"Conversando à toa, não sei o que dizer, mas direi mesmo assim. Hoje é um outro dia para encontrar você se afastando. Estarei vindo pelo seu amor, ok? Nem preciso dizer, sou insignificante, mas estarei tropeçando. Aprendendo aos poucos que viver é legal. Diga comigo: Não é melhor estar seguro do que arrependido?"
JULHO, 2006
A agente de operações anti-bioterrorista da BSAA, Jill Valentine, regressara ao Estados Unidos há uma semana, após meses atuando na filial asiática da BSAA junto a seu parceiro. Após mais uma longa investigação exitosa, combatendo um crescimento exagerado do mercado ilegal de insumos de altos riscos biológicos na região, aquela era a primeira semana de folga do ano.
Já em Nova Iorque, Jill finalmente parou para cuidar da casa. Organizara os pertences das bagagens de volta aos armários, tirara a placa de poeira dos móveis e dos panos decorativos, abastecera os armários da cozinha e arrumara todas as prateleiras, principalmente as de suas coleções. Havia atualizado a vitrine de lembrancinhas dos países nas quais havia passado nos últimos meses e acrescentara mais livros a seu acervo que continha variadas versões e línguas. Naquela mesma semana, também acabou auxiliando uma amiga com os preparativos do casamento na qual seria madrinha.
Contrariamente, Chris abriu mão de seus dias de descanso, aterrissando em Boston a fim de se reunir com especialistas da inteligência da BSAA para trabalhar particularmente em uma diligencia negligenciada há anos. Era um caso arquivado como "postergado por tempo indeterminado". Para Chris, esse título era inconveniente, mas não podia julgar à corporação, afinal, casos instantâneos cresceram exponencialmente nos últimos anos. Por mais que sempre estivesse à frente dos casos contingenciais, encontrar Wesker também era um motivo de primazia na qual ele já tinha adiado bastante. Portanto, usara seu tempo livre para continuar trabalhando nos arquivos que arremetiam a ideia do paradeiro de seu ex-capitão.
Jill não o acompanhou dessa vez, pois priorizara seus compromissos pessoais. Desde 2003, ela nunca mais se dedicara a eles. No fundo, sentia um esgotamento da rotina intensa e exigente. Mas enquanto Chris estivesse imerso continuamente e incansavelmente nisso, seria impossível deixa-lo sozinho. Por isso, ocultava toda sua extenuação sempre que solicitada, porque quando isso acontecia, ela era a primeira a querer estar à frente das ocorrências, totalmente entregue e dedicada ao trabalho.
Naquela noite de sexta, Jill preparava um jantar em família, aguardando a chegada de Chris e Claire. A mais nova chegara no início da noite, recebida apenas por Jill. Mesmo que insistisse para ajudar Jill com o prato que preparava, Claire foi impedida pela anfitriã que, notando o que o braço dela ainda se encontrava lesionado, preferia ficar apenas com a estimada companhia dela.
Estranhando o atraso, Jill tentou contatar Chris. Assim descobrira que ele só chegaria tarde da noite, pois seus colegas o tinham levado à um happy hour de despedida ainda em Boston. O que seria um jantar à três, tornou-se um momento feminino. Ambas conversaram sobre as coisas que aconteceram nos últimos dias e também acabaram se lembrando de muitas que vivenciaram antes que o bioterrorismo se tornasse um motivo de ocupação integral delas. Horas depois, cansada de esperar por Chris, Claire decidiu ir embora alegando que só veria seu irmão no dia seguinte.
Entediada e solitária, Jill aguardava seu parceiro e não dormiria enquanto ele não chegasse. Ouvindo o barulho estrépito e abafado de festa do apartamento próximo, percebeu que precisava de tranquilidade. Nesse momento, sua visão localizou o piano, próximo à janela de acesso à sacada. Por mais que tivesse o afinado no início da semana, ela ainda não tinha tocado uma canção sequer desde que retornara. Por isso, caminhou com sua taça de vinho até o instrumento e repousando-a sobre a superfície dele, ela começou a tocar.
Quando Chris chegou ao corredor de seu andar, ele pode ouvir sons diferentes. Evitando a música pesada e barulhenta do lado direito, seguia o som melífluo que o chamava de volta ao lar. Sua mente conturbada decidira seguir a melodia que o acalmava, porque sabia quem estava por trás daquelas notas. Ele sorriu satisfatoriamente ao encontrar Jill com uma fina camisola, de costas, enquanto tocava "Somewhere only we know" do Keane.
Após trancar a porta, deixou a mala no chão e partiu de encontro a ela. Firmando as mãos na curva dos ombros dela, começou a acaricia-la com uma pequena massagem, sem perceber que aquele toque arrepiava a pele dela. Os dedos dela se tornavam mais lentos à medida em que pretendia parar de tocar para recebe-lo atenciosamente.
– Continue, Jill. – Chris insistiu cochichando ao ouvido dela, após deixar um beijo no topo de sua cabeça.
Ouvindo um curto riso dela, reparou que logo retornara ao compasso inicial da música. Segundos depois, Chris bocejou e avistando o sofá ao lado, retirou o paletó e afrouxou a gravata. Deitando-se sobre o confortável móvel, fechou os olhos enquanto sentia lágrimas de cansaço escorrendo de seus olhos devido ao dia exaustivo, contudo improdutivo. Ele, que adentrara naquele prédio completamente irritadiço pelos impasses, apenas lamentava ter perdido uma semana de descanso ao lado de Jill ou mesmo a janta na companhia da irmã. Entretanto aquela música progressivamente arrancava de seu peito todo aborrecimento causado pelos resultados infames de seus esforços vãos.
De olhos fechados, notou o silêncio do deleitoso som. Logo, sentiu o corpo dela sobre o dele, como um abraço deitado. A cabeça dela repousava-se sobre seu peito e ele imediatamente a envolveu afetuosamente.
– Desculpe por ter chegado tarde. – Ele admitiu com uma voz arrastada. – Se te serve de consolo, não resolvi porra nenhuma nesses dias.
– Nesse caso, sinto muito. – Jill respondeu com empatia. – Apenas... não desanime. Mas por hora, procure descansar, está bem?
Chris concordara ao mesmo tempo em que Jill se levantava para deixar a sala. Antes que realmente adormecesse, Chris achou por bem ir para o quarto, mas se surpreendeu ao encontra-la lidando com a banheira no banheiro. Imediatamente, imaginou que ela estivesse preparando um momento íntimo para eles, como sempre costumava fazer nos dias longos e difíceis.
– A Claire está dormindo no seu quarto? – Chris indagou-a parado no corredor, observando que a porta do quarto de Jill estava fechada.
– Não quis ficar. – Jill caminhou até Chris e desatara sua gravata folgada. – Claire ficou sentida por não ter te recebido, mas disse que precisava descansar. Ela estava ansiosa sobre o jantar de amanhã. Se tudo der certo, ela ganha uma promoção e começa a lidar com casos mais extremos. Vocês, Redfields... quanto mais trabalho, melhor. Não é?
– É uma maldição. – Devolveu em deboche. – Espera... esse é o jantar do discurso? – Chris queixou-se enquanto Jill lhe arrancava a gravata concordando. – Por que ela insiste que eu fale em público? Ela não sabe o quanto detesto essa merda?
–Talvez seja porque sua irmãzinha te admira tanto à ponto de te dar a honraria de algumas palavras sobre o assunto na qual você é experiente ou talvez seja também porque você é uma referência da BSAA. Você é o melhor soldado na causa que ela luta tanto para que seja reconhecida. – Jill rebateu já desabotoando o último botão da camisa dele. – Os dois argumentos são válidos. Não vou te ajudar a fugir disso.
– Não sei porque insisto queixar-me pra você. – Chris admitiu livrando-se de sua camisa, lançando-a no cesto como num basquete. – Você me faz sentir um idiota.
– Para de drama! Você pediu por isso, rapaz. Nesse caso, aproveite o banho relaxante enquanto pensa no que discursar, que tal? – Jill olhou para trás, percebendo que a banheira estava quase cheia e lotada de espuma e se inclinou para fechar a torneira.
Chris, aproveitando-se da bela visão da moça, acabou encontrando uma oportunidade perfeita para realmente usufruir de um banho relaxante. Já arrancava sua camisola mentalmente enquanto se aproximava dela, que quando se ergueu e se virou, notou que ele já estava bem próximo. Quando reparou no olhar malicioso que Chris lhe dava, logo tentou escapar do banheiro, mas ele, colocando seu braço à frente dela, a agarrou e a trouxe para perto, prendendo-a a si. Sorrindo ao afastar seus longos cabelos para roçar seus lábios sobre a nuca dela, fez com que o corpo dela se rendesse antes do pedido insistente que ele iria começar a implorar.
– Melhor relaxarmos juntos, que tal? – Propôs sussurrando ao pé do ouvido, correndo suas mãos nas curvas de seu corpo, no intuito de conseguir chegar até o fim da camisola para subir a peça a fim de arranca-la da mulher.
– Não! Já é tarde, Chris. – Jill relutantemente mordeu seus lábios enquanto tentava ser a pessoa resistente de sempre. Ele teria que convencê-la do contrário para conseguir o que queria, tal como ela sempre jogava com ele. – Você está cansado e... temos muitos compromissos amanhã.
– Nem tente começar seus joguinhos de resistência porque dessa vez, não vou ficar insistindo, moça. – Chris girou-a pela cintura e finalmente contemplou o sorriso que ela tentava esconder ao tremer os lábios. – Preciso da minha parceira essa noite.
x.x.x.x.x
Era madrugada quando Chris se revirava na cama, tentando recuperar o sono que sentia ao chegar em casa. Consequentemente, foi procurar uma distração tal como Jill fazia ao ler seu livro de cabeceira na cama onde dormiam juntos. Na verdade, ambos ainda estavam presos no fuso horário asiático.
Esparramado no sofá da sala, Chris assistia episódios gravados de seu programa de pesca favorito. Mesmo usando os olhos para se entreter, não conseguia pregá-los. Já no quarto episódio seguido, pode sentir-se entediado o suficiente para buscar ao redor uma nova distração. Sua atenção se prendeu na escrivaninha, seu pequeno escritório particular. O computador implorava para ser ligado para que ele revisasse os arquivos que trouxera consigo de Boston, para tentar extrair algum bom insumo de sua improdutividade, por mais que soubesse que Jill poderia se irritar com o que chamava de "alienação ao trabalho".
Resistindo à tentação, Chris decidiu retornar ao quarto após desligar a TV. Antes de adentrar em seu quarto, olhou para o quarto à frente. O quarto de Jill estava admiravelmente organizado, mas ela nunca dormiu um dia sequer ali desde que arrumaram esse modesto apartamento no ano passado, ao retornarem para a sede. Aquilo começou a incomodá-lo. Aos poucos, Chris entendia que "quartos separados" deixavam aquele relacionamento com um aspecto confuso, já que dormiam juntos desde 1999.
Lamentando-se sobre o assunto, Chris seguiu até seu quarto encontrando Jill ainda em sua leitura, com sua cabeça repousada e inclinada sobre almofadas e com joelhos erguidos e cobertos que davam suporte ao livro. Ela mantinha um sorriso estático sobre o que lia com a ajuda do abajur. Ele apenas se perguntava como ela conseguia ler sem sentir sono, já que para ele, o hábito era absurdamente tedioso.
– Nem acredito que ainda não sentiu sono lendo esse livro até agora? – Chris se sentou de costas para ela enquanto se livrava de seu relógio de pulso. – Até a TV estava um saco.
– A leitura está cativante. – Ela rebateu vendo-o igualar almofadas como as dela. – Se alguém não me parar agora, eu vou seguir até o fim do livro.
– Que bom que esse alguém chegou. – Chris tentou arrancar o livro da mão dela, mas com um bom reflexo, ela afastou o livro para longe.
– Por que você nunca entende figura de linguagem, Chris? – Jill, levemente irritada, o acertou com uma almofada.
– Dessa vez, você quem pediu. – Ele tentava não rir da situação, observando-a retomar sua leitura. – Acho que você devia parar de ler. Você mesmo disse que temos muitos compromissos amanhã.
– Você não deu a mínima pra isso quando quis transar na banheira. – Jill o provocou escancarando a ele seu próprio cinismo, ainda focada no livro. – Preciso pelo menos terminar esse capítulo.
– Sei... sua perfeccionista. – Chris passou os dedos em afago sobre o rosto dela que apenas demonstrava uma meiguice ao esboçar uma simpatia. Logo, ele se livrou da camiseta, ficando apenas com sua calça moletom. Em seguida, esfregou o rosto irritado olhando ao redor. – Porra, não tenho um pingo de sono!
– Graças ao maldito fuso horário. – Jill alcançava o marca-página sobre a mesinha, ao perceber que Chris precisava dela. – É sempre muito difícil nos readaptarmos à rotina doméstica.
– E quando tivemos uma? Quase oito anos se passaram e nem sei até quando que isso vai durar. – Chris suspirou ajeitando-se ao lado dela para trazê-la mais próximo de si e ela escorou melancolicamente em seu ombro ao fechar seu livro já marcado. – Ainda temos questões sérias para resolver. Quero dizer... se quiser tirar um tempo para descansar, eu até aprovo isso. Só não vou poder fazer o mesmo.
– Como que eu descansaria com você aprontando por aí? – Jill o encarou com um sorriso debochado. – Você sabe onde é meu lugar nessas horas.
– Você nunca muda, Jill. – Chris esboçou um leve sorriso, mas logo o trocou pela face agoniada. – Esse ano, eu exijo uma resposta favorável! Assim que nos assegurarmos de que não haverá mais retaliações da Umbrella ou de Wesker, eu juro que vamos ter um tempo para nós. – Ele tomou a mão livre dela e observou seus dedos que automaticamente agarravam-se aos dele. Observando o anelar esquerdo dela, lamentava ainda não ter colocado uma aliança ali. – Falando nisso, já decidiu o destino? Vamos pegar um ano inteiro de descanso nas montanhas frias ou em um caribe praiano?
– Um ano? – Jill interrogou surpreendida. – Você jamais suportaria passar um ano inteiro sem trabalhar, Sr. Trabalho-em-primeiro-lugar.
– Você está certa, Srta. Me-coloca-na-próxima-operação. – Chris rebateu e ambos gargalharam, debochando de suas realidades. – Você é a primeira a arrumar suas coisas para deixar esse apartamento quando somos solicitados. Estou mentindo?
– Na verdade... nossas coisas, Chris. – Jill se aninhou a ele, após deixar seu livro na mesinha. – Nunca seriamos pessoas normais. Felizmente, acabei te encontrando naquela delegacia e agora estamos aqui nessa vida sem descanso. Mas... eu também queria que a gente experimentasse um outro lado da vida algum dia... só por curiosidade.
– Na verdade... – Chris alegou de ímpeto, travando-se, temendo uma reação estranha da mulher ao lado, mas por fim decidiu prosseguir. – Acho que já estou bem atrasado pra te dar meu sobrenome.
– Você realmente sabe deixar uma garota esperando. – Jill respondeu usando um jargão interno, por achar que se tratava de uma piada. Quando ela percebeu que ele a encarava com seriedade, ela encafifou. – Tá falando sério?
Assuntos sobre casamento entre eles era embaraçoso porque não tinham um relacionamento natural. Tudo o que entendiam sobre isso era que ambos eram melhores amigos, parceiros, que ardiam de desejo pelo outro e que se amavam sobre qualquer coisa, mas não havia um nome para aquele tipo de relacionamento. Nunca sentiram necessidade de categoriza-lo porque não queriam mexer em algo estável, devido aos riscos que corriam na realidade fatídica na qual enfrentavam diariamente. Eles nunca pararam para ponderar ou trabalhar nessa ideia.
Contudo naquela semana, enquanto conversava com sua amiga Cathy que estava prestes a se casar, Jill passou a abrir sua mente para um vinculo mais profundo com o homem que amava. A vida de Cathy White, uma agente secreta da BSAA, também era tão complexa quanto a dela, porque se casaria com um capitão da mesma corporação, depois de já terem tido um filho, o pequeno Zach. Por mais que aquela família tivesse uma vida completamente cheia de adversidades, Cathy alegava que era "importante firmar alianças memoráveis sem teme-las, porque no fim a única certeza para todos é a morte e que ela tinha que correr contra o tempo para experimentar todas as magníficas sensações enquanto em vida".
– Tô falando sério. – Chris alegou com um tom grave e tocante. – Não quero mais ficar escondendo nosso relacionamento quando todos sabem da real.
– Nem todo mundo. – Jill alegou sutilmente nervosa com o assunto. – No nosso caso, não é dos amigos que temos que esconder isso... é pra nossa própria segurança, lembra?
– Isso é uma droga. – Chris ponderou sobre inimigos que poderiam usar aquilo a favor deles. – Vamos dar um jeito nisso muito em breve.
– Isso aí. – Jill assentiu e após vê-lo se ajeitar na cama, voltou a se aninhar nele, sentindo-o acariciar os cabelos soltos dela. Imediatamente, ambos olharam um para o outro em silêncio, enquanto na mente de Jill havia um pensamento. – Eu quero que saiba que... independente de casarmos ou não... eu te amo, tá?
– Eu te amo bem mais. – Chris afirmou sorrindo e selou seus lábios aos dela. Em seguida, ambos contemplavam o teto, reflexivos. Quando desceu seu olhar até Jill, Chris notou que ela ainda mantinha os olhos abertos porque a insônia ainda se fazia presente.
– Enquanto o sono não vem... acho que vou terminar o capítulo. – Jill comentou retornando à posição de antes.
– Que livro é esse? – Ele indagou indiscreto, notando o rosto animado da mulher ao abrir o livro com a ajuda do marcador.
– Nicholas Nickleby, de Charles Dickens. – Respondeu entusiasmada. – Um clássico da minha adolescência.
– Pela sua animação, achei que o livro fosse inédito e não logo essa história previsível. Mocinhos e vilão bem caricatos. – Chris salientou, notando os olhos descrentes de Jill em profundo espanto pela opinião. – É sério... escuta, Nicholas e sua irmã Kate, os mocinhos sofredores, passam a depender do tio Ralph, um cara frio e calculista que sempre arma contra eles porque simplesmente odeia Nicholas. Fim!
– Espera... desde quando você lê clássicos da literatura? – Jill indagou pasmada.
– Eu vi o filme... por pura obrigação. Treinamento da Força Aérea. – Chris admitiu e ambos riram enquanto Jill desaprovava aquela atitude com suas expressões. – Meu bem, a única coisa que eu leio são relatórios, somente porque me interessam de verdade. Enfim... em qual parte, está?
– Capítulo 53. – Jill assegurou, localizando o texto. – Nicholas tenta impedir Madeline de se casar com outro contra sua vontade.
– Romântico. Pelo menos essa parte é interessante. – Chris ajeitou-se confortavelmente. – Que tal ler pra mim? Quem sabe, isso me dá sono.
– Veremos. – Jill afirmou notando que antes de começar a ler, Chris já havia fechado os olhos.
Um salão altamente iluminado com velas e decorado com vários tipos de tecidos, quadros nas paredes e artefatos históricos em cada canto sobre um piso xadrez, demonstrava que havia entrado na era vitoriana. Trajado em um terno antigo e calça escuras, gravata branca e sapatos bem polidos, tinha em suas mãos, envoltas por luvas brancas, um convite, escrito por uma caneta de bico bem fino em uma caligrafia de letras clássicas e arredondadas. O evento certamente era naquele local. Do lado de fora daquela mansão, uma tempestade sobrevinha.
Ele entregou o convite para um senhor magro e alto que atuava como o verificador de convidados da festa, escondido por trás de uma máscara de ferro. Recebendo uma aprovação do anfitrião para adentrar ao salão, guardou o convite no bolso interno de seu paletó, erguendo o chapéu para um cumprimento final.
O homem adentrara então num baile do século XIX, mas pode perceber rostos conhecidos. O pessoal da BSAA ali presente, também usavam trajes de época como ele e todos o cumprimentavam reverenciando-o. Os homens acenavam com o chapéu e as mulheres seguravam a barra da saia dos vestidos volumosos. Logo, uma música começou a ser ouvida no salão, advindas de instrumentos arcaicos e todos passaram a procurar por um par para uma dança.
O homem se sentiu só enquanto procurava um rosto feminino especifico. Olhando para todos os lados, já se sentia deslocado quando sentiu uma leve cutucada em suas costas. Virando-se subitamente, se deparara com uma mulher que usava um vestido claro e rodado com os ombros revelados e luvas longas. Seus cabelos castanhos-avermelhados eram longos e bem cacheados. Não era quem estava procurando, mas sabia que para aquela ocasião, a moça seria perfeita.
– Kate! Você está lindíssima! – Ele declarou reverenciando-a.
– Kate? Não, irmão... eu sou a Claire. – Ela o cumprimentou segurando na saia de seu vestido. – Você está primoroso, Chris.
– O que estamos fazendo aqui nesse baile? – Chris questionou tentando olhar ao redor em busca da pessoa específica de sua mente.
– Bem, de fato, me impressiono por te encontrar hoje por aqui, querido irmão. O dono da casa, por algum obséquio, permitira sua presença nesse baile? – Claire tinha olhos surpresos.
– Eu cheguei aqui com um convite. Então... sim. – Respondeu-a com obviedade.
– Que fortuna! Então, você já não corre mais risco de vida, irmão. – Claire exclamou em alívio.
Chris percebeu que espontaneamente passou a fazer movimentos de dança, tal como os demais ao seu redor. As pessoas não dançavam coladas em seus pares. Elas davam pequenos passos a frente, ao lado e para trás enquanto trocavam olhares com seu respectivo par.
– Sabe me dizer quem está dando essa festa ou quem é o dono da casa? – Perguntou à Claire enquanto dançava.
– Nosso soberano, oras! Aquele a quem devemos tudo o que temos. Além disso... já o cumprimentaste? – Ela replicou e ele meneou a cabeça em confusão. – Se não, faça isso imediatamente! Antes que ele se irrite e mande mata-lo por intransigência.
Chris seguiu o apontar de sua irmã e prontamente seguiu salão adentro, passando dificultosamente pela multidão dançante. Logo, Chris podia ver dois assentos como tronos imponentes, mas não encontrava ninguém ali. Aproximando-se mais, percebera que uma mulher, em um vestido azul, que havia acabado de entrar no salão pela porta lateral, se sentara em um dos assentos.
Seu rosto era escondido pelo leque, mas ainda assim Chris notara que ela era uma formosa dama, apenas admirando seu corpo. Seus cabelos castanhos estavam bem presos com presilhas e seu colo, adornado com perolas. Descendo seus olhos, podia admirar o decote proeminente através do corpete que usava visivelmente apertado. Havia um exagero nos babados das mangas longas de seu vestido, mas notara que nas mãos dela, havia luvas rendadas que davam uma delicadeza naquele visual imponente. A mulher que parecia entediada com aquele baile, não percebia o par de olhos ambares que a admirava. Mesmo sem a presença de seu senhor, Chris então decidiu cumprimenta-la, para ao menos garantir a mercê de sua senhora.
– Minha Senhora. – Chris parou na frente da mulher e erguera seu chapéu em cumprimento. Em seguida, percebeu que os olhos azuis de sua face ainda parcialmente escondida pelo leque, demostraram espanto.
Imediatamente ela se pôs de pé e seguiu pela porta que viera. Curioso e constrangido por aquela reação, ele passou a segui-la. Correndo até adentrar em um corredor cheio de portas trancadas, acabou perdendo o chapéu que usava. Quando o som de um fortepiano fora ouvido do outro lado de uma das portas, Chris simplesmente seguiu aquele som. Já encontrando-se numa grande biblioteca, iluminada por vários castiçais, pode observar a mulher do vestido azul sentada de frente ao instrumento enquanto tocava "Somewhere only we know" de costas para ele. Aproximando-se dela, sentiu que já tinha vivido aquela cena e pode finalmente identificar a mulher sem ainda ter visto sua face.
Percebendo a invasão e a tentação que aquele homem lhe causava com aquela aproximação, ela se desconcentrou de seu instrumento, soltando as mãos das teclas. Alcançando o leque logo à sua frente, escondeu seu rosto novamente por trás dele, afastando-se para finalmente fita-lo, parcialmente escondida.
– O que veio fazer aqui, Christopher? Eu te disse para não mais retornar à esta casa! – O tom irritado da voz dela pode confirmar sua identidade.
Chris se aliviava ao encontra-la finalmente. Ele observava quão delicada ela se mostrava naquele contexto e seu coração acelerava enquanto caminhava até ela hipnotizado. Puxando o leque de seu rosto, na ansiedade de contemplá-la, fez com que ela deixasse o item ir ao chão. Ela, então, colocou suas mãos sobre seu rosto depressa, virando-se contra ele. Admirando sua persistência em manter-se escondida, Chris perguntava-se sobre aquela atitude, onde ela parecia visivelmente desconfortável em sua presença, encontrando-se seriamente perturbada.
– Ei, Jill... por que se escondes de mim assim? – Chris tentou revelar seu rosto e quando o fez, notou seus olhos marejados enquanto ela finalmente o fitava. Tentando não mais constrangê-la ao questioná-la sobre suas atitudes, ele sorriu. – Você está deslumbrante.
Ele parou por alguns segundos a fim de admirá-la. Alcançando seu pulso, puxou-a calmamente para perto. Segurando em seu rosto com sua mão enluvada, se achegava para beijá-la, mas notara o nervosismo dela. Lentamente, seus doces lábios trêmulos começaram a corresponde-lo com timidez. Antes que pudesse aproveitar mais, Chris notou que os olhos dela seguiam na direção às portas. Nisto, ela colocou ambas as mãos sobre o peito dele e empurrando-o, se afastou.
– Eu... agradeço o cumprimento. Contudo, é mais sensato que partas. – Ela olhou para baixo e ao visualizar seu leque caído, Chris se agachou para pegá-lo.
Nesse momento, Jill correu até as portas e usou das trancas para mantê-los em segurança. Ao perceber que Chris já se virava para encará-la, com o leque em mãos, ela fora tomada de uma ousadia repentina. Correu até ele e tomando o leque de volta, tomou também seus lábios porque já se sentia segura para corresponde-lo.
Em passos cambaleantes, ele a guiava até uma coluna e ao pressioná-la contra aquela pilastra, notava que ela se sentia mais livre para retribui-lo toda a carícia inicial que se impedia de executar por temer ser apanhada naquelas condições. Nisto, ela dava liberdade a seu amante para tê-la inteiramente enquanto ele consumia os lábios dela em um beijo molhado e abrasador, que descia lentamente para seu colo, próximo ao colar de pérolas. Ao perceber que as mãos dele corriam por trás de seu vestido, a fim de encontrar o laço do corpete para livrá-la de suas vestimentas, Jill podia notar que aos poucos seus cabelos presos se soltavam à medida em que sua cabeça atritava na coluna com o movimento que ele fazia contra o corpo dela.
Ouvindo o som forte de uma trovoada, Jill despertou-se do transe em que se encontrava. Por mais que tivesse que ser prudente, não queria livrar-se de Chris, principalmente enquanto sentia seu corpo ardendo de desejo por ele. Enquanto sentia que ele se deleitava do momento, roçando os lábios sobre a parte mais acessível e exposta de sua pele, ela passou a reprimir os gemidos de prazer. Relutantemente e sutilmente, ela tentava se livrar dele contra sua vontade, sem afastá-lo. Percebendo isso, ele mesmo se afastou imediatamente, embora confuso. Assistindo-a retirar suas luvas, notara que ela olhava sua aliança no dedo anelar esquerdo com mãos trêmulas e ao encará-lo novamente, fios de lágrimas escorriam de seus olhos.
– Não podemos aqui! – Jill, com voz trêmula, lastimava. – Ele não pode saber que vieste até a casa dele.
– Você se refere ao dono da casa... o soberano? – Chris tentou ligar os pontos ao se lembrar de onde a viu sentada minutos atrás enquanto ouvia o barulho da forte chuva. – Somos amantes?
– Não digas isso em alta voz! Nunca poderíamos revelar nosso amor. Seria um risco nos expor pra quem quer que seja. Nem o soberano, nem os demais podem saber que nos amamos. Ele te mataria impiedosamente se descobrisse... como já tentou uma vez.
– Você se casou com outro? – Chris indagou-a aborrecido. – Por que não se casou comigo? Não sou bom o suficiente? Não paro em casa? Não poderia te dar uma família?
– Eu não tive escolha! – Jill rebateu interrompendo-o irada ao lançar o leque e as luvas ao chão. – Enquanto eu estiver com ele, nenhum mal irá acontecer-lhe. Porque... antes viver assim do que perder você pra sempre. – Ela notava que Chris já se mostrava perigosamente perturbado. Temendo suas atitudes, Jill se aproximou dele, procurando se acalmar e tocou em cada lado de seu rosto. – Não podemos nos encontrar assim. Apenas...me dê um beijo derradeiro e fuja. – Jill suplicou com os olhos presos aos dele e em seguida, aos lábios, aguardando o beijo.
Por mais que quisesse se entregar novamente as carícias anteriores, a mente de Chris já se encontrava bastante bagunçada para dar aquela mulher poucos minutos de seu tempo quando sabia que ela pertencia a outro homem, totalmente. Percebendo a frieza com que Chris não mais a apreciava, enquanto suas mãos frias acariciavam a face dele, Jill decidiu se apartar.
– Fuja comigo, Jill. – Chris prontamente propôs agarrando seu pulso antes que ela se afastasse. – Vamos embora agora desse lugar!
– Você sabe que nunca viveríamos seguros. – Jill expressava negação. – Ele tem domínio sobre tudo e todos.
– Então... eu... vou enfrentar esse homem. Nem que eu tenha que mata-lo para te ver livre novamente. Não quero te ver em uma vida infeliz.
– Já tentaste isso uma vez. Sabes que ninguém é páreo para um monstro tão influente e poderoso. Você quase morreu por isso! – Ela, apertando os lábios, secava as novas lágrimas. Logo, mostrou uma postura mais firme. – E eu prefiro viver esse inferno do que perder você para esse cretino. Se ele sequer imaginar que você...
– Abra as portas, senhora! Essa é uma ordem da guarda do soberano. – Um guarda bradou do lado de fora enquanto batidas duras forçavam a porta da biblioteca a se abrir.
Jill se mostrou completamente assustada e olhando ao redor, localizou uma janela. Logo, a forçou até que ela se abrisse. Virando-se para Chris, ela o chamava com as mãos.
– Venha logo! – Sussurrou. – Fuja pela janela, corra em direção ao riacho e esconda-se em nosso esconderijo até a chuva passar. Nos encontraremos por lá em dois dias, como combinamos. – Jill concluiu abraçando-o intensamente enquanto uma lágrima escorria do lado esquerdo da bochecha. – Se cuida, Chris.
Chris ainda assimilava paralisado o que estava acontecendo enquanto Jill o aguardava passar pela janela. Seus pés já estavam envoltos em poças d'água que minavam sobre o chão, advindas da chuva que adentrava pela janela. As batidas e os brados dos soldados só aumentavam a vontade de levar aquela mulher com ele, porque não sabia o que aconteceria com ela ao abrir das portas. Temendo arriscá-la, ele organizou seus raciocínios. Virando-se na direção das portas, finalmente notara um quadro pintado a óleo. Nele, Albert Wesker se encontrava sentado sobre uma cadeira. De pé, ao seu lado, estava Jill, como sua esposa.
Imediatamente Chris mostrou-se horrorizado enquanto assistia tudo lentamente. Jill o observava angustiosa enquanto a porta estava quase sendo arrombada. Ele se afastou dela e colocando a mão no bolso de seu paletó, onde estava o convite, retirou dali um revólver. Encontrando uma única munição no tambor, esboçou um sorriso satisfeito, caminhando em direção às portas que se abriram abruptamente naquele exato momento.
Quando Chris se deparou com o homem parado na porta, totalmente trajado de preto, do chapéu ao sapato, com a íris de seus olhos vermelhas, entendeu que era aquele o inimigo a quem deveria rapidamente enfrentar. Ele o encarava de volta, ensoberbecido, com o velho sorriso de canto imponente. Enquanto tentava manter a arma empunhada na direção daquele homem, Chris começou a sentir uma falha em suas vontades e inesperadamente abaixou sua arma. Passos à dentro do salão da biblioteca foram executados pelo homem a quem chamavam de "soberano". Albert Wesker então percebeu que Jill se aproximava e logo se encontrava ao lado de seu amante, enquanto homens armados continuavam do lado de fora.
– Então... quer enfrentar-me novamente, moleque intransigente? – A voz adenoidal e pretenciosa de Albert funcionava como bramidos terrificantes aos ouvidos dos amantes. – Não vês que sou invencível?
– Isso acaba aqui e agora! – Chris bradou e apontou novamente o revólver na direção da cabeça de Wesker. Inusitadamente, pode sentir uma força estranha virando seu corpo e sua mão para sua lateral em segundos.
Chris então passou a empunhar a arma na direção de Jill que o fitava apavorada enquanto ele engatilhava pausadamente o revólver com o polegar. Sem entender como aquilo acontecia, Chris notara que estava sendo controlado pelo inimigo, ao mesmo tempo em que tentava resistir e impedir seu dedo indicador a pressionar o gatilho.
– Termine isso de uma vez. – Albert sorria com desprezo ao perceber que Jill, sem entender, se horrorizava com as atitudes de seu amante. – Mas antes, querida esposa, saiba que somente fostes um objeto da minha vingança pessoal contra esse insolente.
– Não faça isso comigo Chris, eu te imploro! – Jill clamava em sussurro ainda em choque.
– Mate-a Chris... – Albert ordenou risonhamente. – E morra junto a ela.
Ouvindo a ordem ecoar em sua mente como a coisa certa a ser feita, Chris virou seu rosto contra ela, sentindo que já não poderia controlar suas ações. Mirando acima de seu peito, onde minutos atrás depositara seu amor sobre ela, fez o disparo acontecer.
Chris despertou-se com o estalo do disparo que acabara de fazer em seu sonho enquanto seus olhos se abriram subitamente. Tentando se localizar, teve a impressão que fizera uma rápida viagem no tempo até chegar nos dias atuais. Seu corpo ainda tremia suado embaixo do cobertor enquanto a amante impossível de seu sonho, a quem ele tinha acabado de tirar a vida, estava deitada, aninhada a ele dormindo profundamente. Ele imediatamente os descobriu e verificou o corpo dela com a ajuda da luz do abajur e notou que ela apenas se mexia enquanto respirava. Prendendo sua visão sobre o rosto dela, tranquilo e angelical enquanto adormecia, Chris gravava essa memória sobrepujando suas expressões desesperadas na qual visualizara minutos atrás num pesadelo.
A realidade, por mais que dura, ainda era boa porque Jill segura em seus braços. Exausta como se encontrava, seria difícil despertá-la. Por isso, tinha que aproveitar daquele momento para lidar com que o precisava ser feito urgentemente. Dando-lhe um beijo na testa enquanto a aninhava, deixou-a confortável sobre a cama, colocando seu amado livro na mesinha lateral.
Apertando seu relógio no pulso, Chris se dirigiu ao banheiro. Lavando seu rosto, em plena madrugada, se via perturbado. Ter visto Wesker em um contexto onde ele era implacável, fez com que Chris ponderasse sobre encontrá-lo e detê-lo o mais rápido possível.
Já encontrando-se de frente ao laptop, começou a trabalhar sobre os arquivos que trouxera de Boston, no intuito de vasculhar qualquer vestígio implícito sobre os últimos materiais recolhidos. Verificando se ali continha sinais ou resquícios existentes da Umbrella nos últimos anos, fizera várias anotações ao acrescentar novas informações ao dossiê de investigação que trabalhava particularmente há anos. Ponderando sobre sua recém pesquisa, Chris pensou em finalmente solicitar à cúpula da BSAA a abertura de uma nova operação enquanto os primeiros sinais de luz da alvorada clareavam a sala de estar gradativamente.
Já terminando de compor sua solicitação, pode ouvir um barulho do banheiro. Por isso, preparava sua mente para receber um sermão da mulher que havia se levantado inexplicavelmente muito cedo. Contudo, ela não viera a seu encontro. Enquanto ele continuava trabalhando, pode sentir um cheiro agradável de café recém passado. Em seguida, passos se aproximaram e ele virou a cadeira giratória a tempo de observar Jill se achegando a ele, embora seu rosto demostrasse um desagrado.
– Bom dia, Jill. – Chris a cumprimentou, convidando-a com as mãos para se sentar sobre ele. Notando que ela estava bem vestida, estranhou. – Não vai voltar a dormir?
– Só me diz que pelo menos você tentou dormir essa madrugada. – Jill se sentou sobre ele, tomando seu queixo para verificar seu rosto abatido em cansaço.
– Eu juro que consegui dormir... um pouco. – Admitiu satisfeito. – Até mesmo sonhei.
– Sonhou? – Um sorriso curioso surgiu nos lábios dela. – Vou ter que começar a torturar você para saber mais?
– Uma bobagem... fruto daquele livro chato de época. – Chris revirou os olhos enquanto percebia o olhar reprovador. – Mas você estava lá e estava deslumbrante em um vestido longo. Isso é tudo o que vou dizer.
Compartilhando uma risada com Chris, que tentava esquecer a pior parte do sonho, Jill voltou sua atenção a tela do laptop, enquanto se inclinava para tentar observar o que tinha ali. Ao observar que Chris lidava com o dossiê que ela conhecia muito bem, voltou-se para ele com preocupação.
– Ok, pode começar o serm...
– Você perdeu sua noite com aquilo outra vez? – Jill o interrompeu séria e ele acabou girando a cadeira para observar a tela aberta em silêncio. Contrariado, Chris decidiu abaixar a tela, mas antes que o fizesse, ela segurou sua mão, impedindo-o. – Tudo bem. Pode continuar trabalhando nisso. Só... não troque mais a noite de sono nesse frenesi, tá?
– Essa é a última vez que estou trabalhando no dossiê, Jill. – Começou a confessar. – Decidi solicitar uma investigação com tudo o que temos nele. Sei que não são informações concretas, que as pistas são pequenas, mas... nunca iremos ter nada se não começarmos. A BSAA ainda não sabe lidar com a Umbrella, muito menos Wesker. Se a gente não exigir isso, nunca iremos resolver. – Chris suspirou enquanto ela o encarava atenta. – Ainda consigo me lembrar das ameaças daquele desgraçado. Não posso descansar até arruiná-lo.
– Você está certo. – Jill alegou apreensiva depois de longos segundos. – Mas ainda acho que seria viável se descansasse antes de começar a lidar de vez com essa loucura, não acha? – Ela mostrou um tom incontestável e acariciou seu rosto enquanto Chris assentia. – Não deixe esse infeliz dominar e desconsertar você.
Recebendo a concordância de Chris, Jill se levantou descontente e se dirigiu à cozinha. Chris finalmente enviou o dossiê, torcendo para que aquilo tivesse um efeito positivo. Em seguida, Jill se aproximou com a jarra de café e serviu a caneca dele, pois sabia que precisaria de um reforço para manter-se acordado naquele dia.
– Quando acabar aí é melhor se adiantar porque o dia é longo. – Ela relembrou tomando seu próprio café escorada na escrivaninha. Percebendo o espanto de Chris, ela imaginava que ele estava perdido na programação. – Relembrando... temos a cerimonia de homenagens dos soldados mortos em combate dos últimos seis meses da BSAA as nove da manhã, na sede. De lá, temos o almoço com os noivos. Logo, às quatro, a gente deve estar prontos para irmos ao casamento no hotel.
– Ué... achei que só teria o casamento. – Chris demonstrava desânimo enquanto Jill repunha mais café para ele.
– Ah! E o jantar beneficente para arrecadar fundos às vítimas do Penamistão no prédio da TerraSave, às oito. – Jill comentou voltando-se a cozinha com a jarra vazia. Retornando do corredor com uma bolsa pendurada no ombro, ela observou-o em estresse. – Espero que tenha aproveitado da insônia para trabalhar em seu discurso.
– Mas que merda! – Chris coçou a cabeça. – Me esqueci completamente do discurso.
– Eu notei. Felizmente, ainda dá tempo. – Jill alegou se aproximando de Chris com a chave do carro em mãos. – Aproveite o café enquanto pensa em algo. Quando eu voltar, a gente trabalha umas palavras certas para um texto digno.
– Aonde você está indo a essa hora? – Questionou intrigado olhando ao relógio de pulso.
– Cuidar dos nossos trajes de hoje. – Jill se inclinou e o beijou. Antes de se afastar, ela correu seus dedos sobre a barba crescida dele. – Se livra disso assim que puder.
Chris concordou bebericando do café. Em seguida, foi até o banheiro e antes que começasse a se barbear, ouviu um barulho de notificação do laptop. Prontamente, levou consigo uma toalha e correu até lá cheio de espuma no rosto. Comemorou internamente o primeiro aval que recebera.
Contudo o que mais lhe chamou a atenção nessa resposta foi um arquivo anexado, na qual havia um material que corroborava com alguns dados em seu dossiê, formulado pela equipe de investigadores a mando de Esteban Saldaña, o diretor da América do Sul. Observando o calendário na mesa, Chris sabia que não descansaria antes de começar aquela loucura.
x.x.x.x.x
Chris e Jill se encontravam em uma sala de reuniões juntamente com o diretor da BSAA da América do Sul em Santiago, no Chile uma semana depois. Se reuniram dentro de um hotel, pois o prédio local da corporação passava por reformas, depois de terem sidos os últimos a receberem os recursos advindos da FBC. O hotel tinha uma instalação moderna, embora sua parte externa e suas decorações se mostrassem bem históricas, para deleite de Jill que adorava apreciar a cultura local.
O diretor apresentava junto à um projetor, uma parte de dados da investigação na qual estava a frente. Explicara que naquele país, haviam duas instalações laboratoriais dentro de bunkers, onde uma era localizada próximo à cordilheira dos Andes e a outra em pleno deserto do Atacama. Ambas apresentavam o mesmo modelo e de início, serviriam apenas como um provável refúgio idealizado pelos senhores mais ricos da região. Após 2003, moradores próximos denunciaram atividades estranhas de estrangeiros ao redor. No fim da apresentação, o diretor aguardava uma posição dos principais investigadores da BSAA.
– Vocês foram impressionantes! Os detalhes da investigação estão bem efetivos. Mesmo sem um prédio e com insumos de terceiros, posso dizer que o trabalho investigativo da América do Sul é um dos melhores. Não é, Chris? – Jill se virou para o lado, percebendo que Chris encontrava-se distraído com a papelada em mãos. – Chris?
– O que? Desculpe, eu... – Tirando os olhos da página, Chris procurou interagir enquanto o diretor do outro lado da mesa aguardava sua fala.
– Estava comentando com o Sr. Saldaña... – Jill tentara repetir para Chris, quando foi educadamente interrompida pelo diretor.
– Me chame de Esteban, por favor, Srta. Valentine. – Insistiu novamente, com um sotaque latino, para que ela o chamasse informalmente.
– Desculpe... Esteban. – Jill forçou um sorriso e voltou-se para Chris, cobrando com olhares mais atenção dele naquela conversa. – Comentei sobre o ótimo trabalho que fizeram mesmo sem um prédio na região ou tecnologias que temos lá na sede. Seria bom se conseguíssemos agilizar isso o mais rápido possível a eles. A filial sul-americana é uma potência investigativa e podem auxiliar as demais se tiverem recursos necessários.
Chris demonstrou concordância, notando o olhar obsessivo e admirado que o diretor dava em Jill. O homem de cabelos grisalhos, na faixa dos quarenta anos, de pele bronzeada e lábios carnudos era bem apessoado, trajado em um terno azul-marinho. Percebendo que todo entusiasmo de Jill era por conta do trabalho e não das inúmeras vezes em que recebia elogios do diretor, Chris não demonstrava ciúmes, embora quisesse demonstrar sua revolta ao vê-lo tentando conquista-la.
– Claro. Vamos reportarmos isso. – Chris fechou o relatório. – Sendo assim, como estão os preparativos para irmos às zonas de risco, Esteban? – Chris o provocou, chamando-o também informalmente.
– Dentro de três dias, tudo estará pronto. Até lá, vocês se familiarizarão com a equipe que atuou no levantamento de dados. Amanhã eles já estarão aqui. Portanto, é melhor que já descansem por hoje. – Esteban olhou no relógio, percebendo que se aproximava das sete da noite. – Podemos nos encontrar aqui as oito da manhã, o que acham?
– Combinado! – Jill prontamente se levantou e ambos se levantaram junto a ela. – Porque agora, não vejo a hora de experimentar comida chilena.
– Nesse caso, posso oferecer um jantar à senhorita no melhor restaurante de Santiago essa noite? – Esteban mostrava-se animado.
Nesse momento, Chris que ainda mantinha olhos pensativos sobre o relatório em cima da mesa, levantou um olhar chocado, tentando esconder seu desconforto. Jill, surpreendida, apenas mostrou um sorriso vacilante, em constrangimento.
– Que tal... outro dia? – Ela observou com nervosismo aos rapazes. – Estou exausta. Vou acabar pedindo um serviço de quarto por hoje. – Ela observava Esteban assentindo ao compreende-la, mas Chris a encarava desconfiado. – Boa noite pra vocês. – Cumprimentou-os retirando de si o crachá e ao apertar os lábios, temia as reações de Chris sobre Esteban enquanto estivessem sozinhos.
– Ela é maravilhosa. – Esteban admitiu encantado quando Jill já havia partido. – Ela é muito mais incrível do que eu já esperava que fosse.
– Eu sei. – Chris mostrou um sorriso presunçoso. – Ela é a minha parceira há dez anos.
– É uma honra tê-los aqui. Nunca achei que os conheceria tão cedo. Vocês são os melhores, tenho certeza. – Esteban se aproximou de Chris, que mantinha um rosto sério e braços cruzados enquanto assentia. – Sabe, quando eu entrei para a BSAA e me inteirei sobre a causa, depois de anos na Interpol, eu passei a admirar extremamente pessoas como vocês que encaram a linha de frente com tanta coragem. Digo, nem acredito que estou trabalhando com a lendária Jill Valentine, de Raccoon City. Nossa! Ainda tendo a chance de leva-la para jantar comigo...
– Ela não se envolve com pessoas do trabalho. – Chris encarava colericamente o diretor ignorando sua própria questão com ela. – Acredite em mim, ela só está aqui à trabalho.
– Ah! Você parece conhece-la bem. – Esteban o analisava enquanto pensava em usar aquilo a seu favor. – Poxa, nesse caso, acho que você poderia me ajudar com um empurrãozinho, não é amigão? – O diretor pedia risonho enquanto notava expressões desconfortáveis no rosto de Chris. – Já que acho que vocês... não tem nada entre vocês, né?
Com um sorriso tímido, Chris tentou se acalmar internamente para não se precipitar à ponto de tornar público seu relacionamento com Jill ou para não perder a cabeça com o homem que parecia ignorar todas as suas implicâncias. Insistindo em fazê-lo finalmente entender, Chris deu leve batidas em seu ombro.
– Esteban, minha parceira é uma garota difícil. Então não... – Chris balançava a cabeça em negação enfaticamente. – Não vou facilitar as coisas para você. – Ele estendeu a mão para um aperto em cumprimento e em seguida, caminhou para fora da sala.
x.x.x.x.x
Após escutar batidas na porta do quarto do hotel, Jill a abriu e se deparou com seu parceiro que estava sumido há horas. Como sempre combinado, ambos tinham quartos separados, mas jantariam e dormiriam juntos, como costumavam fazer nas missões. Ela, mesmo faminta, ainda o aguardava em seu quarto para fazer o pedido da janta. Chris segurava sua mala com uma mão e na outra sustinha uma embalagem de comida. Alcançando a embalagem, Jill deu liberdade para Chris passar para dentro.
– Por que demorou tanto para vir? – Jill o observava posicionando sua mala junto a dela no canto do quarto.
– Porque tive que ir no "melhor restaurante de Santiago" comprar a comida que você queria comer antes que "alguém" fizesse esse favor. – Chris alegou com uma pontinha de ciúme evidente. Sentando-se exausto na beirada da cama, observava Jill se maravilhando com o cheiro da embalagem recém aberta da Chorrillana que trouxera consigo.
– Sabe, essa é a melhor parte de ser uma solteirona comprometida. – Jill deu uma risada para tentar quebrar o mau humor de Chris. – Você sempre se supera sobre os demais, Chris Redfield.
– Pois é! Agora eu estou ansioso para saber como a apaixonante Jill Valentine vai dar um fora no Dom Juan. – Chris a encarava incomodado, mostrando-se irritado com sua conduta. – Afinal, por que dessa vez não negou de cara e ainda deu esperanças para ele?
Jill sentiu uma decepção consigo mesma. Ela já tinha a pretensão de conversar com Chris sobre o que sabia que tinha o aborrecido. Ter adiado o compromisso com o diretor e não o negado, magoava seu parceiro profundamente. Não podia julgá-lo, afinal Chris sempre foi muito direto ao negar convites pessoais ou cantadas atravessadas, sempre deixando claro seu desinteresse por outras. Por isso, Jill não pode esconder sua frustração consigo mesma.
– Não existe "dessa vez". – Jill se afastou da mesa e se sentou ao lado de Chris envergonhada enquanto ele continuava encarando-a desconfiado. – Olha, eu errei, me perdoe. A princípio, eu nem devia comentar sobre comida naquele ambiente e segundo que... tinha acabado de falar que queria comer comida chilena, eu não podia simplesmente negar isso repentinamente. Além disso, você sabe que eu nunca iria nesse jantar. – Jill repousou uma mão sobre a coxa do homem ao lado. – Mas aposto que ele só queria tratar de assuntos profissionais com isso.
– Não foi o que eu ouvi dele quando você saiu da sala. – Chris encarou-a irritado ao torcer os lábios. Jill então detectou um cheiro de cigarro impregnado nele, mas decidiu não se importar por saber que havia um motivo estressante por trás. – Por que todo latino é obcecado por você?
– Olha só quem fala! Todas as funcionárias da BSAA do mundo inteiro se oferecem diariamente para fazer uma parceria com você. Pra mim, tudo bem se quiser aceitar porque... – Jill cruzou os braços tentando esconder seu ciúme. – Eu confio em você de olhos fechados.
– Eu também confio em você, Jill. A questão não é uma falta de confiança entre a gente. – Chris confessou cabisbaixo. – Não confio na intenção deles.
– Você não precisa...
– Esses caras me intimidam. – Chris desabafou sobre o que de fato estava incomodando-o sem encara-la. – Quero dizer... Esteban é um diretor. Ele é bonitão, tem uma boa lábia e tem uma casa fixa, um bom salário. Pode formar uma família e pode te oferecer o que você quiser. – Chris se virou a ela, notando uma confusão em seus olhos e se mostrou hesitante. – Já eu, fico preso nessa vida miserável, procurando por um desgraçado que já deve ter virado fumaça a essa hora. Tudo para ter uma segurança, uma vida mais tranquila, se não acabar morrendo ao tentar. Isso porque eu ainda estou arriscando você nisso tudo.
– Ah, Chris... – Jill finalmente se inteirou do que acontecia, mas procurou tirá-lo imediatamente daqueles pensamentos. Levantando-se, ela segurou em seus pulsos e o arrastou até a mesa. – Vem aqui provar dessa Chorrillana. É melhor ocupar logo essa sua boca que já tá falando muita bobagem.
Jill assistiu ele se juntar a ela sobre a mesa. Pegando um punhado em sua colher, ela ofereceu a comida a ele que prontamente demonstrou satisfação pelo sabor e por um momento, trocou o rosto preocupado pela apreciação da comida que o satisfazia. Ambos começaram a trocar ideias sobre alguns pratos que degustaram nos últimos anos, principalmente em um período muito difícil em que ambos se limitavam a uma pequena porção de comida que ainda dividiam entre si. Aos poucos, eles começaram a se lembrar de momentos bons e ruins que passaram juntos, divididos entre lembranças felizes, satisfatórias, pesadas ou dolorosas. Logo, a desavença foi deixada para trás enquanto a comida também chegava ao fim.
– Posso te confessar uma coisa, Chris. – Jill tomou sua atenção ao afastar a embalagem vazia, ao se achegar a ele. – Eu sempre vou escolher você. Seja você do jeito que for e como estiver. Te conheço desde o jovem rebelde até o homem ajuizado. Nesse meio tempo, nunca cogitei em trocar você por ninguém. Um dia, você me disse que valeria a pena tentarmos e fico feliz por termos durado tantos anos. – Ela observou que ele se mostrava meditativo ao ouvi-la. – Você ainda é o meu parceiro e você ainda está aqui.
Chris demonstrou um alívio. Se lembrando de época em que iniciaram aquele relacionamento, ele imaginava que todos os problemas ali fossem se resolver logo, não chegando a se estender por tanto tempo. Os lugares instáveis, os perigos iminentes e a sensação de acabar como o responsável por algum desastre ou algum mal que poderia acontecer com ela, começaram a atemoriza-lo com os anos, tal como no pesadelo que ainda perturbava sua mente depois de dias.
– Você tem certeza que é isso que você quer? Talvez, ainda queira tentar uma nova vida com alguém que possa te oferecer um lar de verdade. Porque se isso for o melhor pra você...
– Para com isso! – Jill revirava os olhos e logo gargalhou. – A gente sabe que você não conseguiria me perder assim. Você jamais aceitaria isso, para de se enganar. – Ela finalmente conseguiu arrancar dele um sorriso enquanto ele escondia uma terna timidez. – Sabe... meus pais sempre viveram viajando por aí. Eles esqueciam que tinham uma filha e eu, com minha saudosa vovó, esquecia que tinha pais. Quando vovó Louise se foi, no auge da minha adolescência, eu surtei e o resto você sabe. Ali, prometi a mim mesma que seria sozinha pra sempre. Eu só não contava que ia conhecer você. Desde então, me sinto cuidada e amparada e não preciso de mais ninguém nesse mundo caótico. Você é tudo o que nem sabia que queria tanto. – Jill notou que aos poucos, a confiança dele aumentava, conforme o sorriso tímido se tornava cada vez mais largo. Nisto, ela se levantou da cadeira e parando por trás da cadeira onde ele estava sentado, ela se inclinou até seus lábios encostarem na orelha dele. – Mas agora, tudo o que eu mais quero é que você se livre desse cheiro insuportável de cigarro. Senão, não vai ganhar sua massagem hoje.
Chris imediatamente se levantou e foi em direção ao banheiro sem protestar pelos motivos óbvios. Jill continuou ponderando sobre sua vida. No fundo, ela também se tornara essencial para ele. Estranhamente, passou a temer o poder daquele vínculo ou a dependência que ele trazia para ambos porque lidavam com muitos perigos assoladores e iminentes.
x.x.x.x.x
Caminhando lentamente pelo corredor do hospital, depois de ter voltado da sala de radiografia, Jill voltara a pensar no que havia acontecido na última missão. Depois de invadir, junto à Chris, a segunda instalação-bunker, no pé dos Alpes, lesionara dolosamente seu corpo após se envolver em uma luta corporal contra um terceiro agente inesperado que também se infiltrara no local.
No momento em que se separou de Chris, devido a uma armadilha furtiva que dividiu seus caminhos, acabou por se deparar com esse invasor. Em seguida, Chris a encontrou desacordada no meio do corredor depois de ter sido apagada pelo oponente, que proficientemente, acabou alcançando a sala de controle primeiro que a dupla. Portanto acabou levando consigo os dados mais importantes do laboratório. Jill lamentava aquela derrota, mas antes que se consternassem, acabaram tomando mais tempo para revirar o local e conseguir ainda extrair materiais, que se bem analisados pela inteligência, ainda poderiam render dados importantíssimos.
Jill acabou ocultando suas lesões de luta de seu parceiro para dar preferência as investigações, até que ao sair da instalação, teve que fazer um esforço que acabou machucando mais suas contusões. Quando finalmente manifestou sua dor reprimida à Chris, ele ficou transtornado sem entender como não tinha se dado conta de que Jill estava tão ferida ao seu lado. Dentro do hospital, depois de ter tomado eficientes analgésicos em uma cabine de leitos, ambos acabaram tendo uma longa discussão porque Chris se sentia negligente por não a ter priorizado naquele estado, por mais que ela assumisse toda a culpa por todas as suas complicações.
No corredor do hospital, muito semelhante ao do bunker, Jill passou a refletir sobre uma lembrança, que mais parecia um tipo de alucinação, que fazia ela ponderar sobre sua própria sanidade mental. Podia jurar que tinha sentido a presença de Albert Wesker naquele local, minutos antes de ter sido abordada pelo agente. Enquanto tentava correr atrás da voz que soava tão igual a de seu ex-capitão, o homem de preto, do alto da cabeça aos pés, com uma mascara de gás protegendo seu rosto parou em sua frente. Ambos travaram uma intensa batalha sem armas que apenas acabaria com um deles inconsciente.
De início, ele tentou imobilizá-la, mas Jill resistira, com contragolpes certeiros. Ela lutava defensivamente contra o homem que parecia querer mata-la ao deferir golpes vigorosos. Ele, que acabou arrancando-lhe as armas gradativamente, atacava ofensivamente e impiedosamente a agente. Por fim, por mais que desse tudo de si para acertá-lo nas partes mais sensíveis de seu corpo a fim de finalizá-lo, Jill notara que ele sempre a bloqueava com maestria, sem demonstrar dor ou fraqueza, devolvendo a ela lances fortes, que realmente a machucavam. Por fim, acabou pegando o de surpresa e com um chute alto, achou que tinha o nocauteado quando ele foi ao chão. Exausta da luta, Jill aproximou-se dele no chão e ajoelhando-se tentou revelar sua face, quando ele inesperadamente acabou abordando-a de baixa guarda e a acertou com um soco que fez sua cabeça girar violentamente, seguido de um golpe furtivo na carótida, que a desacordara temporariamente.
Lembrando-se daquele momento vestida com roupas hospitalares, Jill pode sentir um suor frio, seguido de um mal estar momentâneo. Lutando para se recompor até que chegasse ao leito, entendia que precisava descansar. Sua mente estava abalada demais, seu estado demandava cuidados e precisaria de uns dias para recuperar-se, tal como o médico e Chris insistiram tanto para que ela percebesse.
No relógio na parede do corredor era oito da noite. Após passar um dia inteiro ali, sabia que logo seria chamada para um quarto onde provavelmente seria internada em observação. Mas lamentava não poder revisar os arquivos para corroborar a ideia de ter visto Wesker naquele bunker ou não. Entretanto, se não encontrasse pistas sobre sua presença, ela manteria isso em segredo, porque não poderia mais trabalhar com expectativas naquela altura das investigações.
Puxando a cortina para acessar o micro espaço onde estava instalada, Jill fez Chris despertar de seu cochilo, enquanto sentado sobre a poltrona do acompanhante ao pé do leito. Passou por ele ainda séria, desde que ainda estavam chateados com o outro e se sentou na maca, balançando seus pés pela altura da cama. Ainda irritado com Jill, principalmente por não ela não ter deixado ele acompanha-la na radiografia, sabia que não manteria aquela postura ao observar que nela havia uma tristeza e insatisfação.
– Está tudo bem com você?
– Estou bem. – Ela suspirou evitando-o, desde que sabia que ele a encarava. – Nenhum osso foi quebrado, se é isso o que quer saber.
– Você está triste. – Ele admitiu hesitante. – Olha, me desculpe por...
– Não é por isso. Eu sei que você está certo porque errei em não ter dito sobre meu estado. – Ela retrucou chateada. – Eu só... não queria ter sido vencida lá no bunker. Se o mascarado não tivesse me impedido, eu teria chegado à sala de controle e... sei lá, eu só sinto que falhei.
– Claro que não, Jill. – Chris se levantou e parou na frente dela, que cabisbaixa, escondia sua decepção. Ele, comovido, segurou delicadamente em seu braço fazendo-a visualizar os hematomas presentes ali. – Pra isso ter acontecido, quando eu sei do que você é capaz, entendo que você foi abordada por um profissional que sabia o que estava fazendo. Juro que eu o mataria friamente por ter feito isso com você, mas tenho certeza que você já fez um bom estrago nele.
– Eles estavam nos aguardando lá dentro. – Jill soltou de ímpeto, inesperadamente.
– Eles? – Chris indagou. – Tinha mais de um invasor? – Ele insistiu ao erguer a cabeça dela, a fim de que o encarasse. – O que sabe que ainda não me contou?
– Já te contei tudo. – Jill concluiu. – Não te esperei no corredor do laboratório porque pressenti que não estávamos sozinhos. Então tive que correr pra chegar na sala de controle antes que fosse tarde. E aí... – Ela se conteve, evitando o que realmente lhe afligia, forçando um bom humor. – Preciso organizar minha mente, são muitas informações pra processar e minha cabeça quase foi arrancada do meu pescoço.
– Merda... sinto muito. – Chris alegou enfadado ao olhar o corte na lateral de seu rosto que ainda estava levemente inchado. Sentando-se ao seu lado no leito enquanto reflexivo, abrigou a mão dela nas deles. – Quando eu terminar de enviar todos os relatórios pra inteligência e você receber alta... a gente descansa um pouco, tá? – Ele piscou para ela, que tentando esconder sua curiosidade, apenas exibiu um breve sorriso. – Eu estava tão focado nessa droga que... preciso compensar isso. Você é mais importante do que qualquer investigação.
Sem responder com palavras, ela se inclinou e o beijou no rosto, violando uma das regras principais daquele relacionamento, que não permitia afetos em locais de fácil acesso dos demais. Ainda com o rosto muito colado ao dele, percebeu que ele, subiu suas mãos até a nuca dela, acariciando-a, desejando ter mais dos afetos dela. Logo, ficou de pé em sua frente, com a testa colada à dela enquanto ambos reprimiam o desejo de se beijarem quando estavam bem próximos.
– Não é melhor esperar me chamarem para a internação em um quarto individual? – Ela o provocou cochichando, sabendo que o inevitável estava prestes a acontecer ao notar a maneira obsessiva na qual ele olhava para seus lábios.
– Por que não começamos agora o que podemos terminar lá? – Chris propôs e depois de três segundos de relutância, ela o beijou como resposta.
Ainda aproveitando o prazer de ousarem manifestar um beijo em um lugar semipúblico, ambos se sentiam tentados em deixar o momento perdurar mais um pouco. Contudo, quando ouviram o abrir da cortina, se apartaram assustados procurando saber quem tinha invadido aquele espaço e deparam-se com o diretor Esteban paralisado, segurando um buquê de flores.
– Desculpe... interromper o momento, mas eu trouxe rosas. – Esteban logo procurou o cartão preso à folhagem e removendo-o de lá, o guardou no bolso do paletó. Constrangido, ele deixou o buquê sobre a poltrona. – Quero dizer, foi a BSAA da América do Sul que trouxe rosas e lhe deseja uma boa recuperação, Srta. Valentine.
– Agradeço muito, Sr. Saldaña. – Jill mostrou gratidão e o viu partir envergonhado. Chateada, ela alcançou as flores. – Ah, Chris... pobrezinho. Como adivinharíamos uma visita às oito da noite?
– Pobrezinho? Esse filho da puta queria um momento particular com você a essa hora. Eu ainda tentei mostrar pra ele que você não estava interessada. Se ele insistiu, aí o problema foi todo dele. – Chris deu de ombros enquanto escondia uma risada. – Eu me sinto aliviado. Estou sendo insensível nesse caso? – Indagou em deboche.
– Não mais do que eu... que devia ter negado de primeira o maldito jantar. Sabe, estou cansada de ficar nos escondendo, por mais que eu prefira a discrição. – Jill contrapôs ainda encantada com o arranjo. – Claro que precisaremos de terapia para lidar com todos os "eu já sabia". – Ambos gargalharam, mas logo ela mostrou um rosto tristonho. – Na verdade, vou sentir falta de todos os "somos apenas parceiros".
– Eu também. – Chris admirava concentradamente a delicadeza do toque de seus dedos sobre as pétalas, mas logo se afligiu. – Cuidado com os espinhos.
– Tarde demais. – Ela, chateada, levantou o indicador mostrando o minúsculo corte que minimamente sangrava. – Não se preocupe, eu sempre sobrevivo a tragédias.
x.x.x.x.x
Enquanto aguardavam ainda no Chile um retorno da inteligência de Boston sobre os dados enviados, Chris pensou em levar Jill para um descanso temporário em Viña del Mar. Hospedaram-se em um hotel cinco estrelas, em um dos quartos mais altos, com vista panorâmica do oceano pacífico. Haviam chegado na mesma manhã em que Jill recebeu alta, depois de duas horas de viagem de Santiago, mas o dia chuvoso apenas os mantiveram no quarto para um momento de descanso e intimidade.
No dia seguinte, aproveitaram do dia ainda nublado para conhecer a cidade vizinha, Valparaíso, onde Jill acabou conhecendo o lar de um saudoso escritor chileno, Pablo Neruda, adquirindo todas as suas obras traduzidas em sua língua. Após isso acabaram conhecendo e degustando das vinícolas da região e no fim do dia fizeram compras nas feirinhas a beira-mar.
Naquela mesma noite, eles acabaram recebendo os primeiros retornos da inteligência sobre o material analisado. Nisto, Jill pode perceber que todo o descanso que Chris prometera experimentar já não mais era válido desde que passou a noite inteira trabalhando enquanto ela descansava.
No terceiro dia, já ensolarado, o clima favorecia um banho de piscina ou de mar. Seria um dia agradável para ambos, mas Chris se mantivera preso em telefonemas, e-mails, arquivos e somente saia do quarto para buscar impressões na recepção, retornando imediatamente à frente do laptop para que o andamento das investigações fosse eficiente.
Entendendo a urgência dele naquela tarefa, Jill decidira por auxiliá-lo naquele dia, a fim de adiantar o trabalho, para que finalmente fossem à praia como previamente fora programado. Quando as pendencias tranquilizaram, era quase três da tarde. Jill então propôs que ambos ao menos aproveitassem a enorme piscina do hotel. Ela desceu primeiro, a fim de tomar um pouco de sol. Ele garantiu que logo menos se juntaria a ela na área externa, o que não aconteceu.
Aborrecida, Jill retornou ao quarto pela noite. Acabou encontrando Chris dormindo com a cabeça escorada sobre o laptop. A irritação que sentia transformou-se em insatisfação ao vê-lo exausto ao trabalhar daquela maneira no intuito de manter a segurança das pessoas que amava. Com isso, decidiu acordá-lo carinhosamente para guiá-lo de volta a cama, acariciando seus cabelos. Chris se ergueu assustado ao despertar e olhando ao redor, observou que Jill ainda estava de biquíni e que atrás dela, já era noite.
– Droga. – Admitiu estressado. – Eu... já ia me encontrar com você.
– Tudo bem, já encerraram o acesso à piscina. – Ela escondeu sua frustração.
– Nossa... desculpe, Jill. – Ele deu uma olhada em si, notando que nem mesmo estava pronto para se juntar a ela. – De alguma forma, acabei dormindo.
– Eu sei que você está cansado por se dedicar tanto. Por isso, eu exijo que você descanse agora, tá?
Chris assentiu e olhando em seu relógio, viu que era oito da noite. Enquanto Jill se dirigia ao banheiro, ele aproveitou para ligar o laptop e verificou as varias mensagens da central. Ouvindo o som do chuveiro ligado, ele achou uma oportunidade de lidar com aquelas respostas e mal reparou que voltou a se dedicar naquelas informações inteiramente.
Quando Jill retornou do banho, se deparou com Chris mergulhado novamente no trabalho. Sem querer interferir, acabou pedindo serviço de quarto para a janta enquanto se juntava a ele para auxiliá-lo até tarde da noite, porque não conseguia deixa-lo quando ele se empenhava tanto. Reparando que Jill bocejava frequentemente, Chris decidira paralisar os trabalhos, para que ao menos descansassem juntos. Abaixando a tela do laptop, notou que Jill ainda não havia dormido, mas, deitada sobre a cama, lia um livro. Ao vê-la distraída, Chris aproveitou para tomar uma ducha.
Em seu banho revigorante, Chris ponderava sobre aquele dia. Ficou preso ao trabalho o dia inteiro, enquanto Jill insistia para que ao menos eles se divertissem um pouco. Ainda assim, ela era paciente o suficiente para compreendê-lo e até mesmo o ajuda-lo sem exigir o momento de atenção que ele havia prometido no hospital. Decepcionado consigo mesmo, tentaria se dedicar a ela no restante da noite.
Deixando o banheiro envolto em uma toalha, encontrou-a já adormecida. Notou que o corpo dela estava corado, com marquinhas sobre sua pele enquanto apenas vestida com roupas intimas. Apreciando a beleza completa que ela era, tanto por dentro quanto por fora, se perguntava se era realmente digno de ser amado pela mulher mais maravilhosa que havia conhecido. E ainda assim, ele era tolo o suficiente para trocar os poucos momentos descontraídos com ela pelo vício ao trabalho.
As mãos dela abraçavam um livro aberto em sua barriga. O livro era uma obra do poeta chileno que Jill acabara de conhecer, chamado "Os versos do capitão". Chris achou o nome do livro atrativo, por mais que não gostasse de literaturas. Sabendo o quanto ela gostava de deixar seu livro marcado para continuar sua leitura, Chris virou o texto para si enquanto se dirigia a mesa que fez de escritório para pegar uma caneta e usa-la como marcador. Posicionando-a no centro das folhas, leu rapidamente o título do poema em questão, que imediatamente chamou-lhe a atenção.
– "O sonho".
Chris prontamente lembrou-se do sonho que ainda o aterrorizava em momentos esporádicos de seus dias. Por isso, acabou declamando o texto para si.
Andando pelas areias decidi te deixar.
Pisava um barro escuro que tremia, me atolando e saindo decidi que saíras de mim, que me pesavas como pedra cortante, preparei tua perda passo a passo: cortar tuas raízes, soltar-te sozinha no vento.
Ai nesse minuto coração meu, um sonho com asas terríveis te cobria. Te sentias tragada pelo barro, e chamavas-me, mas eu não te acudia, tu ias imóvel, sem defesa até te afogares na língua da areia.
Depois minha decisão se encontrou com teu sonho, e dessa ruptura que partia nossa alma surgimos limpos outra vez, desnudos, nos amando, sem sonho, sem areia, completos e radiantes, selados pelo fogo.
Fechando o livro já marcado depois da leitura do poema, Chris parou para refletir um pouco já que se encontrava tão incomodado quanto a leitura desagradável que acabou de ler. Já na sacada, com a porta de acesso fechada, sentia o vento litorâneo enquanto ponderava sobre o texto. Tal como em seu sonho, o poema trazia a ideia de um mal pressentimento, sobre ter que separar-se da pessoa amada que lhe era arrancada cruelmente. Diferente de seu desfecho, o poema terminava com um final feliz. Por isso, ainda se perguntava sobre o momento final de seu sonho, que era o que mais o perturbava.
Mesmo que em suas mãos tivessem um cigarro e isqueiro, a falta de ar causada pelos pensamentos o desanimava de fumar. Inesperadamente, ouviu batidas no vidro da porta da sacada por trás de si. Jill estava parada ali com seu telefone em mãos, onde o visor indicava que ele recebia uma chamada do Quartel General da BSAA europeia. Correndo até o aparelho, logo comunicou-se com o líder da inteligência. Ambos foram informados que a equipe da inteligência havia conseguido descriptografar alguns arquivos de um HD que eles enviaram e nisto, concluíram uma ligação do bunker à uma área inóspita em um canto da Europa. As primeiras premissas indicavam que o local europeu rastreado pertencia a ninguém menos que Oswell E. Spencer.
Consequentemente, um e-mail chegara contendo todas informações detalhadas sobre o assunto para toda a alta cúpula da BSAA. Jill observava os detalhes do e-mail recebido e notou que havia uma solicitação emergencial da presença de ambos no Quartel General da BSAA europeia para que lidassem com uma nova operação nomeada de "Operação Águia".
– Finalmente! – Chris comemorava. – Não te disse que eles precisavam de um impulso?
– Você estava certo. – Jill se pôs de pé ainda impressionada. – Acho melhor ir guardando as roupas de volta à mala.
Jill abriu ambas as malas sobre a cama e começou a organizar ali as roupas que já tinha passado para o guarda roupa do hotel. Por mais que realizada pelo passeio, lamentou não ter conseguido tomar um banho de mar ou caminhar na praia com Chris.
Enquanto falava no telefone, Chris notava que as expressões de Jill não eram das melhores e imaginou que fosse devido ao passeio que teve de ser encurtado. Contudo, na mente de Jill, as preocupações eram sobre quem achava ter estado no bunker. Portanto, considerava que a ligação do bunker ao suposto local onde Spencer poderia se encontrar tinha uma semelhança com sua intuição. Ela pensava em comentar com Chris sobre aquilo, mas ainda não tinha coragem para fazê-lo pois temia que ele se frustrasse caso tudo fosse apenas um devaneio. Quando desligou a chamada, Chris continuava atento sobre a angustia no rosto de Jill. Por isso, suspirou e decidiu colocá-la em prioridade.
– Ah! Quer saber... que se foda. Esquece isso, Jill. Temos mais dois dias para o mês acabar e temos horas extras de sobra pra tirar. – Chris se aproximou de Jill com o telefone na mão. Olhando ao seu relógio preso ao pulso, ele torceu os lábios. – Vou contatar a QG pra avisar que a gente só vai em agosto. Nós precisamos desse descanso porque depois que detivermos Spencer, vai ser uma jornada maluca até encontrar Wesker.
– Tem certeza disso? – Jill se afastou das malas. Surpreendida pela atitude dele, finalmente sorriu. – Pra mim, não tem problema nenhum retornamos agora.
– Eu sei. – Chris apreciava sua postura. – Você é sempre muito comprometida. Mas você é humana e eu também. – Ele a acariciou, a abraçou, beijou sua cabeça e retornando a olhar nos olhos dela, teve certeza. – Eu realmente quero ficar aqui com você.
– Então... por que não deixamos para voltarmos aqui no nosso "um ano de descanso"? – Ela contrapropôs, mesmo querendo aceitar a proposta dele. Enquanto Chris ainda estava indeciso, Jill selou os lábios dele com os seus. – Eu sei o quanto você se dedicou para conseguir essa operação. Eu estou contigo nessa. Ainda vamos ter muitos anos para caminhar na praia quando tudo isso acabar.
– Tem certeza? – Chris sorriu comovido.
– Absoluta. – Jill afirmou determinada.
Depois de beijá-la, Chris se dirigiu ao laptop para agendar um voo imediato à sede do quartel europeu, na Inglaterra. Jill vestiu-se sabendo que teriam que partir ainda naquela noite. Ela já havia finalizado a mala de Chris, mas antes de fechar sua própria mala, sentiu um tremor súbito em seu corpo, um nervosismo anormal, seguido de uma tontura, a mesma que sentiu no corredor do hospital.
Tentando não fazer alarde, procurou se acalmar para que Chris não percebesse seu estado, até melhorar. Nisto, pensou em verificar um item necessário. Ao tirar de sua caixinha de joias um cordão desgastado, observou o pingente mais significativo que tinha e assim, pode sentir uma bonança vencendo seu nervosismo e uma intuição que tudo acabaria bem. Guardando o item de volta à mala, começou a fechá-la.
– Ei, Chris! – Ela o observou se virar para trás para encará-la. Terminando de fechar o zíper de sua mala, Jill demonstrou confiança ao colocar as mãos na cintura. – Estou pronta, parceiro.
"As coisas que você diz, é verdade mesmo ou apenas para espantar minhas preocupações? Você é tudo que tenho para lembrar. Você está me evitando, mas irei para você de qualquer maneira. Me dê uma chance, me leve com você. Eu vou partir em um dia ou dois."
