3. A Verdade

Harry Potter leu e releu aquele pedaço de pergaminho em sua mão. O colocou em cima da mesa que ocupava na Sessão de Aurores, no Ministério da Magia, e o encarou fixamente por um tempo. Ali, escrito em letras apressadas, mas caprichadas, estava um convite para ir jantar n'A Toca. A Sra Weasley ainda insistia em convidá-lo, mesmo ele não aparecendo por lá há quatro anos. Mesmo ele só vendo aquela família em eventos no Ministério.

Não que não fosse mais amigo dos Weasley, é claro que era. Sempre seria. Mas estar na presença deles, doía. Estar naquela casa, também doía. Harry sempre achou que era mais forte que isso, mas na verdade ele não era. Quantas pessoas amadas perdera ao longo da vida? Tantas. Então não deveria doer tanto, não é?

Ele suspirou, e pensou em Hermione. Talvez a amiga estivesse certa, talvez ele tenha parado de viver. Mas ainda assim, não sabia bem como seguir em frente. Queria entender como Hermione havia conseguido. Não tinha como ser fácil.

_ Harry?_ uma voz o chamou. Era Evan Miller, um dos aurores que trabalhava com ele_ Estamos pensando em sair pra encher a cara essa noite depois do expediente. Você quer ir?_ Evan perguntou casualmente, enquanto escrevia freneticamente um relatório pedido por Kingsley.

Harry não entendia o motivo de seus companheiros de trabalho ainda o chamarem pra sair. Ele nunca aceitava. Imaginou que a educação os fazia convidá-lo. Mas a julgar pelo fato de Evan nem sequer estar olhando pra ele, Harry imaginava que o colega já sabia qual seria a resposta.

_ Hoje não dá, cara. Mas valeu pelo convite.

_ Ok_ Como se não tivesse perguntado nada, Evan continuou escrevendo feito um louco.

Harry encarou novamente o pergaminho pousado em sua mesa. Uma coisa dentro dele estava borbulhando. Medo, incerteza, confusão. Não sabia muito bem o que era. Mas talvez... talvez fosse apenas algo lhe dizendo que estava na hora de sair da sua bolha.

oooooooooooooo

_ Gina, falta um prato na mesa_ A Sra Weasley olhou para a filha de maneira repreensiva. Gina revirou os olhos.

_ Mamãe, ele não vem.

_ Bom, quem sabe dessa vez ele apareça, não é?_ a senhora ruiva disse com um pingo de esperança.

Gina balançou a cabeça, mas colocou mais um prato sobre a mesa. A última vez que Harry esteve n'A Toca foi no velório de Ron, quatro anos atrás. Não entendia porque sua mãe ainda insistia naquilo, porque ainda esperava que Harry fosse aparecer repentinamente. Gina já havia deixado de esperar por ele há muito tempo.

Aos poucos as pessoas foram chegando, e enquanto o jantar não era servido, se iniciou uma animada conversa na sala.

_ Mamãe acha que o Harry vem_ Gina disse baixo, puxando Hermione num canto.

_ Ela sempre acha_ Hermione suspirou_ Eu o vi há alguns dias, acabamos discutindo.

Gina a olhou um pouco surpresa. Hermione e Harry nunca discutiam. A amiga deu de ombros.

_ Ele não aceitou bem o meu noivado.

_ Hum, falando nisso, você tem certeza de que é o que quer?

_ Por que eu não teria?_ Hermione questionou um pouco na defensiva.

_ Bom, é que... você e o Elliot nunca pareceram assim super apaixonados... Quer dizer, pelo menos não você.

_ Está dizendo que eu não gosto do meu próprio noivo?_ o tom de Hermione se tornou indignado. As bochechas de Gina ficaram um pouco vermelhas.

_ Não, eu estou dizendo que você deve ter certeza de que é isso que você realmente quer.

_ É claro que é o que eu quero_ Hermione desviou o olhar, e o fixou em Elliot que conversava animado com Fred e Jorge.

Elliot era um homem incrível. Inteligente, um medibruxo bem sucedido, bonito, o sonho de qualquer garota. Ela era grata por tê-lo encontrado. Sem ele não queria nem imaginar em que estado seu psicológico estaria naquele momento. Ele havia entrado em sua vida quando ela achou que não aguentaria mais nenhum dia de tanta dor. Aos poucos ele foi remendando os pedacinhos destruídos do coração dela, e lhe trazendo um pouco de esperança. A costura, as cicatrizes ainda estavam lá, sempre estariam. Anda doíam de maneiras estranhas, e às vezes essa dor ainda tirava seu ar. Mas não era como antes. Agora ela podia suportá-la. Queria sim casar com ele. Ela o amava. Não era um amor devastador, Elliot não lhe tirava o folego, e não fazia seus joelhos tremerem. Não era o mesmo que foi com ele. Essa sensação, Hermione sabia que nunca mais sentiria de novo. Mas ainda assim, ela o amava. De um jeito calmo, sem exagero, sem músicas tocando em seus ouvidos quando se beijavam. Ele lhe dava algo parecido com paz, e era só isso que a alma dela precisava.

_ O jantar está na mesa_ A senhora Weasley chamou da porta da cozinha, interrompendo as conversas e tirando Hermione de seus pensamentos.

Quando todos já estavam acomodados na mesa de jantar, a porta da cozinha ecoou com algumas batidas. Todos se entreolharam. Acreditavam que todos já estavam ali.

_ Pode entrar_ o Sr Weasley disse abrindo a porta com um aceno de varinha, e um Harry Potter constrangido e receoso apareceu no portal. Todos ficaram quietos por um instante, então a Sra Weasley correu para abraçá-lo.

_ Ah, Harry, querido! Eu não acredito que está aqui_ ela disse agarrada a ele, e logo ouviram-se soluços vindos da senhora ruiva.

_ Sra Weasley, que isso? Não precisa chorar_ Harry disse comovido. Ele a afastou um pouco e começou a limpar as lágrimas do rosto rechonchudo dela_ Achei que a senhora fosse ficar feliz em me ver.

_ Estou chorado de felicidade. Não nos vemos há sete meses, desde o aniversário dos gêmeos naquele salão em Londres_ Mas entre, entre, querido.

Todos ficaram um tempo olhando pra Harry, até que a Sra Weasley, irritada, disse:

_ Não fiquem parados feito estátuas, venham cumprimentar o Harry.

oooooooooooooo

Aquilo era estranho, Harry pensou. Os únicos Weasley que via com certa frequência eram o Sr Weasley e Percy, pois trabalhavam no mesmo lugar. E mesmo assim fazia tempo que não parava para conversar com nenhum deles. Ao vê-los todos ali, comendo e conversando, se deu conta do quanto sentira a falta do calor de uma família. Daquela família, pra ser mais especifico. A única que ele conhecera em toda a sua vida.

O jantar correu bem, com os Weasley sempre tentando inclui-lo nos assuntos e fazendo o possível para fazê-lo se sentir confortável. Ele se sentiu grato por aquilo.

Depois do jantar, todos foram para a sala tomar hidromel e conversar.

_ Er... Eu vou ao banheiro_ Harry disse, interrompendo Fred e Jorge, que estavam lhe contado sobre sua mais nova invenção para as Gemialidades Weasley.

Ele subiu as escadas, e antes que entrasse no banheiro alguma coisa o impediu. Ele olhou para cima em direção ao último andar. Sem que pudesse policiar seus próprios passos, subiu todos os lances de escada até chegar ao último. Suas pernas ficavam mais pesadas à medida que ele subia, mas só parou quando emparelhou com a porta daquele quarto. Ele pôs a mão na maçaneta e ficou com ela ali por um tempo, "Só vire a maçaneta, Harry. É só uma maçaneta". Ele repetiu mentalmente e no instante seguinte abriu a porta.

O quanto estava iluminado por velas encantadas no teto. Estava idêntico a última vez que o viu. As paredes cor de abóbora estavam conservadas, como se fossem pintadas de tempos em tempos. A cama estava impecavelmente arrumada com uma colcha com o escudo do Chudley Cannons. Alguns livros de Hogwarts estavam empilhados em cima da escrivaninha, e havia aquele cheiro bom no quarto, como se ele tivesse sido limpo recentemente. Pichí, a corujinha que era de Ron, dormia num poleiro perto da janela. A sensação era a de que a qualquer momento o dono daquele quarto, chegaria para se acomodar na cama ou sentar à escrivaninha. Os olhos de Harry marejaram e ele não pôde se conter. Caminhou até a pequena estante do lado direito e encarou o porta-retrato que estava sobre ela. Era uma foto bem antiga dele, Hermione e Ron, aparentemente com uns 14 anos. Os três sorriam e acenavam e de vez em quando o Ron da foto mostrava a língua. As lágrimas escorreram antes que Harry pudesse impedi-las. Ir até lá fora um erro, sabia que aquilo ia acontecer. Sabia que em algum momento ia se deixar levar por todas aquelas coisas que ele lutava tanto pra guardar dentro de si. Esse era o motivo pelo qual tinha parado de ir à Toca, porque as lembranças o consumiam.

_ Harry?_ Uma voz o chamou, e ele se virou rapidamente. O Sr Weasley estava parado na porta, o observando. Segurava algo enrolado num pano laranja.

Harry limpou as lágrimas e tentou disfarçar, mas de qualquer forma o Sr Weasley fingiu que não havia visto. Ele tinha uma expressão um tanto triste e saudosa. Olhou ao redor do quarto.

_ Molly gosta de conservar o quarto assim. Bem arrumado e bem limpo. Eu disse a ela que talvez devêssemos doar algumas coisas, como a cama e as roupas dele, mas ela não quis. Bom, eu não posso obrigá-la. De qualquer forma talvez nem eu esteja pronto pra isso.

Harry não disse nada. Continuou parado ao lado da estante, olhando para Arthur.

_ Sente muita falta dele, não é?_ o Sr Weasley perguntou.

_ Todos os dias_ Harry respondeu, infeliz_ E o senhor?

_ Tanto que às vezes acho que não vou aguentar de tanta saudade. Mas preciso ser forte pela Molly, sabe? Ela envelheceu uns 20 anos desde que ele morreu. Ainda chora todas as noites e eu tenho que abraçá-la até que ela durma. Aqui em casa na verdade todos nos consolamos.

Harry sentiu um nó em seu peito. Não queria ouvir aquilo. Não queria imaginar a dor de ninguém, além da sua.

_ Por que está me dizendo isso, Sr Weasley?

_ Porque você escolheu passar por isso sozinho e não devia.

Era verdade. Ele achou que assim seria mais fácil, que doeria menos. Preferia assim, nunca fora de sofrer no ombro de ninguém.

_ Bom, eu tenho uma coisa pra você_ Arthur disse repentinamente e se aproximou dele, lhe estendendo o objeto que estava embrulhado no pano laranja.

_ O que é isso?_ Harry perguntou, quando pegou o objeto das mãos dele. O Sr Weasley apenas sorriu.

Harry soltou o objeto do pano e imediatamente percebeu o que era. A caixa de madeira estava gasta do jeito que ele se lembrava. Era o xadrez bruxo de Ron. Brincaram inúmeras vezes com aquilo enquanto iam crescendo. Ele olhou para o Sr Weasley com um olhar questionador.

_ Quero que você fique com isso_ Arthur disse_ Eu queria ter te dado há muito tempo atrás, mas não tinha coragem. Mas tenho certeza que Ron gostaria que você ficasse com isso.

Harry encarou a caixa em sua mão. Seu primeiro pensamento foi devolver, dizer que não queria. Mas ao invés disso, ele sentou na cama e abriu a caixa, as peças estavam todas lá, e ele se lembrou da primeira vez que Ron o mostrou aquele jogo. Lembrou que Ron sempre ganhava. Achou que choraria de novo, mas antes que fizesse isso, o Sr Weasley se sentou ao lado dele na cama e fixou o olhar na direção da foto sobre a estante.

_ Sabe Harry, quando a gente perde alguém que ama, a dor pode ser insuportável. Mas quando a dividimos com quem se importa com a gente, tudo fica mais fácil. Aqui em casa a gente divide a dor um com o outro, é assim que seguimos em frente. Quando um chora, tem sempre alguém pra lhe dar um abraço. Graças a Deus que temos isso_ ele olhou para Harry_ Eu sei que você pensa que talvez ter se isolado, tenha sio melhor, mas acredite, não foi. Poderíamos ter passado por tudo isso juntos, ainda podemos. Você sabe que é da família.

Houve alguns segundos de silêncio, até que Harry disse:

_ Obrigado, Sr Weasley!_ ele apertou a caixa de xadrez contra seu corpo, e levantou_ Eu preciso ir.

O Sr Weasley o olhou por alguns instantes, imaginando se o que tinha dito, havia surtido algum efeito, mas não conseguiu ler a expressão no rosto do jovem. Ele então sorriu e acompanhou Harry até a porta do quarto. Antes de sair deu uma olhada pra dentro. Sempre fazia aquilo quando ia ao quarto filho. Gostava de olhar pra dentro e ver Ron em cada pedacinho, e às vezes realmente o via: escrevendo num pergaminho à escrivaninha, brigando com Pichí ou revirando as roupas no armário. Era um jeito de driblar aquela saudade que ele sabia que estaria ali. Suspirou e desceu as escadas com Harry.

_ Infelizmente, Harry já está indo_ ele anunciou quando encontraram todos conversando na sala.

_ Mas já, Harry querido? Ainda está tão cedo._ disse a Sra. Weasley e olhou na direção da caixa de xadrez debaixo do braço de Harry, aliás, ele reparou que muitos dos Weasley olharam para o objeto que ele carregava. Lhe ocorreu que talvez o Sr. Weasley não tivesse dito a ninguém que lhe daria aquilo. Ficou aliviado que mesmo com todos os olhares, ninguém tenha comentado nada.

_ Desculpe, Sra. Weasley, mas amanhã vou ter um dia cheio de trabalho, preciso ir pra cama cedo.

_ Tudo bem_ ela disse um pouco consternada_ Mas prometa que vem nos ver mais vezes.

_ Fique tranquila, eu venho sim_ disse aquilo sem saber realmente se era o que queria.

Se despediu de todos os Weasley, e foi pego de surpresa por um abraço apertado de Gina.

_ É bom cumprir com a sua palavra_ ela disse baixinho no ouvido dele. Harry se surpreendeu, mas apenas deu um pequeno sorriso. Então se voltou para Hermione.

_ Hum, Hermione será que pode me acompanhar até lá fora? Preciso dar uma palavrinha com você antes de ir.

Hermione o olhou com surpresa, mas concordou. Ela deu um sorriso para Elliot, e então saiu para o jardim com Harry. A noite estava bonita, e batia um vento frio sobre eles.

_ Quero pedir desculpas pela maneira como eu agi com você no outro dia_ Harry começou_ Eu não devia ter dito aquelas coisas, você tem todo o direito de refazer a sua vida.

Dizer aquilo lhe custava mais do que Harry poderia imaginar. Mas sua amiga tinha o direito e precisava ser feliz. Ron não voltaria e não fazia sentido ela ficar sozinha. Se tinha alguém que merecia ser feliz era Hermione.

_ Você está falando sério?_ Hermione perguntou surpresa.

_ É claro que sim.

_ Ah, Harry..._ ela pulou nos braços dele e lhe abraçou com tanta força, que os dois quase caíram no chão. Harry sorriu

_ Hey, assim você vai esmagar os meus ossos.

Ela o soltou, e estava com os olhos cheios de lágrimas. Rapidamente, Hermione passou as mãos pelos olhos.

_ Não sabe o quanto isso significa pra mim. Preciso que me apoie, Harry. Preciso muito de você.

_ Bom, eu estou aqui. Admito que não é fácil, mas vou te apoiar, Hermione.

Os dois sorriram um pro outro.

_ Acho melhor você voltar lá pra dentro. Eu tenho que ir embora de qualquer forma.

_ Tem certeza que não quer ficar mais um pouco?_ ela perguntou.

_ Tenho_ Harry respondeu apertando o tabuleiro de xadrez com um pouco de força.

Os dois se despediram e Harry desaparatou deixando Hermione sozinha no jardim. As coisas estavam se ajeitando, ela pensou. Harry finalmente estava aceitando que a vida precisava seguir, que remoer o passado não mudaria nada, apenas traria mais dor. E quanto antes o amigo se desse conta disso, menos difícil seria. Bom, menos difícil dentro do possível. Foi assim com ela, poderia ser assim com ele também. Ela só queria poder olhar pra frente e imaginar que havia felicidade em algum lugar. Estava fazendo isso, dia após dia. Desejava que Harry pudesse fazer o mesmo.

oooooooooooooo

Lá estava aquele cara loiro e estranho mais uma vez, Michael pensou. Ele aparecia todas as noites há duas semanas. Sempre pedia a mesma bebida, e sempre sentava no mesmo lugar. Mas o que realmente incomodava Michael, era a maneira como o rapaz o olhava: de um jeito furtivo, quase como se soubesse algo que Michael não sabia.

_ Vai querer o mesmo das outras noites?_ Michael perguntou.

_ Sim!_ Draco Malfoy respondeu, e assim que Michael trouxe sua bebida, ele começou a dar goles pequenos e contidos. Esperou pacientemente até que o movimento no bar diminuísse, e quando o jovem ruivo pareceu finalmente ter uma folga dos clientes, Draco resolveu que era hora de puxar assunto_ Muito trabalho?

_ O de sempre_ Michael respondeu, enquanto passava um pano sobre o balcão_ Parece que você gostou daqui, não é? Tem vindo todas as noites.

_ É, não é tão ruim_ Draco respondeu, dando de ombros_ Há quanto tempo trabalha aqui?

_ Três anos.

_ E você mora por perto?

_ Littlehampton.

_ É longe?

_ Um pouco mais de uma hora de distância. Por que está fazendo tantas perguntas?

_ Curiosidade_ Draco disfarçou e deu mais um gole em sua bebida.

Se tinha uma coisa que Draco não sabia, era como ser sútil. Tinha vontade de fazer milhões de perguntas para Michael Bennett, tinha esperança de encontrar alguma coisa que o ligasse a Ron Weasley. Sabia que era quase impossível, mas ao mesmo tempo não poderiam existir duas pessoas tão iguais no mundo, a não ser que fossem gêmeas. E isso ele duvidava. Mas pra descobrir qualquer coisa mais pessoal sobre Michael, teria que conquistar a confiança dele. Precisava que o outro o conhecesse.

_ Sabe, esse tipo de lugar não parece ser muito a sua cara_ Michael disse de repente.

_ Como assim?_ Draco perguntou sem entender.

_ Olhe a sua volta, e me diga o que você vê.

Draco deu uma boa olhada ao redor, e depois voltou a olhar para o ruivo.

_ O que você vê?_ Michael insistiu.

_ Um bando de gentalha, só isso_ Draco respondeu com a mesma naturalidade que responderia a alguém que tivesse lhe perguntado que horas eram. Michael riu.

_ Exatamente! E você com seu sobretudo elegante, cabelo perfeitamente alinhando, luvas de couro de sei lá que animal, você simplesmente não se encaixa. Então talvez pudesse me dizer o que realmente quer aqui todas as noites.

Era a deixa que Draco precisava, o momento perfeito pra mostrar um pouco de si para o outro jovem, e quem sabe, talvez, descobrir um pouco sobre o outro rapaz também.

_ Bom, ando tendo uns problemas de onde eu venho. As pessoas simplesmente me odeiam. Só me sinto à vontade nesse tipo de lugar, onde ninguém me julga_ ele foi o mais sincero que a situação permitia. Obviamente não podia falar sobre o mundo bruxo, e muito menos sobre o motivo de todos o odiarem.

Michael o encarou com curiosidade por alguns instantes.

_ Por que te odeiam?

_ Acham que fiz uma coisa que eu não fiz.

_ Que coisa?_ Michael continuou, mais curioso ainda. Draco ponderou o que poderia lhe contar.

_ Lembra do meu amigo que morreu? O que parecia com você. Acham que eu poderia tê-lo ajudado, mas eu não tinha como fazer nada. Eles me culpam por isso, acham que o deixei pra morrer.

Michael arregalou os olhos. Não esperava por aquilo. Achou que fosse alguma bobagem de gente rica e fresca, não algo realmente sério. Pensou em perguntar como o tal rapaz tinha morrido e como Draco poderia ter culpa nisso, mas talvez isso fosse ir longe demais. De uma forma estranha ele acreditava em Draco Malfoy.

_ Nos últimos anos eu venho explorando a noite de Londres, coisa que eu nunca havia feito. Quase toda noite, vou de pub em pub, tentando encontrar um lugar onde eu me sinta razoavelmente bem. E esse foi o primeiro. Você disse que não me encaixo aqui, mas acho que me encaixo.

_ E você está ok com o fato de eu lembrar o seu amigo?

_ Perfeitamente ok_ Draco bebeu o resto de seu drink de uma só vez.

O jovem ruivo se distanciou um pouco para servir alguns clientes que foram até o balcão, e se pegou pensando em sua própria história. Ou melhor, na falta de sua história. Vivia sempre em constante conflito com sua perda de memória, que não parou pra pensar que o mundo era cheio de pessoas com histórias tão difíceis quanto a dele, e que às vezes se abrir com alguém, mesmo que seja um estranho, pode ser a coisa certa a se fazer. Como Draco Malfoy havia feito apenas minutos atrás. A verdade era que Michael não tinha com quem falar. O Dr Bennett estava sempre ocupado demais, Zoe só parecia querer que ele pensasse no futuro, mesmo sabendo o quanto saber o passado, importava pra ele, Danna era ótima, mas ele não se sentia à vontade para se abrir com ela.

Mas ali estava Draco Malfoy, aquele estranho que acabara de desabafar com ele, em quem ele não sabia se podia confiar, mas que tinha acabado de confiar nele. E às vezes a necessidade de falar com alguém era tanta, que parecia que Michael explodiria. Ele se aproximou de onde Draco estava, e sem que o outro pedisse, lhe serviu com mais bebida.

_ É por conta da casa_ ele disse, pensativo_ Por que me contou tudo isso?

_ Bom, você me perguntou o real motivo de eu vir aqui todas as noites..._ ele deu de ombros_ E sabe, você também não parece se encaixar nesse lugar. Por que trabalha nessa pocilga?

_ Preciso ajudar em casa. Eles me acolheram, preciso ajudar de alguma forma.

_ Quem te acolheu?_ Draco perguntou, e tentou esconder a ansiedade.

_ O Dr Bennett e as filhas dele_ Michael respondeu baixo. Olhava fixamente para um ponto no meio do bar.

_ Bennett? Esse é seu sobrenome... Essas pessoas são seus parentes ou algo assim?

_ Não, como eu disse, eles me acolheram.

_ O que houve?

_ Você quer mesmo saber?

_ Sim!_ Draco se inclinou sobre o balcão. Não podia mais disfarçar sua ansiedade.

Michael o encarou, e teve apenas um segundo de hesitação.

_ Você vai precisar disso_ Michael serviu mais um dose para Draco.

Draco engoliu a bebida de uma vez só.

_ Muito bem, Draco Malfoy, eu vou te contar a minha história.

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N/A: Gente, mil perdões pela demora gigantesca. Eu tive alguns problemas, e não pude postar antes. Mas o que importa é que está tudo resolvido, e que aí está o capítulo 3. Espero que quem começou a ler a fic, não tenha perdido o interesse. E não vu demorar mais tanto. Prometo!

N/A 2: Michelleabsoluta, Adamante, Larissa Mayara, Duda, Pepper Potter, Myke Marauder, , muito obrigada por comentarem o capítulo 2. Como podem ver, não desisti da fic não, e de verdade não vou demorar assim de novo. Espero que curtam esse capítulo e que leiam os próximos. Bjks!

Até o capítulo 4, galera. Comentem!