N/A: Crepúsculo não me pertence.
Olá! Essa fic faz parte do Projeto One-Shot Oculta, um amigo oculto entre autoras do fandom de Crepúsculo. Confira as regras e todas as participantes na página bit (ponto) ly (barra) POSOffnet
Você também encontra o link diretamente no meu perfil, na aba de Favorite Authors. Essa fanfic é dedicada à minha amiga oculta Jojo. Espero que goste!
Imagine só a minha surpresa quando eu descobri que o alvo da vez é o maior gato. Tipo, super gato mesmo! Alguém que eu com certeza teria como crush aos 13 anos. E aos 14. E nos dias atuais.
Mas como tudo na minha vida é uma piada de mau gosto, obviamente eu teria que achar o serviço interessante. Quase me dá pena de matar ele. Eu disse quase.
Estou sentada em um avião de carga, a caminho da localização do alvo. Dessa vez, os chefes querem tentar uma abordagem diferente: vou estar na zona de neutralização sem disfarces, sem documentos falsos, sem alterações na aparência. Eles querem que eu esteja o mais confortável possível no papel.
Mas na verdade, não vai ser algo tão natural... Pois estarei usando meu nome verdadeiro. O que ninguém conhece. O nome que eu tinha antes de ser pega pela polícia, antes de começar a fugir, antes de ser contratada por eles. Só que por estar interpretando diversos papéis ao longo dos anos, não sei mais se esse é o meu natural. Não sei se estarei confortável me olhando no espelho e vendo os fantasmas do passado em cada linha de expressão. Mas ordens são ordens, e eu gosto do dinheiro que cai na conta ao fim de cada missão, então aceitei sem pestanejar.
Para meus colegas de serviço, que não sabem com que identidade eu cheguei na agência, esse é um disfarce. Eles não sabem que essa é a cor do meu cabelo de verdade, ou que esses são meus olhos, ou que meu nome é realmente Isabella Marie Swan. Apenas os chefes sabem disso. Muito em breve, a família Cullen saberá. E eu mal posso esperar por isso.
Enquanto repasso as informações contidas na ficha da família do alvo, encontro um post-it com uma letra que já conheço.
Lembre-se das regras.
Engraçadinho.
Alguém, algum tempo atrás criou uma lista de regras, algo sobre fazer o serviço rápido, e cair fora antes de chover merda. Clássico, não é? Mas vou te dizer uma coisa: cada caso é um caso, e cada agente é um agente.
Em cada caso eu analiso a situação, o alvo, as variantes envolvidas, o contexto, como eu vou abordar, e decido qual o melhor caminho. Como eu assumi diversas personas ao longo dos anos, fica difícil agir da mesma forma. É quase como quando um escritor coloca um personagem no papel e em certo ponto, ele cria vida própria, sabe? Às vezes eu perco um pouco do controle...
Ok, eu perco todo o controle. Mas nunca falhei, então leve isso como algo positivo. Claro que os chefes não levam, mas, enfim… Ossos do ofício.
Faltam alguns dias para a missão realmente começar e estamos na toca, coletando informações recentes e observando os passos da equipe de segurança de Carlisle.
Obviamente ele não é apenas um candidato à presidência.
O cara loirinho do setor de TI detectou proteções até mesmo nos telefones pessoais da família. Então, se ele é limpo, porque seus familiares têm telefones monitorados? Nós fomos atrás deles, para monitorar e saber se há preocupações.
A filha mais velha, Alice Cullen, não parece uma ameaça. Ela usa roupas que as pessoas consideram parte do estilo hippie, e talvez ela também tenha alguns hábitos… Verdes. Que não prejudicam a natureza.
Nada contra. Infelizmente já experimentei de tudo nesse trabalho, e posso dizer que a cannabis não é pra mim. Mas é condizente com o estilo de vida de Alice. Pelo que estamos vendo nos últimos meses, ela apenas gosta de sair e ficar de boa em algum parque com seus amigos hippies. Ela não se envolve em escândalos, mantém um perfil fechado com poucos seguidores nas redes sociais, e é viciada em usar camisetas de bandas que já acabaram. Coitada.
Por outro lado, temos Edward Cullen. Não há informações sobre ele, redes sociais, amigos que aparecem na sua rotina, vícios, gostos estampados em roupas ou nas suas ações. Tudo o que sabemos é que ele tinha TDAH e isso rendeu bullying durante a fase escolar. Fora isso, o cara não existe. E isso é estranho. Porque hoje em dia, um jovem de 27 anos com aquele cabelo e aquele físico, com certeza seria fã de selfies no espelho da academia ou faria corridas semi nu todas as manhãs. Mas esse cara nem sai de casa.
A mulher de Carlisle, Esme Cullen, é a famosa esposa troféu. Pinta no jardim eventualmente, faz pilates fora de casa 1x na semana. Típico.
Apesar de parecer uma família normal, tenho minhas desconfianças. Eu mesma era normal, parecia normal e me comportava como gente normal. Mas se eu fosse normal, eu não seria contratada pela agência, certo? E, se eles fossem normais, eu não estaria os vigiando, certo?
— [...] eu e minha família agradecemos muito pela presença de todos. Vocês sabem o quanto esta cerimônia anual é importante. E sendo sincero, os cheques de vocês também são.
Todos no salão riram diante do humor do anfitrião da noite. Carlisle Cullen era a simpatia em pessoa. Beleza, carisma, e uma boa escolha de palavras eram o carro chefe de sua campanha rumo à presidência. Mas pouco me importava suas manobras de marketing ou sua linguagem corporal. Eu estou aqui porque a família Cullen é alvo de um ataque. Nesta noite. Em meio a um jantar com mais de 500 pessoas. No salão cercado por equipes de segurança. Não poderia existir maneira melhor de me introduzir nessa história toda, certo?
A maioria dos convidados não sabe, mas existem duas grandes organizações conduzindo a maioria das cidades nos EUA. Geralmente são duas principais e algumas outras que tentam entrar em cena mas no fim acabam se agregando aos grandes nomes. E aqui não é diferente. Para melhorar ainda mais o cenário, a família Cullen é responsável por um desses grupos e que recentemente atacou o líder do outro grupo, matando-o e deixando o trono livre para o herdeiro.
Que tem 5 anos.
Ou seja: eles estão putos e querem retaliar. E Edward Cullen é o alvo deles. E meu também.
Enquanto eu brincava de quebrar a quarta parede e me explicar para pessoas que não existem enquanto tento fazer da minha rotina menos solitária, eles entraram.
É mais rápido do que eu pensava, e eles nem esperaram Carlisle Cullen descer do palanque. Em questão de 30 segundos, cerca de 50 homens utilizando ternos marrons, se infiltraram por todo o salão, desarmaram seguranças, apagaram as luzes, causando pânico.
Matar Edward Cullen no meio de centenas de pessoas deveria ser fácil né? Poderia ser interpretado como crime político, e eles nunca seriam vistos pela mídia. Mas em questão de poucos segundos tudo vira um caos, pois Edward Cullen fugiu e o grupo rival não consegue mais controlar a situação.
Bem, saibam que ele não fugiu. Eu estou seguindo ele pelos caminhos no subsolo que ele gentilmente me mostrou enquanto fugia.
O idiota não sabe olhar pra trás.
— Edward Cullen? - pergunto enquanto tento me aproximar dele.
Obviamente ele não para sua corrida, e sinto que ele está se distanciando. E obviamente seria difícil para mim acompanhar seu ritmo, já que o rapazinho tem cerca de dois metros apenas nas pernas.
Ele me olha por cima do ombro diversas vezes, mas conforme os minutos de corrida se passam, percebo que o ritmo cai. Em 2 minutos, ele apoia as mãos nos joelhos e respira com dificuldade. Diminuo o passo até chegar perto o suficiente para ver o cara usando uma bombinha.
Legal. Asmático. Não vai ser difícil perder ele de vista…
— Quem é você? - me interrompeu antes que eu pudesse concluir qualquer observação.
— Edward, meu nome é Isabella. Preciso que você venha comigo.
— Eu não te conheço, por que deveria ir com você?
Porque você é meu alvo e eu preciso te matar, baby.
— Porque eu sei a melhor forma de fugir de uma situação dessas. E se me permite dizer, você não vai muito longe com esse… probleminha.
— Hey, a asma afeta milhões de pessoas, ok? - agora ele já conseguia respirar e se levantou para falar olho no olho. Uau, e que olhos hein…
— Ok garoto, eu SEI disso, mas não é hora para defender sua condição de vida ou algo assim. Se puder me acompanhar, vou garantir sua fuga daqui o mais rápido possível.
Me dirigi a porta que eu sabia que estaria aberta e a empurrei com o pé enquanto removia uma arma que estava escondida . Era o melhor jeito de inspirar confiança. E se isso não impressionasse, eu esperava que o movimento de olha-como-eu-tiro-uma-arma-do-vestido fizesse o trabalho. O arquivo citava que o bonitinho gostava de mulheres perigosas. Mesmo que agora ele não pareça mais aquele cara misterioso, e sim um panaca que não consegue coordenar as próprias pernas. Será que era isso que queriam esconder afinal de contas?
Não olhei para ver se ele estava me seguindo, mas ouvia seus passos e eventualmente enxergava seu reflexo em alguma parte bem polida do chão.
— Esse é o seu carro?
O idiota apontou pro meu lindo e icônico conversível após sairmos nos fundos do salão. Sim, eu sabia que qualquer saída daria ali.
— Sim, algum problema?
— Bem… Ele não parece exatamente uma máquina de fuga e…
— Máquina de fuga?
— É, algo que nos tire daqui rapidamente.
— Garoto - respirei fundo - não sei que tipo de filme você anda vendo, mas essa é a máquina de fuga da vida real. Mesmo que pareça um carro antigo, ele foi modificado conforme minhas necessidades. Então entra nessa merda e vamos logo.
— Ok.
Conforme saímos do estacionamento e pegamos a estrada, um silêncio se estabeleceu entre nós. Após chegarmos no asfalto - o salão estava incrivelmente afastado da civilização, perfeito para um crime - eu acionei o rádio tentando sincronizar na rádio mais próxima. Não queria passar mais um minuto em silêncio com esse cara.
— Então - ele pigarreou - o carro foi modificado? Quem fez isso?
— Claro, para atender as minhas necessidades.
— Que são….
— Especiais.
— Ok, você espera que eu entre no seu carro e fuja tranquilamente sem nem saber em que tipo de máquina mortífera eu estou sentado, e que tipo de agente do governo você é.
Garoto chato. Nem pra facilitar meu trabalho.
Fico em silêncio enquanto o dia amanhece e eu penso numa boa resposta.
— Eu não sou do governo.
— Então a quem você serve?
— A interesses particulares.
— E esse interesse envolve me salvar?
— Sim.
— Ok então. Obrigada.
Acho que isso foi o suficiente porque ele se cala e passa o resto da viagem apenas apreciando o vista da estrada e das ondas batendo ao longe.
Chegando perto da cidade eu percebi que ele estava dormindo. Estacionei na beira da praia e comprei um lanche, afinal eu estava morta de fome e ainda por cima usando um salto. Eu mereço, né?
Sim eu também pedi algo pro garoto. Não pretendo deixar ele em cativeiro.
Quando estou chegando de volta ao carro, começo a planejar como vou seguir daqui pra frente. Tem sido confuso dirigir no meu carro e não usar um disfarce. Mas é um trabalho. Não posso me deixar levar por sentimentalismo.
Espero que ele goste de salada como acompanhamento porque eu acho que…
Oh meu deus.
Esse cara.
Ele está simplesmente tirando a camisa enquanto se exibe encostado no meu carro.
Que liberdade é essa que ele acha que tem? Por que ele precisa ser tão bonito? Ele não estava dormindo?
— Eu te deixei dormindo - disse entregando o seu lanche.
— Eu sei, mas eu notei que o balanço da estrada e a música pararam.
— E cadê a camiseta?
— Bom - ele quase pareceu tímido - eu babei em toda ela. Não consigo ficar usando isso. Você não pode me emprestar uma?
— O que te faz pensar que eu tenho uma camiseta do seu tamanho no meu carro?
— Você me tira do meio de uma confusão, tem uma arma por baixo do vestido, tem um carro esperando e obviamente sabe para onde está indo. Com certeza existem muitas coisas para situações de emergência nesse carro. Provavelmente no porta malas.
Perigo. Perigo. PERIGO. PERIGO!
— Desculpe - ele passa a mão pela nuca - eu gosto de filmes sobre espiões.
— Eu não sou uma espiã.
— Mas é preparada como tal.
— Bom ponto.
Dou a volta no carro e abro o porta malas.
— Meu pai era policial - digo enquanto puxo uma mala - e sempre me disse que ter roupas masculinas era bom, pois servem para qualquer tamanho. Em qualquer situação. Onde quer que eu estivesse.
— Então você passava muito tempo fora de casa se metendo em... Situações.
Ele é esperto.
— Sim, eu... Gostava de viajar na minha picape. Ela geralmente quebrava no meio do nada, porque era velha. Eu não tinha como pagar por algo melhor, e queria viajar. Então eu dava meu jeito. Mas esse jeito me fazia ter que ir pra vários lugares inusitados, e às vezes me colocava em situações onde eu precisava ajudar outras pessoas.
— Entendo. E o que mais?
Engulo o nó na garganta. Lembrar daquela época era algo difícil.
— Eu tenho um kit de primeiros socorros, saco de dormir, algumas roupas térmicas, uma caixa com comida enlatada que eu reponho sempre, e algumas armas.
— Armas? Quem não é agente do governo agora?
— Imbecil. Armas de caça.
— Caça de humanos? - ele ri, parecendo se divertir.
— Não... Mas elas servem.
Silêncio.
— Ok... Então... Uma camiseta para mim?
— Claro.
Depois do deus grego trocar de roupa e se alimentar, seguimos viagem numa atmosfera tranquila. Ele perguntou sobre as viagens que eu fiz e eu contei, apesar de isso ser um pouco difícil. Todas essas viagens tinham um motivo. E eu queria esquecer. Mas era inevitável.
Edward se mostrou muito agradável, e não apenas um rostinho bonito que troca as pernas enquanto caminha e tem dificuldade para respirar.
Estacionei em frente a casa e esperei pela sua reação.
Nada.
Silêncio.
Nem um músculo da face se mexeu.
— Então, é aqui que vamos ficar.
Nada ainda.
Saí do carro e fui em direção a casa. A essa altura ele não iria sair correndo ou ligar para o resgate, então fiquei tranquila enquanto abria as janelas da casa toda e colocava os móveis da varanda pra fora.
Eu ganhei essa casa como presente no meu primeiro ano de serviço. Eu bati um recorde de missões concluídas e eles acharam legal me dar essa lembrança.
Acabou sendo um presente bem útil. Ninguém sabe a localização. Os únicos vizinhos são conhecidos da agência, então qualquer movimentação suspeita será monitorada. E a vista é bela. Uma ótima distração para…
— A vista é linda.
Exatamente. Para as vítimas.
Oh meu deus, é horrível eu dizer vítimas. Por isso falamos algo, ou serviço. Torna a situação mais tranquila de lidar.
— Sim, é. Por isso eu amo vir aqui - eu respondo.
— Quando tudo dá errado.
É bizarro como ele tem alguns pensamentos tão certeiros.
— Sim. E não também. É bom pra descansar de tudo, mas também é bom para festas. Sem vizinhos próximos, sem reclamações.
— E também para assassinatos.
SÉRIO? ELE LÊ MENTES?
— Claro. Fica esperto.
— Você também.
Olho para ele e vejo o sol refletindo em seu cabelo. Surgem diversos tons de cobre e castanho, alguns caindo pela sua testa. Seu maxilar é bem definido, seus olhos são de um verde profundo e sua boca parece atrativa. Seus braços são evidenciados pela camiseta justa, e seu peito…
Foco.
— Eu tenho mais chances, eu conheço a área.
— Claro. Se você diz - ele tira a camiseta. Simplesmente como se fosse natural. Eu estou chocada.
Ele pisca pra mim e passa pela porta, indo em direção a praia.
Não posso acreditar. Ele além de lindo é charmoso. E é muito difícil equilibrar isso com a imagem desajeitada que às vezes ele mostra.
Pior ainda, é muito difícil equilibrar todas essas características com a ideia de que ele é o herdeiro do crime. Eu estou ferrada.
É a manhã seguinte e eu ouço batidas na casa. Não são batidas. São… o que?
Descendo até o primeiro andar, preparada para ser surpreendida por um bandido qualquer, eu encontro Edward Cullen, o desgraçado, batendo a bola de basquete na parede da casa. Dou uma rápida olhada no relógio da cozinha e tenho a infeliz constatação de que são seis horas da manhã de um domingo. Madrugada.
— Hey, Belle.
— É Bella.
— Tanto faz. Quer jogar? Eu sou doido no basquete. Faz anos que não chego perto de uma cesta. Vamos?
Quando eu recobro a consciência de novo - é muito difícil acordar à noite e conseguir se manter lúcida - ele está saltando igual um garotinho ao redor da tabela. Feliz com seus pontos e fingindo que seus erros são um obstáculo.
— Quantos anos você tem mesmo? - pergunto enquanto abro as janelas. Melhor aceitar que estou acordada e fazer um balde de café.
— Vinte e cinco, por que? Está interessada? Não gosto de coroas - e bate a bola na parede perto da janela de onde estou.
— Ha ha, hilário. São apenas dois anos de diferença, esperto.
— Mas com essa cara você parece pelo menos uns dez anos mais velha.
Não penso. Quando dou por mim, estou jogando um vaso de flores nele. Uau, temperamento explosivo. Tinha me esquecido desse traço de personalidade.
— BELLA!
— Você me chamou de velha. E me acordou de madrugada. Um vaso de flores não é nada.
Demoro a ouvir o jogo continuar depois que entro. Ele vai pensar duas vezes antes de me incomodar novamente.
Alguns dias foram necessários para criar uma rotina. Edward corria na praia e mergulhava ao amanhecer, eu cozinhava o café e depois nós passávamos o dia na biblioteca. No anoitecer, a janta era na varanda observando o pôr-do-sol.
Simples.
E eu não sei em que momento aconteceu, mas passei a considerar Edward como uma boa companhia.
Totalmente errado. Fomos instruídos a entrar no campo, e entrar de cabeça. Quase como se divertir, sabe? Mas sem se apegar. São as regras. E eu… Não sei. Acho que as coisas ficaram confusas por eu estar sendo eu mesma sem disfarces. Achei que seria fácil traçar uma linha. Mas me perdi no processo.
Na maior parte do tempo eu me divirto com Edward, e no fundo aquela voz conhecida por todos os agentes me diz pra fazer um bom trabalho, sem deixar rastros.
Nesse caso, talvez eu esteja deixando um rastro em mim.
— Café? - Edward me estende uma caneca. Eu estou sentada na varanda lendo um novo romance que achei na loja da cidade, mas acho que esqueci dele e fiquei divagando um pouco.
— Com caramelo?
— É óbvio! Eu sei o seu favorito - ele pisca. Não demorou muito pra ele perceber que eu sou uma pessoa muito metódica com minhas refeições. Não mostre suas fraquezas em campo. Seja o personagem. É difícil quando o personagem sou eu mesma.
— Muito em breve você vai poder traçar um perfil meu. Ótimo pro seu arquivo.
— Ele já está pronto - dá um gole no seu chá e olha pra longe. Eu vejo o sorriso ameaçando aparecer, mas ele sabe controlar.
Ao longo das semanas essa brincadeira de ele achar que eu sou agente secreta e eu rebater. Era algo perigoso? Atraente? Eu virei esse tipo de profissional que fica excitada com o perigo da ação. Não sei. Mas funcionava. Parecia uma piada interna, algo que sempre preenchia os momentos que faltavam palavras. Mas ele não sabia que tinha um fundo de verdade. Eu espero que não, pelo menos.
— O que você acha de me deixar dirigir aquele carro? - ele me pergunta.
— O quê? O meu carro, que não é uma máquina mortífera?
— Sim, esse mesmo.
— Por que, Cullen?
— Eu queria te levar pra fazer alguma coisa, sei lá. Ficamos muito aqui.
— Uau - isso me pega de surpresa. Fomos de dois conhecidos que assumimos uma rotina no desespero, pra… isso? O que era isso? Acabo concordando com a cabeça, e Edward saiu em direção a casa enquanto estou pasma, sentada tentando processar.
Volto meus pensamentos para o dia e percebo que estou envolvida demais no processo. Coloquei a emoção na mesa, a vontade de conhecer e de mergulhar na vida do alvo. Isso também é uma regra, algo como não se deixar levar, não deixar suas emoções na borda. As coisas podem se misturar.
— A que horas você prefere? - vejo apenas seus cabelos na porta.
— Acho que pode ser depois do café?
— Claro, isso é bastante tempo, mas me dá mais chance de incrementar o passeio. Descanse enquanto isso.
Então aqui estávamos. Edward dirigindo e eu no banco do carona. Faz uns 5 dias que só chegamos e começamos a existir juntos, e só agora paramos para conversar. E eu posso dizer que… gostei. Realmente. Não sei o que está acontecendo, só sei que foi muito rápido. Eu às vezes brincava de pensar que em uma missão isso aconteceria. Eu me apaixonaria e passaria todos os dias da missão tentando saber mais sobre o alvo, e tentando achar uma maneira de escapar.
O que eu realmente acho que aconteceu é que eu gostei da normalidade. Por isso que agora eu estou aqui sentada igual uma boba vendo ele falar mas não prestando atenção em nada. Ele é lindo. Ele conversa por horas a fio se você quiser. Ele grava seus hábitos e logo faz de tudo pra te agradar.
E eu não sei onde isso nos coloca.
Quando dou por conta, faz cerca de 10 minutos que Edward dá voltas e voltas pela mesma área. Por mais bonito que seja, acredito que estamos perdidos, mas sei que constatar isso vai ferir o ego dele. Então prefiro fingir que estou aproveitando a vista e que não percebi o erro.
Não preciso fingir por mais que 5 minutos. Ele logo escolhe um trecho escondido por árvores e estaciona, nos dando uma boa vista do mar - apesar de estar perdido.
— Ok, agora é o momento que eu admito não ter ideia de onde estamos. Eu me perdi, desculpe.
Ele fica tão bonitinho assim, sem jeito, meio envergonhado… Não sei por que estou pensando nisso.
— Eu percebi a algum tempo já, pirralho - digo saindo dando um salto por cima da porta, e pegando as coisas no banco traseiro. Levo tudo para um trecho com grama logo a frente, e organizo os lanches em cima de uma toalha fofinha que encontro na cesta. Edward foi realmente certeiro montando isso, pois toda a comida e decoração dão um charme a mais no espaço. Mesmo que a vista já seja algo espetacular - apesar de não estarmos onde ele queria.
— Então, você me deixou dirigir por algum tempo, e nem me poupou de ficar me torturando enquanto eu pensava que estava estragando tudo?
— Você não estragou - abro a garrafa de suco que encontro - porque essa vista aqui já é linda. E mesmo se não fosse, é um espaço silencioso e temos boa companhia.
Fico alguns minutos em silêncio até me dar por conta de que ainda estou sentada sozinha. Quando olho para o carro, vejo que estou sendo observada. Edward me olha como se nunca tivesse me visto antes, e sorri. Não sei o que se passa na cabeça dele, e fico mais confusa ainda quando ele vem até mim e beija minha testa, antes de sentar e começar a comer. Eu perdi alguma coisa?
Agora eu sei onde aquilo nos coloca. Oh meu deus. Oh meu deus sim essa é a hora de quebrar a quarta parede porque eu não tenho com quem surtar. Edward desgraçado Cullen ME DEIXOU PELADA NO ALTO DE UMA COLINA E FEZ TUDO QUE TODOS OS LIVROS ERÓTICOS SUGEREM.
Não posso surtar a respeito disso porque estou indo para uma das ligações semanais com os chefes. Eu decidi que isso seria interessante quando estava preocupada com o andamento da missão, mas agora vejo que naquela época já não fazia diferença. Eu estava apaixonada. Agora que provei, estou mais ainda. Foda-se as regras. Eu vou dar um jeito.
- Bella…
- Shh. Me deixe dormir.
- Bella, tenho que te mostrar uma coisa. Tenho trabalhado nisso a semana toda.
- Edward, são - olho para o relógio ao lado da cama - sete horas da manhã. Qual é a sua com essa mania de me acordar tão cedo?
- Juro que é rápido. Depois deixo você dormir o dia todo.
- E faz o almoço também?
- Sim, se você quiser.
- Ok, você tem minha atenção - me levanto e Edward ri baixinho.
Acabou que o que Edward queria me mostrar se tornou um enorme passeio e não voltamos para casa até a noite. Quando chegamos, fizemos coisas inapropriadas para menores até altas horas da noite. E agora estamos olhando para as estrelas enquanto ele escova meu cabelo com os dedos.
Não houve uma conversa. Simplesmente voltamos do passeio dias atrás e tudo aconteceu. Estamos no mesmo quarto. Dividimos refeições, banho, roupas, e tudo que vem incluso no pacote casal.
Somos um casal? Nem isso eu sei dizer. Sei que eu gosto. E não quero que acabe.
- Me conte sobre seu pai.
Odeio esse cara e suas perguntas.
- O que você quer saber?
- Não sei, qualquer coisa. Só sei que ele te ensinou como se virar por aí na estrada. E provavelmente também te ensinou a atirar, já que ele era policial.
- Sim, é isso. Ele passava muito tempo fora de casa então não tem muito o que falar.
- E o que mais?
Respiro fundo. Ele não vai descansar enquanto não tiver mais. Decido aprofundar a personagem, mesmo que doa saber que dessa vez é real.
Ele era da polícia. Na minha infância, ele ficava na delegacia. Então em algum momento da adolescência ele saiu e começou a "ajudar" em outras regiões - enfatizo a palavra ajudar para que ele entenda a situação que eu não entendia mas sabia que era diferente.
- Ajudar? Ele inclina a cabeça, e usa sua mão para arrumar uma mecha da minha franja que cai pelo rosto.
- Isso. Prestar apoio, ele dizia. Essas viagens duravam dias. Uma vez chegou a durar mais de semana. E eram frequentes. A última vez em que estivemos juntos por tanto tempo, foi depois dessa viagem. Ele me ensinou a atirar, a montar acampamento e passamos o fim de semana juntos. Depois, ele começou a viajar mais e então… Fomos nos distanciando.
O que oculto de Edward é que naquele tempo junto com meu pai, ele me segredou diversas coisas. Me contou sobre as origens das missões, o motivo, e naquela nossa viagem ele me ensinou a atirar, montar acampamento, e diversas coisas sobre a agência. Me deu instruções sobre como fugir, como me esconder, como conseguir documentos falsos. Me ensinou a limpar rastros, registros, como me relacionar apenas para conseguir o suficiente e sem levantar suspeitas. Mas esqueceu de me informar sobre o trabalho sujo que ele fazia. Sobre as traições que o levaram a desaparecer do radar deles em alguns anos. Sobre o perigo que eu corria por causa de seus atos.
Não conto para Edward que fui contratada por uma agência de serviços secretos que tinha como objetivo me proteger. Não conto que passei anos me escondendo em outras identidades com o objetivo de fugir dos inimigos do meu pai. Não conto que ele nem pensou em me informar sobre os motivos que o fizeram fugir, os serviços sujos que ele fez.
- Daddy issues, como os jovens dizem - sorrio para tentar aliviar o clima.
- E então, nunca mais se falaram? Ele não tem interesse na sua vida atual ou em saber… Se você está bem?
Será que ele imagina que meu pai nem sabe onde estou?- Pois é, nem isso. Nós falamos raramente - minto - e ele apenas me informa que está bem e pergunta se preciso de algo.
- Que cuzão. Ele deveria querer saber se a filha está bem ou precisa de ajuda. Nem sempre o treinamento de selva é o suficiente, né?
Ele sorri e sai andando pelo deck da casa. Um arrepio passa pelas minhas costas. Espero que o treinamento dele e da agência, somados ao meu instinto, sejam suficientes
Recebemos uma carta com letras desenhadas em sangue. Um aviso. Eles sabiam onde estávamos e com quem. Não sei como isso passou pela segurança, mas não é mais seguro.
Precisamos fugir. Não só pela ameaça que Edward enfrenta, mas por que eu quero fugir daquela pessoa que criei. Eu não queria matar Edward Cullen. Eu quero ter a chance de conhecê-lo sem a sombra dos nossos mundos nos cercando. Sem máscaras. Sem regras.
— Nós estamos indo amanhã, Edward.
Abracei sua cintura e ouvi sua respiração. Esse simples ato me fazia ter certeza de que tudo ficaria bem.
Tudo acabou muito rápido. Em um minuto, éramos um casal se conhecendo e curtindo as férias. Em outro, uma gangue invade a nossa casa e precisamos fugir pelo porão.
Antes mesmo que pudéssemos terminar os preparativos para ir embora.
Eu sabia que daria errado.
Mas deu errado de um jeito totalmente inesperado.
Eu conduzi Edward pelo caminho escondido em um fundo falso no porão. Claro que eu não fazia ideia de onde daria, mas fui mesmo assim. Era melhor que voltar.
Saímos em outro porão. Maravilha.
— Edward, cuidado.
Ele apenas abriu a porta e sumiu da minha vista. Vi sua mão estendida e segurei sem medo.
— Acho que estamos bem, só sair pela frente e trancar a porta.
— Claro que sim, Agente.
Congelei.
— Não, nós não somos fruto da sua imaginação. Pode se virar.
Eles estavam lá. No porão. Onde saímos. Nos esperando.
- Você deve estar se perguntando como. Eu vou te dizer uma coisa. Vai ser uma rápida explicação. Esse serviço não era sobre Edward Cullen. Era sobre Isabella Marie Swan. Na verdade, Charlie Swan. Mas não conseguimos nada dele há algum tempo, então tivemos que mudar nossa abordagem. Você é o alvo.
Você é o alvo.
Me viro para Edward mas já sei tudo.
A agência. As famílias. A guerra. Meu pai.
Ele realmente estava fugindo da agência. A história sobre ele ser corrupto e ter traído seus superiores, era pra me pegar. E Edward…
- Eu achei que te conhecia. Te amava. Que estávamos indo a algum lugar juntos.
— Não baby, você conhecia a pessoa que eu criei. Você acha que ama a pessoa que eu criei. Apenas isso. Dois jogadores jogando lado a lado, mas uma não sabia que na verdade não era mais a jogadora a dar as cartas.
Ouvi o gatilho da arma.
Puta que pariu. Minha vida é um drama e agora acabou de piorar.
— Mande um abraço pro seu pai.
Espera, o qu...
"Uma jogadora, cantando eu a-a-a-amo você
Pelo menos acho que sim"
