"O frio tem uma voz que conversa comigo, natimorta por escolha própria. Não precisa de ar para segurar. O velho homem sente frio. Ah amor, não... porque foi-me dito: continue nestas estradas, ainda vamos nos encontrar, eu sei. Permaneça meu amor, iremos nos encontrar. Eu sei."

MARÇO, 2009

Existia um alívio apegado em cada palavra da reflexão mental de Chris Redfield enquanto ponderava sobre os últimos acontecimentos. Enquanto tentava relaxar seu corpo exausto dentro do helicóptero, sentia-se surpreso por tudo o que experimentara nos últimos minutos, após todo um episódio traumático e dramático ter tido um bom desfecho. No fundo, sabia que já se encontrava no lugar mais seguro do mundo. Estava sendo refletido no olhar da mulher por quem ansiava encontrar por tempestuosos dois anos e sete meses.

Com um sorriso discreto, Jill Valentine o encarava. Intensamente e profundamente, como no primeiro dia em que o conheceu. Por mais que quisessem permanecer fixados naquela troca de olhares, ambos tinham ciência de que estavam sendo observados pela jovem adulta mais corajosa que Chris havia encontrado naquele continente. Nisto, um tímido constrangimento foi inevitável, como em todas as vezes em que se sentiam observados.

Sheva Alomar, sentada à frente de Chris, foi a primeira parceira na qual ele se permitiu e se agradou em ter, depois de dois anos de relutância em colocar alguém na posição que somente Jill era digna de ocupar. Sheva cumpriu, de maneira exitosa, a missão que ele desviara de última hora e tudo o que Chris podia sentir ao encará-la naquele momento era gratidão. Sheva acreditou, confiou e esteve ao seu lado até o fim. Se ela se abstivesse daquela incumbência, Chris jamais teria recuperado a pessoa mais preciosa de sua vida que estava bem ao lado de Sheva. Boquiaberto, voltou a observar Jill com olhos arregalados para provar a si mesmo que o que apreciava era real. Depois de anos projetando-a imaginariamente por causa de sua ausência, a figura que mais desejou ver e tocar já era uma realidade, em carne e osso, bem diante de seus olhos.

Jill constantemente erguia suas mãos para manter fechada a gola de seu macacão, no intuito de esconder as feridas horrendas em seu colo que ainda causavam uma dor latente, semelhante à uma queimação. Ela contemplava com um olhar brando o azul do céu das primeiras horas do dia que seria para sempre inesquecível. Seus olhos quase cinza de tão claros, já cansados de apreciar a imensidão, se voltaram espontaneamente ao causador de seu sonhado resgate. Apartando seus lábios pálidos, um sucinto e silencioso "obrigado" foi esboçado ali. Chris balançou a cabeça em resposta, por mais que não se sentisse digno daquela gratidão. Apenas fizera seu dever, o mesmo que garantiu a ela desde que a acolheu e a reconheceu como sua parceira para vida toda em uma noite de maio em 1998.

Chris passou a notar que Jill apresentava, de modo inexplícito, uma ansiedade habitual, uma vontade de expressar algo. Seus olhos tensos, suas pernas balançando inconscientemente e as mãos que se abriam e fechavam-se demonstravam os sinais que ele conhecia há anos. Aquela postura provava a Chris que mesmo após o controle mental que havia sofrido, ainda era ainda a mesma mulher de sempre. Por mais que estivesse diferente fisicamente da última vez em que a viu, ainda era sua Jill. Como já havia dito antes, ela ainda possuía suas memórias, tinha ciência de tudo e tinha as mesmas habilidades, tal como fora a mente pensante que mostrou o caminho para que acabassem de vez com Wesker. Ele não via a hora vê-la de volta ao seu dia-a-dia. O destino que lutou tanto para alcançar nos dias mais difíceis, não era mais uma expectativa, já era uma realidade. Cuidar, priorizar e dedicar-se à Jill era seu mais novo principal objetivo e tudo o que restava fazer naquela última etapa era apenas leva-la para casa.

Ainda exaustos da batalha cansativa que enfrentaram contra o inimigo-mor que fora finalmente vencido, Josh Stone, o capitão da filial oeste-africana, os conduzia de volta à base. Depois de ter recuperado Jill, outra principal pendência que Chris diligenciou por anos finalmente teve um desfecho satisfatório também. Wesker nunca mais seria um sinal de ameaça ou perda de tempo. Chris já se sentia livre para usufruir de uma vida mais normal. Enquanto olhava para Jill, recordava-se dos planos de "um ano de descanso". Já poderiam experimentar aquilo desde que tudo o que os impedia já não mais existia. A derrota de Wesker concomitante ao resgate de Jill era uma vitória dupla para Chris.

Quando Sheva se deu conta de que aqueles "velhos parceiros" precisavam de uma proximidade privada, ela sinalizou com a cabeça e com os olhos para Chris. O sinal implicava que os "velhos parceiros" precisavam de um tempo ainda na cabine de carga para se reunirem e enfim se reconectarem.

– Vou me juntar a Josh. – Gesticulou junto a sua fala, desde que o barulho da hélice era ensurdecedor. Se pondo de pé, Sheva caminhou em direção à cadeira do copiloto e prendeu o headfone em seus ouvidos para se comunicar com Josh, que parecia um pouco frustrado. Dando uma breve olhada para trás, notou que Chris já tinha tomado seu lugar, bem próximo à Jill.

O barulho da hélice não deixaria Chris e Jill conversarem. Precisariam de um equipamento de áudio ou de enxergarem os movimentos labiais. Mas nada se comparava com a alegria de estarem lado a lado novamente, por mais que não demonstrassem um afeto explicito. Isso era muito significativo para Jill, que se viu sozinha desde que despertou da criogenia. Olhando silenciosamente para Chris enquanto ele lhe retribuía a mesma reação, sentia uma paz inexplicável enquanto as últimas boas memórias de encontrá-lo lhe davam tranquilidade. Ela reconhecia o empenho dele ao tentar recuperá-la, mesmo quando o caso dela parecia irreversível e se emocionava por ainda se sentir amada mesmo depois de quase tê-lo destruído quando comandada por Wesker.

– Eu só quero ir para casa. – Jill admitiu maravilhada enquanto Chris observava seus lábios para entende-la. Emocionado com a frase que ela costumava a dizer no final de árduas missões concluídas, ele concordou com a cabeça.

– Eu vou te levar pra casa. – Chris garantiu sorridente e olhou na direção de sua própria mão direita que estava repousada sobre seu joelho.

Com os olhos ainda fixos na face de Chris, Jill instintivamente levou sua mão esquerda, ainda trêmula, de encontro a mão dele que aguardava aquele toque. Ele entrelaçou seus dedos voltando a olhar para ela, que com olhos lacrimejantes e um sorriso aliviado, mal podia acreditar no que estava vivendo novamente.

Numa tranquilidade insólita, Jill sentiu suas pálpebras pesarem. Já fazia um bom tempo desde que ela precisava descansar e sabia que apenas ao lado do homem que mais a protegeu e a cuidou por tantos anos conseguiria se permitir a fazer isso. Logo, escorou sua cabeça no ombro dele enquanto sentia a mesma sensação de segurança ao encontrar-se no helicóptero dos S.T.A.R.S., guiado pelo saudoso colega Brad, após uma madrugada aterrorizante em uma mansão sanguinolenta e desumana.

Ainda assimilando a realidade de ser livre novamente para fazer suas próprias vontades, sua mente se recordou pesarosamente da época em que servia a Wesker enquanto ele a usava de maneira hedionda para suas crueldades. Quando sua mente começou a vasculhar e processar aquelas recentes memórias de controle mental, onde ela cometia crimes, matava pessoas inocentes com o mesmo mal que combateu por anos ou quando era forçada a obedecer e trabalhar impotentemente em prol das ambições que tanto odiava realizar, um mal súbito tomou conta da mente dela. De repente, Jill pode sentir uma instabilidade emocional e uma perturbação descomunal que a levava gradativamente à uma loucura silenciosa. Seus próprios pensamentos condenavam cada ato atroz que efetuara. Era desesperador saber que enquanto ela retornava para casa sã e salva, imagens das pessoas inocentes as quais teve que executar friamente a assombravam impiedosamente.

Nisso, ela começou a chacoalhar lentamente sua cabeça de um lado para o outro tentando afastar de sua mente os maus pensamentos, no intuito de afastar aquelas condenações enquanto exprimia curtos gemidos de dor. A mão que ainda estava entrelaçada a de Chris se soltava aos poucos porque se sentia constrangida e envergonhada diante dele. Quando isso aconteceu, ele tirou os olhos da visão do horizonte para se voltar a Jill, procurando entender o que acontecia. Mas antes que pudesse processar os trejeitos visivelmente perturbadores de Jill, notou que, de pé, ela tentava afastar-se dele. Em seguida, revirou os olhos, vindo a cair quase desmaiada sobre o piso metálico da cabine mas antes que batesse sua cabeça ao chão, Chris a alcançou e a envolveu enquanto ajoelhado. Jill tremia como se sentisse calafrios a cada três segundos de maneira contínua com os olhos bem fechados. Ele a chamava, como se quisesse acordá-la de um transe, mas ela não respondia. Quando notou que ela começou a mexer os lábios, como se estivesse proferindo uma oração silenciosa, Chris aproximou seu ouvido próximo a boca dela.

– Eu não mereço isso... não mereço perdão... não quero ser salva... – Pronunciava rangendo os dentes ainda com olhos fechados como se estivesse falando consigo mesma.

– Se acalme, Jill. – Chris a envolvia da mesma forma que fizera outrora após arrancar o aparelho que a aprisionara, tentando secar o suor do rosto dela ao sentir o corpo dela cada vez mais quente. – Estamos quase chegando na base, vai ficar tudo bem.

Ele abrigava o rosto dela sobre o peito dele enquanto ela insistia em repetir seu mantra. Enquanto a afagava para tentar trazê-la conforto sobre aquelas duras palavras que a auto condenavam, não entendia o que acontecia, muito menos sabia o que fazer.

Percebendo o movimento estranho da cabine de carga, Sheva procurou entender o que acontecia ali. Deparando-se com cena inusitada, aproximou-se para verificar o que estava acontecendo. Uma breve leitura dos lábios cada vez mais pálidos e quase sem movimento de Jill fez Sheva compreender de imediato. Ela correu até Josh e insistiu para que ele apenas aterrissasse em um heliponto de um hospital enquanto reportava à central o que estava acontecendo.

Aos poucos, Jill conseguia acalmar-se. Seus olhos lentamente se desprendiam da pressão de estarem bem fechados e sua boca finalmente calou-se. Como uma brecha, ela abria os olhos, sentindo sua pressão abaixar bruscamente. Contemplando o desespero nos olhos do homem apavorado e desesperançado sobre si, sentia os dedos gelados e calejados dele acariciando seu rosto quente, como um bálsamo refrescante. Nisto, Jill ergueu sua mão cálida e tocou na mão fria dele, que estava sobre seu rosto. Ele, intuitivamente, segurou aqueles dedos finos, impedindo-os de perderem sua força tal como Jill perdia aos poucos seus movimentos.

– Não apague, Jill. Já estamos quase lá. Continue firme, está bem? – Chris exigia desesperado torcendo para que pelo menos, ela pudesse escutá-lo. Ela assentiu em resposta, forçando um sorriso fraco.

Jill tinha algo que queria dizer desde quando Chris ainda estava sentado a sua frente. Portanto, tentou abrir os lábios mais uma vez para tentar dizer a ele o que precisava ser dito antes de perder a consciência que lutava para manter. Sem conseguir proferir nada, observou-o grudar sua testa à dela enquanto voltava a implorar para que ela se mantivesse acordada. Essa foi a última visão que ela presenciou antes de se entregar à sua fraqueza.

x.x.x.x.x

Chris encontrava-se de pé, com braços cruzados e escorado na parede do corredor do setor operatório do maior hospital de renome do continente africano. As horas passaram devagar para um dia inteiro de espera, quando já era fim de tarde. Ele, apoquentado, olhava frequentemente para o relógio de pulso em distração. Sentia uma aflição que o atormentava mais a cada minuto. Qualquer movimentação estranha no corredor, rente a sala onde Jill havia adentrado pela manhã, era motivo de um nervosismo no aguardo de qualquer notícia. Sozinho, estava rodeado apenas de suas próprias sobrecargas mentais.

Sheva e Josh, que ficaram ali nas primeiras horas, já tinham se dirigido à central que os solicitava a fim de prestar esclarecimentos sobre os últimos acontecimentos. Ambos decidiriam por cumprir aquela incumbência, poupando Chris da tarefa, afinal sabiam o agente de operações especiais se recusaria a deixar o hospital. A porta por onde Jill entrara inconsciente estava em sua visão e tudo o que almejava era vê-la saindo daquela mesma porta enquanto o medo de perde-la também passava a atormentá-lo. A tranquilidade que sentira ainda dentro do helicóptero se transformara no mesmo desespero que sentiu ao se dar conta de que Jill havia pulado a janela agarrada a Wesker.

Esfregando as têmporas em irritação, se dava conta de que seu maior inimigo ainda tinha deixado um ultimato, um legado inclemente para ele. Tal como havia sido o autor do massacre de seus amigos há dez anos, Wesker agora tentaria eliminar a maior vítima de todos os seus atos mais desumanos e truculentos. Sentindo uma revolta descomunal, mal notou Sheva se aproximando. Ela visualizava uma tristeza apática nas expressões pausadas e hesitantes dele. Enquanto ela já estava com sua imagem recuperada, Chris ainda estava com o mesmo uniforme de campo que usara na missão.

– Nenhuma notícia? – Questionou-o e observou o balançar a cabeça em negação, cabisbaixo. – Lamento muito, mas vai dar certo. Acredite, Chris!

– Por favor, Sheva... – Chris riu em sarcasmo. – Não me dê esperanças porque não dá pra ter esperança nesse eterno pesadelo. – Rebateu tentando não soar tão rude. Ela o encarou confusa quando outrora ele parecia tão confiante na missão. Antes que ela apresentasse uma nova reação, ele encarou-a. – Dessa vez, achei que tinha tomado o controle das coisas pela primeira vez. Eu só queria saber logo o que vai acontecer. Estou farto de surpresas.

Chris afastou-se de Sheva, caminhando com curtos passos pelo corredor para esconder sua ira. Notando um banco de três lugares, sentou-se ali, indicando que preferia ficar só para voltar-se aos pensamentos. Sheva entendeu o recado, mas fez questão de ignora-lo e caminhou até ele testemunhando a tensão em suas expressões. Seus cotovelos estavam apoiados sobre o joelho enquanto escondia seu rosto com as mãos. Silenciosamente, ela sentou-se ao seu lado. Queria mostrar um apoio despretensioso, caso ele precisasse de algo. Paulatinamente, ele passou a observá-la, enfim encarando-a.

– Eu sei que não quer companhia, mas vou espera-la aqui com você. – Sheva contestou após um longo silêncio. – Enquanto a missão não acabar...

– A missão já acabou, Sheva! – Proferindo um tom melindroso, Chris desagradavelmente interrompeu-a.

– A missão só vai acabar quando você recuperar sua antiga parceira, lembra? – Ela o rebateu, deixando-o admirado com aquela atitude. Ele ergueu sua postura constrangido. – E tenho que ser sua parceira até ela voltar.

– Desculpe-me. – Assentia observando o olhar preocupado, mas otimista dela, que o fazia recordar-se de uma versão mais jovem de Jill. – Agradeço por estar aqui agora. – Admitiu antes de escorar a cabeça na parede por trás de si em exaustão. – Só queria que tudo isso já tivesse acabado, eu detesto esperar.

Sheva, de modo empático, concordava silenciosamente. A presença dela poderia lhe dar alguns minutos para descansar desde que seus olhos avermelhados ardiam de sono. Sheva poderia acordá-lo caso solicitado. Já pendia sua cabeça em sonolência quando foi despertado pelo ruído da porta dupla do centro cirúrgico. Um homem alto, de pele morena e rosto alongado surgiu dentro de um jaleco. Quando removeu a máscara, sua barba rala revelava que ele aparentava ter a mesma idade de Chris. Havia exaustão em seu rosto marcado pelos elásticos.

Chris e Sheva imediatamente colocaram-se de pé para ouvirem o que o Dr. Benjamin Davison tinha a dizer. O doutor, com um forte sotaque, começava a explicar todos os procedimentos desde o momento em que Jill havia sido recebida pela equipe médica. Ela por fim sobrevivera mesmo após terríveis complicações em seus órgãos vitais que foram comprometidos devido a uma exaustão em seus funcionamentos. Além das lesões internas causadas após seu corpo ter sido arremessado com força em um contêiner por conta de uma explosão, como Josh havia relatado, havia uma overdose de substâncias estranhas circulando em seu sangue que não eram simples de serem expelidas, desde que bloqueavam o bom funcionamento de seu cérebro com as demais partes do corpo. Aqueles fatores a deixavam em um estado alarmantemente crítico. Tudo o que podia ser feito por hora era aguardar uma resposta para que seu estado melhorasse. Para que aquela recuperação fosse bem sucedida, Jill teria que permanecer desacordada.

– Quando ela vai acordar, doutor? – Chris gaguejava ansioso. – Qual o tempo estimado?

– Não podemos afirmar nada por hora, mas vamos mantê-la em uma diligente observação até esse dia chegar. – O médico explanava atenciosamente. – Apenas com avaliações...

– Dia!? Espera... – Chris o interrompeu esfregando os olhos com as pontas dos dedos quando finalmente começava a assimilar aquela realidade. – Até quando ela vai permanecer assim aqui? Meses, anos, décadas... a vida inteira?

– Não sabemos ainda, Sr. Redfield. – Davison respondeu estranhando o modo do questionamento. – É fundamental que ela fique até conseguir estabilidade. Isso não tem data marcada.

– Não! Isso não pode estar acontecendo. – Chris, confuso, gesticulava em negação. – Temos que retornar aos Estados Unidos daqui a pouco. Eu garanti a ela que logo voltaríamos pra casa.

– Isso é contraindicado. – Rebateu torcendo os lábios. – Se está em dúvidas sobre nossas instalações, posso dizer que estamos trabalhando com especialistas de alto nível...

– Não... não é isso! Eu aprecio muito tudo o que estão fazendo aqui, mas... – Chris tentava se explicar constrangido. – É que... eu realmente preciso levar ela para casa. É uma questão de... promessa.

– Lamento, mas isso é uma péssima ideia. – O médico meneava a cabeça com preocupação. – Sr. Redfield, compreenda por favor. O estado da srta. Valentine é grave. – Suspirou. – Me atrevo a admitir que, até mesmo qualquer pequeno deslize da nossa parte, será irreversível para ela, senão fatal. Eu sinto muitíssimo. É mais seguro deixa-la aqui onde já está instalada e onde já estamos estudando suas condições do que arriscá-la em uma viagem. – Davison dava um tempo para que Chris absorvesse sua fala enquanto Sheva observava quieta seu amigo entrando em um colapso mental.

– Doutor... – Sheva segurou no ombro de Chris em suporte tomando a atenção do profissional. – É possível que o Chris possa vê-la ainda hoje?

– Certamente. Nesse momento, a srta. Valentine está se dirigindo para uma área segura na UTI pelos fundos. Vou pedir para que os chamem quando a visitação for possível. – O médico observava o homem ainda inerte. – Posso ajuda-los em algo mais?

Sheva negou, demonstrando gratidão, compreendendo a perplexidade constante nas atitudes de Chris que ainda observava cautelosamente o médico caminhar para longe. Enquanto compreendia que o estado crítico de Jill não teria uma previsão de melhora, Chris começou a repensar sobre suas decisões. Ele se lembrava do momento em que Jill desejou voltar para casa e aquela foi a última coisa em que ela havia manifestado desejo. Aquela também era uma necessidade almejada por longos terríveis meses dentro do coração de Chris. Levá-la para casa era, na pior das hipóteses, uma última coisa que ele precisava fazer por ela e para ela.

Ainda com um olhar fixo no doutor que assinava alguns papeis que as enfermeiras lhe traziam, pode observar que por trás dele, no fim do corredor, atravessara uma maca com um corpo coberto, envolto. Um súbito calafrio fez com que ele piscasse os olhos frequentemente para afastar um pensamento terrível que lhe ocorreu, mas seus pés involuntariamente começaram a caminhar naquela direção. Ele passou pelo doutor até encontrar no teto uma placa direcional que indicava que no final daquele corredor por onde a maca se dirigia, era o acesso ao necrotério. Seu peito ardeu-se de temor e ele pode sentir uma dor cruciante em seu corpo inteiro. Um vazio inexplicável, uma devastação completa de si e um nó contínuo na garganta. Ele jamais aceitaria levar Jill naquele estado para casa. Portanto, virou-se rapidamente e encontrou o médico em seu campo de visão.

– Escute doutor... – Chris seguiu rapidamente até o médico antes que o mesmo entrasse em uma sala. – Eu não posso deixá-la morrer aqui. Não quero levar o corpo dela sem vida para casa, eu nem conseguiria... – Ele meneava a cabeça para afastar o pensamento desanimador. – Por isso, preciso leva-la comigo ainda em vida! Por uma questão de... de...

– Compreendo. – O médico concluiu comovido. – Olha, tenho ciência de tudo o que ela passou e de tudo o que você fez. Mas, além de perigoso, para tirar ela daqui seria necessário um responsável para assinar documentos, como alguém da família. Porventura, você é o cônjuge dela?

– Nós dividimos um apartamento há anos... – Chris respondeu de imediato, mas não havia nenhuma comprovação documental jurídica que os afirmasse com um vínculo familiar. Portanto, já pressentia as consequências adversas de não ter oficializado aquele relacionamento. – Mas não somos oficialmente casados.

– Diante disso, não é suficiente. – Davison explicava com voz baixa. – Apenas o cônjuge ou pais podem assinar tal documento. Isso faz parte do regimento interno do hospital.

Aquela informação era como um soco no estômago. Tantos anos ao lado de Jill, mais tempo do que ela passou com seus pais em vida e um documento o impedia de ter legalidade sobre ela. Acionar seus pais já não era possível desde que não eram mais vivos. Ele era a única família que ela tinha e ainda assim não podia responder por ela.

– Doutor... preciso que você acredite em mim. – A fala pausada e grave de Chris implorava misericórdia, com uma sutil ameaça enquanto tentava procurar acalmar-se para não perder a cabeça ao sentir suas mãos trêmulas. – Eu sou a única família que ela tem. A gente não se casou, mas... – Chris abria e fechava as mãos para canalizar seu desespero e a raiva que tinha de si mesmo por não conseguir resolver aquela situação. – Eu a amo, doutor. Fiz de tudo para recuperar essa mulher quando todos os documentos dela já alegam que ela está morta desde 2006. O que é um documento nessas horas, hm?

O médico observou o momento em que Chris secou rapidamente um pequeno fio de lágrima que escorreu do olho esquerdo, que ele mal conseguiu segurar desde que tinha deixado escapar pela profundidade em seu olhar determinado. Seu uniforme completamente desgastado e sujo, tal como seu rosto que pingava suor nas testas e têmporas mesmo em um ambiente climatizado e a maneira com que ele havia trocado o tom de tristeza e angústia para um tom temivelmente ameaçador, evidenciava sua agonia com aquele pedido. Prestando serviço há anos à BSAA, Davison sabia que aquela mulher era muito importante para aquela corporação, apesar de todos os riscos que corria, mas não imaginava que fosse tão vital para aquele homem angustiado.

– Veja... – O doutor demonstrava insegurança. – Só tem um jeito de tirá-la daqui. – O médico se aproximou de Chris ao notar que o ambiente já era favorável para compartilhar uma informação tão comprometedora. – Consiga judicialmente uma extração de volta aos Estados Unidos para ela. Que seja através de contatos, pela embaixada ou autoridades necessárias, mas que tenha principalmente um translado médico seguro. Assim, eu a liberarei. Mas as responsabilidades serão todas sua, tá? – Pressionou-o, mas Chris continuava determinado. – Seja rápido porque... lamento muito não poder ser um pouco mais otimista sobre a situação dela.

– Apenas faça o impossível. Aquela mulher é a pessoa mais durona que conheço. – Chris tentava não se abalar com as últimas novidades. – Não desista dela tão fácil, por favor. – Chris observou o médico assentir com seriedade antes de se afastar. Antes que se sentisse sozinho, Sheva timidamente se aproximou.

– Acabei de saber que a Jill já está instalada. – Sheva confirmara. – Que tal já seguirmos para lá?

– Claro. Obrigado, Sheva. – Chris caminhava lado a lado com sua nova parceira enquanto seguiam para o andar onde Jill estava.

Nisto, sua mente trabalhava na ideia de conseguir um translado, tentando não se prender à pior das hipóteses, quando se lembrou de Leon. Parados à frente da porta de acesso, aguardavam autorização. Tentando fazer os primeiros contatos com o amigo, Leon não respondia. Praguejando sua sorte, Chris observou o chamado da enfermeira e já seguia, quando se voltou à Sheva. Ela prometeu aguardar do lado de fora para não ser inconveniente.

– Toma. – Chris entregou a ela seu aparelho. – Enquanto eu estiver lá, tente contatar Leon Kennedy. Explique a ele tudo o que aconteceu e principalmente sobre as condições de Jill. – Chris aproximou-se de Sheva para compartilhar a informação comprometedora. – Peça para ele viabilizar um translado urgente para Jill antes que...

– Tudo bem, Chris. – Sheva o interrompeu, apressando-o. – Sei exatamente o que dizer.

Em gratidão, Chris adentrou a sala de preparação para seguir até a área completamente esterilizada. Seguindo um corredor que parecia infinito, finalmente encontrou a sala onde Jill estava instalada. Ansioso, arrastou a porta de vidro rapidamente e segundos depois deparou-se com a cena que mais temia experimentar na vida. Contendo suas emoções, aproximou-se do leito onde Jill estava ligada à vários aparelhos. Ele ainda não se acostumava a ver seus cabelos castanhos tão claros, sua palidez e muito menos o abatimento excessivo nas curvas de seu rosto.

Apática, inexpressiva e doente era tudo o que nunca podia esperar encontrar em Jill, desde que sempre fora muito sadia. Contudo era daquela forma em que ela se encontrava depois de ter lutado pela própria sobrevivência enquanto dominada pelo infeliz que causara todo aquele infortúnio. Ainda assim, dizia a si mesmo em admiração que ela continuava sendo a mais bela mulher que já tinha visto e não via a hora de vê-la desperta para lhe dizer aquelas palavras olhando em seus olhos.

– Aproxime-se, senhor. – A enfermeira que ajustava os aparelhos ao lado do leito repentinamente foi notada pelo homem que só tinha olhos para Jill. – Já vou deixar vocês a sós.

– Você... sabe me dizer se ela pode me ouvir? – Chris segurava com força, em pleno nervosismo na grade de proteção da maca.

– Há uma possibilidade. – A enfermeira alcançou a prancheta, dirigindo-se à saída. – Na via das dúvidas, conte com um "sim".

Sozinho com Jill depois de anos, ponderava sobre aquela situação. O único barulho ambiente era o bip advindo do monitor multiparamétrico que mostrava os dados sobre seus sinais vitais. Observou a tela checando principalmente seus batimentos, oxigênio, pressão e temperatura. Os dados eram desanimadores, mas mesmo naquele estado, Jill estava ali e não era mais a mulher desaparecida, depois de uma busca incessante de anos, que lhe custou toda esperança e expectativa que já havia criado, contrariando a todos que duvidaram que ele conseguiria resgatá-la e recuperá-la. Segurando sua mão repousada, tentava confortá-la, sem saber o que dizer. O barulho do aparelho fez suas memórias encontrarem um registro memorável, então soltou um riso escasso.

– Esse "bip" deve estar te incomodando, não é Jill? – Sua voz soava mansa. – Infelizmente, não tenho ânimo para cantar "you are my sunshine" para inibir o som dos "bips". Mas eu ainda continuo aqui, te observando. Enquanto você deve estar lidando com algo mais difícil do que desarmar uma bomba agora. – Finalizou sua fala com uma voz embargada, imaginando o som advindo do pequeno riso debochado dela enquanto ela apenas mantinha o congelamento de suas expressões.

Ele ainda queria dizer muitas coisas, mas aguardaria seu despertar para visualizar as doces expressões dela ao ouvi-lo. Naquele estado de coma, isso jamais seria possível. Ele também não queria expressar suas dores por lidar com uma nova inconstância e um novo obstáculo quando achava já ter vencido o pior trauma de sua vida. Tudo o que mais queria sentir era que a gratidão de ainda poder tocar nela. Metade dele era um desespero inibido enquanto a outra metade era paz pelo que testemunhava. Experimentando dois sentimentos em antítese, não aceitava compreender aquela realidade. No fundo, sabia que jamais teria gratidão por encontra-la se tivesse que perde-la para sempre naquelas condições. Longos minutos depois, quando em silêncio ele continuava acariciar sua mão apesar das luvas protetoras, solicitaram o encerramento de sua visita.

– Eu te garanto que em breve você estará em casa, Jill. – Inclinou-se, ainda com a máscara em seu rosto e beijou a mão dela. – Eu vou lá correr atrás disso. Apenas aguente firme e não morra. Eu... – Chris travou-se e engoliu cada palavra que diria devido as perturbações emocionais ao se despedir dela. – ... te encontro em casa.

Já no corredor, Chris sentia uma fraqueza estranha, um sentimento ruim, um desespero por não ter dito que a amava quando teve a chance. Não sabia se ela o escutava e temeu em dizer "eu te amo" porque não queria que aquelas fossem suas últimas palavras a ela. Não queria que aquele contexto soasse como uma despedida final porque não queria que aquilo fosse uma despedida final. Mas quando se deu conta de ter perdido a chance de dizer a ela o que mais queria dizer por longos meses de sua ausência, sentiu-se um tolo.

Quando caminhou de volta pelo corredor, logo notou que as portas da UTI já estavam fechadas. Sentindo-se um completo idiota, esfregou o rosto enquanto travava seus lábios para não gritar de ódio por suas atitudes sempre equivocadas. O medo de perde-la novamente, depois de tê-la recuperado, já estava fazendo um estrago em suas emoções e atitudes como em 2006. Meneando a cabeça de um lado para o outro cabisbaixo, apoiou sua mão na parede enquanto se sentia egoísta por não aceitar perde-la depois de ter conseguido o impossível que foi recuperá-la. Enquanto respirava fundo para organizar seus pensamentos, sabia que ainda tinha muito o que fazer por Jill e mesmo sem forças, levantou a cabeça e continuou andando corredor afora, tentando acalmar-se.

Encontrou Sheva ao telefone de um lado e uma máquina de café do outro. Sentindo suas pálpebras terrivelmente exaustas, logo tirou para si um copo de café, ingerindo da bebida em aflição e meditação.

– Não vai precisar de café já que poderá dormir no voo. – Sheva se aproximava otimista. – Contatei esse Leon e ele já está viabilizando um translado com a embaixada. Também pedi para Josh agilizar um pedido formal da BSAA ao governo local para uma extração legal e o Dr. Davison já está ciente. Pelo que tudo indica, Jill chegará em segurança pela manhã em Nova Iorque, em um voo rápido e bem seguro para suas condições.

– Como conseguiu isso? – Chris gaguejava impressionado enquanto Sheva apenas encolhera os ombros em desdém. – Posso acompanhar a Jill?

– Não. Você terá que ir por meios convencionais. Na verdade, quero acompanha-lo de volta caso precisem de um de nós lá na sede para lidar com a finalização da missão. – Sugeriu. – Eu sei que você não vai querer sair de perto da Jill então, faço questão de nos representar.

– Claro, como achar melhor. – Chris assentia sentindo um enorme peso saindo de suas costas. – Nem sei como agradecer.

– Não precisa. Infelizmente, vamos demorar mais que a Jill para chegar lá. – Lamentou. – Por isso, Leon perguntou se Claire iria recebe-la, mas não faço ideia de quem seja então, isso é com você.

– Claire é a minha irmã. – Chris explicava com um sorriso terno, imediatamente se lembrando da dita-cuja. Com os últimos acontecimentos, acabou esquecendo-se de contatá-la e assim que Sheva devolveu seu aparelho, ele o fez. – Tenho que avisar a ela sobre a Jill.

Chris! Finalmente você deu notícias! – Claire o atendeu em um tom caloroso. – Outra missão árdua?

– Eu a encontrei, Claire. – Chris suspirou emocionado ao finalmente dizer aquelas palavras à sua irmã, sentindo um pequeno, mas significativo alívio. – A Jill já está comigo.

x.x.x.x.x

Quando aterrissou em Nova Iorque às dez da noite, Chris dirigiu-se ao hospital, acompanhado de Sheva. Sua irmã, que já se encontrava lá, havia pedido para que ele viesse ter com ela o mais rápido possível. Dirigia-se em passos largos pelos corredores até encontrar uma Claire desanimada, enquanto sua cabeça escorava no peito de um homem de terno que a afagava enquanto ambos estavam na frente da porta da UTI. Os olhos de Claire, avermelhados, logo avistaram o irmão. Ela afastou-se imediatamente de seu acompanhante para se recompor, mas Chris já havia notado o estado de espírito em que sua irmã se encontrava e temeu.

– Como ela está, Claire? – Chris a abraçou rapidamente e repousando suas mãos na face de sua irmã, observava as reações hesitantes dela.

– O doutor... acabou de dizer que... – Os lábios de Claire curvavam-se para baixo enquanto tentava prosseguir sua fala sussurrando. Engolindo sua emoção, ela o abraçou instintivamente. – Sinto muito, Chris.

Ainda sem entender o que estava acontecendo, Chris olhou por cima do ombro dela, para o homem que a acompanhava. Leon, desanimado, tinha uma das mãos apoiadas na cintura enquanto os encarava com pesar. Percebendo que Claire não conseguiria explanar a situação, Leon aproximou-se, dando um pequeno afago no ombro dela para que se afastasse, pronto para finalmente explicar o que acontecia.

– O translado ocorreu bem e a Jill chegou estável aqui no hospital. Pudemos vê-la brevemente e ela parecia estar bem. Mas nas últimas horas, infelizmente, ela acabou piorando. O médico acabou de nos informar que parte da cabeça dela está comprometida e que o quadro é muito delicado, Chris. – Cruzou os braços. – Eles pediram para os familiares...

– Já entendi. – Chris concluiu friamente ao perceber que Leon apresentava a mesma relutância que Claire. – Obrigado por tudo, vocês. – Assentiu com a face continuamente rígida.

Olhando vagamente para o corredor do hospital onde alguns profissionais operavam, sentia o cheiro de éter enquanto processava o gosto amargo da má notícia. Sua mente entrou em uma espécie de calma inexplicável que o deixava inerte pela impotência sobre aquela situação. Tudo ao redor se tornara momentaneamente nublado enquanto ele, ainda sem expressões, começava a se sentir responsável por aqueles infortúnios. Quando repentinamente lembrou-se da mulher que o acompanhava, que afastada, timidamente observava aquela conversa.

– Deixem-me apresentar a agente Sheva Alomar. – A chamou com a mão e ela se aproximou para um cumprimento. – Sem ela, jamais teria conseguido trazer a Jill pra casa, literalmente. Fiquem com ela porque eu preciso de uns minutos.

Chris caminhou em poucos passos até encontrar um banco e sentou-se afastado. Apoiando sua cabeça na parede, observava os detalhes do teto até fechar os olhos, reflexivo. A bagunça interna era tão intensa que o desligava. Era como se estivesse a base de calmantes ou de antidepressivos sem ao menos tê-los ingerido. Tentava se consolar com o pensamento de ter trazido Jill de volta mesmo naquelas condições ao acatar seu pedido, mas era difícil compreender que ela poderia partir a qualquer momento, por mais que já pudesse partir segura, diante dos olhos dele e não debaixo da opressão de Wesker. Involuntariamente, Chris começara a rir de nervoso por tentar aceitar aquela situação inusitada, sentindo seus olhos marejarem devido a dor dilacerante em seu peito. Ele jamais se consolaria, nem mesmo com aquele pensamento, se a perdesse.

Leon, observando-o de longe, percebeu o riso de auto piedade enquanto lágrimas sutis cobriam o rosto de seu amigo. Sugerindo que as moças, que conversavam entre si sobre Kijuju, se descontraíssem alguns minutos na cafeteria, logo aproximou-se de Chris para ao menos ouvir mais do homem desalentado.

– Como foi... – Leon sentou-se ao lado, suspirando. – Encontrar a Jill?

– Chocante! Até atirei nela. – Chris secava o rosto olhando estupefato à Leon, que devolvia um olhar assustado ao perceber uma instabilidade emocional em suas expressões. – Quero dizer, não sabia que era ela ou que estava controlada nesse momento. Ela usava uma máscara. Era uma inimiga e puta merda... eu poderia tê-la matado. – Chris explicava soluçando, mais para si como uma reflexão do que para Leon. – E tal como cantei a pedra para você no cemitério, ela estava sob domínio de Wesker.

– Sheva já me explanou tudo. – Confirmava assentindo. – Que bom que acabou com ele.

– A gente perfurou a cabeça dele com um lançador de foguetes dentro de um vulcão. –Chris assentia com determinação enquanto aquelas imagens vinham em sua mente. – O desgraçado nunca mais vai voltar para me ameaçar ou tomar algo de mim. – Chris concluiu calando-se de repente. Leon notou que seu amigo trocou seu falso ânimo por um desânimo assustador enquanto piscava continuamente os olhos, processando os pensamentos. – Wesker não pode tirar a Jill de mim de novo, pode Leon?

– Não sabemos. – Leon mostrou-se consternado. – Mas se o pior acontecer nessa madrugada, você precisará entender que a culpa não é sua e que você deu o seu melhor. Por isso terá que viver...

– Não vou viver. – Chris o interrompeu em desprezo. – Vou sobreviver. Mas pelo menos dessa vez vou ter motivos reais para levar flores à lápide dela, não é? – Explicava com voz embargada. – Fiz tudo o que pude e sei que não cabe a mim, mas... – Suspirou. – Eu a quero de volta, Leon. De todas as pessoas, a Jill... eu não aceito perdê-la. Não assim! Não por causa de Wesker.

– Eu sei. – Leon concluiu enquanto ambos se encaravam desconsolados. Naquele instante, uma enfermeira surgiu alegando que devido ao estado crítico de Jill, o médico responsável pela saúde dela autorizou apenas uma visita rápida.

Quando Chris reencontrou Jill, ela se encontrava dentro de uma redoma transparente, protetora de agentes externos enquanto os monitores indicavam alertas da criticidade de sua saúde. Três especialistas lidavam com aquelas informações em uma mesa laboratorial em um canto da sala. Enquanto entubada, Jill permanecia adormecida diante de seus olhos. Aflito, pensou em questionar os especialistas, mas não queria ouvir mais do mesmo.

Lembrando-se das palavras que Jill sussurrara dentro do helicóptero, sentiu um novo aperto. A agonia que ela sentia ao proferir aquelas palavras de auto acusação sobre os crimes que ela fora forçada a cometer fazia Chris se questionar se aquilo ainda afetava sua saúde e a mantinha num estado delicado. Afinal, em seu corpo ainda continham substâncias estranhas que poderiam estar dominando sua mente. Por isso, concluía que ela poderia estar afundada em um pesadelo interno enquanto aparentemente dormia em paz. Ela podia estar enfrentando um confronto consigo mesma naquele momento. Esse pensamento o fez despertar de seu estado inerte para um terrivelmente atormentado em questão de segundos.

– Jill... você está em casa agora! – Ele posicionou ambas as mãos sobre o vidro enquanto suas lágrimas corriam sobre o material transparente, sabendo que ela não o escutaria. Ainda assim decidiu sussurrar algumas palavras para ela, na esperança de que ela o escutasse de alguma forma transcendental. – Volte para mim, Jill. O pesadelo já passou e eu te prometo que eu vou te ajudar com isso. Você sabe que eu jamais aceitaria te perder. Eu te amo. Por favor, continue aqui comigo... parceira.

Ao dizer aquilo, Chris calou-se até o momento em que foi convidado a deixar a sala. Podia sentir-se doente por ter que deixa-la ali naquelas condições. Tudo o que precisava era de uma garantia de que tudo acabaria bem, como o que sentia dentro do helicóptero. Infelizmente, apenas tinha que contar com a sorte. Observando através da pequena janela da porta que seus amigos o aguardavam do outro lado, decidiu retomar outra saída porque não queria encontra-los, não no estado de transtorno em que se encontrava.

Passando na frente de uma janela da maternidade, pode encontrar vários recém nascidos expostos, amparados pelas enfermeiras. Parando para refletir sobre os sonhos que jamais permitiu-se experimentar com Jill outrora, finalmente sentia-se preparado para realiza-los. Aos trinta e cinco anos, após uma carreira intensa e exaustiva, enfim ansiava por uma rotina familiar. Portanto, pode compreender as prioridades de Barry. Por isso, também queria ter uma família ao lado da mulher que amava e precisava tê-la de volta para viver isso.

Antes que alguma enfermeira da maternidade o abordasse como já pretendia, ele continuou sua passagem pelo corredor em passos apressados enquanto rapidamente tentava encontrar uma saída. Observando fixamente uma placa do teto, acabou chocando-se em um cruzamento com uma mulher que tinha na mão direita uma mala e na esquerda uma pasta que ainda segurava firme contra si.

– Perdão, eu estava distraído. – Chris desculpava-se ao trazer do chão os óculos de grau da mulher e ao entregá-la, surpreendeu-se silenciosamente ao identifica-la e encontra-la ali.

– Não se preocupe... Chris!? – Exclamou após prender os óculos em seu rosto. – Desculpe não ter retornado para avisar que estava a caminho. Só agora que eu consegui chegar na cidade e já vim correndo pra avalia-la. Já soube como ela está?

– Entubada e inacessível. – Rebateu enquanto lembranças o abatiam. – Os médicos estão pessimistas e têm motivos de sobra pra isso.

– Médicos são naturalmente pessimistas, Chris. – Rolou os olhos. – Fique tranquilo. Muito antes de você me acionar, eu já estaria aqui pra cuidar de algo tão específico, já que é na minha especialidade. Aliás... mesmo poucos, ainda somos S.T.A.R.S. e não vamos perder mais ninguém do velho esquadrão. – Ela observava as expressões tensas de Chris finalmente relaxando. – É admirável saber que você a recuperou, Chris. Mas agora, deixe o resto para mim, ok?

– Está bem. Aguardarei respostas lá fora. – Chris suspirou mais tranquilo e a mulher assentiu antes de seguir seu caminho. – Rebecca? – Ela se virou para trás para encará-lo. – Obrigado por ter vindo.

– Já estava na minha hora de retribuir o resgate de anos atrás. – A doutora Rebecca Chambers ergueu a mão e levantou um polegar, gesticulando uma positividade. Logo continuou seu caminho até Jill em plena madrugada.

x.x.x.x.x

A mulher em um jeans apertado, cabelos presos em um rabo de cavalo e com um andar delicado caminhava corredor adentro do nono andar do hospital. Parando na frente do quarto onde Jill já estava propriamente instalada desde que apresentou um quadro estável há uma semana, encontrou Claire próximo a porta em um telefonema e ambas acenaram uma à outra. Enquanto Claire já finalizava sua chamada, Sheva sorria ao observar através da janela do quarto, Chris sentado próximo à maca, de costas, acariciando a mão de sua parceira. Notando em seu relógio que já era oito da manhã, ouviu a voz de Claire cumprimentando-a.

– Oi... – Sheva virou-se à Claire. – E aí, alguma chance de Chris vir comigo hoje?

– Juro que tentei, mas ninguém vai conseguir tirá-lo desse hospital. Não enquanto ela não acordar. – Reclamava desanimada. – Ele mal sai desse quarto desde o dia em que a Jill veio para cá, nem mesmo para descansar um pouco no hotel do outro lado da rua, como eu vivo propondo.

– Ele é sempre bem determinado, né? – Sheva considerava. – Mas dessa vez é realmente necessário que ele se apresente na sede. Será que eu consigo convencê-lo?

– Tomara. – Claire, pessimista, se dirigia ao quarto. – Vou chamá-lo.

Assistindo visualmente a conversa dos irmãos Redfield, Sheva concluía que Chris resistia em deixar o quarto enquanto Claire insistia veementemente ao apontar para o lado de fora. Após uma pequena discussão sutil, Chris levantou-se irritado e deixou o quarto enquanto Claire tomava seu assento. Do lado de fora, Sheva se assustou ao revê-lo. Chris estava arrasado, fisicamente e emocionalmente. Havia emagrecido, estava pálido e seu humor era disfórico, tal como seus olhos pesados abriam e fechavam com dificuldade.

– Oi Chris. – Sheva tentava esconder seu espanto. – Tá tudo bem?

– Sim. Não se preocupe comigo, já tomei bastante soro pela manhã. – Chris respondeu ao desdobrar a manga esquerda de sua camisa onde havia um curativo. – O que houve na sede?

Desde que havia chegado, Sheva ficou responsável por reportar as equipes da filial da América do Norte sobre os relatórios finais da missão que ambos finalizaram em Kijuju. Porém, a corporação já estava intimando Chris devido as responsabilizações pelo desvio da missão, as quais já estava acostumado a lidar desde que passou a desviar suas missões para tentar encontrar Jill.

– A BSAA exige você inadiavelmente. Tentei fazer de tudo, mas ainda insistem nas suas respostas sobre ter agido de maneira irresponsável ao desobedecer a ordens de evacuação. Enfim, querem seu depoimento por mais que já saibam o porquê. – Sheva olhou com tristeza para o quarto e então retornou-se à Chris em tom baixo. – Detesto dizer também que, por mais que a Dra. Chambers esteja tentando provar inocência com as análises das substâncias presentes no corpo da Jill, as autoridades estão pressionando justificativas sobre os crimes que ela cometeu enquanto controlada. Portanto, é melhor que você venha.

– Espera um momento! – Chris respirou fundo inteirando-se da última informação. – A gente simplesmente impede um caos mundial, dá fim em um inimigo de alta prioridade e ainda querem explicações sobre meus comportamentos para um maldito relatório ou que a Jill responda por atos inconscientes advindos do controle mental?

– Nesse caso, eu sugiro que você os questione sobre isso quando chegar lá. – Sheva torceu os lábios. – Se não quer ir por si, pelo menos vá pela Jill e acabe com isso de uma vez.

Depois de inspirar e expirar por longos segundos, Chris entendia que não estava pronto para encarar o batente tão cedo com Jill naquelas condições. Não queria trocar a presença dela pelo trabalho. Contudo, precisaria contribuir para que aquela incumbência de dez anos fosse encerrada de uma vez. Olhou rapidamente para sua amada e hesitou deixa-la, mesmo que aos cuidados de sua irmã. No fundo, sabia que Jill entenderia, mas temia se ausentar.

– Ei... – Sheva chamou sua atenção. – Você já a trouxe pra casa. É a sua irmã que vai estar aqui na sua ausência. Não é como se você fosse perde-la como antes. – Tocou em seu ombro. – Sei que você teme não estar com ela ou estar ausente, mas use um pouco de esperança, Chris. A mesma que fez você acreditar que desviando a missão, você a encontraria, quando mal sabia se ela ainda estava ao redor.

– Certo. – Chris assentiu hesitante enquanto se apegava as palavras de Sheva. – Tem razão. Vou precisar passar no hotel.

– Se me prometer que vai descansar um pouco, eu volto agora e já vou adiantando tudo pra você. – Sheva garantia animada. – Que tal?

– Combinado. Vou avisar à Claire e te encontro lá. – Despediu-se de Sheva e adentrando ao quarto, Claire se virara a ele. – Vou descansar um pouco e depois eu vou me apresentar lá na sede. Apenas me prometa que não vai deixar esse quarto.

– Eu poderia até morar aqui agora. Certeza que a Jill também aprova essa atitude. – Claire rebateu sarcástica enquanto acariciava o braço da mulher. – Me pergunto... como Sheva conseguiu te convencer tão rápido?

– Ela só usou a palavra-chave correta. – Chris esboçou um sorriso provocador à irmã. – Diferente de você, que só sabe me dar sermões, Sheva me deu esperança.

– Esperança? Era essa a palavra-chave? – Claire questionou-o debochada. – Nesse caso, você tem razão. Não dá para dar esperanças para alguém quando essa pessoa te faz perder a paciência.

– Você nasceu impaciente, Claire. – Chris aproximou-se de Jill, depositando um beijo sobre sua testa. – Converse com ela sempre que possível e não deixe com que ela se sinta só.

– Ah, isso não será problema. Vou até desligar meu telefone antes que me perturbem nessa folga. – Comentava admirando a relutância de Chris em deixar Jill. – Prometo me dedicar ela. Mesmo que não tenha demonstrado tanto, eu senti falta dela e aguentar você não foi fácil. Por isso, também não vejo a hora de vê-la cuidar de você outra vez para finalmente seguir minha vida.

Ela arrancou um sorriso tímido do irmão que parecia revigorado depois da breve conversa com Sheva. Chris finalmente descansaria e isso a aliviava, tal como saber que Jill correspondia bem ao tratamento, diferente da madrugada aflita do dia em que chegou à Nova Iorque. Observando os aparelhos que já demonstravam uma melhora do dia anterior, embora sempre oscilante, voltou-se a Jill e a notou livre da aparelhagem anterior que a fazia inacessível. Aos poucos, seu corpo eliminava um pouco mais da substância presente em seu sangue enquanto ela aparentava apenas dormir. De repente, sentiu o celular vibrar em seu bolso e ao ver sobre quem se tratava, sabia que não poderia recusar aquela chamada, lamentando não ter desligado o aparelho quando teve a chance.

Usando tom baixo, Claire discutia sobre uma solução para uma zona de conflito onde a TerraSave atuava enquanto observava o corredor através da janela. Quando finalizou sua chamada quinze minutos depois, voltou-se a Jill. Logo percebeu novas informações dos monitoramentos dela. Os índices outrora oscilados agora se mantinham em piora gradativa com o passar dos minutos. De repente, pode perceber que a mulher acamada tinha uma respiração mais barulhenta e provavelmente dificultosa mesmo com o cateter nasal funcionando corretamente. Imediatamente, Claire deixou a sala para buscar ajuda.

Os médicos entraram na sala e a levaram de volta à UTI após uma pequena intervenção. Sem reação em frente a porta por onde Jill adentrara, Claire não conseguia aceitar o que acontecia. Alcançando seu telefone, visualizava o contato de seu irmão na tela, mas não tinha coragem de dizer a ele sobre o que tinha acontecido, pois não queria apagar a esperança que ele sentia após dias difíceis de batalha pela vida de Jill. Lembrando-se da palavra-chave de Sheva, tentou segurar-se nela, pois seus nervos estavam a flor da pele. Precisando de uma palavra de ânimo ou conforto, pensou em contatar os Burton, mas lembrava-se do pedido de Chris para manter discrição até que Jill acordasse. Contemplando a tela do celular em busca de uma solução, de repente uma face familiar surgiu ali e era logo uma pessoa que Claire sabia que podia contar.

– Oi Leon. – Respondeu ao prender o aparelho no ouvido com o ombro enquanto servia-se com água.

Ei, Claire. – Contestou animado. – Escuta, estou chegando em Nova Iorque no final da tarde, então, sei lá, que tal um barzinho de terraço essa noite pra relaxar?

– É... – Respondeu um pouco atordoada. – Talvez.

O que houve? – Leon notou a relutância.

– As coisas complicaram aqui. Chris acabou de deixar o hospital para resolver umas pendencias e eu fiquei para acompanhar a Jill. Ela acabou de ter uma recaída e a levaram de volta à UTI. Agora, eu tô com medo de... – Claire travou-se desesperada. – E se ela não voltar para o quarto... como vou dizer isso a Chris? Ele parecia tão confiante.

Que droga, Claire. – Lamentou. – Você acha que precisa de uma nova transferência? Um hospital mais especializado? Precisa de algum recurso a mais?

– Não, a BSAA está com uma ótima equipe aqui. Infelizmente, só não faço ideia do que fazer agora. Vou enlouquecer! – A voz dela gradativamente embargava. – Olha, será que você pode ficar aqui na linha comigo, só um momento? Eu estou muito nervosa e preciso que me ajude a decidir... o que acha que eu devo fazer, Leon?

Calma! Eu tô com você. Me dá um minuto. – A voz de Leon se tornou um som inaudível distante enquanto trocava palavras com alguém do outro lado da linha. – Prontinho, sou todo seu.

– Valeu! – Claire sentava-se sobre um banco, em gratidão pela atenção do amigo. – Desculpe tomar seu tempo.

Você quem me ensinou que amigos são mais importantes. – Leon tentava tranquiliza-la, ouvindo um curto riso dela. – Então, escutou alguma coisa dos médicos, algo que dá pra considerar?

– Não! Foi uma loucura. Eles gritavam uns com os outros até seguirem à UTI. – Claire forçou sua memória ao tomar os últimos goles de água. – Na verdade, acho que ouvi um deles dizer que ela estava... se entregando... tipo, ela estava desistindo de tudo.

– Bem, isso faz sentido. Como você sabe, meu pai era um veterano de guerra que passou por vários traumas psicológicos. Ele vivia repetindo que era "o culpado de tudo". Com o tempo, adquiriu uma doença mental de difícil recuperação que o fez definhar até morrer. Os médicos do sanatório costumavam dizer para minha mãe que ele estava se entregando e justamente na semana em que minha mãe não foi vê-lo, o encontraram sem vida.

– Sinto muito. – Claire lamentava ao inteirar-se da profundidade de algo que sabia apenas o superficial.

– Não sinta, eu era bem pequeno. – Ele garantia. – O que quero dizer é que... se vocês a estimam tanto, como sei que fazem, não a deixem partir. A mente da Jill pode estar muito doente, devido ao controle mental, tal como seu irmão nos contou. Ela pode estar...

– Sentindo culpa. – Claire concluiu a fala de Leon. – Mas ela precisa entender que... – Gaguejava perplexa. – Ela não tem culpa! A Jill não tem que morrer para vingar suas vítimas porque ela é uma vítima, Leon!

Claire ouviu a concordância de Leon enquanto compreendia a importância de Chris se manter sempre com ela. Ele não estava preso naquele hospital para não a perder de vista novamente ou perder qualquer novidade sobre ela. Inconscientemente, Chris era o fator que a melhorava. A presença dele ao lado dela era o que a mantinha lutando contra seus males. Portanto no momento da sua ausência, Jill poderia ter colapsado.

– Eu acho que já sei o que fazer. – Admitiu confiante.

– Você sempre faz a coisa certa, Claire. De qualquer forma, daqui a pouco eu estarei aí.

– Vou te esperar. Obrigada, Leon. – Claire desligou o aparelho com olhos arregalados. Naquele momento, a doutora surgiu no corredor e Claire foi ter com ela. – Dra. Chambers, alguma noticia da Jill?

– Claire Redfield, não é? – Rebecca aproximava-se da mulher referida que assentia. – Seu irmão está aqui?

– Não, ele saiu para descansar e eu fiquei no lugar dele por enquanto.

– Bem... – Suspirou. – Claire, o corpo comprometido da Jill só vai conseguir resistir dessa vez se a mente dela cooperar, mas... – Rebecca negava tristemente com a cabeça.

– Posso ver ela? – Claire propôs ainda confiante.

– Sim. Mas não é melhor chamar seu irmão logo, caso seja irreversível? – Rebecca contrapropôs. – Eu sinto muito, mas não vamos conseguir mantê-la por muito tempo.

– Não sinta. – Claire afirmou confiante. – Eu preciso dizer algo a Jill e vou ser a única que vai entrar.

Claire, devidamente trajada para entrar em uma área profilática, chegou à sala onde Jill já se encontrava novamente ligada à vários aparelhos enquanto era possível notar que ela continuava respirando com dificuldade. O ambiente era insuportável de ver e experienciar e ela sabia que seu irmão enlouqueceria ao vê-la naquelas condições novamente. Segurando com toda a força suas emoções, assumiu uma postura mais tranquila e forte, se aproximando bem próximo a Jill. Enquanto procurava palavras-chaves certas para dizer a ela, memórias surgiram em sua mente.

DEZEMBRO, 1996.

A mocinha de cabelos castanhos avermelhados, no auge dos dezessete anos, finalmente chegara ao seu destino após uma longa viagem. Dentro da Delegacia de Raccoon City, com sua mochila escolar nas costas, Claire fugiu do último dia de aula antes das férias de inverno e surgiu naquela cidade de surpresa. Bem agasalhada com a jaqueta que seu irmão a presenteara antes de partir de Nova Iorque para residir naquela pequena cidade em que pisava pela primeira vez, ela observava curiosa a arquitetura do prédio. Em seus ouvidos, fones em formato headset que reproduziam um CD do Queen dentro do discman guardado na mochila. Já na recepção, removera o capuz ao se dirigir ao balcão de informações, deparando-se com uma policial chamada Rita.

– Meu nome é Claire. Estou procurando por Chris Redfield. – Dizia confiante ao remover o fone de sua cabeça. – Ele é membro dos Esquadrão de Resgate e Táticas Especiais.

– Sinto muito, mocinha. O esquadrão está em um treinamento essa tarde. – Rita a encarava desconfiada. – Se quiser aguardar um pouco, te aviso caso ele já esteja disponível.

– Tudo bem, vou aguardar. – Claire se virou para trás e notou que os bancos estavam quase lotados naquele meio de tarde. Portanto, optou por explorar a sala.

Após ler todos os avisos e vasculhar todas as revistas com música nos ouvidos, ela se aproximou da divisória e permaneceu ali enquanto a sala já se esvaziava aos poucos. Quando "somebody to love" começava a tocar, as pilhas de seu aparelho se esgotaram. Dirigindo-se ao balcão para pedir à policial algumas pilhas emprestadas ainda com o fone na cabeça, pode ouvir dois policiais comentando sobre a fama de mulherengo do irmão, desde que mais uma mulher estava em busca dele na delegacia. Meneando a cabeça em decepção, ela os ignorou, ponderando sobre as atitudes do irmão desde que sempre havia sido muito discreto com seus relacionamentos. Talvez ele não tivesse se atentado aos fofoqueiros de uma cidade interiorana.

Preferindo desaparecer daquela sala por causa dos comentários maldosos, ela observava a porta por onde policiais acessavam o interior da delegacia e pensou em procurar um novo lugar para aguardar seu irmão. Tudo o que tinha conhecimento era que a sala de seu irmão era no segundo andar, onde ali também havia uma biblioteca, tal como ele já havia descrito a delegacia por telefone. Portanto, sorrateiramente, atravessou a porta e deparou-se com um longo corredor à frente, onde distantes policiais vinham em sua direção. Por isso, ela dobrou a direita e seguiu até encontrar uma placa que sinalizava a direção das escadas. Após chegar ao segundo andar, seguiu para a direita onde era mais atrativo e cuidadosamente andava pelos corredores, até enfim encontrar o escritório dos S.T.A.R.S.

Bateu na porta duas vezes e sem respostas, abriu uma brecha para observar. Havia lâmpadas acesas, mas ninguém ao redor. Portanto, decidiu entrar para explorar, sem imaginar que aquilo poderia prejudicar seu irmão. Vasculhando a sala, logo encontrou a mesa de seu irmão por causa da bagunça. Ao lado da mesa dele, havia uma mesa perfeitamente asseada, onde havia uma boina e várias literaturas repousadas sobre a superfície. Ao dar-se conta de quem pertencia aquela mesa após ouvir reclamações em demasia de seu irmão sobre a mulher a quem tinha como rival, Claire pensou em comprar aquela briga para si, desde que tinha em seu irmão seu principal aliado na vida. Encontrando uma pasta de arquivos nas coisas dela, Claire revirou os olhos em desagrado.

– É você que está fazendo da vida do meu irmão um inferno, não é moça? – Claire lia o nome Jill Valentine enquanto torcia o nariz. – Ninguém mexe com os Redfield.

Desordenando maliciosamente os arquivos das gavetas outrora ordenados em data e ordem alfabética, logo encontrou vários disquetes de arquivos e os furtou, guardando-os dentro de sua mochila, abarrotada de livros escolares e seus pertences pessoais, que posicionara em cima da mesa do irmão.

Quando encontrou a ficha cadastral de Jill, analisara uma jovem moça, formosa e meiga e não uma "velha rabugenta" como seu irmão a descrevia. Surpresa, não compreendia tanto ódio de Chris por uma profissional tão bem qualificada, com notas impecáveis e inúmeras habilidades de treinamentos prévios. Ela parecia ser uma parceira que todos teriam prazer em trabalhar conjuntamente.

De repente, Claire ouviu a porta barulhenta abrindo-se lentamente por trás de si e fez uma careta em temor. Virando-se vagarosamente na direção da porta, deparou-se com a policial referida empunhando uma pistola em sua direção. Jill encarava a adolescente intrusa com desconfiança, notando que ela lembrava fisicamente uma pessoa indesejada.

– Não atire, por favor! – Claire deixou o papel sobre a mesa de Jill e com olhos arregalados, erguia as mãos para cima. – Posso me explicar! – Claire notou que a policial erguera as sobrancelhas curiosa. – Sou Claire Redfield. Estou apenas procurando por meu irmão.

– Dentro das minhas gavetas escancaradas ou na minha ficha cadastral? – Jill abaixou a arma que empunhava apenas com a mão esquerda, com um sorriso de canto ao se inteirar daquela informação, finalmente demonstrando um desânimo. – Por favor, não me diga que o infantil do seu irmão já virou sua cabeça contra mim?

– Sim! Eu confesso. Chris pediu para eu fazer isso. A culpa é toda dele, policial. – Claire ainda se mantinha paralisada com a mesma postura. Em puro nervosismo, tudo o que pensava era em incriminar seu irmão para livrar-se da pena. – Ele também falou que você era uma velha rabugenta e que faria qualquer coisa para te aposentar logo. Por isso, eu...

– Ah, faz sentido. Agora compreendo suas sabotagens. – Jill divertia-se internamente com as reações da moça ainda parada na porta enquanto guardava a arma de volta ao coldre de cintura. – Vocês Redfields... tão previsíveis. – Finalmente gargalhou ao fechar a porta. – Olha... tá tudo bem garota. Primeiro, obrigada pelo entretenimento. Em segundo lugar, apenas me diga o que bagunçou que eu mesma coloco tudo no lugar, que tal? Já fazia um tempo que minhas coisas estavam bagunçadas mesmo e eu estava odiando isso.

– O que? – Claire se admirava com a postura descontraída da mulher já abaixando as mãos. – Mas... não era para você estar no treinamento?

– Eu queria estar lá, mas não dá... – Jill ergueu a mão direita e mostrou-a enfaixada ao se aproximar de Claire, que surpresa, caiu sobre a cadeira de seu irmão. – Como deve saber, eu tenho a "sorte grande" de ser a parceira de seu irmão. – Ironizou. – Depois de brigarmos sobre qual lado exploraríamos primeiro na abordagem de ontem, decidimos nos separar e cada um seguiu sua intuição. A minha estava correta e infelizmente, meu parceiro não estava lá para me dar retaguarda quando eu fui abordada por um atrevido com uma faca. Resumindo a ópera: eu tive que lidar com um bando sozinha até ele finalmente surgir e descontar sua raiva por eu estar certa socando os infelizes.

– Minha nossa! – Claire se admirava pela descontração na qual a policial relatava os perigos com naturalidade. – Mas... Chris está bem?

– Sim, só com os hematomas de sempre nas mãos. – Debochava sentando-se em sua própria cadeira para prosear com a adolescente. – Enquanto costuravam minha mão no hospital, ele já estava bebendo com os amigos para comemorar o "nosso" sucesso.

– Calma lá... meu irmão não é assim. – Claire estranhava as atitudes de Chris e não via a hora de encontra-lo para enchê-lo de sermão. – Olha, me desculpe, mas juro que o Chris não é nada disso. Sei lá porque ele está agindo assim aqui na cidade, mas... não acredito que tive que usar documentos falsos, economizar centavos e atravessar estados para surpreender esse idiota nesse natal, para que não percamos nosso elo familiar à toa.

– Uau! – Jill abismava-se com as peripécias da moça. – Ok! Vou fingir que, como policial, não ouvi sua ultima fala. Mas como uma ex-adolescente problemática, diria que você mandou bem demais.

– Ah! – Claire mostrou-se envergonhada. – Desculpe! Acabei me esquecendo de que você ainda é uma policial. Você é muito legal para uma policial. É tão diferentes dos outros caras... mal sabia que meu irmão ia se tornar um deles tão rápido.

– Tudo bem. Seu irmão não é tão ruim assim. Ele parece ser bem bacana. No fundo, todos nós dessa sala somos os policiais legais. Somos como família e por mais que seu irmão odeie trabalhar comigo ou me ter como parceira, logo vai se cansar de pegar no meu pé porque... eu também não sou fácil e estou dando muito prejuízo a ele. De propósito. – Jill se divertia com as reações de Claire que parecia cada vez mais interessada pela pessoa dela. – Mas agora que compartilhamos segredos, por que você não me conta a causa de todo esse malabarismo só para estar aqui? – Jill demonstrou preocupação. – Isso não tem a ver com a folga que ele queria pegar nesse natal, ou tem?

– Sim. Desde que ele me disse que não poderia ir à Nova Iorque porque tinha feito merda no serviço e me mandou um discman de presente, fiquei sentida. Dezembro é uma época ruim para nós porque foi quando perdemos nossos pais há cinco anos. Desde então, Chris sempre priorizou passar os natais comigo para manter a lembrança de que ainda somos uma família. – Claire sorriu com meiguice. – Por mais que eu ame morar com meus avós, eu sinto falta do meu irmão por perto. O natal só é divertido quando Chris está e eu não queria passar natal com os tios e primos sem ele. Por mais que eu saiba que ele jamais ficaria desamparado aqui porque tem o Barry, eu vim escondido dos meus avós porque... – Suspirou chateada. – Só queria surpreendê-lo com a lembrança de que ainda somos uma família.

Jill imediatamente lembrou-se que delatara Chris com o propósito de destruir aquela folga que ele tanto se exibia por ter conseguido sem merecer honestamente. Percebendo o rosto chateado de Claire, compreendia o porquê de Chris ter ficado irado com ela, quando daquela vez, tinha implorado a ela para não o reportar ao capitão. Jamais imaginaria que, dessa vez, a folga era realmente importante.

– Eu sinto muito, Claire. Se eu soubesse que era por sua causa... – Jill pesarosamente admitia. – Eu confesso que fui eu que fiz ele perder a tão sonhada folga do natal. Se pudesse voltar no...

– Tudo bem. O Chris me disse que mereceu. – Claire concordava. – No fim, isso foi bom porque agora eu estou aqui. Adorei ter conhecer e tomara que ele goste da surpresa que eu fiz, porque não quero voltar para casa de castigo por isso.

– Bem... tenho mais duas infrações para delatar do seu irmão então... – Jill sorria de canto. – Ameaço reporta-lo caso ele te castigue por isso.

– Legal! – Claire gargalhava. – Nesse caso, sinto que devo te contar alguns segredinhos pessoais dele para você ter mais cartas nas suas mangas.

Ambas gargalhavam como velhas amigas e aliadas enquanto as histórias surgiam e aos poucos, a conversa que tinha o intuito de macular a reputação de Chris desviou-se para os momentos onde Chris tinha sido um cara incrível. Jill, que ouvia atentamente cada novidade sobre Chris, começava a desenvolver uma empatia por seu rival quando entendia que no fundo de toda aquela implicância, havia um bom coração que ele tentava esconder dela, mas que ela já tinha ciência ao ter enxergado isso no rapaz que conheceu na primeira vez em que entrou naquela sala.

– Sabe... admiro muito o que fez vindo até aqui, Claire. – Jill suspirou comovida. – Acredite em mim, se eu tivesse um irmão mais velho desse, eu também viria. Ah! E também sabotaria a mesa da maior rival dele.

– Ops! – Ria envergonhada enquanto tirava da mochila os disquetes furtados para devolvê-la. – Desculpe por isso. Meu irmão é um babaca por odiar alguém como você. E me pergunto se toda essa implicância seja porque ele também gosta de você.

– Não! Ele me odeia. – Assentia franzindo o nariz. – E tem muitos motivos para isso.

– Não, Jill! – Claire argumentava. – Acho que ele gosta de você sim! Porque ele me trata da mesma maneira por anos. Ele sabe que, mesmo mais nova, sou mais responsável que ele e detesta quando eu o encho de sermões. Todas as vezes que tento consertar o gênio dele, nós brigamos porque ele sempre quer estar certo. Então, talvez você seja a "Claire" do trabalho dele.

– Isso é loucura, mas faz sentido. – Jill olhou para sua mão machucada. – Reparei mesmo que o Chris não deixou barato e quase perdeu a cabeça com o exato criminoso que me esfaqueou quando foi me "salvar". – Jill debochava, sentindo um encanto inexplicável.

– Esse é o meu irmão de verdade! – Claire sorria maravilhada. – Só tô achando ele um pouco idiota por não ter te chamado para sair ainda. Na minha opinião, você seria uma namorada ideal.

Ambas ficaram em silencio pelo assunto levemente constrangedor quando Jill ouviu passos fortes sobre o assoalho do corredor que reverberava no piso do lado de dentro da sala. Passos que ela sabia muito bem a quem pertenciam.

– É o capitão Wesker! Se esconda debaixo da mesa de seu irmão agora. – Jill ordenou sussurrando a Claire que imediatamente a obedeceu. Colocando as cadeiras como obstáculos para a visão do capitão, posicionou-se de frente à elas.

Quando a porta se abriu abruptamente, Chris adentrou na sala com um sorriso presunçoso, lançando um olhar desconfiado para Jill. Ela suspirou aliviada com a mão enfaixada sobre o peito enquanto rolava os olhos por saber que Chris havia imitado os passos de Wesker mais uma vez para irritá-la.

– Sempre com medinho do capitão, não é gracinha? – Chris mascava chiclete com um sorriso presunçoso ao andar pela sala no intuito de encontrar algo para delatá-la.

– O que faz aqui a essa hora, Christopher? – Jill olhou rapidamente para Claire, que com o dedo indicador sobre os lábios pedia sigilo sobre sua presença. Assentindo, voltou-se à Chris. – Não me diga que fugiu do treinamento de novo, hm?

– Tava um saco. Mas dessa vez, não quis ir pra casa. Vim saber se a sua patinha está sarada. – Olhava falsamente piedoso para a mão dela. Jill ria daquela provocação, deixando-o levemente confuso. – Na verdade, só passei aqui pra te perturbar mesmo. – Ele fechou a porta do escritório. – Você está sozinha e indefesa porque nenhum dos seus advogados do diabo estão aqui pra te defender, então...

– Eu não me garantiria tanto. – Jill gargalhava debochada enquanto o assistia indo em direção aos dardos. – Acredite em mim, dessa vez, eu arrumei uma juíza.

– Pare, Valentine! – Chris arrancava um dardo o lançou para cima, agarrando-o em seguida repetidamente. – Você não é boa com piadas.

– Não é piada. – Jill piscou para Claire que piscou a ela de volta. – Aliás... quero te mostrar uma coisa. Vem aqui!

– O que foi que eu fiz dessa vez? – Chris reclamou temendo a atitude dela.

– Você? Nada. – Ela sorria maliciosamente. – Venha logo, Christopher!

– Eu já disse que já pode me chamar de Chris. – Ele a encarava desconfiado. – Vem aqui você.

– É sério! – Jill já se mostrava impaciente. – Larga o dardo e vem aqui agora!

– Você não... implantou nenhuma bomba pra mim nessa sala, né? – Ele lançou o dardo de volta no alvo quando notou que ela negou com a cabeça rolando os olhos. Ele se aproximava receoso, quando subitamente se paralisou. – Por que você ia querer tanto que eu me aproximasse de você do nada? – Lançou involuntariamente um sorriso sedutor olhando ao redor. – Por acaso, quer aproveitar a sala vazia comigo, Valentine?

– Ah! Eu não mereço isso! – Exclamou irritada, mas logo se recompôs. – Quer saber, apenas prepare-se para ser julgado, Chris Redfield. – Ela caminhou até ele e deu leves batidinhas em seu ombro. – Depois do meu intervalo, me conte o que minha juíza achou das suas babaquices.

Enquanto Chris confusamente assistia Jill deixando o escritório em direção à biblioteca, ficou sem compreender a última frase, quando sentiu cutucões fortes em suas costas e virou-se assustado.

– Boo! – Claire finalmente gargalhava alto. – Você é um estraga prazeres! Era pra ser uma surpresa bacana. – Notava o espanto e confusão ainda no rosto do irmão. – Mas, me diga Chris... costuma flertar com sua rival assim ou hoje foi uma exceção?

– Nunca! – Chris finalmente respondeu constrangido. – O que você sabe sobre isso, sua fedelha?

– Que você é péssimo nisso. – Provocava. – Caso queira tomar vergonha na cara e parar com esses joguinhos, achei ela uma garota incrível.

– Eu só a provoco assim porque ela detesta, Claire. – Chris tentava recuperar-se do constrangimento. – Eu não a suporto.

– É mesmo? Ah, é! Ela é sua rival, né? Sei. – Claire ria em sarcasmo, observando os trejeitos que o entregavam. – Enfim, vai ficar paralisado aí sem abraçar sua irmãzinha?

– Você nem devia estar nessa sala. – Chris a abraçou relutante. – Nem nessa cidade. Já falei para você para jogar aquela identidade falsa no lixo, mocinha. Sou um policial agora.

– Só queria passar natal com meu... – Explicava-se quando foi interrompida.

– Sem desculpas, Claire. – Chris a encarou chateado. – Podia ter me avisado que eu daria um jeito.

– Desculpe, chato. – Claire suspirava. – Escuta... onde acha que a Jill está?

– Aquela velha rabugenta deve estar lendo mais um livro chato na biblioteca do fim do corredor. – Respondeu ao mesmo tempo em que assimilava o recado que Jill deixara. – Espera, você é a juíza? Vocês são amiguinhas?

– Ainda não. – Claire passou rapidamente pelo irmão. – Mas tô indo atrás dela pra isso.

– Ei, Claire! Não pode ficar andando assim pela delegacia. – Chris hesitantemente seguiu atrás dela. – Quer que eu seja expulso novamente, fedelha?

Claire apressava seus passos até chegar a um salão com vista para a recepção e adentrou pela única porta entreaberta ali e deparando-se com a biblioteca. Ali, Jill lia um livro sentada sobre a mesa. Notando a aproximação de Claire, tirou os olhos do livro com um sorriso amarelado.

– Desculpe por ter saído daquele jeito. Mas seu irmão... ele é impossível! – Jill gargalhou junto a Claire que se sentava à frente dela. – Ele sabe me tirar do sério.

– Tem certeza que você não sabe o por quê disso?! – Claire questionou para Jill, que apenas balançava a cabeça em negação. – Ele é afim de você! – Finalmente admitiu detectando o olhar duvidoso de Jill, enquanto Chris se aproximava de ambas. – E amei saber disso!

MARÇO, 2009

Depois de ter relembrado das memórias do dia em que a conheceu, Claire sentia seu coração se esquentar com tanta bondade recebida dela naquele dia. Elas formaram um vínculo especial, não apenas por causa de Chris, mas porque ambas houve uma conexão imediata da empatia e amizade. Tudo o que Claire mais queria era que Jill se recordasse da essência da mulher que verdadeiramente era e continuaria sendo.

– Jill... aqui é a Claire. – Ela tomou um fôlego enquanto sua mente se mergulhava em boas memórias. – Acabei de me lembrar do dia em que nos conhecemos. Achei que seriamos grandes rivais, mas você já era uma amiga muito antes que eu me desse conta. Meu irmão falava tanto que você era durona e que pegava no pé dele, porque você batia de frente com ele e eu já devia ter notado de cara que você seria a pessoa perfeita para me substituir nisso. Na verdade, você foi uma revolução na vida dele. Você é a família que ele tanto precisava e por isso, você também se tornou a minha famíl...

Claire pausou sua fala quando notou que uma lágrima escorria pela bochecha de Jill. Pensou em tentar chama-la até que acordasse, mas sabia que aquela mágica não acontecia em um estalar de dedos. Correndo seus dedos na face de Jill para secá-las, Claire conteve suas emoções para continuar sua fala.

– Você já passou por tantas coisas difíceis! Coisas terríveis aconteciam e te quebravam. Mas você sempre juntava cada pedacinho seu e se refazia, vingando graciosamente cada obstáculo. Você ajudou pessoas, salvou muitas pessoas. Isso é tudo o que você sabia fazer, Jill. Foi assim que você salvou meu irmão e quando achamos que tínhamos te perdido por isso... você voltou pra casa, pra nós! – Claire afagava a testa dela enquanto dizia as palavras em um tom brando bem próximo aos ouvidos dela. – Tudo o que você fez para aquele miserável não se compara a tudo o que você sempre foi. Nunca irá diminuir quem você realmente é e nunca vai apagar quem você é de verdade, tá?

Claire se alegrava ao notar que Jill continuava derramando lágrimas, mesmo adormecida e se perguntava como aquilo era possível. Logo, observou que médicos passaram a observar o lado de dentro da sala com frequência e sabia que seu tempo estava acabando. Buscando por uma parte do corpo dela ainda livre dos aparelhos, encontrou seus dedos e os apertou levemente, como se passasse força a ela.

– Querida, eu vou ter que ir, mas quero que saiba que você é importante e que merece ser salva. Sabe... meu irmão não desistiu de te encontrar um dia sequer. Ele acreditava que ia te trazer para casa todos os dias, contrariando tudo e todos e agora... você está aqui porque ele precisa de você, eu preciso e o mundo inteiro precisa de Jill Valentine e das coisas incríveis que ela faz. – Ao perceber que sua voz se embargava, Claire se recompôs enquanto sentia um tremor nos dedos de Jill. – Será que você está entendendo o quanto te queremos de volta? – Claire notou que os batimentos de Jill começaram a disparar enquanto o oxigênio demonstrava instabilidade. – Acho que sim. – Sussurrou para si ao ver uma equipe de especialistas entrando na sala com urgência.

Minutos depois, Claire se encontrava em espera do lado de fora outra vez. Ponderando se o que fizera tinha realmente surtido algum bom efeito, pensou em ligar para seu irmão, porque sabia que ele detestaria surpresas. Depois da terceira tentativa, entendeu que ele não atenderia e por isso desistiu de tentar contatá-lo. Horas depois em uma sala entediante, Claire lembrou-se das lágrimas que ela viu sobre o rosto de Jill e conjecturou que ela tinha realmente a escutado e sentiu-se consolada porque, na pior das hipóteses, Claire dissera a Jill sobre quem ela era de verdade e do quanto ela tinha sido uma mulher incrível e principalmente que isso sobrepujava o que quer que tivesse feito no período mais sombrio de sua vida.

– Ah! Você ainda está aqui. – Rebecca notou Claire e veio em sua direção com um rosto aliviado. – O quadro da Jill melhorou espontaneamente, embora ainda precise ficar em observação, mas tudo indica que logo ela já vai voltar para o quarto. Seja o que for, você fez um bom trabalho lá dentro, Claire.

x.x.x.x.x

Quando Chris deixou o hospital pela manhã, se arrumou no hotel e imediatamente se dirigiu ao prédio da BSAA, porque sabia que não pregaria os olhos enquanto tivesse assuntos pendentes pra lidar. Após deixar tudo resolvido, graças a ajuda essencial de Sheva, retornou ao hotel para finalmente descansar. Acordando no início da noite após sentir-se pela primeira vez efetivamente descansado, retornou ao hospital. Ao adentrar no quarto onde Jill continuava instalada, notava Claire adormecida em um sofá ao lado da cama, roncando alto, como fazia desde jovem. Grato por ela sempre ser solicita para ele, se agachou para acordá-la calmamente ao acariciar seus cabelos curtos.

– Já cheguei, Claire. – Chris observava sua irmã despertando aos poucos. – Já está livre do castigo.

– Ah! Bons tempos. – Claire sorriu lembrando-se de quando ele ainda a colocava de castigo quando adolescente. – Mas você descansou bem?

– Claro. Já são quase oito da noite. – Chris olhou para o relógio para se certificar de ter passado a informação correta, se pondo de pé.

– Juro que estava acordada até agora pouco. Passei o dia me lamentando a ela sobre tudo o que você me fez passar durante a ausência dela. – Claire se levantava aos poucos, espreguiçando-se. – Quando ela acordar, não vai precisar contar mais nada a ela. Aliás, os indicadores dela melhoraram consideravelmente essa tarde e logo teremos boas notícias.

– Foi por isso que você me ligou várias vezes essa tarde? – Ele conferia os aparelhos que a monitoravam surpreso, sem entender como aquilo havia acontecido.

– Exatamente! – Claire assentia ocultando informações enquanto pendurava sua bolsa no ombro. Logo, foi até a mulher acamada e acariciando a testa dela, se despedia. – Até amanhã, Jill. Agora, vou ali encher a cara com o Leon depois do susto que você aprontou comigo.

– Como assim, Claire. – Chris hesitantemente seguiu sua irmã já encontrando-a do lado de fora porque queria estar a par de toda aquela situação. – Que susto foi esse?

– Os indicadores melhoraram, oras! Eu só disse pra ela continuar lutando e do nada isso aí aconteceu. Eu meio que usei... palavras-chaves. – Claire explicava presunçosamente. – Sei lá. Algo me diz que ela ainda gosta mais de mim do que de você, como quando nos conhecemos. Acredite, a Jill só faltou abrir os olhos hoje. – Claire afagou o irmão. – Mas pedi pra ela guardar esse momento pra você.

Claire sorriu ao irmão que mal podia expressar toda a gratidão que tinha por ela em todos esses anos e ele a abraçou valorizando novamente todo o suporte que ela o tinha dado e queria que a aliança que criaram devido aquele novo problema continuasse como um elo inquebrável entre eles, como quando eram bem jovens. Aquela garota, agora mulher, tinha algo especial. Claire tinha o dom de saber cuidar como ninguém das pessoas ao seu redor. Ao vê-la caminhando para longe por alguns segundos, sua mente logo se voltara a Jill e ao retornar para o quarto, aproximou-se dela, tocando em sua mão e segurando-a carinhosamente enquanto olhava para o rosto adormecido dela.

– Já estamos a sós, meu... amor.

Chris ainda se acostumava com aquela nova maneira de chama-la, sentindo-se constrangido todas as vezes em que a chamava assim. Por isso, abaixou a cabeça envergonhado, fixando seu olhar nos dedos dela. Naquele momento, Chris sentiu um aperto fraco de volta em sua mão. Observando o movimento que os pequenos dedos dela faziam ao tentar agarrar sua mão, como um bebê que aprendia a fechar os dedos, ele mal poderia acreditar no milagre que assistia.

Abismado, Chris finalmente encarou o rosto de Jill e pode visualizar os olhos dela abertos, acompanhando seus movimentos. A íris dos olhos acinzentadas brilhavam conforme lágrimas se formavam ali, por mais que ela se mantivesse imóvel. Quando as lágrimas de emoção escorreram pelas bochechas dela, ele ergueu sua mão trêmula e as secou acariciando o rosto tranquilo e angelical dela, da mesma forma que fez quando se despertou do pesadelo que tivera antes do desaparecimento dela. E o fato em comum era que Jill também havia despertado de um pesadelo.

"Onde a alegria deveria reinar, os céus restringem e obscurecem o seu amor. A voz vai diminuindo novamente. O velho homem sente o frio. O inverno se foi e estou só. Permaneça, meu amor. Você se sente tão fraca, seja forte. Continue nessas estradas. Nós nos encontraremos, eu sei."