"De manhã cedo, oito horas em ponto. Vejo o solitário sol de agosto surgir. Digamos que você sabe que irá me mover como só você faz lá fora nos campos. Tal como eu esperei a noite inteira pela manhã bem cedo."
JULHO, 1998
A equipe tática da polícia de Raccoon tinha sido levada às montanhas Arklay, no início do mês de julho, depois de indícios de atividades estranhas naquela área, dias antes do que ficou conhecido como "incidente da mansão". Relatos de visitantes desaparecidos naqueles locais levaram ao encerramento da visitação ao público. Era no início da noite quando os membros dos S.T.A.R.S. tinham sido convocados para atuar nessa investigação de busca e resgate pela primeira vez. Naquele dia, a equipe Alpha seguiu para as regiões mais remotas e perigosas enquanto a equipe Bravo atuava nas áreas de acesso à cidade, em busca de sobreviventes entre os desaparecidos.
Depois de várias horas de investigação no meio da madrugada, Barry Burton foi o primeiro a encontrar um dos corpos e se reconectou com o restante da equipe Alpha que explorava os derredores daquele lugar. Todos eles se reencontraram no ponto indicado e então marcaram aquele como o novo ponto central enquanto aguardavam peritos os alcançarem.
Enquanto marcavam seus próprios mapas e faziam suas anotações, Brad Vickers comentou em privado com o capitão Albert Wesker que preferia ficar vigiando os corpos encontrados até que os reforços chegassem à região. O capitão da equipe, que tinha decidido pela primeira vez marcar presença junto com a equipe nas buscas, deu a tal permissão à Brad apenas com o balançar da cabeça. Ele conhecia muito bem seus subordinados e sabia que Brad era muito amedrontado com a situação em que aquela região se encontrava. Reunindo o time em um círculo, Albert segurava uma bússola.
– Barry encontrou esses corpos seguindo à norte do último ponto em que nos dividimos. Então, é melhor que vá em direção leste agora. Joseph, você segue sem Brad na direção sul. Chris e Jill, vocês seguem para o norte e eu vou sozinho para o oeste. Estamos entendidos?
A voz de Wesker apresentara um tom apelativo. Diferente da fala séria e congruente de sempre, tinha um certo nervosismo ali que apenas foi notado por Chris que não conseguiu esconder sua expressão de desconfiança. Ao perceber a maneira com que Barry olhava na direção leste com desânimo, onde havia um solo irregular e íngreme que lhe custaria uma dolorida perna lesionada, já que tinha seguido por um caminho daquele jeito na última trilha, Chris olhou para Jill e percebeu que ela também notou aquele detalhe nas expressões de Barry enquanto mantinha um rosto igualmente preocupado.
– Wesker, se não se importar, Jill e eu preferimos seguir a leste. – Chris se virou rapidamente para Jill porque tinha decidido por ambos. Jill mostrou-se imediatamente concordante ao trocar olhares com Chris e ele se redirecionou para Barry. – Algum problema em trocar conosco, Barry?
– Nenhum problema. Já estou um pouco cansado para uma trilha inclinada. Á norte, pelo menos sei que o terreno será aplainado. – Barry respondeu enquanto secava o suor de sua testa com o antebraço.
– Façam como quiserem. – Wesker observou Barry agradecendo com expressões a Jill e Chris que lhes retribuíam um olhar satisfeito pelas suas próprias atitudes. – Alguma outra insolência às minhas ordens, Chris... ou já podemos ir?
Enquanto Chris balançava a cabeça em negação, Wesker percebia o silêncio de seu time enquanto encarava com desdém a Chris. O rapaz não parecia se incomodar nenhum pouco com o humor que causou ao seu superintendente. Naquele momento, a equipe começou a se dispersar. Jill animadamente se juntou a Chris enquanto comentava sobre o caminho pelo qual seguiriam.
Wesker tinha colocado Jill como dupla de Chris para ser um problema para ele, já que ambos não se davam muito bem no início. Entretanto, o líder começara a perceber que aquele propósito tinha falhado inconvenientemente. Entre os dois já havia uma cumplicidade exagerada, algo que fez com que Wesker pensasse que os dois tinham encontros pessoais mais frequentes do que apenas no trabalho. Estavam parecendo mais amigos do que inimigos. Até mesmo mais que amigos em algumas ocasiões observadas.
O capitão percebia tudo o que acontecia dentro do escritório e nas últimas semanas, reparou o quão íntimos ambos se apresentavam ali por mais que tentassem não demonstrar isso aos demais. A moça que ele escolheu a dedo para estar naquele esquadrão e que seguia suas ordens diligentemente quando entrou ali, se tornara a moça que sutilmente se afastava de seu capitão para não ter que obedecê-lo como antes. Ela começou a agir com indiferença para com ele, como se tentasse desviar-se para não se sujeitar as ideias que ele propunha para ela.
Outro fato que o incomodava era perceber que Jill começara a apresentar e compartilhar das mesmas opiniões do rapaz na mesa ao lado e que até mesmo trocava mensagens discretas com ele em pedaços de papéis. Mas o fator mais evidente de uma mudança repentina era que ela havia mudado completamente seu visual, porquanto mudou radicalmente seus longos cabelos que viviam presos em coque, optando por um corte acima da nuca. Esses pequenos detalhes enfureciam o capitão silenciosamente por já ter uma noção do que estava acontecendo e odiava saber que aquele embaraço todo era causado apenas por uma pessoa, Chris Redfield.
Barry e Joseph já haviam se dispersado quando Wesker ainda permanecia parado no mesmo lugar olhando em direção ao casal. Antes que a neblina os fizesse desaparecer de sua visão, Wesker começou a segui-los.
– Mais à frente, tem uma passagem que é dividida pelas árvores. Podemos nos separar nesse trajeto e nos encontrarmos mais a frente, já que é bem curto... o que você acha? Chris? Chris... você está bem? – Jill interrogou ao perceber que Chris parecia muito pensativo e desatento sobre o que ela explanava sobre a área ao olhar o trajeto no mapa.
– Sim. Só um pouco cansado. Mas obrigada por esclarecer melhor o trajeto, eu ouvi tudo. – Chris tentou se lembrar sobre o que ela tinha comentado e ao perceber o que ela tinha proposto, ele prontamente indeferiu. – Ah... só que a gente vai seguir juntos, nada de nos separar. Nem que tenhamos que usar mais tempo nisso. Ainda não confio nessa floresta.
– Tudo bem. – Jill assentiu ao notar uma perturbação no tom de voz do homem ao seu lado. – Chris, você ainda continua tendo insônia... sobre aqueles pensamentos que você me contou mais cedo?
– É... mas não é sobre isso que estou ponderando agora. Eu acabei de perceber um detalhe agora pouco e isso me pareceu estranho ou pode ter sido apenas uma impressão.
– Compartilhe comigo. – Jill parou de andar e tocou no ombro de seu colega de time, fazendo-o parar um pouco para encará-la. Chris separou os lábios para começar a contar a ela sobre sua consideração quando sentiu um aperto no peito que o deixou hesitante.
Naquele momento ambos pressentiram a presença de mais uma pessoa ao redor. A dupla prontamente se virou para trás e com a lanterna apontada, perceberam que o capitão os encarava. Se encontrava parado, de braços cruzados a uns dez passos de onde estavam.
– Algum problema, capitão? – Jill foi a primeira a dar passos a frente para se aproximar de seu líder.
– Vocês! – Wesker bradou enquanto a dupla demonstrava confusão. – Não quero mais vê-los juntos. A partir de agora não serão mais uma dupla.
Chris e Jill se entreolharam por poucos segundos, estranhando o que tinha acabado de ter sido proposto. Chris tinha previsto aquilo no início da semana, enquanto observava os olhos desgostosos do líder para ambos enquanto ambos conversavam discretamente sobre assuntos pessoais no meio do expediente.
– Tudo bem. Nesse caso, pra onde eu vou? – Jill estava internamente incomodada por saber que aquela pergunta só tinha uma resposta.
– Você vem comigo. Vou treiná-la para andar sozinha por aí. Vejo o quanto você já está apta para isso e não vai precisar mais de seu antigo... "parceiro". – Wesker pronunciou a última palavra com desprezo ao olhar na direção de Chris, ao perceber que ambos começaram a usar bastante essa palavra nos últimos dias. Ao virar sua cabeça com um sorriso de canto para Jill, ele soltou um sutil riso de deboche. – A não ser que queira continuar sendo um capacho pra Chris e ser usada por ele em suas artimanhas pra sempre.
– Desculpe senhor, mas... Chris e eu trabalhamos com muito respeito um pelo outro. – Jill rebateu rapidamente demonstrando total insatisfação pelo que tinha ouvido. – Sobre isso, o senhor está equivocado e o que diz é improcedente.
– Você está se atrevendo a me corrigir, Valentine? Me parece que estás aprendendo muito bem com seu mentor e essa escolha vai ter consequências. – Wesker se aproximou com passos pesados na direção dela, exibindo sua autoridade e sua irritação pela audácia de sua fala. Ao perceber que Wesker reagia daquela forma ameaçadora com Jill, Chris se aproximou dela por trás, no intuito de mantê-la em segurança, sem quebrar contato visual com seu superintendente enquanto o intimidava com um olhar altivo em proteção à mulher. Ao perceber mais uma vez que estava certo em relação a como aquela dupla se comportava, Wesker logo demonstrou abrandamento em suas expressões, exibindo um sorriso de desprezo para ambos. – A partir de hoje eu quero que você, Jill, seja independente de Chris. Por mais que ele seja o melhor da equipe, não gosto da maneira com que ele age. Não quero que você seja uma cópia dele. Quero que tenha sua própria personalidade. Se depender de mim, um dia você ainda será muito maior e melhor do que ele, se seguir exatamente o que eu digo.
Jill abaixou a cabeça para evitar mais conflito, voltando a se mostrar a pessoa subalterna de antes. Sem olhar para Chris, ela já podia imaginar o sangue fervendo em suas veias para bater de frente com seu chefe, sem poder fazer muito. No fim, Wesker tinha autoridade e ele sempre venceria no final. Por isso, ela tentaria demonstrar concordância de sua parte para que Chris não se preocupasse com sua situação.
– Eu vou com o senhor, capitão.
Jill respondeu ao capitão e se virou para trás. Pedia com suas expressões muita calma para Chris e mostrando-se confiante o suficiente para seguir sem ele, por mais que seu coração estivesse angustiado por saber o quão frustrado ele se encontrava por trás do rosto endurecido. Entregando o rádio que ficava com ela para ele com um rosto apaziguador, Jill trocou olhares com Chris enquanto afagava sua mão por poucos segundos ainda no intuito de tranquiliza-lo, sem deixar com que o capitão que estava logo atrás percebesse.
– Boa sorte sem mim e cuidado por aí. – Jill sussurrou para Chris enquanto deu uma piscadela para lhe passar confiabilidade.
Jill caminhou de volta a Wesker, que apontou para que ela tomasse a frente e assim ela fez, sem olhar para trás. Com um sorriso imponente, Wesker acenou em despedida para Chris enquanto caminhava de costas para observar os últimos minutos de suas reações impotentes. Ele sabia que tinha autoridade sobre ambos e gostava de sempre ganhar naquele quesito. Em seguida seguiu por trás de Jill, correndo até alcança-la.
Enquanto assistia ambos desaparecerem juntos na neblina, Chris teve um mal pressentimento. Wesker finalmente tinha tomado Jill para si e assim seria daquele dia em diante. Por mais que pensasse na possibilidade de segui-los, temendo que Jill fosse prejudicada em toda aquela situação, sabia que agir daquela forma poderia piorar mais as coisas tanto para ela quanto para si.
Chris seguiu sozinho por seu trajeto, sentindo uma solidão que nunca pensou em sentir por causa da ausência da companhia dela, que esteve consigo desde quando ambos ainda eram inimigos. Tinha se acostumado a ela, se apegado a ela. Era difícil apontar uma arma para frente sabendo que não teria ela atrás dele para lhe dar proteção na retaguarda. Sua mente não mais focava em sua missão e apenas se prendia a cada novo minuto nela, temendo e desejando que ela estivesse bem. Sem ele para cuidar dela, ele via sua responsabilidade firmada no mês retrasado sofrer um desgaste e por isso se sentia falho.
Sua mente perturbada somente voltou ao normal depois de vê-la chegar no novo ponto de encontro do grupo para partirem de volta a cidade. Ainda sentia uma fúria incontrolável e visível de Wesker dentro do helicóptero, mas sentia o alivio de saber que a mulher ao seu lado estava bem e tinha retornado em segurança para perto dele. Isso era tudo o que lhe importava no fim do expediente.
DEZEMBRO, 2006
Albert Wesker e Jill Valentine ainda continuavam desaparecidos desde agosto de 2006. Já havia se passado alguns dias desde que a BSAA removera toda a estrutura de busca da região. Entretanto, Chris continuava trabalhando solitário naquela missão todos os dias, explorando a região sem chamar a atenção das autoridades. Ele tinha a missão pessoal de continuar procurando por sua eterna parceira e consequentemente seu maior inimigo.
Em uma manhã invernal de dezembro, o despertador tocou as oito em ponto. Mas os olhos de Chris já estavam abertos enquanto fitavam o forro de madeira do teto. Sua mente reproduzia relances de momentos já vividos de vez em quando, em busca de ânimo para mais um dia de luta. Por isso, alcançou o aparelho e pressionou o botão com desânimo, ponderando sobre se levantar para mais um dia frustrante e infrutífero.
Naquela manhã, desde que acordara, Chris tinha se lembrado de um momento bastante angustiante que sentiu em sua pele. A angústia de ter andado sozinho nas madrugadas das montanhas Arklay em 1998, quando Wesker decidiu encerrar sua parceria com Jill e a mandou explorar a região perigosa e enigmática sozinha. Naquela época, ponderava continuamente onde Jill poderia estar, como poderia estar, se ela precisava de alguma coisa ou se ela voltaria viva à cidade. Foi assim aquele julho inteiro, até o infausto dia em que a encontrou em um súbito temor paralisante no meio da floresta, conseguindo protege-la a tempo de cachorros infectados virem atacá-la e consequentemente chegando até a mansão, aonde suas vidas mudaram para sempre.
Mas aquelas lembranças não o afligiram tanto quanto Chris se encontrava naquele momento. Ele se encontrava em uma posição muito pior aquela. Não conseguira proteger sua parceira o suficiente, ainda acabou perdendo-a de vista. Não sabia como ela estava ou onde estava e nem sabia como recuperá-la de volta. Sua nova realidade era o pior cenário de todos os que já vivera certamente e aquilo não lhe dava nenhum ânimo de continuar vivendo. Mais um dia em sua vida era menos uma chance para continuar vivendo.
A claridade nublada começara a entrar no quarto por volta das oito enquanto o vento da madrugada deixava de uivar do lado de fora. O quarto do hotel em que se hospedara, numa pequena cidade interiorana próximo a região onde Jill estava desaparecida, era bastante acolhedor. As pessoas ao redor moravam em uma espécie de povoado e apenas aquele hotel parecia ter contato com o mundo exterior contemporâneo. Elas falavam o dialeto local, mas todos eles eram ensinados a falar o inglês desde crianças, devido aos primeiros moradores daquela povoação terem sido povos advindos da época de exploração marítima da Inglaterra. Chris se perguntava se aquela era a causa de Spencer, que era britânico, ter se instalado ali.
Ao se sentar na cama com os pés no chão, acendera o abajur para uma melhor nitidez. Administrou seus medicamentos receitados, como analgésicos, anti-inflamatórios e ansiolíticos e os ingeriu com a ajuda de um copo d'água. Eram remédios para as dores nas costas e nas pernas por andar diariamente por um relevo inconstante com uma mochila pesada, além dos que o ajudavam a manter um controle mental sobre sua iminente depressão e desespero. Tudo aquilo valeria a pena se acabasse por encontrar sua parceira.
Com sua mochila nas costas, passou na recepção do hotel para pegar a chave da caminhonete que alugava diariamente. No ambiente rústico e escurecido pelos detalhes em mogno e vinho daquele saguão, pode notar que o brilho do sol invadira o ambiente naquela manhã. Já fazia um bom tempo em que ele não via a luz dos raios de sol.
Enquanto se distraía com aquela visão, a senhora que era responsável pela cozinha surgiu e entregou a Chris sua trouxa de comida diária. Ela, outrora sempre quieta, finalmente conversou com ele dizendo que naquele agrado havia um adicional especial para enche-lo de esperança em sua caçada diária. Ele recebeu agradecendo-a, sem entender o porquê daquele pronunciamento exatamente no dia em que o desânimo corroía sua mente e destruía gradativamente suas expectativas.
Chris entrou no veículo e seguiu estrada em direção aos penhascos rochosos. Enquanto trafegava pela via silenciosa e vazia, passando por entre árvores altas e pontes sobre lagos quase congelados, a música era sua melhor companhia. Já tinha feito uma cópia das músicas que estavam em seu iPod e eram elas que o acompanhavam até grande parte do trajeto diário.
Ao escutar um clássico do Bee Gees, pode projetar uma Jill ao seu lado no banco do carona, que com os indicadores erguidos, seguia as batidas de uma de suas músicas favoritas. Podia se lembrar de todos os trejeitos dela enquanto se encontrava ali no banco de carona, fazendo de seus dias cansativos e angustiosos um pouco mais divertidos.
Recordava as vezes em que ela o distraia comentando um pouco sobre o que extraia de bom dos livros que costumava a ler e das noticias que sempre costumava a acompanhar ou quando o alimentava no meio da estrada, sem fazer com que ele tirasse a atenção do volante. Pode lembrar das vezes em que a pegava distraída ou melancólica e era só colocar uma mão sobre a coxa dela enquanto dirigia e então a via fazer uma careta maliciosa ao perceber que ele subia sutilmente suas mãos até o meio das pernas dela para atiça-la enquanto ela o tapeava para impedir a intimidade iminente. Se lembrava também de sentir o toque tépido da palma da mão dela em sua nuca enquanto o acariciava e massageava aquela área, fazendo-o relaxar enquanto dirigia.
Ao mesmo tempo em que as recordações eram deleitosas, sentia um calafrio de angústia ao perceber que encararia mais um dia de busca e resgate sem Jill ao lado como sua parceira. Era como uma missão em que ela não pudesse acompanha-lo. Mas a realidade cruciante era saber que o objeto de resultado daquela missão pessoal era justamente a Jill, a pessoa a quem ele jurara e brigava para nunca mais sair de perto desde que quase a perdeu no Queen Zenobia no ano passado. Esse fato estava o enlouquecendo desmesuradamente.
Esmurrando freneticamente o volante em alta velocidade, Chris tentava descarregar todo o furor da culpa que tinha de si mesmo por ter permitido uma situação sem solução ao tê-la arriscado daquela forma. Ao perceber que aquela atitude não ajudaria em nada, apenas reduziu a velocidade até parar o veículo e encostá-lo na margem da estrada. De repente, o som da voz dela apareceu novamente no alto-falante do veículo, fazendo-o ouvir atentamente. Em seguida, veio a música que ela gravou para ele. Por conseguinte, ele encostou sua testa no volante e deixou lágrimas escorrerem silenciosamente. Com isso, a dor em seu peito ia passando gradativamente e sua mente se acalmava porque a melodia atuava como alívio instantâneo necessário para suas amarguras, como se pudesse sentir o calor da palma da mão dela sobre sua nuca e suas costas. A música dela sempre tinha esse efeito. Ao se acalmar, passou sua mão sobre o volante molhado para secá-lo e ligou o carro para seguir viagem.
– Eu não vou desistir de te encontrar, Jill. – Chris olhou para a estrada com determinação e voltou a repetir a playlist.
Chris já tinha refeito sozinho todo o percurso que as equipes já haviam desbravado e já estava muito próximo ao riacho que sempre quis explorar. Ele acabou descobrindo vários atalhos por estradas de chão e já tinha decorado todo o mapa daquele lugar em sua mente. A neblina começava a sumir mais cedo naquele dia, porque o sol aceitara aparecer dentre aqueles dias inteiramente nublados.
Prendendo a mochila em suas costas e com armas e munições em seus bolsos, deixou o veiculo próximo em à área de acampamentos e seguiu com sua bússola em direção às águas. Caminhava floresta adentro até localizar as margens do riacho. Ao se encontrar ali perto, começou a traçar um caminho mental de volta ao penhasco, enquanto observava atentamente os detalhes ao redor, sem ir muito distante do riacho.
Depois de uma caminhada frenética por um longo percurso, já podia sentir o ardor de suas pernas. Olhou para o relógio em seu pulso e observou que já estava no meio da tarde, mas ainda não tinha comido nada e por isso sentia tontura. Assim, procurou um bom lugar para se instalar em um pequeno intervalo, onde tinha uma visão bonita do córrego, escutando o som natural das águas. Sentado em uma pedra, admirava aquela paisagem enquanto degustava da marmita.
Aquele lugar bonito inesperadamente começou a acalmar naturalmente seu coração corriqueiramente aflito. Sentindo a boa energia que aquele lugar trazia para sua mente, Chris assistia a simplicidade do correr das águas e a música agradável que ela ressoava. Gerava nele uma mesma sensação de ouvir das batidas das teclas do piano em que Jill tocava enquanto se sentia inspirada e enchia o lar de tranquilidade e calmaria depois de um dia de expediente extenso e difícil. Era agradável adormecer ouvindo o som que fluía pelo ambiente porque sabia que se havia som de teclas em casa, ele sabia que Jill estava por perto.
Aos poucos, Chris percebia como a presença dela era fundamental para todos os momentos e sentiu gratidão por tê-la por perto em todos os últimos anos. Fazia exatos dez anos em que eles se conheceram em Raccoon, mas foi a poucos minutos de 1999 em que ambos tomaram uma independência de vínculos corporativos e se aliançaram apenas como um duo. Mesmo com todos os percalços, desde o dia em que saiu da Mansão em Arklay e perdera tudo o que tinha planejado para sua vida futura, apenas uma coisa conseguiu levar junto a ele: a garota que ele mais confiava. Jill nunca saiu do seu lado um dia sequer, nos melhores ou nos piores momentos. Não porque Chris a impôs ou porque era vital para ele tê-la. Era uma opção que ela escolheu para si porque se sentia no compromisso de cuidar dele como ele a cuidava. Jill levou esse pacto muito a sério quando perdeu sua vida naquela causa.
Admirando aquela paisagem, ele se perguntava se Jill tinha colocado um fim em Wesker daquela forma para que ele encontrasse a tal da tranquilidade que sempre almejou para que enfim pudessem viver bem e longe da ameaça que Wesker lhe fez ainda em 1998. Mas isso nunca valeria a pena porque daquela forma, ele acabaria por viver sem a principal causa de toda sua dedicação em render e derrotar seu inimigo, que era precisamente ela. Antes que abrisse aquela porta dos questionamentos que não tinham respostas, percebia aos poucos que o sacrifício dela ganhava sempre novas interpretações. Mas em todas elas, Chris se sentia culpado e isso o irava silenciosamente.
Ao pensar na possibilidade atual de que teria um futuro sem ela nos próximos anos, sem suas opiniões sarcásticas, suas palavras motivacionais ou mesmo seu abraço aquecedor nos dias frios e difíceis, nada mais fazia sentido. Chris se sentia abandonado, desnorteado sem ela. A presença dela sempre foi um propulsor para o que quer que ele tivesse que enfrentar. Sem ela, tudo parecia pessimamente mais difícil. Ele se sentia preso na floresta de Arklay em 1998 outra vez. Estava em uma floresta igualmente sozinho, sem ela, como no dia em que Wesker os separou no meio da floresta de Arklay. Mais uma vez, Wesker arrancara brutalmente Jill de perto dele, já que foi a causa de toda aquela realidade fatídica. Era como se o tempo todo ele visse seu ex-capitão com aquele sorriso desprezível de vencedor que fizera quando levou Jill com ele floresta adentro.
Antes que sentisse a desmotivação causada pela derrota e antes da melancolia dos arrependimentos dominá-lo, decidiu que era hora de voltar a sua caminhada. Suas pernas já tinham descansado o suficiente para continuar uma nova longa jornada. Enquanto guardava a louça que usara para comer, encontrou um pacotinho naquela trouxa. Ao abri-lo, tirou dali um pequeno biscoitinho seco se lembrando da cozinheira. Ao mordê-lo, sentiu um gosto diferenciado e ao remove-lo de sua boca, pode perceber que dentro dele havia um papel maleavelmente plastificado.
– O dia em que o sol aparece em pleno inverno, há sorte no campo.
Chris leu em voz alta se lembrando da mulher que lhe entregou da comida. Ainda se perguntava porque ela tinha se tornado um significado de otimismo em sua mente de repente. Ele não acreditava mais em sinais ou indícios para se deixar levar por aquelas doces palavras, infelizmente.
Ainda entretido com o papelzinho enquanto mastigava a pequena bolachinha já de pé, escutou um barulho estranho distante dali. Era na mesma direção em que seguia. Com aquele sinal, Chris prontamente se preparou para seguir o som. Ele tirou uma faixa vermelha do bolso, que usava para marcar os locais na qual já passara, e vendou seus olhos por um breve momento. Ficou parado até que o som aguçasse sua audição o suficiente para seguir na direção certa. Desvendando-se, amarrou a faixa em uma árvore e começou a seguir seu trajeto. Em seu peito, começou a arder uma esperança, algo que ele tinha racionalidade pra compreender que poderia se frustrar, mas ao mesmo tempo, lhe dava uma ilusão realista de poder encontrar a mulher que buscava se seguisse naquela direção. Quanto mais se aproximava, mais percebia que o barulho era na verdade um eco de algumas supostas batidas. Minutos depois as batidas pararam e ele teria que seguir sua intuição dali em diante.
De repente, seu computador de bolso passou a notificar sobre uma frequência de rádio. Ao posicionar seu headset em sua cabeça, pode ouvir um chiado de sinal sem limpidez. Visualizando a tela do aparelho, o sinalizador de rádio mostrava de onde o sinal vinha e ele não hesitou em persegui-lo, já que era na direção das batidas em que tinha ouvido.
De longe pode visualizar que no meio da floresta, em uma área plana e vazia, havia um pequeno chalé aparentemente abandonado. Seguia em direção àquele lugar, com uma das mãos sobre sua pistola repousada no coldre da cintura. Chegando mais próximo, rodeou por em volta do pequeno abrigo e pode encontrar uma porta de entrada, deteriorada, mas funcional, com correntes e um cadeado. Na frente da casa, havia uma pequena churrasqueira com brasas ainda acesas. Haviam troncos de madeira em forma de assentos com um cooler ao lado. Chris caminhou até o armazenador e notou que ali haviam algumas bebidas e que elas estavam em uma boa temperatura para consumo. A fogueira localizada no centro dos troncos estava apagada e sem madeira o suficiente para acendê-la.
Olhando o mini computador novamente, Chris entendeu que o rádio identificado ali se localizava dentro do chalé. Por isso, verificou as janelas em estilo guilhotina e as encontrou vedadas e parafusadas com madeiras. Uma delas, porém, se encontrava maleável. Era só forçar um pouco para cima que ela se abriria. Chris não pensou muito e ao executar isso, colocou sua mochila para dentro da casa e passou pela janela.
Chris se desvencilhou dos aparelhos que usava, guardando-os dentro da mochila e a deixou próximo a janela. Se admirou ao observar que do lado de dentro daquela casinha, tudo estava bem organizado, embora se utilizasse de uma lanterna para clarear o ambiente parcialmente escuro. Passando os olhos ao redor localizou um fogão a lenha, armários e uma mesa onde provavelmente era uma área de cozinha.
Do outro lado havia um simples sofá próximo a uma lareira e uma cama de ferro de solteiro, como as que dormia no acampamento e sobre ela tinha uma mala. Ao pé da cama se encontrava uma escrivaninha. Ali encontrou aparelhos eletrônicos de rádio, um laptop e um aparelho de som. O laptop estava com a tela erguida, embora desligado. Lateralmente, alguns papéis impressos com informações sobre a região.
Verificando os papeis com clareza, pode encontrar um mapa dobrado da região. Ao estuda-lo, observou as marcações de pontos estratégicos da área, como se o dono daqueles itens estivesse na mesma busca que ele. Em seguida, seus olhos localizaram uma pasta sanfonada e ele prontamente procurou por mais informações sobre a tal pessoa que estava ali. Ao analisar paginas de relatórios, percebeu que o papel timbrado revelava a origem dele. Seus olhos arregalaram ao entender que aquele relatório pertencia à BSAA.
Naquelas folhas estavam um resumo final das buscas da BSAA pela agente especial Jill Valentine. Institivamente, Chris tentou ligar o laptop, sem sucesso. Com isso, localizou um cabo de energia conectada à lateral do aparelho e seguiu a fiação. Achou um pequeno gerador escondido dentro dos armários de pé da cozinha. Ao ligá-lo, o chalé se iluminou. A fraca luz das luminárias de parede já conseguiam estabelecer uma boa visão do ambiente e ele se livrou da lanterna. Nisso, a tela do laptop acendeu e Chris correu até ali.
Na tela, a imagem projetada era um login de um programa off-line da BSAA. Ainda não tinha identificado a pessoa que residia naquele chalé. Portanto, analisou os papéis da pasta rapidamente e encontrou apenas um dos cartões de acesso do prédio do QG da Europa com a numeração de cadastro da suposta pessoa que estava instalada ali e nele não havia foto nem nome. Ao digitar como login a numeração encontrada no cartão, colocou ali a senha universal para todos os programas da corporação, já que tinha a exclusividade dela por ser um membro fundador.
Com os papéis que esparramou sobre a mesa ao procurar saber quem estava ali, Chris localizou, por baixo de umas folhas, um punhado de fotos que o deixou impressionado. Havia uma foto de Jill tomando um café com croissant. Em seu verso que dizia "Um café francês em plena Itália". A letra da foto não pertencia a Jill.
Em outra foto, Jill posava usando um chapéu em um ambiente cheio de plantas e no verso estava escrito "Uma flor em seu habitat natural. Essa garota realmente gosta de plantas". Em uma terceira foto, Jill se encontrava deitada sobre um tapete enquanto folheava o que parecia ser fotos antigas e a legenda era "Jill vive vasculhando meus antepassados. Por que ela é tão curiosa?".
As fotos presas em suas mãos demonstravam uma intimidade que até então só Chris achava que tinha com Jill. O ciúme batia forte nele ao processar a nova informação sem chegar a uma conclusão sobre aquela pessoa. Se perguntava quem poderia ser aquela pessoa, enquanto seu sangue borbulhava e esquentava seu corpo. Podia sentir o suor de sua pele mesmo estando em um ambiente frio e com isso, removeu o casaco que usava, jogando-o sobre sua mochila. Voltando-se as fotos apresentadas, mesmo com sua mente pedindo para não continuar assistindo aquilo, que era uma tortura para sua mente, insistiu em observa-las enquanto o aplicativo ainda não mostrava os dados da tal pessoa, já que a tela ainda apresentava sinais de carregamento.
Em uma quarta foto havia uma imagem de Jill onde ela se encontrava tomando chá, usando casaco amarelo. Ao perceber que sabia o que tinha dentro do copo, Chris se lembrou desse dia como se ele estivesse ali também horas depois. Realmente, Chris tinha chegado naquela estação em uma cidadezinha na Suécia onde combinou com Jill de investigar por conta própria um cientista europeu, ex-funcionário da Umbrella, chamado Lennart Kreestin. Por isso, solicitou a presença de Jill para aquela incumbência, que arrumara uma desculpa para uma ausência temporária a fim de encontra-lo ali. Concluíram então que o cientista realmente era um homem de boa índole que tinha deixado a Umbrella de lado assim que soube de seu envolvimento no "incidente de Raccoon" e que já trabalhava em uma universidade na Austrália naquela época.
Olhando aquela foto, Chris se lembrou que tinha perdido contato com Jill aquele dia inteiro, já que seu telefone estava falhando desde seu último encargo que causou todo o atraso. Acabou por chegar atrasado naquela cidade por ter que ir ao encontro de Jessica, que tinha se metido em problemas ao tentar investigar sozinha uma suspeita de compra de material biológico ilegal em filial de uma indústria química na Estônia. Segundo Jessica, ela queria mostrar que sabia atuar sozinha tal como Jill também atuava quando lhe era solicitado para mostrar suas aptidões para a alta cúpula da BSAA. Portanto, quando Chris chegou a Estocolmo, teve de tomar um trem horas mais tarde para Karlskrona. Acabou encontrando Jill adormecida na sala de desembarque da estação com o mesmo copo da foto quase vazio em suas mãos.
O autor da foto estava com ela minutos antes de ele a encontrar naquela estação e somente poderia ser uma pessoa. Sentindo um alívio por já imaginar quem era o tal homem, olhou no verso da foto. "Trouxe Jill para Karlskrona em segurança. Ela estava aflita porque Chris nunca chegava. Tive que partir e deixá-la sozinha por causa do horário do meu voo de retorno, então comprei um chá para acalmá-la. Ela nem sabe que tomava um calmante natural. Tomara que não isso não tenha atrapalhado seu encontro com seu verdadeiro 'parceiro'".
Chris esboçou um sorriso restrito com a lembrança e naquele momento, o barulho das correntes na porta do chalé indicava que em poucos minutos se depararia com o dono daqueles pertences enquanto a tela do laptop ainda mostrava o carregamento de dados. Mesmo assim, temendo qualquer outro invasor, ele tomou a pistola em mãos e ao destravá-la, apontou com a mão direita para a entrada cautelosamente por segurança, mantendo as fotos na mão esquerda. A porta se abriu abruptamente e um rosto muito familiar demonstrou assombro por sua presença ali.
– Chris!
– Parker!
x.x.x.x.x
Depois que Chris abaixou sua arma e a guardou, a tela imediatamente revelou que os dados pertenciam a Parker Luciani. Chris olhou para a última foto e pode encontrar uma foto de Jill acompanhada de Parker.
Parker se encontrava trajado com roupas aquecedoras e sua barba estava bem cheia. Sua reação primaria foi olhar em direção à janela violada, lamentando ter deixado ela vedada com poucas madeiras ao mesmo tempo em que agradecia por saber que o invasor era um amigo. Ao questionar o que Parker fazia naquela área, Parker devolveu a Chris a mesma pergunta, se referindo aquela invasão de propriedade, por mais que demonstrasse não se importar com a invasão ao rir da situação. Enquanto Chris se desculpava por ter invadido o local, Parker se desculpava por ter se preparado para receber uma visita.
Chris acabou por comentar com ele que tinha sido o rádio o trouxe até o chalé, ao explicar a causa de sua invasão. Confessou a Parker que era uma surpresa saber que ele ainda se encontrava por ali quando todas as equipes de busca da BSAA já tinham partido. Parker lhe disse que já esperava encontra-lo por ali alguma hora, já que se o conhecia bem, sabia que ele não desistiria facilmente de sua parceira de longa data.
Ao questionar os motivos de Parker para se encontrar naquela região, Chris descobriu que Parker se sentia na responsabilidade de procurar sua amiga porque também foi contra o encerramento das buscas. Portanto, pegou suas férias de inverno para continuar aquele trabalho. Parker também alegou ter um grande apreço pela Jill e pelos bons tempos em que passaram juntos em parceria de trabalho. Ele se lembrava muito bem das palavras que Chris lhe disse quando começou a trabalhar com Jill. "Cuide bem dela como se fosse eu ali." Ao comentar sobre essa frase com Chris, desbloqueou aquela memória já esquecida dele.
Chris sabia muito bem sobre o bom relacionamento que Jill tinha com Parker. Ele tinha sido seu substituto quando O'Brien pediu para que eles se separassem para instruir alguns novatos para operações especiais e então se tornou o melhor amigo que Jill poderia ter ganhado depois de anos.
A personalidade brincalhona e a maneira com que ambos interagiam era muito agradável, diferente de sua interação com Jessica que era uma sessão de desconforto atrás da outra. A fotos, onde sentira uma pontada de ciúme, na verdade era um reflexo bom de uma boa época da vida de Jill. Chris era grato a Parker por ter sido um "cavalheiro" para ela, tal como Jill o descrevia para ele. Além das incontáveis vezes onde Parker sempre deu total liberdade para que, de vez em quando, ambos pudessem trabalhar juntos sem nenhum impedimento ou despeitos como reparava nas atitudes petulantes de Jessica.
Depois de ajudar Parker a trazer suas sacolas de juta para dentro, onde se podia ver em seu topo algumas madeiras cortadas, posicionou o saco próximo à lareira. Ao bater com uma mão na outra para limpá-las, Parker finalizou seu trabalho e forçou um otimismo por detrás do cansaço, dizendo que tudo aquilo valia a pena no intuito de encontrar Jill.
Chris se admirou com a atitude do antigo parceiro temporário de Jill. Ao olhar ao redor, vendo todo o esforço que ele também fazia ao se hospedar temporariamente naquele local solitário para encontrá-la, revigorou toda a vontade e a esperança de encontrar sua eterna parceira, por mais que sua mente já enxergava a pior hipótese e a que mais temia vivenciar. Foi bom ter tido a noção da importância da Jill em outra pessoa. Era bom saber o quanto ela era ainda estimada. E se perguntava como que ainda não tinham encontrado ela ainda depois de tanto esforço.
– Você está fazendo tudo isso aqui por ela?
– Isso é o mínimo comparado ao que você já vez. – Parker debochou de si mesmo. – Você moveu a maior tropa de busca e resgate da corporação para ela. Três continentes unidos e um quartel inteiro para encontrá-la. Além de ter conseguido uma instalação de primeira classe para as equipes de busca na região mais inflexível do mundo. Se não deu certo, não foi por falta de tentativa. Eu acredito que teria feito o mesmo por você.
Parker se aproximou do homem, com uma expressão de admiração e orgulho enquanto aquelas palavras o confortavam. Chris assentia forçando um sorriso ao perceber o quanto já tinha se esforçado naquele propósito. Porque sentia uma pequena frustração por não ter atingido seu objetivo. Tudo ainda estava sendo em vão. Porquanto andasse em círculos em relação aquele projeto inconcluso, apenas sentiria o vazio de não conseguir ter feito o suficiente.
– Venha aqui fora, sente-se aqui um pouco para relaxar. – Parker o convidou se dirigindo para fora do chalé com uma garrafa e um isqueiro. – Vou acender a fogueira.
Ambos se sentaram do lado de fora sobre seus respectivos troncos. Parker examinou o cooler e tirando uma lata de cerveja dela, a ofereceu ao visitante. Chris agradeceu enquanto seu polegar levantava o anel da tampa. Ambos podiam escutar o barulho natural dos pássaros e o balançar das árvores que permaneciam perenes mesmo próximo ao inverno enquanto degustavam da cerveja de boa qualidade.
– Como tem andado? Já faz um bom tempo em que nos falamos.
– Ainda não sei como responder essa pergunta. Ainda estou tentando assimilar o que aconteceu. Ainda é difícil para mim acreditar que esse pesadelo está acontecendo e a cada dia que passa, a frustração aumenta. É difícil imaginar qualquer cenário bom advindo disso.
– Posso imaginar. Todos os dias eu me pergunto como que isso pode ter acontecido. Fomos todos pegos de surpresa pela fatalidade. Jamais imaginaríamos que uma investigação, onde aparentemente vocês já tinham tanta experiência em lidar, fosse acabar de maneira tão intempestiva. – Parker comentava demonstrando perplexidade.
– Exatamente. Era para ser apenas uma investigação plácida. Podíamos esperar de tudo como sempre, menos rever Wesker naquela noite dentro da mansão, quando estávamos completamente despreparados. E o resto você já sabe. – Chris tomou mais um gole da bebida enquanto sua mente remontava as peças sobre o acontecido. – Eu devia ter notado isso no primeiro corpo que eu vi ali trucidado e nem me dei conta do perigo iminente. Se tivesse uma pequena pista de que Wesker estava ali, nunca teria levado a Jill comigo. Eu a arriscaria demais enfrentando o desgraçado ao lado dela quando sabia do potencial dele. Ele certamente poderia usá-la como uma espécie de chantagem barata, como já tinha feito antes em outras oportunidades.
– A Jill me explicou sobre isso uma vez quando falou sobre o passado de vocês. – Parker se lembrou das vezes em que Jill confessava temer por Chris ao se encontrar longe dele caso o ex-capitão deles tentasse uma nova retaliação. – Ela sempre pedia informações sobre você. Sabe... onde você estava ou onde estava atuando. No início, eu achava que era por uma questão de obsessão ou ciúmes. Com o tempo, pude perceber que era o cuidado que ambos prometeram um com o outro quando tudo isso começou para vocês. Isso era admirável entre vocês. – Parker colocou a lata vazia de sua mão no chão e a pisou com força para descarta-la em seguida. – No fim, Jill acertou mais uma de suas previsões. Só não esperava esse desfecho desafortunado.
Chris assentia enquanto tomava da bebida para esconder a vontade que tinha de se lamentar. Em seguida, suspirou profundamente erguendo a cabeça para os céus para murmurar mentalmente sobre seu estado, como costumou a fazer. Ao tomar conhecimento das novas informações que Parker lhe disse, sentiu seu peito arder, ansiando por tê-la de volta para que ele pudesse cuidar dela da mesma forma que ela sempre fez a ele mesmo não estando junto a ele. A realidade agora era cruel porque a culpa de não a ter encontrado ainda o conturbava. Chris pensava que se os papéis fossem invertidos, ela já teria encontrado ele. Por isso, se sentiu inábil e sentiu desprezo de si por ter deixado tudo aquilo acabar da pior maneira possível.
Ouvindo o derramar do líquido inflamável da garrafa sobre a madeira organizada em pilha, que Parker trouxera ao chegar ali minutos antes, Chris voltou sua atenção para o anfitrião que lidava sozinho na fogueira no intuito de acendê-la. Enquanto organizava as pedras em volta da fogueira, Parker notou que Chris já tinha voltado de seus pensamentos.
– Até quando pretende manter sua trilha por aqui?
– Não tenho data de retorno. Meu intuito é sair daqui apenas se eu a encontrar.
– Justo. No meu caso, terei que voltar à Inglaterra assim que meu período de férias expirar. É um alívio saber que não vai desistir dela.
– Eu quero ao menos ter a oportunidade de lhe dar um funeral digno, caso ela... enfim. Não quero aquele título hediondo de morta em combate ou presumidamente morta já que ela ainda não foi encontrada. Não seria justo com ela. Não depois de tudo o que ela fez. – Chris pausou sua fala ao refletir sobre a ira que sentia do suporte que não tinha mais da organização na qual Jill sempre prezou. – É sempre mais fácil enterrar um caixão vazio. Confesso que esperava mais da BSAA. – Chris riu em escarnecimento.
– Eu compartilho do mesmo pensamento. Quando vi as equipes montadas aqui, achei que tudo acabaria de uma forma eficiente. Não é possível que já estamos em dezembro... isso é frustrante. – Parker já observava a pequena chama de sua fogueira tomando forma. – Isso acaba por me despertar algumas outras hipóteses sobre o continuado sumiço. Eu leio os relatórios toda hora e estou começando a ponderar sobre minhas próprias teorias.
Parker percebeu que a atenção de Chris, sobre o que ele dizia, era atenta. Se sentia inseguro de se abrir sobre aquele assunto pessoal com a pessoa mais afetada de toda a tragédia. Tinha receio de acabar complicando a mente do homem, mas ele estava com as sobrancelhas arqueadas em interesse, tal como seus olhos demandavam uma continuação do assunto levantado.
– Estou ouvindo...
– Bem, antes de qualquer coisa, tudo é uma questão irreal até que se prove o contrário. Não leve tão a sério porque não se tem comprovação...
– Não temos nenhuma comprovação até agora, Parker. – Chris o interrompeu. – Já estou acostumado com as incertezas... o que é mais uma nesse rolo todo?
– Está bem. Vamos supor que exista uma problemática kafkiana nisso tudo. Albert Wesker, outrora descrito pela Jill como um ser detentor de uma força sobre-humana, pode ter sobrevivido a queda por esse motivo. Caso essa hipótese esteja certa, ele poderia tomar apenas duas decisões sobre a mulher que tentou conduzi-lo até a morte. A primeira dedução seria abandonar seu corpo sem vida, o que não me parece ser realidade, já que não a encontramos até agora.
Parker parou uns segundos ao perceber que Chris parecia ter entrado em um estado de contemplação intenso ao olhar fixamente para a chama. Na mente de Chris, uma porta que ele tentava bloquear o tempo todo estava se abrindo ao escutar aquelas palavras de Parker. Para ele, ainda era difícil criar teorias ou mesmo escutá-las porque isso despertava uma ira intensa sobre tudo o que lidava e para não enlouquecer, tentava evitar aqueles raciocínios. Por mais dolorosa que fossem escutar aquelas palavras que corroboravam sua maior derrota vital, ele queria escutá-las para finalmente organizar sua mente bagunçada há quatro meses. Ele teria que encarar todas as possibilidades para saber o que fazer em seguida. Por isso, olhou para Parker ao notar a ausência de sua voz e sinalizou para ele continuar suas hipóteses. Hesitante, Parker decidiu continuar.
– A segunda é que ele possa ter se aproveitado da situação para levá-la consigo. Como uma forma de mandar uma mensagem através disso. Principalmente para você. – Parker observou que o olhar, outrora contemplativo de Chris, se transformou em um espanto, como se pudesse se situar finalmente em um cenário mental com as hipóteses levantadas. – Mas claro, todas as informações que tenho sobre Wesker era tudo o que a Jill me falou sobre, então posso estar equivocado nisso tudo...
– Não! Na verdade, você está bem plausível em relação a isso, Parker. É exatamente assim que o miserável trabalha.
Chris ainda não tinha conversado com ninguém sobre o assunto, mas tinha convicção que a teoria levantada era de fato bastante presumível. Outro fato era que ele não queria acreditar que aquilo estivesse acontecendo daquela forma. Os olhos castanhos esverdeados admiravam a fogueira enquanto uma lucidez abria novos caminhos de pensamento em seu intelecto.
– Se isso for verdade, Parker. Eu prefiro que... eu prefiro que ela já esteja morta. Não consigo imaginar por um segundo que ela viva sob domínio dele. Eu nem saberia onde ir para resgatá-la. Mas... se agora isso for real e por isso ela ainda estiver viva... – Chris pausou sua fala ao sentir um mal estar e uma tontura e apoiando seus cotovelos sobre os joelhos, prendia as mãos sobre sua cabeça em aturdimento. – ... mais do que nunca, eu preciso encontrá-la por aqui, para não começar a pensar o pior.
Parker assentiu sentindo o peso das palavras de Chris e a tristeza refletida em cada sílaba. A fogueira já parecia aquecê-los naquela hora. O silencio do homem angustiado que ainda se mantinha cabisbaixo fazia Parker se sentir culpado. Com isso, tirou do bolso interno do casaco um estojo de metal. Ao abri-lo, encontrou seus charutos importados e escolheu um para acender, pensando em oferecer outro ao convidado.
– Aceita um agrado? – Parker estendeu o item.
– Não é necessário. Estou tentando me livrar do cigarro. – Chris balançou a cabeça em agradecimento enquanto assistia Parker girar o charuto sobre o mesmo isqueiro que usara para acender a fogueira.
Desde que Jill tinha sumido, Chris se apegou ao vício novamente e estava em descontrole sobre ele, mas Claire aos poucos tentava convencê-lo a não se apegar tanto no cigarro para que ele tivesse saúde suficiente para ainda trabalhar em sua busca por Jill, mesmo com seu estado debilitado.
– Entendo. Sabe quem detestava o cheiro do meu bebê aqui? – Parker analisava o charuto aceso preso entre o dedo indicador e o médio.
– Ela odiava até mesmo cigarro. – Chris referenciava Jill e aquela observação como uma boa lembrança o acalmou por um instante. – Qualquer cheiro forte gerava ânsia de vomito nela... de gasolina à nicotina. Seu olfato sempre foi muito sensível. Foi por causa dela que eu me desapeguei do cigarro e também passei a tomar banhos com frequência. – Chris comentou com um sorriso tímido enquanto Parker se mostrava mais surpreso ao saber um pouco mais do relacionamento deles. Antes que o silêncio perdurasse novamente, Chris analisou a estrutura externa do chalé. – Como arrumou esse chalé? Ele me parece bem localizado aqui, próximo ao riacho.
– Enquanto lidávamos com as buscas, eu conheci o proprietário que usa essa casa em época de caça. Peguei o contato dele, no intuito de, na pior das hipóteses, precisar de um abrigo por aqui. Com a evasão das instalações, eu contatei o dono e ele me cedeu o espaço. Quando eu voltar a Inglaterra, posso pedir para ele mais tempo de uso. Aí você pode se instalar por aqui, se quiser.
– Seria uma boa, agradeço a proposta. Não tenho planos deixar esse lugar ou de voltar a trabalhar enquanto não a encontra-la. Até mesmo se a encontrar sem vida, nada será como antes. Eu só queria ter uma certeza sobre ela, mas nem isso tenho. Então, minhas alucinações ficam brincando comigo. De alguma forma, algo no meu subconsciente ainda acredita que ela vai voltar pra mim, sabe?
– Sei, como sei. – Parker removeu o charuto dos lábios com um olhar instigador. – Longe de mim ser um panglossiano, mas já que citamos algumas hipóteses, tem uma coisa que fica atiçando minha mente, uma terceira via. – Parker olhou ao redor soltando um suspiro. – Eu acho que a Jill sobreviveu e anda perambulando por aí. Por isso nunca conseguimos encontrá-la. Porque ela fica de movendo de um canto pra outro. É a única explicação para não termos encontrado ela por aqui depois de tantos meses, claro, se aquela segunda hipótese não for a verdadeira, pra nossa infelicidade.
– Compartilho do mesmo sentimento. – Chris olhou ao redor instintivamente enquanto escondia a apatia. – Toda vez que eu fico perambulando por aí em busca dela e ouço algum barulho na mata... parece que se eu seguir esse barulho, vou acabar encontrando-a. No fim, já encontrei de tudo e ainda nenhum sinal dela.
– Então cara... de alguma forma eu tenho essa mesma impressão. E sabe no que me embaso para essa teoria? – Parker tomou a atenção do colega de trabalho. – Você sabe mais do que ninguém das habilidades daquela mulher. E por causa disso, penso que ela tá viva, perambulando por essa floresta, matando ursos com as próprias unhas, caçando peixes com os dentes enquanto mora em uma casa de pau a pique que ela fez sozinha pra se abrigar do frio. A Jill sabe sobreviver aos extremos e eu sei que ela, justamente ela, poderia dar conta desse tipo de sobrevivência com tranquilidade.
– Eu sei que ela daria conta sim. – Chris soltou um breve riso enquanto olhava para a fogueira. – O que eu não daria para que essa fosse a realidade. Adoraria encontrá-la bem por aí.
Chris suspirou enquanto sua mente começava a projetar a imagem da mulher fazendo exatamente o que tinha acabado de ouvir. Isso fez com que ele esboçasse um curto sorriso de canto embora seu lado racional fosse totalmente descrente daquela utopia.
– Tudo o que eu mais queria era poder topar com uma Jill que não toma banho há dias, com os cabelos maltratados e com roupas maltrapilhas. E em caso de ela aparecer aqui desmemoriada, é só dizer o seu nome que as memórias voltariam. Você sempre foi o ponto fraco dela. Mesmo sem memórias, ela nunca se esqueceria de você. – Com um riso tardio, Parker prendeu novamente nos lábios o charuto.
Ambos refletiam sorridentes sobre as possibilidades ao observarem a plenitude da fogueira. Parker, com suas ideias incoerentes, finalmente quebrou a tensão emocional em que o homem ao seu lado se encontrava quando chegou ali. Teria que dar a ele um pouco de alívio emocional porque sabia que isso agradaria a Jill de onde quer que ela estivesse.
– Bom saber que não sou o único louco que cogita essas ideias. Infelizmente, não posso me prender a isso. A realidade é que não posso contar com um pingo de otimismo enquanto não a encontrar. – Os flashes do momento em que Chris a assistia desaparecendo no penhasco fora recordado e o abalou momentaneamente depois do pingo de bom humor que sentiu segundos antes.
– Desculpe por ter abordado esse assunto.
– Não se preocupe. Faz bem assistir um pouco de positividade por mais distante que isso esteja de mim. Eu sei que devia ter mais fé. – Chris tomou do último gole de sua cerveja e a amassou com a mão para descarta-la. – Sabe, Parker... não quero voltar para casa sem ela. Se eu cheguei nessa região com ela, eu não posso deixá-la aqui. Esse sempre foi o nosso combinado. Sempre cuidamos um do outro, ninguém deixa o outro para trás. Se eu sair daqui sem resultados, vou me sentir um desleal para sempre. – Chris balançava negativamente a cabeça em decepção.
– Não pense assim... Ah, vocês dois e esse cuidado excessivo um com o outro. – Parker parou para saborear a fumaça do charuto enquanto suas memórias trabalhavam. – Tinha que ver o estado dela quando soube que você e Jessica tinham sumido no ano passado. Jill ficou tão perplexa quando soube. Sua mente estava conturbada, era visível sua aflição enquanto não tínhamos nenhuma resposta otimista sobre você. Ela estava exatamente como você se encontra agora.
– Ainda assim, ela tinha esperanças... Jill acreditava que ia me encontrar, não foi?
– Sim, da mesma forma que você acredita que vai encontrá-la por aqui. Sua falta de otimismo não anula o sentimento de querer encontra-la e eu sei que você não vai desistir dela mesmo desanimado. Naquele dia eu me dei conta do quanto... essa coisa que vocês têm um com o outro é importante. Eu só não imaginava que ela realmente iria até ao inferno por você.
A última frase despedaçou o homem enlutado totalmente. Chris assimilava vários momentos de sua vida ao lado dela, onde aquela última frase poderia ter se encaixado perfeitamente. O desespero pela falta de respostas voltou a perturbá-lo e isso era visível em suas expressões. O abatimento dele foi evidente enquanto seus olhos fitavam a brasa presente com arrependimento sobre tudo o que tinha lhe acontecido.
– Eu fui a causa da sua sentença de morte e fiquei aqui pra enterrá-la. Mas, eu sequer tenho seu corpo pra isso, pra tornar tudo digno. Quanta ironia! – As lágrimas presam aos seus olhos refletiam a chama que ele encarava. – Quatro meses se passaram e eu ainda estou preso nessa maldita agonia sem saber o que fazer para encontra-la.
Parker ficou quieto por um instante. Naquele momento, se lembrou de algo que por pouco não esqueceu de transmitir à Chris. Ele tinha encontrado algo enquanto perambulava próximo ao riacho naquela semana. Parker encontrara e analisara um objeto na qual quis acreditar que podia pertencia à mulher que tanto procuravam, embora não conseguisse discernir se aquele item era dela ou apenas uma das inúmeras coisas aleatórias de desconhecidos que se encontravam ao redor. Coincidentemente, a única pessoa que poderia lhe dar um veredito estava bem ali a sua frente.
Sem querer alimentar as esperanças do homem, mas já sentindo a culpa de não o mostrar o que automaticamente associava a sua antiga parceira, tomou uma decisão. Afinal, tudo o que precisava era de um sim ou um não. Nesse momento Parker adentrou em silencio ao chalé e tirou do bolso de sua mala, o item que tanto o afligia.
– Escute Chris, eu encontrei uma coisa enquanto andava ao redor. Nele tem um escrito algo que está em nossa língua e essa foi minha única conclusão para trazer esse item comigo. – Parker se sentou ao lado do colega e abriu a palma da mão. – Algo me diz que eu já vi a Jill com esse pingente. Mas eu não posso afirmar isso porque não tenho certeza. Não encontrei nenhuma evidencia disso nas fotos que tenho dela.
Chris recebeu em mão o pingente preso a um cordão remendado, torcido e deteriorado. Ao observa-lo, ele pode voltar no tempo quando entregou a ela esse singelo presente em frente a delegacia, no dia em que ela havia paralisado a contagem de um detonador de alto grau de dificuldade para não deixarem queimar provas de um assalto em um bairro nobre em Raccoon City. Ele pode relembrar do momento em que ela se orgulhava de seu ato após ter se entregado completamente naquela tarefa a ponto de arriscar a própria vida e consequentemente a dele também.
O pingente parecia um item comum e apenas um simples movimento poderia afirmar se realmente era o acessório presenteado a ela. Com um dedo indicador tremulo, Chris virou o pingente para cima e encontrou escrito o que tinha pedido ao vendedor indígena para gravar ali. Ao saber que era exatamente o exemplar que havia comprado para ela em maio de 1998, na feira de Artes e Culinária da Universidade Raccoon, Chris começou a suar continuamente, sentindo um mal estar tão forte que quase sofreu uma síncope, mas reverteu a situação ao tentar manter seus sentidos funcionando normalmente.
Ao acalmar internamente seus ânimos, pode se lembrar do dia em que a encontrou em Paris. De tudo o que ela deixou para trás, ela trouxe aquele pingente consigo preso ao pescoço. Nos últimos anos, ele nunca mais tinha visto ela usando aquele item e não acreditava que ela tinha usado ele no dia em que entrou na mansão porque não se lembrava de tê-la visto usando-o naquele dia.
De alguma forma, se isso fora encontrado ali, ela tinha carregado consigo até o último suposto dia de vida. Portanto podia concluir que ela teria atravessado aquela região.
Chris jamais imaginou que Jill tinha guardado consigo aquele simples presente, por mais que envelhecido e desgastado. Com essa conclusão, ele sorriu em gratidão. Só não percebeu que seus olhos encharcados começaram a molhar o metal em sua mão. Ele levou alguns segundos para se recompor e voltou a esconder sua dor novamente.
– É dela. Eu a presenteei há muitos anos. – Chris perdia seu fôlego a medida em que aquela realidade se tornava cada vez mais real e sua mente começara a trabalhar a mil em inúmeras novas possibilidades de encontrar Jill ao seu redor por causa daquela peça. – Onde o encontrou?
– Depois do riacho. – Parker apontou na direção. – Naquela região onde a água é bem rasa para atravessar. Acho que seguindo daqui até lá, é a mesma direção da cidade mais próxima.
Parker observava o homem a sua frente tentando se localizar naquela área. Lidando com a bússola, Chris fez algumas anotações mentais e percebeu que a região se dava para a cidade onde estava hospedado. Sua mente se perguntava sobre as condições de vida de Jill depois de ter caído de uma altura enorme enquanto transbordava do sentimento que queria evitar transparecer. A teoria kafkiana de Parker começou a fazer mais sentido.
Pelo trajeto onde aquela pequena pista fora encontrada, era mais rápido de chegar à cidade mais próxima. Jill, como humana nas condições vitais em que se apresentaria depois daquela queda, nunca conseguiria tal feito em poucas horas. Já Wesker poderia ter feito aquilo com tranquilidade depois de ter testemunhado o homem sobreviver a tantos momentos em que um ser humano jamais sobreviveria. A conclusão iminente fez com que o rosto emocionado e sentimental de Chris se transformasse em um rosto que demonstrava angustia e indignação, ao fechar seus olhos com força em repulsa.
– Wesker está com ela. – Seu tom hesitante soou bem grave e sombrio como um sussurro. Virou-se na direção de Parker em profunda agonia. – Wesker atravessou o riacho com a Jill no mesmo dia em que caiu penhasco abaixo. – Chris se pôs de pé com a bússola ao lado do pingente. Localizou-se entre a montanha, a mansão e o córrego e pode entender qual fora o trajeto que provavelmente Wesker passara. Naquele momento, as memórias do sorriso imponente de Wesker na madrugada de 1998 quando levou Jill consigo apareceu em sua mente e o desnorteou, fazendo-o cambalear em tortura. – Porra! Ele está com ela.
– Espera Chris. – Parker se pôs de pé ao tentar segurá-lo. – Tudo o que eu abordei antes foi uma questão hipotética. Não se pode crer em nada enquanto não se tem certeza. Sente-se aqui e vamos refletir mais sobre isso. – Parker o empurrou de volta ao banco, assustado com as reações do homem que parecia completamente transtornado. – Vamos rever as possibilidades, ok? Por que Wesker iria estar com ela? Ele queria matar vocês, certo?
– Ele pode ter tido algum interesse nela. Algo que nesse caso pode ser uma retaliação a mim. Ou algo mais...
– O que ele iria querer com esse tipo de interesse? Porque ele a levaria consigo se ela poderia ser um estorvo para seu escape?
– Poder para ele através dela. – Chris pensou mais um pouco e se lembrou que Jill era imunizada contra vários tipos de vírus pelo qual tinha lidado contra e que isso de alguma forma poderia interessar Wesker, tal como conhecia seu interesse por Alexia Ashford. Mas como uma segunda hipótese, também pensou na rivalidade que o ex-capitão tinha consigo desde que tinha o encontrado vivo depois dos eventos da mansão nessa mesma época. – Talvez poder sobre mim já que a briga dele sempre foi comigo.
– Agora isso faz mais sentido.
– Wesker sabia o que a Jill significava para mim, muito antes de entrarmos naquela maldita primeira mansão. Ele sabia que ao sumir com ela, isso iria me destruir. – Chris concluiu com os nervos a flor da pele. – Ele já deve estar muito longe daqui e... ela pode estar com ele... viva ou morta. Eu preciso ir atrás dela, mas nem sei por onde começar.
– Se quer um conselho, procure alguém de confiança para te ajudar com isso. Deixe as voltas em círculos por aqui comigo. Vou tentar encontrar mais pistas para essa teoria enquanto estiver na região. – Parker mexia na brasa com um graveto enquanto Chris assentia. Em seguida, ele levantou e adentrou no chalé, voltando de lá agasalhado e com a mochila nas costas para retornar ao hotel. – Fico feliz de já poder ter contribuído em alguma coisa, só por não ter ido embora junto as equipes de buscas.
– Sim... você não sabe o quanto me aclarou a mente hoje. – Chris se pôs de pé sentindo um alívio momentâneo em finalmente saber como dar o primeiro passo para lidar com aquele assunto de maneira sensata. Parker decidiu por parar de fumar o charuto e repousou o item em um tronco de assento vazio, se pondo de pé para um leve alongamento. – Vou precisar correr contra o tempo se sua teoria estiver correta, Parker.
– Viva ou morta, apenas tire-a das mãos daquele infeliz imediatamente. Você sabe que somente você pode fazer isso, não é Chris?
– Sim. Pensei em contatar um amigo de confiança para me ajudar nisso. – Chris se referia a Barry Burton enquanto torcia os lábios em uma evidente preocupação. – Ele também conheceu Wesker e vai tentar me ajudar da mesma forma que você está fazendo.
– É esse o espírito! Não desanime. Vamos encontrar nossa garota, eu tenho certeza. Mas em caso de eu a encontrar primeiro, perambulando pela mata, vou mandá-la imediatamente de volta pra você. – Parker manifestou um otimismo e com isso amenizou um pouco da tensão que Chris sentia.
– Você ainda tem esperança de encontra-la viva, não é? – Chris perguntou admirado ao dar pequenos tapas no ombro do amigo. Parker concordou suspirando emocionado ao perceber que na verdade essa teoria improcedente era tudo o que ele mais queria que fosse real. – Eu sei qual é esse sentimento. Eu já vi uma cena exatamente igual a essa. Quando a Jill achou que tinha te perdido no navio, ela ficou tão abatida. Ficou ali parada, certamente imaginando alguma ideia para não te deixar para trás. Ela também não aceitaria ter te perdido ali.
Chris pode observar o sorriso tímido e sensibilizado de Parker ao escutar aquelas palavras. Ele realmente sentia falta daquela preciosa amiga e por mais que demonstrasse otimismo pela sua situação, sofria por saber que ela poderia estar correndo perigo com o passar do tempo e tudo o que queria era poder vê-la novamente e bem, ao menos para agradecer pelo presente daquela amizade.
– Aposto que foi Jill quem me ensinou a ser assim. Porque eu costumava não ligar muito para as pessoas. Ela me ensinou a me importar com isso desde quando migrei para a BSAA.
– Eu realmente gostaria de contar para ela o que você está fazendo. Você foi o melhor parceiro de trabalho que ela já teve. – Chris estendeu as mãos para um cumprimento final.
Parker apertou a mão do amigo em despedida. Sentiu orgulho de si mesmo, da pessoa que tinha aprendido a ser nos poucos meses de convivência com Jill. Analisando a frase que Chris tinha dito na última fala, Parker se incomodou por ter ganhado aquele título sem se achar digno.
– Não Chris, você que foi o melhor parceiro que ela já teve. Nunca tomaria seu lugar em um milhão de anos.
Parker cutucou o ombro de Chris, dando ênfase que era a ele a quem se referia. O sorriso espontâneo de Chris finalmente surgiu a medida em que seu olhar buscou o pingente dentro de sua própria mão.
– Éramos muito mais do que parceiros, Parker.
"Corri todo o caminho até as trilhas, através da porta. E então um último olhar para trás. Subi todas as escadas para encontrar um telhado vazio. Eu tenho só uma espingarda deitada ao meu lado."
