12. Eu estarei aqui

Hermione ficou ao lado de Ron o quanto pôde. As pessoas se aproximavam e o abraçavam e lhe faziam perguntas e ela esteve ali, segurando a mão dele por tanto tempo quanto foi possível. Mas Elliot também estava lá e em um determinado momento, ela soube que aquela situação o incomodava. Ele não diria, não reclamaria, mas ela o conhecia bem o suficiente para saber que naquele momento, ele estava infeliz. Por mais que ele estivesse agora numa conversa com Harry, ela sabia pela maneira como ele olhava na direção dela, que algo não estava bem.

_ Você quer conhecer o Elliot, o meu noivo?_ ela perguntou baixinho a Ron, assim que um dos muitos convidados que o abordaram, se distanciou.

Ron fez que sim com a cabeça, alegremente. Se tivesse que aceitar mais abraços de pessoas desconhecidas e ouvir de novo as perguntas "como é viver com os trouxas?" ou "O que aconteceu com você todo esse tempo?", ele sairia correndo. Então, ela o conduziu até uma das árvores no jardim, onde Elliot e Harry conversavam bebendo hidromel. Um pouco sem graça, ela soltou a mão de Ron e entrelaçou seus dedos nos de Elliot.

_ Ron, esse é o Elliot Daniels. Elliot, esse é o Ron.

Os dois rapazes se olharam e apertaram as mãos.

_ Eu ouvi muito falar de você, que bom que está de volta_ Elliot disse educadamente.

_ Obrigado… Fiquei sabendo do casamento, parabéns.

Elliot olhou para Hermione um pouco surpreso. Não imaginou que ela tivesse contado a Ron sobre o casamento, mas aquilo o deixou feliz. Significava que ela queria deixar as coisas claras.

_ Ah, obrigado_ ele sorriu, envolvendo as costas de Hermione com um dos braços_ Vai ser daqui a seis meses. Ainda não enviamos os convites, mas seria legal se você fosse.

_ Queremos todas as pessoas importantes lá_ Hermione adicionou com um pequeno sorriso.

_ Claro_ Ron disse_ Claro que sim.

Houve um instante de silêncio no qual os três se entreolharam, quando Harry pigarreou.

_ Ron, será que posso falar com você um pouco?_ ele pediu.

Ron fez que sim, os dois pediram licença a Hermione e Elliot e se afastaram. Começaram uma caminhada lenta pelo jardim.

_ Como você está?_ Harry perguntou.

_ Um pouco confuso, mas bem, eu acho_ Ron respondeu, colocando as mãos nos bolsos do casaco. Ela estava satisfeito que agora as pessoas estavam ocupadas demais bebendo e fazendo danças estranhas no meio do jardim, em vez de abordá-lo.

_ Escuta, todos dissemos a sua mãe que isso_ Harry fez um gesto apontando para a festa_ era exagero. Mas ela estava empolgada demais pra perceber.

_ Não tem importância. Quer dizer, agora não tem mais o que fazer.

Os dois pararam em frente à mesa de bebidas e Ron começou a analisá-las. Todas as garrafas tinham rótulos com nomes estranhos. Uísque de Fogo, Maremoto, Fogo de Dragão, Beba até Morrer_ essa particularmente lhe chamou a atenção_ ,Vinho das Fadas e Rum não é Ruim_ ele riu dessa última. Pegou um copo e o encheu de Beba até Morrer.

_ Essa é bem forte. Tem certeza de que..._ mas antes que Harry pudesse completar Ron já tinha virado o copo inteiro na boca.

_ Meu tipo de bebida_ ele falou, enchendo o copo novamente_ Tem coisas que você só consegue enfrentar bebendo.

O líquido quente descendo por sua garganta foi reconfortante. Ele sentiu falta da paz que o álcool lhe dava. Estava acostumado a beber um pouco antes de dormir todas as noites, e nas duas últimas noites não teve aquilo, embora as poções do hospital o ajudassem. Tentou ignorar o olhar que Harry lhe lançou e se concentrou no prazer que aquilo lhe dava.

_ Mas não quer ficar bêbado logo agora, né? Não vai conseguir aproveitar a festa...

_ O que você quer mesmo?_ Ron o cortou, um pouco ríspido.

Harry o olhou surpreso, mas fez o seu melhor para não responder da mesma forma.

_ Hum, eu andei pensando… Que talvez a gente pudesse sair qualquer dia, para conversar, sei lá.

_ Não estamos conversando agora?_ Ron deu outro gole em sua bebida.

_ Sim, mas aqui tem muita gente. E ninguém vai te deixar em paz essa noite.

_ Ok. O que você sugere?

_ Um almoço?_ Harry tentou_ No Beco Diagonal.

_ Não faço ideia de onde é isso.

_ Sem problema, eu passo aqui e nós vamos. Amanhã ao meio dia?

_ Sim, parece bom.

Aquilo era estranho, Harry pensou. Ron não parecia confortável e não parecia fazer esforço nenhum para estar. Machucava Harry um pouco, mas ele tentou entender. Tudo era novo para ele, inclusive o próprio Harry. Aos poucos, talvez, Ron se acostumasse com ele e os dois poderiam voltar a ser o que eram antes. Ficou se perguntando se ele deu o mesmo tratamento a Hermione, mas a julgar pela maneira como os dois apareceram de mãos dadas, Harry duvidava que ela tivesse recebido a mesma frieza. Aquilo o deixou dividido. Ficava feliz que Ron e Hermione estivessem se dando bem, aparentemente. Mas ficava triste por seu melhor amigo o tratar com indiferença.

_ Como foi a conversa com Hermione?_ ele perguntou.

_ Foi bem. Ela é legal, mas começou a chorar em algum momento e eu não soube bem o que fazer_ ele observou a garota encostada na árvore, conversando com o noivo. Os dois pareciam felizes e de vez em quando, Elliot dizia alguma coisa no ouvido dela que a fazia rir.

_ Bom, ela só ficou feliz de saber que você tá vivo. Foi muito difícil pra todo mundo, sabe? A gente… A gente sentiu muito a sua falta.

Ron olhou para ele e se sentiu mal pela maneira fria com que o estava tratando. Não era certo e ele não sabia exatamente porque estava agindo assim.

_ Olha, me desculpa_ ele disse, passando a mão nos cabelos_ Não quero ser um idiota. Você parece ser um cara legal, Harry.

_ Tudo bem. Imagino que isso tudo é difícil pra você, mas eu quero ajudar, quero tornar as coisas mais fáceis.

_ Isso seria bom. E eu também vou me esforçar pra não ser um babaca, prometo_ Ron então pegou um copo e o serviu com Beba até Morrer, depois entregou a Harry_ Aqui, vamos brindar.

_ Brindar a sua volta?

_ A qualquer coisa. Só vamos brindar_ o ruivo disse um pouco impaciente.

_ Então, um brinde a sua volta.

Os dois ergueram os copos de encontro um ao outro. Enquanto Harry deu apenas um gole_ e fez uma super careta_, Ron virou o dele mais uma vez. Harry tentou não achar aquilo estranho, mas não teve como. Algumas pessoas bebiam para fugir de seus problemas e ele não queria pensar que Ron estava fazendo isso. Ele não era hipócrita, ele bebia. Às vezes ficava sozinho em seu apartamento e bebia, enquanto cozinhava ou bebia vendo TV_ uma das poucas coisas que levou do mundo dos trouxas com ele. Mas Ron havia acabado de virar dois copos da bebida mais forte que Harry já experimentara, como se fosse água. Ele não queria julgar, não sabia o que se passava na cabeça de Ron e nem o que a bebida representava para ele, mas talvez abordasse aquilo mais para frente, quando sentisse que Ron e ele haviam se unido novamente.

_ Você vai convidar o Malfoy?_ Ron perguntou repentinamente_ Sabe, pro nosso almoço amanhã.

_ Deus, não_ Harry respondeu muito rápido_ Por que eu o convidaria? Prefiro pisar num formigueiro do que passar algum tempo com ele.

_ O que há com vocês, afinal? Aliás, por que ele não está aqui?

_ Acho que sua mãe o convidou, mas ele não apareceu. Resolveu nos fazer esse favor.

_ Pensei que fossem amigos

_ Não mesmo, ele é um babaca.

_ Eu não entendo. Quando você foi ao bar falar comigo, vocês estavam mentindo sobre serem amigos?

_ Sim. Mas amanhã quando nos encontrarmos, eu vou te explicar muitas coisas, essa vai ser uma delas. Aposto que você tá curioso sobre sua vida antiga.

_ Muito_ Ron assentiu_ Com um pouco de medo de quem eu era, mas bem curioso.

_ Não precisa ter medo_ Harry garantiu_ Você é uma das melhores pessoas que já conheci.

Ron sorriu pra ele. Era bom ouvir aquilo. Se sentiu repentinamente empolgado pelo encontro do dia seguinte. Seria bom se conhecer um pouco através da perspectiva de alguém que o conhecera antes de tudo isso. E bom, Harry parecia se importar com ele.

Eles continuaram bebendo e conversando amenidades, até que Ron se deu conta de que a festa estava no fim e ele não deu a desculpa de que estava cansado e que precisava ir pro quarto. Não sabia se foi Harry que o distraiu falando sobre Hogwarts_ a escola bruxa que eles frequentaram_ ou se foi olhar para Hermione dançando durante toda a tarde ao lado de Gina e Elliot, mas a verdade é que a festa não foi tão ruim assim. Não depois que ele começou a beber um copo atrás do outro. Agora, parando pra pensar, provavelmente não foi nem Harry nem Hermione que tornaram aquilo menos pior, e sim, a quantidade um pouco alta de álcool que ele consumiu.

Quando ainda restavam meia dúzia de convidados na festa, ele se despediu de Harry e foi discretamente em direção à Toca, ou tão discretamente quanto seu estado permitia, pois ele tinha certeza de que estava bêbado. Preferindo acreditar que ninguém tinha percebido, ele se trancou em seu quarto e se jogou na cama.

O som da música alta ainda entrava pela janela, mas ele não se importou. Ficou ali de bruços, com o rosto encostado no travesseiro, pensando em tudo que tinha acontecido, enquanto esperava o sono levá-lo. Tudo ainda parecia uma loucura, um devaneio da sua mente, embora ele soubesse que era tudo real. Ele quis tanto saber quem era, mas a realidade era bem mais incrível do que ele achou que pudesse ser. Mas não era ruim, embora ele soubesse que precisaria de tempo para se adaptar a ser Ron Weasley, para amar as pessoas que ele amava. Ele podia lidar com a magia, podia lidar com sua nova vida, mas o que o sobrecarregava eram os todos os sentimentos. Não os dele, mas os daquelas pessoas que passaram tantos anos de luto por alguém vivo. Não sabia se conseguiria alcançar as expectativas deles como filho, irmão e amigo. Será que seria capaz de amá-los da maneira correta como seu eu do passado amou um dia? Ele não sabia, mas esperava que sim. Por enquanto, esperava que eles se contentassem com aquela versão dele. A versão sem memória, meio quebrado por dentro, e com esperança de amá-los um dia, porque naquele momento era tudo que ele poderia ser.

oooooooooooooo

Harry apareceu pontualmente ao meio dia do dia seguinte. Ron o estava esperando na cozinha, enquanto ouvia sua mãe reclamar que Fred e Jorge haviam deixado bombas de bostas explodirem no armazém onde a família guardava as coisas dos trouxas.

_ Eu nem sei porquê eles ainda guardam essas coisas no armazém se nem moram mais aqui_ ela ia dizendo, enquanto mexia em panelas no fogão_ Ah, olá Harry, querido_ acrescentou, assim que Harry apareceu na porta da cozinha.

_ Boa tarde, Sra. Weasley_ ele lhe deu um abraço e se voltou para Ron_ Vamos?

Os dois saíram instantes depois e assim que desaparataram, Ron teve aquela sensação de que algo puxava seu umbigo para fora da barriga.

O Beco Diagonal era uma coisa à parte. Até chegarem no restaurante que Harry havia escolhido para almoçarem, os dois passaram por várias lojas e Ron ficou fascinado. Tinha de tudo. Quer dizer, tudo que poderia ser considerado estranho. Todo tipo de loja de animais, de roupas, de livros, de caldeirões, de comidas e muitas outras coisas que ele teve dificuldade de acompanhar.

_ Aquela ali é a loja dos gêmeos_ Harry apontou para uma loja grande e colorida no fim da rua, de onde se ouvia algumas explosões e que parecia lotada.

_ Então é de lá que saem as coisas estranhas deles?_ Ron perguntou, lembrando de um comentário que sua mãe fez, enquanto reclamava dos gêmeos mais cedo.

_ Sim. Coisas estranhas que estão fazendo eles ficarem ricos_ Harry adicionou, parando em frente a um restaurante_ É aqui.

Os dois entraram, acharam uma mesa e Ron achou o lugar agradável.

_ Às vezes eu venho almoçar aqui com a Hermione.

_ Vocês trabalham juntos, não é?

_ Nós dois trabalhamos no Ministério, mas fazemos coisas diferentes. Eu sou auror, ela trabalha no setor de Aprovação das Leis da Magia.

_ Aprovação das Leis da Magia, parece bem chato_ Ron disse com sinceridade_ O que é um auror?

_ Bom, os aurores são membros de uma equipe de defesa de elite.

_ Nossa, Harry, você é chique_ o ruivo disse e os dois riram.

_ Era o que você queria ser também. Nós íamos começar o treinamento juntos, era o que a gente queria.

O sorriso de Harry vacilou um pouco. Quando Ron "morreu", ele começou a questionar seus sonhos, suas vontades. Demorou um bom tempo para se alistar no treinamento de aurores, porque para ele não fazia mais tanto sentido. Parecia errado fazer aquilo sem o melhor amigo.

_ Que guinada, hein_ Ron disse meio azedo_ Quem poderia imaginar que eu acabaria num bar pé sujo em Londres?

_ Bom, mas você está de volta, ainda pode realizar as coisas que queria.

_ O problema é que eu não sei o que eu queria.

_ Você pode redescobrir. Felizmente, você tem bastante tempo pra isso.

_ É, quem sabe?_ ele disse aquilo, mas não parecia realmente animado. Ficava cansado só de se imaginar "redescobrindo o que queria". Seria tão mais fácil apenas lembrar, mas isso estava além da sua vontade.

Os dois pediram macarronada. E Harry tentou não estranhar que o amigo tivesse pedido para acompanhar, uma taça de vinho. Pelo menos, para Harry era um pouco cedo para aquilo.

_ Então, o lance do Malfoy...

_ Ah, ele é um babaca_ Harry afirmou_ Acredite, ele tornou nossos anos em Hogwarts bem menos legais do que poderiam ter sido.

_ Ele era tão ruim assim?

_ Basicamente, ele nos odiava. Ele não era uma boa pessoa, Ron.

_ Mas as pessoas mudam, não é? Ele tem sido legal desde que nos conhecemos.

_ Claro, isso é conveniente pra ele.

_ Como assim?

_ Com certeza, ele não te contou sobre o papel dele em tudo que aconteceu com você_ Harry adicionou sombriamente.

_ Hum, Kingsley e o Ministro me contaram no hospital que nós fomos sequestrados juntos e que Malfoy conseguiu escapar...

_ Isso é o que ele diz... Mas muita gente acha que ele te abandonou lá_ Harry falou, mas ao ver a expressão horrorizada de Ron, adicionou_ Mas talvez não tenha sido assim. Acho que você e ele deveriam conversar.

Ron assentiu, mas não tocou mais no assunto. Pensar que a primeira pessoa do mundo bruxo que reencontrou, era alguém capaz de abandoná-lo no que parecia ser uma situação horrível, fez o seu estômago revirar.

Harry então lhe contou um pouco sobre si mesmo, e a história dele se equiparava a sua no quesito bizarrice, talvez fosse até mais bizarra. Pelo que o rapaz falou, seus pais foram mortos pelo tal Voldemort_ que foi o bruxo que desencadeou a Segunda Grande Guerra Bruxa_, tudo isso para que ele pudesse chegar a Harry. Os dois acabaram duelando em Hogwarts quatro anos antes. Foi nesse dia que Ron fora sequestrado.

_ O menino que sobreviveu e seu amigo sem memória. Como soa?_ Ron perguntou com certo sarcasmo.

_ Ser Harry e Ron soa melhor_ Harry adicionou e os dois sorriram um para o outro_ Escuta, eu falei com o Ministro hoje cedo e ele achou uma boa ideia você comprar uma varinha. Inclusive, ele me autorizou a te ensinar alguns feitiços. O que acha de irmos agora?

_ Parece ótimo, mas eu não tenho um centavo. Todo o meu dinheiro está na minha carteira na casa dos Bennett.

_ O dinheiro trouxa não vale nada no nosso mundo. Não se preocupe, eu vou pagar.

_ Não sei se me sinto à vontade com isso.

_ Você perdeu a memória, mas continua com vergonha de aceitar meu dinheiro. Algumas coisas nunca mudam_ Harry disse divertido.

_ Você é rico ou algo assim?

_ Algo assim_ Harry deu de ombros_ Não seja idiota, é o meu presente de boas vindas.

_ Obrigado, Harry, mas você não tem que ir trabalhar?

_ Para sua sorte fui autorizado a tirar um horário maior de almoço.

Escolher uma varinha foi algo intenso. Ron experimentou três antes de encontrar aquela que se encaixava no que ele nem sabia que precisava. Tinha 35 centímetros e meio, feita do tronco de um salgueiro e núcleo de pelo de unicórnio_ Ron ficou cético ao saber que unicórnios eram reais. O Sr. Olivaras, dono da loja e fabricante das varinhas, lhe disse que sua nova varinha era exatamente igual à segunda varinha que ele teve. Pelo que Harry lhe contou, sua primeira varinha foi herdada de um de seus irmãos e não funcionava muito bem, a terceira tinha sido de Peter Pettigrew, uma das pessoas que traíram os pais de Harry. Essa varinha provavelmente tinha sido destruída pelos Comensais da Morte, depois de os sequestrarem, o que para Ron era bom. Não sabia se queria ter posse da varinha que tinha pertencido a alguém tão horrendo, especialmente depois da história que Harry lhe contou.

Harry ainda comprou alguns doces estranhos para eles e lhe contou como costumavam se empanturrar de doce no trem para Hogwarts anos atrás.

Por volta das 15h, o amigo lhe disse que precisava voltar para o Ministério e que o levaria para casa, mas Ron tinha outros planos.

_ Na verdade, eu queria que você me levasse a um lugar.

_ Onde?

_ Na casa dos Bennett.

_ Ron, eu não posso fazer isso. Seu contato com eles tem que ser supervisionado.

_ Bom, você não precisa dizer pra ninguém. Vai ficar só entre nós... Por favor, Harry, isso é importante pra mim. Eu preciso vê-los.

Harry ponderou. Ele sabia que não podia fazer isso, que se alguém descobrisse, ele estaria em sérios apuros com o Ministro e com Kingsley, mas por outro lado, ele não achava que poderia negar aquilo a Ron. Quer dizer, Ron já havia perdido tantas coisas e seu mundo, o mundo do qual ele lembrava, tinha mudado drasticamente. Então quem era ele para privá-lo disso?

_ Tudo bem_ ele falou finalmente_ Mas ninguém pode mesmo saber.

_ Eu não vou contar, eu juro_ Ron sorriu e ele teve vontade de abraçar Harry, mas não o fez_ E eu tô te devendo uma.

_ Não se preocupe com isso_ disse Harry e estendeu o braço para ele assim que saíram do restaurante e Ron se preparou.

Instantes depois, os dois estavam em frente a casa dos Bennett, na praia.

_ Então, eu venho te pegar?_ Harry perguntou.

_ Você poderia fazer isso? Eu não faço a mínima ideia de como chegar n'A Toca.

_ Claro. Por volta das 18h está bom? Vou ficar te esperando aqui fora.

_ Está ótimo. Obrigado, Harry.

Os dois se despediram, Harry desaparatou e Ron entrou.

Estava tudo muito arrumado, sem nenhum vestígio de que há apenas alguns dias, ele havia sido nocauteado por dois Comensais da Morte bem ali, naquela sala. Até os objetos que haviam sido quebrados, estavam intactos e nos seus devidos lugares. Ele não precisou de muito esforço para saber que o Ministro e Kingsley fizeram aquilo quando foram contar as novidades aos Bennett.

Por alguns minutos, ele achou que a casa estava vazia, pois o silêncio era devastador. Foi então quando ele ouviu passos de alguém que descia as escadas. Ele ficou parado esperando, quando viu Zoe congelar no penúltimo degrau ao se deparar com ele.

Ron sorriu para ela e os dois se mexeram ao mesmo tempo, quase caindo no chão quando se juntaram para um abraço. Ela o beijou com força e Ron a ergueu do chão.

_ Meu Deus, eu não acredito que é você_ Zoe disse, assim que os dois interromperam o beijo. Ela estava a ponto de chorar.

_ Sou eu mesmo_ ele disse o óbvio, mas achava que precisava.

Os dois se sentaram no sofá e ela começou a fazer perguntas sobre tudo o que tinha acontecido, e Ron lhe explicou o que pôde. Ele também não sabia de muitas coisas.

_ E sua família é legal?

_ Acho que sim, ainda não os conheço bem.

_ E toda essa história de magia… Você não imagina como a gente surtou quando aqueles caras vieram aqui nos contar. É claro que não acreditamos a princípio. Papai queria chamar a polícia, achou que eles tivessem feito algo com você. Mas então eles começaram a levitar nossa mobília e fizeram um monte de outras coisas bem loucas… Depois disso foi difícil não acreditar.

_ Foi mais o menos assim comigo. Eu também não acreditei no começo, mas sabe, alguma coisa dentro de mim, me dizia que era verdade. Que eu realmente sou um deles.

_ Eu sempre soube que você era especial_ os dois sorriram um para o outro e voltaram a se beijar.

Ron não tinha a intenção de terminar aquilo no quarto dela. Ele realmente só queria vê-la. Queria ver Danna e o Sr. Bennett também, mas principalmente Zoe. Mas era muito difícil resistir quando ela estava perto demais, quando parecia que ela precisava tanto dele. E sendo sincero consigo mesmo, ele também precisava dela, precisava daqueles momentos. Era como volta a normalidade, ser Michael de novo. Agora os dois estavam deitados e abraçados na cama dela, cobertos apenas por lençóis, enquanto ele acariciava suas costas.

_ Você não está mais bravo comigo?_ ela perguntou, fazendo círculos com o indicador no peito dele.

_ Parece que eu estou bravo com você?_ ele riu.

_ Então sentiu saudades?

_ O tempo todo.

_ E por que não veio antes?_ Zoe ergueu a cabeça, apoiando o queixo no ombro dele, para encará-lo.

_ Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

_ Eu entendo. E agora você tá aqui, Michael, eu ainda não acredito_ então ela percebeu_ Quer dizer, Ron…

O nome saiu de sua boca com dificuldade. Mas ela supôs que deveria se acostumar.

_ Pode me chamar de Michael_ ele pediu_ Parece mais comigo, eu não tenho certeza se gosto de Ron ainda.

_ Você deve estar confuso, não é? Com tudo isso...

_ É estranho. Eu queria mais que tudo saber quem eu era, mas ainda é estranho saber. Parece que sou eu, mas ao mesmo tempo não parece porque eu não lembro. Isso faz sentido?

_ Mais do que você imagina_ ela suspirou_ Queria que você não tivesse que se sentir assim.

_ Imagino que seja parte de todo o processo de saber quem eu sou. Acho que vou me acostumar com o tempo.

_ Eu estarei aqui independente de qualquer coisa… Mesmo que um dia você descubra que a vida do Michael não se encaixa mais na do Ron.

_ Por que está dizendo isso?

_ Porque tudo o que você sabe é o que eles te dizem. São as memórias deles, não as suas… E as suas podem significar algo diferente… E, bom, se você perceber que eu não me encaixo…

_ Não diga isso.

_ Eu só quero que saiba que sempre estarei aqui, sempre serei sua amiga.

_ Eu sei disso_ ele lhe deu um beijo na testa_ Você nem precisa dizer.

Mas Zoe sentia que precisava. Ela o amava, mas sempre soube que no momento em que ele se deparasse com sua vida antiga, tudo poderia mudar. Ela não tinha se preparado, mas talvez agora fosse a hora.

_ Isso meio que me faz ter medo de dizer o que eu vim dizer_ ele disse repentinamente.

_ O que você veio dizer?

_ Eu pensei num discurso sobre como seria bom e certo se começássemos algo sério, mas agora depois de ouvir você falar sobre esse lance de amizade, eu meio que estou com medo_ ele riu nervoso.

Os olhos verdes de Zoe se arregalaram. Eles estavam naquele "rolo" há anos e Michael nunca conseguiu sequer ouvir a palavra namoro. Ele sempre fugia, dizia que não podia se comprometer por não saber nada de si mesmo. Então, será que ele havia mesmo dito aquilo? Bom, fazia sentido agora que sua vida não era mais um mistério. Mas mesmo assim, ela precisava perguntar.

_ Você tá falando sério?

_ É claro, mas você talvez não queira mais…?

Ele então se sentou na cama se encostando na cabeceira e a puxou para fazer o mesmo. Passou as mãos nos cabelos um pouco tenso, mas estava decidido.

_ Zoe, eu sinto que não tem mais nada entre a gente agora. Quer dizer, antes eu tinha medo. Medo de ter deixado alguém pra trás_ subitamente ele pensou em Hermione, mas se esforçou para tirá-la da mente_, medo de ser uma pessoa horrível que não merecia você. Mas agora eu sei quem eu sou, sei que não tinha ninguém, sei que não sou horrível… Então, se você ainda quiser…

Ele não continuou, pois ela envolveu os braços ao redor do pescoço dele e o beijou.

_ Você tá brincando, não é?_ Zoe perguntou rindo_ Você sabe há quanto tempo eu tô esperando por isso?

_ Desculpe ter feito isso com você.

_ Valeu à pena a espera.

_ Então sem esse papo de amigos?

_ Sempre seremos amigos. O que eu quis dizer é que não quero te pressionar a nada… Sei que já fiz isso algumas vezes, mas sabe, descobrir quem você é, que você veio de um mundo totalmente diferente, meio que me fez pensar em todas as outras coisas diferentes na sua vida. E eu não quero te privar de nada… Estava com medo de não me encaixar na sua verdadeira realidade, e não queria que você se sentisse obrigado a…

_ Zoe, muita coisa mudou na minha vida_ ele a interrompeu_ Mas você não e eu não quero que mude.

_ Você tem certeza?

_ Sim.

Os dois ainda ficaram ali por bastante tempo, abraçados, fazendo planos, apenas apreciando um ao outro. Ron estava apaixonado por Zoe há bastante tempo. Ela era boa, inteligente, engraçada e o amava. Ele não podia querer mais nada e havia sido sincero em tudo que disse a ela… Mas mesmo assim, seu pensamento vagou em direção a Hermione sem que ele desse permissão. Ele sabia que isso aconteceu, porque descobriu que os dois quase foram algo mais. Algo que nunca se concretizou porque ele "morreu". Ficou se perguntando como teria sido se as coisas tivessem sido diferentes. Será que estariam juntos ou será que não era pra ser? Ele nunca saberia e não tinha certeza de que queria. As coisas eram como eram, nada mudaria isso, então não fazia sentido pensar no "se". Talvez tudo aconteceu exatamente do jeito que tinha que acontecer. Agora ele estava ali, abraçado a Zoe, aquela garota que o amava com devoção e a quem ele também amava, e Ron não queria estar em nenhum outro lugar. As outras possibilidades eram apenas uma sombra de algo que nunca aconteceu. Não foi real, Hermione não era real. Apenas Zoe era.

oooooooooooooo

N/A: Esse capítulo foi um parto, foi difícil de finalizar, porque não ficava do jeito que eu queria, embora eu já tenha tudo que eu quero que aconteça desenrolado na minha cabeça. E eu não tenho certeza se ficou do jeito certo. E o fato da minha saúde mental também não estar muito boa, contribuiu para essa demora toda. Bom, espero que a experiência de vocês lendo, seja melhor do que foi a minha escrevendo.

Aline Barros1: Olha, te digo que o Ron ainda vai ficar bem mais perdido. Será que isso se caracteriza como um spoiler? Hahaha! Sempre gostei bastante de escrever interações entre Ron e Malfoy, mas o Malfoy é um personagem difícil de transcrever. Mas vai haver mais dele logo, logo. Eu vivo pela amizade de Harry e Ron, espero que goste da interação deles nesse capítulo, vem mais por aí. Ah, não fique com raiva da Zoe, ela é boa gente. Mas sendo shipper Ronmione, eu te entendo. Enfim, obrigada por comentar, se cuide e bjks.

BelinhaZpears: Sim, todas as lembranças dele estão conectadas ao lugar onde ele não pertence e mudar de vida assim, não vai ser fácil pra ele. Acho que já deu pra perceber. Eu sempre gosto dessa ideia de que Ron e Hermione estão conectados, não importa a situação, nesse caso a perda de memória dele. Que bom que gostou do reencontro deles, porque foi uma das partes que mais gostei de escrever, por ter sido leve e tal. E não se preocupe com a Zoe. Eu antes já escrevi em uma fic antiga sobre uma personagem meio "maluca" que era apaixonada pelo Ron, e acho que se pudesse mudar alguma coisa naquela fic, seria a personalidade dela. Hoje, acho que fui injusta com ela e quando pensei sobre a Zoe, pensei em alguém completamente diferente. Então ela está a salvo. :)

Que bom que por aí está tudo bem. Imagino como tudo isso deve ser estressante para vocês, da área da saúde. Digo, mais estressante do que para as outras pessoas. Aqui as coisas estão voltando ao normal na questão da flexibilização da quarentena, apesar dos índices de contaminação ainda estarem altíssimos. Infelizmente, nosso governo prioriza pelo dinheiro e não pela saúde da população.

Bom, eu venho fazendo a minha parte, sempre de máscara, sempre com meu álcool gel na mochila e evitando muita proximidade com colegas de trabalho e pessoas no transporte público em geral. Minha família que mora aqui no Rio, já não vejo desde março, mas vamos seguindo em frente. Acredito que cedo ou tarde, tudo vai melhorar. Obrigada mais uma vez por comentar e se cuide. Bjks.

N/A 2: Tentarei não demorar mais um mês para o próximo capítulo, mas não posso fazer promessas. Se cuidem, mantenham a higiene em dia e se puderem, mantenham o isolamento social também. Até a próxima.