marvin expressava.

– Eu sabia que esse filho duma puta estava prestando a atenção em vocês. Nem mesmo precisei usar minha rainha no último jogo. – Marvin debochava, enquanto balançava a cabeça em negação. O curioso em sua visão era perceber o quão sério Brad aguardava uma resposta de Chris e por isso continuava gargalhando. – Você é muito inconveniente, Brad.

– Muito inconveniente é pouco. – Chris exibia uma carranca ao voltar-se ao colega de time novamente. – Por que não pega essa opinião e vai se foder com ela, Brad? – Chris respondeu com indiferença enquanto afundava a cabeça do colega próximo a superfície da mesa. Em seguida, deu uma leve olhada para trás preocupado com o retorno de Jill enquanto aquele assunto ainda incidia.

– Tô falando sério, cara! Escuta... a gente sabe que... você tem um certo imã para garotas gostosas, "Sr. Casanova". Mas essa aí... não é como as outras. E pior, é você que está fodendo tudo. Acho que você tem medo de receber um fora dela por isso nunca sabe como chegar nela e fica nessa lenga-lenga. Fala sério aqui pra mim... você é frouxo mesmo ou ela te intimida tanto assim, Redfield? – Brad implicou enquanto arrumava seu penteado ao aguardar a nova resposta de Chris, que mal conseguia entender o porquê que aquele assunto chamava tanto a atenção de Brad.

– Você é algum tipo de santo casamenteiro agora? Desde quando você especialista nisso?

– Não sou, mas já vou dar meu veredito. Tá chegando uma nova equipe da academia em setembro. Os caras não vão sair do pé dela e você... – Brad apontou cutucando o peito de Chris que afastou sua mão rudemente. – ... vai ficar pra trás. Isso é fato.

Brad, por mais que sempre fosse muito palpiteiro, dizia cada palavra com muita seriedade e aquilo internamente afetou Chris. Ele apenas reprovou o que o colega intrometido tinha dito e começou a manifestar sua rejeição sobre aquilo. Não apenas pelo palpite indiscreto do colega, mas por não queria que nada que tivesse escutado dele realmente acontecesse.

– O único fato aqui é que, a partir de segunda feira, seu nome será perdedor. Porque é isso que você é. – Chris concluiu contendo a irritação e se afastou da dupla depois de acenar amigavelmente, antes que pudesse perder a cabeça com o colega de time. Eles silenciosamente voltaram a jogar xadrez.

Chris esfregou uma mão no rosto e não pode esconder o desânimo consigo mesmo. Já tinha estragado todo um assunto interessante ao comparar Jill a uma irmã sem contextualizar suas reais intenções naquela fala. Antes deixasse aquele assunto sem respostas, ponderou sua situação. Tinha sido motivo de chacota logo para Brad Vickers, que o aporrinharia ele com aquele assunto sempre que tivesse oportunidade, como acabou de fazer. E por causa de sua presença naquela sala, provavelmente não teria privacidade para explorar seu lado sentimental como tinha programado desde que tinha saído de casa.

A verdade é que com a Jill, Chris verdadeiramente tinha uma cautela. Não era uma garota que ele poderia arriscar perder. Porque ele conseguia levar um fora tranquilamente de qualquer outra garota e ainda aceitar tudo tranquilamente. Contudo, um passo em falso com Jill e perderia as chances de conquista-la de verdade. E ele sabia que era isso o que queria com ela.

Não podia ser tão afoito com ela, agarrá-la e ficar apenas por uma noite, por mais que essa fantasia já fosse corriqueira em sua mente. Sabia que o dia em que fizesse isso e os fatos apenas se resumissem a uma noitada, ele poderia nunca mais ter outra chance de conquista-la novamente. Mas também sabia que estava retardando muito o processo de aproximação dela. Todas as vezes em que tentava se aproximar mais, Chris sempre se colocava em situações complicadas porque era inevitável sua inquietação. Tinha tanto medo de estragar tudo e esse receio o deixava inseguro demais.

Jill tinha um poder sobre ele, um domínio, que ele não permitia deixar nas mãos de mais ninguém. Chris nunca soube o que era sofrer por questões sentimentais, mas acabou entregando a chave de suas trancadas e escondidas suscetibilidades nas mãos dela. O sentimento reprimido apenas intensificava a loucura por ela. Uma loucura silenciosa, demonstrada com atitudes de bondade e amizade quando na verdade queria demonstrar muito mais do que isso. Queria fazer ela entender todas as coisas indescritíveis que sentia por ela, sem saber como dar o primeiro passo para isso finalmente acontecer.

O apego que ambos estavam desenvolvendo um com o outro era uma troca muito saudável, uma em que Chris, por mais que sempre evitasse sentir o que sentia por ela, não abria mão e sempre soube se comportar bem ao lado dela para mantê-la por perto. Ele sabia que qualquer cantada estranha poderia ser um motivo de afastamento da parte dela. Por isso, o medo de ser rejeitado pela Jill não era apenas uma rejeição de uma garota alheia. Seria uma rejeição não só sentimental, mas uma rejeição amical.

Antes de tomar qualquer medida em relação a ela naquele quesito, teria que sondar o território para entender se era aquilo que ela queria também. Ele teria que ter certeza se ela sentia o mesmo que ele sentia por ela. Qualquer passo em falso destruiria todo o tempo em que ele se dedicou em redenção com ela. Se ele pudesse ao menos saber o que ela realmente pensava sobre ele, ele saberia o que fazer e não pareceria tão perdido como Brad lhe descreveu. Na verdade, Brad desconhecia a intimidade reservada dos dois e por isso tudo era muito simples de fazer acontecer na visão dele. Brad não era um bom exemplo de namoro sério para ninguém e estava muito longe disso.

Com receio de falhar novamente e ainda confuso em relação aos seus sentimentos, Chris pensou em ir embora, por mais que soubesse que isso poderia magoar Jill. Ele precisava pensar melhor, elaborar novas estratégias e não terminar por arruinar de vez suas chances. Depois daria um jeito de ligar para a delegacia para explicar alguma desculpa esfarrapada pra Jill e tudo voltaria a ficar bem para uma próxima oportunidade. Por isso, foi até a mesa dela para buscar seu capacete e ali seus olhos se fixaram no calendário que ela havia segurado minutos antes.

Jill havia deixado uma estrela na área da data e quanto isso acontecia, ela tinha planos para essa data. Chris pode se recordar que no início da semana, ela comentara sobre ir em uma exposição na sexta. Provavelmente, devido a ausência da equipe Bravo na cidade naquela mesma semana, a escala de serviço se adiantou e naquele exato dia, ela entrou de serviço, sendo impedida de seguir seu compromisso, tendo que passar a noite toda em alerta naquele escritório. Chris imaginou se não seria uma boa ideia leva-la até lá. Ele adoraria ter tido a oportunidade de fazer isso, mas ela não estaria disponível para ir de qualquer forma.

Ao retornar o calendário no lugar, pegou o capacete e percebeu que o diário dela estava ali em baixo. Um estalo em sua mente o prendeu aquele item que parecia ter sido escondido pelo capacete que ela mesma repousou ali em cima.

Chris deixou o capacete na cadeira onde Jill estava sentada outrora e ainda olhando hipnoticamente ao diário, o admirava como se fosse algo precioso ou como se estivesse contemplando um milagre de uma prece. Era aonde ela costumava registrar seus feitos históricos. Provavelmente, o feito realizado pela manhã estava sendo anotado ali na hora em que ele chegou aquela sala. Ele sempre a via anotando alguma coisa em seu tempo livre, mas nunca tinha tido acesso ao material que era altamente pessoal.

A curiosidade aos poucos se apoderava dele. Olhando ao redor disfarçadamente, Chris tomou o diário em mãos e o abriu na página onde havia uma caneta repousada. Ele usou alguns segundos para apreciar a caligrafia dela, que era delicadamente inclinada à direita. Chris sabia que ela costumava escrever de maneira cursiva quando usava a mão esquerda. Ao perceber o quanto já tinha a estudado detalhadamente, notou quão fortemente ele havia se apegado a ela. Sorriu retraído, afastando o constrangimento de seus pensamentos.

Ao analisar a página aberta, seus olhos visualizaram o pequeno desenho do modelo do detonador na qual tinha lidado pela manhã. Chris passou os olhos sobre as palavras com mãos tremulas pois tinha medo de ser pego por ela a qualquer momento. Por isso, ao ouvir um leve e curto rangido vindo da porta, ele fechou o diário ao sentir um nervosismo incontrolável por estar invadindo a privacidade dela. Naquele exato momento, ele se deu conta que a última palavra analisada tinha sido seu nome.

Olhando para trás e não vendo nem ouvindo nenhum sinal dela por perto, Chris achou melhor verificar a ultima informação que leu sobre aquele diário. Sua impetuosidade o lembrou que ele precisava entender o que Jill pensava sobre ele e aquela era a oportunidade. Por isso, relutantemente abriu novamente o diário e segurou a caneta para acompanhar as palavras, guiando-as com a ponta dela. Passando o olho sobre o texto, ele finalmente localizou seu nome. Ela tinha escrito algo sobre ele na penúltima página.

...Eu estava quase desistindo quando ele apareceu no porão. Ele ficou quieto enquanto eu lidava com o detonador do mal. Dessa vez, ele não me interrompeu. Ele me deixou concluir minha insanidade que arriscava nossas vidas. Ele já está bem compreensivo com minhas manias. Na verdade, ele até está me apoiando bastante no trabalho de uns tempos para cá. Só não entendo o porquê que dessa vez, ele ficou ali comigo. O cara do primeiro ano de convívio me faria abortar a missão me arrancando daquele lugar a força ou me deixaria ali sozinha para morrer caso algo desse errado. Mas ele não fez nada disso. Na realidade ele fez uma coisa que me intrigou.

Acho que peguei ele me observando naquele momento. Eu pude perceber seus doces olhos cor de âmbar me analisando, embora eu não estivesse nenhum pouco apresentável. Estava suada, meus cabelos estavam arrepiados e eu ainda tinha uma lanterna ridícula na minha testa. Mas ainda assim minhas percepções indicaram que ele me admirava. Ele não olhava para as minhas mãos e sim para o meu rosto. Eu não conseguia olhar para ele de volta. Eu nem sei o que eu faria caso eu o encarasse de volta, já estava tão nervosa com tudo. De alguma forma estranha, eu gostei daquilo. O jeito que ele olhava para mim era adorável. Era como se eu tivesse o fascinado.

Como meu tio Louis que prendia os binóculos no rosto quando íamos a fazenda todas as vezes em que ele chegava de viagem. Ele ficava observando por horas o mesmo pardal, sem perdê-lo de vista. Ele dizia que olhava para a criatura tal como a música que era entoada na igreja. "His Eye Is On The Sparrow" (Seus olhos estão sobre o pardal). Eu me lembro que ele sempre me pedia para traduzir a letra dessa música. Foi uma das primeiras em que consegui tocar no piano. Essa música me fazia sentir paz.

Mas diferente de paz, naquele momento eu estava em uma bagunça mental. Tudo o que eu pude fazer foi ignorar completamente que Chris estava ali ou fingir que ele nem estava ali, como o pardal que mal sabia que estava sendo observado pelo meu tio. Ele se aproximou de mim daquele jeito e eu perdi os sentidos por alguns segundos. Quase me desconcentrei de tudo e quase explodi nós dois por isso. Totalmente imprudente da minha parte, mas ao mesmo tempo deleitoso. Completamente satisfatório.

Eu não posso me permitir sentir essas coisas porque deve ser tudo coisa da minha cabeça. É o que eu venho tentando fazer desde que...

Chris percebeu que as anotações terminaram daquela maneira. Puramente em suspense. Ele não tinha uma conclusão daquela bendita frase. Ele possivelmente tinha impedido a continuação das palavras ao adentrar naquele escritório minutos atrás. Com aquela dúvida agitando sua mente, ele voltou algumas paginas atrás para perceber se ali havia mais algum registro sobre ele ou sobre o que ela sentia por ele.

De repente ouviu passos de salto alto advindos do corredor. Com isso, jogou a caneta ali dentro e fechou o diário. O lançou ligeiramente no lugar de antes e colocou seu capacete por cima dele. Sem poder fugir a tempo de perto da mesa dela, ele alcançou o calendário e começou a observar as datas para disfarçar o que tinha feito secretamente.

– Trouxe pra você.

Chris se virou para trás e a encontrou sorridente. Ela tinha um refrigerante aberto em sua mão direita e outro ainda fechado na mão esquerda que estava estendida, enquanto prendia debaixo do braço o livro e o disquete. Ele aceitou com um tímido agradecimento e deu espaço para ela voltar a se sentar sobre sua cadeira. Quando ela começou a organizar sua mesa, ele se afastou dela e procurou sua cadeira para se sentar sobre, virado na direção dela. Ainda com o calendário preso em suas mãos tremulas, ele se lembrava do momento em que a admirou naquele porão impressionado com a sensibilidade descrita pela mulher.

Enquanto bebia do refrigerante, Chris percebeu que Jill retirou o diário de debaixo do capacete para guarda-lo em sua gaveta. Ela também guardou o disquete e o livro ali. Em seguida, ela se virou para ele, que voltou rapidamente os olhos para o calendário.

– Está verificando seu ciclo menstrual? – Jill lançou um olhar incisivo na direção dele, despertando-o de sua concentração.

– Sim. Pelo que vejo, vou ovular em breve. – Chris comentou descontraído ouvindo a doce gargalhada abafada dela.

Mantinha os olhos presos sobre a data daquele dia, mas não era ali que sua mente estava. Ao perceber que ainda estava sendo observado, tirou o calendário da frente de seu rosto. Chris olhou na direção dela, ainda com a voz dela em sua mente recitando o que tinha acabado de ler e percebeu o espanto da moça, já que ainda não entendia o que ele fazia com aquele calendário em mãos e parecia julga-lo com suas expressões. Com isso, Chris decidiu fazer a ela uma pergunta.

– E você já decidiu o que quer comer?

– Como pode ver nessa folhinha, eu tinha planos para essa noite. – Jill notou que ele se voltou rapidamente ao calendário. – Mas desde que tenho que cumprir serviço, estava pensando na boa e velha pizza delivery. Só não sei se seria uma boa ideia. Aqueles dois ali não vão deixar um segundo pedaço pra mim. – Jill bradou a última frase para que os ditos cujos a ouvissem reclamar. Eles apenas riram enquanto comemoravam sutilmente a possibilidade de pizza.

Jill recebeu o calendário de volta e o posicionou ao local de antes. Ela bebia da lata reflexiva. Chris ponderou por alguns segundos e ao se virar em direção a Brad, internamente odiando tudo o que ele lhe tinha dito, sua mente começou a trabalhar em uma ideia para que aquela noite ainda pudesse render mais, já que ele sabia que teria que explorar mais sobre o que tinha acabado de ler. A vontade de refutar a teoria infundada de Brad acendeu uma lâmpada em seus pensamentos.

– Aqui vai uma proposta de diversão. – Chris tomou a atenção dela de volta e ambos tinham suas cadeiras viradas de frente para o outro. – Marvin está de serviço na delegacia e assim como você, também e vai passar a noite aqui. Brad não está de serviço. Já era pra estar em casa há horas, mas não vai sair daquela sala enquanto não vencer o Marvin e todo mundo já sabe que esse perdedor não vai vencer o Marvin hoje. – Chris bradou em direção aos rapazes silenciosos no intuito de atingir o colega de time. – Sendo assim, porque não deixa Brad aqui no seu posto por uma horinha e vamos lá na feira da Universidade como você tinha programado? O translado é por minha conta. – Chris sorriu travessamente e ergueu as sobrancelhas em animação.

– Ideia tentadora. – Jill suspirou. – Mas você sabe que eu não brinco em serviço.

Jill sorria de volta arrependida por suas palavras, quando sua maior vontade era deixar aquele escritório tedioso na primeira oportunidade que surgisse. Por isso, pensou que se provocasse aquele homem com seu desânimo, ele tentaria convence-la até que ela não sentisse mais culpa e assim, seguisse sua proposta.

– Não estou falando para você fugir do serviço. Em uma hora você estará aqui de volta.

– Sim, mas eu já acabei de registrar meu ponto. – Jill comentou com um falso cansaço.

– E desde quando bater ponto é desculpa pra não sair dessa sala? – Chris a encarava confuso até que um momento de despertamento mental lhe ocorreu. – Espera aí, moça! Eu conheço você, Jill Valentine. Eu sei que você quer ir, mas não quer sentir culpa. Por isso, está confiando em mim pra desencargo de consciência, não é?

Jill escondeu o riso apertando os lábios enquanto erguia as sobrancelhas surpresa por ter sido descoberta muito cedo. Por fim, ela apenas negou balançando a cabeça, sem admitir seu plano mental.

– Que seja. Vou conseguir te convencer facilmente, de qualquer forma. – Chris olhou para o teto rapidamente antes de voltar a olhar para ela com um sorriso maroto. – Você merece comemorar seu grande feito de hoje pela manhã. Bingo.

– Não necessariamente. Não fiz grande coisa. Só livrei nossa bunda de um belo desastre explosivo mais uma vez. Nada mais do que meu dever diário de salvar o dia. – Jill comentou presunçosamente e inclinou sua cabeça para o lado, como um cachorro, em puro desânimo. – O argumento está fraco hoje, Redfield.

– Tá... deixa eu pensar em outra coisa, Mulher Maravilha. – Chris esfregou o dedo indicador e o polegar no queixo em meditação. – Eu tenho um novo ponto: eu não costumo aparecer por aqui nas sextas-feiras a noite. Se estou aqui hoje, quebrando meus protocolos só para te convidar pra sair, acho que está na hora de você quebrar os seus também.

– Na verdade, tem um motivo para você ter vindo aqui hoje. E não! Não é por uma quebra de protocolo da sua parte. O motivo é que nem Claire, nem Forest e nem Joseph está disponível e você está precisando de uma companhia hoje. A única pessoa que lhe resta sou eu. – Jill semicerrou os olhos com um sorrisinho furioso, encarando-o em negação. Em seguida, ao perceber o que tinha acabado de apontar, indeferiu prontamente o que supostamente seria a intenção dele. – Espera um momento... Sendo assim, quer me arrancar daqui só para cumprir seus próprios interesses e não pensando em me agradar! Que marmanjo egoísta que você é, Chris!

– Escuta uma coisa, Sherlock... – Ele arrastou sua cadeira mais próximo a ela com um dedo indicador levantado. – ... eu poderia estar em qualquer outro lugar hoje. Principalmente na minha própria casa e podendo dormir a qualquer momento como certa pessoa deve estar louca para fazer agora. – Chris se lembrou de como Jill era uma dorminhoca nas horas vagas. – Mas estou aqui com você porque eu sei que, diferentemente de mim, você não pode dormir até que vá para casa somente pela manhã e... se eu não tivesse aqui agora, o tédio já teria te consumido porque nem o livro te ajudaria com isso. Você já teria dormido sobre o teclado uma hora dessas moça, o que não seria nada legal para o seu histórico de "eu não brinco em serviço".

– Tá! Quase me convenceu. Mas... eu só poderia concordar com esse argumento se seus amigos ou sua irmã estivesse disponível para você. Se todos eles pedissem sua atenção para uma sexta-feira, e você optasse por estar aqui comigo ao invés de ir com eles... bem, só assim eu saberia que não sou uma quarta prioridade.

– Você sabe que jamais seria minha quarta prioridade. – Chris respondeu quase que a interrompendo pela pressa em dizer aquilo.

A troca de olhares entre os dois revelava um clima que pendia à questão sentimental. Com isso, afastaram suas cadeiras ao mesmo tempo sutilmente, buscando uma distancia segura. Voltaram-se para a lata em suas mãos e beberam mais um pouco do líquido para disfarçar a atmosfera de tensão que ambos sentiam. Jill foi a primeira a suspirar e suspender a ideia inventada antes que uma nova proposta irrecusável surgisse para alimentar suas ilusões sobre ele.

– Bem, pelo visto nenhuma das alternativas me convenceu. Portanto, chegou a hora de começar meu relatório, se não se importar.

Jill girou sua cadeira e se voltou ao computador, pressionando o botão para ligar o monitor. Seu braço esquerdo se esticou para alcançar o disquete dentro da gaveta, quando foi impedido por um aperto moderado no pulso. Ao olhar lentamente para o rosto do autor daquele gesto, percebeu que o quão próximo de si que ele se encontrava enquanto a encarava pensativo. Estava tão próximo a ela que seu perfume agradável chegou às suas narinas instantaneamente enquanto ambos tinham a atenção do outro a medida em que ele soltava seu aperto aos poucos.

– Vai se arrepender quando perceber que não poderá mais sair dessa sala nos próximos serviços na hora em que Wesker entrar por aquela porta com seu andar robótico, executando aquele estúpido tique de tremelicar os dedos mirabolantes e finalmente demonstrando que controla cada mínimo movimento seu atrás dos óculos escuros imponentes. – Chris tomou fôlego depois de dizer cada palavra freneticamente. – Se ele aparecer naquela porta nos próximos minutos para compensar todo o tempo em que esteve fora hoje... lembre-se: já será tarde demais para fugir do pior serviço da sua vida.

– Uau! – Jill instintivamente se virou e olhou em direção à porta como se pudesse projetá-lo ali, exatamente como Chris o descreveu. Sem demonstrar ao colega de time, ela sentiu um mal estar. – Bem, esse sim é um argumento que eu precisava. – Jill se virou novamente para Chris impressionada. – Não acha estranho que ele não estar nessa sala há mais de doze horas? Não que eu esteja reclamando. Nunca me senti tão livre em quase dois anos.

– Tenho certeza de que até a mesa dele deve estar comemorando isso. Ela prefere mil vezes o xadrez infinito de dois desocupados do que aqueles cotovelos pontudos que a perfuram diariamente.

Jill deu uma pequena risada. Ela foi útil para espantar o mal estar que sentira segundos antes. À medida em que posicionou ambas as mãos na borda da mesa e se afastou dela, logo se pôs de pé. Desligou o monitor e empurrou a cadeira para dentro da mesa no intuito de já se sentir livre do escritório. Chris mantinha o sorriso da vitória por ter conseguido convencê-la. Ao se por de pé, se dirigia para fora do escritório passando por trás dela.

– Vou pegar o capacete da Claire no meu armário para você.

– Espera um segundo... – Jill se encontrava virada para as duas outras pessoas naquela sala. – Eu sabia que ia acabar me convencendo, Chris. Agora só basta convencer aqueles dois a fecharem a boca e aquele pequeno problemático a assumir meu posto. – Jill apontou em direção aos jogadores.

– Pode ir, querida. – Marvin disse em bom tom enquanto movia uma peça do jogo. – Pelo jeito aqui, Brad não vai deixar essa partida tão cedo.

– É isso mesmo. Eu só vou ficar aqui para me sacrificar por você, colega. Divirta-se em seu passeio. – Brad fingiu um drama e aproveitou a deixa para implicar com o colega ao se virar para trás. – Um momento como esse só acontece uma vez na vida, não é Chris?

– Volte a focar no jogo, bebezão. Depois não vai chorar dizendo que eu tô roubando. – Marvin o repreendeu amistosamente.

Antes que Chris pudesse se irritar com o comentário desafiador, seus olhos se prenderam no sorriso radiante esboçado nos lábios da morena a sua frente. Ele mal poderia esperar para sair sozinho com ela e sentir seus braços o envolvendo enquanto ele pilotaria a moto. Sentiria o prazer de estar bem junto a ela em breve e dessa vez, não teria nenhuma terceira pessoa para atrapalhar. Seus planos finalmente tinham voltado a dar certo.

Antes que saísse da sala no intuito de buscar o capacete, Chris deu uma última olhada em Brad e temeu deixa-la ali com aquele palpiteiro, que poderia atrapalhar seus planos com uma só frase com sua boca grande. Portanto, decidiu dar meia volta e se escorou na parede enquanto assistia Jill removendo os itens de segurança da polícia de seu corpo. Aquele gesto ingênuo de repente se tornou tão obsceno em sua mente que fez com que ele ao menos não demonstrasse a vontade que tinha de babar sobre o que via. Por isso, tentou prender sua atenção ao rosto dela e ali pode perceber que ela apertou os lábios em frustração, murmurando um pequeno insulto.

– O que houve? – Chris se aproximou temendo novamente uma frustração de planos.

– Antes de você chegar, coloquei minhas únicas roupas paisanas que estavam no armário para lavar na rouparia. – Jill olhou para seu próprio visual e se comparou ao dele, que estava impecável. – Acho que vamos perder tempo se eu for em casa e obviamente não vou sair de uniforme. Não ao seu lado hoje. – Ela o olhou de cima a baixo discretamente. – Você está uma graça.

– Você sabe que não precisa se esforçar como eu tive que fazer. Está usando a regata branca por dentro? – Chris questionou e Jill concordou. – Então é só desabotoar a camiseta azul pra se livrar dela. Para não passar frio na moto, eu deixo você usar aquela belezinha ali. – Ele apontou para sua jaqueta pendurada na parede da sala. Ela olhou em direção a jaqueta fascinantemente comovida. – Além disso, acho que deveria optar por usar saia mais vezes. Elas ficam bem em você.

Jill evitou se deleitar com a última frase. Enquanto desabotoava sua camiseta, voltou toda sua atenção à jaqueta e por isso não percebia os olhares indiscretos sobre si do homem ao seu lado. Enquanto ela se descontraia com aquele momento, Chris se derretia por dentro em desejo por ela enquanto sua mente lhe implorava para ser o mais prudente possível naquela noite para não forçar um encontro. Quando terminou de vestir a jaqueta, soltou os longos cabelos e ao penteá-los com os dedos, se virou para o dono pedindo uma aprovação ao dar uma pequena voltinha em sua frente. Ela, inintencionalmente, o matou e o trouxe a vida naqueles segundos em total deslumbramento. Após isso, Jill levou o aparelho de rádio até Brad. Se despedindo dos rapazes, ela se juntou a Chris com as mãos abrigadas no bolso da jaqueta.

– Sabe, Chris... se tentasse me convencer de sair com você só para estrear essa relíquia, eu não teria protelado tanto.

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Chris girava a chave da moto para desliga-la no estacionamento aberto da universidade. Ambos chegaram no recinto ao ar livre do lado de dentro da unidade. Ele pendurou os capacetes nos retrovisores da moto e ambos estava livres para caminharem lado a lado sem empecilhos. A feira estava aberta ao público e havia bastante movimento de pessoas. Famílias e amigos estavam reunidos ali para participar da exposição. A música do alto-falante se contrastava com o barulho de muitas vozes advindas das conversas de pessoas e dos gritos de manifestação de arte em algumas das barracas.

– É uma boa universidade. Eu adoraria ter estudado aqui quando mais jovem. Ter sido uma adolescente rebelde não me ajudou muito nisso. Negligenciei muito os estudos nessa época. – Jill revelou sutilmente frustrada.

– Ainda não consigo imaginar que você já fez algum ato rebelde um dia. Você é muito subalterna, no bom sentido. E suas habilidades me parecem de alguém que sempre se dedicou aos estudos. – Chris começou a andar lado a lado junto a ela.

– A carreira militar me transformou muito, além de ter me colocado na linha. Me deu maturidade e independência e era isso o que eu buscava com meus atos rebeldes, por incrível que pareça. Sei lá, acho que eu nasci para isso. Tanto que nenhuma formação acadêmica me interessa e eu trocaria fácil horas de aulas inúteis da faculdade por missões ou operações. – Jill esboçou um sorriso nervoso. – Eu só queria ter tido a experiência de ser uma estudante normal ou ser sido uma jovem normal.

Por mais que amasse sua carreira como se tivesse nascido para aquela função, Jill se perguntava como teria sido sua vida caso tivesse tido a oportunidade que as moças ao redor estavam tendo. A carreira militar no exército deu a ela o que ela queria, mas acabou tirando dela um pouco de diversão e sociabilidade, sempre fazendo com que ela se sentisse em uma obrigação o tempo todo e aquilo se tornou exaustivo com o tempo.

Por isso, quando recebeu a proposta do capitão Wesker para servir naquela cidade em uma unidade de força tática, ela não pensou duas vezes em ir. Desde que chegou a Raccoon e começou a trabalhar nos S.T.A.R.S., ela conseguia ter uma vida mais pacata e descontraída, rodeada de pessoas que ela passou a considerar e estimar. Adorava aquela nova vida, as pessoas com quem trabalhava e as poucas amizades que tinha. Finalmente tinha achado um bom lugar para chamar de lar e por isso, tudo o que queria era permanecer ali pela vida inteira.

Chris analisava o ambiente ao lado dela, concordando internamente com o que ela tinha dito, já que também tinha o mesmo histórico profissional que o dela, pelos motivos diferentes.

– Eu tenho certeza que eu não daria a mínima para a faculdade e sim para a diversão. Mas acabei me tornando pai aos dezoito daquela pirralha ruiva. Se não optasse pela carreira militar, ela estaria em algum orfanato por aí e não em uma escola de renome, com direito a escolher a faculdade que bem quiser. Sendo assim, acho que sou um bom irmão. – Chris concluiu ainda amuado pela discussão de mais cedo. – Só espero que o "malandrinho que ainda não saiu da fralda" não a roube de mim. Porque não vou desistir de tentar trazê-la para cá.

Jill instintivamente esfregou em afago sua mão sobre as costas dele no intuito de acalmá-lo, já que o rosto dele parecia perturbado. De alguma forma, por mais que quisesse inteiramente a presença de Jill para si, pode sentir a falta de sua irmã em um passeio como aquele. Claire adorava a presença de Jill com eles quando em outros tempos simplesmente abominava qualquer sinal de uma terceira pessoa em um passeio que era apenas dos dois. Ponderou a possibilidade de pedir a Jill para ajudá-lo a trazer sua irmã para perto, já que a convivência entre ambas estava se tornando uma amizade sadia.

– Tenho certeza que quando a Claire pisar aqui, ela vai gostar. – Jill parou de andar e apontou para um pequeno grupo de universitários que amparavam uma ONG de ajuda humanitária, com a venda de seus quadros a fim de custearem projetos sociais nas regiões necessitadas do mundo. – Algo me diz que essas coisas são a cara dela.

– Exatamente. Tente dizer isso para ela na próxima vez em que ela vir à cidade. – Chris olhava admirado ao grupo. Pode também perceber como Jill era uma ótima conhecedora de sua irmã e se virou para ela, chamando sua atenção. – Será que você pode me ajudar com isso?

– Pode contar comigo. Só não sei se vou conseguir convencê-la. Não dá para competir com um namorado.

Antes que Chris demonstrasse sua repulsa sobre sua irmã já ter um namorado, ela o segurou pelo braço e lhe forçou a continuar andando. Eles caminhavam lado a lado, cada um seu espaço, enquanto já passavam pelo corredor de exposição, avistando as barracas ao redor que se contrastavam entre arte e comida. Eles assistiram à preparação de algumas comidas e testemunharam o nascimento de novas obras-primas enquanto comentavam entre si sobre o que achavam de tudo o que tiveram em alcance. Enquanto passavam pelas barracas de comida, Chris apontava e questionava com o olhar se era aquilo que ela queria comer naquela noite. Jill balançava negativamente sua cabeça ainda insatisfeita em escolher algo por mais que os minutos estivessem passando velozmente.

– Achei que tinha ouvido você dizer que estava com fome na moto. – Chris comentou próximo a ela.

– Mas eu estou. Só... – Jill olhava ao redor com indecisão. – Tem muitas opções aqui. Fica difícil escolher.

Naquele momento, Chris parou de andar e olhou ao redor para ajuda-la, porque sabia que se dependesse da indecisão dela, eles teriam que retornar à delegacia sem comerem nada.

– Não temos muito tempo e você precisa jantar. Já passamos pelas coisas que você mais gosta, mas parece que nada aqui te interessa. Olhe ao redor! – Chris a propôs e ela seguiu seu conselho na mesma hora. – Tem alguma coisa aqui que te atrai?

Jill se virou para Chris e sutilmente o olhou de cima a baixo duas vezes, respondendo mentalmente para si aquela pergunta. Sentindo-se atrevida o suficiente para ter deixado aquele recado para ele mesmo que subliminarmente, ela rapidamente se afastou, mostrando-se desentendida, quando notou que ele tinha entendido a cantada oculta pela expressão maliciosa em seu rosto.

Sem saber como reagir àquela investida, Chris pode entender que ela estava usando aquele passeio para conhecer as reais intenções dele e, portanto, nada podia falhar. Teria que ser inteligente o suficiente para não a perder de vez ao ter que arriscar aquela amizade, como quase aconteceu dentro do escritório.

Por outro lado, Jill se sentia irrefreável. Suas ações se tornaram muito desgovernadas desde que ouviu Chris a comparar como uma irmã horas antes. Não aceitava aquele titulo, não desde que passou a enxerga-lo com outros olhos. Quando parou para analisar seus pensamentos sobre ele na biblioteca, pensava se era ela quem não tinha demonstrado interesse suficiente sobre ele. Contudo, ao mesmo tempo em que queria esclarecer seus sentimentos sobre ele, também tinha medo de acabar comprometendo de vez a amizade de ambos e ela sabia que não poderia perder aquele vínculo que para ela tinha se tornado vital nos últimos meses.

Andando ao redor na intenção de se conter para não deixar nada constrangedor acontecer novamente, seus olhos curiosos pescaram um peixe atrativo. Ela pode observar uma barraca onde um velho senhor era o dono. Ele usava roupas regionais de indígenas e foi isso o que lhe chamou a atenção. Diferente de tudo o que já tinha visto ali, o senhor era livre do uniforme dos demais alunos das demais barracas, já que sua vestimenta era bem inabitual e ao mesmo tempo atrativa. Jill aproximou-se interessada em saber o que ele vendia, enquanto ele atendia uma família, finalizando uma explicação sobre algum assunto de sua cultura. Chris olhou surpreso quando percebeu que ela tinha ido a uma barraca que não tinha comida alguma e seguiu logo atrás dela em confusão.

– Boa noite, mocinha. Se interessa por alguma coisa aqui? – O senhor se apresentou com um sotaque diferenciado embora seu inglês fosse perfeitamente entendível.

Jill queria muito questioná-lo sobre seus motivos pessoais de estar ali ou mesmo questionar mais sobre o assunto que ele concluía quando ela se aproximou. Mas para ele, Jill não era uma policial naquela noite. Era uma mocinha em uma jaqueta descolada. Não poderia abordá-lo com a mesma liberdade que teria ao usar um uniforme. Por isso, assentiu para ele e continuou olhando para os produtos confeccionados ali expostos. Encontrou variados tipos de acessórios adornados e indiscretos, o que não fazia muito seu gosto, mas de alguma forma, chamou-lhe muita atenção.

– É bem bonito o que o senhor comercializa. – Jill tocou em um pingente de sua preferência. – É o senhor mesmo que faz?

– Não só os faço como também os personalizo. Em todos os acessórios de metal, eu faço o trabalho de gravar o que você quiser nele por minha conta.

– Ah... bacana! Já faz um bom tempo em que não uso acessórios. Depois que saí da adolescência me desacostumei a usar essas coisas. – Jill passou as mãos sobre a orelha e percebeu que o que disse era um fato, já que havia um bom tempo em que não usava nem mesmo um par de brincos. Naquele momento, Chris a observou para verificar se ela usava algo semelhante ao que parecia interessada e percebeu que ela realmente não era de usar acessórios. Mais um detalhe que ele acrescentaria ao seu arquivo mental sobre ela.

– Esses acessórios vaidosos e extravagantes não são realmente muito necessários para seu povo como são para o meu. Mas se posso recomendar algo a você, eu recomendaria uma aliança. – O vendedor revelou sua mão e lhe mostrou os itens como se fosse um expositor ambulante de vários anéis. Ao remover a peça de seu anelar, entregou-a a Jill para uma análise pessoal. – Posso gravar qualquer simbolismo aqui. Letras, números, desenhos e até frases pequenas. Algo que poderia te fazer lembrar da pessoa especial que está bem ao seu lado agora, mesmo que um dia estejam distantes um do outro. – O senhor indígena concluiu olhando para Chris que se encontrava bem ao lado dela.

Enquanto falava aquelas palavras, os olhos de Jill brilhavam ao observar uma frase gravada escrita em um outro idioma que desconhecia, que provavelmente era da língua natal do vendedor. Mas ao ouvir o final daquelas palavras, ela se assustou ao perceber que o homem associou Chris a ela como sua pessoa especial.

Mas diferente daquela realidade, ela não estava ligada ao homem ao seu lado e nem ele a ela com o vínculo descrito pelo vendedor. Eram apenas colegas de trabalho, amigos nas horas vagas e obviamente estavam bem longe de firmar algum relacionamento sério já que priorizavam muito aquela amizade.

– Ah, não. Eu... não somos o que o senhor está pensando. – Jill negou com a cabeça, sentindo-se bem constrangida ao devolver o anel de volta ao vendedor.

– Oh, me desculpe. Eu achei que o rapaz ao seu lado era seu namorado. – O homem franziu o cenho e mostrou-se questionador ao analisa-los por alguns segundos. Jill se mostrou impaciente por sempre ouvir a mesma frase dos demais quando estava apenas acompanhada por Chris. – Tem algo estranho aí. Eu nunca costumo errar em minhas intuições. Algo me diz que vocês também não são irmãos e...

– É... – Jill o interrompeu com um sorriso constrangido. – ... não somos irmãos. Mas... somos como irmãos. Não é, Chris?

Jill mordia os lábios ao olhar para o homem ao seu lado em puro nervosismo. Por um momento, temeu ouvir alguma resposta sobre aquilo. Antes que Chris pudesse dizer alguma coisa que poderia causar outro mal estar, optou por se calar sem demonstrar expressões. Apenas continuou encarando a mulher e o vendedor sem respostas.

– Enfim, ótimas peças. Obrigada pela atenção.

Jill se despediu do vendedor que apenas balançou a cabeça em reverência. Logo, continuou a seguir o caminho em que seguia antes de parar ali. Andava cabisbaixa e contemplativa. Um arrependimento começou a surgir em sua consciência e ela pode perceber que tinha o provocado espontaneamente outra vez. Como se já não tivesse mais controle sobre suas ações. Ela estava muito sóbria para ter reagido daquela forma. Isso lhe mostrou quão incomodada que ficou com o que ouviu de Chris enquanto lançavam os dardos. Esse fato mesclado ao que ouviu do vendedor causou aquela epifania.

Chris olhava na direção de Jill, deixando-a caminhar sozinha mais a frente que ele. Se lembrava do incômodo presente no olhar dela ao questioná-lo sobre o assunto abordado na frente do vendedor. Tudo o que ele tinha que ter feito era rebatê-la ali mesmo e dizer o que na verdade escondia por anos, mas a cautela sempre o travava. Ao perceber que ela quase sumiu de sua visão, apenas apertou os passos e a seguiu até caminhar lado a lado com ela.

Ambas as mãos de Jill estavam presas nos bolsos da jaqueta e um silêncio embaraçoso se pairou ali. Ao mesmo tempo em que os pensamentos de ambos estavam a mil e gritavam até enche-los de dores de cabeça. Eles apenas se olharam quando perceberam que a feira tinha ficado para trás e que tinham chegado a uma pequena pracinha vazia instalada no final da exposição, que dava de frente à saída do instituto.

– E aí... já se decidiu sobre o que quer comer? – Chris começou um dialogo ao perceber que ela tinha se fechado. Ela apenas demonstrou negação.

Jill continuava emudecida e não tentava mais esconder aquilo. A melancolia, por mais que disfarçada pelo sorriso sem emoção dela, estava presente. Eles não conseguiam nem mesmo se encararem. Já fazia um bom tempo onde eles sempre se encontravam em uma tensão depois de falas ou gestos que tinham uma faísca de romance implícito. Tudo tinha ficado estranho de repente e o passeio que era para ser divertido, estava ficando desconfortável. Chris observou que ela havia localizado um banco e sem demora, foi até ali para se sentar elegantemente de pernas dobradas.

Antes que ela se acostumasse a fugir dele em momentos como aquele, Chris apertou os passos e se sentou ao seu lado de maneira despojada, enquanto olhava sério em direção à parte mais movimentada da feira. Ele também notava que ela deixava sua atenção lá. Depois de dois minutos sem reação alguma de Jill, ele decidiu que já era hora de forçar um dialogo.

– Fala logo o que está te incomodando. – Chris enrolou seus dedos em uma madeixa de seus longos cabelos e a puxou delicadamente, fazendo-a voltar sua atenção para ele.

– Não é nada. – Jill suspirou tentando se camuflar da Jill durona de antes daquela amizade, a quem ele não sentia nenhuma falta.

Naquele momento, Chris se lembrou do que tinha lido no diário dela e pensou em provocá-la. Se encarasse ela como tinha feito pela manhã, sabia que poderia fazer ela expressar suas sensibilidades e assim ele também poderia explorar mais sobre o sentimento que ela não terminou de explicar em palavras. Ele sabia que um pequeno indício de sentimento da parte dela, uma pequena brecha, seria suficiente para que ele abrisse o coração também. Apenas os dois estavam ali e de alguma forma estranha, a lua os encarava como nunca antes e ele podia ver o reflexo claro dela sobre o belo rosto da mulher que admirava. Logo, começou a fita-la fixamente ao mesmo tempo em que parecia sentir um magnetismo indiscreto presente e por isso tentava se manter o mais afastado possível.

Entretanto, diferente da mulher que escreveu aquelas palavras mais cedo, Jill parecia mais confiante. Se virou para ele e o encarou da mesma forma. Como se não bastasse a troca de olhares e uma sutil aproximação de seu rosto, ela exibiu também um sorriso de canto secretamente perverso enquanto olhava para a boca dele. Quando se voltou aos olhos, ela pode sentir que tinha se tornado o maior objeto de desejo para ele, que parecia completamente petrificado em excitação. Era uma atração tão única, algo que ele nunca tinha sentido na pele por ninguém. Ao se lembrar do que tinha lido no diário dela, a entendeu e pode sentir a mesma sensação que ela teve pela manhã. Naquele momento seu corpo arrepiou-se por completo. Aquele último efeito o despertou de seu encantamento imediatamente.

Chris não estava pronto para aquelas reações que ele mesmo tentou provocar. O feitiço se voltou contra o feiticeiro e quase o deixou totalmente rendido, querendo finalizar de uma vez por todas o assunto que parecia inacabado entre os dois desde a primeira vez em que conversaram sozinhos. Confuso o suficiente para ser o primeiro a demonstrar seus reais sentimentos, Chris pensou em reaver um assunto que, se não fosse dito ali, jamais poderia recorrer a ele novamente. Aquele assunto tinha que ser resolvido antes de qualquer impulso afetuoso entre os dois, para que ela entendesse as suas reais intenções.

– Considere isso, Jill. – Chris sussurrou enquanto continuava olhando fixamente a ela, sendo retribuído da mesma forma. Ele começou a montar um argumento em mente e então a dizer as palavras de forma pausada para que, se caso errasse, já pudesse voltar atrás. – Quando eu disse que me importo com você da mesma maneira que me importo com minha irmã... eu realmente sinto isso. – Jill imediatamente quebrou o contato visual e olhou para baixo ao ouvir aquilo, para não demonstrar de cara um descontentamento. – Mas... isso não significa que eu te veja como uma irmã. Porque eu não te vejo dessa maneira.

Jill finalmente sentiu a satisfação do alívio de ter ouvido a última frase. Seguidamente, tentando esconder o sorriso que queria esboçar ao ouvir aquilo, voltou a ficar vulnerável, como a moça que desarmava a bomba pela manhã. Mal conseguia levantar os olhos em direção a ele enquanto tentava debater sobre aquele assunto. Ela forçou sua mente a tomar coragem e com isso, voltou a olhar para Chris com um olhar questionador.

– Então me diz uma coisa... – Jill encontrou-o atento. O olhar dela era intimidador, insistente e persuasivo, com um toque charmoso. Ela sabia que a pergunta que ecoava em sua mente era a única maneira de conseguir as respostas que tanto procurava. – Por você não me vê como uma irmã?

Ele, a princípio, se travou. Nenhuma resposta para aquele questionamento se passava em sua mente, se não o óbvio. Podia sentir seu rosto suar e seus olhos embaçarem. Metade dele queria responder da maneira mais contundente, enquanto seus olhos passavam sutilmente pelos lábios dela. Outra parte dele temia ser impetuoso o bastante para um passo tão ousado e acabar por transformar aquele momento em um ato passional que poderia não durar mais do que um dia e ser apenas um fruto de uma atração momentânea.

O medo de perde-la de qualquer maneira era angustiante. Mas diferente do homem daquele escritório, ele não daria um passo em falso para depois voltar atrás. Ele iria explorar aquele caminho aos poucos, sem pressa e sem perder tudo o que já tinha conquistado. Ele sabia que ela também adoraria explorar isso aos poucos, como havia descrito em seu diário. Se sentindo muito embaraçado, apenas soltou um riso tímido ao se afastar sem graça. Chris se pôs de pé e caminhou poucos passos pedindo para sua mente lhe dar uma boa resposta. Em seguida se aproximou dela e a olhou de cima.

– A resposta para isso é porque... – Chris observou o mesmo olhar curioso de minutos antes ainda no escritório. – A minha irmã, eu a conheço desde que nasceu. Então, o cuidado é mais que fraternal. É de fato bastante paternal já que eu acabo por ser essa pessoa para ela. Já você... já tem um bom tempo que te conheço, mas só agora que a gente começou a não sermos apenas colegas de mesa ou amigos de bar. Nos últimos meses desenvolvemos uma interação diferente, algo mais profundo. Estamos mais... quero dizer... nós somos... eu nem sei que é isso.

– Somos pessoas especiais um do outro?

Jill complementou ao perceber que Chris se encontrava perdido, se lembrando das palavras do vendedor exótico. Após dizer aquilo, ela se colocou de pé e deu um passo a frente, parando de frente a ele para uma maior proximidade e intimidade. Ela tinha que demonstrar interesse naquele assunto ou faze-lo entender que ela tinha interesse naquele assunto.

Já esses pequenos gestos dela o intimidavam como ninguém lhe causou algo semelhante antes. Chris começou a suar de nervosismo pela aproximação e por isso forçou um sorriso tímido com medo de responder errado o questionamento que ela fez. De repente, Jill soltou uma gargalhada quebrando o clima tenso enquanto escondia o riso sobre a mão.

– Desculpa. – Ela tentou se conter. – A última frase tinha soado tão mais bonito na minha cabeça. Não precisa responder essa bobagem.

– Não, espera... é exatamente isso que você disse. – Chris aproveitou a deixa de um clima mais descontraído para finalmente relaxar sua mente outrora tensa e começar a explicar com sinceridade sua opinião sobre aquilo. – Escuta... pode não parecer, mas agora que nos aproximamos desse jeito que você descreveu, eu sinto que criei um vínculo com você. Quero dizer... você é a única pessoa que eu posso dizer coisas secretas sobre mim ou ser quem eu sou independente da situação sem ser julgado ou punido por isso. Você não se afasta de mim e você não desistiu de mim. E olha como estamos agora. Você se tornou a pessoa mais confiável para mim.

– Não... – Jill tentava esconder o enaltecimento, por mais que pudesse entender qual era seu papel para ele. Isso a fazia se sentir muito bem. – Eu ainda acho que perderia fácil para o Barry nessa questão. Vocês são quase uma família. – Jill transformou seu sorriso confiante em um sorriso de canto ao se lembrar que seu histórico familiar era um desastre.

– Sim, ele é como um irmão mais velho pra mim. Mas, voltando ao ponto onde eu quero chegar... – Chris tomou fôlego enquanto ponderava. – Bem, eu penso assim: Barry tem sua própria família. Tem alguém lá para confiar e zelar com prioridade, nesse caso, Kathy e as meninas. Mas você, assim como eu, somos sozinhos por aqui. Precisamos confiar um no outro para que em casos extremos ou caso a gente precise de alguém... que a gente tenha a quem recorrer como um amparo. Como a gente fez nessa manhã...

Chris se travou ao perceber que os olhos dela demonstravam um sutil sinal lacrimejante que ela tentava camuflar. Jill deixou seu rosto pender para baixo enquanto admirava seu sapato azul marinho para não demonstrar sinais de vulnerabilidade ao ter ouvido palavras tão significativas.

– Sabe, Jill... eu nunca deixaria você ali sozinha. Porque se tudo desse errado, eu ainda poderia tentar salvar você. Então, respondendo sua pergunta... eu não te vejo como minha irmã porque você é... – Chris, em suspense, levantou a cabeça dela com a ajuda de seus dedos sobre o queixo dela até tomar sua atenção por completo. – Você é a minha parceira, Jill Valentine. Eu nunca vou te deixar pra trás. Porque eu sei você faria o mesmo por mim.

Chris concluiu com uma seriedade genuína, como se rasgasse seu peito para dizer tudo aquilo. Ele estava mostrando para Jill uma parte dele que nunca tinha mostrado a ninguém e fazendo ela entender que ela era muito mais que apenas uma mulher atraente para ele. Um silêncio reflexivo pairou entre ambos enquanto refletiam sobre aquelas palavras.

Jill tentava conter suas emoções ao ter ouvido algo que nunca ouviu antes. Finalmente tinha ouvido sobre ser importante para alguém, ou melhor, que alguém se importava com ela de verdade. Ela sempre tinha que provar seu valor e sempre foi exigente consigo mesma para ser aceita pelos demais, até mesmo por sua família. Por ser muito humana e por isso, falha, acabava optando pela independência de laços afetuosos com os demais. Contudo, ela sempre enxergou em Chris uma necessidade de aproximação, uma dependência que desconhecia outrora e naquele momento pode entender a importância de nunca ter desistido de estar perto dele. Nunca achou que fosse encontrar nele alguém que demonstrasse o tempo todo que queria cuidar dela.

Instintivamente, ergueu sua mão e segurou no antebraço dele afetuosamente por alguns segundos, maravilhada por todas as palavras que escutou e o soltou quando percebeu que no fundo já pretendia abraça-lo. Era inevitável não sentir aquilo toda vez em que o tocava.

– Eu gostei disso. Tudo o que disse faz muito sentido porque... eu sinto exatamente a mesma coisa por você... parceiro. – Jill repetiu aquela palavra que soava perfeita para alguém como Chris. Aquela palavra era a união de todas as coisas que secretamente ela o descrevia para si mesmo. Ela certamente iria anotar aquele momento no diário assim que voltasse a delegacia. – É bom saber que posso contar com você, e não apenas para melhorar minha pontaria da mão direita. – Ela esboçou um sorriso debochado e ele pode finalmente respirar em paz. Tinha feito a coisa certa dessa vez e tudo tinha acabado bem.

– Falando nisso, já faz um tempo que a mocinha não treina. Vou agendar um horário para a gente na semana que vem, sem falta. – Chris olhou no relógio instintivamente ao fazer uma anotação mental.

Jill pode enxergar o quão dedicado ele era em tudo o que se referia a ela. Ter alguém como ele para contar, ou melhor ainda, confiar não era fácil de encontrar. Até então, desde que tinha chegado naquela cidade, ela não tinha ninguém para contar daquela forma. Era como um privilégio ter encontrado alguém como ele. Aquelas pequenas demonstrações de cuidado bagunçavam a mente dela, que aos poucos se rendia a secretamente gostar mais dele do que já fazia. Era isso que ela tanto temia ao se aproximar cada vez mais dele.

– Falando em horário, a senhorita não vai comer nada? Nosso tempo está acabando.

– Ah é... agora que eu lembrei que estou faminta! – Jill passou as mãos sobre o estômago.

– Todas as comidas do mundo estão aqui, mas você as rejeitou.

– É porque... talvez... – Jill mordia os lábios charmosamente. – ... eu ainda esteja pensando na boa e velha pizza do meu restaurante favorito. – Ela semicerrava os olhos, achando que ouviria um sermão, mas escutou gargalhadas seguida de uma risonha desaprovação do homem a sua frente. – E apesar de querer comer uma pizza inteira sozinha, porque você sabe que eu sou dessas, eu não me incomodaria de dividir essa pizza com você... parceiro.

O tom de voz dela ao chama-lo daquela forma tinha todo um charme especial. Aquela palavra rolava maliciosamente ingênua na língua dela e era finalizada com um sorriso atraente que o deixava cada vez mais rendido. Ele tinha feito uma ótima escolha em encontrar a palavra certa para ela e para referenciar a si mesmo na mente dela.

– Tá certo. Acho que ainda dá tempo de conseguir uma mesa por lá. Sabe o número de cabeça pra fazer uma reserva?

– Claro, eu peço delivery toda semana de lá.

– Então aproveite a cabine telefônica atrás de você e já vai adiantando a reserva e o pedido. Lembrando que hoje é por minha conta. Porque por mais que deteste levar os créditos, você foi incrível naquele porão e merece um agrado hoje. – Ele finalizou a frase com uma piscadela. – Vou lá buscar a moto e te encontro aqui na saída.

– E eu vou escolher a mais cara do cardápio por merecimento, viu!? – Chris a escutou gritar enquanto voltava a entrar no meio de multidão e se virou brevemente para ela encolhendo os ombros antes de retomar seu caminho novamente.

Indo na direção da moto, sua mente começou a conversar com ele. Ao mesmo tempo que aquela conversa tinha terminado bem, ele percebeu como era lento para tomar uma atitude mais radical com ela, como Brad havia palpitado. Mas não era tão fácil ter sentimentos pela garota mais cobiçada que conhecia. Por um minuto, achou que perderia a linha em tentar se conter em relação a ela.

O que ele sentia por ela era simples de distinguir longe dela. Mas quando estava de frente a ela ou mesmo próximo a ela, tudo parecia muito complexo. Diferente de todas as outras garotas, ele não aceitaria perde-la caso algo desse errado. Optar por ir conquistando-a aos poucos foi a melhor decisão que tomara. E se aquele fosse o intuito do passeio, ao menos ele conseguiu ouvir dos lábios dela que ela confiava nele. Isso o fez sorrir espontaneamente.

Enquanto caminhava, tentava despistar-se dos olhares das universitárias sobre si. Já fazia um bom tempo em que nenhuma garota poderia substituir a mais bela de sua mente. Ao avistar ao vendedor da barraca na qual Jill tinha parado outrora, sentiu que precisava parar ali para entender o que levou Jill àquele lugar. O velho senhor logo o reconheceu e o cumprimentou novamente.

– Olá novamente, rapaz. Já se acertou com a namorada?

– A gente está bem. – Chris comentou baixo e tímido. Em seguida, começou a olhar os itens da barraca com uma ideia em mente. – Escuta, o que você tem de mais discreto aí?

– Acho que sua namorada não é de usar nem brincos ou anéis. Mas tenho algo pequeno e significativo: um pingente. Ela pode usar ele como quiser, não apenas em um colar. Mas claro, o cordão vai junto. – O vendedor apontava para uma área onde havia vários pingentes expostos.

Chris observou os itens e percebeu que nenhum deles parecia combinar com a Jill. Mas acabou encontrando algo que, certamente, sua irmã adoraria. Claire sempre foi muito fã de objetos artesanais indígenas e sabia que ela adoraria usar um pingente que parecia ser feito exclusivamente para ela. Portanto, ao encontrá-lo em um formato de penas com uma pedra turquesa adornada que lembravam a cor de seus olhos, escolheu para ela aquela peça como um presente, um pedido de desculpas pela briga em que tiveram ao telefone mais cedo.

Enquanto aguardava o troco, de repente, conseguiu localizar um pingente retangular, fino e prata, claramente discreto. Chris o tirou do expositor e viu que o pequeno pingente, acompanhado de um cordão preto, quase sumia no meio de sua mão. Ele achou um presente perfeito para Jill naquele dia, mas ainda faltava um significado, porque se ele a conhecia bem, sabia como os significados eram importantes para ela.

– Vai levar esse também, senhor? – O vendedor expôs enquanto Chris sorria impressionado por ter feito a melhor escolha da noite ao admirar o pingente.

– Dá pra gravar algo nesse aqui? – Chris comentou ao analisar a peça, verificando que havia muito pouco espaço para uma gravação.

– O que quiser que eu grave aí, rapaz... eu farei.

"... talvez agora você possa entender que tem que ser eu. Mas se você me deixar eu entenderei, sim. Te conquistar foi tão difícil. Você é a única."