Quase dez da noite, numa casa de classe média, uma família japonesa comum jantava à mesa enquanto assistiam aos animes do canal aberto.
-Papa, quero mais!
-Já comeu muito, menino! – falou a mãe.
-Mas eu quero miso! – o menino reclamou e recebeu um tapa na testa do irmão mais velho, que estava ao lado.
-E eu quero escutar o desenho, pô!
-Aaah! Mama, ele me bateu! Aaah! – o menino começou a chorar e a espernear.
Na tevê, o anime foi interrompido por um noticiário de emergência.
-Ah... – todos soltaram exclamações de decepção.
A repórter na tevê estava suja e descabelada, e começou a falar:
"Aqui é Kawashima Sango, noticiando ao vivo pela Tevê Asabi, direto de Nagasaki."
-Esses repórteres devem ganhar pouco para não comprarem roupas novas... – o pai comentou, lamentando o visual de Sango.
-Esse cabelo deve ser moda em Tokyo. – a mulher comentou.
-Eles estão aqui! – o filho mais novo falou, brincando com a comida.
Sango continuou:
"Nagasaki está novamente de luto pelas vitimas de mais um verão. Nesta noite, por volta de oito horas, militantes do partido anarquista invadiram o Hospital Central da cidade e explodiram o local, atingindo também os prédios vizinhos".
Na casa, todos ficaram em silêncio. O irmão menor não sabia o que estava acontecendo e olhava para os pais e para o irmão mais velho.
"As autoridades afirmam que há pelo menos trezentos feridos e um pouco mais de cem mortos, entre crianças e idosos".
Os pais e o filho mais velho se levantaram e foram correndo para a janela mais próxima. O garotinho, que não os seguiu, escutou os três gritarem assustados e foi até o local, ficando na ponta dos pés para ver, do lado de fora, num ponto afastado dali, uma fumaça negra se destacar na noite e subir aos céus.
Boku-tachi no junjou na omoi
Natsu no omoide – teihen
Nossos verdadeiros sentimentos
A lembrança de um verão – segunda parte
Disclaimer: "Inuyasha"é propriedade de Takahashi Rumiko.
Para todos.
Uma semana havia se passado desde o ataque ao hospital, e seis pessoas estenderam a estadia ali para participarem da homenagem que os moradores fariam às vítimas na semana da morte delas. A cidade estava em silêncio, calma e nem ao menos parecia que tinha moradores, já que a grande maioria que estava nas ruas era de turistas ou gente que estava ali por livre e espontânea vontade para participar também. Mas os próprios moradores estavam dentro de casa e faziam as orações nos cantos que eles mesmos prepararam.
Num hotel próximo ao local das comemorações, uma garota observava alguns homens, contratados pelo governo, arrumarem os últimos enfeites na casa do Auditório da Paz da Soka Gakkai de Nagasaki, onde todos os anos realizam-se cerimônias em memória aos mortos da bomba atômica.
A garota estava sentada na varanda, olhando ora para os trabalhadores, ora para um velho jornal jogado na mesinha em frente a ela, ora para o céu. Estava um dia bonito, e mais tarde ela e os amigos sairiam para ver a cerimônia.
Mas por que ela não sentia vontade de ir...?
-Rin. – a voz de Sesshoumaru a chamou, ela virou o rosto para ver o rapaz aproximar-se vindo do quarto.
Depois do ataque, foram os seis remanejados para outro hotel. Não houve mais gracinhas, não houve mais brincadeiras, não houve mais conversas animadas a respeito de qualquer assunto. O clima era triste e todos desejavam tanto voltar para Tokyo para esquecer o que viram.
-O que foi, Sess? – ela perguntou, ficando reta na cadeira e vendo o rapaz, com um braço engessado, aproximar uma cadeira e sentar-se perto dela.
-Já decidiu se irá mais tarde? – Sesshoumaru perguntou, olhando o telhado do auditório.
-"Decidir"? – Rin repetiu, balançando a cabeça – Não... Não sei.
No dia seguinte ao ataque, as listas de mortos e de feridos foram divulgadas, Rin achou o nome de Mayu, felizmente, na de feridos. A menina foi embora da cidade, como muitos outros feridos, ajudados pelo governo. Lá teriam um tratamento apropriado para as feridas, além de ajuda para o câncer de que sofria. Rin mandou um cartão para ela e ainda um arranjo de tsuru que comprou numa loja do local. Pequeno e simples, mas de coração.
E mais um dia depois, o esconderijo dos militantes do partido de direita que planejou o ataque foi descoberto e todos foram presos.
Mais dois dias depois, foram condenados à morte.
-O que a perturba tanto, minha Rin? – ele perguntou, aproximando ainda mais a cadeira, ficando ao lado dela de modo que pudesse passar o braço bom pelos ombros de Rin e trazê-la para si – Está tudo bem agora... Por que ainda está triste?
A garota baixou o rosto. Não, não estava nada "bem", como muitos julgavam. Quando dizem que está tudo bem é porque há algo errado.
Certo?
-Eu só estou triste... – baixou o rosto e encostou-se nele – Por que agem como se nada tivesse acontecido? Por que evitam falar sobre o que aconteceu? Por que tantos tiveram que sofrer mais uma vez?
Sesshoumaru escutava tudo em silêncio.
Depois da explosão, que também atingiu o hotel em que estavam, os seis saíram para descobrir o que havia acontecido, mas não podiam fazer nada. Não eram heróis ou algo assim, e só puderam ver.
E viram tudo. Corpos, crianças chorando, pessoas procurando pelos membros que perderam durante a explosão, a ajuda conjunta de bombeiros e médicos, muito nervosismo e desespero. Rin não esqueceu de ter visto um homem sem uma das mãos procurando pelo filho.
Rin viu muitas crianças mortas. Mas Mayu não estava entre elas.
Não podia estar. Não podia, pensou na ocasião.
Alguns sobreviventes da guerra choraram por terem perdido parentes mais uma vez. Haviam sobrevivido a um verão, e se perguntavam se poderiam aguentar outro.
Quando descobriram quem foram os causadores de tudo, a surpresa foi enorme para todos, pois viram que eram apenas adolescentes;
Tão jovens e também tão perturbados...
E a justiça deu logo a resposta dela: a morte. Para terem certeza de que o mal não atacasse novamente, que morressem logo.
Tão jovens e com uma vida tão longa pela frente...
Rin achava que poderia haver outra solução. Tratamento, descobrir as causas da rebeldia, trabalho comunitário. Era errado achar que alguém tinha o direito de tirar a vida de outra pessoa.
Mas era o que eles tinham feito, não?
-Quando o médico disse que poderia tirar esse gesso? – ela perguntou, tentando enxugar algumas lágrimas que insistiam em escorrer.
-Não sei. – Sesshoumaru respondeu. Havia esquecido de perguntar, na verdade - Depois eu vou a algum para saber.
Tão jovens...
-Você... Você quer mesmo que eu vá à cerimônia hoje?
-Você quer ir?
-Oh... – ela demorou um tempo para responder, sentindo alguns dedos dele pelo cabelo negro – Eu não quero...
-Então eu também não vou.
-Mas você precisa ir, Sesshoumaru! – a garota exclamou, olhando-o perplexo – Você foi mandado pra cá pra isso!
-Se você não vai, não há porquê de eu ir. – Sesshoumaru respondeu com tranquilidade, pressionando o corpo dela ao lado do dele.
Ficaram em silêncio por alguns minutos. Os trabalhadores agora arrumavam as lanternas nos postes próximos do Auditório, gritando uns aos outros se haviam medido as distâncias uma das outras corretamente.
-Você perguntou por que as pessoas agem dessa forma, como se nada tivesse acontecido... – Sesshoumaru começou e Rin o olhou, confirmando com a cabeça, e ele a olhou mais uma vez antes de continuar – Há coisas que devem ser esquecidas... Mas também precisam ser lembradas para que não aconteçam de novo, Rin.
Um dos homens pendurou uma das lanternas ao contrário e ficou pendurado na escada quando se esticou para tentar ajeitá-la, sendo motivo de risos para alguns dos colegas, ajudado depois quando voltaram a trabalhar.
-As pessoas que sofreram na guerra preferem esquecer... Mas querem que lembrem para que não aconteça com mais ninguém... E assim poderão prosseguir como se nada tivesse acontecido.
-Mas por quê? – Rin estava revoltada – Como conseguem fazer isso?
-Continuando a viver, Rin... E esperando que não aconteça de novo...
Rin não resistiu e chorou.
Numa Igreja ali perto:
Enquanto Inuyasha estava perto do altar, acendendo velas, Kagome se encontrava sentada num dos bancos, com a cabeça pesadamente encostada na madeira do banco da frente.
Não aguentava mais o silêncio daquela cidade. Ficar uma semana ali já fazia com que visse assombrações.
Como podiam agir como se nada tivesse acontecido... de novo?
-Boa tarde... – uma voz idosa falou seu lado. Ela virou o rosto lentamente, sem desencostar a testa do banco, percebendo a presença ali de um senhor já de idade avançada.
Kagome ficou olhando para ele daquela posição por longos e intermináveis minutos, sem nem ao menos piscar, observando o rosto sorridente dele. Deveria ter mais de setenta anos, pelo menos, e parecia ser um dos inúmeros habitantes adeptos do cristianismo daquela região.
-Desculpe-me, minha jovem... Eu atrapalhei a sua oração? – ele fez o sinal-da-cruz e olhou a imagem de Cristo crucificado no altar, notando a presença do rapaz perto dele.
-Eu não sou cristã... – Kagome respondeu num sussurro, voltando a olhar o chão.
-Não? E o que faz numa igreja? – ele perguntou com curiosidade – Perdoe as minhas perguntas, mas eu realmente acho isso muito curioso.
-Aqui está mais quieto que lá fora. – Kagome finalmente se sentou e colocou as mãos no colo para olhar-lhes as costas, dando um suspiro cansado.
-Verdade? Mas lá fora está bem mais quieto que aqui... Até o vento soprando nas velas está fazendo mais barulho que o vento de lá fora.
Kagome não respondeu, limitando-se a olhá-lo desinteressadamente e dar outro suspiro, agora mais irritado. Queria silêncio e um senhor de sabe-se lá quantos anos estava fazendo milhares de perguntas.
-Você veio para a cerimônia de Uma Semana? – ele perguntou.
De longe, Inuyasha ainda segurava uma vela e olhava curiosamente os dois naquela conversa. Mas, depois de ver um sorriso meio forçado da namorada e um pequeno aceno com a cabeça, ele voltou a acender as velas. Algumas delas estavam apagando por causa do vento que entrava na Igreja e ele queria acender todas... Não porque queria ou tivesse um significado especial para ele, mas ficar ali, com uma namorada que não queria conversar, estava dando-lhe nos nervos. Ele olhou a imagem do Cristo, queria saber o porquê da coroa de espinhos...
Sentou-se em frente à mesa das velas na posição de lótus e ficou olhando a imagem, não se importando em escutar a conversa que transcorria logo atrás.
-Na verdade, eu vim para a cerimônia dos cinquenta e nove anos. – Kagome respondeu – Só que tivemos que estender a nossa estadia.
-E gostou de nossa cidade?
-Não muito... – ela deu um suspiro – Eu sou acostumada com Tokyo... Aqui é muito quieto e triste...
-Entendo... – o senhor não parecia nem um pouco chateado – Esta cidade era bem mais alegre antes do ataque da bomba... Era sempre enfeitada por causa dos festivais cristãos que temos durante certas épocas do ano... Aqui ficava especialmente bonito no Natal, mas depois de quase sessenta anos, eu acho que Nagasaki fica ainda mais bonita... – virou o rosto com um sorriso para olhar a garota e notou o olhar perplexo dela.
-O senhor... – ela começou - O senhor estava naquela época...?
Viu o homem mover a cabeça num "sim" e sentiu um tremor correr pelo corpo. Se ele estava naquela época, então ele poderia ter...
-Não se preocupe. – ele deu um sorriso quando percebeu o medo dela – Eu não vou transmitir nenhuma doença pra você. Muitos médicos já me examinaram e disseram que estou livre de qualquer doença causada pela radiação.
-Oh... – a garota estava envergonhada – De-Desculpe...
-Tudo bem, minha jovem. – o senhor a acalmou com outro sorriso muito doce – Sinceramente, eu nem me importo mais. Já sou velho e escutei durante muitos anos pessoas dizerem coisas a respeito disso. Não se preocupe.
-"Coisas"...?
-É... Como muitos não sabiam o que radiação era, então muitos dos sobreviventes eram discriminados. Muitas moças tão lindas quanto você não queriam casar comigo porque achavam que os filhos nasceriam com a "cor negra" por causa da radiação... O que era uma pena, diga-se de passagem... – ele deu um suspiro desanimado – Eram moças tão lindas... Que pena serem tão ignorantes...
-O senhor nunca... Foi casado...?
O velho a olhou por um momento e sorria mais enquanto falava:
-Sim, eu já fui. Eu casei com dezessete anos, com uma moça muito linda... Setsuko era linda... – ele tinha o olhar sonhador – Fomos casados nesta Igreja... Ela tinha dezesseis anos na época... E um ano depois nós tivemos nosso primeiro filho... Eu lembro que o nome dele era Daichi... E que eu queria que ele fosse médico. Um médico muito famoso para não ter que trabalhar numa firma como a minha...
Parou de falar e fechou os olhos, apenas para falar enquanto não deixava de sorrir:
-Eles morreram por causa da bomba.
Kagome não sabia o que falar.
-Eu me lembro que eu estava no meu trabalho... Nós trabalhávamos muito naquela época por causa da guerra... Nosso país passava miséria e tínhamos que trabalhar muito se quiséssemos comer, e eu trabalhava dezesseis horas por dia naquele lugar para levar dinheiro para Setsuko comprar comida para nós e pro menino... E naquele dia eu estava quase parando o expediente para ir almoçar quando escutamos o barulho... Eu fui jogado no chão por alguma coisa e, quando levantei, o chefe da linha de montagem estava morto... E o colega ao meu lado também... e, quando olhei pro outro lado, eu vi mais dois mortos...
Parou de falar e tinha o olhar perdido em alguma coisa, como se quisesse lembrar de algo.
-Eu saí correndo e vi que a cidade estava em chamas... Eu nem sei como consegui escapar, mas acho que foi pelo fato de não ter quase ninguém perto... Minha casa ficava só à duas quadras do meu trabalho e o caminho estava deserto... Eu vi muita poeira e... Gente morta... E... E...
Kagome tinha a ligeira impressão de que ele choraria por lembrar daquelas coisas, mas ele continuou, pausando para lembrar de algumas coisas.
-Na verdade, eu vi só as sombras deles... Não havia corpos espalhados... Era só poeira radioativa... – ele pausou de novo – E não encontrei também minha família... Porque também só havia a sombra deles... – ele deu um sorriso forçado e nervoso - Vi a sombra de Setsuko segurando meu Daichi na parede quebrada da minha casa... Eu acho que eles estavam almoçando, porque eu vi pratos servidos, e a tigela de chawan do Daichi estava em cima da mesa... Até hoje me pergunto se eles chegaram a terminar a refeição... – ele virou o rosto e mostrou um sorriso – Não é engraçado pensarmos nisso quando sabemos que é inútil saber?
-Não! – Kagome gritou, cobrindo o rosto com as mãos e baixando-o para esconder o fato de que estava chorando, não conseguindo por não parar de soluçar. Inuyasha virou o rosto para olhar para trás, desconsiderando a opção de levantar-se e ver se Kagome estava bem depois de ver a mão erguida do senhor.
O rapaz fez um aceno com a cabeça e voltou a olhar a imagem de Cristo.
-Desculpe, jovem... – o senhor começou num tom sincero de desculpas – Se eu soubesse que não estava interessada, eu não teria continuado...
-Como o senhor consegue...? – Kagome começou, tentando conter o choro à força.
-Conseguir o quê?
-Como consegue sorrir... Contando essas coisas? Isso tudo é horrível...! – ela desabafou – Como consegue sorrir depois de tudo isso...? Era a sua família! – os ombros dela começaram a tremer enquanto tentava se acalmar – Eles morreram nessa história horrível e você fica sorrindo! Por quê? – ela virou o rosto para encará-lo – Por que sorri? Por que dá a impressão de que nada aconteceu? Por que faz que eu pense que já esqueceu de tudo? Por que dá a entender que tudo isso é só um passado e que não merece ser lembrado?
Quando ela finalmente deu a pausa para que ele pudesse responder, ele deu um outro sorriso e colocou a mão esquerda no ombro dela para apertá-lo mais forte, falando tranquilamente:
-É que dói menos quando lembramos o que perdemos...
Nesse ponto, Kagome realmente chorou, não conseguindo controlar o choro e perguntando-se o porquê de estar tão sensível naquele dia, ou melhor, nos últimos sete dias.
-Ao contrário do que pensa, eu não me esqueci deles... Nem por um único dia. – o senhor voltou a falar – Eu não me arrependo de nenhuma vez que eu disse "eu te amo" para minha mulher ou de ter carregado Daichi nos braços... Porque eu tenho certeza de que eles também não se arrependeram.
Apesar das palavras serem um conforto para ele, Kagome não parou de chorar.
-Foi algo que aconteceu... Como um carro batido, sabe? – ele tentou consolá-la – Não pudemos evitar um acidente porque foi algo que aconteceu tão de repente... Não esqueça que éramos os inimigos naquela época.
-É isso que tá errado! – Kagome soluçou de novo – Eu não ia querer isso nem pra meu inimigo! Deve ter sido tão... doloroso... Tantos morreram e nem mereciam isso!
Ficaram em silêncio até o senhor voltar a falar:
-É bom que pense assim... Porque nenhum de nós quer. Tanto que as cerimônias são para que ninguém esqueça o que aconteceu e que nada daquilo aconteça de novo.
Viu a garota se emocionar de novo e levar uma das mãos aos lábios para tentar controlar os soluços. Perto do altar, Inuyasha baixou os ombros e o rosto.
-Você por acaso percebeu algumas áreas gramadas nos parques de lá fora?
-Oh... – ela exclamou, já um pouco mais calma enquanto tentava lembrar-se. Sim, ela se lembrava de ver algumas partes que tinham uma cerca especial no parque em frente à igreja em que estavam. Não só ali, mas em outras centenas de lugares daquela cidade. Eram cercas que protegiam uma determinada parte do gramado e parecia não ter nada em especial para chamar atenção.
-Aquelas partes são da terra que restou de alguns lugares... Na hora da explosão. – o velho continuou - Lá descasam as cinzas dos mortos... E são conservados até hoje para que não esqueçam de quem está lá.
Kagome viu o dedo dele tocar o nariz dela.
-Entendeu, minha jovem?
Viu-a fazer "sim" com a cabeça.
-Tanta coisa aconteceu... Eu lembro de ter escutado o imperador declarar a nossa derrota... – ele ergueu um dedo e o balançava num gesto trêmulo, como se censurasse uma criança – Foi a primeira vez que eu escutei a voz do imperador... Foi a primeira vez que ele falou para que o povo dele o escutasse... E vi a minha cidade ser erguida de novo... – olhou em volta – Esta igreja foi uma das primeiras a ser reconstruída, eu lembro. E lembro o quanto de gente que morreu depois... Dos escravos também, os coreanos e chineses forçados a trabalhar aqui...
Deu um suspiro e olhou a imagem.
-Qual o seu nome, minha jovem?
-Hi... Higurashi... Kagome... – ela falou.
-Um nome tão lindo quanto a dona dele... – ele falou, deixando-a sem jeito.
-É melhor o senhor parar de fazer essas brincadeiras... – Kagome deu um sorriso meio triste e passou a mão no rosto vermelho para enxugá-lo – O rapaz lá na frente é meu namorado.
-Não se preocupe, eu não sou ciumento. – ele tratou de completar depressa, erguendo o rosto de forma altiva, como se quisesse mostrar-se mais confiante que Inuyasha.
Kagome deu um sorriso e abafou as risadas que sentiu naquela hora. Não podia rir daquela forma na igreja dos outros, oras!
-Fico feliz que agora esteja sorrindo... Eu ficaria muito chateado em saber que deixei você triste num dia que nos é especial...
Kagome ficou um pouco mais séria e baixou o rosto.
-Eu gostaria que a senhorita fosse a essa cerimônia... – ele continuou, tocando uma das mãos dela – Verá o quão é importante que todos saibam... O que não deve ser esquecido.
Kagome confirmou com a cabeça e levantou-se.
-Eu preciso ir... Arrumar-me, então! – falou, ajeitando a alça da bolsa no ombro – Muito obrigada pela nossa conversa, senhor...
-Higashi Takehito.
-Obrigada pela nossa conversa, Higashi-sama. – sorriu quando acenou e afastou-se depois, indo a Inuyasha, já em pé e esperando por ela.
Takehito ficou sentado, olhando serenamente o casal dar as mãos e ir embora da igreja, deixando-o sozinho. Deu outro suspiro e fechou os olhos, abrindo-os novamente quando virou o rosto para o lado.
Os lábios dele se abriram num sorriso emocionado e deu mais um suspiro, para falar depois:
-Ora, ora, Setsuko... Você estava aí o tempo todo...?
Novamente no hotel.
No quarto de Sango e Miroku, a garota baixou a revista que lia ao ver o rapaz sair da sacada e sentar-se na beirada da cama.
-O que foi? Cansou de ver os balõezinhos serem pendurados? – ela perguntou num tom de profundo tédio.
-É que Sesshoumaru e Rin estão namorando na sacada ao lado, Sangozinha... – o rapaz passou a mão no pescoço – Você vai pra essa cerimônia?
-Você vai? – Sango perguntou, sentando-se para ficar ao lado dele.
-Ah, não... – ele moveu a cabeça – Não deve ser divertido... Acho que nem podemos comentar sobre futebol nessas ocasiões...
-Houshi-sama! – ela o repreendeu.
-Mas deve ser tão chato, Sangozinha... – agia como uma criança birrenta – Não quero ir.
-Mas é importante... Pelo menos eu acho que a sua mãe iria gostar...
Miroku ficou estranhamente quieto, baixando o rosto e apoiando-o com as mãos, estas pressionadas nas pernas.
-Houshi-sama? – Sango desceu da cama e ficou sentada em frente a ele – Houshi, o que foi?
Não teve resposta imediata, mas depois de longos segundos em silêncio, finalmente Sango entendeu o motivo de ele estar tão quieto quando escutou os soluços dele.
-Miroku, você está chorando? – estava surpresa e muito preocupada – Por quê? O que houve?
-Minha mãe me contou sobre as coisas que aconteceram aqui... – ele começou num sussurro – Acho que será mais um motivo... Pra evitarem os que estão aqui e quem é daqui... Como eu... – olhou-a e ela sentiu uma tristeza muito forte ao vê-lo daquela forma – Eu imagino o quanto ela sofreu aqui... E no quanto os outros sofrem... E nos que sofreram... E que vou ser piada pra Sesshoumaru-sama e Inuyasha se me virem chorando aqui... – falou um palavrão e repetiu-o várias vezes, até parecer se sentir mais aliviado, olhando ao redor para não ter que encontrar o olhar de Sango – Eu sinceramente não sei o que você viu em mim para não precisar se afastar, como outras pessoas já fizeram...
Calou-se apenas para Sango começar a falar:
-Eu não me afastei porque eu gosto do jeito que você encara essa sua vida...
Encontrou o olhar curioso do rapaz.
-Você tem um jeito tão especial de viver, mesmo sabendo dos problemas que enfrenta... Você se diverte, você brinca, você sorri, você vive e me faz sentir viva... E ainda é muito bonito.
-Ai, Sangozinha! – ele cobriu o rosto com as mãos num gesto afeminado e balançava-o de um lado para o outro como se estivesse envergonhado – Assim você me deixa sem jeito!
Sango deu uma risada e encostou a cabeça nas pernas dele para controlar-se.
-Você é uma graça, Miroku! – ainda ria e levantou-se para poder beijá-lo na testa – É por isso que eu amo tanto você. – falou contra a pele do local.
Os lábios dela ainda estavam colados na fronte e os dois sentiram a tensão crescer entre eles. E Miroku arregalou os olhos quando Sango procurou os lábios dele e sentiu as mãos dela quererem arrancar a camisa que vestia pela força.
-Eu ainda não arranjei um emprego, Sango. – Miroku falou contra o ouvido dela – Você disse que ficaríamos em trégua até eu conseguir um.
-Quer que eu pare, então? – ela sussurrou.
-Tá achando que eu sou doido? – Miroku falou, deitando-a na cama antes de subir para cobrir o corpo dela com o dele – Até parece que eu diria "não" a você...
Algumas horas depois:
No quarto de Sesshoumaru e Rin, os dois estavam terminando de se arrumar para irem à cerimônia. Não pareciam muito contentes, mas certamente não ficariam trancados no hotel pelo resto do dia.
-Nós vamos à que horas? – Rin perguntou, colocando um brinco na orelha esquerda.
-Daqui a meia hora, mais ou menos... Só preciso ver se aqueles quatro já se arrumaram. – Sesshoumaru falou, arrumando a gola da camisa branca pela última vez com apenas uma das mãos, já que a outra estava machucada.
-Ei, como eu estou? – Rin perguntou, fazendo-o parar de andar para olhá-la atentamente quando ela deu uma volta para mostrar o kimono branco com flores vermelhas que usava.
-Vai ficar com essa roupa até mais tarde? – foi a pergunta dele, mostrando um fino sorriso nos lábios e deixando-a corada.
-P-Por quê?
O sorriso dele tornou-se malicioso e Rin cobriu o rosto com as mãos.
-Ah, eu tinha esquecido que você gosta de kimono's!
Sesshoumaru olhou-a serenamente e saiu do quarto, indo pelo estreito corredor até a porta do quarto de Sango e Miroku, dando uma leve batida.
Segundos depois, Miroku apareceu, não abrindo totalmente a porta por estar apenas vestido com a calça social - amarrotada.
-O... O que foi? – Miroku perguntou.
-Como assim, "o que foi"? – Sesshoumaru perguntou – Vocês já estão prontos?
-Q-Quase... – o outro respondeu – Ainda dá pra esperar meia hora?
Sesshoumaru arqueou uma sobrancelha.
-Não quero chegar atrasado. – falou – Vocês têm vinte minutos.
-Vinte e cinco. – Miroku tentou – Vinte e cinco tá bom.
-Vinte.
-Vinte e cinco.
-Vinte.
-Vinte e cinco.
-Vinte, e não se fala mais nisso.
-Fechado. – Miroku concordou, vendo Sesshoumaru afastar-se com um sorriso vitorioso.
Segundos depois, o rapaz arregalou os olhos e deu um tapa na testa ao perceber o que tinha acontecido. Deu um suspiro e fechou a porta, aproximando-se depois da cama, onde Sango estava dormindo.
-Sangozinha... – ele inclinou-se sobre um joelho para falar ao ouvido dela – Temos que ir.
Sango murmurou alguma coisa que ele não entendeu, mas abriu os olhos e os esfregou.
-Já...?
-Sesshoumaru nos deu vinte minutos, querida... – ele beijou um lado do rosto dela – Vamos nos arrumar.
A garota deu um sorriso e fez "sim" com a cabeça.
No quarto de Inuyasha e Kagome, Sesshoumaru entrou no quarto apenas para presenciar uma discussão entre o casal.
-Você não vai com esse kimono! – Inuyasha reclamou, apontando para o kimono muito justo que Kagome usava.
-Não seja idiota, Inu-chan. É claro que vou.
Inuyasha rosnava ameaçadoramente.
-Irmãozinho, eu ainda não entendi qual é a questão. – Sesshoumaru falou, fazendo-se confortável no sofá enquanto esperava pacientemente pelo final daquela conversa.
-É que Kagome vai chamar a atenção desses tarados por mulheres de kimono! – Inuyasha argumentou – Não quero que ela vá com esse!
Sesshoumaru remexeu-se no sofá, ligeiramente inquieto.
-Não vai conseguir nada falando assim com ela, Inuyasha.
-Obrigada, Sess! – ela uniu as mãos e deu uns pulinhos de alegria.
-Kagome, tire esse kimono e vá com outro. – Sesshoumaru ordenou, fazendo-a arregalar os olhos.
-Mas... – ela tentou.
-Não. – Sesshoumaru interrompeu-a num tom autoritário.
-Eu...
-Não.
-Por...
-Não.
Kagome esperneou, tendo um pequeno ataque de birra. Quando parou de chutar objetos invisíveis, abriu a boca para tentar falar mais uma vez.
-Não. – Sesshoumaru disse logo, levantando-se e saindo do quarto momentos depois.
-Puxa... – Kagome reclamou, começando a tirar o kimono quando finalmente ficou sozinha com o namorado.
-Não. – Inuyasha tentou usar o mesmo tom do irmão.
-Vá morrer. – ela falou, lançando ao rapaz um olhar de ódio, fazendo-o estremecer.
Mais tarde:
A cerimônia durou uma hora e meia, incluindo os depoimentos emocionados de vítimas e outras homenagens que foram prestadas por outras cidades pelos representantes que mandaram – Sesshoumaru era por Tokyo. Depois que isso acabou dentro do auditório, chegou a hora de sair e prestar homenagem do lado de fora.
Depois de uma curta caminhada da saída do auditório até um dos lagos próximos da região, todos os presentes ficaram um ao lado do outro. No final de uma das pontas daquele "muro" humano, o conhecido representante de Tokyo estava ao lado da namorada, que estava ao lado do quase cunhado, que estava ao lado da namorada, que estava ao lado de uma amiga, esta ao lado do noivo. Exceto pelo mais velho dos seis, que apenas pôde segurar a mão da namorada enquanto o outro braço ficou imobilizado, todos deram as mãos um aos outros enquanto escutaram uma pequena prece pela paz feita pelo representante da província.
Um momento de silêncio em memória dos mortos foi feito, e depois os sinos começaram a tocar, sinalizando para o começo da apresentação das crianças.
Natsu ga kure ba omoidasu
Haruka na oze tooi sora
Kiri no naka ni ukabikuru
Yasashii kage nonokomichi
(Lembro-me de uma noite de verão
de tempos atrás, assim como esse céu é distante
As lembranças sempre surgem dentro
Destes tranqüilos caminhos de doces sombras)
Sango soltou a mão de Miroku quando percebeu que o rapaz queria colocar os óculos escuros para continuar acompanhando a cerimônia, voltando a pegar sua mão depois.
E Sesshoumaru olhou para o lado e arqueou as sobrancelhas ao ver Rin mexer os lábios para acompanhar o coro infantil:
Mizu bashoo no hana saiteiru
Yumemite saiteiru mizu no hotori
Shakunageironi tasogareru
Harukana oze tooi sora...
(As flores desabrocham num lago
Na água aparecem os meus sonhos
E também neste anoitecer iluminado
De tempos atrás, assim como esse céu é distante)
-Achei que não gostasse dessa música... – Sesshoumaru murmurou no ouvido de Rin.
A garota corou e deu um sorriso.
Outra vez os sinos tocaram e alguns dos homens presentes se aproximaram da água para jogar lanternas flutuantes. Era muito bonito de se ver e de lembrar o que aquilo significava.
-O que foi, Miroku? – Inuyasha perguntou, fazendo Sesshoumaru e os outros prestarem atenção no rapaz.
-Houshi, está chorando? – Sesshoumaru estava boquiaberto, recebendo da namorada um golpe violento na perna.
-Eu não tô chorando, pô! – Miroku exclamou, cobrindo o rosto com as mãos.
Depois de alguns segundos, voltaram a prestar atenção na música e nas lanternas que flutuavam na água, não achando motivo para fazer piada do fato de Miroku chorar, como outros que estavam ali também faziam.
No dia seguinte:
Em uma estação de trem, seis pessoas corriam, procurando desesperadamente pelo trem que partia para Tokyo naquela manhã. Estavam atrasados, e um colocava a culpa no outro.
-Houshi e Inuyasha, é a última vez que vocês dois inventam de jogar videogame duas horas antes de viajarmos! – Sesshoumaru latiu – Da próxima vez, eu...
-Eu estava quase ganhando! – Miroku o interrompeu – Foi culpa de Inuyasha!
-Quê? Minha culpa?
-Gente, minha maquiagem está borrada! – Sango lamentou-se.
-No trem você ajeita, Sango-chan! – Kagome falou – E eu quero entrar logo... Minhas pernas estão doendo!
Rin limitou-se a dar um gemido de angústia, esforçando-se para acompanhar as passadas largas de Sesshoumaru.
-Que droga... Sempre há algum problema quando viajamos de trem. – Sesshoumaru falou, fazendo um esforço para segurar a mala com o braço bom e permitir que Rin continuasse segurando o braço dele.
-Quem comprou a passagem não foi Inuyasha, né? – Miroku arriscou.
-Vá morrer.
-Todas as passagens estão comigo. – Sesshoumaru respondeu a pergunta de Miroku.
-Minhas pernas estão doendo... – Kagome reclamou mais alto.
-Quero me maquiar direito!
Rin deu outro gemido de angústia.
Finalmente encontraram a plataforma e viram muitos passageiros já entrando. Os seis entraram na fila e esperaram pacientemente para entrar e procurar as cabines.
Kagome era a última da fila e deu um suspiro quando finalmente percebeu que estavam indo embora, ao mesmo tempo em que a sensação de que sentiria falta de estar ali começava a apossar-se dela.
Olhou ao redor e a visão encontrou uma senhora – idosa, ela percebeu pelo corpo – lendo um jornal com uma notícia na primeira página que chamou a atenção da garota: "Morre Higashi Takehito, o escritor mensageiro da paz e ex-sobrevivente."
Franziu a testa para tentar lembrar quando e onde tinha ouvido aquele nome.
-Kagome, tá sonhando? – Inuyasha falou, em pé na porta do vagão e estendendo a mão para ajudá-la a subir.
-Ah, desculpe! – ela agarrou a mão e subiu, sorrindo ante o ar zangado do rapaz, notando depois que o franzir de testa dele desapareceu e um sorriso surgiu nos lábios do namorado quando este preparou-se para recebê-la nos braços, com a porta do vagão fechando atrás deles.
Dentro de um trem, de uma cabine, seis pessoas jogavam pôquer. O mais velho dos seis, um rapaz de vinte de três anos com um braço imobilizado, tinha a maioria das fichas, e no momento ajudava a namorada a ganhar uma partida.
-Minha vez. – Inuyasha falou.
-Não, não é. – Sesshoumaru corrigiu – É a vez de Rin.
-Mas é claro que não. – Inuyasha atacou – É minha vez, sim.
-Não é.
-É sim.
-Não é.
-É sim.
-Não é.
-É sim.
-É sim.
-Não é.
-Sua vez, Rin. – Sesshoumaru disse à garota ao lado dele, que imediatamente mostrou as cartas que formavam um Full House.
O restante da mesa deu um suspiro.
-Quando vamos viajar de novo? – Sango perguntou enquanto cerrava as unhas depois de jogar as cartas no centro da mesa.
-Quando descobrirmos para qual outra cidade Sesshoumaru irá para representar Tokyo. – Miroku novamente misturou as cartas e as distribuiu.
-Não quero saber de vocês irem como bagagem. – o irmão de Inuyasha falou e pegou as cartas dadas a ele.
-Está nos chamando de malas, é isso? Hein, hein, hein? – Inuyasha estreitou os olhos.
-É. – Sesshoumaru tinha o rosto impassível.
-Eu também sou, Sess? – Rin puxou a manga da camisa dele.
-Não, Rin, você não é. Mas você não acha que eles são? – ele falou com tranquilidade, fazendo Inuyasha e Miroku rangerem os dentes.
-Eu gostaria de ir a Kyoto... Aquela cidade tem um ar tão romântico! – Kagome tinha um ar sonhador, apoiando o rosto com as mãos.
Todos ficaram calados por um certo momento.
-Vocês gostaram daquela cidade? – Sesshoumaru perguntou de repente.
-Acho que ficar lá nos fez aprender uma lição... – Kagome começou, olhando por um momento a paisagem pela janela, como se ainda pudesse enxergar a cidade em que estavam antes – Sempre em momentos ruins, como os que passamos lá, aprendemos algo importante no final...
-Ah, eu lembrei de uma coisa! – Sango baixou as cartas – Eu li o ideograma daqueles carinhas que tocavam os sinos!
-Qual era, Sangozinha? – Miroku descartou um valete.
-Paz.– Sango fez o um "V" com os dedos, que é o símbolo da paz no Japão.
Os amigos sorriram e concordaram, voltando depois a jogar.
É aniversário de Sango e Rin fica encarregada de preparar uma festa para a amiga. Ou pelo menos tentar. Jikai Tokyo no Nendaiki: Paatii. Não percam.
"-Por favor... Não provoquem uma catástrofe na cozinha enquanto eu estiver fora, ok?"
