Seguimos com mais um capítulo! Lamento ter sumido, tive uma leve crise existencial e desisti de tudo, inclusive de escrever.
Espero que goste deste capítulo! Boa leitura!
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Capítulo 6
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Os conselheiros ficaram estupefatos quando Sakura chegou à reunião naquela manhã com uma lista repleta de queixas colhidas diretamente na fonte - com os próprios cidadãos - de melhorias que eles gostariam que fossem feitas para incrementar sua qualidade de vida.
Apesar da perplexidade geral, apenas Mitokado e Sarutobi se manifestaram - Danzou os observou com a face inexpressiva e os outros membros temeram por seus cargos e optaram por não contrariar.
''Majestade'' começou Mitokado, tentando - em vão - esconder sua impaciência e escolhendo suas palavras ''Entendo sua preocupação em melhor atender as demandas do povo. Todavia, creio que essa não seja a melhor abordagem''
Sakura ergueu uma sobrancelha.
''Ouvir diretamente da fonte as demandas não parece razoável o bastante para você?''
Sarutobi rapidamente interviu, vendo o pavio de Sakura começando a se encurtar pelo franzir de sua testa:
''Veja, Majestade, em conversas do cotidiano não tendemos a soltar protestos contra diversos aspectos de nossas vidas? Entretanto, nem todos verdadeiramente nos impactam negativamente, poucos são legítimos. Da mesma forma, a população, dada a oportunidade, trará à senhora queixas das mais diversas, a maioria de pouca relevância real. Ao ouvi-las, a senhora se compromete a resolver assuntos que pouco se mostram pertinentes para a prosperidade do nosso reino. Cabe a nós, nesta sala de reuniões, reunirmos o que realmente importa para o bem-estar do povo e nos focarmos nessas demandas''
Sakura não gostou muito de ser corrigida, mas enxergou lógica na fala de Sarutobi. Ela recostou-se na cadeira e fez uma careta, pensativa.
''Acho que devemos, sim, ter contato com o povo para ver sua perspectiva dos problemas que enfrentam. Algo que pode parecer irrelevante para nós pode ser o que mais os incomoda, acho essencial que ouçamos suas queixas'' começou, inclinando-se para frente e cruzando os dedos na mesa enquanto pensava ''Mesmo assim, entendo a preocupação do conselho, então sugiro que façamos o seguinte: desta vez, vamos analisar todas as queixas que tenho anotadas e julgar quais as mais pertinentes para solucionarmos na medida do possível; para o futuro, solicitarei que cada pequena região ou vila do reino nomeie seu próprio representante, que reunirá as queixas que a população pela qual é responsável lhe trouxer e as organizará em ordem de prioridade. Então, mensalmente realizaremos uma reunião com os representantes para ouvirmos suas demandas e podermos guiar nossas ações por isso'' concluiu.
Sarutobi a olhou com orgulho - sabia o quanto ela podia ser geniosa, mas mesmo assim Sakura acatou as sugestões e encontrou um meio termo.
Mitokado se ajeitou na cadeira, a face séria e pensativa.
''Creio que muitas coisas precisam ser feitas em todo o reino, sempre haverá novas queixas por parte da população, especialmente se concedermos essa abertura. Em um mês, pouco pode ser feito, e os representantes com certeza não apenas nos cobrarão mudanças como também trarão a cada reunião novos assuntos a serem tratados. Nesse ritmo, logo estaremos repletos de tarefas a realizar e poucas concluídas, pois não haverá tempo para uma solução se maturar antes de outro problema surgir e exigir nossa atenção''
''Não precisamos acatar a todas as queixas trazidas'' falou outro conselheiro, um que raramente falava. Sua voz soou tímida, incerto sobre discordar de Mitokado, um membro de maior influência na mesa ''Precisaremos saber elencar as necessidades trazidas em nível decrescente de prioridade e deixar claro para os representantes de cada região que nem todas as reivindicações serão atendidas rapidamente, pois primeiro nos atentaremos às que julgarmos mais urgentes. Acredito que conscientizando esses líderes e a população pela qual são responsáveis, não devemos ter tantos problemas''
Outro membro se manifestou:
''Penso que os assuntos de que tratamos vão muito além de resolver reivindicações dos camponeses. Mesmo se fizermos como propõe, além dos temas que esses tais representantes nos trouxerem para debater ainda teremos assuntos internos e políticos a serem resolvidos, impasses que não passam pelo cotidiano dos cidadãos, mas que necessitam de soluções rápidas e certeiras para garantir a estabilidade do país''
''E se talvez espaçarmos as reuniões?'' continuou o conselheiro anterior ''Creio que reuniões a cada dois ou três meses nos concedam maior tempo de trabalhar com tanto assuntos internos quanto com demandas da população sem prejudicar a resolubilidade de nenhuma parte''
Sakura assistia ao debate com satisfação: conseguira aumentar o engajamento dos membros do conselho e parecia que uma solução estava para se formar.
''Limitemos o número de reivindicações por reunião a duas'' Danzou se manifestou ''Dessa forma, serão obrigados a repensar as prioridades de cada queixa e nos trarão apenas as que julguem mais relevantes. Reuniões bimestrais soam razoáveis, mas sugiro que esses representantes sejam necessariamente substituídos anualmente, para evitar conflitos de interesse. Sugiro também, Majestade, que coloque de lado a lista que trouxe e que iniciemos diretamente por essa nova resolução; assim, garantiremos que nos focaremos apenas ao realmente relevante''
Sakura concordou, parecia mesmo o certo a se fazer. Ânimo começou a subir dentro de si: sentia que tudo caminharia bem no projeto.
''Pois bem! Podemos começar agora mesmo a divisão do reino em regiões e planejar o envio de mensageiros para cada uma orientando-os a elegerem um representante para a próxima reunião, que acredito que já possa ser mês que vem!''
Mediante aprovação da maioria, Sakura retomou seu lugar, dirigindo um sorriso satisfeito para Sarutobi, que a olhou com orgulho.
Mitokado grunhiu baixinho, mas não se manifestou.
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Quando a reunião estava por se encerrar, muito já havia sido arquitetado. Sakura agradeceu mentalmente por ter mais dois membros do conselho - Hidetaka e Hayato - contribuindo com as discussões, mesmo que às vezes sendo para discordar de alguma de suas ideias.
''Agradeço pela reunião de hoje, meus senhores, acredito que foi muito produtiva!'' começou ''Espero vocês cinco amanhã para debatermos o que ficou pendente'' olhou individualmente para Danzou, Mitokado, Sarutobi, Hidetaka e Hayato ''Quanto aos outros, estão dispensados. Não entrem nesta sala a menos que tenham algo para contribuir com a mesa de discussões. O conselho não precisa de espectadores''
Os olhos dos três homens a quem Sakura dirigira a palavra se arregalaram e ela pôde perceber a insatisfação e raiva em seus olhares. Mesmo assim, ela não voltou atrás, recolhendo suas anotações e se retirando da sala de reuniões com a cabeça erguida.
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Como Madara havia prometido, tudo estava preparado para a chegada de Sasuke ao palácio.
Tão logo ele chegara, foi recebido por alguns funcionários, que se adiantaram para tomar suas bagagens para levá-las ao quarto. O primeiro funcionário tomou em mãos a única mala de Sasuke e indagou:
''É tudo, senhor?''
Sasuke confirmou com a cabeça. Não era uma pessoa sentimental, não havia nada para trazer consigo além de algumas roupas e sua espada.
''Espere! Ajude-me com estas duas!'' uma voz feminina soou de dentro da carruagem, desajeitadamente empurrando para fora duas malas surradas de tamanho mediano quase se abrindo, tão cheias estavam.
Sasuke suspirou, fechando os olhos, e prosseguiu para dentro do palácio sem esperar pela ruiva, que entregava as malas para os funcionários rapidamente para poder segui-lo. Apesar de seu protesto, Madara decidiu por enviar Karin ao palácio com ele como sua servente, garantindo que arranjaria outra ajudante para Shisui. Segundo ele, Karin poderia ajudar o jovem Uchiha com o que viesse a precisar e ainda manteria o líder do clã informado quanto aos acontecimentos no palácio. Sasuke não perguntou, mas não tinha dúvidas de que aquela ideia viera de Karin, que, inconformada com sua decisão de não levá-la junto, com certeza havia optado por apelar ao líder Uchiha, jurando provar-se útil se ele a enviasse com Sasuke. Agora, ele estaria preso com uma mulher irritante e uma mulher difícil.
O quarto designado a ele era espaçoso e muito bonito, mas Sasuke não dedicou nenhuma atenção a isso: caminhou diretamente até a janela para verificar como era a segurança daquele cômodo. Como previra, havia soldados em postos com visão para aquela janela em todos os lugares, seria difícil mandar mensagens para Madara dali.
''Sasuke-kun!'' Karin chamou, entrando no quarto e se aproximando dele ''Pedi para ser colocada no quarto dos empregados com acesso mais rápido aos seus aposentos, e há um sino ali naquela parede que pode tocar sempre que precisar que eu ouvirei de lá e saberei que precisa de mim!'' apontou para a parede logo atrás da grande cama.
Sasuke não lhe deu atenção, ainda olhando por fora de sua janela os outros cômodos do palácio. Deveria haver algum com guarnição menos pesada que ele pudesse usar para mandar suas mensagens, sempre havia.
''Sasuke-kun?'' Karin levantou uma sobrancelha, tentando olhar o que ele estava procurando.
Sasuke fechou a janela e se afastou, caminhando para fora do quarto.
''Não entre no meu quarto sem ser chamada''
Karin tentou não se deixar atingir pelo tom ríspido de sua voz. Repetiu para si mesma que ele deveria estar cansado da viagem com carruagem e que por isso não estava com bom humor. Engolindo o sentimento triste que lhe subira pela garganta, ela se forçou a colocar um sorriso novamente no rosto e o seguiu para fora do quarto.
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''Vocês dois estão se divertindo muito, não estão?'' Sakura comentou com um sorriso, deixando o livro que lia sentada em um banco no jardim de lado para assistir Kooi e o rato brincando juntos. Kooi corria tentando pegá-lo, mas o roedor era muito rápido e muito esperto, deixando-a para trás com facilidade. Por vezes, ele se deixava ser alcançado, e Kooi esfregava o focinho e o lambia insistentemente, deixando-o de barriga para cima. Ele soltava uns guichos felizes e então corria novamente, apenas para ela persegui-lo mais uma vez. Assim eles brincavam, correndo por todo o jardim.
Em um primeiro momento, os funcionários do jardim se assustaram ao ver um rato cinza e feio e correram em sua direção com equipamentos de jardinagem prontos para matá-lo, mas Sakura garantiu repetidas vezes que ele era um amigo seu e de Kooi e que gostaria que não o machucassem. A princípio, os funcionários acharam que a rainha havia enlouquecido, que a falta de Ino e de Naruto a fizera enxergar companhia nos animais mais inusitados, a ponto de considerar uma criatura tão nojenta como um rato seu amigo.
''Vossa Majestade'' apelou uma das jovens jardineiras ''Há muitos pequenos animais dentro da estufa para a senhora escolher, muito mais bonitos e agradáveis. Por que fica com esse rato?''
Sakura não tirou os olhos do roedor e de Kooi, correndo por todos os cantos.
''Não é um mascote muito comum'' admitiu ''mas afastado o choque inicial ele até que é bonitinho. Só um pouquinho'' acrescentou ''Admito que gosto de sua companhia'' ela sorriu quando o roedor se escondeu em um buraco no chão e Kooi tentava em vão alcança-lo com as patas ''Aliás, pode me fazer um favor? Gostaria que separasse algumas sementes para eu alimentá-lo''
A jovem jardineira concordou com a cabeça, mesmo ainda não convencida. Dirigiu um último olhar enojado ao rato antes de fazer uma leve reverência e se afastar.
''Venham, vocês dois!'' ela disse alto para a dupla ''É hora do almoço, vou pedir que tragam sua comida, Kooi. E você'' apontou para o ratinho ''Deixarei algumas sementes no criado mudo perto da janela do meu quarto, coma lá e não seja visto dentro do palácio, entendeu?''
O rato balançou o focinho em sua direção e escalou em Kooi até ficar em cima de sua cabeça. A felina estranhou por um momento, mas logo apressou o passo para seguir Sakura, carregando o roedor sobre sua cabeça.
Sakura riu diante da cena e continuou seu trajeto até o palácio com um sorriso no rosto, recebendo olhares curiosos dos funcionários que observavam o trio caminhando pela trilha de pedras até a escadaria.
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Sem sua família, Naruto, Ino ou Minato, as refeições se tornaram um evento triste para Sakura, que sempre as fazia sozinha. Ela se sentava na comprida mesa de jantar e olhava os lugares vazios com o coração pesado, o apetite quase lhe sumia diante tanta solidão que sentia sentada naquela sala enorme. Talvez fosse melhor encontrar outro lugar para fazer suas refeições dali em diante.
A porta do salão se abriu e um funcionário entrou.
''Vossa Majestade, com a sua licença. O senhor Uchiha Sasuke veio se juntar à senhora em sua refeição. Posso permitir que entre?''
O coração de Sakura deu um pulo no peito. Ele já havia chegado? Ela não havia sido informada de nada. Ajeitando-se rapidamente na cadeira, ela assentiu para o funcionário, que rapidamente abriu espaço para que o convidado entrasse no salão.
Sakura se controlou para não ter pensamentos inapropriados quando a forte figura masculina se aproximou, caminhando em sua direção com os olhos fixos nela. Ele fez uma breve reverência e Sakura lhe ofereceu um lugar à sua direita.
''Faz tempo que chegou? Não sabia que já estava aqui, ou o teria recepcionado eu mesma'' admitiu, o apetite voltando à medida que se animava com a nova companhia para o almoço.
''Cheguei há pouco tempo'' ele disse simplesmente, e Sakura se viu pensando no que mais deveria dizer para continuar a conversa e impedir um silêncio constrangedor.
''Em qual quarto foi hospedado? Espero que o alojamento seja de seu agrado''
Sasuke pensou por um instante, seria esse o momento de pedir uma mudança de quarto? Quem sabe para um onde ele seria menos observado e poderia enviar suas mensagens a Madara sem dificuldades?
''Bem'' ela riu consigo mesma ''De qualquer forma é apenas por uma semana, até o casamento, depois podemos ver como fazer''
Sasuke ergueu uma sobrancelha.
''Vossa Majestade já está preparada para que nos mudemos para o mesmo quarto?''
As bochechas de Sakura pegaram fogo e ela veementemente negou com a cabeça.
''É claro que não! Quero dizer apenas que esse quarto é temporário e após nos casarmos você poderá se mudar para outro ainda melhor!'' apressou-se em dizer, o rosto da cor de um tomate.
Sasuke sorriu de canto.
''E como estão os preparativos?''
Sakura se animou:
''Ah, está tudo indo muito bem! Tudo já está em produção para o casamento semana que vem, e devemos esperar os convidados para chegarem já esta semana! Prevejo uma semana bem movimentada, com muitos hóspedes, vou precisar da sua ajuda pois com certeza todos estarão ansiosos por conhecer você!''
Sasuke assentiu com a cabeça, concordando com Sakura enquanto ela tagarelou sobre os detalhes que havia planejado e como estava animada para a chegada de algumas pessoas, mas já adiantando-lhe quais eram aquelas de que ela não gostava.
''Para um casamento arranjado, Vossa Majestade está bem feliz'' ele comentou.
Sakura se sentiu um pouco pega de surpresa por suas palavras, retesando seu fluxo de palavras. A forma como ele dissera 'casamento arranjado' a incomodara, parecia que sentia nojo das palavras. Ele ainda estava aborrecido com o arranjo? Ainda não gostava dela? Achava que esse casamento era algum tipo de martírio e que ela era a culpada disso?
Sakura tentou não se deixar incomodar muito, mas permaneceu com uma sensação ruim no fundo do peito mediante aquelas palavras até o fim da refeição.
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Terminado o almoço, o casal estava caminhando pelo saguão principal para que Sakura o apresentasse o palácio quando uma figura feminina se aproximou, correndo na direção deles.
''Sasuke-kun! Já avisei a cozinha da sua preferência para comi-'' a ruiva freou sua fala ao ver uma figura esbelta e altiva se virar em sua direção, o olhar curioso. Contra o sol, parecia que ela estava diante de uma divindade: os cabelos róseos longos e lisos, com pontas encaracoladas, descendo até a altura dos quadris; a postura reta e imponente; o rosto angelical; as roupas meticulosamente trabalhadas; as mãos juntas na frente do corpo conferindo um ar gracioso; o olhar verde como uma joia rara, esperto e profundo; e a tiara dourada que levava na cabeça não deixavam sobrar qualquer dúvida de que aquela era a pessoa mais importante do reino ''Vossa Majestade, me perdoe!'' ela se curvou profundamente, olhando para os próprios pés finos e se encolhendo levemente. A figura da rainha era tão grandiosa e majestosa que ela precisou se controlar para não tremer.
Sakura virou seu corpo todo em direção à ruiva e fez sinal para que se levantasse.
''Está tudo bem, não tem por que se desculpar. Quem é você? Acho que não a vi antes no palácio''
Karin rapidamente retomou a postura, mas não conseguiu reunir coragem para olhar a rainha no olhos.
''Meu nome é Karin, Vossa Majestade, sou a serva pessoal do senhor Uchiha''
Sakura sentiu seu coração pular uma batida no peito e ela estreitou os olhos.
Os três ficaram imóveis em um silêncio agoniante. Em sua mente, Sasuke já imaginava o que viria a seguir.
''Serva pessoal'' Sakura repetiu devagar, as palavras saindo como ácido de sua boca. Analisando a jovem à sua frente, que deveria ser alguns anos mais velha que ela própria, ela viu um rosto fino e pálido, os cabelos vermelhos vibrantes espetados para a lateral, os olhos charmosos, o corpo com belas curvas e seios fartos… Sakura já tinha entendido tudo. Ficara claro agora para ela o porquê de ele abominar tanto a ideia de casamento, ele já possuía seus próprios planos com outras pessoas.
Sasuke abriu a boca para falar algo, mas Sakura não o deixou se manifestar, olhando-o seriamente e dizendo com a voz comedida, mas extremamente ameaçadora:
''Você tem sete dias, até o dia do casamento, para se livrar de todas as suas 'servas pessoais', Sasuke Uchiha. Ou vai desejar não ter me contrariado''
Em seguida, virou-se e se afastou da dupla, o coração palpitando forte no peito e o rosto delicado franzido em raiva. Não deveria ter se deixado levar pelo charme dele no dia anterior, ele era mesmo um imbecil.
Sasuke pensou se seria o momento de tentar aplacar a situação, mas dado o andar irritado que Sakura assumira ao se afastar, ele decidiu que talvez essa conversa deveria ser deixada para outro momento.
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Sakura queria poder contar para Ino tudo o que estava sentindo. Pensou em lhe escrever uma carta, já que seria inoportuno atrapalhar os primeiros dias de casada da amiga com uma visita, mas o assunto era pessoal demais para ser colocado no papel e enviado. Seu coração estava pesado, seu humor deprimido, sua mente cheia de pensamentos negativos e de ansiedade em relação ao futuro.
Ela iria se casar em 7 dias. O noivo, aparentemente, antes mesmo do casamento já tinha seus próprios planos em mente para se divertir. Pelo visto, para Sasuke ela não era boa o suficiente. Sakura trincou os dentes e apertou as mãos em punhos. Se ele achava que ela iria tolerar qualquer tipo de gracinha ou infidelidade da parte dele, ele estava muito, mas muito enganado.
Sakura se sentia enclausurada em um mundo em que ela tinha pouco controle - engraçado pensar isso, visto que era a pessoa mais poderosa do reino - e enxergava que nada parecia evoluir de forma favorável. Mais uma vez, ela se sentiu triste e muito, muito sozinha.
Naquela mesma tarde, as duas pessoas que Sakura menos queria ver naquele momento chegaram ao palácio: sendo membras da família, Temari e Mebuki foram as primeiras convidadas a chegarem para o casamento, com bastante antecedência para terem tempo o suficiente de avaliar a situação do reino após meses longe e ver como Sakura estava se saindo. Sakura se sentiu nauseada apenas de pensar em ter que interagir com elas após terem a abandonado sozinha por tantos meses. Era assim que Sakura se sentia: abandonada.
Não foi ao seu encontro recepcioná-las quando chegaram, optou por manter seus planos iniciais e estudar com Sarutobi na biblioteca. Afinal, não podia se lembrar de uma única vez em que sua mãe ou irmã mudaram seus planos por sua causa, não havia por que ela mudar os seus por elas. Instruiu os funcionários a garantir que fossem recebidas bem e foi ao encontro do conselheiro para seu estudo vespertino.
''Vejo que Kooi fez uma amizade bastante inusitada'' disse Sarutobi quando Sakura entrou na biblioteca, após uma breve reverência. Sakura virou o rosto para o centro do grande cômodo e se deparou com Kooi e o rato correndo um atrás do outro em uma brincadeira bastante animada. Quando o pequeno roedor viu a expressão contrariada no rosto de Sakura ao encontrá-lo ali, ele rapidamente se escondeu embaixo de uma das estantes de livro, deixando Kooi tentando inutilmente alcança-lo com a pata grande. Ela estava crescendo bastante rápido.
''Agora não há mais por que se esconder, não é mesmo?'' ela disse para o espaço embaixo da estante onde o rato se escondera, os braços na cintura e a postura de uma mãe que pega um filho no ato de uma travessura.
''Confesso que em um primeiro momento fiquei horrorizado ao ver um camundongo na biblioteca'' começou Sarutobi sem tirar os olhos do livro que folheava ''Mas vendo como Kooi parecia bastante familiarizada com o pequeno animal, suspeitei que Vossa Majestade estivesse ciente da situação''
Sakura franziu o cenho.
''Então é um camundongo? Bem que notei que as orelhas são bem grandes... O desenrolar das coisas foi bastante diferente de como eu havia esperado quando o vi pela primeira vez, mas fico feliz que Kooi tenha arrumado companhia. Ele é bem bonzinho! Preciso admitir que é meio feinho, tadinho, e o rabo às vezes ainda me causa arrepios e repulsa, mas aos poucos estou me acostumando''
Sarutobi riu consigo mesmo. Apesar do susto inicial, a relação harmônica entre Kooi e o camundongo era realmente adorável. Sakura fez sinal para que o camundongo saísse de seu esconderijo sob a prateleira e caminhou até a mesa onde Sarutobi dispunha livros abertos em páginas de interesse do estudo daquele dia.
''Às vezes me canso de ter tantas coisas para aprender'' ela admitiu, correndo os olhos pelas páginas e sentindo o desânimo tomar conta de si. Era tanta coisa e ela se sentia tão cansada...
O conselheiro colocou uma mão em seu ombro direito para encorajá-la e disse:
''A vida só tem sentido e alegria quando evoluímos, e apenas evoluímos quando aprendemos o novo. Esta parte um dia terminaremos, mas o hábito de ser aberta a aprender é algo que Vossa Majestade precisa levar para a vida toda''
Sakura meditou sobre aquelas palavras durante toda a lição naquela tarde. Os estudos vespertinos drenavam bastante a sua energia, mas precisava admitir que se sentia muito mais revigorada e satisfeita após um dia de aprendizado do que após um dia em que tinha bastante tempo livre. Mesmo assim, ela ainda gostaria que seus estudos pudessem ter uma pitada maior de prática e de aventura, sentar-se por horas podia ser bastante cansativo.
Ao menos aquele tempo na biblioteca renderia a ela mais algumas horas longe de sua família. Mas ela sabia que não poderia evitá-las para sempre.
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Para a sorte de Sakura, sua mãe estava indisposta demais após a longa viagem para acompanhá-la no jantar e Temari solicitou que sua refeição fosse trazida ao seu quarto para que pudesse ficar ao lado da mãe. Restava-lhe apenas o Uchiha, quem ela não queria nem ao menos olhar, tamanha a raiva que sentia. Ela não tivera com quem falar sobre seus sentimentos e chateações com ele, então os sentimentos negativos foram apenas se retroalimentando até que ela nem mesmo sabia apontar corretamente o porquê de estar tão irada se alguém perguntasse. Tudo o que sabia era que o detestava e não compactuava com suas atitudes. E ela deixaria aquilo bem claro.
''Coma quando quiser, não há necessidade de me acompanhar nas refeições'' disse friamente no término do jantar, que se deu em completo silêncio. Sasuke não respondeu, apenas se levantou também e fez uma breve reverência quando Sakura depositou o guardanapo ao lado do prato e se retirou da mesa, elegantemente saindo do grande salão sem olhar para trás. Ele suspirou quando as portas se fecharam e ele se viu sozinho na grande sala de jantar, exceto pelos guardas e serventes nas portas. Madara com certeza estava a espera de progressos de sua parte, mas como deveria Sasuke proceder se sua noiva era de temperamento tão colérico? Honestamente, ele não fazia questão alguma de se aproximar dela, e não era como se ela permitisse qualquer abertura de qualquer forma.
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À medida que o casamento se aproximava, alguns dos convidados mais próximos da família começaram a chegar ao palácio para se acomodar para a grande festividade. Dentre eles, a família Hyuuga.
Sakura nem ao menos tentou esconder sua alegria quando anunciaram que a carruagem da família estava se aproximando e se apressou para recepcioná-los com um sorriso largo no rosto. Hanabi foi a primeira a sair da carruagem, correndo em direção a Sakura assim que a viu e a enlaçando em um forte abraço - a despeito de todas as instruções que recebera no caminho sobre discrição e educação quando visse a rainha.
''Sakura onee-chan!'' exclamou, levantando a cabeça para olhar Sakura, os braços ainda envoltos firmemente na cintura fina da rainha. Sakura sorriu largamente e abraçou a garota de volta com um braço, acariciando-lhe a cabeça com a outra mão.
''Hanabi! Está enorme! Como pode tanto tempo ter passado?'' Sakura afastou o corpo da garota suavemente e a analisou de cima a baixo ''Precisa definitivamente vir me ver com mais frequência, não posso acreditar que já está tão grande!''
''Perdoe-nos, Sakura-san! Eu a avisei repetidamente para se comportar quando chegássemos'' uma jovem de longos cabelos negro-azulados e olhos perolados, da mesma idade que Sakura, saiu da carruagem e se aproximou ''E ela me prometeu que se portaria como uma dama'' disse, dirigindo um olhar repreensivo para Hanabi, que respondeu apenas com uma careta e uma risadinha, apertando ainda mais o abraço na cintura de Sakura.
''Ah, Hinata! Como se eu me importasse com isso!'' Sakura riu ''Como senti sua falta!''
Sakura tomou as duas mãos de Hinata nas suas e as apertou carinhosamente, emoção por rever a amiga de longa data tomando conta de seu corpo. Elas teriam muito sobre o que conversar!
Neji desceu da carruagem logo após as duas garotas, dando instruções para os servos do palácio sobre as bagagens e em seguida se aproximando e se curvando profundamente na frente de Sakura.
''Vossa Majestade, é um grande prazer revê-la'' disse com a voz polida ''O Senhor Hiashi agradece o convite e garante que estará presente no dia da celebração de seu casamento''
Sakura concordou com a cabeça e se virou para Hinata.
''Fiquei surpresa quando soube que estavam chegando, sei como o Senhor Hiashi é ocupado e imaginei que só viriam no próprio dia do casamento para cá''
As bochechas de Hinata se enrubesceram, mas foi Hanabi quem respondeu:
''É que eu e a Hinata não podíamos esperar para ver você, Sakura onee-chan! Então pedimos para vir antes para podermos passar mais tempo aqui antes de precisa voltar para casa!''
O coração de Sakura ficou cheio de amor perante aquelas palavras e, num impulso, puxou as duas garotas para perto em um abraço forte e caloroso.
''Fico feliz que estejam aqui, eu realmente estava precisando disso''
Hinata sorriu timidamente e fechou os olhos, retribuindo o abraço com todo o carinho que possuía.
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''Neji está bonito, não acha?'' Sakura comentou baixinho para Hinata enquanto tomavam chá no jardim, apontando para o rapaz que distraidamente lia um livro embaixo de uma árvore mais distante, onde não seria incomodado. Hanabi encontrou divertimento correndo com Kooi e com o camundongo pelo jardim e lhes ensinando truques em troca de petiscos e sementes. Ao contrário do que Sakura esperava, nenhuma das duas Hyuuga teceu nenhum comentário negativo em relação ao roedor e inclusive ficaram encantadas quando viram Kooi pela primeira vez caminhando e sobre a sua cabeça um pequeno camundongo que parecia ditar o caminho para onde a dupla ia. Hanabi, inclusive, já queria o levar para casa.
As bochechas de Hinata ficaram vermelhas.
''Hanabi diz a mesma coisa alto nos momentos mais inoportunos, ele fica bastante aborrecido apesar de não dizer nada'' ela confessou ''Neji é bonito, sim, mas um pouco carrancudo''
Sakura concordou com a cabeça, isso sim ele sempre fora. Sério e centrado, Neji raramente interagia com as garotas, desde quando eram pequenas. Sendo responsável por acompanhar e garantir a segurança de Hinata e Hanabi, ele sempre estivera presente quando as garotas eram menores, mas mesmo após anos de convivência Sakura nunca o viu sorrindo sequer uma única vez.
''Sakura onee-chan!'' Hanabi chamou, correndo em sua direção com o camundongo nas mãos ''Olhe o que o ensinei a fazer!'' ela o colocou no chão e se agachou do seu lado, tirando uma semente da bolsinha de couro que carregava e a posicionando perto da cabeça do roedor ''Finge de morto!''
Dramaticamente, o camundongo se jogou no chão e ficou imóvel até que Hanabi exclamasse um 'muito bem!' bastante animado e o entregasse a semente, Kooi correndo para lambê-lo logo em seguida. Na sua vez, Hanabi lhe ofereceu um petisco de carne que pegara na cozinha e a instruiu que sentasse e lhe desse a pata, comando que pronta e desajeitadamente a felina obedeceu, precipitantemente batendo a pata na mão de Hanabi antes mesmo que ela proferisse o comando para que a garota se apressasse em lhe entregar o petisco.
''Hanabi-chan é uma verdadeira adestradora!'' Sakura congratulou, batendo palmas ''Até o dia do casamento aposto que terei dois dos mais exemplares animais de estimação de todo o reino!''
Hanabi sorriu presunçosamente e concordou com a cabeça.
''Qual o nome do ratinho, Sakura nee-chan?''
''É um camundongo, Hanabi-chan! E eu ainda não lhe dei nenhum nome, tem algum em mente?'' Sakura ofereceu. A garota pensou por um momento e então o rosto se iluminou:
''Ooki!''
Sakura jogou a cabeça para trás e riu. Hinata ao seu lado cobriu a boca para esconder uma risadinha.
''Realmente, Hanabi-chan, ele é muito grandioso'' Sakura concordou ''Ensine a Ooki novos truques então! Logo, ele será o maior entre os seus!''
Hanabi sorriu e correu para longe, os dois animais correndo atrás dela na expectativa de ganharem mais agrados.
''Ainda não vi seu noivo, Sakura-san'' Hinata comentou após um momento ''Como ele é?''
Sakura grunhiu e revirou os olhos.
''Um bastardo! Ainda nem nos casamos e já não o quero ver na minha frente!''
Os olhos de Hinata se arregalaram por um momento, em choque, mas então ela começou a rir. Conhecia a amiga que tinha, sabia como ela tinha um temperamento forte e podia ser bastante exagerada em suas reações às vezes, então pediu que ela lhe contasse o que esse tal noivo fez que a enfurecera tanto. Oportunidade dada, Sakura tagarelou por bastante tempo sobre como detestava o Uchiha e o encheu de defeitos e críticas durante todo o seu discurso - alguns até mesmo sem procedência. Hinata se divertiu ouvindo Sakura descrever o rapaz, ouvindo pacientemente e fazendo poucos comentários enquanto permitia que a amiga extravasasse toda a revolta que sentia dentro de si. A forma como Sakura narrava os acontecimentos recentes, com tamanho superlativismo e incontáveis hipérboles, tornava mesmo uma reclamação daquelas algo divertido. Hinata com certeza sentira falta de - em meio a tantas pessoas introspectivas que tinha ao seu redor em sua família - ter alguém tão fervoroso e expansivo como amiga.
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Durante o jantar aquela noite, Sakura não pode se esquivar de sua irmã e sua mãe, que se juntaram a ela e a família Hyuuga para a refeição. Ela não vira Sasuke mais desde que o dissera que não precisava acompanhá-la nas refeições. Por algum motivo, sentiu seu coração ficar pesado e seu humor mais deprimido em perceber que ele realmente acatara o que ela dissera. Ela não o viu desde então, mesmo sabendo que ele estava no palácio esse tempo todo. Será que havia sido dura demais com ele?
''Vejo que as coisas estão indo bem por aqui, minha filha'' Mebuki começou enquanto o jantar era servido ''Fico contente em saber que Sarutobi está fazendo um bom trabalho em guiá-la''
O cenho de Sakura se franziu.
''Sim, o senhor Sarutobi realmente tem sido fundamental durante esses últimos meses. Mas não me desmereça dessa forma, mãe, muito do que vê prosperando por aqui se deve ao meu próprio esforço também''
Mebuki pareceu surpresa por um momento, sem saber o que falar. Não havia sido sua intenção aborrecê-la, é claro que não. Ela estava pronta para dizer algo quando as portas se abriram e um servo anunciou que Uchiha Sasuke estava entrando.
O coração de Sakura começou a palpitar e ela repetiu para si mesma que deveria ficar calma, não havia motivo para seu corpo responder tanto só pelo fato de ele estar vindo.
A figura masculina entrou com passos decididos, correndo os olhos por todos na sala com um olhar analítico antes de voltar sua atenção para Sakura, que se esforçava para esconder seu nervosismo. Hinata discretamente pediu para que Hanabi - que insistira em se sentar na cadeira à direita de Sakura - cedesse seu lugar para o rapaz que entrava, mas a garota rompeu a discrição ao exclamar alto 'por que eu tenho que dar o meu lugar?', o que fez Hinata se encolher e fechar os olhos em vergonha.
''Está tudo bem, Hanabi, pode ficar'' Sakura disse ''O senhor Uchiha pode se sentar ao lado de minha mãe''. Se ele achava que ela iria oferecer a ele tratamento especial, ele estava muito enganado!
Sasuke estreitou os olhos um breve momento antes de assentir com a cabeça e tomar seu lugar ao lado de Mebuki, de frente para Neji.
''O que está fazendo, Sakura?'' Temari interviu ''O lugar de seu noivo é ao seu lado. Já basta estar sentada no lugar de nosso pai mesmo antes da coroação, não altere ainda mais a conformação correta da mesa''
Sakura a fuzilou com os olhos, mas Mebuki falou antes:
''Temari, Sakura é a monarca regente, mesmo antes de a coroação acontecer. O lugar dela é exatamente onde está''
Temari não respondeu, ergueu a cabeça em superioridade e tomou o garfo em mãos para comer, dando o assunto por encerrado. Sakura sentiu um certo alívio em ver como a mãe se posicionara em seu favor e contrária a Temai - algo que raramente acontecia.
''Uau, você é muito bonito!'' Hanabi comentou em voz alta, olhando para Sasuke com um olhar admirado.
A expressão no rosto de Hinata deixou claro que o que ela mais queria era cavar um túnel e sumir dali, tão envergonhada que estava, mas foi Neji quem interviu:
''Uchiha, não é? Ouvi muito sobre a sua família''
O olhar de Sasuke se desviou para o Hyuuga e os dois se encararam por um momento, um entrave de dois olhares extremamente analistas e sóbrios, despidos de qualquer sentimento que pudesse alterar o julgamento frio e calculista que faziam um do outro.
''Não perca seu tempo tentando puxar conversa com Sasuke, Neji'' Sakura alertou, olhando o Uchiha com desaprovação ''Ele é um homem de pouquíssimas palavras''
Sasuke voltou seus olhos para Sakura.
''Talvez sejam os assuntos de Vossa Majestade que não sejam aliciantes para mim''
Sakura depositou o garfo na mesa e o encarou com os olhos estreitos.
''Ah eu sei que tipo de assunto é aliciante para você''
''E o que seria?''
''Cabelos ruivos quem sabe?''
Sasuke soltou o ar pelo nariz e a encarou sem acreditar.
''Ainda está aborrecida com isso?''
''Não deveria estar?''
''Não me deu a chance de explicar a situação''
''Não há nada para ser explicado''
''Então o assunto está resolvido''
''Sim, está! Já sabe o que precisa fazer e seu tempo está acabando, Uchiha''
''Quer que eu mande embora minha serva por um mero capricho?''
O rosto de Sakura estava vermelho de raiva, contrastando com a expressão impassível e tranquila de Sasuke.
''Senhor Uchiha, por favor'' interviu Hinata, a voz trêmula e sem graça ''Não devemos discutir''
''Sua autoconfiança é assim tão pequena?'' ele alfinetou, os olhos fixos nas jades enfurecidas de Sakura.
Sakura bateu o punho forte na mesa e se levantou, a cadeira sendo empurrada para trás.
Mas ela não soube o que dizer.
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não conseguiu pensar em nada para rebater aquilo. Enquanto isso, Sasuke a olhava firmemente, desafiando-a a retrucá-lo. Mas o que ela diria? Sakura gostaria que palavras mágicas surgissem em sua boca e ela conseguisse prová-lo errado. Mas como ela poderia provar algo que nem mesmo ela acreditava?
Visivelmente insatisfeita e engolindo sua raiva, esforçando-se para não chorar de frustração, ela se sentou novamente e dirigiu ao Uchiha um último olhar de ódio antes de se voltar para a sua comida novamente. Tinha perdido completamente o apetite.
Sasuke, de seu lado, estava satisfeito. Havia efetivamente deixado claro que não aceitaria de cabeça baixa os comportamentos infantis dela. Era seu noivo e seu inferior, sim. Mas ela não tinha autoconfiança o suficiente para impor isso a ele e era facilmente calada quando alguém a rebatia. E ele usaria isso a seu favor.
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Como que para tornar sua noite ainda mais desagradável, antes que Sakura pudesse se recolher logo após o jantar um servo veio informá-la que seu tio havia chegado e gostaria de cumprimentá-la pessoalmente.
Sakura sentia sua cabeça ferver de estresse, mas respirou fundo e foi ao encontro do tio, sabendo que estaria sem energias e com o espírito fraco demais para lidar com qualquer coisa negativa que ele viesse a lhe dizer.
''Minha querida, Sakura!'' ele a cumprimentou assim que ela entrou no salão onde ele a aguardava ''Esperava chegar a tempo para o jantar, é uma pena que não pude acompanhá-la esta noite''
Sakura forçou um sorriso e se aproximou. Ao lado do tio, Sasori a olhava com um sorriso que Sakura achava assustador, especialmente com aqueles olhos inexpressivos que mais pareciam os de um boneco. Ela foi recebida pelo mais velho com um abraço inesperado.
''Como está crescida! Não puxou em nada seu pai, ainda bem, é muito bonita!'' gracejou, assentindo com a cabeça repetidamente, como quem aprovava algo ''Deve se lembrar de seu primo, Sasori'' apontou para o rapaz ao seu lado ''Não se viram muitas vezes quando pequenos''
Sakura se voltou para o rapaz de cabelos vermelhos e olhos castanhos, que a encarava com um olhar que a deixava bastante incomodada. A vontade que sentia era de sair logo dali.
''Sim, é claro. É um prazer revê-lo, meu primo'' Sakura disse, mal conseguindo esconder sua falta de entusiasmo com o encontro. Aquele Uchiha com certeza drenara todas as suas energias e seu ânimo naquela noite.
''Os anos lhe fizeram muito bem, querida prima'' ele começou, olhando-a de cima a baixo ''Lembro-me de quando era apenas uma pequena garotinha, agora é uma bela mulher, uma verdadeira princesa'' ele levantou uma mão e roçou na bochecha macia de Sakura.
''Rainha'' ela o corrigiu, afastando sua mão e dando um passo para trás ''Poupe seus elogios, Sasori, sei como é com as mulheres''
''Ah'' ele alargou o sorriso malicioso ''Minha reputação é essa então? Entendo agora por que não pensou em mim quando decidiu se casar. Confesso que fiquei bastante chateado por não ter sido considerado como pretendente. Somos família, afinal''
Sakura se sentia cada vez mais desconfortável com toda aquela situação.
''Lamento desapontá-lo, Sasori, mas não, nem por um momento cogitei você como marido'' afirmou, buscando encerrar de vez aquele assunto ''Devem estar cansados da viagem, um dos funcionários os levará aos seus quartos''
Dito isso, ela se afastou, dando as costas para os dois e andando o mais rápido o possível para longe dali. Sentia estar em um covil de cobras perto daqueles dois e ela não queria permanecer ali nem por mais um instante.
Sentiu um frio correr em sua espinha enquanto caminhava para longe, ciente de que os dois homens a acompanhavam com o olhar.
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Faltavam quatro dias para o casamento. Na tentativa de sair do palácio e se livrar da pressão ao se deparar a todo momento com sua mãe - com quem ainda estava amargura - ou Temari, ou seu tio, ou seu primo, ou Sasuke, Sakura decidiu que prestaria uma visita às terras de Madara que estavam sendo exploradas para ver com seus próprios olhos como estava progredindo a exploração da região. Um passeio ao ar livre com certeza seria ótimo.
''Tem certeza que não podem ir?'' Sakura perguntou uma última vez enquanto colocava uma capa sobre os ombros.
''Papai insistiu que não podemos sair para lugar algum sem Neji… Como ele saiu pela manhã e ainda não retornou, precisamos ficar'' Hinata explicou.
Sakura assentiu com a cabeça.
''Certo, eu não devo demorar muito! Volto em breve!''
Sakura estava quase saindo pelas portas da frente do palácio quando Sarutobi a interceptou no saguão.
''Majestade, já está de saída? Espero que não se importe, solicitei que o senhor Uchiha a acompanhasse''
Vinda de trás do conselheiro, uma figura masculina se tornou visível no campo de visão de Sakura. Ele vestia uma blusa branca simples, as mangas arregaçadas e os botões superiores abertos, deixando visível uma parte de seu peito. Na lateral da calça negra que vestia repousava uma katana em sua bainha.
Sakura fez uma carranca.
''Eu estou em busca de um passeio agradável, não quero que ele vá junto''
Sasuke se posicionou ao lado de Sarutobi, que negou com a cabeça.
''Não é de bom tom que os noivos fiquem brigados antes do casamento. Acredito que esse tempo juntos será bom para vocês dois e para a sua relação. Além disso, preciso lembrá-la que este matrimônio precisava transparecer credibilidade, ou nossos esforços serão em vão''
Sakura dirigiu um olhar aborrecido para Sasuke antes de bufar e dar as costas para os dois. Sarutobi instruiu que Sasuke se apressasse, antes que ela mudasse de ideia.
Os dois foram o caminho todo em silêncio. Mesmo dentro da carruagem havendo apenas eles, Sakura fez questão de se sentar no extremo oposto a Sasuke, não se preocupando em esconder sua insatisfação com a sua presença. Do lado de fora, dez guardas cercavam a carruagem e a acompanhavam até seu destino: quatro cavaleiros na frente, quatro atrás e um em cada lado próximo às janelas.
Levou vários minutos até que eles finalmente chegassem até o destino e pudessem avistar as vastas terras que Madara possuía, uma pequena parte já em processo de exploração. Na porção mais próxima a onde um conglomerado de barracas se enfileirava havia uma grande região com trabalhadores cultivando sementes de algo que Sakura não pode identificar o que, pois nenhuma havia já germinado. Todos os trabalhadores pararam para olhar quando a carruagem real passou, até que ela parou no posto oficial onde os homens responsáveis por coordenar o serviço deveriam ficar.
Tão logo Sakura desceu da carruagem já foi recebida por olhares dos mais diversos tipos. Ela percebeu alguns homens cochicharem entre si, mas não se abalou. Ao invés disso, cumprimentou com um largo sorriso todos cujo caminho cruzava. Não tardou para que o oficial responsável daquele turno se aproximasse.
''Vossa Majestade! Fui informado que viria! Espero que tenha achado nossos relatórios até então satisfatórios'' disse.
Sakura concordou com a cabeça, olhando os arredores com um olhar bastante crítico.
''Vim ver com meus próprios olhos o progresso que estão fazendo, gostaria de me guiar pelo local, Sr…'' Sakura procurou o nome do rapaz em sua roupa ''Sr. Hikui''
O homem, magro, alto, com o rosto marcado por uma cicatriz, roupas oficiais e o cabelo preso por uma longa agulha prateada em um coque assentiu rapidamente e correu para pegar suas coisas para começarem a excursão pelo local. Um dos soldados estendeu um longo chapéu para Sakura a fim de protegê-la do Sol - ela nunca se lembrava de carregar um, mas, por sorte, seus soldados a conheciam muito bem. Ela pediu para que eles ficassem junto da carruagem enquanto ela percorreria o perímetro com Sasuke, Hikui e apenas uma dupla dos militares.
Eles caminharam primeiro dentro do posto oficial, onde o oficial encarregado lhes mostrou os planos que estavam construindo, o quadro de metas a serem atingidas, a velocidade do progresso e todos os gastos que estavam tendo. O rapaz era bastante meticuloso e tomava notas de tudo, Sakura se agradou muito disso. O acampamento era bastante simples, mas havia barracas para todos os homens. Em um canto, um cozinheiro oferecia duas refeições e duas lanches para cada trabalhador e tomava nota de tudo o que saía da cozinha em um papel.
''Obrigada pelo seu ótimo serviço, senhor! Um cozinheiro como o senhor é fundamental para manter nossos bons homens fortes e saudáveis para um longo dia de trabalho!'' Sakura cumprimentou quando passaram por ele. O homem enrubesceu e se curvou duas vezes, notadamente mais motivado para fazer seu serviço depois de ser cumprimentado pela própria rainha. Sakura, por seu lado, sabia que o trabalho ali deveria ser bastante exaustivo e não muito recompensador, então imaginou que um bom elogio tornaria o dia daquele homem mais agradável e o ajudaria a se dar conta, mais uma vez, de quanto seu serviço era essencial.
Em todos os locais por onde passaram, Sakura se focou em oferecer reforços positivos para os trabalhadores. Em alguns pontos, o trabalho estava visivelmente sendo porcamente feito, mas de uma forma agradável ela chamou indiretamente a atenção dos homens sobre seus erros, falando de sua própria experiência e seus próprios erros antes de criticá-los, começando sempre com elogios e apreciações sinceras e fazendo com que os erros parecessem sempre muito fáceis de serem corrigidos. Ela fazia perguntas para os trabalhadores sobre como eles achavam que poderiam melhorar sua função ao invés de dar ordens e percebeu que eles acatavam com mais ânimo as suas sugestões dessa forma. Notando a forma com que ela estava sempre buscando ser o mais compreensiva e gentil o possível, os trabalhadores rapidamente se esforçaram para acatar as sugestões da rainha.
Sasuke não falou nada em nenhum momento, mas por algum motivo não conseguiu deixar de acompanhar Sakura com o olhar o tempo todo, impressionado com a forma como ela lidava com as pessoas e com as situações.
Sakura parou por um momento em meio a um grupo de trabalhadores e pediu para que se aproximassem para que pudessem conversar, indagando-os sobre o que achavam que poderia ser melhorado para que seu trabalho fosse mais eficaz e menos árduo. Logo mais homens foram se aproximando até que o trio se viu cercado de trabalhadores ávidos por conversar com a rainha.
''Eu gostaria de poder de uma só vez resolver todas as demandas de todos vocês, mas temo que isso está além até mesmo do meu alcance'' ela explicou ''Por isso, peço que elenquem para mim as duas necessidades de maior urgência de vocês e farei o possível para ajudá-los nisso''
Após um breve período de discussão entre os homens, parecia que eles haviam chegado a uma acordo sobre o que era mais importante de ser melhorado. Eles apontaram para um homem com a expressão fechada, apoiando-se em uma pá e com um cigarro de palha na boca, que encarava Sakura com um olhar pouco amigável, dizendo que ele era quem eles consideravam seu responsável e sua maior autoridade depois do oficial. Sakura sorriu para o homem amavelmente e foi em sua direção.
''É um prazer conhecê-lo, como posso chamá-lo, senhor?''
O homem franziu o cenho e apenas encarou Sakura. Os soldados atrás dela deram um passo adiante e colocaram as mãos nas espadas, Sasuke a alguns passos atrás deles, com os braços cruzados. Sakura fez sinal para que os guardas não fizessem nada.
Sakura não se abalou com a atitude do homem.
''Percebo que todos esses homens têm muito respeito pelo senhor e o tem em alta estima. Assim como o senhor, eu também quero ajudá-los, e como não estou sempre presente para saber o que mais os incomoda e não me atreveria a supor suas demandas sem nem ao menos conhecê-los bem, gostaria que alguém mais experiente e que conhecesse a todos em um nível pessoal pudesse me auxiliar a entender com posso melhor servi-los'' finalizou, mantendo os olhos firmes nos castanhos do homem e mantendo o sorriso amigável e o olhar sincero.
O homem pareceu um pouco abalado com as palavras que ela proferira e sua compostura se desfez aos poucos. Ele dirigiu um olhar para algum canto que Sakura não conseguiu identificar e então, sem jeito, a convidou para acompanhá-lo de volta a onde ficavam as barracas para que conversassem sobre o problema que ele mais acreditava estar piorando o desempenho de trabalho dos homens. Sasuke se aproximou para ouvir a conversa de perto, mas os outros soldados foram instruídos a ficarem mais distantes.
''Estamos em um período em que costuma garoar bastante à noite'' disse ''As barracas não têm segurado as gotas espessas de chuva e o vento forte que sopra durante a madrugada, e muitos homens têm precisado ser afastados por serem acometidos por doença. Não bastasse isso, alguns animais selvagens por vezes invadem as barracas em busca de alimentos que são guardados pelos homens em suas tendas, já invadiram a cozinha duas vezes. Os ânimos dos homens é muito abalado por isso, a refeição é o momento mais aguardado do dia''
Sakura assentiu, olhando ao seu redor e se colocando a pensar.
''O que o senhor acharia se trocássemos as barracas por cabanas? Ao invés de uma barraca por homem podemos construir uma dezena de cabanas que alocariam vários homens e manteriam o ambiente aquecido e melhor protegido do frio e da chuva à noite. Seria possível também acender tochas em locais próximos para espantar os animais''
O homem concordou, pensativo.
''Cabanas parecem uma boa opção, se forem construídos beliches acredito que cerca de 20 homens poderiam ser alocados em uma só cabana''
''Percebi muitos cães abandonados no caminho para cá também, se os trouxéssemos para o acampamento eles poderiam manter afastados animais selvagens do acampamento. Posso enviar junto com os suprimentos rações dos meus próprios canis para alimentá-los'' ela acrescentou.
''Sim sim, acredito que seria bom. O cozinheiro ficaria feliz de não ter mais que se preocupar com os guaxinins'' ele coçou a barba, balançando a cabeça repetidamente em concordância ''Os cachorros ajudariam a elevar o ânimo do pessoal também. Já houve início a construção de uma pequena vila bastante próxima daqui para que as famílias de alguns trabalhadores se mudem e assim a área seja povoada. Dessa forma, será possível oferecer mais recursos aos trabalhadores. Entretanto, ainda levará pelo menos algumas semanas até que as primeiras casas terminem de ser construídas. Nesse meio tempo, os trabalhadores estão sofrendo com a ausência de suas famílias e é impraticável que voltem diariamente para casa pois a distância é longa. Isso tem sido causa de bastante redução do humor dos homens''
Sakura concordou, levando uma mão ao queixo.
''Como o senhor sugere que resolvamos isso?''
O homem precisou de um tempo para pensar, então disse:
''No momento, temos mais homens do que o necessário para a quantidade de terras que podemos explorar com os recursos atuais. Minha sugestão é que seja feita a elaboração de uma escala para realizar um rodízio entre os trabalhadores, com alguns poucos dias consecutivos de folga para cada um para que possam voltar tranquilamente para suas casas. Isso com certeza faria com que eles voltassem com os ânimos renovados em seu turno seguinte''
Sakura sorriu largamente e bateu as mãos juntas na frente do corpo.
''Excelente! Essa é uma ótima ideia! Faremos como você sugere, e eu mesma verificarei como está o andamento da construção da vila para que as primeiras casas estejam prontas para serem alocadas o quanto antes!'' ela fez sinal para Hikui, que aguardava um pouco mais distante enquanto eles conversavam, e ele se aproximou rapidamente ''Este homem será encarregado de elaborar uma escala com um rodízio de trabalho entre os homens daqui de modo que possam ter dias livres para passarem com suas famílias, peço por favor que o ajude com o que quer que precise para que ele possa realizar essa tarefa''
O oficial concordou rapidamente, garantindo que faria como ela o instruiu.
''Muito obrigada pelo seu ótimo serviço, senhor'' ela se voltou ao homem carrancudo ''Fico feliz em saber que temos homens como você para guiar e servir de boa influência para os trabalhadores daqui, saiba que sou bastante grata pelo seu esforço!''
Com um leve acenar de cabeça, Sakura se virou para voltar ao posto oficial.
''É Samaru'' ele falou antes de ela ir embora. Sakura se virou para ele e lhe oferece um sorriso.
''Muito obrigada, Senhor Samaru''
O homem continuou olhando-a enquanto ela subia as escadas de madeira que levavam ao posto oficial.
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''Agradeço pelo bom serviço que tem prestado aqui, Sr. Hikui'' Sakura agradeceu ao fim da expedição ''Gostaria de sugerir algumas coisas, se o senhor permitir''
Tomando uma vareta longa que repousava no topo da mesa do oficial, ela apontou-a para o quadro de metas.
''Essas metas são muito grandes, não oferecem o sentimento de progresso necessário para manter o ânimo dos trabalhadores. Reduza-as em metas menores e recompense os trabalhadores com bebidas a cada meta atingida, isso há de mantê-los motivados e satisfeitos com o trabalho, além de otimizar o avanço. Elogie cada pequeno e novo progresso, pois o elogio para os homens é como o Sol para as plantas, todos precisamos disso para crescer. Gostaria também que abandonassem aos poucos esse estilo militar de fazer o trabalho, percebo que muitos inspetores no campo apontam as falhas, mas não elogiam as boas ideias e não recompensam boas atitudes'' ela se voltou para ele e o encarou com olhos satisfeitos ''Ficaria feliz se acatasse essas sugestões, Senhor Hikui, estou orgulhosa do trabalho que tem feito aqui e espero poder voltar em breve para ver o seu progresso'' dito isso, ela lhe ofereceu um sorriso amigável. O homem curvou-se respeitosamente e agradeceu os conselhos ''Voltarei em duas semanas para ver como vocês estão indo! Por favor, fiquem bem!''
Sakura não sabia dizer se era sua mente lhe pregando peças, mas achou ter visto uma expressão contente no rosto de Sasuke quando estavam de saída. Ele a olhava como se de alguma forma estivesse satisfeito com ela. Sakura enrubesceu com esse pensamento.
Quando o casal saiu do posto oficial, os soldados já os aguardavam ao redor da carruagem, totalmente cobertos e silenciosos. Assim que a porta da carruagem foi fechada atrás deles, Sakura não se aguentou e perguntou:
''O que foi aquele olhar?''
Sasuke ergueu uma sobrancelha.
''Lá dentro do posto oficial. Por um momento pensei até que fosse dizer algo legal para mim'' ela sorriu divertidamente, olhando-o de forma travessa.
Sasuke sorriu de canto.
''Admito que fui pego de surpresa ao ver que uma rainha tão colérica poderia se mostrar uma líder tão sóbria''
''Não sou colérica!'' ela se defendeu.
''Mercurial então''
''Nem sei o que isso quer dizer''
''Intempestiva, impulsiva, que age sem reflexão''
Sakura cruzou os braços
''Eu não sou assim!''
Ele sorriu
''E bastante mimada''
Sakura pegou o chapéu no banco ao seu lado e o lançou no rapaz.
''Vê? Mercurial'' ele ergueu a cabeça em presunção, provando seu ponto.
Sakura revirou os olhos, mas não pode deixar de sorrir. Apesar de seu jeito orgulhoso, até que ele não era assim tão ruim.
''Os cavalos estão agitados hoje'' ela comentou alto, ouvindo o barulho dos animais do lado de fora da carruagem ''Parece que os soldados estão tendo dificuldades em lidar com eles. Talvez seja indício de mudança de tempo?'' disse alto, mais para si mesma.
Depois de um tempo viajando na carruagem, Sakura olhou para fora da janela e percebeu que não estava reconhecendo o caminho que estavam tomando. Ela franziu o cenho.
''Será que estamos tomando uma rota diferente? Não me lembro de termos passado por aqui na ida. Para ser sincera, nem ao menos sei onde estamos''
Sasuke pareceu alarmar-se quando ela proferiu aquelas palavras e se aproximou da janela também. Sakura sentiu ansiedade subir pelo seu corpo quando ele olhou seriamente para fora e crispou os lábios. O que estava acontecendo?
''Tem alguma coisa errada. Não saia da carruagem'' ele instruiu e fechou as duas janelas com tranca, batendo no teto duas vezes para que o cocheiro parasse. O coração de Sakura começou a acelerar e sua respiração se tornou irregular. Sasuke desceu da carruagem e ela o ouviu dizer aos guardas que ela o havia informado que esquecera sua luva no posto oficial e que gostaria que um dos cavaleiros voltasse para buscar enquanto eles o aguardariam ali.
Um dos homens limpou a garganta.
''Tem certeza de que não está dentro da carruagem?'' ele repondeu. Sakura observava tudo de um vão da janela.
''Está duvidando da rainha?'' a expressão séria e a voz ríspida de Sasuke fizeram até mesmo ela sentir medo.
A contragosto, o soldado virou o cavalo e começou a cavalgar para longe. Sakura teve apenas tempo de enxergar o cenho de Sasuke franzir levemente antes de subitamente ele puxar uma adaga de algum lugar escondido em sua cintura e arremessá-la na direção do homem. Ela não conseguiu enxergar, mas o urro de dor e o som de algo pesado caindo no chão a fez saber que ele o havia acertado em cheio.
Após um breve momento de choque, rapidamente os outros soldados sacaram suas próprias armas e avançaram na direção de Sasuke. Alguns cavalos empinaram e derrubaram seus cavaleiros, correndo para longe. Eram oito homens o atacando, bradando suas espadas em sua direção, mas nenhum conseguiu atingir sequer um golpe no homem de cabelos negros - Sakura observava com olhos arregalados os movimentos suaves que seu corpo fazia, desviando de cada golpe com uma facilidade assombrosa. Ela pensou que nunca antes havia visto movimentos tão sublimes e leves como aqueles que ele fazia com a katana: ela deslizava sobre sua mão parecendo uma extensão de seu braço, tamanho o controle e precisão que ele tinha ao movimentá-la.
Sakura se viu tão hipnotizada pelo homem que batalhava à sua frente que não percebeu que o nono soldado a se levantar após ser derrubado do cavalo entendeu que não teria chance contra o espadachim e decidiu por salvar o plano de uma outra forma: aproximou-se por trás da carruagem e, usando uma fenda na janela, atravessou a espada no interior do veículo, conseguindo fazer um corte fundo no braço direito de Sakura. Ela gritou com a mistura de susto e dor e se encolheu em um canto da carruagem, arregalando os olhos quando viu que o homem se preparava para transfixar a espada mais uma vez, ciente agora de sua posição e pronto para dar um golpe certeiro.
Os urros dos homens e um apito alto soavam em seu ouvido, sua mente estava a mil, mas mesmo assim ela não sabia o que fazer. Paralisada pelo medo, ela conseguiu apenas fechar os olhos e esperar pela dor, mas ela nunca veio.
Sakura sentiu algo quente respingar em seu rosto e escorrer por sua bochecha, mas não ousou abrir os olhos. De repente tudo estava em silêncio. Ela ouviu alguém se aproximar da carruagem e se encolheu ainda mais, sem saber pelo que esperar. Uma mão tocou-lhe em uma das mãos que ela usava para cobrir o rosto e ela se alarmou, erguendo a cabeça e mostrando para o homem à sua frente duas jades arregaladas e assustadas, as pupilas mais dilatadas do que jamais estiveram.
A imagem de Sasuke não era clara para ela devido à luz do sol que batia contra suas costas e a porta da carruagem, mas ela reconheceu aqueles olhos penetrantes que pareciam poder ler a sua alma nua. Seu cenho estava levemente franzido, o olhar preocupado e manchas de sangue por toda a sua roupa, algumas manchas vermelhas em seu cabelo, rosto e braços.
''Gostaria que não tivesse que ver isso'' ele disse com um suspiro ''Venha, é melhor voltarmos ao castelo o quanto antes''
Quando puxou a mão de Sakura para fora da carruagem, entretanto, ela gemeu de dor e retrocedeu. Só então os olhos dele pousaram no ferimento em seu braço: um corte oblíquo de pouco menos de seis centímetros, pegando até a derme e derramando sangue em um fluxo pequeno. A garota se encolheu e soltou uma pequena lamúria.
Sasuke olhou ao seu redor e apanhou o chapéu caído no chão de carruagem, retirando seu laço rosa. Com uma gentileza que nem ele mesmo sabia que possuía, ele enfaixou o braço dela, apertando firme para estancar o sangue até que eles chegassem ao palácio e um médico pudesse vê-la e esterilizar corretamente a ferida. Era o máximo que ele poderia fazer naquele momento. Sasuke estava prestes a insistir que eles deveriam retornar ao palácio o quanto antes quando Sakura abaixou a cabeça e começou a chorar baixinho.
Ele não sabia o que fazer. Nunca antes havia se confrontado com uma situação como aquela. Seu primeiro impulso para qualquer pessoa seria de mandá-la engolir o choro e se recompor, pois não havia tempo para aquilo. Mas aquela era Sakura, e ele não podia sequer imaginar o que deveria estar passando pela cabeça dela agora.
Após um tempo, ela conseguiu balbuciar:
''Por… Por quê? Eu- Eu… Por quê…?'' mas ela não pôde terminar a frase, o choro agoniado de uma pessoa internamente ferida tomando conta de seu corpo.
Sasuke não sabia o que dizer. Ele não havia convivido muito tempo com Sakura, mas do pouco que havia passado ao seu lado ele percebeu que ela era uma pessoa bastante esforçada. Ele soube, é claro, que o cargo de monarca havia sido despejado em seus ombros sem aviso prévio, e percebia que muito do seu comportamento muitas vezes inconsequente e temperamental era porque no fundo ela não se sentia plenamente capaz de exercer aquelas funções, e temia que outros percebessem isso também. Ela não confiava em si mesma e buscava esconder isso atacando tudo e todos que a faziam se sentir ainda menos confiante - como sua mãe, sua irmã, Karin e ele mesmo.
Suspirando, ele entrou dentro da carruagem e se sentou ao lado dela, colocando uma mão em seu ombro. Era a única forma que ele podia usar para consolá-la. Para a sua surpresa, Sakura se aproximou e apertou a cabeça contra seu peito, abraçando-o forte com o braço saudável e começando a chorar copiosamente, não se importando com suas roupas sujas ou o cheiro repugnante de sangue que ele exalava. Sasuke ficou imóvel o tempo todo, sem saber como agir. Ele temia o que poderia acontecer se ele a abraçasse de volta. Apenas ficou parado em silêncio, deixando-a liberar toda a angústia e frustração que sentia por longos minutos e mantendo sua própria respiração e coração tranquilos, esperando que de alguma forma, aquilo a ajudasse.
E ajudou. As batidas constantes e rítmicas do coração de Sasuke contra o ouvido da garota que repousava no peito dele, somadas à respiração regular e tranquila do rapaz aos poucos trouxeram paz para o coração de Sakura. Ela não sabia ao certo o que aconteceria dali em diante, se eles retornariam em segurança ou se haveria outra emboscada; se amanhã o dia seria melhor ou pior; se esse evento se repetiria ou não… Mas ela sentiu que podia contar com cada próxima batida e cada inspiração do peito encostado em seu rosto. Naquilo ela podia confiar e daquilo ela tinha certeza.
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Sasuke não sabia dizer quanto tempo eles ficaram ali, Sakura abraçada nele com o choro diminuindo de intensidade progressivamente até se tornar um pequeno lamuriar e então finalmente cessar. Ela ficou de olhos fechados sentindo o calor que vinha de seu corpo e ouvindo as batidas rítmicas de seu coração por vários minutos depois que parou de chorar até finalmente piscar algumas vezes e suavemente afastar seu corpo do dele. Ela levantou o rosto e Sasuke fitava-a direto nos olhos. Ele deixou que ela fosse a primeira a falar:
''Vamos voltar…''
Ele concordou com a cabeça algumas vezes e deu a ela mais alguns segundos para se recompor antes de sair da carruagem e estender a mão para ajudá-la a sair. Era a primeira vez que eles davam as mãos, e Sakura sentiu um arrepio correr por todo o seu braço até sua espinha.
Apenas os quatro cavalos presos à carruagem ainda estavam ali. Sasuke soltou três deles e eles rapidamente correram na mesma direção que os que carregavam os soldados correram ao derrubarem os cavaleiros; no quarto cavalo ele ajeitou Sakura em seu dorso e em seguida montou também, segurando-a firmemente com uma mão enquanto a outra guiava o cavalo em um ritmo confortável de trote.
''Eu poderia ir em um cavalo sozinha, sabe…'' Sakura murmurou, envergonhada. Ela não era carregada assim em um cavalo desde quando era pequena, quando seu pai a levava junto em passeios e ela sentava na frente da sela enquanto ele guiava o cavalo sentado atrás dela.
''É melhor deixar o braço direito parado para evitar que volte a sangrar'' ele explicou.
Sakura assentiu, ficando em silêncio por mais um tempo até que finalmente ela precisou perguntar:
''Como sabia que realmente os cavaleiros estavam nos levando para outro lugar?''
Sasuke apontou com a cabeça para o sol, que estava há menos de uma hora de se por.
''Pelo sol, já havia passado da metade da tarde'' disse ''O castelo fica a sudeste das terras onde estávamos e a carruagem estava seguindo para nordeste''
Sakura ergueu uma sobrancelha.
''Para confirmar, mandei que o soldado voltasse ao posto policial, e ele cavalgou na direção contrária para a qual estávamos indo, indicando que o posto ficava a sudoeste dali. Estávamos nos afastando do palácio e indo mais para o norte. Percebeu como todos os cavalos correram na mesma direção, para o mesmo lado que estamos seguindo agora? Eles, sim, foram na direção do castelo, são treinados para voltar à base imediatamente quando sem cavaleiro''
Sakura hesitou por um momento e então concordou com a cabeça. Para onde estavam os levando? E por que seus soldados a estavam traindo? E se aqueles na verdade não eram seus soldados, há quanto tempo havia homens infiltrados na sua guarda?
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Quando a dupla se aproximou da cidadela do castelo, evitando caminhos populosos, rapidamente alguns soldados os avistaram e correram horrorizados ao seu encontro, indagando o que havia acontecido e se apressando para avisar aos servos do palácio que se preparassem para recebê-los e convocassem o médico.
Hinata caiu em choro e Hanabi bombardeou Sakura de perguntas quando finalmente chegaram ao palácio, mas Sarutobi rapidamente apareceu e manejou a situação: enquanto Sasuke informava Mitokado do que havia acontecido, ele encarregou alguns funcionários de atenderem as duas Hyuuga enquanto ele lidava com tudo. O médico não tardou para aparecer e lidar com o ferimento de Sakura, de forma delicada, mas ao mesmo tempo vigorosa, limpando a ferida e dando alguns pontos.
''Receio que ficará uma cicatriz, Majestade'' ele disse enquanto terminava os curativos após o término da sutura.
Sakura concordou com a cabeça.
''Eu tive sorte… Se Sasuke não estivesse lá eu não sei o que teria acontecido comigo''
O rapaz havia acabado de sair da sala - havia se negado a ir banhar-se até que o médico estivesse atendendo Sakura. Agora que ela estava sob seus cuidados, ele se permitiu ser levado para tomar um banho e trocar as roupas tingidas de sangue.
''Estes olhos são bons, Majestade. Como médico, analiso os meus pacientes rapidamente com o olhar e consigo prever com razoável precisão onde está a queixa. Obviamente corri meus olhos pelo senhor Uchiha assim que ele entrou na sala, buscando prever quais lesões precisaria tratar. Mas não encontrei nenhuma. O sangue, espalhado por todo o seu corpo, certamente não lhe pertencia, e não identifiquei sequer um corte em seu corpo'' disse ''Mas uma coisa vi estampada em sua face: preocupação. Não consigo mesmo, mas com a senhora, minha rainha. Era sutil, mas estes olhos cansados já viram muita coisa e veem o que outros não conseguem. A senhora tem um bom homem ao seu lado, apesar de a armadura que ele cria ao seu redor ser firme''
Sakura não respondeu. Ela ficou pensando consigo mesma e revivendo aquela tarde em sua mente. Sasuke a salvara, não havia dúvidas. Ela havia sido injusta com ele antes, estava em débito com ele.
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O sol havia acabado de se por quando Sakura foi informada que dois homens haviam solicitado uma audiência com ela. Seu primeiro ímpeto foi de pedir para que retornassem no dia seguinte, ela não estava se sentindo nada disposta para resolver qualquer assunto que houvesse naquele momento; entretanto, o servo que lhe trouxera a mensagem informou que os homens insistiam que era importante e que concernia o ataque daquela tarde.
Qual foi a surpresa de Sakura quando, ao entrar na sala do trono para receber os dois homens, deparou-se com ninguém menos que Hikui e Samaru, ambos ajoelhados no chão frio, as costas eretas. Sakura sentiu seu coração pular uma batida.
''Senhor Hikui, Senhor Samaru, pediram uma audiência comigo?'' ela perguntou, subindo no altar onde ficava o trono, mas mantendo-se em pé na sua frente. O enorme vitral na parede atrás de si iluminava a sua figura, tornando-a quase divina. Todos os membros do conselho estavam na sala do trono com ela, guardas tomavam conta de todos os cantos e portas, alguns no andar superior que dava visão ao pátio onde se encontrava a rainha, com bestas preparadas. Sua mãe e Temari assistiam do andar superior, do lado oposto de Hinata e Neji, que também estavam atentos assistindo a audiência. Não havia sinal de seu tio ou de Sasori. Sasuke entrou por uma porta dos fundos e se encostou em um dos pilares do grande salão, cruzando os braços e fitando seriamente os dois homens.
''Vossa Majestade'' Samaru se prostrou no chão, encostando a testa no chão ''Imploro pela sua misericórdia''
Sakura sentiu seu coração apertar e ela pensou que talvez não conseguisse se conter e choraria novamente. Não podia ser o que ela estava pensando…
''Quando Hikui foi informado de que a senhora prestaria uma visita a nós, rapidamente contatamos alguns companheiros que também eram contrários ao seu governo. Desde a morte de Sua Majestade, o Rei Kizashi, ansiávamos pela passagem da coroa para as mãos de seu tio, a quem julgávamos mais capaz de governar do que uma jovem donzela nunca antes preparada para assumir tais funções'' ele começou, a voz descompassada em um ritmo acelerado e carregada de arrependimento ''Temíamos pela nossa segurança e pela qualidade de vida que nossas famílias e vizinhos teriam caso o reino caísse em ruína nas mãos de uma governante inexperiente, portanto formamos um grupo de treze homens para pregar a sua queda e a consequente ascensão de seu tio ao trono, certos de que isso seria o melhor para todos''
''Ah'' Mitokado concordou com a cabeça ''Os autointitulados 'Cavaleiros da Libertação', já recebemos denúncias de atos de conspiração da parte de vocês, mas nunca havíamos conseguido desvendar seus rostos e nomes para detê-los''
''Sim…'' Samaru prosseguiu ''Convocamos dez dos onze membros que não estavam nas terras Uchiha hoje de modo que, enquanto eu e Hikui mantivemos a senhora distraída, eles tomaram o lugar dos guardas, para que no seu retorno ao palácio alterassem a trajetória e a entregassem a um membro da comunidade Rebelde, que ofereceu uma grande quantia de ouro se a entregássemos… Só precisaríamos nos livrar do homem que a acompanhava. Dessa forma, receberíamos um retorno financeiro e junto a isso teríamos o sucesso de nosso plano de eliminar a senhora e permitir assim a ascensão do novo rei''
Sakura fechou os olhos e inspirou profundamente . Sabia que se falasse qualquer coisa correria o risco de chorar.
''Isso configura um ato de conspiração e traição contra o reino'' esbravejou Mitokado ''Colocaram em risco a segurança não só de Sua Majestade como de todo o nosso país!''
Hikui permaneceu imóvel, encarando o chão, enquanto Samaru se prostrou mais uma vez.
''Peço o seu perdão, Majestade!'' pediu, a voz embargada de aflição ''O arrependimento corrói minhas entranhas, jamais deveríamos ter ido adiante com um plano como esse! Apenas após conhecer a senhora hoje e ver com meus próprios olhos sua gentileza, temperança e habilidade ao lidar com assuntos do povo que pude perceber como estive errado em relação a senhora todo esse tempo! A julguei mal, meu preconceito me cegou e me levou a caminhos obscuros! Ponho-me diante de Vossa Majestade ciente de meus crimes e aceito a sua justiça, para que faça comigo o que a senhora julgar legítimo. Pois somente agora meus olhos se abriram e posso enxergar a líder à minha frente. Aceito sem qualquer relutância qualquer sentença que a senhora imponha sobre mim''
Os conselheiros murmuraram entre si, olhando para Samaru com desgosto. Sarutobi e Mitokado encontraram o olhar da rainha e assentiram com a cabeça, silenciosamente informando-a o que deveria ser feito.
Sakura fitou os dois homens à sua frente, o coração ferido e a face expressando claramente a sua mágoa.
''Quem é o décimo terceiro cavaleiro?'' perguntou.
''Meu filho mais velho, Majestade'' Samaru respondeu, negando-se a olhá-la nos olhos, coberto de vergonha ''Era o mais novo de nós, não foi necessário nessa empreitada''
Sakura assentiu com a cabeça.
''Quem mais além de vocês dois conspirou contra mim dentre os homens no campo?''
''Nenhum outro, Vossa Majestade. Do acampamento, apenas Hikui e eu; os outros foram todos companheiros nossos, agora mortos pela lâmina impiedosa de Uchiha Sasuke. Restam apenas nós dois e meu filho''
''E quanto aos meus homens?''
Samaru engoliu em seco, encolhendo-se no chão, o corpo quase todo deitado no piso frio do salão.
''Mortos, minha rainha. Os dez cavaleiros que acompanharam a senhora quando saiu do posto oficial eram nossos homens, que emboscaram e assassinaram seus soldados e vestiram suas roupas''
Todos no salão se enrijeceram, as faces mais duras ao ouvir o relato da morte de seus companheiros. Os lábios de Sakura se crisparam e ela ficou em silêncio por um tempo.
''Faça conosco conforme a sua justiça'' Samaru pediu novamente, abaixando a cabeça.
A rainha respirou fundo e caminhou na direção dos dois homens, descendo os degraus que separavam o andar do trono do pátio da sala. Sasuke mudou de posição e deu dois passos adiante, em alerta, mas não a impediu.
Na cabeça de Sakura, mil pensamentos corriam. O que era o certo a ser feito? Havia o certo e o errado naquela situação? O que seu pai faria? O que seu irmão faria?
O que ela faria?
Em seu coração, ela se sentia traída e magoada, mas deveriam esses sentimentos ditar a sua decisão? Qual seria a decisão mais sóbria a se tomar? Havia alguma escolha de que ela não se arrependeria depois?
Ela se posicionou diante dos dois homens a quatro passos de distância e respirou fundo, pensando nas suas próximas palavras.
''Vida longa ao verdadeiro rei'' ela ouviu Hikui murmurar.
A cena que se seguiu aconteceu muito rápido, Sakura mal teve tempo de processá-la enquanto acontecia: súbita e rapidamente, o homem que estava de joelhos levantou um perna e impulsionou o corpo para frente em sua direção, a mão direita alcançando a agulha prateada que levava no cabelo e mirando-a diretamente no pescoço de Sakura, a face contorcida de ódio enquanto ele se aproximava determinado a matá-la.
Oito flechas o atingiram nas costas, três nas pernas e uma agulha de acupuntura se fincou no pulso da mão que ele usava para ameaçá-la, fazendo sua mão se abrir e o homem cair no chão antes mesmo que pudesse alcançar a rainha. Sakura cambaleou para trás e iria cair pela fraqueza que subitamente tomou suas pernas mediante a cena horrorosa a sua frente, mas alguém a segurou por trás. Ao levantar o rosto, ela viu Sasuke atrás de si, apoiando-a para que não caísse, os olhos fixos no homem que caía morto no chão da sala do trono.
Samaru olhava o corpo do companheiro com a face esboçando puro choque, verdadeiramente incrédulo com a cena que acabara de ver.
''Até que ponto pode chegar o homem?'' ele murmurou para si mesmo, os olhos arregalados.
Rapidamente, vários soldados cercaram Samaru e fizeram uma barreira entre ele e Sakura, mas ela balançou a mão pedindo para que se afastassem. Ela pensou por um longo instante, então virou-se para a pintura de seu pai em um dos cantos da sala, olhando-o nos olhos. Ela sabia o que ele decidiria, apesar de tudo.
Mas ela não era ele. Ela era Sakura. E ela governaria da forma como ela acreditava ser justo, não como seu pai ou seu irmão governariam.
''Você pediu o meu julgamento e eu o darei a você'' disse. O homem concordou com a cabeça. Subitamente, ele não tinha mais medo: ele sabia o fim que merecia. Respeitosamente, Samaru se prostrou novamente na direção da rainha ''Suas ações foram imperdoáveis e seus crimes devem receber como punição a morte. Mas eu não mandarei que o matem, Senhor Samaru'' Sakura pausou e respirou fundo antes de prosseguir ''Volte para casa e para seu filho. Conte a ele o que aconteceu. Lembre sempre a ele e a si mesmo que foi por minha misericórdia que sua vida foi poupada hoje - a sua vida não é mais sua, é minha. A partir de hoje, você tomará o lugar de Hikui como supervisor daquele posto e será o responsável por guiar aqueles homens em suas tarefas''
Mitokado arregalou os olhos.
''Majestade!'' exclamou, incrédulo ''Este homem é um traidor do reino, conspirou contra a senhora e com os Rebeldes! Não pode deixá-lo impune!''
O olhar de Sarutobi mostrava que ele compartilhava a mesma opinião que Mitokado.
''Vinte e um homens foram mortos hoje, não quero mais derramamento de sangue'' Sakura respondeu, a voz branda, o coração certo de sua vontade ''Não perpetuarei este ciclo de ódio. Hoje, o senhor me bateu em uma face, mas eu lhe ofereço a outra: ofereço a face da misericórdia, do perdão e da confiança, pois tudo o que quero que façam a mim, farei também a todos. Hoje, veio a mim um homem arrependido de suas ações; eu o recebo e o perdoo, pois a rainha que quero ser tem temperamento brando e coração gentil. Confio na mudança que o dia de hoje causou no senhor e quero que me siga a partir de hoje e me ajude a construir o reino que queremos''
Samaru arregalou os olhos e fitou os olhos calmos e suaves de Sakura por vários segundos até que os seus próprios se enchessem de lágrimas e ele se lançasse sobre seus pés, chorando. A rainha se abaixou e tocou seus cabelos com uma mão, transmitindo com aquele simples toque toda a calma e serenidade que ela podia.
Estupefato, Mitokado curvou-se com má vontade e se retirou - aquilo era um absurdo. Sarutobi, de seu lado, olhava impressionado para Sakura: não tinha certeza se aquela decisão havia sido a mais adequada, nem se ela não traria consequências graves para o futuro, mas orgulhou-se da forma centrada como Sakura lidou com a situação, afastando-se dos sentimentos de traição, desrespeito e mágoa e agindo de forma mansa.
''Como sua primeira tarefa, peço que traga os corpos dos vinte homens que foram mortos hoje por conta dessa rivalidade. Vamos sepultá-los conforme ditam os rituais da igreja''
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A atitude que Sakura tomou não foi bem recebida por todos - sua mãe, Temari e alguns conselheiros abominaram a ideia e não se esforçaram para esconder isso. Alguns dos guardas pareceram ficar sentidos pela falta de justiça contra aqueles que assassinaram seus companheiros, e Sakura fez questão de convocar todos os soldados para explicar sua decisão:
''Imagino que podem estar com raiva de mim por agir dessa forma, não os culpo'' disse ''Hoje, perdemos bons homens, que serviam a este reino e a mim, e eu não posso expressar em palavras a minha angústia em saber que eles se foram, é a primeira vez que perco homens sob meu comando… Em um primeiro momento, a minha vontade foi a mesma que acredito ser a que estão tendo agora: vingá-los executando aqueles que causaram a sua morte. Mas após uma satisfação imediata, de que isso resolveria a nossa situação? Incitaríamos mais ódio, daríamos mais motivos para novos conflitos e com isso abriríamos caminho para a perda de mais vidas. Ao escolhermos não agir de forma impulsiva hoje, não só evitamos a criação de novos inimigos como abrimos a oportunidade de criar novas alianças, de mostrar nosso temperamento sóbrio, diferente do que vinha sendo feito até então. Por muito tempo, fomos regidos por homens que usavam da força bruta e da violência. Eu não sou um homem. Eu pretendo usar da diplomacia e da brandura para resolvermos, de uma vez por todas, situações em que a violência poderia apenas proporcionar soluções temporárias. Isso não será fácil, por isso eu preciso do coração e do espírito de todos vocês. O reino é todos aqueles que o servem e que querem o seu bem e a sua prosperidade, mesmo que partindo de ideias ruins. É nosso dever alinhar as ideias do nosso povo e mostrar que juntos podemos construir a prosperidade que queremos ter!''
O ânimo dos soldados foi se revigorando à medida que o discurso progredia, e ao seu fim urros de aprovação foram ouvidos por todo o pátio externo. O novo os assustava, é claro, mas por algum motivo eles sentiram segurança em sua líder, acreditaram que ela os guiaria para a paz.
Da sacada de um dos quartos, Sasori observava a cena com um sorriso cético. Ao seu ver, ela não tardaria para ser derrubada no ritmo em que as coisas iriam. Ninguém a apoiaria por muito tempo com essas ideias 'inovadoras' sobre como reinar. Sakura estava cavando a própria cova.
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Sasuke estava escorado no batente da porta do quarto de Sakura quando ela chegou, brincando com uma agulha de acupuntura entre os dedos.
''Obrigada por hoje… de novo…'' ela murmurou baixinho, sem jeito. Era realmente uma donzela indefesa perto dele.
''Por que deixou o homem ir?'' ele indagou, olhando Sakura nos olhos com o cenho franzido.
Sakura ergueu uma sobrancelha.
''Você não escutou nada do que eu disse nas últimas horas?''
''Quero que seja sincera''
A garota tentou não se ofender - ele achava que ela estava fazendo teatro para os outros?
''De que adiantaria ordenar a execução de Samaru? Seu filho ficaria com raiva e procuraria vingança, outros que o conheciam e aos outros membros dos Cavaleiros da Libertação os veriam como mártires e validariam suas intenções, abrindo margem para a criação de outros grupos com os mesmos ideais no futuro. Poupando Samaru, eu o dou outra chance para viver e se redimir, para contar ao seu filho e a todos os que conhece com as mesmas ideias sobre meu tio ser um monarca melhor o que aconteceu aqui hoje e como eu não quero violência e sim espero a paz e a prosperidade, assim como eles. Temos agora um novo líder para o posto oficial que é respeitado pelos trabalhadores da área e que irá se esforçar mais do que nunca para realizar um bom trabalho como forma de se redimir''.
''Você poderia ter sido morta hoje'' ele a relembrou ''Se Sarutobi não tivesse insistido para que eu a acompanhasse, você teria sido. Ou pior''
Sakura o encarou por alguns instantes.
''Mas não estou, você me salvou. Você estava lá. Eu não vou tomar decisões com base no que poderia ter acontecido e sim com base no que aconteceu''
Sasuke não entendia, seu rosto estava contorcido em confusão.
''Como pode perdoar um homem que nunca fez nada para merecer isso?''
Sakura soltou uma leve risada.
''Que virtude há em amar apenas quem nos ama ou em perdoar apenas os que são bons conosco?''
Sasuke não gostou, balançando a cabeça negativamente.
''Não espere que sua gentileza com os outros faça com que os outros pratiquem o mesmo por você'' ele advertiu.
''Não espero'' ela garantiu ''Há pessoas justas que morrem em sua justiça e pessoas más que vivem muito tempo apesar de sua maldade. Não faço o bem esperando que façam o mesmo para mim, mas para que pelo meu exemplo eu inspire outros a fazerem o bem também'' ela se aproximou dele ''Sasuke, obrigada por hoje. Eu devo muito a você, muito mesmo. E apesar de você não concordar com as minhas atitudes de hoje, em partes foi a sua força que me permitiu ter a coragem para tomar a decisão que eu julgava certa. Obrigada''
Ela se aproximou para dar um abraço nele, mas não sabia se deveria. Como ele não fez nenhum movimento indicando que aceitaria o gesto, ela retrocedeu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sasuke apenas a observava.
''Foi um dia longo, devemos descansar. Boa noite, Sasuke, vejo você amanhã''
Com essas palavras, Sakura entrou no quarto e a fechou atrás de si, recostando-se no batente e escorregando até o chão. Kooi, que já estava no quarto há pouco mais de uma hora, levantou a cabeça e a encarou, trocando olhares entre ela e a porta. Ela sentia que Sasuke ainda estava do lado de fora, parado, meditando sobre o que Sakura havia dito - e demonstrado - naquele dia. Diferente de tudo o que ele já havia visto ou acreditado.
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Espero que tenha gostado! Tenho me divertido escrevendo esta estória! Ainda não tenho certeza do rumo que tudo vai tomar, as ideias vivem mudando e se misturando na minha cabeça - não tem sido fácil!
Agradeço às reviews que recebi no capítulo 5, vocês são muito gentis! Obrigada ao Guest que enviou uma review e não consegui responder no privado! Fico muito feliz que esteja gostando da narrativa! Espero que este capítulo tenha proporcionado uma leitura gostosa!
Obrigada pelo seu apoio!
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Com carinho,
BlackfanDiamond
