Sango entrou na cozinha da casa de Sesshoumaru.
-Bom dia... – ela bocejou, arrastando-se até uma cadeira. Na pia, Rin cortava alguns legumes para o almoço; Kagome colocava leite num pratinho para Buyo tomar.
-Bom dia, Sango-chan. – as duas falaram ao mesmo tempo.
-Cadê aqueles três? – a garota deitou a cabeça entre os braços, abafando a voz. Parecia que voltava a dormir.
-Sesshoumaru disse que iam sair pra ir buscar um "amigo" que chegaria hoje a Tokyo. – Rin parou de cortar as verduras e questionou Kagome com o olhar – Só que não disse quem era... E não sabia que eles tinham mais um amigo. Achei que eram só os três mesmo.
-"Amigo"...? – Kagome olhou pensativa o teto por tempo longo demais. O leite derramava da caixinha e transbordava na tigela de Buyo, para alegria do bichano.
-Kagome! – Rin chamou a atenção dela – O leite!
-Ah... Desculpe... – ela ficou em pé, foi a uma gaveta e tirou de lá um pano para limpar o chão – Eu estava imaginando quem seria o tal amigo...
-Só espero que não venha morar aqui. – Sango falou, ainda com a cabeça entre os braços.
-Não dormiu bem, Sango-chan? – Rin levou bolinhos de arroz e suco à mesa para a amiga comer.
-Miroku fez uma cópia daquele filme e fiquei rindo enquanto assistia. – Sango levantou a cabeça e ainda estava de olhos fechados enquanto partia um bolinho e comia alguns pedaços – Foi horrível pra dormir porque ficava lembrando de algumas partes.
-Que filme? – Kagome ficou curiosa. Não percebeu quando Rin começou a agitar os braços freneticamente atrás dela.
-Aquele filme da...
Sango arregalou os olhos e parecia totalmente desperta quando inexplicavelmente Rin jogou quase um litro de água da cara dela.
-Ah, desculpe, Sango-chan. – a voz e o olhar dela eram severos e Sango se encolheu na cadeira, erguendo as mãos na defensiva – Achei que queria um pouco de água pra acordar.
-Deeescuuulpaaa... – ela murmurava só para Rin ouvir, ainda segurando ameaçadora uma garrafa de água pela metade.
Kagome não entendia nada.
Tokyo no Nendaiki: Boku-tachi no Junjou na Omoi
Kanojora
Crônicas de Tokyo: Nossos Verdadeiros Sentimentos
Elas
Disclaimer: Não, não, crianças. Não é meu.
Para os leitores.
-Finalmente temos um pouco de paz! – Kagome, na sala com Sango, praticamente gritou quando a casa ficou em silêncio depois que os três rapazes saíram – Francamente, que coisa mais infantil! Sesshoumaru deveria dar exemplo praqueles dois em lugar de bater neles com o joystick só porque perdeu uma partida!
-É por isso que vou esconder esse videogame. – Rin atravessou a sala com o objeto nos braços, abrindo com um pé um velho baú, do qual saiu Buyo repentinamente. Com o susto, o videogame caiu dos braços dela e quebrou em quatro partes.
A sala ficou em silêncio mortal. Rin apenas sentia gotas escorrerem pelo rosto.
-Ah... O... O... Nintendo '94... – ela estava com medo.
-Ah, Rin-chan... – Sango levantou-se do sofá e foi à amiga, dando de ombros ao abaixar-se para pegar os destroços do brinquedo – A gente fala que foi o Inuyasha.
-Mas ele nem tá...! – Rin arregalou os olhos.
-Sesshoumaru e Miroku nem vão parar pra pensar nisso na hora. – Sango pegou o que sobrou e jogou do alto para dentro do baú, com direito a pecinhas e parafusos saltando para todos os lados como pipocas numa panela.
-Sango… - Kagome estava tão admirada quanto Rin – Você está pegando as manias de Miroku-sama…
-É? – ela coçou um dos lados do rosto, da mesma forma como Miroku – Nem reparei.
-Acho que vou sair para comprar um novo. – Rin levantou-se depressa e, decidida, deu alguns passos em direção ao quarto para ir se arrumar. Entretanto, Kagome e Sango a pararam.
-Rin-chan… Não fique assim… - Kagome a tranquilizava – Essas coisas acontecem…
-É, Rin… Não fique preocupada, vamos, vamos… - Sango a levantou do chão e, com a ajuda de Kagome, levou-a ao sofá, no qual as três se sentaram ao mesmo tempo, uma ao lado da outra.
Passou-se um minuto.
-Vou comprar outro. – Rin levantou-se novamente.
-Sent'aí. – Sango puxou a saia dela e a fez sentar-se – Rin-chan, não se preocupe com isso! Eles não vão ligar tanto assim. Qualquer coisa, eles descontarão em alguém. Menos em nós, é claro.
-Mas... Mas... – ela ainda estava com remorso.
-Vamos aproveitar que os meninos saíram e fazer alguma coisa legal! – Kagome bateu palmas alegremente – Faz tempo que não ficamos juntas!
Sango e Rin sorriram e concordaram com a cabeça.
Passaram-se momentos longos de silêncio e tranquilidade que chegaram a inquietar. As três permaneciam sentadas, olhando fixamente um ponto em frente a elas.
-Está quieto aqui. – Kagome observou e as amigas concordaram.
-Quieto demais. – Sango completou.
-É tão estranho quando aqueles três não estão aqui. – Rin baixou o rosto e pensou novamente no videogame quebrado – Eles ficam tão animados quando jogam...
-Rin-chan – Kagome percebeu que ela ainda estava preocupada e resolveu tocar em outro assunto -, que tal fazermos um chá?
-"Chá"? – tanto Rin quanto Sango piscaram ao ouvir a idéia.
-Como fazíamos quando éramos crianças! – Kagome parecia uma criança de cinco anos – Sem as bonecas, claro.
-Ah... – Sango sorriu ao lembrar que as duas eram amigas desde a infância – Às vezes eu gostaria de ter conhecido vocês há mais tempo...
-Eu só passei a gostar mais daqueles chás depois que Kagome perdeu aquela boneca. – Rin comentou ao levantar-se. Ia à cozinha para preparar um lanche – Ela me dava medo. – comentou antes de sair da sala.
-Aquela boneca que os meninos quebraram? – Sango comentou vagamente.
-Eles quebraram o quê? – Kagome não escutou direito, para sorte da outra.
-Quebraram? Quebraram o quê? Quem? – Sango tentou enrolar ao se dar conta do erro que cometera, já que só ela sabia daquela história – Rin, você precisa de ajuda? – gritou para a amiga na cozinha e pegou a mão de Kagome para arrastá-la – Já vamos ajudar!
-Ai, Sango! Você vai arrancar o meu braço assim, caramba!
Trinta minutos depois:
-Que delícia... – Sango murmurou ao tomar um gole do chá. As três estavam à mesinha da sala, sentadas no chão – Rin-chan sempre nos surpreende com tudo que faz com tanto carinho.
-Ah, que nada, Sango-chan... – a garota ficou corada, mas ainda assim sorria – Eu não sou tão prendada assim...
-Sesshoumaru-sama não diz o contrário pra você? – Kagome pousou os queixos nas mãos unidas ao ver a amiga corar com o comentário.
-Bah... – Sango tomou mais um gole de chá e parecia ser a mais séria das três – Nós podemos nos divertir sem eles, né?
-Claro! – as duas ainda confirmaram com a cabeça.
-Então vamos tomar nosso chá e falar de outras coisas.
Fez-se silêncio. Era possível ouvir o vento soprando lá fora.
Kagome abriu a boca e Sango a cortou:
-Não vou dizer que eles estão fazendo falta.
Kagome fechou a boca e bebeu o chá.
Dez minutos de chá se passaram tranquilamente e sem muitas novidades.
-Meninas, vamos conversar! – Sango tentava mudar o clima daquele momento sem graça – Nunca mais nós conversamos!
-Mas a gente se fala todos os dias... – Rin comentou inocentemente.
Sango lançou-lhe um olhar atravessado e a outra escondeu o rosto atrás das mãos que seguravam a xícara.
-Mas nunca mais falamos sobre coisas mais importantes... – Sango tentou convencer, mas admitia que Rin tinha razão.
-Como o quê, por exemplo? – Kagome estava entediada.
-Hmm... Por exemplo... – ela ficou pensativa – Hmm... Bem... Eu nunca mais comprei roupas. Vocês perceberam?
Kagome e Rin pareciam indiferentes.
-E você, Kagome-chan? Quando foi a última vez que comprou uma roupa?
A amiga ficou pensativa. Depois começou a agitar os braços.
-Eu comprei uma roupa ontem! Ontem!
-É? – Rin parecia realmente admirada.
-E o que foi, Kagome-chan? O quê? O quê? – Sango estava curiosíssima e Kagome fez um pouco de suspense.
-Um sutiã com enchimento.
Rin e Sango arregalaram os olhos e ficaram com a mesma expressão por dois minutos. Repentinamente, Sango começou a rir exageradamente.
-O que foi, Sango? – Kagome não parecia feliz com a reação da amiga, que batia os punhos no chão.
-Des... Desculpe... Desculpe, K-Kagome-chan... – ainda ria ao voltar à posição normal – D-Desculpe, é sério... – riu mais um pouco antes de explicar – Não estou r-rindo do sutiã, é verdade!
-Sango-chan... – Rin via que Kagome ainda estava brava – Isso não está ajudando...
-É que... que... – respirou profundamente antes de dar mais um sorriso largo, indicando que ainda achava muita graça naquilo – Nós estávamos tão sérias e você falou isso... Achei que tivesse comprado alguma coisa mais importante...
-Isso é importante pra mim. – a voz de Kagome estava gelada – Desculpe se não tenho os mesmos "dotes" que você.
A palavra "dotes" fez Sango lembrar o título do filme que vira na noite anterior, e Rin fechou os olhos ao vê-la recomeçar a rir e abraçar a barriga que doía por causa das gargalhadas.
Aquilo fez Kagome levantar-se indignada:
-Oh, acha graça? Seus "dotes" não são tão bons assim? – ela "espetou" a amiga.
Desta vez foi Sango que se levantou indignada e cruzou os braços.
-É claro que são. – descruzou os braços para evidenciá-los - Tanto que não preciso comprar sutiãs com enchimento.
-Sango-chan! – a voz de Rin saiu sumida de tão horrorizada que ficou com a provocação entre as duas.
Sango e Kagome trocaram olhares de ameaça; faíscas pareciam envolvê-las.
-Rin, fale alguma coisa! – elas falaram ao mesmo tempo, virando o rosto numa mesma direção. A outra engasgou e empalideceu.
-E-Ei! Não me coloquem nessa história! – ela erguia as mãos na defensiva – Vamos sentar e nos acalmar, meninas...
-Só quando ela retirar o que ela disse! – Kagome apontou um dedo para Sango, que reagiu como se tivesse sido condenada por algum crime.
-Eu não disse coisa alguma! É você que tira sempre conclusões erradas! Aposto que se Rin dissesse isso na maior inocência, ela ia entender o motivo d'eu ter rido! – o que era verdade, Sango completou no pensamento.
-Rin, você também usa sutiã com enchimento? – Kagome parecia surpresa e Sango deu um tapa na testa.
-HÃÃÃ? – os olhos de Rin ficaram tão arregalados que as pupilas sumiam – Não! - baixou os olhos para ver os "dotes" e abraçou-se como tivesse vergonha deles ou daquela conversa.
-Eu vou embora daqui. – Sango deu meia-volta e pisava duro ao marchar para o quartinho improvisado que ela e Miroku dividiam.
-Sango! – Rin levantou-se para ir atrás dela.
-Rin, não vá atrás dela! – Kagome continuava parada, braços cruzados, indignada.
A garota deu meia-volta e correu até ela.
-Ah, olha só, usando a amiga de infância pra se apoiar! – Sango gritou do quarto.
-Sango-chan, não é verdade! – Rin voltou a correr de braços estendidos.
-Rin, você é minha melhor amiga e vai atrás dela? – Kagome apelou.
Rin parou no meio da sala:
-PAREM COM ISSO, VOCÊS DUAS! QUE COISA MAIS INFANTIL!
A casa inteira ficou em silêncio.
-Nós somos amigas! – Rin disse com sinceridade – Toda essa discussão é ridícula! É só criança que costuma fazer esse tipo de comparação! "O meu é melhor que o seu!", "eu comprei e não vou te dar!".
Sango nem estava mais no quarto. Olhava Kagome e esta fazia o mesmo. Envergonhadas, elas abriram os braços e se envolveram num sincero e amigável abraço.
-Desculpe. – Kagome murmurou – Eu entendi tudo errado.
-A culpa foi minha por não saber qual é o momento certo pra rir. – Sango enxugou uma lágrima de um dos cantos – Miroku sempre me diz que ainda vou dar problemas.
Depois as duas foram abraçar Rin, que apenas via à cena com uma expressão alegre por ter finalmente ajudado as duas a se entenderem.
-Bem... E o que vamos fazer agora? – Sango perguntou quando foram ao sofá e esqueceram do chá, mas agora felizes com a reconciliação.
-Hmm... Não sei... – Kagome respondeu e Rin também não sabia.
Ficaram olhando alguma coisa invisível e interessante à frente delas.
-Vamos ver filme? – Higurashi deu de ombros com a sugestão – Ficaremos esperando por eles até voltarem. O tal amigo vai almoçar aqui, né? Rin, que filme temos aí pra ver?
-"Laços com Ternuras". – ela respondeu pronta e alegremente, não notando o balançar de cabeça de Sango e o sorriso forçado da outra amiga. Não era legal negar isso a alguém que ajudou a reatar uma amizade.
DUAS horas depois:
-N-Não... – Rin soluçava ao morder a ponta de um lenço. O rosto estava vermelho e os olhos estavam tão apagados pelas lágrimas que nem era possível ver o castanho neles – Não... Que maldade...
Ao lado dela, Kagome folheava muito mais interessada um guia de tevê a cabo; do outro, Sango segurava o rosto com uma das mãos para não cair de sono. De quando em quando despertava quando estava prestes a bater a cabeça, mas voltava a cochilar alguns segundos depois.
-Não é triste, Kagome-chan? – Rin ainda chorava em cascata e mordia a ponta do lenço. A outra baixou a revista.
-Hein?
-Não é triste? – ela repetiu, passando um braço para enxugar os olhos borrados.
-Ah, sim. – a resposta foi indiferente – Muito triste mesmo.
-Você também acha, Sango-chan? – Rin balançou a amiga, que despertou meio grogue.
-Hããã? – Sango esfregou os olhos e olhou para os lados meio assustada, a voz estava mole e arrastada – Eles já voltaram?
-Você também não acha triste? – Rin insistiu, puxando a blusa dela – Não é triste? Não é?
A boca de Sango não tinha forças para fechar, ainda a olhando sem reação.
-Rin-chan... – Kagome fechou com força a revista e usou o tom mais amigável e educado – Podemos ver uma coisa mais alegre? Estou um pouco triste por causa desse filme...
-Mas ainda falta meia hora pra acabar... – Rin tirou do "pause" e começou a mover a boca para "dublar" os diálogos em inglês com perfeição.
Sango e Kagome trocaram olhares, abismadas com a prova definitiva de que Rin havia conseguido decorar os diálogos depois de ver todas as reprises na tevê e os comentário da versão remasterizada.
-Rin-chan! – Sango correu ao DVD e pressionou o botão "EJECT" – Eu estou muuuito triste. Será que não podemos ver uma comédia?
-"Comédia"? – ela ficou pensativa e enxugou as últimas lágrimas, dando um sorriso muito doce – Claro que sim. – não viu Kagome erguendo os braços aos céus para agradecer aos deuses dela - Tem algum filme aí?
-Eu tenho. – Kagome pulou do sofá – Não é bem uma comédia, mas dá pra divertir. Acho que Inuyasha ainda tem guardado "O Senhor das Aranhas". Volto logo! – correu ao quarto dela para procurar o DVD.
Desta vez, foram as outras duas que reviraram os olhos.
-De tanto que os meninos já falaram... – Sango deitou-se no sofá e deitou a cabeça nas pernas de Rin, que aproveitou para fazer tranças no cabelo dela – Nem sinto vontade de ver esse filme...
-Eu soube que farão a continuação. – Rin parecia um pouco irritada – Estreia no ano que vem: "O Retorno do Senhor das Aranhas".
Sango zombou do título e balançou levemente a cabeça, sentando-se comodamente para dar espaço no sofá. Kagome apareceu na sala segurando cuidadosamente um DVD sem título – para não estragar a lente.
-Sabia que Inuyasha não havia devolvido! – ela pôs o DVD no aparelho - Eu achei o final idiota... Mas acho que terá uma continuação. Aquela namorada dele morre.
-Ele tinha namorada? – Sango franziu a testa.
-Nós nunca vimos mais que quinze minutos desse filme. – Rin comentou – Acho que vai ser a primeira vez que isso acontece.
-Eu acho que Miroku e Sesshoumaru-sama já viram. Inuyasha disse que veria depois com eles, espero que não tenha esquecido. – Kagome coçou a cabeça e aumentou o volume e correu ao sofá para se juntar às amigas, sentando num espacinho ao lado de Rin.
O filme começou com uma trilha sonora instrumental suave. Kagome pulou três partes.
-Nós já vimos o início no cinema, né?
As amigas concordaram.
O filme recomeçou. A princípio, até parecia normal.
E três minutos depois...
-Que filme é ESSE? – Kagome arregalou os olhos.
Sango e Rin sentaram-se ao mesmo tempo e tentaram pegar o controle das mãos de Kagome, que conseguia afastar as duas com uma só mão e via as cenas sem nem ao menos piscar.
-PAREM COM ISSO! EU QUERO VER! – berrou e elas se encolheram na outra ponta do sofá.
A atenção de Kagome se voltou ao filme. Olhava apreensivamente as cenas, ainda atordoada pela descoberta.
-Aquela ali é a Kikyo? – ainda não acreditava – A Kikyo, eu estou vendo a Kikyo ali?
Ficou pensativa por segundos e então voltou a cabeça em direção das amedrontadas amigas.
-Vocês SABIAM disso?
Viu-as forçarem um sorriso. Kagome voltou a prestar atenção às cenas.
Um minuto depois, comentou:
-Ela atua muito mal.
Sango deu um tapa na testa e Rin torcia as mãos nervosamente.
-Des... Desculpe-nos, Kagome-chan... – Rin só faltava arrancar os dedos de tanto que os mexia– Nós já sabíamos há algum tempo, mas não tínhamos coragem pra contar pra Inuyasha e...
-Ah, tudo bem, Rin-chan. – Kagome não tirava os olhos da tevê e movia a mão esquerda como se espantasse algum mosquito perto dela – Eu não acredito que esses caras caíram nas garras da sacerdotisa... E ela nem é bonita... Olha, ela começou a tirar a roupa!
As três ficaram retas no sofá. Um gemido e outro eram ouvidos do filme.
Momentos depois, levavam as mãos aos próprios seios, como se quisessem medir o peso deles ou certificar do tamanho deles.
Continuaram assistindo ao filme.
-Ai, não... – Sango começou a rir, passando a dar gargalhadas de um acesso de risadas em poucos segundos – Acho que seria melhor a gente terminar de ver "Laços com Ternuras"... – riu tanto que quase caiu do sofá, fazendo as amigas balançarem as cabeças.
TRÊS horas depois:
-Ela tinha sim celulite! – Kagome, junto às amigas que bebiam chá, batia um punho na mesinha de madeira – EU VI! EU VI!
Sango ainda tinha acesso de risadas, mal podendo tomar o chá. Rin era a única que não queria participar da discussão.
-Hmm... Bem... Vamos mudar de assunto... – Kagome encheu a xícara mais uma vez antes de escutar Sango rir – É sério, desta vez eu não vou falar dela! Não vou!
-Tá bom, tá bom... – Sango fingiu que acreditava e tentava ficar séria – Você disse isso das outras cinco vezes antes de voltar a falar dos "defeitos de fábrica" da Kikyo...
-Ok... Então vamos falar dos meninos e esquecer a Kikyo e os filminhos dela. – Kagome empinou o nariz – Inuyasha pode até morrer sem saber disso.
-Você já tocou nesse assunto! – Sango observou sorridente – Miroku fica vendo esse filme pra encontrar os erros de produção. Ele disse que viu um samurai usando um relógio digital igualzinho ao que ele vendeu pra conseguir dinheiro.
-Vocês viram até isso...? - Rin não acreditava.
-E você, Rin-chan? – Kagome ficou curiosa, o que preocupou um pouco a amiga ao ter a leve impressão do que seria a pergunta – Você e Sesshoumaru-sama não viram também?
-Q-Que p-pergunta é e-essa, K-Kagome-chan? – ela gaguejou e sentiu o rosto queimar – Sesshoumaru-sama está com o braço machucado, caso não lembre!
-Se Miroku estivesse aqui, ele diria que isso não seria um problema. – Sango fez o comentário dela, franzindo a testa em dúvida ao lembrar de alguma coisa – Aliás, de uns tempos pra cá, Miroku anda falando muito em quebrar alguma parte do corpo pra eu ser mais carinhosa com ele...
-Hmm... Que estranho... – Kagome colocou um dedo no queixo ao assumir um ar pensativo – Inuyasha fez um comentário do tipo há alguns meses...
As duas olharam Rin, que piscava durante o raciocínio dela.
-Vocês não querem dizer que Sesshoumaru-sama quebrou o braço de propósito, né? – perguntou, cruzando os braços e enrugando a testa em sinal de irritação.
-Não, Rin-chan, não! – Kagome negava com as mãos – Foi só um comentário... Sabemos que Sesshoumaru-sama não faria isso...
-Mas... Mas... Você não acha estranho aquele gesso no braço dele? Parece que está criando raízes! – Sango também estava tanto em dúvida quanto as amigas – Ele pode sim ter quebrado o braço, mas isso já faz tanto tempo...
-Ele não mentiria pra mim. – ela enfatizou. De alguma forma sentia-se ofendida com uma simples insinuação – Só que ele não pode tirar ainda aquele gesso por causa dos acidentes que teve... Foi um atrás do outro! E ele vai sempre com Inuyasha e Miroku-sama pra se consultar com o doutor Hachitsumoto Hideaki! Eu guardo todas as receitas!
Rin suspirou como se amaldiçoasse alguém. As amigas ficaram caladas.
-E a gente viu esse filme, sim. – confirmou a teoria de Kagome, que abafou a risada.
Silêncio à mesa.
-Ainda estou preocupada com o videogame... – Rin confessou um pouco preocupada – Eu sei que parece bobagem, mas eles vão ficar decepcionados se descobrirem que aquilo quebrou e terão que rodar outros bairros procurando um novo...
-Mas já existe até um modelo mais recente! Não é possível que eles fiquem tão chateados assim. – Kagome zombou com aquela ideia – A gente já os conhece muito bem.
-Hmm... – Rin continuava preocupada.
O telefone tocou e ela deixou a xícara na mesa para ir atender:
-Alô? Pois não? – os olhos dela arregalaram – Sess? Não foi culpa minha, caiu sem querer dos...! Hã? Como? – deu uma longa pausa e mexia algumas vezes a cabeça, como se ele pudesse ver que ela concordava – Mas o que aconteceu? Hein? Quê? Certo, certo, eu vou ligar pra ele... Tá... Tá, eu ligo sim... Sess, você não se machucou de novo, né? – pegou papel e caneta para anotar um nome e alguns números - Onde vocês estão? Sess? Sess? - olhou o aparelho nas mãos e recolocou na base – Acho que caiu...
-O que foi, Rin-chan? – Sango estava tão preocupada quanto Kagome.
-Ele disse que teve uma briga da yakuza na estação de metrô quando vinham pra casa com o amigo deles... – Rin olhava ora o papel, ora o telefone, ora as amigas – A polícia está com eles, querem que testemunhem... Sess pediu para ligar para o advogado dele, um tal de... – olhou as anotações – "Hachisuyama Yakihito"... Nunca ouvi falar dele...
-Inuyasha está bem, Rin-chan? – Kagome ficou apreensiva.
-E Miroku? – a noiva deste também.
-Eu não sei, Sess parecia apressado... Estou preocupada com o braço dele! E se ele foi ferido por algum mafioso?
-Não pense nisso agora, Rin-chan! Ligue pro advogado! – Kagome começou a torcer as mãos – Estou preocupada com Inuyasha...
Foram elas ao sentar para ligarem ao dito cujo que cuidaria do caso dos três. Sango discou o número, Kagome segurou o telefone e Rin falava a ele, ocupando a posição do meio para que as amigas também escutassem a conversa:
-B-Boa noite... – ela gaguejou quando atenderam. É um pouco constrangedor para alguns falar ao telefone com uma pessoa de certa importância – Eu gostaria de falar com o senhor Hachisuyama... É uma emergência... Ah, é o senhor mesmo? Er... Ah, nada não, achei a sua voz parecida com a de outra pessoa...
Tapou o fone e olhou as amigas, que piscavam um pouco boquiabertas:
-Se não fosse o advogado de Sesshoumaru, eu ia achar que era AQUELE amigo trambiqueiro e doido deles...
-Continue conversando com ele, Rin-chan! – Sango se controlava para não roer as muito bem feitas unhas.
-S-Senhor Hachisuyama... – Rin tentava formular os pensamentos – Aconteceu um problema... Sesshoumaru-sama é um cliente seu e ele me ligou agora há pouco... Hein? O quê? O senhor já sabe do caso? Deu na tevê? – olhou as amigas, também admiradas – Ah, desculpe, eu não vi o jornal desta tarde... – viu Sango e Kagome forçarem um sorriso – Vai resolver isso agora? Que bom, que bom! Vamos aguardar um telefonema seu! Obrigada, senhor Hashisuyama! Tenha uma boa tarde... E esclareça o que aconteceu, tá? Como? Jornalistas? Não, ninguém veio aqui... Certo, eu não vou falar com eles, então... – ela franziu a testa e viu que as amigas pareciam igualmente surpresas com a pergunta – Certo, certo, eu jogo água quente nos repórteres, eles são mesmo detestáveis. – afastou-se um pouco de Sango quando esta quis dar almofadadas nela – Ok, até mais...
Quando ela desligou o telefone, as amigas nem precisaram perguntar o que aconteceu:
-Ele disse que a yakuza atacou por aquelas bandas da estação do Shikansen. – Rin começou a explicar – Prenderam todo mundo que estava lá... Menos os que conseguiram fugir, é claro...
-E por que aqueles idiotas não fugiram? – Sango se revoltou, cruzando os braços e tomando o telefone das mãos de Rin – Vou ligar lá pra redação... Aposto que eles sabem de alguma coisa...
-E se Sesshoumaru-sama tiver machucado o braço de novo?
-Inuyasha... – Kagome murmurou.
Sango aguardou alguns momentos na linha até ser atendida por algum colega:
-Oi, é a Sango... Ah, tudo bem, sim... Só queria saber a respeito de uma briga com a yakuza na estação do Shikansen. Hein? – ela olhou as amigas pelos cantos – Nossa, é mesmo? QUANTOS foram presos? – quase berrou – Um desempregado...
-Miroku. – Kagome contou no dedo.
-Um cara de olhos azuis e cabelos amarrados num rabo-de-cavalo...
-O que Kouga fazia com eles? – Rin se admirou e Kagome contou outro dedo.
-Um playboy...
-Takeda. – Kagome já estava no dedo médio.
-Um pesquisador de Kyoto...
Kagome separou o dedo e parecia um pouco assustada, piscando ao tentar imaginar quem seria a pessoa.
-E dois irmãos...
-Alguma coisa aconteceu com Sesshoumaru-sama? Hein? Aconteceu? Aconteceu? – Rin queria arrancar o aparelho das mãos da amiga, que a afastava com a outra mão.
-Escute... – Sango continuava falando – Aconteceu alguma coisa com esses irmãos? – uma longa pausa – O pesquisador começou a confusão, foi? E o playboy e mais um fizeram a torcida organizada, que horror...
-E Sess? Alguma coisa com o Sess? – Rin estava quase para arrancar a blusa de Sango de tanto que a puxava.
-Olha, eu quero saber dos irmãos... O mais novo teve que segurar o irmão? O mais velho quis bater na polícia? Mas... Mas como? – ela quase deu risada com a ideia – Mas não é possível, esse rapaz está com o braço machucado... Hein? Ele bateu em todo mundo com os dois? Mas estou dizendo que...!
Afastou o fone e falou a Rin:
-Ele diz que o mais velho conseguiu surrar quase todos os policiais... E NÃO está com o braço machucado, porque é suspeito de um assédio ocorrido num trem. Só que a mulher não tem muita certeza se foi ele ou o mais novo.
-Inuyasha não faria isso! – Kagome berrou em defesa do namorado.
Rin piscava, olhava as amigas, olhava o aparelho, piscava, olhava o telefone e as amigas. A expressão doce e confusa pareceu sumir ao franzir a testa várias vezes, quando também abria os lábios como se quisesse ainda falar algo em defesa do namorado.
-Não, Rin. – Sango balançou a cabeça quando percebeu que ela ia falar e como se soubesse o que a amiga estava pensando.
-Rin-chan, eu sei que é difícil, mas... – Kagome tinha plena confiança no namorado – Mas estamos aqui pra te ajudar a supe...!
Rin levantou-se de súbito e marchou furiosamente ao quarto, batendo a porta atrás de si. Da sala, as amigas podiam ouvir coisas serem quebradas, gavetas abrindo, portas de guarda-roupas quebrando e alguns resmungos que elas não conseguiam entender.
A porta se abriu e Rin apareceu na sala segurando um objeto metálico que guardou no bolso.
-Vamos à delegacia. – ela avisou ao trocar os sapatos na entrada da casa.
-R-Rin-chan! – Sango ficou apreensiva.
-O que foi isso que você guardou? – Kagome foi à entrada também e trocou os sapatos.
-Um bisturi pra gesso. – Rin mostrou a ponta do objeto pontiagudo.
-Mas, Rin-chan, Sesshoumaru-sama não está mais com gesso, pelo que disseram... – Kagome estava começando a ficar preocupada.
Rin abriu a porta e falou ao sair:
-Sim, agora eu sei disso.
-Quer dizer que esse Hakudoushi passou quatro anos em Kyoto? – Sango perguntou num sussurro. As três estavam com os ouvidos encostados à parede, escutando o que se passava no quarto ao lado, no qual os – agora quatro – amigos iam passar a noite.
-Dependendo da situação, ele pode te ajudar ou te deixar na pior. – Kagome explicou para as duas – Ele adora confusão, e se for divertido que todo mundo se dê mal, até mesmo ele...
-Que coisa... – Rin murmurou.
Sango afastou-se delas e foi à mesinha para pegar um pequeno aparelho de som. Ligou próximo à parede e colocou um CD drama de um conhecido filme de terror nipônico.
-Miroku morre de medo disso... "A Maldição do Senhor das Aranhas". – avisou, dando "play".
O gemido de uma mulher morrendo ecoou pelo quarto. Até Rin sentiu medo, abraçando-se a Kagome.
-Isso é um CD drama. – Sango explicou, aumentando o volume - Esperem até ouvir as correntes!
-EU NÃO VOU DORMIR COM VOCÊ, INUYASHA! – escutaram Miroku gritar alguns minutos depois.
-Inuyasha ficou com medo disso e quis dormir com Miroku? – Kagome não acreditava e Rin controlava a vontade de rir.
Antes que chegasse a parte mencionada por Sango, escutaram alguém sair do outro quarto e bater a porta furiosamente. Escutaram também as vozes de Inuyasha e – de desespero – de Miroku. Alguém ria – perceberam que era Hakudoushi – e nem sinal de Sesshoumaru. Com certeza tinha sido ele quem saíra.
-Oh... Correntes! – Sango comemorou quando a trilha começou e a mulher começou a chorar no CD; correntes arrastando eram agora ouvidas.
-Será que Sesshoumaru foi dormir na sala? – Rin se perguntou, franzindo levemente a testa. As amigas estreitaram os olhares.
-Nem pense em ir ver se ele está dormindo confortavelmente lá, Rin-chan. – Kagome a repreendeu – Ele te enganou. Merece se tratado assim por um mês, no mínimo.
-Vamos dormir, vamos dormir... – Sango puxou as duas pelas mãos para a cama de Sesshoumaru, que dividiriam por aquela noite – Hoje foi um dia muito cheio... Só o Sesshoumaru-sama ter sido descoberto enganando Rin-chan será assunto pelos próximos cinco meses.
Deitaram-se. Rin ficou ao meio e Kagome e Sango ainda comentavam o quão engraçado acharam que Takeda e Kouga ficaram com aquelas camisas cobrindo os rostos.
-Boa noite, meninas. – as três falaram ao mesmo tempo, fechando os olhos.
Será que é divertido passar o Natal sob um clima de terror na casa de Kagome, o conhecido Templo Xintoísta da família Higurashi? Bokujun 21kai: Nihon no Kaidan. Não percam!
"-Alguém ouviu isso?"
Nota da autora: Hmm... faltam poucos dias para os capítulos inéditos desse povo maluco... :)
