"Procurei dentro de mim e não encontrei nada para acalmar a pressão da minha mente sempre aflita. Todas as minhas forças se foram e temo os olhares solitários e enlouquecidos que o espelho está me mostrando estes dias. Toque-me! Como pode ser? Acredite em mim. O sol sempre brilha na TV."
DEZEMBRO, 2008
A casa próxima a costa, onde o barulho do mar era um calmante, recebia uma brisa agradável do litoral nos dias ensolarados, que eram perfeitos para uma temporada de pesca em um barco alugado. Em dezembro, as baixas temperaturas eram completamente desfavoráveis para esse programa e o morador daquela casa odiava isso. Desde que viera de Raccoon City para aquela cidade, Barry Burton encontrara a qualidade de vida que tanto buscava. Quando chegou à Halifax em 1998 com sua família traumatizada, comprara aquele refúgio depois de anos juntando dinheiro para comprar um imóvel e permaneceram ali.
Naquele fim de tarde, Barry aguardava ansiosamente a chegada do taxi na frente de sua casa, que estava enfeitada para as festas de fim de ano. Bem agasalhado, encontrava-se sentado em uma cadeira na varanda enquanto quase tirava um cochilo. Em seguida, pode sentir o cheiro agradável dos pãezinhos de canela que sua esposa preparava. Já estava de frente da porta de sua casa a fim de provar da primeira fornada quando Kathy surgiu, abrindo a janela da porta.
– Algum sinal dele? – Kathy observou a rua.
– Ainda não. – Respondeu fazendo uma careta, coçando a barba. – Ele me deu certeza dessa vez, mas pode ter acontecido algum contratempo.
– Bem... pelo menos os bolinhos de canela que ele tanto amava estão prontos. – Alegou animada. – Está muito frio aí fora. Não quer aguardá-lo aqui dentro, benzinho?
– Estou bem... aqui. – Barry olhou para o relógio de pulso. Era quase cinco da tarde quando seu convidado prometeu chegar para o almoço. – É uma época difícil para ele. Quero que seja bem acolhido, tal como a Claire nos confiou pra fazer.
Kathy concordou comovida. Retornara à cozinha enquanto Barry torcia para que, mesmo tardio, aquele encontro ainda ocorresse. Claire havia se voluntariado em um suporte humanitário de última hora e dessa vez não iria estar com seu irmão. Portanto acionou Barry, pedindo para que o ex-policial o convencesse a ir até sua casa passar o ano novo.
De volta à sua cadeira, Barry admirava a tranquilidade da rua. Crianças brincavam na neve tal como suas filhas faziam nos primeiros finais de ano naquela cidade. Fazia dez anos desde que sua família montara o primeiro boneco de neve na frente de casa. Os anos passaram e Moira e Polly já eram adolescentes de dezessete e quinze anos, respectivamente. Portanto decidiram passar o fim de ano com os familiares de Barry nos Estados Unidos. Apenas sua amada Kathy estava com ele e a visita inesperada de Chris o alegrara muito, por mais que a ausência de Jill deixasse tudo delicado. Ponderando sobre as últimas informações das investigações sobre o paradeiro dela, na qual auxiliava Chris há dois anos, Barry finalmente avistou o taxi. Logo, viu Chris caminhando em sua direção com a bagagem na mão enquanto o aguardava na varanda.
– Desculpe a demora. Peguei um engarrafamento por conta da neve. – Chris comentou já cumprimentando Barry com um abraço amistoso. Quando Kathy apareceu, pode notar no fundo do olhar dela a tristeza de não encontrar Jill junto a ele, mas o abraçou animada. – Que bom que estão bem e escondidos nessa cidade pacata. O mundo afora ficou caótico demais nos últimos anos.
– Aqui é um paraíso! – Barry exclamou ainda sorridente por vê-lo. – A finada Umbrella desistiria fácil de nos encontrar nesse lugar.
– Uma pena você sempre nos visitar em dezembro, Chris. – Kathy argumentou guiando-os para dentro, onde tudo estava bem aquecido. – Infelizmente, não dá pra aproveitar a ilha com esse clima.
– Pois é. Acabei de me dar conta que já tem dez anos desde que deixei a Claire aqui, num dia tão gelado quanto hoje. – Tirava o casaco enquanto observava que a casa ainda se mantivera conservada. – Aliás, sou muito grato por terem cuidado tão bem daquela fedelha.
– Foi um prazer, querido. A Claire chegou aqui em boa hora. As meninas estavam tão apegadas a Jill que, quando ela partiu para te encontrar na França, ficaram desoladas. Quando a Claire chegou, passou um bom tempo com a gente até se juntar de vez à TerraSave. Anos difíceis, época maravilhosa. – Kathy se aproximou da mesa de telefone e segurou em sua mão um porta-retratos onde Claire, Moira, Polly e ela estavam em um abraço grupal e seus olhos lacrimejaram. – Hoje, do nosso clã feminino, só eu estou aqui.
Kathy levou o porta-retratos até uma estante e o posicionou junto as demais fotos. Enquanto se dirigia à cozinha, Chris se aproximara da estante e visualizara pausadamente as fotos expostas. Haviam fotos do casamento de Barry e Kathy e várias fotos de suas filhas com o passar dos anos. Chris também encontrou a foto que Kathy tirou dele junto à Claire, na primeira ceia de fim de ano com os Burton, da época em que conhecera Barry na Força Aérea e que Kathy estava prestes a dar à luz. Isso fez com que Chris fizesse uma nota mental de contatar sua irmã para desejar-lhe um feliz ano novo quando ainda tinha o restante do dia e o dia seguinte para fazer isso.
A última foto visualizada era uma na qual Barry tirara de Chris e Jill ainda nas investigações de Paris. Nela, ambos estavam de tocaia em cima de um terraço de um prédio. Chris mal sabia que Barry tinha revelado aquela foto, muito menos que aquela foto inusitada era digna de um porta-retratos.
– Bons tempos. – Barry se aproximou de Chris batendo levemente em seu ombro. – Venha... sente-se próximo a lareira para se aquecer melhor, Chris.
Obedecendo ao mais velho, Chris visualizou a poltrona e se aproximando de lá, visualizou uma fotografia de Jill que jamais tinha visto, em cima da prateleira da lareira. Ela estava presa em um porta-retratos, ao lado de uma bíblia aberta. Analisando a foto num lugar de destaque da casa, entendia que o carinho que a família tinha por Jill ainda era genuíno. Sem pedir permissão, agarrou o porta-retratos, observando os traços de uma jovem Jill enquanto acariciava o vidro do objeto com os dedos.
A imagem era da época em que havia conhecido ela em 1996. Cabelos longos, franja bagunçada, rosto angelical. Naquela época, Jill tinha um olhar determinado e atraente dentro de uma personalidade docemente singular. Era a mulher que ele não deixava se aproximar por pura tensão, mas que ficava presa em sua mente o tempo todo, até que se tornou a pessoa que mais confiava. Por isso, tinha um remorso pelo que viveram no início daquele relacionamento e queria ter tido a oportunidade de deixa-la saber que ele a apreciava desde o primeiro momento em que a viu. Quando Kathy retornou, trouxe consigo uma bandeja de pãezinhos de canela com chá e os posicionou na mesa de centro enquanto Chris reposicionava a foto no lugar.
– Aqui estão seus pãezinhos favoritos que fiz especialmente para você, querido. – Kathy assistia um Chris surpreso e grato pelo agrado.
– Adorava esses pãezinhos. Obrigada, Kathy. – Chris alcançou um pãozinho e sentou-se na poltrona. Enquanto mastigava, podia voltar no tempo, numa época onde ele ainda tinha muitas opções para seu futuro enquanto discutia sobre isso com Barry, que lhe dava bons conselhos. – Está delicioso como sempre.
– Fico feliz. Mas, me diga... – Kathy se sentou no sofá ao lado de Barry. – Sempre lotado de serviços na BSAA, não é mesmo?
– Sim, sempre. Assim mantenho minha mente ocupada. – Chris respondeu pausadamente enquanto comia. – Passei esse ano inteiro sem descanso, principalmente depois que descobri que Jill está viva em algum lugar desse mundo e preciso trabalhar nisso.
– Eu peço todos os dias por isso. – Kathy olhava para a foto sobre a lareira e ao se voltar para Chris, notou nele um desanimo intrigante.
– Sabe garoto, já tem dez anos que você está nessa vida desde que saímos daquela mansão e te admiro por isso. Você se tornou um exemplo para muitos, mas sempre acreditei que você tinha potencial pra tal. – Barry tomava seu chá notando um acanhamento de Chris. – Inclusive, comentei sobre isso com benzinho. Agora que as meninas estão crescidas, acho que posso retomar minha carreira antes de ficar totalmente inútil, o que não está tão longe. Kathy já pode dar conta do recado sem mim.
– Por favor, Barry! Sem exageros. Sempre dei conta do recado por aqui, benzinho. – Kathy repreendeu o marido enquanto lhe afagava as costas. – Sem mim, você e a Moira já teriam derrubado essa casa.
– Os problemas ainda persistem com a "Barryzinha"? – Chris se mostrava surpreso com o prolongamento daquele dilema. Como conhecia Moira desde que nascera, conhecia bem sua personalidade temperamental. Para Chris, a adolescente ainda era uma criança, já que não a via desde a fundação da BSAA, quando Jill e ele se reuniram com aquela família nos Estados Unidos pela última vez ao convidarem Barry para se juntar à corporação recém criada.
– Já melhoramos muito. A Claire nos deu um grande apoio com a Moira e aos poucos está ajudando-a a superar esse trauma. – Barry explanou preocupado.
– São muito geniosos! – Kathy lamentava. – A genética da Moira é toda do pai. Portanto estamos cientes que isso ainda vai levar uns anos para se resolver.
– Sinto muito. – Chris bebericou de seu chá descontente. – É difícil para mim processar que essa crise ainda existe. Ainda me lembro daquela garotinha hiperativa correndo pela delegacia atrás do adorado "papai".
– Jamais imaginaríamos que aquele acidente, que felizmente não matou a Polly, ainda teria sérias consequências. É por isso que eu preciso de uma carreira de atividades diárias. – Barry argumentou. – Não quero que a Moira tenha uma juventude ruim por minha presença frequente nessa casa ou prestando serviços daqui de casa. Será que a BSAA me aceitaria por um tempo?
– Tenho certeza. A Jill adoraria saber disso. – Chris olhou na direção da imagem dela novamente, tal como fazia desmesuradamente toda hora. – Afinal, onde conseguiram essa foto da Jill?
– Ela nos mandou vários arquivos da casa dela quando ainda estava em Raccoon. Essa aí não estava no álbum. Veio junto com os arquivos da investigação dela, por engano, eu acho. Eu a guardei comigo para devolver a ela um dia, mas... – Kathy sorriu acanhada. – Decidi ficar pra mim. Gosto dessa foto porque me lembra da época em que a conheci. Vocês dois viviam dizendo que ela parecia um monstro de três metros de altura de tão durona, mas era uma boneca meiga e adorável.
– É a mesma época em que esse teimoso aí começou enlouquecer porque se apaixonou por ela. – Barry encarava um Chris envergonhado enquanto gargalhava. – Você tinha tudo pra ser um cara ideal para ela de primeira, mas teve a brilhante ideia de foder com tudo. Só porque tinha medo de compromisso. Deu muito trabalho ter que limpar sua merda, garoto.
– Me lembro bem disso... sobrou até pra mim! – Kathy se juntou ao bom humor de Barry enquanto Chris finalmente esboçara um tímido riso.
Em sua mente, uma memória sobreveio. Se lembrava do dia em que apareceu embriagado diante daquele casal para fazer a confissão que mudaria sua vida pra sempre. Nisto, tirou da carteira uma cédula no valor de cem dólares e estendeu para Kathy que se espantou.
– Lembra da aposta? – Chris indagou a mulher confusa. – Você a venceu, Kathy.
AGOSTO, 1997
Era madrugada quando Barry ouviu um estrondo e acordou assustado. Houvera uma colisão estrondosa na cerca de madeira da lateral de sua casa em Raccoon City. Em seguida, notou que alguém batia vigorosamente na porta principal. Eram batidas descompassadas que logo foram trocadas pelo som da campainha, quando o tal visitante noturno finalmente encontrara o botão e passou a pressioná-lo copiosamente.
Chris tentava manter-se sóbrio, embora tonto. Ainda estava trajado com o uniforme operacional dos S.T.A.R.S. Sua moto, na qual usara para chegar àquela residência, estava presa na cerca que ele acabara de acertar ao estaciona-la. Podia sentir pequenas contusões daquele choque desde que também fora lançado na cerca, mas enquanto podia andar e estava consciente, os problemas emocionais ocupavam mais sua atenção. Depois de dois minutos, a porta se abriu. Para seu espanto, uma garotinha de cabelos escuros em um pijama rosado, surgiu com um rosto amuado.
– Ei, Barryzinha. – A voz arrastada de Chris acompanhava um animado aceno para a menina. – Chama lá seu pai pra mim.
– Olhe para si mesmo e sinta vergonha do que está fazendo, Redfield! – Moira afirmava eloquentemente com desprezo, de braços cruzados, arremedando o jeito que seu pai costumava se dirigir ao rapaz. – Você está fazendo um escândalo e eu preciso acordar cedo para ir pra escola!
– Escola? Me poupe, pequena. Você ainda tá nas fraldas porque faz xixi na cama que eu sei. – Chris trocou seu bom humor pela falta de paciência com aquela pequena pessoa. – Vai logo chamar seu pai pra mim, pirralhinha!
– Meu pai vai quebrar sua cara quando souber que você acordou a Polly. – Moira lhe mostrou a língua e passou a gritar por seu pai. – Vou lá contar para o papai que foi você que fez essa bagunça.
– Vai tarde, chatinha. – Chris devolveu o gesto enquanto assistia Moira, irritada, subindo as escadas em marcha chamando pelo pai. Apenas ria da maneira na qual ela, ainda aos seis anos, conseguia ser tão adulta e sempre batia de frente consigo desde quando aprendera as primeiras palavras.
Naquele momento, Chris tomou a liberdade de adentrar na casa onde já havia morado por uns meses, procurando um lugar para se sentar, desde que sua tontura o instabilizava. Observando o topo da escada, notara Barry repreendendo Moira por ter aberto a porta principal da casa naquele horário sem permissão. Se divertia ao assistir sua pequena rival sendo advertida, enquanto apoiado na pilastra da entrada da casa, sabendo que não poderia provocá-la mais do que já havia feito.
Em seguida, pode ouvir o choro da pequena Polly se aproximando e então Kathy surgiu com a pequena chorosa nos braços. A mãe insistia para que Barry parasse de dar sermão na filha mais velha, que ainda tentava responder seu pai, se mostrando com razão ao tentar incriminar Chris como o responsável daquele mal estar. Depois de ver as mulheres de sua vida seguirem corredor adentro, Barry desceu as escadas furioso, encarando Chris como se fosse surrá-lo a qualquer momento.
– O que pensa que está fazendo aqui em casa a essa hora, Redfield? – Barry, irritado, afastou o rapaz que cambaleou até retomar equilíbrio e trancou a porta. Em seguida, apontou para que Chris seguisse até a cozinha. – Espero que tenha um bom motivo.
– Não vou demorar. Desde que saí da RPD, fiquei bebendo com Forest e Joseph, mas eles se cansaram de me ouvir reclamar e sumiram. – Chris sentou-se na cadeira enquanto Barry, que trazia uma jarra de água e um copo, se sentava do outro lado da mesa quadrada impaciente. – Enfim... só vim te avisar que, partir de amanhã, eu tô fora dos S.T.A.R.S.
– Todo dia essa palhaçada agora? – Barry revirou os olhos. – O que houve na missão com a Valentine dessa vez? – Entrelaçava os dedos. – Por sinal... ela está bem?
– É claro que ela está bem! Ela sempre está sempre bem... fazendo o que bem entende! – Chris rangia os dentes bagunçando seus cabelos enquanto montava seu mais novo argumento. – Essa mania de perfeição dela só pode ser pra impressionar aquele capitão idiota que ela obedece com devoção. Porque... – Chris meneava a cabeça com punhos cerrados. – Pelo histórico dela, ela só pode estar querendo...
– Ei! Nem se atreva a terminar essa frase, garoto! – Barry apontou o indicador na frente do nariz de Chris, que se assustara com a defesa imediata de Barry sobre Jill. – Já avisei pra parar com essa babaquice.
– Que seja. – Chris se pôs de pé e forçou uma continência debochada. – Enfim, só queria te comunicar que tô caindo fora.
– Espera aí! Depois desse escândalo todo, agora você vai me ouvir! – Barry apontou para a cadeira. Chris, relutantemente, obedeceu, retornando-se ao assento. – Escuta, garoto. Sua infantilidade com a Jill é ciúme. Você tem tanto ciúme dela que já está chegando ao absurdo dessas falas ridículas. Estou errado?
Chris optou pelo silêncio enquanto o sermão de Barry funcionava como um soco em seu ego. Imaginar que Jill poderia estar tendo um caso com o capitão ou com qualquer outro, fazia Chris se incomodar tanto por dentro que já nem mais conseguia esconder isso dos mais chegados.
– Jill é uma profissional de excelência e leva o trabalho a sério. Ela não vai relevar seus atos desajuizados que quase estão te causando uma nova expulsão. – Barry observava Chris se entupindo de água enquanto o ouvia obrigatóriamente. – Ela não tem interesse no capitão, nem está tentando impressioná-lo por isso. Ela está fazendo o que tem que ser feito e não vai passar a mão na sua cabeça só porque você é o parceiro dela.
– Essa linguaruda me delatou por causa de um mínimo atraso! – Chris levantou uma sobrancelha.
– Que custou para ela seu profissionalismo impecável. Ela não está te importunando propositalmente. Ela está fazendo com que você tenha mais responsabilidade. – Barry concluiu repreendendo-o paternalmente, mesmo que Chris se demonstrasse resistente. – Você é muito cabeçudo. Quer saber, vou pedir a Wesker para separar vocês. Se você não faz isso, faço eu! A propósito... por que já não fez isso?
Chris ponderou ao se lembrar das inúmeras vezes em que pensara em se dirigir ao capitão naquela finalidade, mas acabava retornando à sua mesa, porque não tinha coragem de se separar de Jill. Por mais que ela o fizesse pirar em algumas ocasiões, tinha uma razão especial na qual ele não queria se livrar dela, mas decidiu por ocultar esse detalhe de Barry.
– Wesker! – Chris respondeu com desprezo. – Ele sabe ela é uma pedra no meu sapato. Que cedo ou tarde vai me fazer perder a cabeça e o emprego, logo agora que estou conseguindo arcar com um colégio renomado para a Claire. Esse cara gosta de me provocar e está conseguindo. – Suspirou. – Se eu quiser continuar ganhando esse joguinho, vou ter que me manter na linha pra não mandar essa atrevida ir à merda ou... sei lá... dar um tiro acidental no pé dela.
– Me poupe, Chris! – Barry socou a mesa fazendo o copo de água tremer. – Se continuar falando dela assim, eu que vou dar um tiro em você.
– Ah, que se foda isso tudo! – Zombou. – Você gosta dela, a Kathy, a Claire... todo mundo! – Chris reclamou perturbado. Naquele instante, Kathy surgiu na cozinha e se juntou a conversa escorada ao marido. – Olha, eu sei que vocês gostam dela, mas... será que vocês ainda gostam de mim? Por que não conseguem entender o meu lado da história?
– Já entendemos tudo, rapaz. Nem sei mais como te aconselhar. Mas vou repetir pela milésima vez: Converse com ela! Vocês não têm um diálogo, é claro que vai dar merda. – Barry observava impaciente a ira de Chris ao ouvi-lo. Notando a relutância e o deboche nas expressões dele, Barry decidiu ser mais agressivo. – Como que diabos você... o que você quer ouvir de mim, garoto?
– Eu só quero tirar essa mulher da minha cabeça! – Chris desabafou subitamente.
– Espera... o que você quer dizer com isso, Chris? – Kathy entrou na conversa com aquele questionamento, começando a compreender o que realmente acontecia.
– Eu não sei. Ela surge toda hora na minha cabeça. É irritante. E ela ainda fica me azucrinando... tudo porque sabe que eu sou apaixonado por ela. – Chris admitiu sem perceber. Apenas deu conta do que dizia quando percebeu o espanto silencioso no rosto do casal. – Espera... não é isso o que eu quis dizer... é que a Jill... ela acha que eu estou apaixonado por ela e fica me provocando.
– Por favor, Chris! – Barry enfim gargalhou. – Você nunca vai admitir a verdade, não é?
– Querem saber, vou embora pra não ficar falando besteira. – Chris se irritava consigo ao saber que tinha confessado seus reais sentimentos. – Porque... vocês sabem... eu nem gosto dela.
– Não estamos te julgando se estiver. – Kathy observava comovida. – Tudo bem se estiver gostando dela afinal ela é incrível, adorável, determinada e lindíssima. Vocês trabalham grudados há um ano. A atração uma hora acabar acontecendo.
– Mas é claro que não! – Gaguejou. – Eu ainda tenho raiva dela e do jeito dela. Não suporto trabalhar com alguém tão perfeccionista e delatora. Tudo bem, ela é isso aí tudo. Mas se eu gostasse dela, não iria querer detonar... – Chris olhou para Barry que ergueu uma sobrancelha ameaçadora. – Afinal, isso é gostar de alguém? – Encarava o casal que se entreolharam com obviedade. – Tá bom, sei que vão admitir isso. Afinal, vocês brigavam o tempo todo enquanto eu estava aqui.
– Isso faz parte da vida, garoto. – Barry argumentou. – E não brigamos, discutimos. Porque é isso que duas pessoas que convivem fazem quando não dialogam anteriormente.
– No seu caso, Chris... também ouvi falar que existe uma linha finíssima que separa amor e ódio. Às vezes, você acha que a odeia, mas no fundo... – Kathy se divertia com as caretas confusas do rapaz. – Você nunca sentiu isso por alguém, né?
– Não. – Chris admitiu constrangido. – Porque se... hipoteticamente... eu estiver mesmo apaixonado por ela, como isso poderia dar certo? Me parece impossível.
– Depois de todas as merdas que você fez com ela? É impossível mesmo! – Barry rebateu debochado para torturá-lo.
– Pare, benzinho. – Kathy voltou a atenção do rapaz assustado a ela. – Bem, algo me diz que você não quer só um lance com ela. Se... hipoteticamente... você estiver apaixonado por ela, não vai querer que isso dure apenas uma noite, não é? – Kathy se concentrava nas expressões de Chris e notou que ele confirmou implicitamente. – Ok, a primeira coisa que tem que fazer é entender o que sente por ela. Não podemos te ajudar se você não sabe o que sente.
– Já sei o que eu sinto, Kathy. – Chris admitiu hesitante, olhando para o copo vazio ao refletir sobre a ultima fala. Com lábios trêmulos, sentia seu corpo suar e escondia o nervosismo de seus dedos debaixo da mesa. – Eu estou apaixonado pela Jill.
– Eu sabia! – Uma voz infantil surgiu na cozinha enquanto sua dona vinha de trás da geladeira na direção do grupo de adultos, apontando para Chris com um riso debochado. Seus pais se viraram para trás e notaram surpresos a filha que provocava seu rival. – Você está apaixonado pela Jill! Vou contar pra ela da próxima vez que eu for na delegacia.
– O que a Barryzinha está fazendo aqui? – Chris afrontava a pequena humana entre os adultos. Seus pais a encaravam repreensivamente. – Você não tinha que dormir para ir para ir pra escola pela manhã, chatinha?
– Eu só queria falar com meu pai. – Moira se virou para Barry. – Papai... me desculpe pelo que fiz. Não vou dormir se não me perdoar. – Ela rogava ao pai com mãos unidas enquanto dava curtos olhares frios à Chris. Barry, comovido, se colocou de pé para receber a filha em seu colo com um sorriso perdoador.
– Benzinho, leve Moira para a cama. Preciso de mais uns minutinhos com esse rapaz. – Kathy imediatamente sentou-se onde seu marido estava. – Me permite a oportunidade, Chris?
– Claro! – Chris expirou desesperado por solução, pensando em provocar Barry. – Afinal, obrigado por entender meu lado, Kathy.
– Querida, se ele for arrogante, use o método Burton com ele. – Barry acariciou os cabelos de sua esposa enquanto carregava Moira, que sonolenta escorava em seu ombro.
– Kathy é um anjo e jamais seria arrogante com ela. – Chris bradara ao amigo já distante.
– Chris, Barry não entende o que está acontecendo com você. Pra ele, você só está sendo medroso para chegar na Jill.
– Eu já imaginava. – Chris não pode evitar em concordar internamente com Barry.
– As coisas entre Barry e eu aconteceram de forma sucinta e sortuda. Um rapaz chamou uma moça da escola, que já era afim dele, para sair e cá estamos. Já você... – Suspirou. – Teve que criar responsabilidades ainda muito jovem devido a tragédia familiar, assumindo cuidados com Claire e com uma vida profissional na qual nem estava preparado para lidar. Hoje, você é o primeiro na linha de frente de um esquadrão de elite, depois de ter lidado com uma expulsão militar e... – Kathy suspirou impressionada. – Nem chegou aos vinte e cinco ainda. Nisso, você negligenciou o lado sentimental, porque isso seria mais uma responsabilidade. Por isso, na oportunidade em que se viu querendo explorar isso, você temeu e fugiu. Afinal, é você que afasta a Jill de si, certo? Tudo porque é com ela que você queria se permitir explorar esse lado.
– Sou muito problemático assim? – Chris soava como uma criança ingênua.
– Não, querido. Você é impetuoso. Quer abraçar o mundo com as mãos e carregar ele nas suas costas sozinho o tempo todo. Acha que por causa das suas responsabilidades, nunca vai conseguir dar conta de um relacionamento, afinal, os últimos não demoraram para acabar por sua causa, certo?
– É que... não quero me casar agora.
– Casamento? Não é sobre isso. – Kathy gargalhou. – Pessoas vem e vão, Chris. Para Jill ter mexido com você dessa maneira, você sabe ela é uma chance em um milhão. Assim, você acha que vai falhar e por isso, não se permite se aproximar dela. Consequentemente, você sempre bate de frente com ela para que ela te veja como uma pessoa ruim, de modo que ela não se apegue a você porque se isso acontecer, você vai se apegar a ela também. Mas, já parou para pensar que assim você pode sabotar a única oportunidade que a vida te deu para conquistar uma mulher como ela?
– Eu sou um idiota, Kathy. – Concluiu desanimado, esfregando as mãos no rosto. – O que será que ela tem que me faz me sentir tão estranho? Por que ela não é como as demais?
– Isso é só você que vai descobrir. – Kathy notava um sorriso constrangido de Chris. – Mas... sabe o que eu acho? Jill é uma mulher revolucionária. Basta uma pequena espiada no histórico profissional dela quando ela ainda é uma mocinha de 22 anos. Se você deixar ela entrar aí dentro, ela vai causar uma mudança magistral em você. Talvez ela te ajude com o que enfrenta ou talvez ela apenas seja o refúgio que alguém tão impetuoso como você precisa. De qualquer forma, posso ver que ela é a pessoa ideal para você.
– A parceira ideal, nesse caso. – Barry retornou à conversa ao adentrar na cozinha e afagou sua esposa. – Aliás... nunca achei que fosse ouvir você dizer que está apaixonado, garoto.
– Isso é novo pra mim também. – Chris desabafou, sentindo um pequeno embaraço. Também sentia um alivio sobre aquela situação que tinha finalmente se esclarecido graças a Kathy, já que decidiu perturbar a casa certa. – E se ela estiver me odiando? Nós brigamos muito. Ela nunca teria interesse em mim pelos motivos óbvios. Sem criar expectativas... vocês acreditam que ela ainda pode me ver com outros olhos, algum dia?
– Lute por isso, Chris. – Barry o impulsionou. – Surpreenda ela!
– Ainda dá tempo de fazer isso acontecer, querido. – Kathy completou otimista. – Um dia, você vai entrar na minha casa outra vez e vai me dizer que tudo deu certo. Aposto cinquenta pratas que você é capaz. – Kathy estendeu uma mão e Chris correspondeu com um aperto.
– Apostado! Na verdade, aumente essa aposta pra cem. Preciso pagar caro pra ver se isso vai dar certo mesmo. – Chris desdenhava de si. – Eu e a Jill... nem sei como uma amizade poderia surgir disso, quem dirá namoro.
– Namoro!? – Barry o interrompeu gargalhando. – Está sendo muito afoito, garoto. Caramba, ela te pegou de jeito.
– Querem saber... tô caindo fora. – Chris se levantou acanhado e irritado e saiu pela porta da cozinha em direção ao quintal.
Barry virou-se para Kathy enquanto com o olhar, ela transmitiu a ele o que precisava ser feito. Mesmo relutante, ainda de pijamas, Barry alcançou a chave do carro e caminhou com Kathy até a frente da casa. Ambos se depararam com Chris tentando arrancar a roda dianteira da moto de dentro da brecha que abrira na cerca sem sucesso e riam entre si.
– O que fez com o garoto, benzinho? – Barry sussurrou à esposa.
– Ele só precisava de um conselho maternal. Me mantenha informada sobre esses dois. – Sorriu travessamente. – E os ajude com isso. Afinal, apostei cem pratas nessa.
– Você e suas apostas... tomara que um dia sejamos ricos. – Barry descia as escadas da varanda olhando para o rapaz. – Redfield, larga essa moto aí e entre aqui no carro. Não dá pra mexer nisso agora.
– Tá bem. – Chris relutantemente largou a moto e seguiu para o banco do carona sem questionar.
– Chris... – Kathy chamou a atenção do mais jovem ao se aproximar da porta do carona. – Que tal se vocês conversarem sobre alguma habilidade do serviço daqui a pouco na delegacia? Ofereça uma ajuda no que for habilidoso, que tal?
– Tá bem. – Chris assentia enquanto já listava as habilidades em sua mente.
– Mas ofereça uma ajuda altruísta e responsável. Afinal, vai ter que cumprir independente do que aconteça, rapaz. – Barry completou dando partida no carro.
– Boa sorte com isso! – Kathy se afastou do veiculo ainda inclinada para visualizá-los. – Esses momentos, por mais que não pareça, ajudam a criar laços oportunos. Se eu não fosse uma droga em matemática, provavelmente não estaria com Barry, não é benzinho?
– Adorava dar umas aulas extras para Kathy debaixo das arquibancadas, garoto. – Barry piscou para a esposa e ambos riram. – Bons tempos, benzinho.
Chris desdenhava da tensão romântica compartilhada em sua frente. Mas mal poderia esperar para conversar sobre o tal assunto com Jill, caso ela quisesse treinar para roubar o título de melhor atirador dele, o que já imaginava que ela aceitaria. Ele já tinha posse da chave do estande de tiro e achava ali um ambiente ideal para buscar um momento só deles. Apenas torcia para ser convincente o suficiente pra isso.
DEZEMBRO, 2008
Chris e Barry revisaram por horas os últimos relatórios que Chris trouxera consigo sobre suas últimas missões no escritório da casa após o chá da tarde. Ambos tentavam encontrar uma pista imperceptível do paradeiro de Jill naqueles arquivos. Barry tentava esconder o lamento de trabalhar em uma nova investigação ao lado de Chris sem a presença de sua parceira, como nos velhos tempos. Entretanto procurava se manter brincalhão e descontraído para motivar o mais novo, que parecia cada vez mais desapontado e desesperançado com a falta de respostas.
Na manhã do dia seguinte, véspera de ano novo, Chris acordou no quarto roxo e preto de Moira. Sua mente viajou dez anos atrás para se lembrar que foi naquele dia em que encontrou Jill em Paris e ele dominou-se de tristeza profunda, mortificado com aquela realidade, preferia não se levantar da cama mesmo que isso o fizesse se sentir egoísta com os anfitriões.
Deitado, analisava o quarto de sua antiga pequena rival. Sua personalidade nunca havia mudado desde criança tal como atentava-se aos sinais de rebeldia adolescente no ambiente. Examinando os objetos do quarto dela, por mais que não costumasse a fiscalizar coisas alheias, encontrou um mural com várias fotos. Alguma coisa naquela casa sempre o fazia querer reparar nos detalhes pois foi ali que as pessoas que mais amava já tinham morado. Claire era sempre vista em destaque nas fotos e nisto Chris se recordou de que ainda não havia ligado pra sua irmã.
Inesperadamente, encontrou uma foto imprevista na parte central do mural. Moira estava com Chris e Jill em seu aniversário de sete anos e ela havia guardado aquela lembrança com carinho. Por mais que tentasse recordar-se desse dia, Chris apenas assimilava relances. Levantando-se para observar melhor aquela foto, encontrou no verso o nome do casal referenciado, escrito com letra infantil, dentro de um coração. Ao encontrar ali uma Jill que adorava passar horas na companhia de Kathy e Barry, sentia no fundo de sua alma um apelo dela para que ele se juntasse aquele casal e não voltasse para a cama.
Após descer as escadas, Chris encontrara Barry e Kathy organizando um caprichado café da manhã, como já imaginava e lembrou-se dos meses em que morara naquele lar quando chegara à Raccoon para incorporar o esquadrão tático da delegacia. Recordava-se das gargalhadas infantis das meninas que o acordava com cócegas nos fins de semana, desde que dormia no sofá da sala de estar. Vendo as panquecas e omeletes sendo postos na mesa por Kathy, lembrava-se dos cafés da manhã que ela preparava, minutos antes de mais um dia de trabalho ao lado de Barry naquela delegavia, como nos tempos da Força Aérea.
Chris nunca tinha parado para perceber que, após a perda de seus pais, encontrara naquele lar uma nova família, antes de Jill se tornar sua família. Com seu desaparecimento, era como se ele tivesse voltado à sua casa original, pois ali fora bem acolhido novamente. Nisto, foi tomado por uma gratidão imensa por ainda poder contar com aquela família, que era seu maior suporte nos momentos mais caóticos de sua vida. Quando se juntou à mesa, os cumprimentou, notando que ambos estavam bem vestidos.
– Dormiu bem, querido? – Kathy lhe entregou um prato para que ele se servisse e voltou a se sentar. – A cama ficou pequena para você?
– Foi bem confortável, na verdade. – Chris serviu-se dos itens daquele café da manhã. – Sou acostumado a dormir estreitamente já que a Jill é bem espaçosa.
– Quem diria que um dia vocês, grandes rivais, compartilhariam uma cama. – Barry tirou os olhos do jornal e o encarou satisfeito. – Tudo começou com aquela conversa, certo?
– Se a Kathy não me abrisse os olhos naquele dia, não teria tido essa sorte. – Chris assentiu observando a mulher, que com olhos sensíveis e marejados, tentava disfarçar o desconforto que sentia pela ausência de Jill.
– Chris, ontem eu ponderei sobre aquele dia. – Kathy quebrou o silêncio. – Fico feliz por tudo ter dado certo pra vocês, mas... a situação de agora também requer cuidados. Por isso, se quiser conversar comigo, estou aqui pra isso, ok? Sem apostas malucas dessa vez. – Kathy notava o assentir risonho dele enquanto degustava do café da manhã e se pôs de pé, afagando seu ombro antes de deixar a sala.
– Que bom que acordou a tempo de se juntar a nós. – Barry olhou ao relógio e fechou o jornal, se pondo de pé. – Agora estamos indo à igreja para agradecer pelo ano e pedir para o próximo. Se quiser nos acompanhar, está convidado.
– Desculpe. Não tenho muitas coisas para agradecer. – Chris argumentou consternado. – Também não tenho moral nenhuma para fazer qualquer pedido.
– Sem problemas, fique à vontade aqui em casa. Além disso, como vamos no carro da Kathy, se quiser dar uma volta por aí, use o meu. – Barry lhe entregou a chave enquanto Chris assentia grato.
– Quando finalizar o café, deixe as louças para nós. – Kathy apontou como uma ameaça.
– Em vez disso, passe no escritório. Achei umas coisas que vão te interessar. – Barry concluiu ao fechar a porta de acesso à garagem.
Sentindo-se sozinho pela casa, Chris se lembrou de ligar para Claire. Quando chegou ao escritório para usar aquele telefone, imediatamente voltou sua atenção até a caixa desgastada sobre a escrivaninha. Em sua tampa estava escrito: coisas da Jill.
Chris desconhecia aqueles pertences desde que Jill nunca sentiu falta deles desde que deixou a casa de Barry. Contudo, cada nova descoberta desde que ela havia desaparecido era como uma relíquia para ele. Examinou um álbum de fotos da infância de Jill, encontrando-a sempre acompanhada de sua avó. Também se deparou com um livro da coleção "HOME" que ela tanto amava e um CD ainda lacrado da Madonna. Entretanto, se impressionou com os detalhes das anotações em um caderno sobre seus planos de partir para a Europa em 1998 no intuito de encontrar um Chris desaparecido. Algumas folhas apresentavam gotas secas e Chris se perguntava se aquelas foram suas lágrimas aflitas. Estudando as páginas, encontrava números de telefones, datas, endereços, nomes de pessoas envolvidas e por fim, o contato de seu já falecido tio Louis que tanto os ajudou ainda em Paris.
Logo, se deparou com um envelope onde o remetente era Carlos Oliveira. Dentro, havia uma folha dobrada e uma foto dele, semelhante a que encontrara no apartamento de Jill em Paris. Na carta, Carlos era bem atencioso. Questionou-a sobre seu estado de saúde e se ainda tinha planos de permanecer futuramente nos Estados Unidos, pois queria vê-la antes de retornar à América do Sul. Logo, descreveu detalhes de como foi contratado pela Umbrella, fornecendo-lhe os dados que estavam anotados sobre o caderno. Na despedida da carta, Chris se mostrou surpreso.
Te enviei duas fotos pra que você nunca me perca de vista. Afinal, nunca vou me esquecer da super-policial que você é. Sei do quanto que você é capaz e vou te ajudar no que puder pra acabar com esses lunáticos. PS.: Se desistir de ir à França, me deixe saber. Até lá, prometo me comportar desde que você me disse que já tem um parceiro.
Chris sorriu ao reparar que ainda tinha ciúmes do homem que salvou sua vida em Raccoon, mesmo sem motivos para isso. Desde que se encontraram novamente em Paris, Jill apenas trocou umas três cartas a mais com Carlos, decidindo por cessar aquele contato por falta de assuntos relacionados as investigações e para não comprometer o ex-UBCS. Chris não estranhava aquela atitude de Carlos, desde que ela sempre fora disputada. Na verdade, sentia-se privilegiado por saber que ela o preferiu sobre os demais. Logo ela, a mulher mais incrível que já conheceu na vida.
AGOSTO, 1996
Chris Redfield foi um dos primeiros a se juntar aos S.T.A.R.S. em Raccoon City. Quando chegara à cidade, foi acolhido na casa dos Burton até que encontrasse seu próprio apartamento. A equipe recebia um novo integrante à cada nova semana. Albert Wesker era o capitão e Enrico Marini o subintendente, seguido por Barry Burton, Richard Aiken, Forest Speyer. Na semana passada, Joseph Frost fora o último que se apresentara na unidade. Naquela segunda-feira, a equipe aguardava mais um integrante se apresentar, mas não aparecera.
Quando todos tinham deixado o escritório no fim do expediente, Chris decidiu retardar seu retorno à casa junto a Barry, desde que tinha conseguido a chave do estande de tiro com uma policial novata que estava como recepcionista naquele dia. Precisava treinar mais, já que no treinamento da terça-feira passada, Forest o tinha desbancado quando não admitia ser vencido como melhor atirador.
Assim, montara uma maleta de pistolas no arsenal e foi até o baú no fundo da sala para coletar munições e equipamentos de segurança enquanto a porta do escritório continuava entreaberta. Ouvindo passos de salto no ambiente silencioso, Chris virou-se para a entrada. Encontrara uma mulher atraente, aparentemente perdida ao observar ao redor, enquanto parada de frente à mesa de Wesker. Quando notou Chris, a moça de blusa listrada e calça jeans se mostrava aliviada ao encontrar alguém ainda naquele escritório.
– Posso ajuda-la, moça? – Chris foi de encontro a ela, notando mais detalhes de seu rosto angelical e seus cabelos longos para frente dos ombros, já que portava uma mochila nas costas.
– Estou procurando pelo Capitão Albert Wesker. – Respondeu agoniada e observou chateada a placa na mesa do homem referido, após quebrar o contato visual intenso que compartilhou com o rapaz.
– Já era. O expediente se encerra as cinco. – Chris examinou o relógio de pulso. – Agora são quase cinco e meia da tarde.
– Droga! – Colocou a mão sobre a testa, levantando rapidamente a franja, enquanto torcia o lábio. Chris estranhava aquela reação.
– Teria que ser somente com ele? – Chris propôs intrigado. – Talvez eu possa te ajudar me disser o que precisa.
– Obrigada, mas não dá. – Forçou um sorriso segurando com nervosismo na alça de sua mochila. – Hoje não é meu dia de sorte. É melhor eu ir nessa.
– De nada. – Chris respondeu frustrado enquanto a assistia deixar a sala.
Chris assistiu-a deixando a sala frustrado por não ter podido ajuda-la. Logo, sorriu como um bobo percebendo a maneira estranha em que se sentiu intensamente atraído àquela mulher no mesmo instante em que a viu. Não sabia se a veria outra vez. Apenas sentia curiosidade de saber o que ela queria com seu capitão e se sentiu desconfortável ao imaginar que ela poderia ser algum interesse amoroso dele porque assim, nunca teria uma chance com ela. Voltando a preencher a maleta de itens, tentava esquecê-la antes que ela dominasse completamente seus pensamentos. Contudo, ouviu o abrir da porta da sala e ao virar-se, se deparou novamente com aquela moça.
– Oi de novo. – Se aproximava timidamente de Chris com embaraço. – Que horas começa o expediente aqui?
– O atendimento da delegacia começa às oito. Já nós do esquadrão começamos as sete. – Chris assimilou o interesse da informação imediatamente. – Você vai encontrar o capitão aqui as sete, com certeza.
– É exatamente o que eu queria saber. – Ela esboçou sorriso calmo antes de partir. – Obrigada outra vez.
Como ela tinha se aproximado mais da segunda vez, o perfume dela se impregnou no ambiente para deleite de Chris, que se sentia tentado em querer experimentar mais tempo com ela. Assim, deixou a maleta e o baú abertos e seguiu até o corredor na direção das escadas, encontrando finalmente a mulher que caminhava vagarosamente, admirando o ambiente.
– Escuta! – Bradou, fazendo a mulher parar seus passos. Identificando a voz do rapaz que acabara de atende-la, ela olhou por cima dos ombros para verificar se era com ela e se virou completamente surpresa ao vê-lo se aproximar. – Tem certeza de que não posso te ajudar?
– Não. Talvez... – Mostrou-se pensativa ao tentar encontrar uma necessidade, desde que o policial insistia na ideia. – Sabe onde posso me hospedar para chegar aqui andando amanhã?
– Claro. – Chris ponderou por um momento e escolheu um hotel onde poderia acompanha-la usando um bom de conversa, mas que ainda fosse próximo à delegacia. – Apple Inn. Imagino que você não tenha ideia de onde fica, certo?
– Não mesmo. – Ela o observou intrigada e virou sua cabeça cogitando com antecedência o que estava por vir. – Não se preocupe. Explique-me onde fica só uma vez que assimilo rápido.
– É porque... – Chris percebeu que ela tentou se desviar do que ele planejava e pensou rápido ao coçar a nuca. – Não seria incomodo nenhum já que estou de saída e coincidentemente moro na mesma direção. – Mentiu.
– Nesse caso, tudo bem. – Ela passou as mãos nos longos cabelos, arrastando uma mecha para trás de sua orelha. – Aprecio sua gentileza.
Naquele momento, Chris notou que sua mochila ainda estava na sala, a maleta e o baú tinham ficado abertos e ao tatear os bolsos, percebera que sua carteira estava na mochila. Ele poderia levar uma advertência por deixar a porta do escritório aberta com armamentos acessíveis, mas a mulher aguardava sua atitude. Então, tentou desencanar e sinalizou para ela tomar a frente ao descer as escadas enquanto escondia uma careta pela atitude irresponsável e equivocada.
Caminhavam lado a lado sem contato, mas ele percebia que ela parecia aflita e distraída. Por isso, aguardava uma boa oportunidade. Passando na recepção, Chris pediu um minuto enquanto devolvia a chave do estande que felizmente estava em seu bolso enquanto a mulher apreciava a arquitetura do prédio que mal tinha visto quando adentrou corrida em direção ao escritório, após se apresentar ali.
– Primeira vez na cidade? – Chris observava a maneira com que ela admirava a fachada da delegacia.
– Sim. Nunca tinha ouvido falar desse lugar antes. – A moça saiu de seus pensamentos para responde-lo. – Cidade bacana e bem estruturada pelo que notei nas últimas horas.
– Também não sou daqui. Ainda conheço muito pouco a cidade. – Argumentou. – Sou de cidade grande, Nova Iorque. É a minha primeira vez numa cidade interiorana também.
Percebendo que ganhara a atenção da mulher, Chris começou a contar sobre si. Sobre o que achava daquele lugar e sobre trabalhar numa delegacia depois de ter servido à Força Aérea. Logo, emendou o assunto em suas especialidades e habilidades, no intuito de chamar a atenção dela, desde que era daquela forma na qual impressionava as mulheres. Contudo, a atenção dela se esvaia porquanto sua mente estava aflita de preocupações, por mais que assentisse ao que ele dizia, sem dar a devida importância.
– Soube também que a vista das montanhas Arklay é impressionante. Assim que eu arrumar uma companhia que goste de adrenalina, não vou hesitar em fazer uma trilha. – Chris se virou à mulher que, outrora pensativa, forçava-se a enxergar o letreiro do hotel.
– Olha, já é bem ali! – Alegou entusiasmada. – Acho que já posso chegar até lá sozinha.
– Claro. – Chris notou que ela parecia ainda desinteressada nele para uma segunda interação. Pelos seus gestos, era evidente que ela já queria se livrar dele, diferente das demais que nem o deixavam se esforçar tanto como tinha acabado de fazer. – Nesse caso, foi um prazer acompanha-la, senhorita...
– Jillian. – Completou ocultando o sobrenome.
– A propósito, me chame de Chris. – Ele deu de ombros. – Caso a gente se encontre por aí.
– Afirmativo, Chris. – Jillian estendeu a mão para um aperto e ele, estranhando a utilização do linguajar militar, correspondeu. Parado enquanto a assistia se afastar, se assustou quando ela pausou seus passos e se virou. – Ah Chris... muito obrigada. E me desculpe se pareci distante ou distraída. É que... tive um dia péssimo e estou muito preocupada com algumas coisas. Mas, a gente se vê outra hora porque vou acabar precisando de um guia turístico nessa cidade. Acho que já sei onde te encontrar.
– Não vai se arrepender! – Chris piscou para ela sorrindo abobalhado. – Até mais... Jill.
Chris percebeu seu espanto quando encurtou seu nome, mas se tranquilizou ao notar que ela parecia ter se encantado com aquele atrevimento, antes de seguir ao hotel. Por mais que tivesse detestado aquela primeira abordagem, o último momento foi compensatório. Caminhando por longos minutos até a casa de Barry, ponderava sobre Jill. Se ao invés de ter falado exageradamente sobre si percebesse que a moça se encontrava aflita, teria conseguido arrancá-la daquele estado imediatamente. Portanto apenas torcia para que no dia seguinte, ela aparecesse na delegacia não sendo um interesse pessoal de seu chefe para que enfim fizesse a coisa certa.
Ainda se lembrava do último sorriso dela quando chegou à casa dos Burton. Discreto, não comentou nada sobre a mulher com os moradores da casa. Muito menos teve paciência para tentar montar lego com Moira naquela noite. Tudo o que ele queria era que o tempo corresse para que ele pudesse encontrar aquela mulher novamente.
No dia seguinte, Chris se levantou às cinco. Arrumou-se cuidadosamente, deixando seu rosto livre de pelos e extrapolou no melhor perfume que tinha. Penteou seus cabelos com gel, engraxou as botinas e antes que deixasse a casa com o capacete no braço, Barry descera as escadas ainda de pijama.
– Que barulheira foi essa, garoto? – Barry assombrava-se ao vê-lo pronto tão cedo quando Chris era o motivo de seus atrasos diários.
– Juro que tentei não fazer barulho. Só tive que usar o barbeador e o secador. – Chris mostrava-se inquieto para sair. – Não se preocupe. Te ajudo na conta de energia.
– Pouco me importa a energia. – Barry ainda o analisava com uma mão no queixo e logo notou o relógio na parede. – Devo avisá-lo que você está uma hora adiantado?
– Ah! É que... – Pensou rapidamente. – Não tem aquele treinamento de tiro agendado pra hoje? Preciso bater o Forest para pegar meu título de volta já vou preparar território.
– Esse é o meu garoto. – Barry comentou com breves tapas nas costas dele. – Pra quem abominava aquela delegacia na primeira semana, você está sendo um prodígio. Mas lembre-se...
– "Não seja expulso dessa vez." – Chris concluiu rolando os olhos. – Afinal, quando essa piada vai saturar?
– Prove que é digno de não mais ouvi-la, filho. – Barry o acompanhou até a varanda e recolheu o jornal, estranhando a pressa de Chris ao correr até sua moto.
Na delegacia, dirigiu-se até o escritório a fim de evitar uma punição pelo desleixo. Por mais que quisesse treinar, sabia que não deixaria aquela sala sem ter com a mulher desejada. Inesperadamente, a porta se abriu e Wesker se surpreendeu ao encontra-lo ali.
– Redfield, bom dia. – O cumprimentou tirando os óculos escuros do rosto. – Veio mais cedo porque precisa conversar comigo em particular?
– Não! Na verdade... sim. – Chris aproximou-se ao perceber que era melhor criar um assunto do que uma desculpa, mesmo que sua real dúvida não pudesse ser solucionada. – Ainda vamos ter mais novos integrantes na equipe?
– Tirando a pessoa que tinha que ter se apresentado ontem, não por enquanto. – Wesker se sentava em sua cadeira sem expressões enquanto Chris o escutava de braços cruzados. – Contudo, ainda penso em compor uma segunda equipe. Mais alguma dúvida?
– Não. Vou pegar um café. – Chris observava que o capitão já manuseava uma pasta. – Quer que te traga um copo?
– Eu não tomo café. – Wesker respondeu evitando-o.
Chris deixou o escritório, mas não se atreveria perder o momento do reencontro com a moça por causa de um copo de café. Os minutos pareciam horas enquanto ele brincava com o isqueiro no corredor. Estranhava saber que se prestava aquele papel por uma mulher que nem sabia se veria novamente e não entendia porque tinha ficado tão rendido. Logo, Joseph e Forest, que haviam chegado juntos, abordaram o rapaz pensativo que escorava na parede.
– Chegou animado pra ser batido novamente, piloto de quinta? – Forest debochadamente despertou Chris de seus pensamentos.
– Vai sonhando, soldado merdinha. – Rebateu cumprimentando-os. – Já pode começar a contar os minutos pra ser humilhado.
– É bom que ensaiem hoje. – Joseph cruzou os braços presunçosamente. – Vocês ainda não conhecem o papai aqui.
– Nesse caso, é melhor a gente deixar já uma cerveja apostada, que tal? – Chris propôs e ambos assentiram.
– O que aconteceu com a sua cara? Voltou a ser moleque? – Forest agarrou brevemente o rosto de Chris para irritá-lo, gerando uma rivalidade para mais tarde. – Não te vejo assim desde quando você era escravo da Força Aérea. Quer lembrar os velhos tempos hoje, não é?
– Tenho meus motivos. – Chris demonstrou desdém, mas logo sorriu. – Nem acredito que vou trabalhar contigo, seu otário.
– Vai ser irado! – Forest apontou para Joseph. – Vamos te levar pro mal caminho, caro Joseph.
– Já tô lá faz tempo. – Joseph concluiu e todos gargalharam. – Ah, ouvi dizer que tá vindo mais um cara do exercito pra cá, um dos bons. Tô falando de Força Delta, irmãos.
– Eu conheci muita gente da Força Delta e os caras são fodas. – Forest balançava a cabeça em admiração. – Mal posso esperar pra enfrenta-lo no tiro. Vai ser uma delícia assistir o bastardo derrubando esse seu narizinho erguido em segundos, Redfield.
– Ele não vai me bater. Seja o foda que for. – Chris contestou presunçoso. – Mais tarde vão entender do que eu tô falando.
– Redfield, Speyer e Frost. Pra dentro, agora! – Wesker ordenou friamente, evitando-os, enquanto seguia com seu andar soberbo às escadas.
– Qual é a desse cara? – Joseph resmungou adentrando na sala. – Ele é humano?
– O filho da puta se acha o exterminador. – Chris debochava enquanto olhava as horas e notara que Wesker saíra no mesmo tempo em que Jill apareceria na delegacia. Desapontado, tentava não transparecer. – Esse cara perdeu a humanidade dele há séculos.
– Talvez ele seja o Drácula. – Forest gargalhava. – Ou o próprio Frankenstein.
Enquanto mudavam o assunto pelos filmes que estreariam naquela semana, Barry e Enrico entraram na sala e seguiram para o arsenal, trocando uma ideia sobre o treinamento do dia. Logo, Richard, ainda com a mochila nas costas, se juntara a conversa dos mais novos. O time até aquele momento estava completo no escritório.
Inesperadamente, a porta do escritório se abriu e uma figura feminina adentrara discretamente no ambiente. Ela estava uniformizada com a insígnia do esquadrão enquanto parada de frente à mesa de Wesker com os cabelos escondidos na boina. Sem encontra-lo ali, ela olhou ao redor. Notou que dois homens maduros e barbados se entretinham no arsenal de armas sem a notarem. Virando-se para trás, se deparou com grupo de rapazes em uma roda, que gradativamente se calavam ao perceberem a presença dela. Quando encontrou um rosto familiar naquele grupo, ela sorriu.
Quando Chris repousou o olhar sobre a mulher que adentrara sorrateiramente no escritório, usando o uniforme do esquadrão, entrou em choque. Metade dele agradecia por vê-la novamente, mas a outra sentia uma vulnerabilidade ao assimilar que ela seria uma colega de trabalho e que isso atrapalharia completamente qualquer sinal de um relacionamento já idealizado por ele. Contudo, o sorriso que ela repentinamente esboçara em sua direção era superior a qualquer pensamento negativo e tudo o que pode fazer foi sorrir abobalhado como no dia anterior, finalmente correspondendo-a.
– Não acredito que vamos trabalhar juntos!? – Jill comemorou enquanto dava passos na direção de Chris como se já o conhecesse há anos. Ele, hipnotizado, estranhava aquela atitude intimista, sem recrimina-la.
Chegando bem próximo a Chris, Jill abraçou Forest ternamente, com olhos apertados de emoção. Aquele encontro acontecia bem na frente de Chris, que realmente se assustava com a maneira amável na qual ela se dirigia a seu amigo, depois da mulher distante e durona que se mostrou a ele um dia antes. Observando cada gesto carinhoso dela sobre Forest, passou a sentir um ciúme impetuoso e descontrolado da mulher que mal conhecia.
– Jillian Valentine! Mas que honra saber que vamos trabalhar juntos novamente! – Forest se divertia segurando em seus ombros, mas logo a soltou confuso. – Espera um pouco... não me diga que você é a Força Delta que viria para cá?
Imediatamente as expressões dela se transformaram em um sutil embaraço. Mostrava-se tímida enquanto assentia discretamente, para que ninguém desse ênfase naquele detalhe e se virou em direção à mesa de Wesker.
– Sabem me dizer quando o capitão chega? – Jill, educadamente, fez questão de olhar para os demais integrantes da equipe, notando um desconforto nas expressões de Chris.
– Ele já chegou, mas deu uma saída. À propósito, sou Richard Aiken, mas me chame de Richard. – Ele estendeu uma mão para Jill e a cumprimentou, enquanto ela agradecia o esclarecimento. – Já vou lá guardar minha mochila.
– Permita-me que também me apresente, moça. – Joseph assistiu Richard passando por trás de Jill e pensou em arremedar o colega "certinho" da roda. – Sou Joseph Frost. Mas apenas você poderá me chamar de Joe.
– Tudo bem. Entendido, Joe. – Ela sorriu para Joseph que logo deixou a roda, temendo encarar o homem que já fora apresentada.
Ter ocultado de Chris o propósito de ter ido àquela sala no dia anterior foi apenas por medo de saber se ainda trabalharia naquele lugar depois da falha que cometera. Era para ter se apresentado às duas da tarde daquela segunda. Contudo, por terem atrasado sua papelada de desligamento no exército, ela acabou encontrando passagem apenas para uma viagem de ônibus, que atrasou quase seis horas, fazendo-a chegar na delegacia apenas no fim do expediente.
O único bem que tinha lhe acontecido naquele dia terrível, foi ter conhecido Chris, que foi muito agradável com ela. Mas sentiu vergonha de dizer a ele que seria sua colega de trabalho devido à sua falta de profissionalismo no dia em que se apresentaria naquela delegacia, já que fora muito perseguida no exército por causa de pequenas falhas. Por isso, sentia-se envergonhada ao revê-lo, mas logo buscaria uma maneira de se explicar a ele.
Contrariamente, naquela hora, Chris já se sentia ludibriado, depois de ter sentido atratividade, perplexidade, amabilidade, vulnerabilidade e ciúmes dela. Jill despertava nele uma overdose de sentimentos que se descontrolavam freneticamente em seu interior. Não se agradou nenhum pouco por tê-la conhecido um dia antes e desconhecer totalmente que ela seria sua futura colega de trabalho. Se perguntava o porquê de ela ter ocultado dele aquela informação vital. Aquele ocultamento o deixou baqueado, como se ele, por mais agradável e cortês que tivesse sido com ela, abrindo mão de seus próprios interesses naquela entrega, ainda não fosse digno de saber uma informação tão relevante.
– Pra você, sou Christopher Redfield. – Rudemente, Chris guardou as mãos no bolso de sua calça, observando as expressões da mulher onde o belo sorriso dela se esmorecia. – Prazer em finalmente saber quem você é... Jill.
– Ei! Espera um pouco. – Forest interrompeu a encarada profunda dos colegas, enquanto sentia uma tensão no ar e cutucou Chris. – Tá tudo errado aqui. Ela é Jillian e você é Chris! Ninguém nunca te chama de Christopher, cara.
– Não me importo de ser a primeira. – Jill se manifestou sem perceber o que sua fala, intencionalmente amigável, causara. Tardiamente, notou que Chris tomou a frase como uma afronta ao observá-la intrigado. Nisto, ela forçou um riso simpático. – Certo, Christopher?
– Certo, Jill. – Chris mantinha-se frio enquanto Forest não compreendia o que acontecia, embora curioso. Evitando as expressões de Forest, Chris prosseguiu. – Então, vocês trabalharam juntos?
– Não juntos, mas servimos no mesmo quartel, até a Jill ser chamada para a... – Forest travou-se. – Um outro grupo. – Concluiu piscando para Jill que piscando de volta, agradecia a discrição sobre seu treinamento.
– Força Delta, hm? – Chris provocou com desdém ao perceber que o assunto a incomodava. Queria causar nela o mesmo incomodo que ele sentia. – Espero que tenha feito a escolha certa em trocar uma carreira de verdade por uma delegacia interiorana, gracinha. Pra mim, você cometeu um desperdício profissional. – Sorriu imponentemente. – Tô falando sem querer ofender.
– Sabe, Christopher... – Jill entrou na pilha das provocações ao colocar as mãos na cintura suspirando. – Lá onde eu servia, onde você parece desconhecer totalmente, era cheio de nova-iorquinos babacas, desprezíveis e metidos a besta que só sabiam falar de si mesmo ou exaltar seus próprios dons e habilidades para impressionar os demais. Porque no fim, eram os verdadeiros desperdícios profissionais. – Cruzou os braços com determinação. – Vou adorar trabalhar com interioranos bacanas e competentes. E claro, com você, um nova-iorquino nada igual aqueles otários. Então, só pra esclarecer, eu realmente fiz a coisa certa.
Chris se impressionou com a maneira discreta e inteligente de ter sido provocado e assentindo, sabia que não lidava com uma amadora. Jill tinha uma expertise em captar pequenos sinais e sabia se defender completamente, como tal notara desde o momento em que a viu. Mostrando um sorriso de canto para ela, tal como era devolvido com a mesma expressão, pode sentir uma overdose de adrenalina e oxitocina por causa ela. Cada novo segundo em sua presença, o fazia convulsionar por dentro em puro fanatismo para ter mais momentos com ela e conhecê-la mais do que já tinha experimentado.
– Já que vocês me parecem bem apresentados, vamos até o arsenal, Jillian. – Forest apontou para Barry e Enrico. – Tenho que te apresentar à uns interioranos bacanas e competentes, antes que o capitão corte nosso momento divertido.
Chris os seguiu para ficar cada vez mais a par do que acontecia com ela, enquanto Joseph e Richard a enchiam de elogios entre si. Notara a maneira educada e respeitosa dela, que ria com descontração às piadas que Barry e Enrico faziam ao se apresentarem. Contudo, Chris se surpreendeu quando ela mesma decidiu se apresentar aos mais velhos.
– Meu nome é Jill Valentine. – Ela assentia risonha para eles e olhando brevemente de canto para Chris, piscou para ele ao passar a usar o nome que ele lhe chamara.
Sem jeito por fora, mas enfraquecido por aquele gesto singular, Chris se afastou do grupo e procurou se sentar sozinho enquanto lia um manual de armas, tentando reorganizar a bagunça sentimental que a novata fizera dentro dele. Nisto, notara que Enrico tinha ido até o telefone que tocava na mesa de Wesker.
– Pessoal. – O subintendente chamou a atenção da equipe após desligar a chamada. – O capitão Wesker vai demorar mais um pouco. Sendo assim, Frost! Por você ter chegado por último, será o encarregado de apresentar a delegacia para a Jill.
– Será um prazer. – Joseph prontamente se dirigiu à entrada. – Vamos Jill?
– Estou bem atrás de você, Joe. – Jill o seguiu empolgada enquanto Chris a observava por cima de sua leitura até que ela deixasse a sala por completo. Nesse momento, Forest se sentou ao seu lado.
– Escuta... é impressão minha ou vocês já se conheciam? – Questionava observando um Chris hesitante.
– Não. – Abaixou sua leitura, sem entrar em detalhes sobre o dia anterior. – Mas e vocês? Ela te deu um abraço bem caloroso.
– Somos amigos de farda. Como eu tinha menos habilidades que a Jill, ela acabou como a primeira mulher americana na Força Delta. Nisso, perdemos contato por um bom tempo. Da última vez em que a vi, ela estava namorando um oficial e rumores absurdos e estúpidos diziam que ela havia "comprado aquele treinamento com o próprio corpo". Mas a Jill jamais precisaria desse método. Ela é foda mesmo, Chris.
– Que desgraçados. – Admitiu comovido. Sensibilizado, finalmente entendera tudo o que ela quis dizer sobre ter trocado aquela carreira por uma delegacia e sentiu remorso por tê-la provocado daquela maneira sem saber de sua história. Aquela mulher era realmente especial. – E esse oficial... ela ainda é comprometida?
– Não mais. – Respondeu para alivio de Chris. – Os rumores destruíram o relacionamento. Já o cara, que era muito influente, passou a sabotar a carreira dela porque não aceitava o fim do relacionamento, pelo que ouvi falar. Bem, aquele lugar é cheio de gente desse tipo. Afinal, não foi essa gente que o expulsaram da Força Aérea? – Forest perguntou e Chris apenas assentiu. – Acho que foi por isso que ela deixou o exército e se juntou a nós. A Jill que eu conhecia nunca ligou para status ou patentes mesmo. Ela gosta da coisa certa.
Chris manteve-se calado enquanto ponderava em uma maneira de se desculpar com Jill e Forest se afastou ao perceber que Chris retornara ao manual. Por hora, o melhor a fazer era se manter distante dela, temendo errar novamente. Quando Jill retornou, foi rodeada dos rapazes que a encheram de atenção e uma simpatia respeitosa, fazendo-a se sentir pertencente dali. Chris já não era mais o centro das atenções. E optava por não se aproximar, por mais que seus olhos ainda continuassem nela.
– Agora entendi o porquê de você vir trabalhar todo arrumadinho hoje. – Barry despertou Chris de seu transe com deboche.
– Acredite, eu não estava esperando uma mulher se juntar à equipe. – Procurou não mentir porque sabia que Barry o conhecia muito bem. – Na verdade... isso é interessante de ver.
– Você já está caidinho por ela, não é garoto? – Barry analisava seu comportamento.
– Nah... muito cedo pra isso. – Chris desdenhou, enquanto internamente já sabia muito bem do estrago que Jill fizera em menos de vinte e quatro horas.
Quando Wesker retornou à sala, Jill foi de encontro a ele. Tentou justificar sua ausência, mesmo assistida pelos demais. Wesker se mostrou muito flexível e nem mesmo permitiu que ela concluísse suas desculpas. Mesmo assim, ela mostrou-se muito subalterna, prometendo compensar aquele erro com exímio profissionalismo. Chris, que acompanhara aquela abordagem, finalmente entendeu a aflição da mulher no dia anterior e compreendeu seus motivos. Imediatamente, tudo o que voltou a sentir por ela era a atração vulnerável e veemente, que o deixava inteiramente rendido a ela de novo.
Quando o capitão reuniu o time, explicara que eles iriam treinar mira de fuzis táticos em um campo de tiro e que o treinamento seria liderado pelo subintendente Enrico Marini. Enquanto ouviam as instruções iniciais de Enrico, Chris olhou para Forest e apontando para seu rival, passou um dedão horizontalmente sobre o pescoço em sinal de ameaça. Contudo, mas se surpreendeu quando recebeu o mesmo gesto de Joseph, que sinalizava que Jill o desbancaria, por fim fazendo o sinal de dinheiro, pois pretendia apostar nela.
– Eu imagino que todos queiram a companhia da bela moça aqui presente, mas... – Wesker observava, por trás dos óculos escuros, as expressões de todos no momento em que citou a mulher. Todos a olhavam com interesse, menos Chris que se mantinha indiferente, sem esboçar emoção sobre ela. Mas no fundo, Chris se sentia involuntariamente enciumado. – Vou escolher as duplas de maneira justa e dessa vez, as duplas competirão entre si. O terceiro lugar disputa com Enrico. O primeiro e o segundo, que se matem entre si pela glória. – Explanou observando-os e analisando mentalmente suas habilidades. – Aiken e Frost, vocês serão a primeira dupla a se enfrentarem. Burton e Speyer, segunda dupla. Só me resta, Redfield versus Valentine. Vamos ver se você dá conta de bater um treino Delta Force, Chris.
– Com prazer, capitão. – Chris assentiu encarando prepotentemente a moça à frente, que o encarava de volta com um sorriso determinado, alongando os dedos de sua mão esquerda.
DEZEMBRO, 2008.
Depois de guardar na caixa as coisas que revirara para deixar o escritório, Chris localizou uma estante de fitas cassetes. Analisando-as, encontrara a fita do aniversário de sete anos da Moira, do dia da foto que encontrara no quarto da mocinha. Alvoroçado, levou a fita consigo e a inseriu no aparelho da estante da sala e sentou-se no sofá.
A primeira imagem era de Moira e Polly com, respectivamente, sete e cinco anos se apresentando à Kathy que as filmava na sala da casa dos Burton em Raccoon. Atrás das meninas havia um painel de festa infantil, enfeitado com várias flores amarelas. No display, Chris entendeu que era quase onze da manhã em um dia frio de janeiro de 1998. Por isso as irmãs estavam bem agasalhadas. Kathy logo flagrou Barry adentrando pela porta principal com um grande presente embalado com um laço. Moira abria ansiosamente o presente, encontrando uma casinha de bonecas enorme.
– Meu Deus, isso deve ter sido muito caro. Quem a presenteou, querido? – Kathy questionou com voz estupefata, mirando a câmera na direção do marido.
– Foi o capitão Wesker, que mandou o presente por um entregador e pediu para a avisar que não vem para a festa.
– Então... nem precisava ter gastado tanto. – Kathy voltou a câmera para as crianças. – Enfim, gostaram meninas?
As meninas pulavam de alegria enquanto tudo o que Chris sentia ao ouvir o nome mencionado era fúria. Rancoroso, Chris ponderava sobre seu ex-capitão, desde que havia meses em que não o fazia e mal sabia se ele estava vivo, contando com a sorte de que nunca mais o veria novamente. Quando se voltou para o vídeo, encontrou sua própria figura mais jovem chegando na festa com um presente embrulhado. Ele cumprimentou as meninas que grudaram em suas pernas ao revê-lo depois de dias e acenou para a câmera para cumprimentar Kathy.
– Que bom que cheguei a tempo de ainda poder comer um pedaço do bolo. – O jovem Chris observava seu relógio de pulso. Kathy que, ainda se mostrava surpresa ao recebe-lo desde que achava que ele ainda estaria em viagem, expressou confusão.
– Ainda nem servimos o prato principal, querido. – Kathy ria constrangida. – A festinha só vai começar daqui a uma hora!
– Mas como? Ah... droga! – Revirou os olhos e apontou para seu relógio. – Ainda estou no horário de Nova Iorque.
Chris observava a cena se lembrando de que tinha ido visitar seus avós na cidade natal, junto a Claire que estava em seu recesso escolar de inverno.
– Tio Chris, cadê a Claire? – Polly, de cabelos bem clarinhos e bochechuda, puxava sua camiseta delicadamente para lhe chamar a atenção. Já Moira o observava distante e furiosa pela ausência de Claire.
– Ah, princesinha... – Chris evitava o drama Moira por pura implicância. – As aulas da escola da Claire já começaram e eu tive que deixá-la na capital. Mas esse presente aqui foi ela quem me ajudou a escolher para sua irmã. Moira... toma aqui seu presente, chatinha. – Quando entregou o presente para a aniversariante, aceitou o presente emburrada e caminhou para longe em sua marcha do ódio. Enquanto isso, Polly ainda olhava para Chris, esperando algum presente, já que todas as vezes que trazia algo para a mais velha, costumava também trazer algo para a mais nova. – Ah, não posso esquecer do seu presente também. A Claire me pediu para encher você de cócegas. – Chris tomou Polly nos braços e começou a brincar com a caçula, que muito diferente de Moira, parecia uma bonequinha de porcelana de tão delicada.
Enquanto Kathy filmava Chris brincando com uma Polly risonha, uma moça de cabelos longos foi vista de longe, entre a cozinha e a sala, enquanto tinha um avental na cintura. Logo, o zoom da câmera a focalizou.
– Kathy, acho que os bolinhos no forno já estão prontos. – Jill comentava à anfitriã dando um aceno para a câmera.
– Deixe mais uns minutinhos para dourar, querida. – Kathy respondeu entre risos. – Enquanto isso, venha conferir quem chegou.
Naquele momento, Kathy desaproximou a câmera e apenas capturou ambos. Chris olhou empolgado para Kathy ao deixar no chão a pequena Polly, que logo correu até sua irmã mais velha. Ouvindo os passos de Jill sobre o tablado cada vez mais perto, Chris brincava de se esconder da visão da moça, escondendo-se dela por trás da pilastra, enquanto internamente escondia seu nervosismo pela presença dela. Quando decidiu se revelar, observou que ela mal pode esconder sua alegria ao revê-lo.
– Como assim você já retornou?! – A moça o agarrou em um abraço apertado enquanto a câmera, que se fixava no rosto do jovem Chris, mostrava seu acanhamento ao ser recebido tão amavelmente pela moça que era apaixonado. Ao se afastar para observá-lo, Jill demonstrava uma leve insatisfação e confusão. – A gente se falou ontem e você me disse que não viria para o aniversário. Quando chegou?
– Agora pouco. Na verdade, viemos essa madrugada. Depois que deixei Claire no instituto, corri pra cidade e passei em casa só pra deixar minhas coisas. Até achei que estivesse atrasado pra festa, mas... – Mostrou a Jill o horário de Nova Iorque em seu relógio de pulso e ela logo compreendeu. – Enfim, não disse nada porque quis fazer uma surpresa pra você... – Admitiu pretendendo aproximar-se dela, mas logo notou que estavam sendo filmados e olhou para Kathy constrangido. – Vocês! Uma surpresa para todos vocês. Então, como foi sua virada do ano nessa casa, Jill?
– Foi incrível. Os Burton não me abandonaram como você fez! – Jill o provocou jocosamente porque sabia do quanto que Chris insistira para que ela também fosse nessa viagem com os Redfield. – Kathy... – Jill se virou a moça que ainda os filmava. – Posso começar a enfeitar os cupcakes?
– Claro, querida. Obrigada pela gentileza. Aliás... – Kathy focou em Chris para capturar seu desânimo com a cozinha. – Leve Chris para te ajudar.
– Nesse caso, prefiro só com a companhia dele, já que ele é um desastre culinário. – Jill sorriu debochadamente para Kathy e logo se dirigiu a Chris. – Afinal, quero que me conte tudo o que andou aprontando em sua "cidade grande", rapaz. – Kathy registrara o momento em que Jill o empurrava docemente pelos ombros para a cozinha antes que ele se juntasse a Barry.
O homem sentado no sofá sabia muito bem o que o Chris do vídeo pensava naquele momento, enquanto se sentia melancólico por ter visualizado aqueles momentos agradáveis. Reencontra-la naquele dia, depois um tempo longe, foi memorável, já que não a via desde o natal e mal aproveitara aquela viagem, pois contava os dias para retornar a Raccoon por Jill. Logo, começou a imaginar como reagiria ao encontra-la novamente, depois de longos e terríveis anos de seu desaparecimento. Mas o desânimo de ainda não tê-la encontrado, começava a sugar as últimas gotas de energia que lhe restavam naquele propósito.
Continuou assistindo ao vídeo e se deparou com os demais convidados que Moira recebia em sua festinha. Quando não eram crianças, eram os melhores amigos de seus pais, tal como Forest e Joseph, que quando chegaram à festa, foram recebidos amistosamente por um Chris brincalhão e despreocupado, totalmente diferente do exausto e patético do sofá.
Enquanto observava a presença do esquadrão, seis meses antes de vê-los assassinados brutalmente, dando inicio ao primeiro dos inúmeros incidentes biológicos na qual passou a lidar, sentia um forte abatimento. Um nó na garganta se formava ao rever pessoas nas quais nem mais se lembrava, crianças que não tiveram futuro e amigos que nunca mais voltaria a ver, como Kendo. Sua pequena Emma, que dançava com Moira naquela festa, não tinha chegado à idade da amiga, que só sobrevivera porque escapou a tempo da cidade.
Sua principal atenção ainda era Jill. Quando ela aparecia na câmera, interagindo com os amigos, ajudando Kathy com as diligencias da festa ou aninhada as pequenas Burton, era como se ela estivesse presente naquela casa também. Sua doce voz e gargalhada ecoava pela sala onde na maioria das vezes, era vista ao lado de Chris durante toda a tarde daquele aniversário, desde que eram melhores amigos. Aquelas memorias emocionavam o homem que assistia o vídeo, que inevitavelmente se perguntava se Jill já havia partido, como todos os seus queridos amigos naquela filmagem.
No fim da filmagem, Chris levou um tempo até se levantar para desligar os aparelhos. Oprimido pelos próprios pensamentos, entrou dentro do carro e dirigia pelo bairro para espairecer. Localizando o carro de Kathy estacionado na frente de uma igreja, ponderou se buscar a fé naquele momento era uma atitude insana ou acertada desde que se encontrava intensamente perturbado.
Na igreja lotada, todos ouviam atentamente os últimos minutos do último sermão do ano. Ainda no carro, enquanto se esforçava para ouvir uma dose de esperança, Chris escutou um som de órgão e logo um coral começou a cantar uma música familiar. Consequentemente, assimilara que era a mesma música que Jill descreveu no diário no dia em que a presenteou com o pingente.
"I sing because I'm happy; I sing because I'm free. His eye is on the sparrow and I know He watches me." (Canto porque sou feliz; Canto porque sou livre. Seus olhos estão sobre o pardal e eu sei que Ele me vê.)
Escutando a música, Chris tirou do bolso da carteira apenas o pequeno pingente, já sem o cordão, enquanto observava a frase que pediu para que o vendedor indígena gravasse ali que era "His eye is on the sparrow". Chris sentia a mesma emoção de quando Parker o entregara aquele item há exatos dois anos atrás. Contudo sua empolgação já estava desgastada pela falta de respostas ou sinais. Por isso, guardou o item de volta e desistindo de refazer seus pedidos repetitivos aos céus, deixou aquele lugar e começou a dirigir até o outro lado da cidade com um emocional muito abalado. Encontrando uma orla, avistou um bar na beira do mar. Ele precisava se embriagar porque precisava fugir do pior pensamento que enfrentava, que lhe causava uma dor insuportável na alma. Sentado na cadeira alta enquanto desfrutava de seus vícios, sentia seu celular vibrar no bolso. Entretanto, ignorava as ligações dos supostos Barry e Claire porque queria a solidão.
Quando o bar fechou no início da noite, devido a comemoração do ano novo, Chris retornou ao carro. Sabendo que não tinha nenhuma condição de dirigir, escorou sua cabeça no volante do carro estacionado, enquanto chorava até adormecer. Ouvindo batidas fortes no vidro do carro horas depois, despertou-se com a abordagem de Barry. Ao destravar o carro, Chris desceu do veiculo e caminhou silenciosamente até o banco do carona.
– Porque não atendeu as chamadas, pelo menos? – Barry o repreendia assumindo o volante, desde que Kathy havia o deixado ali para leva-lo para casa. – Quando disse para você dar um passeio, não achei que te encontraria do outro lado da cidade.
– Desculpe. – Expressou sem emoção. Barry entendeu que ele não queria conversar e então se manteve calado durante todo o trajeto. Vê-lo completamente abatido despedaçava o grande coração do mais velho, que via naquele garoto o filho que nunca teve. Quando estacionou o carro na garagem, percebeu que Chris não se movia, mas que ainda mantinha os olhos abertos e por isso, decidiu conversar.
– Devia ter voltado mais cedo pra casa, garoto. – Barry finalmente afirmou com pesar.
– Quero minha casa, Barry. – Respondeu enquanto lágrimas silenciosas escorriam descontroladamente. – Preciso da minha Jill. Durante esse desaparecimento, eu salvei tantas pessoas, continuei lutando para o bem de todos e fico me perguntando se tudo isso valeu a pena quando... a pessoa que eu mais queria ter salvo... eu nem mesmo a encontrei.
Barry colocou a mão em um dos ombros de um Chris brutalmente frustrado. Mesmo que forçasse sua mente ser otimista, Barry sabia quão exaustiva era aquela batalha que Chris diligenciava há anos. Considerando que Kathy e suas filhas estavam seguras, não se sentia digno de tentar consolar Chris. Por isso, tudo o que Barry fez foi afagar suas costas enquanto seus olhos, que tanto seguraram lágrimas, não se contiveram naquela hora.
– Você ainda vai encontra-la, garoto! – Barry batia nas costas do amigo para fazê-lo acreditar em si enquanto secava suas próprias lágrimas. Se recompondo, bateu em seu próprio peito. – Acredite nesse velho experiente. Eu sei que você é capaz, Chris.
Depois daquele momento, Chris apenas demonstrou gratidão. Adentrando pela cozinha, Kathy estava sentada sobre a mesa aguardando-o para uma conversa. Ela era experiente em ouvir e auxiliar pessoas, como um talento nato e Chris ansiava por aquela conversa, porque sabia que Kathy poderia ajuda-lo a organizar sua mente bagunçada.
Enquanto se encontrava de frente a Chris na mesma mesa em que o ouviu confessar seus sentimentos por Jill pela primeira vez em 1997, Kathy notava o mesmo homem desesperançado de anos atrás enquanto ouvia toda sua epopeia fracassada durante os anos do desaparecimento de Jill. Barry também ouvia silenciosamente o desabafo de Chris enquanto finalizava o prato da ceia de ano novo. Depois de ouvi-lo silenciosamente, porém atenta, Kathy já imaginava o que viria.
– Agora, tudo o que sinto é que eu devo aceitar esse final. – Chris concluiu sua fala.
– Mas isso é o que você quer Chris? – Kathy indagou surpresa. Aflito, Chris tentava manter-se calmo, enquanto sentia seus olhos arderem pela vontade de descarregar-se.
– Não. – Encarava Kathy apático. – Mas... quais são as minhas chances agora?
Os três silenciaram-se naquele cômodo, sem expressões, chocados com a realidade dolorosamente adversa. O silencio já era perturbador quando puderam ouvir o soar da campainha e Barry os deixou no intuito de verificar a porta.
– Você a ama, Chris? – Kathy finalmente perguntou.
– Sim. – Confirmou imediatamente, embora demonstrasse um desconforto em seguida.
– Então... viva esse amor! – Kathy exigiu, enquanto um Chris, letárgico, a encarava sem compreendê-la. Confiante, ela revisitou o passado em sua mente e encontrou uma versão dele mais jovem, tão confuso como se encontrava naquele momento. Por isso, ela prosseguiu. – Sabe... o amor é o que sempre permanece e é mais importante do que a fé e a esperança. Sei que o amor é sofredor, porque existem muitos obstáculos que ele precisa enfrentar. Também sei que o amor acredita, porque ele é como uma convicção de que tudo está valendo a pena. O amor também é paciente, pois entende que pra tudo leva tempo. Mas... a mais cruel e impiedosa realidade do amor é que ele tudo suporta. Não estou falando de suportar pequenas coisinhas. O amor é o primeiro a estar disposto a resistir qualquer coisa. O amor nunca desiste. Então... vou refazer a pergunta. Você a ama, Chris?
Naquela reflexão, ele não respondeu de ímpeto. Se mantinha em silêncio ao observar a superfície da mesa enquanto sua mente rebobinava cada pequeno momento vivido ao lado de Jill. Por fim, chegou a uma conclusão final. Com lábios trêmulos, sentia seu corpo suar e escondia o nervosismo de seus dedos debaixo da mesa.
– Eu a amo, mas... – Chris ergueu a cabeça, soluçando silenciosamente. – A Jill sempre me amou muito mais.
– Na realidade atual, encontrar a Jill é extremamente difícil. Mas não é impossível. Nesse caso, acho que você já sabe o que fazer, não é? – Kathy o observou balançar a cabeça em confirmação, com um sorriso melancólico e em seguida, olhou para as figuras atrás de Chris. – Todos nós nessa sala sabemos que você jamais aceitaria perde-la, Chris.
– Concordo! – Claire foi ouvida naquele cômodo enquanto se aproximava de seu irmão, que surpreendido, se virou para ela. – É melhor que você trabalhe duro nisso para que, no fim do ano que vem, a Jill já esteja com você. Porque eu juro que... – Claire caminhava emocionada até Chris e se colocava de pé para ficar a sua altura. – Espero que esse seja o último ano em que vou ter que largar tudo só para passar essa data com você, irmão.
Chris se pôs de pé e abraçou sua irmã comovido com sua presença, quando nem se sentia merecedor de tanto cuidado da parte dela. Barry juntou-se a Kathy em um abraço enquanto os observava carinhosamente, sentindo o agradável cheiro de comida no ambiente. O casal se lembrava com gratidão da primeira vez em que receberam os órfãos Redfield naquele lar, numa ceia como aquela quando ainda nem tinham filhos, para nunca mais partirem daquela casa que um dia os recebeu. Assim como antes, aquele casal sentia gratidão ao abriga-los novamente, como a família substituta que sempre os amou.
"Por favor, não me peça para defender as vergonhosas descidas do caminho em que estou sendo levado melancolicamente pelo tempo. Eu procurei dentro de mim mesmo hoje, pensando que devia haver alguma maneira de manter meus problemas distantes. Me aperte pertinho do seu coração. Toque-me e dê todo seu amor para mim."
