"Nunca te mostrarei que meu coração partido me machuca. Tenho meu orgulho e sei esconder minhas tristezas e sofrimentos. Se esperar por céus tempestuosos, não diferenciarás a chuva das lágrimas nos meus olhos. Nunca saberá que ainda te amo muito e só me restaram dores."

NOVEMBRO, 2007

Jill Valentine desaparecera há quinze meses. Completava-se um ano desde que encerraram as buscas e ela fora dada como morta. Já se imaginava um pior cenário de seu desaparecimento e encontrar seu corpo era uma impossibilidade. Contudo, não era assim que Chris Redfield acreditava. Por isso, continuava em uma busca diligente de sua parceira, porquanto se entregava em todas as operações e missões em diversas filiais da BSAA com aquele propósito, até que conseguisse uma ínfima possibilidade de encontrá-la. Qualquer suspeita do paradeiro de seu ex-capitão também era válida, já que ainda acreditava da teoria que Parker lhe repassara.

Enquanto atuava numa operação investigativa de instalações laboratoriais clandestinas em uma região semiárida no leste da África, liderada por Keith Lumley no mês de setembro, Chris acabara sofrendo um súbito desmaio, sendo encontrado horas depois, por uma das equipes aéreas, que por fim localizaram o carro em que dirigia capotado no meio da estrada sob um sol escaldante.

Sem sequelas físicas permanentes, o caso clínico de Chris compreendeu uma exaustão em demasia, que sugeria um distúrbio psíquico chamado de Síndrome de Burnout. Por mais que tentasse demonstrar que estava bem, pedindo à corporação para que não interrompessem suas participações nas operações as quais pretendia participar, Chris já apresentava sintomas gravíssimos daquela condição. Sem alternativas senão se tratar, a cúpula da BSAA o enviara de volta aos Estados Unidos.

Retornando ao país natal depois de quase um ano distante, Chris dera início ao tratamento em Washington D.C. Recusava-se a retornar à sua casa, em Nova Iorque, por questões pessoais. Felizmente, a capital americana era o novo lar de Claire, que tinha acabado de ser realocada para lá, a fim de estar à frente das relações públicas internacionais da TerraSave. Portanto, Claire viajava constantemente, dentro e fora do país, mas em seus horários livres, era seu irmão a quem ela supervisionava, sem que isso atrapalhasse sua rotina. Suas agendas lotadas acabaram por faze-la optar por morar em um hotel, subsidiado pela ONG.

No fim de seu tratamento em uma clínica psiquiátrica renomada em novembro, Chris passou a ponderar a possibilidade de voltar para sua própria casa. Entretanto sabia que seria devastador fazê-lo. Portanto, acabou por permanecer em Washington, instalando-se no mesmo hotel da irmã. Nesse período, por mais que ainda acreditasse veementemente em reencontrar sua parceira, passou a considerar algumas opiniões de especialistas e colegas próximos. Todos que o amavam e o encontravam cada vez mais decaído aos vícios, insistiam na ideia de que ele seguisse em frente. Até mesmo Claire passou a concordar com isso, priorizando uma melhora para seu irmão. Assistida por especialistas que a convenciam de que o melhor para Chris era não se prender à uma esperança embasada numa teoria que não conseguia se consolidar, Claire passou a tentar orientá-lo sobre seguir em frente, já que a busca por Jill se tornava cada vez mais desgastante para ele, mesmo que ela não quisesse deixar aquele caso sem respostas para trás.

Na semana em que Claire se ausentara de Washington, Chris tinha sido convocado a retornar ao trabalho. Porém não deixaria o país sem antes se despedir de sua irmã. Assim, programou seu voo de volta à filial do leste da África na tarde de uma sexta-feira, já que Claire apenas chegaria na manhã daquele exato dia. Sozinho em Washington na noite anterior, Chris olhava para as ruas através da sacada. Em sua mente, dilemas sobre suas condições o afligia dolorosamente. Meditando sobre a avaliação dos profissionais que tentavam lhe convencer a seguir adiante, ele pode se encontrar em conflito, pois dentro de sua alma havia um anseio em continuar buscando por Jill, apenas para encerrar esse caso dando aquela mulher a dignidade de um descanso tranquilo, caso já estivesse morta. Infelizmente vivia em uma bipolaridade de ideias contrárias as quais tinha que considerar apenas uma, quando a outra também se mostrava coerente, mas todas eram dilacerantes.

Aos poucos, sua mente transformava Jill em um passado distante automaticamente. Num sonho recente que tivera, Jill já não o reconhecia e o evitava, enquanto ele insistia em tentar faze-la se lembrar dele. Seu subconsciente já começava a trabalhar a ideia de que não mais a veria em vida novamente, mas seus sentimentos eram totalmente contra aquela linha de pensamento, deixando-o perturbado na maior parte do tempo.

Outro pensamento semelhante era saber aquela cidade abrigava a lápide de Jill e no dia seguinte se completaria um ano em que ela tinha sido instalada ali. Por mais que detestasse a ideia de saber que Jill tinha uma lápide, Chris passara a semana inteira atraído em ir observá-la com seus próprios olhos. Havia tentado entrar no cemitério, mas não tinha estruturas para encarar aquela realidade. Em uma chamada telefônica com Claire mais cedo, Chris confessou sobre isso a ela. Claire, então, propôs acompanha-lo até o local assim que retornasse à cidade e ele aceitou, mesmo vacilante.

A ansiedade por saber o que o aguardava na manhã seguinte o amargurava. Enxergaria o nome da mulher que tanto amava em uma lápide. Por isso, lhe veio a memória lembranças sobre a morte de seus pais quando ainda era jovem. Por mais que tivesse ido à muitos funerais e cemitérios na vida com o passar dos anos, jamais imaginaria perder alguém próximo tão cedo e daquela forma. Jill era sua família e doía tal como doeu perder seus pais. Aquela lápide poderia mexer com seu subconsciente para fazê-lo entender que Jill jamais voltaria para ele, porque foi assim que lhe aconteceu com seus pais.

No último ano da escola, Chris recebera a notícia do acidente automobilístico dos pais. Tinha sido a primeira e se tornara a única e definitiva vez em que teve de assumir responsabilidade por sua irmã, porquanto seus pais jamais retornariam para casa. Quando seus corpos irreconhecíveis voltaram à cidade apenas para serem enterrados, ele nem pode identifica-los, optando por guardar a imagem sorridente de seus últimos acenos. A ficha da morte deles só caiu quando viu as lápides, lado a lado. Ali pode compreender que jamais os veria novamente e que apenas Claire era sua família. Portanto, Chris prometeu-a, diante à lápide de seus pais, que cuidaria dela tal como fora cuidado por seus pais, sem deixar o vínculo familiar se perder com a tragédia, até mesmo abrindo mão de uma faculdade para isso. Chris entendeu prontamente que os planos mudariam dali em diante. Encarou a realidade como um homem sensato, tendo que deixar seus pais para trás como uma memória de infância e juventude, tendo que administrar responsabilidades muito jovem.

Ponderando sobre seus pais depois de muitos anos, ele podia se lembrar do carinho e cumplicidade que eles tinham um pelo outro, nas quais Chris jamais imaginaria encontrar em alguém para viver algo semelhante. Temia apegar-se a alguém em um mundo cheio de tragédias, como as que vivera muito jovem e por isso imaginava que seus pais partiram juntos. Porque achava que eles não suportariam viver sem o outro.

Chris acabou experimentando e compreendendo esse sentimento terrível com a ausência de Jill. Entendeu também tinha encontrado sua parceira ideal nela, tal como seu pai encontrara sua mãe. Mas não aceitava ter que suportar viver sem ela. Ele não queria encontrar outra pessoa para o lugar que sempre foi só dela e por isso optaria por continuar sozinho e desgraçado pelo resto da vida. Porque só tendo a certeza de sua morte, como teve de ver o corpo dilacerado de seus pais, que assimilaria um "seguir em frente", por mais que infeliz.

Tentando afastar a consternação de seus pensamentos, Chris se dirigira a academia do hotel para um momento de treino intensivo. Precisava desprender-se de toda a angústia interna que passou a domesticar. Depois de ter treinado por horas sem se dar conta do tempo, notara que seus vícios cada vez descontrolavam-se mais. Apenas optara por descontinuar aquele treino ao se lembrar do compromisso matutino. Portanto, precisaria descansar para encará-lo.

Encarando-se no espelho do banheiro da academia, pode enxergar um homem forte e robusto exteriormente, mas um mirrado e destruído de alma. Tinha deixado seus cabelos crescerem sem apará-los por dois meses e eles estavam bem cheios, tal como sua barba que já apresentava um volume não-habitual para o militar que sempre foi. Prometeu a si mesmo arrumar aquela pendência antes de retornar ao trabalho. Por hora, deixou-se sentir o alívio da água gelada sobre seu corpo quente por longos minutos, torcendo para que aquela sensação levasse para longe seus pensamentos perturbadores sobre si.

Já em seu quarto de hotel, Chris percebia que não se acostumava com a vida de solteiro. Deitar-se numa cama de casal por mais de um ano sozinho era uma tortura quando suas mãos instintivamente apalpavam o lado direito da cama em busca da mulher ausente que outrora deitava ao seu lado desde 1999. Desde então, apenas conseguia dormir, se extremamente exausto. Entretanto, a ansiedade e a agonia por saber o que estava por vir conturbava-o demasiadamente. Sabia que não conseguiria dormir sem a ajuda do álcool.

Logo, se dirigiu até o banheiro e barbeando todo o cabelo de sua face, lembrava-se dos tempos onde Jill era apenas um sonho impossível de conquista. Vestindo-se apropriadamente, Chris se dirigira até o bar requintado do hotel. Encontraria consolo na bebida, enquanto apreciaria cigarros até se sentir esgotado o bastante para adormecer.

Sentado na banqueta, com ambos os cotovelos sobre o balcão do bar, se via sozinho, enquanto todos ao redor estavam acompanhados. Para eles, o ambiente era agradável e descontraído, mas para Chris, era um lugar de constante solidão, por opção. Enxergava olhos interessados sobre si, mas se blindava sobre eles porque não queria novas interações humanas e mais pessoas pra lhe convencer a "seguir em frente".

Descartando a quinta bituca de cigarro do dia, já sentindo o ardor do líquido amarelado na garganta, Chris começou a sentir um cheiro deleitoso no ambiente, que outrora era inibido pelo odor do cigarro: a fragrância de um perfume familiar. Suas memórias olfativas o faziam voltar no tempo enquanto tentava localizar a origem do aroma floral.

Virando sua cabeça para o lado esquerdo, pode encontrar uma mulher de aparentemente vinte e poucos anos, de cabelos loiros e longos. Em sua camisa estava o símbolo da Ducati enquanto havia um cordão de crachá da empresa em volta de seu pescoço. Ela estava há duas banquetas de distância enquanto falava no telefone sobre um patrocínio da marca numa futura edição da Moto Grand Prix.

Sua silhueta lembrava Jill. Poderia dizer que era ela ali quando a mulher se virava de costas, por mais que a voz e os detalhes do rosto não fossem nada semelhantes. Chris não tinha interesse naquela mulher, mas algo o prendia a ela, já que era dela de onde vinha o aroma que tanto lhe agradava, que era muito semelhante ao de Jill. Assim que finalizou a chamada, a moça olhou ao redor. Encontrou Chris encarando-a fissuradamente. Logo, ela acenou cumprimentando-o. Nisto, Chris imediatamente despertou-se do que fazia e sem respondê-la, apenas puxou o maço de cigarro do bolso e já se preparava para voltar a fumar. Queria que o cigarro espantasse aquele cheiro deleitoso que dilacerava seu peito.

Minutos depois, um pequeno grupo de jovens juntaram à moça e juntos trocaram os assentos do balcão por uma mesa. Consequentemente, Chris voltou a observar a mulher novamente, enquanto ela interagia com seus convidados. A maneira com que ela se comunicava com eles fez Chris se lembrar da forma que Jill costumava se relacionar com colegas de trabalho quando se encontravam em alguma BSAA pelo mundo. Reparara também que a mulher prendera seus cabelos como Jill costumava prender os dela, deixando evidente a mesma franja que também ornava a testa de Jill. Percebendo que até a cor dos olhos dela eram idênticos ao de sua parceira, Chris passou a observá-la de uma maneira diferente, como se pudesse enxergar uma nova versão de Jill diante de seus olhos, enquanto se encontrava sorridente ao se esbaldar de uísque e de cigarros. Aos poucos, Chris percebera que a mulher começou a devolver a encarada com sorrisos tímidos que demonstravam interesse de sua parte.

Sentindo seus olhos pesados e percebendo a tolice que acabara de fazer, porque uma parte dele ainda estava sóbrio o suficiente para sentir vergonha alheia de seus próprios atos ao encarara-la sem interesse, se dirigiu à saída do bar. Já se encontrava de frente ao elevador, aguardando-o, quando sentiu uma leve cutucada por trás de seu ombro. Chris virou-se e se deparou com a mulher a quem observara. Presumindo que ela estivesse ali por tê-lo achado inconveniente ou para repreende-lo pelas encaradas indesejadas, Chris deu um passo pra trás com olhos arregalados.

– Calma, moço! Eu não vim pra brigar. – A voz dela assumiu um tom atraente. – Reparei que você estava de olho em mim. Apenas vim conferir suas intenções.

– Ah, não! É que... você me lembrou uma pessoa. – Chris tentava não a encarar enquanto disfarçava suas expressões ao sentir mais intensamente o perfume dela. – Desculpe incomodá-la.

– Uma pessoa? – Ela esboçou um sorriso tímido. – Hm, cantada criativa.

– Não, não é nada disso. Digo a verdade... sobre... a pessoa. Você me lembra... alguém. – Chris sentira tristeza imediata ao observar os trejeitos da mulher, comparando-a com Jill. Sentiu um vazio visível e a saudade evidenciava seu desalento.

– História interessante. – A loira notou o quão desconsertado Chris ficara. Então optou por tentar descontraí-lo. – Se tiver uns minutos, que tal a gente bater um papo sobre isso ali no lounge. – A mulher colocou uma mão sobre seu queixo, enquanto o admirava de cima a baixo, aguardando a resposta do homem sem reações. Percebendo que Chris continuava indeciso em aceitar o convite, ela insistiu. – Sabe... quando te vi sozinho, me encarando, percebi que você não estava bem. Senti que devia ir trocar uma ideia com você, sem compromisso, só pra colocar um sorriso no seu belo rosto recém barbeado. – A mulher subiu seu indicador e arrastou as costas do dedo sobre o maxilar e queixo dele afetuosamente. O corpo dele se sentiu levemente atraído aquele toque. – Sei lá. Sinto que você precisa de alguém hoje que tente quebrar essa angústia presa em seus olhos deprimidos.

Chris continuava ponderando e se afastou dela sem parecer rude, mas tímido. Ele sentia vontade de continuar perto dela, por causa de seu cheiro e dos trejeitos idênticos à Jill que ela expressava naturalmente, algo que há muito tempo Chris não via. Aquilo funcionava como uma droga viciante, que misturado ao álcool, fazia seu subconsciente ser maleável o suficiente para acompanha-la, tomando uma decisão diferente da que teria em sobriedade.

– Pode ser uma boa ideia. – Chris lhe deu um sorriso de canto. Ambos caminharam lado a lado até o salão decorado. – Ademais, sou Chris Redfield.

– E eu sou Elza Walker.

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Chris acordava aos poucos. Ainda de olhos fechados, esboçava um sorriso tímido enquanto sentia um aroma agradável e familiar. Era como se sentisse em casa novamente, em seu apartamento em Nova Iorque. Abrindo levemente os olhos, acabou por se localizar no quarto de hotel. Aos poucos a realidade voltava e o acertava como golpe na cabeça, já que também sentia pontadas de dores de cabeça.

Sentindo um toque caloroso do contato de pele humana grudada em seu peito e uma cabeça repousada sobre seu braço esquerdo, encontrou cabelos soltos e escorridos a sua frente. Seu primeiro pensamento era que tinha acordado em um universo paralelo ou em algum momento do passado. Por causa da pouca claridade no quarto, não distinguia a cor dos cabelos, então sentiu uma impressão surpreendente ao presenciar Jill diante de seus olhos. Descendo os olhos sobre a lateral do corpo da mulher, podia jurar que era a mesma curva do corpo de sua parceira. Subitamente, Chris tocou delicadamente no ombro da mulher que dormia virada contra ele e a trouxe para perto no intuito de apreciar seu rosto, como se ansiasse desesperadamente pra vê-lo.

Surpreendentemente, Chris notara que tinha algo estranho em sua visão. A mulher nua ao seu lado não era Jill, muito menos semelhante a Jill. Encontrando-se novamente na pior realidade em que já vivera, com uma mulher inédita em seus braços, no mesmo lugar que outrora pertencia a sua amada, ele começou a desanimar-se. Instintivamente, porém cuidadosamente, Chris afastou-se dela de forma em que não a despertasse, pois precisava organizar seus pensamentos antes de se dirigir a ela. Precisava se lembrar de quem ela era e como tinha chegado até seu quarto de hotel. Sentando-se de costas para a mulher, tentava olhar ao redor com a ajuda da fresta de luz que vinha da cortina e percebeu que não se encontrava em seu quarto, senão no dela.

Olhando-a por cima do ombro compreendeu que vinha dela o perfume que aromatizava o quarto. Ao perceber que se encontrava igualmente nu, sua mente começava a se lembrar de tudo o que tinha acontecido naquela madrugada, enquanto Chris podia jurar a si mesmo que sonhara com uma lembrança de Jill. Logo, começou a se lembrar da maneira em que a mulher o trouxera ao seu quarto. Em seguida, assimilou flashes da memória de tê-la beijado enquanto sentia a mão dela apalpando o alto de sua coxa ao mesmo tempo em que descia o zíper no decote de seu uniforme. Entendeu que uma aproximação mais íntima acontecera gradativamente, enquanto ele apenas se deixava levar pelos desejos de ambos, ao corresponder todas as investidas advindas dela. Por fim, pode se lembrar do instante em que sua mente começou a processar os conselhos de "seguir em frente" e estes se tornaram o impulso necessário para que ele se permitisse aproveitar irremediavelmente daquele momento.

Sentindo-se embaraçado e inoportuno, Chris apoiou os cotovelos em seus joelhos e esfregava o rosto lentamente em abatimento. Experimentava um misto de culpa e remorso tanto pela mulher que dormia por trás de si e que mal sabia de seus problemas, quanto pela mulher que ainda estava desaparecida. Era como se tivesse traído mulher que amava, a quem mal sabia se ainda estava viva. Naquele momento, pode finalmente entender que não conseguiria seguir em frente simplesmente deixando-a para trás e que aquela tentativa de seguir em frente havia sido um erro insuperável que não mais cometeria.

Sem perder tempo para retirar-se dali, esticou sua mão para alcançar as calças que usava na noite anterior e vestiu suas pernas com ela. Em seguida, se pôs de pé para fechar o zíper e abotoá-la, notando que seu celular, chave e carteira continuavam nos bolsos traseiros. Logo, caminhou até o outro lado da cama para pegar do chão a camisa que usara na noite passada. Examinando a mulher adormecida com a consciência pesada, instintivamente cobriu-a com um lençol. Enquanto abotoava a camisa em seu corpo encarando-a, ponderou sobre acordá-la ou não. Precisava ao menos se despedir dela, já que não era um aproveitador barato. Portanto, forçava sua mente a se lembrar dela, de seu nome ou de como ela havia passado de uma mulher que trocava uma ideia em um salão para uma amante enquanto evitava se lembrar da intimidade que acontecera entre eles.

Procurando seus sapatos no quarto usando a pouca claridade, pode ouvir o toque de seu celular. Paralisou-se momentaneamente com o susto do toque alto e tirando o aparelho do bolso, logo prendeu-o ao ouvido imediatamente. Sem dizer uma só palavra, assustava-se com o acordar vagaroso da mulher.

Chris? Chris? – Claire começava a aumentar o volume de sua voz do outro lado da linha enquanto não tinha respostas. – Christopher, você está aí? Ainda está dormindo?

– Sim, tô aqui. – Chris respondeu ao se virar de costas à mulher. Ele teria que atender sua irmã para não a preocupar. Tentando observar o horário, fora até a cortina para observar o céu e despretensiosamente, acabou clareando mais o quarto.

Já estava ficando preocupada. – Claire riu. – Que bom que já tá acordado a essa hora quando eu sei deve ter enchido a cara na noite passada. Mas relaxa, não vou dar sermão. Enfim... acabei de chegar no prédio da TerraSave. – Claire afastou o telefone brevemente ao comentar sobre algum assunto corporativo com alguém do outro lado da linha e logo voltou-se à chamada. – Escuta, Chris... passo pra te buscar aí em meia hora, ok?

Se lembrando do compromisso na qual tinha acertado com sua irmã naquela manhã, Chris tirou o celular do ouvido e com lábios torcidos e olhos apertados em desespero, deu pequenos socos com o aparelho em sua testa, sentindo profunda aversão de si mesmo. Notando que estava sendo assistido, virou-se abruptamente para trás e encontrou a mulher, sentada ainda coberta, estranhando curiosa às suas reações. Ao prender o telefone no ouvido, podia ouvir a voz impaciente de Claire chamando por ele.

Você pode me responder, por favor?

– Sim. – Chris demonstrou melancolia e isso fora notado por sua irmã.

Ahm... quer cancelar a ida ao cemitério? – Claire mostrou preocupação.

– Não! – Chris respondeu-a imediatamente. – Vou te esperar aqui na frente em meia-hora.

Desligando a chamada, Chris passou a evitar os curiosos olhos azuis da mulher e continuava tentando localizar seus sapatos. Ao fazê-lo, sentou-se de costas a ela para calça-los enquanto sua mente estava intensamente agitada.

– Bom dia, Chris.

– Bom dia... Elza. – Chris a respondeu depois de forçar sua mente a se lembrar do nome dela.

– Deixa eu adivinhar... era a mulher a quem você se referia na noite passada, não é? – Elza tentava esconder sua frustração. Chris apenas se manteve em silêncio. – Na verdade, tô achando que você é casado. Era sua esposa na chamada?

– Não. Era minha irmã. – Chris respondeu de forma contida, no intuito de não se mostrar um homem sem caráter àquela mulher tão amável e interessada. – Não sou casado. Mas estou em uma... situação complicada.

– Então... será que ainda dá pra trocar telefones? – Elza mordia os lábios, acanhada. – Sabe, sem compromisso. Eu nem moro aqui e você me pareceu um cara incrível para trocar uma ideia de vez em quando.

– Não dá. Não sou de Washington. Daqui a pouco vou estar em uma aeronave indo para o leste africano sem data de retorno então... – Chris se pôs de pé e atando o cinto, finalmente encarou Elza. – Obrigada pela companhia até aqui. Desculpe por...

– Tudo bem. Fui eu quem insistiu demais. Já entendi. – Elza sorriu escondendo o rosto chateado. – Aliás, nem dá pra disputar com essa... "Jill". Você sussurrou o nome dela a noite toda. – Elza apertou brevemente os olhos em constrangimento e então notou o olhar surpreso e apreensivo de Chris. – É melhor a gente deixar o que aconteceu no passado mesmo. Tenha uma boa vida, Chris.

Elza percebera que ter trazido o nome em questão, causara uma reação incomodada do homem. Chris apenas ponderava sobre o que tinha dito aquela mulher na noite passada. Entretanto, nada mais importaria, contando que ele não mais a visse. Sentia-se muito envergonhado e não poderia dar esperanças para ninguém enquanto não se resolvesse.

– Desculpe, mais uma vez. Boa vida, Elza. – Ambos acenaram com as mãos e ele retirou-se.

Chegando em seu quarto completamente atordoado, se livrou dos itens em seu bolso e sentindo sua cabeça explodir pelas últimas informações e pela ressaca, imediatamente despiu-se e ligou o chuveiro frio procurando um momento de descanso e relaxamento para sua mente. Refletindo sobre aquela manhã, podia sentir um fio de água morna escorrendo sobre suas bochechas enquanto a água gelada do alto as camuflava. Eram suas lágrimas que escorriam ali como uma hemorragia, difícil de estancar.

Ir ao cemitério, nas condições que se encontrava, seria um martírio sentimental. Não se sentia mais digno de se aproximar de qualquer coisa que envolvesse Jill, pois uma parte dele tentava arrancar de si a culpa pelo que fez, para que ele seguisse em frente com a consciência tranquila, já que Jill parecia nunca mais aparecer. Paralelamente, sentia-se furioso consigo por saber que seu relacionamento com Jill não poderia acabar sem respostas ou com ela esquecida daquela forma quando ainda a amava mais do que a si mesmo.

Com uma toalha enrolada em sua cintura, deixara o banheiro cabisbaixo e nesse momento pode ouvir um barulho de notificação em seu celular.

"Chris, como vai? Espero que bem. No final da manhã estou retornando para Washington. Se ainda estiver por aí me avisa, já que você precisava conversar sobre um assunto comigo. Apenas me diga onde você vai estar que eu te encontro lá assim que o avião aterrissar, beleza?"

Ao terminar de ler aquela mensagem, Chris sentiu um refrigério. Seus recursos e esforços para encontrar Jill já estavam se findando e esperava contar com aquela uma última ajuda. Portanto, achou que encontrar seu amigo no cemitério seria um local seguro para tratar um assunto sigiloso, particular e pessoal.

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O homem de cabelos claros em um terno preto descia as escadas rolantes do aeroporto tentando driblar a multidão que se aglomerava ali devido a chuva que caía sobre a capital estadunidense no fim da manhã. Pessoas aguardavam a chuva cessar do lado de dentro do prédio, mas ele tinha um compromisso na qual não podia se atrasar, para não atrapalhar os outros compromissos da tarde. Carregando sua bagagem de mão, seguia para o carro sentindo respingos sobre as partes expostas de sua pele.

Seu primeiro compromisso na sua cidade seria encontrar um velho amigo, depois de quase um ano sem se verem. Da última vez em que isso havia acontecido, Chris tinha ido à capital para assinar uns documentos porque tinha acabado de perder sua parceira profissional de longa data e apenas o encontrou para lhe prestar condolências. No início daquela semana, Chris o contatara para saber se ele estava em Washington. Ele estava longe, mas adiantou seus compromissos para ter a chance de ter com seu amigo antes que ele retornasse ao trabalho naquela sexta-feira. Encontrando-se de frente ao volante, Leon colocou no GPS o endereço da mensagem retornada de Chris.

– Um cemitério?

Com a dúvida, Leon pensou em telefonar à irmã de seu amigo, a fim de entender o que estava acontecendo. Procurando o nome dela na agenda de seu telefone, seus lábios se apertaram no momento em que a encontrou, porque sabia que ela não iria atende-lo. O relacionamento deles já não era tão mais cordial desde que tiveram divergências de opiniões no ano passado. De amigos muito próximos, agora eram apenas conhecidos que mal se falavam. De uma forma estranha e singular, Leon sentiu saudades dela. Era ótimo se encontrar com ela de vez em quando para bater um papo aleatório ou reclamar da vida, jantando ou bebendo nas horas vagas. Era sempre um prazer atende-la quando ela ligava pedindo algum favor. Já tinha mais de quinze meses em que não a via. Leon apenas se perguntava se ao menos ela estava bem.

– Mulheres! – Leon exclamou para si mesmo enquanto dirigia até o endereço visível no painel.

Buscando sozinho um motivo para o agente especial da BSAA encontrá-lo justamente em um cemitério, reprisou à última conversa por telefone com Chris e logo ligou os pontos. Parando em um dos sinais de trânsito ao observar o sinal vermelho, Leon olhou para o lado e localizando um quiosque de flores de variadas espécies, procurou a primeira vaga de estacionamento. Em seguida, se dirigiu até aquela venda. Ao dizer à atendente que estava indo ao cemitério, ela lhe propôs um arranjo de diversos tipos de flores brancas. Retornando ao veiculo com o arranjo que comprara, Leon olhou rapidamente ao relógio de pulso e notara que ainda estava no horário. Logo, seguiu rodovia em direção ao cemitério.

Estacionando seu veículo próximo a entrada florida do recinto, desceu do carro com o arranjo em mãos. Seguia pela calçada quando viu uma figura familiar sentada no banco de carona de um SUV que estava ligado. A mulher dormia boquiaberta, com a cabeça escorada no vidro lateral. Mesmo naquela visão, Leon ainda a admirava e sem perder tempo, caminhou até sua lateral expressando um sorriso tímido. Notara que ela agora usava uma roupa mais séria, adornada com crachá de sempre da TerraSave. Observando o notebook aberto sobre sua coxa, Leon admirava todo o esforço ao trabalho que ela diligenciava, sentindo um arrependimento pelo último conflito de ambos. Por isso, achou que aquela ocasião era perfeita para tentar se aproximar dela novamente, por mais que já conhecesse os riscos que correria ao tentar despertá-la para um cumprimento. Leon bateu com os dois dedos no vidro do carro e isso foi suficiente para desperta-la.

Assustada, Claire ajustou os óculos tortos sobre o rosto e imediatamente olhou para o relógio de pulso, arregalando os olhos ao notar o quanto que havia dormido. Percebendo uma sombra sobre si, olhou para o lado e realmente se espantou com a pessoa que estava do lado de fora com um sorriso constrangido. O semblante dela imediatamente demonstrou desagrado. Em seguida, Claire removeu os óculos da face e alcançando o notebook, repousou os itens sobre o banco do motorista. Logo, descera do veículo depois de desliga-lo.

– Ei, pomposo! – Ela expressou um tom falsamente animado e olhou ao relógio novamente. – O que faz aqui uma hora dessas?

Claire mantinha os braços cruzados para evitar qualquer sinal de afeição e Leon entendeu que dessa vez não ganharia um abraço. Mesmo percebendo as intenções dela com a pergunta, optou pela sutilidade.

– Eu vim em paz, Claire. Fico feliz de saber que você está morando aqui na capital também. – Leon afirmou percebendo que os olhos da mulher fitavam o arranjo de flores brancas em sua mão com um olhar desconfiado.

– Não gosto de flores. – Claire rebateu com frieza.

– Ah! Desculpe, mas não são para você. – Leon demonstrava embaraço. – Imaginei que seu irmão estivesse aqui por causa da agente Valentine e não quis vir de mãos abanando.

– É isso mesmo. Já você, está um ano atrasado para trazer flores a ela. Imagino como deve estar sem tempo livre já que agora é um queridinho da américa. – Claire o analisava com lábios tortos. – Ainda me pergunto se é você mesmo aqui na minha frente. Achei que sua agenda governamental não te liberasse no meio da semana.

– Seu irmão entrou em contato comigo dizendo que estaria aqui hoje, antes retornar ao trabalho. Eu não estava na cidade, mas me esforcei para nos encontrarmos. – Leon instintivamente olhou ao relógio. – Acho que ele quer falar comigo sobre algo importante.

– Eu sei. – Claire trocou a implicância por uma sutil angústia e Leon notou isso por conhece-la bem. – Olha, Leon... não que seja da minha conta, mas meu irmão está procurando pessoas de confiança para ajudar ele com uma coisa que nem ele sabe como lidar, uma coisa muito importante e pessoal. Se ele te procurou, não frustre ele. Se não for ajudar, nem vá se encontrar com ele. E tudo bem porque eu disse a Chris que agora você tem outras prioridades, que jamais mancharia sua carreira para ajudar um amigo, já que agora você é uma celebridade da Casa Branca.

– Isso é uma coisa da sua cabeça, Claire. Sempre estarei disponível para vocês dois. – Leon rematou percebendo o nada convincente assentir da mulher a sua frente. – Na verdade, eu ia te ligar para trocarmos uma ideia antes, mas ainda vejo que você não superou o último encontro. Eu já tentei reverter a situação várias vezes no último ano. Quando vamos apenas sair para jantar e deixar essa coisa no passado?

– "Essa coisa"?! – As expressões de Claire o assustaram. – Não foi apenas "essa coisa". Como você consegue ser assim, Leon? – Ela o encarava com expressão de pena depois de um riso sarcástico. – Escuta... não tenho nenhum ressentimento sobre você, mas eu detestei pra caralho o que você fez ou o que anda fazendo nos últimos meses. Já sei que você vai insistir em dizer que tudo foi uma questão de proteção pra mim e baboseiras assim. Mas a realidade é que eu sinto falta do meu amigo de 1998. Aquele cara lá era incrível e fez coisas realmente relevantes sobre as questões nas quais lidamos por anos. Infelizmente, aos poucos, ele está sumindo dentro desse terno.

Claire deu um peteleco em um broche com a imagem de uma águia em frente à bandeira que estava na altura do peito, preso ao terno e cruzou os braços novamente. Leon observou a atitude da mulher e sentiu uma pontada de culpa.

– Claire, eu...

– Quer saber... você devia repensar sobre o que está fazendo com você mesmo. O Leon, que sei que ainda está aí dentro, sempre gostou de ajudar as pessoas. Pessoas que realmente precisam de ajuda, não organizações poderosas. Se Raccoon City ainda estivesse intacta, eu tenho certeza que você seria o policial mais integro desse país.

Dizer aquelas palavras para Leon era reconfortante para Claire depois de meses de silêncio entre ambos. Ela sentia falta da pessoa dele, da pessoa que Leon era para ela nos momentos difíceis e sem ele durante todo esse tempo, ela se sentia acumulada e sobrecarregada de coisas que somente ele poderia ajudá-la a aliviar-se. Com isso, Claire se aproximou dele e colocando uma mão sobre o seu peito afetuosamente, tomou toda a atenção dele para si, quando já se mantinha atento ao rosto dela.

– Não deixe esses idiotas governamentais destruírem o verdadeiro Leon, tá? – Ela usou um tom grave e profundo, dando batidas leves com sua mão sobre seu coração.

Leon suspirou e abaixou a cabeça em frustração consigo mesmo, pensativo. Claire se afastou torcendo para que ele absorvesse aquelas palavras sem que se sentisse magoado ou mesmo sem discordar dela. Em seguida, Leon voltou a encarar a amiga e sorriu timidamente.

– Entendido, Srta. Redfield. Vou tentar te ouvir mais das próximas vezes. – Ele concluiu assentindo e estendeu uma mão para ela. – Ainda somos uma equipe, não somos?

– Sim. Mas não vou aliviar da próxima vez. – Claire finalmente esboçou um sorriso sincero e lhe devolveu o aperto de mão com uma piscadela. Nisto, apontou em direção a entrada do cemitério. – Chris está na sétima viela, depois do carvalho.

– É melhor seguir para lá. – Leon comentou olhando para o pequeno arranjo e tirou dali uma rosa branca e estendeu a Claire. – Isso é para selar nossa paz, porque sei que toda mulher gosta de flores. Até as mais duronas como você.

– Você nunca muda, Leon. – Claire recebeu o pequeno presente enquanto rolava os olhos, mas expressou um sorriso final para ele.

Enquanto assistia-o se afastar, Claire cruzava os braços satisfeita por ter recuperado seu amigo. Quando Claire comentara com Chris sobre procurar ajuda com o agente governamental, alegando que Leon poderia mover uma última ajuda à sua hipótese através de sua influência, ela apenas torcia para que Leon se dispusesse em ajudá-lo.

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Chris encarava a lápide silenciosamente, sentindo um misto de raiva e angústia e tristeza, enquanto aguardava Leon. Trajado com uma camisa branca dentro de um blazer escuro, preferia admirar a bela visão arbórea e tranquila ao redor do que se apegar em seus pensamentos nebulosos. No fundo de seu silêncio, havia um remorso perturbador.

Ainda se sentia um traidor pela aventura da noite passada. Por isso, sua exaustão daquela realidade se tornara potencialmente maior do que o que já enfrentava. Não havia contado para Claire o que tinha acontecido. Apenas conversava consigo mesmo sobre seus dilemas sentindo um vazio enorme. Havia um ano em que ele se dedicava arduamente sozinho para encontrar Jill. No entanto, nada havia progredido e ele encarava aquela lápide com indignação porque ela era o símbolo de sua incompetência.

Quando chegara ali com Claire, sua irmã colocara o pequeno arranjo de flores coloridas que trouxera em frente à lápide. Ajoelhando-se, ela fez uma oração silenciosa pela vida da mulher ainda desaparecida. Chris permaneceu sem expressões por um longo tempo, sem sentir-se confortável ao assistir aquela cena. Percebendo que seu irmão precisava de um tempo a sós, Claire optou por espera-lo no carro a fim de adiantar uns processos do trabalho. Sozinho, Chris passou a sentir-se mais livre para manifestar-se. Porém, continuava preso ao nome gravado no concreto em silêncio. Já fazia um bom tempo em que não lia aquele nome.

O nome dela nos últimos meses lhe trazia péssimas memórias. Odiava lidar com relatórios das operações e missões encontrando apenas seu nome solitário no final das folhas. Odiou ter que retirar o nome dela dos contratos em que assinaram juntos sobre os bens que tinham conjuntamente. Era terrível encontrar qualquer documento dela enquanto lidava com seus próprios. Foi muito difícil tirar o nome dela de seu seguro de vida, onde agora em caso de sua morte, apenas sua irmã seria amparada porque Jill já não era mais viva para o Estado. Aos poucos, coisas com o nome dela se tornavam um passado, como as páginas amareladas de um livro antigo que ela tanto amava.

Chris sentia saudade de chamar pelo nome que estava gravado ali. "Jillian" havia se encurtado à "Jill" por sua causa. Esse era o nome pelo qual ele a chamava porque evitavam apelidos carinhosos, para não evidenciarem o relacionamento que tinham aos demais, um relacionamento oculto e discreto, algo cheio de mistérios e sinais que aconteceu desde o primeiro dia em que se conheceram. Havia uma química louca, uma energia insana, um sentimento ilógico que os conectavam ao outro desde aquela época.

Naquela época, todos a chamavam de Jillian ou de Valentine, porque ela se apresentava assim até Chris a chamar de Jill pela primeira vez. Desde então, era assim que ela passou a se apresentar aos demais. No fundo, ela amava ser uma "Jill" porque foi depois desse nome que ela deixou seu passado profissional caótico pra trás para adentrar em uma vida mais tranquila ao lado de pessoas que ela amava e a amavam de verdade.

Chris não pode evitar de se lembrar dos gracejos que Barry fazia todos os anos com seus nomes. Em todos os feriados de "Valentine's day" e "Christmas", Barry criava novas piadas com seus nomes e os contatava para brincar com isso, dizendo ainda que aquele era mais um sinal do destino de que foram feitos um para o outro. Lembrando-se de seu velho amigo, Chris finalmente esboçou um leve sorriso. Lembrou-se da conversa motivadora que tivera com Barry naquela manhã, por causa daquela data infeliz. Ele insistiu para que Chris continuasse sua busca por Jill independente das dificuldades e também sugeriu que mandasse os terapeutas enfiarem o "seguir em frente" naquele lugar. No fim, Barry sempre tinha razão e Chris sempre lhe dava ouvidos porque confiava nele.

Enquanto ainda sentisse uma pequena chama de esperança, causada pelo encontro do pingente de Jill, Chris não poderia se desfazer dela. Suas roupas continuariam em seu guarda-roupa, seus itens colecionáveis ainda estariam expostos nas estantes e nas paredes e seu velho piano vertical continuaria intocável no lar onde moraram juntos por anos. Chris decidira ir na contramão a todos os conselhos que recebia sobre deixa-la "descansar". No fundo da sua alma, podia sentir que a veria novamente e que ela voltaria para casa viva, sem entender porque se apegava tanto aquela quimera.

Encarando a lápide, sua maior inimiga, podia enxergar uma oportunidade de encontrar-la viva. Porque diferente das pessoas que estava ao redor falando com seus entes queridos, que realmente estavam sepultados ali, Jill era uma exceção. A esperança de ainda poder encontra-la viva ao mesmo tempo em que se sentia negligente o suficiente para não a ter enterrado ali eram como um paradoxo audacioso à sua inteligência. Aquele pedaço de concreto o machucava apenas por existir sendo um enigma que ele não conseguia decifrar.

Em busca de aliviar seus pensamentos, colocara a mão no casaco e tirou de lá um maço de cigarros. Imediatamente, lembrou-se do tanto que Jill detestava aquele hábito. Chris adquirira o hábito de fumar na Força Aérea. Já nos S.T.A.R.S., usava o hábito contra Jill enquanto eram adversários. Se lembrava das vezes em que a soprava a fumaça sobre seu próprio uniforme enquanto trabalhava ao lado dela, apenas para vê-la incomodada ao torcer o nariz. Depois se tornou um amigo dela, ela o libertou do vício temporariamente. Com o passar dos anos, por mais que tentasse se manter livre, a vida dura de uma luta frenética contra o bioterrorismo precisava de seus momentos de alívio. Mas ele só fumava se ela não estivesse presente. Afinal, o alívio que ela lhe proporcionava era muito melhor.

Quando pegou o cigarro e o acendeu naquele cemitério, pode se lembrar das vezes em que ele era pego fumando escondido quando próximo a ela. Conseguia ouvir sua doce voz recitando um sermão sobre saúde, podia ver o rosto decepcionado enquanto balançava a cabeça em negação e se lembrou de como era divertido tentar beijá-la naquelas condições. Ele sempre tentava esconder os maços que acabava trazendo consigo em seu bolso para que Jill não os encontrassem e os picassem com uma tesoura ou jogassem-nos inteiros no lixo. Nos últimos anos, Chris já não fumava com bastante frequência enquanto Jill já não o importunava como antes, por mais que ainda detestasse o hábito.

Enquanto tentava aproveitar o cigarro recém aceso, Chris se lembrava profundamente dela. Podia projetá-la tentando alcançar o item preso em seus lábios para livrá-lo desse "mal". Por isso, encarou o cigarro, segurando-o entre os dedos. Fitando o item inofensivo ao soprar a fumaça no ambiente, não entendia como aquele pequeno elemento a tirava do sério, mas sentia falta dessa mulher e dessas pequenas birras. Quando dirigiu seus olhos para o nome dela sobre a lápide, sentiu culpabilidade.

Sem demorar muito, quase que instintivamente, ele se agachou. Pressionou a ponta do cigarro na grama até apaga-lo, enquanto debochava de si mesmo, com um riso tímido e olhos marejados.

– Você sempre ganha, parceira. – Chris fitava a lápide sentindo uma instabilidade mental. A realidade o transformava aos poucos em um barco à deriva. Por mais que não quisesse associar aquela lápide à mulher amada, tinha que reconhecer o peso que ela tinha por simplesmente carregar o nome dela. – Cadê você pra você pra me colocar na linha, Jill?

Naquele momento, Leon se aproximava da lápide, testemunhando Chris agachado, enquanto olhava fixamente para o concreto que levava o nome de sua parceira. Ele estava reflexivo, introspectivo e nem mesmo os passos de Leon sobre a grama próximo à ele o tiraram de sua intensa meditação.

– Posso deixar essas flores aqui? – Leon estendeu o arranjo próximo a Chris e ele se levantou para dar espaço para o amigo prestar suas homenagens em silêncio. Leon posicionou suas flores próximo as de Claire.

Leon lamentava não ter conhecido melhor aquela mulher. Podia se lembrar de tê-la visto uma última vez ao lado de Chris em uma investigação após um incidente biológico em uma indústria bioquímica na costa oeste do país, desde que a BSAA passara a trabalhar conjuntamente com órgãos de inteligência do mundo inteiro nesses tipos de casos. Sabia também que Jill fizera parte da força tática da delegacia onde atuaria em Raccoon. Jill era sempre citada por Claire enquanto parecia ser muito próxima à Chris. Quando se voltou a ele para cumprimenta-lo, pode perceber seus olhos levemente avermelhados. Percebera então que a tristeza evidente demonstrava um vínculo mais consolidado entre ele e a mulher supostamente falecida.

– Louvável de sua parte trazer flores. – Chris não apenas demonstrava tristeza, mas indignação. – Já eu não trouxe nenhuma porque, como você sabe, ela não está aqui.

– Sim. – Leon assentia notando que Chris mantinha resquícios de depressão desenvolvida por aquele luto. – Sabe... encontrei a Claire dormindo no carro. Acabei acordando-a e a gente trocou uma ideia.

– Aquela teimosa ainda está me esperando? – Chris se virou para trás na intenção de tentar enxergar o carro na longa distancia e soltou um riso tímido. – Ela é difícil, mas extraordinária. Fico feliz por saber disso ou por você ainda estar vivo depois de vê-la pessoalmente. Faz um ano que ela só sabe queimar sua reputação pelos motivos óbvios.

– É... conversamos sobre isso também. – Leon expressou um sorriso de canto, envergonhado. – Espero não estragar tudo de novo.

– Te entendo. A gente vive uma carreira toda tentando proteger o mundo, mas não sabemos se estamos fazendo a coisa certa. Bioterrorismo, operações, investigações... nada mais está fazendo sentido. – Chris apontou para a lápide. – Se Jill não está aqui embaixo, pra que porra de lugar levaram ela? Estou investigando há quinze meses e não tenho nenhuma pequena pista.

– Esse assunto ainda está inconcluso? – Leon parecia perplexo. – Nenhum avanço desde o último ano?

– Não. Isso está me consumindo, Leon. – Suspirou reflexivo. – A única coisa que eu tenho certeza, por pura intuição, é que Wesker está por trás disso. Mas ainda não há uma faísca de prova ou paradeiro sobre ele. – Chris se virou para Leon que o encarou de volta. Ele não tinha o chamado ali para admirar a lápide de sua parceira desaparecida, muito menos mostrar seu estado emocional. Era para fazer um pedido intrépido. – Leon, você me conhece há anos e sabe que não vou desistir até encontra-la porque ainda acredito naquela hipótese como o céu é azul e o campo é verde.

– Acha que ela está viva, não é? – Leon tentou não se demonstrar desesperançado. – Cara, longe de ser pessimista, não sei se você...

– Espera, escuta. – Chris ergueu um dedo em atenção, interrompendo-o. – Todo mundo me aconselha desse mesmo jeito que você tentou fazer. Mas sabe do que eu preciso agora? Eu preciso de pessoas que me impulsionem a continuar buscando qualquer coisa, com quem quer que seja, pra obter qualquer pequeno rastro sobre Wesker e consequentemente, Jill. Preciso que me ajude com qualquer pista... mesquinha, moderada ou perigosa, qualquer coisa que me leve até esse desgraçado.

– Ele é insondável, Chris. – Leon cruzou os braços. – Governos do mundo inteiro ainda estão à procura dele, como você sabe. Por incrível que pareça, já consultei nos últimos registros e a última vez em que ele foi visto, foi naquele fatídico dia.

– Não acredito neles e eu sei que você tem acesso à coisa ocultas. Clame pelas inteligências, nacionais ou internacionais. Eu sei que você pode ter acesso a qualquer otário da lista do mercado ilegal que estão nas prisões mais remotas. Se qualquer um deles já teve um sequer contato com aquele infeliz... – Chris entrou num desespero momentâneo enquanto olhava agressivamente para Leon. Suspirando para tomar calma, amenizou seu tom. – Eu sei que você tem bons contatos por aí. Contatos terceirizados ou informantes. Tudo bem porque também tenho os meus e a gente sabe de quem estamos falando, Kennedy. Acione-os e por favor, me dê alguma coisa. Um pequeno rastro já vai me dar tudo o que eu preciso por agora e por favor... não me oculte nada sobre isso.

Chris blefava com seu discurso, mas sua vasta experiência com bioterrorismo o levava a crer que existiam os vilões, os mocinhos, os justiceiros e os mercenários e que o governo americano sabia de muita coisa. Leon, por mais que não tivesse envolvimento com os ditos cujos, já tinha capacidade de acessar dados nesse tipo de relevância. Percebendo que Leon engolia seco, Chris entendeu que ele tinha captado a mensagem.

– Tudo bem. – Leon assentiu assustado com o estado emocional de Chris. – Contudo, não posso te dar nenhuma garantia por agora.

– Espero o tempo que for. – Chris assentiu voltando-se à lápide. – Estou retornando para a África e de lá, vou acabar indo à Ásia e sei lá até quando ainda vou estar respirando, mas eu não posso abandonar minha parceira. Cada missão é uma chance e eu estou contando com todas. Na verdade, só estou contando com pessoas que confio. Porque os demais, todos eles já desistiram da Jill.

– Eu... – Leon assentiu olhando nos olhos do amigo. Ponderando sobre o que Claire lhe recomendara, ele podia entender quão crítica era aquela situação para Chris estar visivelmente implorando por aquela ajuda. Não entendia os motivos por trás daquela obstinação, mas a achou admirável. – Não sei como agora, mas consigo entender a urgência então... conte comigo.

– Sabia que podia contar com você, cara. – Chris respirou aliviado enquanto apertou sua mão, com um leve abraço. – Agradeço desde já.

Enquanto Chris batia levemente no ombro de Leon, demonstrava o primeiro sinal de tranquilidade naquele dia. Contar com Leon naquela causa ou mesmo ter dito tanto de seu íntimo para ele, tinha valido a pena. Os dois mantiveram um silêncio confortante por longos segundos enquanto contemplavam o ambiente. Logo, Chris olhou para a lápide determinado, tirando do bolso o colar e o pingente e pode entender que tinha duas escolhas a fazer enquanto Leon o observava.

– Adeus lápide. – Chris começou a dar passos para trás enquanto guardava dentro de seu punho, o pingente e olhou para Leon. – Acho que está na hora de procurar por Jill onde vou poder realmente encontra-la, não acha?

– Isso aí! Bora dar o fora daqui antes que comece a chover. – Leon se juntou a Chris e ambos caminhavam para fora do cemitério. – Eu não cheguei a conhece-la bem... digo, a Jill. Mas vocês, trabalhavam juntos por anos, não é? – Leon questionou e Chris assentiu. – Bacana saber que vocês continuaram trabalhando juntos depois de Raccoon. No meu caso, sempre tive que atuar sozinho, já que entrei a força nessa carreira. Sorte que aprendi a gostar dela.

– Eu te entendo. Tenho atuado sozinho desde que a perdi, mas é uma droga. Estou acostumado a trabalhar só com a Jill. Tentei trabalhar com outros no passado, mas não foi uma experiência agradável. Desde Raccoon, passei a desconfiar muito das pessoas e a Jill é a única pessoa em quem confio sem hesitar. – A mente de Chris começou a se lembrar das tentativas fracassadas e acabou recordando de sua aversão à Jessica com desgosto. Ao mesmo tempo, se lembrou da quantidade de novas parceiras que tentaram se candidatar ao lugar de Jill e que ele as recusou indubitavelmente. – Jill confiava em mim e eu nela. Nunca vou aceitar perdê-la dessa forma, para uma lápide sem um corpo ou pra um descuido da minha parte.

– Admiro o jeito que você fala dela. – Leon notou que Chris olhava para cima, retendo lágrimas. – Algo me diz que vocês não eram apenas parceiros de trabalho.

– É uma situação complicada. – Chris prontamente alegou. Ao perceber o interesse de Leon no assunto, olhou para ele intrigado. – Já amou alguma vez nessa vida?

– Não! Muito ocupado para essas bobagens. – Leon respondeu indiferente, mas percebeu que estava sendo inconveniente. – Desculpe, sobre o que se referia?

– Nada. Você nunca entenderia. – Chris soltou um curto riso e silenciou-se por alguns segundos. – Um relacionamento, nas nossas condições, nunca é favorável... a não ser que valha muito a pena. Já conheceu alguém que vale a pena, Leon?

– Talvez. – Leon ponderou sobre uma mulher que imediatamente veio em sua mente enquanto Chris contava seus relatos. – Compreendo que nunca daria certo devido as situações adversas. Mas sei lá... ela ainda é uma parte de mim que não consigo soltar. – Leon torceu os lábios tentando afugentar a mulher citada de seus pensamentos. – Mulheres... no fim, todos nós somos totalmente dependentes delas. Até mesmo na ausência delas, ainda conseguem foder o nosso psicológico.

– Você fala como se já tivesse levado certas "bobagens" a sério, hm? – Chris olhou para Leon levantando uma sobrancelha em desconfiança. Leon apenas jogou os cabelos para trás, levemente envergonhado. – Eu queria ter dado a Jill tudo o que eu negligenciei nos últimos anos enquanto eu mergulhava de cabeça na causa. Só que percebi isso tarde demais. Sendo assim, Kennedy, não sendo minha adorável Claire, porque te conheço muito bem para isso... não perca tempo, seja ela quem for. – Chris parou de frente ao carro de sua irmã, enquanto ambos a observavam dormir da mesma forma que outrora.

– Com todo o respeito... eu queria que a Claire me desse alguma chance algum dia. – Leon parou para apreciar a ruiva por alguns segundos, desviando o olhar de seu amigo para focar na mulher referida, notando que ela deixara a flor que ele lhe dera sobre o painel. – Ela é linda, determinada e está sempre com razão. Pena que me conhece o bastante pra entender que mulheres como ela não gostam de tipos como eu. E eu sei que vou acabar sozinho. Porque sou o tipo que procura o que não devia e que faz o que não deveria fazer. – Leon olhou presunçosamente para Chris. – Você tem sorte de eu vê-la como uma grande amiga, Chris.

– Sorte "sua" vê-la como uma grande amiga. – Chris lhe lançou um olhar satisfeito, balançando a cabeça em afirmação. – E não, eu não faria nada contra você. Mas a Claire...

Ambos riam enquanto percebiam as primeiras gotas de chuva e com um aperto de mão, já se despediam. Nesse momento, o telefone de Leon começou a chamar.

– Eu até queria chamar vocês para um almoço, mas meu horário nessa cidade é muito apertado. – Leon lamentou enquanto desligava a chamada. – Quando aparecer por aqui de novo, a gente combina alguma coisa. Tomara que até lá... a Jill já esteja de volta.

– Tomara. – Chris respondeu prontamente impressionado pelo otimismo. – Mas, Leon... se estava buscando um conselho de alguém experiente, vou te dar dois. Proteja-a a qualquer custo e não chegue tarde demais pra isso. Essa é a única coisa certa a ser feita.

– Valeu, Chris. – Leon assentiu e correu até seu carro. Parado de frente ao volante enquanto as gotas engrossavam sobre o para-brisa, ponderava sobre a última fala de Chris.

Aquilo o deixara atônito ao se lembrar da mulher que abordava diariamente seus pensamentos e inexplicavelmente Leon se sentiu na pele de Chris. Enquanto servia ao governo, seu interesse era uma inimiga do estado. Muitas vezes se viu dividido entre estar com ela ou escondê-la do perigo. Aquelas decisões o levaram a conclusão de que sua alma nunca teria paz ao lado daquela mulher e que se manter distante era uma forma de mantê-la viva ou se manter vivo. Era a única forma de protege-la. Já afastando esses pensamentos de sua mente, Leon guiou seu carro e parou ao lado de Claire, que já estava acordada. Acenando para os Redfields, partiu na direção oposta à deles.

– Eu te disse que Leon viria. – Chris comentou ao cutucar com o cotovelo sua irmã depois de ela ter jurado que Leon não apareceria ali. Ao colocar o cinto, Chris começou a dirigir e ao olhar para o painel, estranhava a rosa branca ali. – Que flor é aquela?

– O pedido de desculpa do seu amiguinho. – Claire ria da desconfiança que causara no rosto de Chris. – Relaxa... você sabe que eu não tenho sorte nessa área. Ele é o meu amiguinho também. Fiquei feliz por Leon ter aparecido hoje. Não sei, mas algo me diz que ele vai te ajudar a encontra-la, Chris.

– Conto com isso. – Chris colocou a mão direita no bolso do blazer e encontrando o pingente ali, sorriu. Logo, voltou-se para Claire.– KFC ou Outback para o almoço?

– McDonalds, ora! – Claire respondeu em obviedade enquanto Chris notava que ela continuava sendo a mesma mocinha de sempre.

JULHO, 2008

Depois de ter se encontrado com Leon, Chris passou a receber dele informações valiosas. Dessa vez, numa última informação que recebera dele, o agente pediu sigilo diligente sobre a fonte dos dados, por se tratar de algo que não viera do governo, mas de um informante.

O governo australiano ocultava informações sobre desaparecimentos peculiares em Daymore, localizada na Austrália Meridional, próximo à Adelaide. Nesses relatos, as pessoas que foram encontradas estavam completamente desmemoriadas, por mais que sadias. Estudos mostravam uma alteração irreversível no hipocampo causadas por uma substância desconhecida que mesmo já expelida do corpo, deixavam aquela sequela.

Acionando a BSAA, Chris juntara à filial da Oceania, convocando uma investigação solitária e sutil para não causar evasão dos envolvidos. O diretor logo se mostrou resistente em deixa-lo ir sozinho, apresentando-lhe seus melhores profissionais para uma parceria. Chris ainda recusava veementemente a ideia. Depois desse conflito de interesses, Chris acabou vencendo por ser um membro original. Em contrapartida, enquanto investigava os casos já na cidade, o diretor lhe cortou seu suporte propositalmente.

Impaciente para uma retaliação, Chris acabara convocando seus dois mais chegados da corporação para auxiliá-lo em Daymore. Kirk Mathison seria seu suporte logístico enquanto Quint Cetcham lidaria com informações e equipamentos para sua missão solitária. Desvendando que os casos se originavam na ilha Mieridge, vinculada à Daymore, Chris encontrou um hotel ecológico, que recebia anualmente muitos cientistas botânicos do mundo inteiro, já que a relva da região era um atrativo.

Em seu traje aquático numa madrugada nublada, Chris chegara até a ilha sobrevoando com o auxilio de Kirk, usando um comunicador supereficiente recém-criado por Quint. Encontrando uma passagem subterrânea secreta com a ajuda de um aparelho aprimorado do Genesis, adentrou em uma área restrita do hotel. Acabou descobrindo várias informações relevantes, enquanto eliminava os funcionários transformados em ooze, infectados com T-Abyss, tentando cogitar uma ideia de como aquele vírus chegado ali. Acabara entendendo que o hotel era uma fachada para um laboratório experimental.

Descobrira então que no último ano, algumas pessoas que visitaram o local apresentaram problemas psíquicos. O hotel havia sido interditado por causa dos casos crescentes de desaparecimentos na cidade vizinha e entre os responsáveis daquele estabelecimento, havia um sobrenome que lhe chamara a atenção.

Leonard Kreestin, empresário sueco e fundador do hotel, falecido a há dois anos deixara o hotel na responsabilidade de seus filhos gêmeos: Ludwig e Lennart. O último era um professor-cientista de renome mundial que tinha ganhado inúmeros prêmios pelas pesquisas na área da genética. Ele também havia trabalhado na filial da Umbrella da França. Chris se lembrava de tê-lo investigado particularmente ao lado de Jill anos atrás devido Lennart ter sido um cientista advindo da Umbrella.

Chris sentiu-se na iminência de trabalhar diligentemente naquele local após a informação e ao entrar numa ampla sala que continha equipamentos e materiais hospitalares, pode ouvir risos femininos e passos de salto correndo por trás de si. Antes que se virasse contra aquele ela, pode sentir uma coronhada na cabeça, por não ter uma retaguarda e logo desfalecera.

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Abrindo os olhos lentamente, Chris tentou se localizar, mas em sua frente um anel de luz machucava sua retina. Ouvia música clássica como som ambiente e sentia um cheiro como um vazamento de gás. Sua reação primária foi tentar se levantar, mas deitado, podia sentir seus membros atados à um leito por baixo de si. Começando a fungar devido ao cheiro, ouviu passos aproximando-se.

– Sr. Redfield, acordaste! – A voz rouca do senhor foi ouvida com um sotaque sueco. – Nesse caso, terei que entretê-lo enquanto preparo um remedinho para você. Quer confessar suas memórias antes de perde-las?

– Quem está aí? – Chris questionou sem conseguir enxergar ao redor com a luz intensa. Logo, ouviu um estalo do disjuntor da lâmpada. Enquanto sua visão retornava, sentiu sua cabeça reclinando junto ao leito.

– Dr. Lennart Kreestin. Aquele que investigaste em Karlskrona, acompanhado de uma moça, em 2005. – Respondeu caminhando até uma bancada onde havia um aparelho de destilação. – Aliás, aonde está sua parceira?

– Morta e enterrada. – Chris declarou em proteção à Jill, caso ainda estivesse viva, mas logo escutou um riso do doutor. Observando melhor, notara que seus equipamentos estavam longe dele e que haviam eletrodos presos em sua testa e pescoço.

– Se Jill está morta e enterrada, o que faz procurando por ela aqui? – O cientista continuava de costas. – Achas que ela ainda vive, Chris?

– Você é um cientista ou um policial, afinal? – Chris se mexia, tentando se soltar, sem entender como ele tinha aquelas informações sobre si.

– Sou um cientista que estuda a mente. Genética não é interessante porque não dá grana. Minha paixão verdadeira é explorar a mente humana. Nesse caso, desenvolvo estudos de controle mental e agora pouco, acabei de finalizar um aparelho gerenciador de comandos.

– Controle mental? Não é isso que está deixando pessoas desmemoriadas? – Chris debochou. – Ramo errado, camarada.

– Calma rapaz... tenho os recursos certos dessa vez. Minha nova contratante me conseguiu materiais formidáveis. A fase experimental já foi testada em humanos comuns, mas o corpo humano genérico não suporta a tal substância. Afortunadamente, a única sequela é a perda de memória ou desordem mental. – Lennart interrompeu-se ao notar que alguém entrara pela porta atrás de Chris.

– Afortunadamente? – Chris se impressionava com tamanha frieza. – Sempre soube que você era um degenerado. Você nunca saiu da minha lista, cretino!

– Degenerado? Sou um gênio. Estou aprimorando o maior futuro composto químico do mercado ilegal. Meu P30 será um sucesso memorável. O aparelho para retê-lo ao corpo dessa vez não irá falhar. Assim que a testarmos na cobaia perfeita, será uma revolução.

– Está contando seus planos para o destruidor de sonhos, otário! – Chris vociferou. –Monstros advindos da Umbrella nunca vivem o suficiente pra visualizar suas glórias.

– Sabe, eu também odiava a Umbrella. – Lennard se virou e Chris notou que ele tirava a máscara hospitalar. – Não pagavam bem, não tinham recursos, era muito mal administrada. Você e sua parceira só conseguiram por um fim na bagunça, porque eram uma porcaria. Mas acredite em mim, a empresa sucessora vai mudar o rumo do mundo. Vai fazer estragos muito maiores e está cheia de pessoas iguais a mim. Imaculados por fora, ambiciosos por dentro. Não sou um inocente nos relatórios da BSAA que você e Jill assinaram? Aliás, nunca agradeci por limparem minha barra.

– Empresa sucessora? – Chris questionou ponderando sobre como ele tivera acesso à relatórios de alto sigilo da BSAA.

– Bem de baixo do seu nariz, literalmente. Mas você... só se importa por procurar sua parceira. Vai ser arrepender disso, porque quando a encontrar, já será tarde demais. – Lennart desligou o som ambiente e caminhou na direção de Chris, que ainda processava a última informação, com uma seringa preenchida contendo um líquido avermelhado. – Hora de esquecer o que conversamos, Chris.

– Por que não testa essa substância no aparelho que você criou, coração? Talvez Chris também possa ser uma cobaia perfeita para testar seu aparelho. – Uma voz feminina familiar foi ouvida junto com as batidas dos saltos que se aproximavam da maca. Chris se mostrava surpreso, mas inabalado enquanto observava a mulher de cabelos longos e ondulados, vestida como uma executiva, que o encarava sedutoramente. – Faço questão de tirar a roupa dele pra isso. Afinal, já fomos parceiros.

– Ainda não! Meu aparelho precisa ser patenteado antes. Não vou testar até que a grana da Tri...

– Shh... – Jessica usou sua mão para calar o cientista, com longas unhas pressionadas sobre sua bochecha. – Mesmo que esteja à ponto de mata-lo, não revele seus segredos, nem os que eu te contei... como já estava fazendo, querido.

– Que se foda! – Lennard gritou após arrancar a mão da mulher e a empurrou pra longe, encarando-a. – Aquela perua, pra quem você trabalha, não vai ganhar tudo de graça só porque acha que vai se dar bem com o imortal.

Chris assistia a discussão coletando os pontos altos enquanto também tentava encontrar uma forma de escapar de ser injetado com o conteúdo da seringa. Inexplicavelmente, Chris podia pressentir Wesker naquela conversa.

– Vai ser assim agora, coração? – Jessica usara um tom meigo. – Bem... já tenho a senha do cofre que fica bem ali, atrás do quadro de seu pai. Sendo assim, mande lembranças a ele e a seu irmão quando chegar ao inferno.

Naquele momento, Jessica o imobilizou e habilmente retirou a seringa da mão do homem e imediatamente injetou todo o conteúdo da injeção em seu pescoço. Lennart passou a convulsionar e antes que ele houvesse qualquer reação, Jessica descarregou todo o pente de sua pistola no meio da testa dele friamente.

– Foi tarde, velho asqueroso! O que ele estava pensando com essa seringa cheia? – Jessica se questionou ao agachar para analisar o conteúdo da seringa, entendendo que tinha feito a coisa certa. Pulando com repulsa sobre o corpo do cientista ao chão, ela se aproximou do leito. – Parece que eu e o meu doce traseiro salvamos sua pele mais uma vez. Uma dose desse tamanho e você já era.

– Pra quem você está trabalhando? – Chris a questionou com seriedade. – O que sabe sobre Wesker?

– O que... não vou receber nenhum agrado por ter te salvado a vida? Porque me lembro que a Jill era bem recompensada por você. – Jessica passou os dedos, limpando as pequenas manchas de sangue espirradas sobre o rosto de Chris enquanto fitava seus lábios com interesse. Ao se inclinar sobre ele, Chris imediatamente entendeu suas intenções e se virou contra ela em resistência. Ela o soltou desanimada. – Sempre sendo um ingrato comigo... achei que agora, viúvo, finalmente estivesse livre pra mim, mas você destrói minha autoestima toda...

– Pra quem você está trabalhando, Jessica? – Chris a interrompeu usando um tom irritadiço. – Está trabalhando para Wesker?

– Aff, ainda perseguindo esse cara? Esqueça Wesker, ele já era! Não se lembra do que a sem-gracinha fez com ele? – Jessica caminhou até o computador e começou a lidar ali. – Nunca te contaria nada sobre mim, você nunca se interessou antes.

– Eu sei que sabe de muita coisa, Jessica. – Chris chamou-lhe a atenção. – Se cooperar comigo...

– Olha só... você está preso eletronicamente. Um botãozinho pressionado e eu posso te soltar! – Jessica alegou surpresa caminhando até o quadro onde havia o tal cofre. – Infelizmente, estou sem tempo pra isso. Tenho que correr contra o tempo e sair daqui com a maleta antes desse prédio ser inteiramente bombardeado. Tenho que esconder as evidencias de que eu trouxe o T-Abyss para você brincar um cadinho. – Jessica tirou a maleta do cofre e abrindo-a sobre uma superfície, verificou seu conteúdo e a fechou satisfeita fitando a Chris. – Sabe... pena que a srta. Certinha não está aqui pra tentar desarmar a bomba e livrar sua bunda da explosão.

– Jessica, me tire daqui! É uma questão de retribuição... depois do que eu já fiz por você. – Chris se balançava tentando se soltar. – Eu... deixo você ir. Prometo! – Chris dava garantias com um propósito em mente. Jessica poderia ser rastreada até que ele encontrasse a tal pessoa pra quem ela trabalhava. Repentinamente, ele a viu olhar em sua direção com a maleta na mão, pronta para partir, depois de ponderar por alguns segundos.

– A queda que tenho por você ainda vai me matar, rapaz. Ok... é uma questão de retribuição. – Jessica se voltou ao computador e antes que o soltasse, paralisou-se. – Espera um pouco, meu amor. Não sou estupida! Sei que você é cheio de segundas intenções e pro meu azar, essas intenções nunca foram indecentes. – Jessica caminhou até Chris. Tomando a seringa, próxima à poça avermelhada que vazava do corpo do cientista, ela a verificou, percebendo que ainda tinha um resquício do conteúdo. Imediatamente espetou a seringa no pescoço de Chris. – Essa dose é ruim o suficiente para deixa-lo retardado o bastante para não me seguir. Mas é boa o suficiente para te deixar com a lembrança de que... como posso dizer isso? Bem... vou dizer de uma vez. A Jill está viva.

– Do que você está falando? – Chris questionou pausadamente enquanto Jessica lançava a seringa no ar. Seu corpo começou a suar frio e ele não sabia se era efeito do que lhe tinha ingerido ou da informação que recebera. Fitando Jessica de frente ao computador, ele precisava de mais informações. – A Jill...

– É isso mesmo! Jill está viva, mas nem se anime. Porque vai continuar sofrendo por ter perdido aquela sem-gracinha. – Jessica pressionou o botão e imediatamente Chris se viu livre. Ao ficar de pé rapidamente para alcançar Jessica, enquanto os eletrodos se soltavam rapidamente dele, sentiu uma tontura que o fez perder os sentidos e foi ao chão em segundos. – Jessica se aproximou com pequenos passos próximo a Chris e ele só podia observar os saltos dela. Agachando-se próximo a ele, ela o virou para cima. – Na verdade, Chris... eu devo te dizer que você ainda não a perdeu. Mas muito em breve, irá perde-la... irreversivelmente. Quando eu chegar com essa maleta ao destino, a Jill nunca mais será como antes.

– Ela... – Chris tentava manter seu corpo ligado enquanto este se forçava a apagar. Tentou se levantar com dificuldade para seguir Jessica que já se encontrava do lado de fora, sentindo uma tontura.

De pé, cambaleou até a mesa onde se encontrava seu material e carregou consigo apenas o comunicador e uma metralhadora. Ofegante, Chris logo se encontrou em um corredor de hotel. Olhando atordoado para uma janela que ficava do outro lado do corredor, notava que se encontrava em um alto andar do prédio. Seguindo até o elevador que ficava no meio do corredor, pode ouvir uma explosão que reverberava por toda a estrutura ao redor e imaginou que isso viera dos primeiros andares. Aquela explosão fez com que os vidros da grande janela no final do corredor se partissem. Com isso, Chris tentou correr até ela como seu escape único. Chegando ali, viu que estava distante do oceano abaixo.

Voltando para trás para tomar um impulso para pular, acabou se deparando com uma pequena horda de infectados. Sem conseguir concentrar sua mira, tomou a metralhadora e saiu abrindo caminho até afastá-los. Após isso, tomando a distância necessária, focou na janela como um tiro ao alvo e correu veemente até lá, tentando não cambalear.

Uma explosão foi tudo o que Chris escutou antes de seus pés perfurarem com força na água de uma altura semelhante ao décimo andar. Enquanto caia, podia sentir-se em câmera lenta. Seu corpo como um míssil era lançado para baixo, sem saber o que o aguardava lá, como no gigante elevador do armazém que era uma instalação da Umbrella no Cáucaso, ao lado de Jill. Sua mente, ainda acordada graças a adrenalina, fez seus pensamentos assimilarem uma mesma sensação que Jill sentia ao ser lançada penhasco abaixo na mansão Spencer. Abrindo uma fresta de seus olhos, pode ver por segundos o pôr do sol e se lembrou do dia em que o assistiu ao lado de Jill no meio da floresta em Arklay. Ao mesmo tempo, sentia o mesmo medo em que Jill sentiu ao flutuar no ar em Paris. Enfim, sentiu-se puxado até o fundo do mar pela força da gravidade.

Quase perdendo sua consciência e folego, Chris abriu os olhos outrora apertados e pode perceber que flutuava no meio da água. Enquanto via borrões, não entendia como sua alma ainda estava presa ao seu corpo. Erguendo levemente a cabeça, ele pode ver que a superfície da água estava distante e quando tentou nadar até alcança-la, seus braços e pernas não se mexiam. O desespero tomou conta dele ao perceber que não tinha mais movimentos. Naquele momento, ele começou a refletir sobre os últimos acontecimentos e logo se lembrou do que Jessica tinha falado sobre Jill. Isso forçou o ligamento de todas as sinapses de seu corpo, dando-lhe impulso para tentar sobreviver.

Forçando sua mente a se comunicar com seus membros com dificuldade, conseguira chegar à tona. Ao recuperar o fôlego, seus braços e pernas começaram a se mexer milagrosamente enquanto o céu já escurecia. Olhando ao redor, acabou encontrando uma área arborizada ao lado do hotel e nadou até lá. Chegando exausto na praia, deitou-se na areia percebendo que o céu já estava escuro e que nuvens nubladas já se formavam ali. Seus membros estavam dormentes e doloridos, mas seu braço direito ainda se mexia.

Sentindo um mínimo chuvisco sobre sua face, Chris tentara se levantar para se abrigar próximo as árvores sem sucesso. Sendo assim, apenas continuou deitado onde estava, enquanto sentia ondas alcançando a altura de seus pés. Aproveitou para alcançar o comunicador dentro de seu estojo e tentou fazer contato com seus colegas. Sem sucesso de resposta, repousou o comunicador em seu peito enquanto seu polegar continuamente pressionava o botão de socorro, ao mesmo tempo em que a chuva aumentava lentamente.

Deixando-se levar pelo barulho das ondas, Chris sentia sono e quase fechando os olhos, escutou Jill chamando-o. A voz vinha da direção das altas árvores atrás de si. Imediatamente Chris forçou a se levantar e ao caminhar até ali, adentrou à mata molhada, ligando a lanterna presa ao uniforme e logo encontrou uma tenda, semelhante à tenda da instalação das equipes de busca e resgate em 2006.

Venha Chris, saia da chuva. – A voz dela de dentro da tenda insistia e ele prontamente adentrou ali.

Verificando que se encontrava no mesmo quarto em que se abrigava todas as noites no período das primeiras buscas por Jill, ele estranhava se visualizar em uma de suas piores memórias. Ouvindo o barulho do armário fechando-se, Chris olhou naquela direção e localizou Jill lhe trazendo toalhas secas, enquanto escutava o barulho das gotas de chuva sobre a lona. Logo ela parou em sua frente vestida com o traje aquático, tal como a encontrara no Queen Zenobia e seus cabelos estavam presos como naquele dia. Ele alcançou uma toalha molhada e esfregou seu rosto sobre ela, sentindo Jill secar seus cabelos molhados. Logo, ela levou as toalhas para um cesto e se voltava a ele enquanto olhava ao redor para analisar o ambiente.

– Então, era aqui que você dormiu as primeiras noites sem mim? – Jill o encarava com piedade.

– Você está viva? – Chris instintivamente tentou tocar nela, mas sua mão transpassou por ela como um holograma.

– Depende, Chris. – Jill envergonhava-se. – Eu estou na sua consciência.

– Quem é você? – Chris a olhou desconfiado, sem entender o que acontecia.

– Sou a mulher que você se lembra o tempo todo. Sou a Jill das suas lembranças. – Jill soltou um sorriso tímido enquanto ele mantinha sua desconfiança. – Está tudo bem. Esse é o efeito colateral da substância em sua mente. Tudo fica meio ilusório e quimérico mesmo. Que bom que não se esqueceu de mim.

– Estou... conversando com minha imaginação? – Chris ergueu as mãos tentando alcança-la novamente, mas sua mão atravessara o corpo holográfico dela. – Como estou conseguindo te ver, literalmente? Será que é porque você não morreu e ainda está aqui nesse mundo? Faz sentido o que estou falando?

– Eu nunca vou morrer, enquanto você se lembrar de mim. Vou sempre viver aqui. – Ela apontou para sua cabeça.

Chris encarava Jill enquanto debochava de si mesmo por conversar com sua própria mente. Ele tentou fechar os olhos por alguns segundos e os abria para tentar acordar do que achava ser um sonho. Sem sucesso, apenas fechou os olhos para não mais a ver.

– Ei, bobinho... não vai se livrar de mim assim tão fácil. Eu sei suas intenções porque estou dentro da sua cabeça. – A voz dela reverberava dentro de sua consciência. – Quem diria Chris, estou lendo sua mente!

Chris abriu os olhos enquanto mulher ria de suas reações. Ao se sentir preso àquela ilusão, ele finalmente deixou de querer voltar a realidade e finalmente quis experimentar aquilo.

– Então, me faça uma pergunta, Jill.

– Claro, deixe me pensar... – Ela olhou ao redor e logo se mostrou curiosa. – O que você tem feito desde aquele trágico dia?

– Eu andei depressivo, depois problemático e passei por terapias. Agora, o trabalho está me mantendo de pé e é também o único método que achei pra tentar te encontrar. Todas as vezes em que sinto que você está por perto eu... – Chris tentou alcança-la mais uma vez, frustrando-se e desistindo de vez da ideia. – Eu nem paro pra descansar e eu estou cansado pra porra.

– Pois devia! Por que não aproveita e descansa um pouco ali? – Jill apontou para a cama onde ele, ironicamente, não conseguira descansar uma noite sequer. – Fica tranquilo, porque eu não vou fugir nem sair daqui.

– Claro, você é a minha consciência. Mas eu não quero ver você, eu quero a Jill de verdade... – Percebendo que a face dela parecia triste ao ser diminuída, Chris voltou atrás. – Isso é loucura... estou falando com um fantasma que acha que sou um babaca. Desculpa mesmo, mas você não é a Jill. Tudo o que eu queria era saber onde ela pode estar agora e não ficar conversando com uma droga de memória...

Chris se interrompeu ao notar que em um piscar de olhos, a mulher à sua frente apareceu vestida com seu traje dos S.T.A.R.S., de cabelos curtos novamente.

– Escuta aqui, Christopher, eu não sou isso aí que você disse. – Jill usou um tom que costumava a falar com ele nessa época. – Sou um pouco de tudo o que já vivemos.

– Como... como? – Chris arregalava os olhos, admirado.

– Eu sou cada mulher que você amou em uma. – Jill transformou-se novamente e apareceu vestida com sua camisa branca em Paris. – Eu moro em um lugar muito especial da sua mente, nos sonhos e nos pesadelos.

– Você... – Chris a apreciava como no dia em que a viu daquela forma. – Eu me lembro de você o tempo todo.

– Mas é claro! Porque você sabe que eu vou estar lá nas suas maiores conquistas. – Jill se transformou rapidamente. Ela aparecera com o mesmo traje de frio que costumava usar nas operações da Rússia. – Ainda vamos fazer grandes coisas juntos.

– Como? Eu não sei aonde você está.

– Sabe Chris, sempre insisti que você tomasse cuidado consigo mesmo. – Jill já era visualizada já com o uniforme em que ele a viu usar pela ultima vez na mansão Spencer, com um boné preso à cabeça e cabelos longos presos. – Quando vi que não conseguiria fazer isso, eu o fiz.

Chris sentiu um arrepio estranho ao assimilar que acabara de contemplar todas as versões de Jill, nas quais se lembrou enquanto caia em direção ao mar. Mas se sentia confortável ouvindo frases que já tinha ouvido dela no decorrer dos anos ao seu lado.

– Desculpe por ter te diminuído. – Os olhos dele marejaram. – Todos esses anos que passei ao seu lado... eu ainda tinha tanta coisa para dizer, mas você nem me deixou me despedir de você. – Chris reparou que a mulher levantou as sobrancelhas, ouvindo-o atentamente. – Eu nunca tinha me dado conta de que você era mais importante e me deixei levar pelas ocupações.

– Eu também era ocupada com coisas importantes, Chris.

– Mas... acabamos nos desgastando, tal como você não queria que acontecesse. – Chris olhou vagamente para baixo, deixando lágrimas caírem. – Eu te forcei a essa vida e olha a que ponto chegamos.

– Você nunca tomou nenhuma decisão para mim. Na verdade, você sempre soube respeitar isso. Eu estava lá, ao seu lado, porque eu quis e amar você... aconteceu. Não se sinta culpado. Apenas levante a cabeça e me encontre. – Os cabelos de Jill começaram a clarear gradativamente até alcançar um tom loiro, já sem o boné. – Chris, você é o único que pode. Antes que seja tarde demais.

Contemplando sua última aparência, maravilhado, Chris não conseguia se lembrar dela daquela forma. Ela não era uma Jill de suas memórias porque parecia uma Jill completamente nova e a frente de seu tempo. Ao se aproximar dela, fitando-a como se quisesse guardar aquela imagem no âmago de sua memória, ele reparou que o teto da tenda se abrira e logo ele estava na chuva novamente. O bip do comunicador soava em cima de seu peito e ele se encontrava novamente deitado sobre a areia enquanto as ondas já alcançavam sua cintura.

Percebendo que voltara à realidade, Chris se forçou e ficando de pé, voltou-se para trás. Caminhando na direção das árvores para ir até a tenda novamente, enquanto andava com dificuldade devido a suas pernas ainda doloridas, seguia em busca de Jill desesperadamente enquanto era inundado pela forte chuva.

– Jill... me diga... onde eu posso te encontrar? – Chris gritava ao redor deixando lágrimas silenciosas rolarem de seus olhos, enfrentando a dificuldade de enxergar devido ao vento forte que o arrastava. – Onde eu tenho que ir? Diga e eu irei até você. – Chris tentava projetá-la novamente em sua frente, sem sucesso. – Quero te ver de novo... Jill da minha consciência.

Olhando de um lado para o outro, Chris sentia que não mais viria aquela mulher porque ela tinha voltado às memorias dele, mas a experiência ultra realista ainda o deixava perplexo. Procurando-a ainda paralisado, sentiu um arrepio por trás de si.

Cuide-se, Chris. Kirk e Quint estão bem atrás de você. – A voz de Jill foi ouvida finalmente. – Não me deixe te esperar tanto, parceiro.

Localizando a voz dela por trás de si, virou-se sem encontra-la. Mas semicerrando os olhos, avistou um barco no meio da tempestade vindo em sua direção enquanto o comunicador soava intensamente com a aproximação de seus colegas.

Chris buscou Jill ao redor uma última vez, enquanto lágrimas de alegria e tristeza se mesclavam em sua face, embora a chuva as camuflasse. Saber que poderia encontra-la ainda viva, acreditando impetuosamente no que tinha escutado no hotel, sentia um renovo de esperança enquanto se ajoelhava em cansaço sobre a areia molhada da praia. Mas ainda assim, a pergunta que fazia a si mesmo era a mesma há vinte e três meses.

– Para onde você foi, Jill?

"Gotas de chuva caindo do céu jamais conseguiriam livrar meu sofrimento. Desde que não estamos juntos, torço para que o clima tempestuoso esconda as lágrimas que espero que nunca as veja. Algum dia, quando meu choro tiver acabado, vou sorrir e caminhar sob o sol. Talvez eu seja um tolo, mas até lá querida, você nunca me verá reclamar."