"Querida, feche seus olhos agora. Não chore, está tudo bem. Deite-se, deixe as luzes acesas. Está tudo bem, querida. Eu ficarei aqui a noite toda com você até os primeiros sinais de luz."
Dezembro, 1998
O homem de cabelos castanhos usava óculos escuros enquanto caminhava ao endereço descrito no papel em sua mão. Descera do taxi algumas quadras antes do endereço destinado no centro de Paris. Nos últimos dias, teve de aprender a esconder os próprios rastros dos inimigos que o perseguia desde o ultimo mês. Chris Redfield era um homem honesto que passou a trabalhar nas sombras desde que arrancaram sua liberdade enquanto tentava fazer justiça com as próprias mãos. Cinco meses no mesmo dilema.
Sua mente estava uma bagunça naquele último dia do ano de 1998. Ao mesmo tempo em que nas ruas da capital francesa haviam constante celebração pelo penúltimo ano que fecharia o milênio, na mente daquele homem atuava o desconforto por tantas dificuldades enfrentadas desde o meio do ano. Ainda era fim de tarde, mas ele se encontrava exausto. Contudo o motivo de seu cansaço não era o sono ou o corpo dolorido das piores lesões físicas que sofrera naquela semana. O cansaço era da responsabilidade que carregava consigo. Chris precisava saber se a mulher a quem iria se encontrar naquele endereço se achava segura e sã. Apenas quando ficasse a par daquela situação, descansaria.
Em agosto, Chris deixara a cidade onde residia e atuava em um esquadrão para dar início as investigações da gigante multinacional Umbrella Corporation, responsável pela morte de seus colegas em julho e também pelo posterior maior incidente biológico no mês de setembro na cidade de Raccoon. Queria incriminar aquela empresa por esses danos e essa era a causa pela qual se encontrava residindo na França.
As únicas pessoas que sabiam sobre seus planos eram seus dois mais estimados colegas de time do esquadrão, Barry Burton e Jill Valentine, também sobreviventes do primeiro incidente dentro de uma mansão-laboratório pertencente a Umbrella. Enquanto investigava a filial da França, mal sabia o que acontecia com eles. Naquela semana, porém, ele tinha ficado a par de tudo e enquanto caminhava, ponderava sobre os últimos acontecimentos.
Barry se encontrava instalado no Canadá desde que voltara do incidente da mansão. O último contato que tinha tido com Barry foi quando ele respondeu, apenas em outubro, sua carta codificada. Na carta respondida, Chris tomou conhecimento de que, por Jill ter ficado em Raccoon a fim de ajudar nas investigações na empresa-mãe da Umbrella, acabara participando do incidente no final de setembro. Também soube que ela escapara com vida através da ajuda de Barry. Consequentemente, Jill se encontrava segura na casa dos Burton enquanto se recuperava dos traumas físicos e psicológicos que passara minutos antes da cidade se transformar em cinzas.
Ao saber que encontravam bem, Chris decidiu responder aquela mensagem explanando o andamento de suas investigações na Europa ao novo endereço de Barry. Nela enviou o endereço do apartamento recatado onde residia para que logo os três pudessem trabalhar ali na mesma causa. Mal sabia ele que seus planos logo se frustrariam, já que estava sendo rastreado por agentes da Umbrella.
Seus dias de paz se foram quando no fim de novembro, teve seu lar invadido por agentes que estavam em busca de seu paradeiro para executá-lo. Escapando daquela tentativa de assassinato em plena madrugada, Chris deixara para trás tudo o que possuía e passara a fugir continuamente de uma perseguição silenciosa e nem pode contatar seus amigos que corria perigo ou mesmo pode avisá-los para não o procurarem. Temendo pela vida deles, simplesmente decidiu sumir, ainda sem contatar Claire para continuar resguardando-a.
Chris mal sabia que, devido ao seu sumiço repentino, Jill decidira partir de encontro a ele na França. Ela fora até seu apartamento, mas não o encontrou por lá, deparando-se apenas com sinais de invasão, sua faca de combate e marcas de sangue seco no local. Desde então, ela decidira permanecer na cidade e começara uma busca frenética por ele. Na mente de Chris, Jill continuava segura com Barry e sua família no Canadá.
As descobertas sobre o que realmente acontecera nos últimos meses começaram quando recebera um e-mail de um colega de Claire, Leon Kennedy, com informações sobre seu sequestro pela Umbrella, já que sua irmã também tinha ido à Europa atrás dele. Claire havia invadido a filial parisiense por achar que Chris havia sido capturado pela empresa. Depois de ter ido atrás de sua irmã e tê-la resgatado a salvo, em um itinerário entre a Ilha Rockfort e a Antártida, se deparou com Wesker vivo e isso o transtornava completamente.
Portanto, Chris decidira lidar com as ameaças de Wesker e com a perseguição da Umbrella sozinho. Não poderia deixar com que seus queridos sofressem o mesmo. Por isso, deixara Claire aos cuidados de Barry no Canadá, pedindo a ele para repensar sobre a ideia de deixar sua família naquela causa. Ao tomar conhecimento que Jill já estava em Paris procurando por ele desde novembro, Chris imediatamente seguiu em busca dela.
Na última carta que escrevera a Barry, Jill explicava que não havia encontrado Chris ainda, mas que já tinha conseguido se instalar na cidade e que já começara a fazer suas próprias investigações na iminência de encontra-lo. Temendo pela segurança dela, Chris imediatamente deixou o Canadá com destino à França, através de um amigo que serviu com ele na Força Aérea, lhe conseguindo uma carona em um voo comercial lotado e, portanto, agora se encontrava parado de frente à uma porta dupla discreta em uma rua movimentada do centro de Paris.
Chris passara as mãos sobre a alça de sua mochila com ansiedade ao adentrar naquele estabelecimento. A recepção do pequeno hotel era um simplório salão de paredes brancas e detalhes em dourado. Um lustre enorme que era o que mais lhe chamava a atenção.
Um jovem rapaz de cabelos castanhos e olhos azuis se encontrava estirado na cadeira giratória da recepção com os pés sobre a superfície do balcão enquanto lia um gibi. Ao perceber o cliente, ele prontamente se pôs de pé. Sua camiseta, despojada, tinha uma estampa em homenagem ao rock. O estabelecimento parecia ser informal e familiar.
– Estou procurando por Jill Valentine. Ela está aqui? – Chris o questionou analisando seu próprio francês e notando a dificuldade que ainda tinha de pronunciar corretamente suas palavras, por mais que entendesse muito bem o idioma.
– Da parte de quem? – O rapaz torceu o nariz, analisando-o, ao notar que ele era um estrangeiro.
– Eu mesmo. – Chris o confrontou receoso, evitando citar seu nome ao tirar os óculos escuros e prendê-lo em sua camiseta. – Sou o namorado dela.
Não disse seu verdadeiro nome, pois seria arriscado dizê-lo naquele país enquanto estivesse em perseguição. Em segundo lugar, por mais que já tivesse ponderado a possibilidade em que se apresentou, aquela última frase não era real, para seu azar. Ainda assim, era a melhor alternativa para poder encontrá-la ao mostrar-se muito próximo a ela, desde que ambos já eram amigos bem íntimos.
Enquanto aguardava uma resposta, percebera que o rapaz entrara pela porta por trás de si. Voltara de lá acompanhado de um homem de meia idade que era muito semelhante a ele, parecendo ser seu pai e possivelmente também o responsável por aquele estabelecimento. De maneira preocupante, enquanto apertava os lábios em nervosismo, Chris temia que a presença do homem mais velho fosse para explicar que a mulher a quem procurava já não poderia mais ser encontrada ali.
– O que quer com a Valentine?
O senhor expressou o sobrenome da mulher com um sotaque diferente na pergunta em francês enquanto esboçava um olhar aborrecido. Com roupas elegantes e com óculos redondos na frente dos olhos, o olhar desconfiado do mais velho o estudava, tal como seu filho fazia novamente ao seu lado.
– Jill está procurando por mim na cidade.
Ao perceber que aquele senhor poderia estar indagando-o como uma forma de proteção a Jill, Chris decidira demonstrar confiança. Ele tirou a carteira do bolso e ao manuseá-la, acabou se deparando com uma pequena foto de Jill que encontrara em uma ficha no escritório da delegacia e colocara em sua carteira dias antes de sair de Raccoon em agosto. Escondendo o prazer que sempre tinha ao admirar aquela imagem, tirou da carteira dois itens comprobatórios e os posicionou na superfície do balcão. Ali estava o documento de identidade de Chris e a carteira de membro dos S.T.A.R.S. Dando uma breve checada nos itens, o senhor voltou a analisar o estrangeiro, com um olhar mais brando.
– Você é o famoso Chris Redfield. – O homem constatou em perfeito inglês para espanto de Chris e lhe estendeu a mão para um cumprimento. Em seguida, lhe devolveu os pertences. – Sou Louis Pierre Valentín. Minha sobrinha já não está mais hospedada aqui, consegui um lar para ela. Mas não vai encontrá-la por lá nesse horário. – Louis fez uma anotação em um bloco de notas e lhe entregou o papel. – Vai encontrá-la nesse endereço daqui a meia hora.
Chris prontamente percebeu que o endereço anotado se tratava de um restaurante. Olhou rapidamente no relógio de pulso e percebendo que já se aproximava das seis da tarde, agradeceu a informação e partiu.
Como ficava próximo dali, Chris foi caminhando até o local, gastando meia hora precisamente. Depois de encontrar uma cafeteria na esquina, finalmente adentrou na rua de ladrilho, enfeitada com as luzes dos enfeites de fim de ano, onde era permitida apenas a passagem de pedestres. Parou na frente do bistrô que estava lotado. Pessoas passavam de um lado para o outro em busca de uma mesa na rua que era cheia de restaurantes. As primeiras gotas de chuva caiam do céu que escurecia e com isso, foram abertos os toldos listrados para protegerem os clientes do mau tempo. Entretanto, Chris continuava olhando para dentro do estabelecimento embora frustrado por ainda não ter visto nenhum sinal de Jill.
Ao perceber que a chuva aumentara, Chris abriu o guarda-chuva, parado no mesmo lugar. Analisado por uma moça jovem de pele morena que trabalhava naquele restaurante, Chris se afastara da frente do bistrô, indo parar do outro lado da rua, mantendo olhares fixos no restaurante, como se tivesse vigiando-o. A moça, que trabalhava como maître, incomodada com a maneira invasiva do homem observante, caminhou até ele de forma elegante e sorridente. Reparando em seu crachá, Chris pode observar que seu nome era Marie.
– Boa noite. Tem alguma reserva conosco, senhor? – Marie colocava uma mão no alto da cabeça para se abrigar da chuva. Naquele momento, Chris instintivamente estendeu o guarda-chuva sobre ela enquanto negava com a cabeça. – Pedimos desculpas, mas já estamos lotados por hoje, se estiver aguardando alguma mesa. É noite de réveillon. Se quiser, podemos anotar seus dados e ligaremos quando tivermos horários disponíveis.
– Não se preocupe, eu só estou observando o movimento. – A maître expressou uma careta ao tentar entender o francês americanizado na fala de Chris. Em seguida, ela manifestou uma surpresa em relação a justificativa dele ao observar sutilmente os machucados em sua face.
– Fique à vontade.
Marie já se preparava para retornar ao restaurante sem entender as reais intenções do homem misterioso. A atitude dele poderia incomodar o responsável do bistrô. Desde que primava pela discrição, se afastaria dali. Antes que a maître voltasse ao estabelecimento, Chris tocara em seu cotovelo para tomar sua atenção novamente. Precisava saber sobre Jill imediatamente.
– Estou procurando por Jill Valentine. Ela trabalha aqui?
– Sim. Ela está na cozinha. Quer que eu leve algum recado?
– Não é necessário. – Chris mal pode esconder a satisfação e o alivio. – Eu a procuro depois, desculpe incomodá-la.
Chris sabia que não poderia vê-la naquele momento e para isso teria de aguardar o encerramento do expediente. Por isso, se dirigira até a cafeteria da esquina, de forma em que ele pudesse vigiá-la em discrição.
Enquanto degustava de um expresso, ouvindo as últimas gotas de chuva sobre o ladrilho, Chris fora surpreendido pela presença de Jill no meio da rua. Ela tinha saído da porta lateral do restaurante e olhava de um lado para o outro em busca de alguém embora remanescentes pingos de chuva a molhasse. Seus cabelos estavam presos em uma touca e seu novo uniforme era uma camisa de gola polo esverdeada e uma saia xadrez acima do joelho. Escutava o barulho dos saltos pretos batendo no chão enquanto ela caminhava sem se afastar do bistrô.
Prontamente, Chris trocou de lugar e se pôs de costas, ainda admirando-a discretamente por cima dos ombros. Não queria que ela o encontrasse em uma rua pública por sua segurança. Podia sentir um ardor enorme no peito, uma vontade insana de mostra-la que estava por perto. Incapaz, cerrava os punhos batendo-os levemente sobre a mesa em profunda inquietação, odiando a falta de liberdade em que se encontrava. Ansiava pelo momento de se deixar ser notado pela pobre moça que ainda continuava se molhando nas poucas gotas de chuva em busca dele.
O que consolava Chris era o conforto de saber que Jill estava bem. Ela tinha perdido peso e suas expressões possuíam um descontentamento comparado a moça naturalmente entusiasmada que se sentava ao seu lado no escritório. Era visível seu abatimento desde que deixara a mansão. Jill estava usando maquiagem pesada, que não costumava usar outrora, tal como a atendente Marie, possivelmente por uma questão de protocolo. Sem demora, aquela moça também se juntara a Jill e ambas conversavam enquanto olhavam ao redor.
Sem sucesso, Jill retornara ao restaurante, mas Chris jamais a perderia de vista. Ficaria ali até vê-la sair daquele restaurante e a seguiria até sua casa. Tudo para mantê-la em segurança.
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– Senhor, já estamos fechando. Você deve pagar sua conta. – A garçonete da cafeteria cutucava o cliente sonolento, que deitara sua cabeça sobre a mesa para um breve cochilo.
Chris erguera a cabeça abruptamente. Olhando ao redor, notara que a rua antes lotada, já se encontrava vazia, enquanto funcionários recolhiam as mesas que estavam do lado externo dos estabelecimentos. Recapitulando o motivo de se encontrar ali, prontamente percebeu que tinha cometido um erro com aquele cochilo e que o café não fizera efeito.
Chris alcançou sua carteira e tirou uma cédula para dar a garçonete. Seus olhos continuavam fitando o restaurante onde Jill trabalhava, enquanto o local já estava completamente fechado para seu desespero.
– Escuta... aquele bistrô fica aberto até que horas?
– Até tarde da noite. – A garçonete limpava a mesa ao lado. – Mas como hoje é réveillon, os bistrôs fecharam às nove.
Chris observou no relógio que já se aproximava das nove e meia. Saber que perdera a chance de encontra-la naquela noite começou a atormentá-lo, temendo ainda que sua aproximação tivesse sido vigiada pelos agentes que o perseguia, comprometendo assim a segurança de Jill. Antes que pudesse se levantar para sair em uma nova busca, Chris escutara por trás de si uma doce gargalhada que achou que fosse de suas memórias. Consequentemente, uma voz familiar se aproximava em um diálogo francês. Jill e Marie, já aquecidas em seus longos casacos, caminhavam na direção da cafeteria e pararam naquela esquina para se despedirem, ambas com uma sacola na mão. Chris se manteve de costas enquanto se concentrava em ouvir o assunto.
– Será o maior réveillon de todos. Tem certeza de que vai perder isso, Jill?
– Sim. Tenho um assunto pra resolver e preciso ir para casa agora. – Jill demonstrava cansaço.
– Aposto que isso tem a ver com o americano gato que apareceu aqui mais cedo? – Marie provocou-a, arrancando dela um riso tímido.
– Nem sei se era a pessoa a quem procuro. – Jill expôs o desânimo. – Mas se ele aparecer por aqui novamente, me chame, combinado?
– Combinado. Bonne année, mon ami! Que 1999 traga a quem procuras. – Marie abraçou a colega e consequentemente, se olharam em despedida.
– Eu te desejo realização nos seus objetivos de estudo. Sou muito grata por ter me conseguido esse emprego. Bonne année, mon ami.
Marie seguiu na direção oposta à de Jill e Chris começou a seguir a mulher a quem desejava encontrar discretamente. Ele se admirou pela forma na qual Jill sustentara um diálogo usando perfeitamente a língua local, lembrando-se do dia em que ela lhe contou que tinha descendência francesa. Entretanto, não imaginava que sua noção da língua era fluente.
Ambos seguiam no mesmo caminho e logo Jill pressentiu que estava sendo seguida. Aproveitando o barulho e a bagunça das pessoas que festavam na rua de sua casa, ela tentou entrar no meio da multidão no intuito de se livrar do mal pressentimento.
Chris decidiu afastar-se até que ela sentisse segurança para chegar em casa, enquanto a assistia de um local estratégico. Logo, Jill adentrara pela porta do prédio. Parando na frente dele, Chris olhava para cima no intuito de esperar a luz de seu apartamento acender, já que eram poucas as acesas ali.
Minutos depois, uma luz bem fraquinha e amarelada surgiu em uma das janelas do quarto andar. Depois de uma contagem mental, Chris subiu as escadas rapidamente, desligando todos os interruptores de lâmpadas acessas nos corredores. Parando na frente da porta do apartamento, pode escutar o rádio ligado. Portanto, bateu na porta com força suficiente para que Jill pudesse escutá-lo, enquanto se mantinha vigilante.
Percebendo que Jill tinha abaixado o volume, Chris conseguia sentir sua respiração pausar. Fazia meses em que não a via e mal podia acreditar que em questão de segundos, a veria novamente. Era como se tivesse voltado no tempo, onde ela ocupava a maior parte de seus pensamentos, livre da opressão que enfrentava naqueles dias.
– Quem é? – Jill perguntou na língua local, imaginando a possibilidade de ser um vizinho.
– Sou eu. – Chris respondeu em sua língua original.
Jill sentiu uma aceleração das batidas de seu peito ao ouvir aquela voz outra vez. Tinha feito a escolha certa em não ir à festa. Desde que Marie tinha contado e detalhado os traços da aparência do "observador", ela criara uma expectativa por saber que Chris poderia aparecer a qualquer momento.
Chegando no apartamento, Jill acendera as velas espalhadas pelos cômodos e já pretendia voltar a ler o livro que distraia da realidade que lidava. Ao saber que Chris tinha chegado ali, ela pode sentir um ânimo que há meses não sentia. Chris conseguia escutar a chave tilintar, apertando os lábios, inquieto.
Ao abrir a porta, os olhos arregalados de Jill demonstravam que mal conseguia processar a mistura de sentimentos por vê-lo novamente. A moça abatida do restaurante finalmente voltara a esboçar seu sorriso emocionado e cheio de gratidão outra vez. Antes que ela pudesse dizer seu nome, como sempre fazia ao encontrá-lo, ele estendeu o indicador sobre seus lábios risonhos e balançou a cabeça em negação. Jill conseguia entender perfeitamente os motivos. Nesse momento, percebera que por mais satisfatório que fosse aquele reencontro, muitas coisas ainda poderiam estraga-lo. Logo, deu espaço para ele adentrar e trancou a porta.
O apartamento estava espalhado de velas por todas as superfícies para clarear o ambiente. As lâmpadas no teto e nas paredes estavam desligadas. Jill se virou para Chris novamente e alcançando sobre a bancada uma xícara, onde havia uma vela acesa, se aproximou dele.
– Eu sabia que você estava vivo! – Jill sussurrou em alívio.
Ambos tentavam esconder, sem sucesso, a emoção pelo reencontro. Parada em sua frente, com a luz refletida nele, pode enxergar seu rosto nitidamente. Seu sorriso sumiu ao notar pequenos hematomas em sua face, principalmente do lado direito, com cortes suturados próximo a sobrancelha e no canto dos lábios. Instintivamente, com a mão desocupada, Jill alcançou seu rosto e ao avalia-lo, demonstrou agonia. Tocou delicadamente sobre a área arroxeada para verificar se era uma sombra ou um machucado. Naquele momento, percebera a expressão de dor que ele sutilmente manifestou.
– O que fizeram com você?
– Longa história. Apenas... continue aliviada por eu ainda estar vivo.
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O mini apartamento de Jill tinha apenas três cômodos abertos. A entrada era através da cozinha estreita. O próximo cômodo era onde sua cama ficava, junto de uma escrivaninha organizada com uma cadeira, próximo a janela. Uma arara de roupas se localizava em um canto com poucas peças e também possuía um canto onde havia várias caixas de papelão amontoadas. O apartamento bem menor comparado ao último que morara em Raccoon. Tudo era um grande salão que continha a porta do banheiro como um cômodo adicional.
Modesto, o local era ideal para a ex-policial. Ter alugado um apartamento com o que tinha no bolso era uma realização importante para ela. Graças ao tio Louis, um empresário parisiense, conseguira um lugar já mobiliado. Se mantinha financeiramente com seu emprego arranjado de última hora, como lavadora na cozinha de um bistrô. Sem perceber, Jill refazia sua vida novamente, como tinha feito quando chegara em Raccoon. Ela tinha o dom de renascer e adaptar-se perfeitamente sob qualquer circunstância adversa, como a soldado que sempre foi.
O relacionamento de Chris e Jill tinha se estreitado bastante desde maio. A aliança que fizeram espontaneamente começara a reverberar positivamente para ambos. Enquanto encobriam a atração física que sentiam, ambos atuavam como uma proteção do outro, sem interferências adversas. Pareciam inseparáveis enquanto descobriam seus sentimentos lentamente, sem se incomodar em apressar o que estavam deixando naturalmente acontecer. Contudo, os planos individuais deles sofreram uma pequena alteração no final de julho. O cuidado prevaleceu, a confiança se tornou mais intensa e a parceria tinha se tornado essencial, mas as primazias foram direcionadas a lidarem com as consequências da tragédia.
Chris se dirigira à França, se despedindo de Jill com a promessa de que eles se encontrariam ainda naquele ano em Paris, depois que ela finalizasse sua própria investigação ainda em Raccoon. Os meses em que ficaram sem contato só aumentaram a ansiedade para se encontrarem, mas o reencontro tardio se deu conquanto se encontravam desgastados dos últimos traumas em que vivenciaram.
Enquanto Jill esquentava a comida que trouxera consigo para ambos, contava para ele o que tinha se passado com ela desde que chegara à Paris. Explicara que a utilização das velas no apartamento era devido a falta de dinheiro e somente receberia o pagamento necessário para arcar com a conta de energia na semana seguinte. Sobre sua alimentação, estava sendo amparada pelo cozinheiro do restaurante e seu tio.
Explicou-lhe que seu trabalho não era só uma forma de ganhar dinheiro, mas de conseguir coletar informações secretamente para a investigação que já executava. O bistrô era muito frequentado pelos funcionários da Umbrella, que tinham voucher de desconto exclusivo. Os dados deles eram coletados por sua nova amiga, Marie, que acabava lhe cedendo informações imprescindíveis para seu dossiê. Aproveitando a ocasião, Chris acabou confessando que tinha ido atrás dela no restaurante e que conhecera seu tio.
Jill serviu-lhes a comida e ambos se sentaram na beirada da cama para degusta-la como a ceia de ano novo, por mais que não tivessem animo para comemorações depois de um ano desastroso. Enquanto no velho rádio a pilha tocava um especial de James Taylor baixinho, Jill notava que Chris mal se alimentava, mas optou pela discrição.
Quando questionado pelo desaparecimento, Chris explicara contando sobre Claire, que fora a causa de seu mais novo sumiço. Jill ficou impressionada por saber que a moça tinha participado do mesmo incidente que ela, sem que tivessem tido contato. Ele continuou explicando sobre sua busca pela irmã que fora sequestrada pela Umbrella nos últimos dias. O alívio de saber que ela sobrevivera a tudo o que passou tranquilizava Jill, que não aceitava perder mais nenhum querido naquela causa, principalmente Claire.
Prosseguindo, Chris finalmente confessou que havia sido um alvo vigiado pela empresa. Ao conta-la sobre a invasão de agentes comandados em sua casa no intuito de assassina-lo, Jill, portanto, entendeu o porquê de ter encontrado a bagunça que vira em seu apartamento e assimilava cada nova notícia sem esconder seus temores.
– Achei que o que tinha acontecido em Raccoon já era suficiente. Não imaginei que poderiam ousar mais depois do que fizeram. – Jill comentava limpando as louças.
Sentindo um desconforto por ter comido, já que ainda estava com seu tronco debilitado do trauma que sofrera, Chris tossiu discretamente. Cobrindo-a com a mão, percebeu que ainda expelia pequenas gotas de sangue. Sem alarde, seguiu para o banheiro. Enquanto se limpava, levantou sua camisa e verificou seus hematomas no espelho oxidado, percebendo o estado humilhante que se encontrava, demonstrando profundo aborrecimento.
Por mais que quisesse tê-la por perto, sabia que o melhor para Jill era se afastar daquela vida, que era muito mais perigosa do que qualquer coisa que já tinha experimentado. Certamente, não suportaria vê-la nas condições as quais se encontrava se continuasse ao lado dela ou se ela insistisse em trabalhar contra a Umbrella. Além de saber que Wesker poderia estar mais perto do que imaginavam em busca de uma retaliação a qualquer momento.
Chris hesitava em dizê-la sobre o ex-capitão. Sabia o quanto isso poderia ser perturbador para Jill, que ainda sofria muito pela traição de quem já obedecera porfiadamente, principalmente por ele ter extinguido quase todo o esquadrão por puro egoísmo.
Quando pensava em deixar o cômodo para voltar ao principal, Chris notou que Jill se aproveitava do momento a sós para se trocar e notou que ela terminava de abotoar uma larga camisa branca de mangas longas, que ele bem conhecia, já que era uma de suas camisas. Ao perceber que ela precisava de privacidade, ele continuou no banheiro para lhe dar tempo, mesmo tentado a observá-la pela brecha da porta. Vencido pelo instinto, se lembrava muito bem de já tê-la visto seminua uma vez e lamentava não terem aproveitado da oportunidade dada a ambos naquele dia.
Achando que já tinha dado tempo suficiente, olhou através da brecha e algo lhe chamou a atenção. Chris acabou percebendo que ela tinha uma faca presa dentro do coldre interno da coxa, que ficava sobre a meia calça escura. Jill retirara o coldre, deixando-o sobre a escrivaninha e logo removia a meia calça enquanto a camisa já cobria o alto das coxas.
Já vestida com uma calça folgada, Jill caminhara até o coldre e tirou a faca de combate de Chris com um sorriso de canto. Ele finalmente deixou o banheiro e ela notou sua aproximação.
– Quando estive em seu apartamento, eu peguei tudo o que estava lá que julguei importante e trouxe para cá. Inclusive o saco de pancada que nem tem lugar pra pendurar aqui. – Jill ria ao apontar para as caixas amontoadas no canto daquele ambiente. – Espero que não se importe com a camisa... estou com quase sem grana para levar as minhas poucas peças na lavanderia, já que tenho que priorizar o uniforme.
– Jamais me importaria.
– Se quiser tomar um banho ou trocar de roupa, fique à vontade... suas roupas estão ali. – Ela apontou com a ajuda da faca em sua mão. – Ah, é melhor te devolver isso.
– Minha faca? – Chris ainda sentia o cabo aquecido pelo contato anterior da pele dela e a removeu da bainha para analisa-la.
– Ela estava ensanguentada quando a encontrei, mas eu a limpei para usa-la. – Jill sentia que a conversa descontraída rumava ao infortúnio. – Eu só temia que fosse seu sangue.
– Não era o meu. Foram meus últimos movimentos em que a usei para me defender. Depois de me livrar do último agente com ela, saí pela sacada até sumir da vista deles.
– Imagino... Eu passei por isso no dia em que... enfim. Deixei muitas pesquisas para trás. A sorte é que naquela semana, acabei enviando alguns documentos e relatórios importantes para Barry, já que é o único de nós que realmente tem um lar fixo. – Jill apontou para os papéis sobre a escrivaninha. – Isso foi tudo o que trouxe e eu preciso juntar mais coisas. Agora você está aqui, podemos trabalhar juntos nisso outra vez. Livres da opressão dos comprados daquela maldita empresa e sem os olhares vigilantes daquele traidor desgraçado.
Jill segurou firme nas mãos dele, como se pudesse se juntar a Chris finalmente, como haviam planejado outrora. Era a primeira vez em meses que ele sentia seu toque e experimentara uma boa sensação. A motivação dela em assumir uma postura ofensiva naquela causa era admirável. Contudo, ele não tinha aparecido ali para refazer uma aliança e sim, para desfazê-la. Apreciando o olhar confiante dela, uma voz do subconsciente de Chris pedia para repensar em impedi-la de seguir naquele propósito, tal como tinha convencido a Barry.
– Tem mais uma informação que eu preciso te contar. – Chris declamou com um olhar depressivo e percebeu o desconforto imediato dela ao soltar as mãos dele.
– Eu não gostei desse tom.
– Wesker está vivo.
Chris embananou os pensamentos dela com aquelas palavras. Sua mente não conseguia processar ou enxergar uma coerência naquela frase. Entretanto, a seriedade de Chris demonstrava que ele tinha total certeza do que dizia. Ainda desacreditada, Jill negava com a cabeça enquanto sua boca continuava aberta em espanto.
– De onde… você tirou essa informação?
– Eu o vi com meus próprios olhos. Ele também estava em Rockfort atrás de seus próprios interesses. Na hora em que eu o vi, minha mente virou uma arruaça, por saber que Claire também estava ali. Eu temia pela vida dela.
– Então... esses ferimentos foram... – Jill analisava o rosto dele.
– Sim. Ele continuava demonstrando desprezo sobre nosso esquadrão. Estava em sua forma mais demoníaca e mais patético do que tudo o que já havíamos presenciado. Ele debochava de nós... todos nós. Eu não quis deixar barato e quando nos atracamos percebi que ele não era mais humano, se é que me entende. Ele quase acabou comigo. A força usada foi completamente sobre-humana. – Chris rebobinava o momento em sua mente. – Wesker não cansava de repetir o quanto era superior a todos.
– Então, espera... ele está vivo porque foi um experimento do laboratório da mansão?
– É a única conclusão plausível para ele ter sobrevivido. Nós o vimos morrer ali, lembra?
Jill colocou sua mão sobre a boca enquanto tremula, ponderava sobre tudo ao mesmo tempo. Sua aflição em saber de tudo o que enfrentara na mansão, misturado às perdas dos amigos mais próximos de forma desumana, a perseguição contra a vida deles onde ela teve de derrotar a maior arma biológica que já tinha encontrado, enquanto Chris fugia dos autores daquela armadilha, nada se comparava com a decepção de saber que Wesker ainda estava vivo. Uma sensação de justiça através da vingança se prendeu aos olhos dela, tal como as lágrimas contidas.
– Precisamos ir atrás desse desgraçado!
– Não, Jill. Não como estamos agora. Nunca seríamos páreos para alguém como ele e se entendi bem... Wesker tem homens trabalhando para ele. – Chris abaixava a cabeça em desânimo. – Na verdade, eu temo que ele venha atrás de nós. Não podemos agir instintivamente nisso. Não quando ainda estamos em desvantagem e sem recursos.
Ela pensava em tudo o que tinha perdido e como nada poderia voltar atrás. Nada poderia trazer de volta a vida tranquila de antes, muito menos poderia mostrar algum sinal de um futuro seguro. As incertezas bagunçavam sua mente e era como se ela se encontrasse novamente presa e vigiada em seu apartamento em Raccoon, de mãos atadas enquanto apenas tranquilizantes lhe dessem o prazer de um bom descanso.
Jill se aproximara da cama e se sentara ali. Sem conseguir mais segurá-las, permitiu que as lágrimas que outrora embaçavam sua visão finalmente escorressem em puro temor e ódio. Começara a se deixar dominar pelo medo da realidade enquanto o sentimento de fragilidade se apoderava dela. Chris entendia exatamente como ela estava se sentindo, porque também compartilhava da mesma angústia desde que tinha escapado de seu embate com Wesker. Os inimigos estavam com a maior vantagem naquele momento.
– Nesse caso, é melhor avisarmos ao Barry para não vir mais com a gente, pelo menos não agora. – Jill ergueu a cabeça em direção a Chris que se encontrava observando-a. – Wesker está vivo e ele pode usar dos mesmos artifícios contra a família dele novamente.
– Principalmente agora que estão cuidando da Claire. – Chris completou em preocupação. Jill esboçava um desespero contido enquanto Chris observava toda a aflição dela sem nada poder fazer.
– Mas que droga, Chris! Já não basta os agentes da Umbrella, agora esse desprezível também anda impune por aí depois de tudo o que fez com os nossos amigos. Olha o que ele fez com você. Injustiça de merda! Quando isso vai acabar? – Jill se mostrava irada.
Chris percebera o quanto a Jill tinha mudado nos últimos meses. A tranquilidade para lidar com esse assunto sumia no meio da apreensão intensa dela, isso a fazia rasgar o peito em revolta e colocar para fora tudo o que sentia. Em contrapartida, ele se encontrava exausto o suficiente para não se exaltar como ela, como fazia no início e por isso se encontrava inerte. Na verdade, Chris estava literalmente machucado de tudo o que passou nos últimos dias e a personalidade exaltada dela demonstrava um sentimento que ela outrora tentava reprimir para se mostrar perseverante na causa.
Ao abaixar a cabeça procurando se acalmar dos xingamentos que acabara de proferir, Chris notou que Jill finalmente chorava. Não eram apenas lágrimas que caíram ou apenas gotas que rolavam em seu rosto. Jill soluçava enquanto suas mãos repousadas sobre os joelhos se contraiam para conter sua fúria do sentimento de impotência. Ele teria que deixá-la experimentar aquele momento. Provavelmente era a primeira vez em que ela colocava para fora todo o sentimento enlutado e ferido pela traição e pelo luto que sentia por todos a quem perdeu.
Ao perceber que ela começou a incomodar-se com o sentimento exposto, Chris se sentou ao seu lado na cama para servi-lhe como um amparo, escorando a cabeça dela em seu peito secretamente lesionado. Ao perceber a tranquilidade que Chris demonstrava com a caótica situação, Jill se surpreendera. Os dedos grossos sobre sua face procuravam secar suas lágrimas enquanto ele olhava para ela, transmitindo uma paz por trás dos olhos cansados.
– Tudo bem em colocar isso para fora. Imagino que não foi fácil o que você passou nos últimos dias. Nem sei como ainda consegue ser tão forte, Jill.
Jill se afastou e discordou dele ao encará-lo. A ponta do nariz dela se avermelhava a cada segundo, enquanto a maquiagem borrada decorava aquela aflição. Ela se sentia em seu momento de maior fraqueza porque o medo de saber do perigo que os assolava não lhe daria mais descanso.
– Eu... só queria... – Jill pausou sua fala para tentar formar uma frase mais contundente. – Achei que quando te encontrasse, eu teria paz. Agora eu tenho medo que aconteça algo com a gente... ou com você.
Chris notou que na última frase a voz dela se embargara. Ele não tinha como rebater ou suavizar aquela situação crítica. Então a trouxe para perto novamente, enquanto a mão direita afagava suavemente o braço dela como se conseguisse aquecê-la de toda a frieza que ela sentia da vida. Como se acalmasse um bebê choroso. Era a primeira vez em meses que eles se aproximavam daquela forma. Ele permaneceu abrigando-a até que ela se sentisse confortada, como costumavam fazer um com o outro meses atrás. Já se sentindo melhor, ela se afastou delicadamente e caminhou até o banheiro.
Chris ouvia o barulho da água da torneira batendo na porcelana da pia e imaginou que ela estivesse lavando o rosto para se recompor. Aos poucos, ele começava a temer ter que dizer a ela o motivo de estar ali e seus olhos fitaram a escrivaninha. Se dirigindo aos papéis na qual ela estava trabalhando em investigação, os manuseou para entender até onde ela estaria envolvida para tomar uma atitude plausível.
Se espantou ao ver uma foto de um rapaz bem apessoado, cabelos sobre a testa e pele morena, usando um uniforme de algum serviço paramilitar da Umbrella que ele desconhecia. Olhando o verso, encontrara anotações com a caligrafia de Jill.
Carlos Oliveira é um cabo da U.B.C.S. Ele foi um cara bacana que acabei conhecendo no incidente de Raccoon City e o principal responsável por eu estar viva. Claro, ele mal sabia para quem trabalhava. Ele me conseguiu a vacina e juntos escapamos com vida da cidade. Ele me prometeu que me daria mais informações sobre a Umbrella no início de 1999. Ele não está do lado deles, está do nosso. Espero que cumpra sua promessa de me ajudar com as investigações. Estou contando que ele não vai falhar comigo, porque ele me parece ser um homem de palavra.
Chris tinha tido conhecimento sobre o tal Carlos e não conseguia evitar sentir uma pontada de ciúme. A última frase escrita o incomodava por saber que estava prestes a não cumprir sua palavra com ela, já que estava ali para pedir que ela recuasse. Teria que afastá-la dali por uma causa muito maior, sua própria segurança, que era a coisa mais importante do que qualquer mudança de planos. Apenas esperava que ela entendesse e acatasse seu pedido.
Barry lhe contara sobre o rapaz e o que aconteceu com a Jill no incidente, sua infecção e cura através do cabo. Desde que tomou conhecimento sobre tudo o que ela lidou, sem que estivesse ali para lhe dar suporte, Chris arrependia-se de ter deixado Raccoon tão cedo, mesmo que tivesse ido para a Europa no intuito de não deixar tudo o que passou acontecer.
Analisando a diligencia que ela tinha com aqueles papeis, Chris reconhecia todo seu esforço. Jill era a pessoa perfeita para atuar ao seu lado. Como se ela fosse um exército inteiro que ele precisava de apoio para atuar contra aquele inimigo oculto. Ter que deixa-la para trás, no intuito de protege-la, não seria fácil, mas faria aquilo por ama-la, mesmo sem nunca ter expressado essas palavras a ela. Chris queria o melhor para ela e sabia que ela ainda poderia ter um futuro plácido, longe de toda uma agonia cotidiana que ele enfrentava diariamente. Ele jamais poderia lhe dar uma vida tranquila, um futuro com planos ou mesmo uma família enquanto preso naquelas condições. E aquilo era tudo o que ele queria ter vivido com ela antes da mansão.
Devolvendo a foto à escrivaninha perdido em pensamentos, Chris pode perceber que ela se aproximava por trás e então se virou, encontrando-a com um rosto tranquilo. De forma mágica, Jill deixara a menina medrosa e fraca para trás e agora se apresentava em sua versão mais corajosa e ousada, com olhos que brilhavam cheios de determinação.
– Desculpe por essa cena, não vai mais se repetir. Agora que você está aqui e... eu deveria ser grata por isso. Nem acredito que nos encontramos ainda esse ano. – Jill demonstrava confiança enquanto Chris engolia seco. – Temos um ao outro para contar, não é... parceiro?
Chris abaixou a cabeça em frustração sem respostas. Não conseguia responder a ela algo que não aconteceria mais. Portanto, apenas se desviou dela sem dizer uma palavra, deixando-a confusa. Foi até sua mochila e a prendeu nas costas. Quando finalmente se voltou a ela, encontrou-a com as mãos presas na cintura.
– Posso questionar o que você está fazendo? – Jill demonstrava uma estranheza. – Você não pretende desaparecer novamente, não é?
– A gente sabe o que tem que ser feito. É melhor você aproveitar a liberdade que ainda tem, então... deixe tudo isso pra trás e tenha uma boa vida enquanto pode.
– Ei, você não pode fazer isso. – Jill se aproximou dele. – Primeiro... sua vida está em perigo e comigo aqui, você está seguro. E depois... como assim, deixar tudo isso pra trás?
– Jill... – Chris suspirou encarando o rosto indignado da mulher. – O que eu vim fazer aqui... a minha vontade é que você se junte a Barry e os demais. Lidar com isso tudo nunca será seguro para você e comigo, nunca estarás segura.
– Espera, onde quer chegar com esse assunto?
– Eu quero que se junte a eles. Quero que se protejam enquanto não são alvos. Eu já estou marcado na lista deles. Se eles fizerem algo contra você por minha causa... jamais me perdoaria.
– Isso é loucura. Eu tô com você nessa. Somos parceiros, lembra? – Jill cruzava os braços enquanto Chris demonstrava impaciência.
– Olha, isso não é vida. Eles me perseguem dia e noite. Eu não tenho mais descanso e você... tem toda uma vida pela frente. Você precisa de uma vida de verdade, longe dessa insanidade, como você planejava...
– Viver de verdade? – Jill o interrompeu. – Chris, a gente fazia parte de um esquadrão de força tática! Uma fiação cortada erroneamente e boom! – Ela gesticulou junto com o som e em seguida mostrou um rosto brando. – Eu não estava lá por diversão ou para uma vida de verdade. Estava lá para salvar vidas. É o que sempre quis fazer e não consigo me ver fazendo outra coisa. É o que temos que fazer juntos agora.
– Não... uma coisa é querer salvar vidas, outra coisa é morrer em vão. Porque é isso que vai acontecer comigo. Sou um pequeno grão de areia numa praia de inimigos. Umbrella, Wesker e logo mais o governo, as autoridades... Não há mais volta atrás para mim, mas você ainda tem como fugir disso. – Chris se aproximou e lhe afagou os ombros, subindo suas mãos em volta do pescoço dela carinhosamente. – Por favor, escute o que eu estou propondo... é o melhor para você!
Jill suspirou e se desvencilhou dele irritada, caminhando ao redor para espairecer. Chris era irresoluto e se o conhecia bem, naquele momento uma discussão infinita iria acontecer. Ela não tinha mais nenhum argumento nem como convencê-lo do contrário e por isso, apenas deixou a apatia e a revolta se apoderar dela novamente.
– Não acredito que você apareceu aqui só pra me dizer isso. Eu preferia que você nem viesse aqui. Achei que teríamos um reencontro definitivo, não uma nova despedida. – Jill expôs em desapontamento.
– Desculpe. Um dia você vai entender o porquê que tomei essa decisão. Não estou fazendo isso porque quero, nem porque te odeio, eu... – Chris encarou a face dela contendo a impetuosidade de suas palavras e abaixou a cabeça apertando os lábios. – Apenas... faça o que eu estou propondo e vá embora. Quando tudo isso acabar, se eu ainda estiver vivo, eu vou te procurar e quero te encontrar bem.
Chris levantou sua mão para afagar o rosto dela, sabendo que em poucos segundos ali cairia uma lágrima. Antes que isso acontecesse, Jill deu passos para trás em afastamento. Desacreditada, ela sorriu sarcasticamente enquanto negava com a cabeça, porque não queria mais um afeto de despedida. Observando-o caminhar em direção a porta, ela tomou fôlego enquanto preparava uma fala prepotente.
– Não vou parar minhas investigações e não vou embora para me proteger. Vou continuar o que estou fazendo agora com você ou sem você.
– Não vai não! Por favor, entenda! – Chris se virou de volta para ela com um olhar irritadiço. Se descontrolava porque sabia que ela não facilitava nada daquele jeito. – Você nem suportaria vivenciar o que eu estou passando.
– Eu conheço meus limites. – Ela continuava com um tom altivo. – Se estou me envolvendo nisso é porque sei que dou conta. Não precisa me desmerecer pra me fazer mudar de ideia.
– Claro que você sabe lidar... afinal, conseguiu muito bem não se infectar enquanto escapava de Raccoon, não foi? – Chris sentira um ódio de si mesmo ao abordar aquilo enquanto ela o encarava estranhando o atrevimento dele ao bradar aquelas palavras. – Eu não sou seu amiguinho da Umbrella que conseguiu reverter seu caso com uma vacina porque eu não trabalho para eles.
– Você não sabe nada do que diz! – Jill gritou de volta no mesmo tom. – Barry não te contou metade do que aconteceu porque eu ocultei dele muita coisa para o bem dele.
– Barry me contou o suficiente para eu entender que não posso te levar comigo nessa.
– E você está usando isso como arma para seus próprios interesses, usando meu pesadelo contra mim, como aquele babaca que você costumava ser. – Jill esbravejava cada palavra furiosa e isso fez Chris tomar consciência do estrago que estava causando. – Não trate isso dessa forma banal, Chris. Como acha que eu me sinto sabendo eu consegui uma vacina a tempo enquanto assistia todas as pessoas ao redor se extinguirem bem diante dos meus olhos? – Lágrimas correram de seus olhos enquanto ela procurava se acalmar. – Eu estou carregando uma culpa de não poder ter salvo ninguém além de mim e Deus... eu tive que ver a cidade inteira desaparecer em cinzas.
Ao recordar-se da imagem que assistia enquanto era resgatada, Jill se abraçou procurando se autoconsolar enquanto recuperava o fôlego que perdera momentaneamente em emoção.
– Porra... eu sinto muito. – Chris passou a mão no testa e abaixou a cabeça em decepção.
– Essa luta não só sua, Chris. Se quiser ir embora pra trabalhar sozinho, vá. – Jill se aproximava dele secando as bochechas com a manga da camisa, encarando-o com desprezo. – Mas não ache que vai conseguir me impedir porque não vou parar.
Chris deu poucos passos para trás assustado com tudo o que tinha ouvido enquanto ela o encarava muda. O silêncio só não era predominante porque ambos ainda escutavam a música do rádio. Consequentemente, ela passou por ele e girando a chave da porta, abriu-a.
– Adeus, Chris.
Jill voltou a encará-lo e notava os ferimentos dele com compaixão. Por mais que estivesse irritada, não podia esconder sua vontade de querer cuidar dele, porque entendia os reais motivos pelo qual ele insistia naquele objetivo. Ele queria cuidar dela, mesmo sem saber como fazer isso acontecer, então insistia no óbvio. Ter que se separar de Chris, com ele naquele estado, machucava seus sentimentos e trazia lágrima aos olhos.
– Eu sei que você precisa de cuidados. Ao contrário de você, eu estava disposta a enfrentar tudo para ficarmos juntos. – Jill confessou com sinceridade e passou por Chris.
Ele a observava enquanto ela abria a janela. Um vento fresco invadiu finalmente o apartamento e apagara todas as luzes das velas. Jill apoiou uma das mãos sobre a base da janela e com um salto, pulou para o lado de fora. Subitamente, ele sentiu um suor frio, mas se tranquilizou ao vê-la do outro lado, onde provavelmente havia uma sacada. Momentaneamente, ele tinha se esquecido de como eram os apartamentos parisienses.
Com um último olhar sobre Chris, Jill fechava a janela antes que o vento esparramasse os papéis do lado de dentro. Encarou-o tristemente enquanto ele ainda olhava em sua direção paralisado. O plano que tinha idealizado para que ela desistisse dele não havia funcionado e ele agora tinha muitas razões para não mais ir embora e sim, para permanecer ao lado dela. Ele sabia o que precisava ser feito ao saber que ela continuaria naquela causa com ele ou sem.
Observando-o ambiente, notara que aquele lar era aconchegante, embora estreito. Foi o primeiro lugar em que tinha ido, fora a casa de Barry, onde sentiu segurança. Jill estava ali. Então ele pode entender que ela o fazia se sentir em casa porque ela era seu lar. Quando ela se afastou da janela, Chris sentiu um estalo.
Chris virou-se para a porta e a fechou, girando a chave para trancá-la ainda do lado de dentro. Lentamente, deixou a mochila no chão e seguiu para o lado de fora da sacada, mesmo temendo estar em evidência. A encontrou sentada no parapeito de ferro da sacada, com os pés descalços para fora, que balançavam no ar enquanto ela se segurava ali com ambas as mãos agarradas no ferro.
As gotas de chuva, como orvalho, caiam sobre suas peles. Jill admirava a felicidade das pessoas que celebravam na rua, cantando sobre o novo ano. Amantes exibiam caricias, crianças brincavam juntas e amigos sorridentes caminhavam em direção ao arco da praça principal, vivendo prazerosamente as últimas horas do ano de 1998.
Chris se aproximou e apoiou os cotovelos no parapeito próximo a ela. As lágrimas dela já estavam secas, formando um pequeno caminho borrado embaixo dos olhos. Mas em seus lábios estava o sorriso otimista de sempre, enquanto podia sentir a energia emanada das crianças que corriam pelas ruas ladrilhadas, sem olhar para o homem ao lado.
– Me lembro que você me disse que tinha medo de altura. – Chris se referia a maneira com que ela se encontrava, tão suscetível ao perigo pela forma como se comportava.
– Depois daquela mansão, meus medos se tornaram mais terríveis do que um vôo gravitacional ao chão. Eles não são mais físicos. Agora estão bem aqui. – Jill soltou uma mão momentaneamente e bateu com o dedo indicador em sua têmpora.
– Eu posso imaginar o estrago. Quando soube que você tinha sido infectada, me senti culpado por não estar lá. Passei a temer o pior com você e temo que você se torne alvo novamente, tenha traumas piores ou que... eu acabe te perdendo numa dessas armadilhas. – Ao expor aquilo, Chris notou que Jill se voltava lentamente a ele. – Eu queria que você fosse embora por isso, mas errei ao ter diminuído suas batalhas. Me perdoe por ter sido um babaca novamente. Não vim aqui para te magoar outra vez, mas cá estou eu... errando de novo. – Chris debochou de si mesmo. – Você não merece ter que lidar comigo, Jill.
– Eu entendi suas intenções. Mas todas as vezes que você pretende proteger alguém, sempre acaba como um insensível, sabia? – Jill esboçou um curto riso. – Eu te conheço muito bem pra conseguir discernir suas verdades e sei que tens um coração enorme. Quer cuidar de tudo e de todos, mesmo sem condições. Mas nunca deixa ninguém cuidar de você. O que é uma pena, já que eu também vim à Paris nesse intuito.
Ao perceber o que ela tentou implicar, ele pode estimá-la. Depois que perdera seus pais, sua independência e responsabilidade o transformaram em um homem exigente consigo e com os demais, sem se permitir ser guiado ou direcionado por ninguém. Naquela hora, pode compreender o poder que Jill tinha sobre ele a ponto de fazer com que ele se rendesse à suas vontades por saber que nela, ele jamais se decepcionaria em confiar. Aproveitava daquela descoberta, embora sua consciência ficasse em alerta sobre a ousadia dela de se pender da forma em que fazia sobre o parapeito.
– Você não vê que eu preciso lutar continuar lutando da mesma forma que você? – A voz dela cortara o silêncio enquanto se encaravam. – Porque diferente de você, que é foda o suficiente para sair ileso de tudo, eu conheço a sensação da morte. Não temo mais pelo meu corpo infectado ou imunizado. Temo pelo seu, que é saudável e das milhares de pessoas que nem sabem da conspiração oculta que pode facilmente explodir do nada e afeta-los enquanto celebram a vida. – Jill passou os olhos pela multidão e olhou para o céu cheio de nuvens que refletiam a luz da lua. – Se não quiser um peso morto como eu ao seu lado, tudo bem. Eu vou estar lá de qualquer jeito. Porque eu sei que um dia você vai precisar de mim e não quero que sinta a solidão que sente agora.
Jill dizia cada palavra em calma, tentando esconder o desgosto de saber que ele ainda poderia partir a qualquer momento. Reconhecendo o erro de tê-la frustrado a tal ponto de se sentir um peso morto enquanto ela ainda mantinha sua postura de ser seu amparo, Chris se sentia um desprezível e precisava urgentemente de redenção.
Ele alcançou a mão dela que estava apoiada sobre o ferro e a tocou. Jill olhou para ele imediatamente, sentindo o toque tépido que a aquecia da ventania. Enquanto se encaravam, puderam sentir o universo os reconectando novamente, reconstruindo e reforçando a ponte que quase quebrou. Era tarde demais para fugirem um do outro quando sabiam que era impossível uma separação. Tinham coisas para compartilharem, lutarem ou desvendarem juntos, tal com o sentimento enigmático que tinham um pelo outro.
– Me perdoa? – Chris tentava segurar sua emoção. Ela virou sua mão para se entrelaçar com a dele, como se pudesse responder positivamente ao questionamento. – Será que podemos voltar no tempo para eu lhe fazer uma nova proposta?
– E qual seria essa proposta?
– Bem, a pessoa miserável que me tornei não tem planos de longo prazo. Nem sei por onde começar. Já você, tão dotada de qualidades, que fez muito mais do que eu em pouco tempo... bom, seria uma honra ser seu parceiro, se ainda me aceitar como um.
– Você não é nenhum miserável. Você foi o cara que deu início a tudo isso. Eu sempre soube que tinha alguma coisa especial em você, Redfield. Que bom que te encontrei na hora certa. – Jill apertava mais sua mão à dele, lhe passando confiança necessária junto as suas palavras. – Um dia, a gente vai conseguir fazer justiça sobre tudo o que passamos. Mesmo que não tenhamos nenhum apoio ou recurso agora... vamos fazer grandes coisas juntos. Apenas, confie na sua parceira aqui.
Chris deixou de escorar no parapeito e se pôs de pé ao ter ouvido aquelas palavras. Demonstrava satisfação e esperanças mesmo para um futuro incerto, porque não se sentia mais solitário. Enquanto sua mão ainda segurava as dela, ele estendera outra timidamente para guia-la de volta a sacada. Quando ela soltou a mão que ainda a mantinha em equilíbrio sobre o parapeito para encontrar a mão dele, em um curto movimento errôneo, sua perna escorregara. Se Chris não tivesse abrigando-a em suas mãos, em poucos segundos, Jill estaria estirada sobre a calçada à aproximadamente vinte metros de onde estavam. Pessoas passavam na rua sem se darem conta do que acontecia no alto de suas cabeças, ainda distraídas com a festa de réveillon e com a música alta.
Chris a segurava com força, tentando não expor o grunhido de dor que sentia ao pressionar seu peito contra o parapeito, enquanto a mantinha pendurada sobre a sacada com seu corpo completamente flutuando no ar. Segurando-a com ambas as mãos agarradas nas delas, sentia as próprias começarem a escorregar de suor enquanto não tinha forças suficiente para erguê-la, já que seu corpo se encontrava lesionado devido ao embate com Wesker. Ele tentava apenas mantê-la ali até que conseguisse se agarrar nos ferros para subir. O que acabava atrapalhando aquele plano era o medo, que fazia com que Jill, continuamente muda, apertasse os olhos com força para não assistir sua própria iminente queda.
– Jill, tente alcançar o ferro do parapeito, ok? – Chris a ordenou. Contudo, Jill ainda mantinha os olhos fechados. – Jill, abra os olhos e segure no ferro.
Numa primeira tentativa ainda com olhos fechados, uma das mãos dela tentara se agarrar em uma parte da grade. Quando ela finalmente abriu os olhos, se segurando ali para se salvar, ela escorregou por causa do ferro molhado. Nesse momento, ela deu o primeiro grito de temor, mas ninguém na rua a ouvira. Chris teve de suportar mais uma pressão que o corpo dela fez quando se soltou novamente. Ele rangia os dentes enquanto tentava não expor a dor que sentia enquanto uma pontada forte em seu músculo intercostal começara a afetar sua respiração e tornava tudo altamente lancinante. Desesperado pela circunstância, sabia que apenas ele poderia trazê-la para cima, mesmo sem condições físicas para tal.
– Segura firme, Jill. Me dê a outra mão outra vez e olha pra mim. Eu não vou te soltar. – Ao ouvir aquilo, ela abriu os olhos e inclinou a cabeça para ele. – Vou te dar impulso e você tenta vir para cima, ok?
Jill assentiu, sentindo uma súbita confiança. Enquanto olhava para Chris, perdeu o medo de cair porque sabia que ele a traria de volta de qualquer jeito. Em uma contagem regressiva dele, ela fez o que ele propôs e alcançando altura suficiente, se agarrou a grade e com um movimento habilidoso, ela pulou para dentro da sacada, ainda sem acreditar que tinha conseguido. Com os pés sobre o chão firme ainda tonta do susto que experimentara, ela notou que Chris se encontrava pálido, com pernas bambas, encostado na parede da sacada. Com suas mãos sobre o diafragma, ele demonstrava falta de ar. Ela se aproximou dele, sem entender o que lhe acontecia, profundamente aérea dos últimos momentos.
– O que houve? O que está acontecendo com você?
– Eu preciso de... remédio, para dor. Na mochila. Por favor. – Chris solicitou com uma voz afobada.
Sem entender o que acontecia, Jill o ajudou a retornar ao apartamento e o sentou na cama, encostando suas costas na parede depois de organizar almofadas, para deixá-lo reclinado. Imediatamente acendeu a vela do lado da sua cama para uma melhor nitidez. Chris continuava se esforçando para respirar enquanto ela, buscando os remédios na mochila dele, tentava entender o que estava acontecendo. Logo, Chris começara a grunhir de dores já que não conseguia mais escondê-las. Tinha deixado lágrimas escorrerem ao sentir pontadas no peito e suava ao abraçar a si mesmo com braços agitados. Ao perceber a diligencia na qual ele segurava em seu torso, ela tentava verificar a área, mas ele tentava ocultar dela suas lesões, para não a preocupar.
– Chris, eu preciso saber o que está acontecendo.
– Eu estou bem. Isso já... vai passar. – Ele gesticulava calmo, embora sua voz soasse ofegante. – Eu só... preciso de remédio.
– Preciso examinar você! – Bradou imperativa.
Hesitantemente, Chris concordou. Jill cuidadosamente lhe tirou o casaco e pode ver pequenos arranhões e cortes superficiais em algumas áreas do antebraço. Por fim, tentou tirar a camiseta que ele usava, mas ao perceber que ele começara a demonstrar fortes sinais de dor com aquele movimento, ela decidiu por rasgar o tecido. Finalmente contemplando as grandes marcas arroxeadas por toda a parte de seu tronco, ela entrou em pânico. Imediatamente, organizou os remédios para aquele fim e torcia para que eles fizessem efeito instantâneo. Ela sofria ao notar o desespero e a dor que ele sentia ao engolir os remédios, porque todas as vezes que movimentava seu peito, ele urrava discretamente.
Ao tentar tomar o último remédio, Chris se engasgou e tossiu. Nisso a água, misturada ao sangue que ainda expelia, jorrara sobre seu torso machucado. Assustada ao notar a gravidade de sua saúde, tendo de limpar seu tronco molhado de sangue, Jill imaginava o porque que Chris insistia tanto para que ela fosse embora. Não era somente a mente dele que estava lesionada. Era praticamente o corpo inteiro. Insistindo novamente, tentando acalmá-lo, ele finalmente engoliu o remédio.
Ao nota-lo ainda ofegante, enquanto secava o suor de sua testa, a mente de Jill a culpava por ter, acidentalmente, piorado a situação dele e temia que sua saúde fosse comprometida.
– Eu vou chamar uma ambulância.
– Não! Se me encontrarem, eu morro. Eu prefiro morrer aqui com você. – Chris balançava a cabeça em negação e segurou a mão dela. – Fique aqui comigo. Eu já vou melhorar.
– Eu já volto.
Mesmo perplexa, Jill correu até a porta e deixou o apartamento por alguns minutos. Chris ficou sem entender aquela reação e sabia que não poderia impedi-la por não ter condições para fazê-lo. Seus olhos pesavam e ele se deixou levar. Acordara com o barulho da porta que se abriu abruptamente. Jill aparecera novamente com um cooler cheio de gelo e se sentou na beirada da cama enquanto Chris despertava vagarosamente.
– Fui atrás de gelo pra fazer uma compressa. Um vizinho no primeiro andar está dando uma festa. Ele me emprestou o cooler desde que as bebidas já acabaram. – Ela manuseava o gelo sobre o que sobrara da camiseta de Chris. – Se te contasse que faria isso, você não me deixaria ir buscar.
– Não queria se que incomodasse. – Chris se mostrava cortês. – Não ache que quero controlar você.
Jill olhou para ele debochando de sua última frase, mesmo bastante reflexiva. Finalmente entendia os motivos de Chris na discussão que tiveram, tal como podia admirar todo o cuidado que ele teve pra não a deixar cair daquela altura, até se machucando daquela forma para salvá-la. Com todo o cuidado, ela repousara a compressa improvisada sobre o peito dele e percebeu o incômodo dele com aquele contato.
– Desculpa por isso. – Jill esboçou um desconforto com toda situação e ele apenas assentiu, mostrando domínio sobre sua dor. – E também por ter piorado sua situação. Eu... não imaginava que você já estava assim.
– Não se preocupe, já sofri coisa pior. Essa nova dor vale a pena porque você está aqui. – Chris dizia pausadamente ao assisti-la trabalhar em cuidados. – Nem sei o que eu faria se você tivesse... eu quase perdi você.
Chris olhava para ela em perplexidade e admiração pelo bom desfecho. Emocionada, Jill continuava cabisbaixa, focada em aliviar sua dor com a compressa improvisada. Ficaram em silêncio enquanto escutavam o som dos primeiros acordes de "You can close your eyes" de James Taylor e se deixaram escutar o restante da letra sobre a melodia. Jill cantarolou a última parte da música enquanto se questionava.
– Você não vai embora, não é?
– Não, enquanto você não terminar com a compressa. – Chris comentou com um sorriso de canto, fazendo a mulher parar o que fazia para olhar para ele desacreditada enquanto expressava uma carranca, então riram discretamente.
– Não quero que vá embora. Preciso cuidar de você. Agora mais do que nunca.
– E eu de você. Mesmo que não estando apto como agora. – Chris olhava a maneira com que ela diligentemente cuidava de si. Naquele momento, sentiu uma vontade imensa de dizer o que já havia guardado por tanto tempo, mas se conteve porque ela não olhava para ele.
– Ainda assim, me salvou. – Jill comentou quase imperceptivelmente, ainda focada na compressa.
Olhar para Chris nas condições emocionais nas quais se encontravam, seria insano. O único assunto que se encaixava como continuidade daquele era um que começara em uma noite como aquela no apartamento dela em Raccoon e que terminara inacabado. Mas o silêncio de ambos os levava a escutar mais um pouco de James Taylor, que deixava o ambiente muito mais apropriado para explorar questões sentimentais.
– Como está se sentindo agora? – Jill tirou a compressa olhando para o rosto dele.
– Bem melhor. Eu te disse que ficaria bem. – Chris olhou em direção à jarra de água na mesa, ao lado da vela. – Tenho sede.
Ela imediatamente serviu-lhe água e reparou que ele a ingeria sozinho sem maiores dificuldades. Em seguida, aproveitou que estava de pé e desligou o rádio. Nesse momento, Chris olhou o relógio e se sentou cuidadosamente, com os pés no chão. Jill se sentou ao seu lado e começou a manusear novamente a compressa para enche-la de um novo punhado de gelo. Consequentemente, deu a ele a nova compressa, para que ele mesmo se aliviasse.
– Quais são suas últimas palavras de 1998? – Chris a questionou, incomodado com o silêncio.
– Ainda é difícil me despedir desse ano. Nem sei como chegamos até aqui. Espero que daqui a um ano nós dois estejamos vivos como agora. – Jill tentava forçar um otimismo ao encará-lo de volta. – E você?
– Que estejamos juntos como agora. – Chris olhou para Jill que logo se virou para observar a janela apertando os lábios.
Ele a conhecia muito bem para entender o que acontecia com ela. Se mostraria hesitante e insegura para comentar sobre sentimentos, como da última vez. Mas faltava poucos minutos para o ano acabar e já tinham adiado por meses aquele assunto. Dando uma leve batida com seu joelho no dela, tomou a atenção dela. Logo correu seus dedos sobre as curtas madeixas do cabelo dela. Pode notar que ela não se incomodava com aquele toque e muito pelo contrario, se aninhava a ele com uma meiga encarada. Naquele momento, Chris sentiu a liberdade de dizer o que sua mente pedia para sussurrar para ela o tempo todo. – Você é tão linda. Espero que tenha me perdoado de verdade.
– Você sabe que eu já te perdoei. Não precisa me elogiar para isso. – Jill riu em timidez.
Mesmo nervosa, se provocava a se aproximar mais dele porquanto demonstrava vulnerabilidade e passou a ansiar por mais do toque dele. Percebendo isso, Chris correu as mãos que estavam em seus cabelos até se encaixar na lateral de seu rosto e roçava o dedão sobre seu lábio inferior, se lembrando do sabor dos dois únicos beijos que compartilharam há meses atrás e notou que nesse momento ela se virou para ele, olhando na direção de seus lábios, esboçando um sorriso instigante.
– Até onde a gente vai com isso, Chris?
– Eu te amo. – Chris declarou sem hesitação, sentindo um alívio ao dizer o que escondia por tanto tempo. – Eu tenho muita certeza disso.
Ela paralisara enquanto subia o olhar lentamente até os olhos dele depois de ouvir aquelas palavras. Elas causaram um colapso de informações que Jill não estava preparada para receber naquela hora. Era um passo a mais naquele relacionamento, uma nova aliança firmada e uma responsabilidade enorme para ambos. Contudo, não podia denegar o prazer de ter ouvido aquilo quando mal sabia como reagir aquelas palavras, mas podia acreditar veementemente nelas como uma verdade absoluta.
Trocavam sorrisos tímidos ao ponderarem sobre uma nova fase naquele relacionamento. Sem nenhuma palavra em mente para responde-lo, Jill apenas priorizava sentir o toque de afeto daquele sentimento declarado e se aproximava, dando liberdade para que ele iniciasse um beijo, como das últimas vezes. De repente, os fogos de artifício surgiram e explodiam sobre os céus de Paris com muito barulho, quebrando todo o momento afetuoso. Eles olharam para a janela podiam ver parcialmente o colorido do céu iluminando o apartamento parcialmente escuro e podiam escutar pessoas celebrando o novo ano de 1999.
Jill se levantou silenciosa e caminhou até a janela para admirar a visão, ainda meditativa. Não sabia o que fazer depois de ter ouvido aquela declaração. Queria retribuir imediatamente, por sentir o mesmo por ele, mas algo a impedia: a circunstancia em que se encontravam. Se envolver com ele naquelas condições, tão suscetíveis ao perigo do caos que enfrentavam, eram opções adversas demais para experienciar um relacionamento.
– Acha que é uma boa ideia? Nas nossas circunstâncias? Amor, nas nossas condições, é se arriscar demais, não acha?
– Se amar você custar a minha vida, eu aceito os riscos. – Chris se levantou em curtos passos e se aproximou dela. Levou suas mãos em cada lado da cintura dela e passou seu nariz na curva de seu pescoço, sentindo outra vez o perfume que não sentia há meses. Extasiado naquele vicio, apertava os dedos sobre o quadril dela, como se pudesse segurá-la para nunca mais partir. Mas antes que cedesse à sensação carnal de pressioná-la sobre si para um afeto mais intenso, ele precisava de mais uns minutos de moderação para mostra-la suas reais intenções. Seus lábios subiram do pescoço até o pé do ouvido dela. – Eu prometi a mim mesmo que só diria o que disse para alguém que valesse a pena. Não diria isso para mais ninguém, Jill.
Ao perceber que ela ainda se mostrava resistente àquele contato, sem notar o quanto que ela lutava para não o corresponder, ele se afastou. Voltara a se sentar na cama porque se a conhecia bem, sabia que ela precisava de seus momentos de reflexão, já que era muito indecisa, mas prudente.
– Nem sei o que dizer sobre isso. Nem sei como que isso pode funcionar com as investigações e perseguições. Não quero que a gente se desgaste porque tudo é tão bom da maneira como está... Deus! Tudo seria tão mais fácil se ainda estivéssemos na delegacia.
– Fica tranquila Jill! Não preciso que me responda ou assine nada agora, tá? – Chris deu um pequeno riso para lhe passar tranquilidade. – Não se preocupe porque minha prioridade, independente de como estivermos ou acima de qualquer causa, vai ser cuidar de você. Você nem precisa me dizer nada do que eu já sei.
Jill esboçou um sorriso hesitante e olhou para ele por cima dos ombros que ria em timidez. Dando uma pausa para se acalmar, se virou para ele e todo o quarto ao redor se tornara um plano de fundo, iluminado pelas luzes dos fogos. Caminhando até Chris, parou em sua frente e continuou em silêncio. Ele a encarava de volta, mas dessa vez, não daria as primeiras investidas. Deixaria Jill tomar liberdade de optar naturalmente por cada etapa, como se tivesse passado o bastão de domínio do momento para ela.
Ela assou os dedos sobre as áreas não machucadas do rosto dele em afago. Sentia uma profunda admiração pelo homem forte e resistente que ele era. Intercalando olhares entre os olhos e a boca, ela sorria se lembrando de sua voz grave e penetrante ao revelar que a amava. Repousando as mãos sobre os ombros dele, apoiou-se ali e inclinando-se, colou seus lábios trêmulos de ansiedade e desejo cuidadosamente aos dele, devido ao pequeno corte ali no canto. Instintivamente, Chris ergueu suas mãos e alcançou a cintura dela, enquanto forçava seu joelho a separar as pernas dela, até guia-la para se sentar sobre as suas.
A explosão de fogos diminuía gradativamente enquanto o beijo delicado e cuidadoso demandava mais paixão. Portanto, Chris passou explorar seu corpo com o toque de suas mãos, buscando maior contato com as zonas sensíveis de sua pele, por saber que aquele era o combustível a faria se entregar mais. Uma mão ao pescoço dela deslizava até o decote e ele encontrou ali o botão de sua camisa. Cessando seu beijo, se afastou ainda olhando para ela, enquanto sua mão parada sobre o botão, pedia uma permissão para caricias mais ousadas e ela assentiu.
– Não vou te machucar? – Jill questionou em preocupação, observando suas mãos descendo a cada novo botão aberto, já entendendo suas pretensões.
– Não. Isso vai me curar. – Chris subiu seu olhar até ela e segurou sua nuca para guiar seus lábios ao dela enquanto ela se livrava da camisa que fora ao chão em segundos. Descendo a mão que estava na nuca pelo pescoço, na direção de seus seios, seus dedos encontraram um item pendurado em seu colo. Dirigindo seu olhar até parte mais exposta de seu corpo, Chris encontrou o pingente que deu de presente a ela em maio. – Você ainda usa isso?
– Todos os dias. Meu amuleto da sorte. Estava comigo quando escapei da cidade. – Jill olhou para a peça na mão dele e então para Chris que parecia deslumbrado com o item. – Você nunca me perderia de vista, parceiro.
Chris mal podia mensurar a consideração por aquelas palavras. Ele, maravilhado, observava aquela mulher de alto a baixo, admirando com os dedos cada detalhe de sua pele exposta que brilhava em suor, se lembrando de quando morria de vontade de tê-la para si daquela forma, sem poder. Ela era um tesouro que ele lutara para conquistar e agora pertenceria a ele completamente.
– Acho que adiamos muito isso, sabia? – Chris comentou e ambos sorriram.
Mal se importava com a dor que ainda permanecia em seu corpo, quando seu coração se descontrolava, ansiando pela sensação que experimentaria pela primeira vez com ela. Jill trouxe para perto a única vela acesa, soprando-a até apagar. A luz do quarto se tornara unicamente o reflexo das ruas iluminadas da cidade mais romântica do mundo.
Ela deu um riso amável ao desatar o sutiã e Chris, ansiosamente, subiu suas mãos sobre os finos braços dela para ajudá-la a se livrar dele. Então, sentiu seus dedos passarem por uma grande cicatriz no braço dela, imaginando exatamente o que acontecera ali. Melancolicamente, Chris tentava atentar-se na cicatriz, mas Jill tomou aquela mão dele e a entrelaçou na sua. Com a outra mão, Jill circulou os dedos entre os cabelos dele, guiando sua cabeça em direção ao rosto dela e olhou em seus olhos.
– Amanhã pode ser tarde. Mas eu ainda estou aqui.
Ela sorriu e o beijou. Espontaneamente afetada, arrepiou-se, sentindo lágrimas escorrem dos próprios olhos sobre a face machucada dele, que mal sabia de onde viera. Parando para secar seu rosto, enquanto ele a encarava com olhos ardentes de desejo como nunca tinha o visto antes, ela sabia que tinha que confessar seus sentimentos.
– Eu te amo, Chris.
"Está tudo bem, não chore. Silêncio, limpe suas lágrimas. Nada dura para sempre. Durante a noite toda eu tentarei muito estar lá de alguma forma com você, até os primeiros sinais de luz. Diga uma palavra e eu virei esta noite. Querida, não chore."
