13. Amanhã
Quando Ron avisou seus pais que tinha convidado os Bennett para almoçar n'A Toca naquele sábado, ele achou que sua mãe teria um infarto. Ela ficou pálida e ele tinha certeza que a viu vacilar um pouco. Foi só um instante, mas foi o suficiente para ele saber que ela não tinha gostado da ideia. Mas isso não impediu seu pai de conseguir uma permissão especial junto ao Ministro da Magia, para que a visita ocorresse.
Agora estavam todos reunidos numa grande mesa no jardim d'A Toca, com o Dr. Bennett e o Sr. Weasley conversando alegremente, enquanto a Sra. Weasley se forçava a participar da conversa. Para o alívio de Ron, seus irmãos, Harry e Hermione_ que também foram convidados_ estavam sendo bem mais receptivos com Zoe e Danna. Aliás, Fred e Danna pareciam ter se entrosado até bem demais.
_ E o que você estuda?_ Gina perguntou a Zoe, do outro lado da mesa.
_ Odontologia_ Zoe respondeu com um pequeno sorriso.
_ Meus pais são dentistas_ Hermione comentou repentinamente.
_ Ah, legal. Talvez eles possam me dar umas dicas_ Zoe sugeriu, dando uma garfada em sua fatia de torta de abóbora. Segundo os Weasley, aquela era a sobremesa favorita de Ron, mas ele não achou nada demais.
_ Sim, sim, claro.
Nesse momento, Hermione olhou para Ron, mas desviou o olhar quase imediatamente. Ela ficou surpresa quando Harry lhe falou do almoço para os trouxas, e mais ainda, quando chegou lá e descobriu que Zoe era namorada de Ron. Hermione estava fazendo o possível para ser simpática, mas a parte dela que um dia amou Ron, não se sentia confortável com aquilo. Não era um sentimento que ela apreciava. Zoe parecia ser uma boa garota e a maneira como ela olhava para Ron… era com verdadeira adoração. E ele a olhava dessa mesma maneira também. Era óbvio que estavam em completa sintonia. E se dar conta disso, fez Hermione se sentir boba. Sentir que seu amor por ele na adolescência, não passara de coisa de criança. Mesmo que tenha sido a coisa mais forte que ela sentiu na vida.
Vê-los juntos não deveria incomodá-la tanto, afinal ela estava noiva, ela se casaria em pouco tempo, ela tinha encontrado o homem perfeito. E ela o amava. Mas se era assim, por que desde que soubera que Ron estava vivo, seu coração vivia apertado? E agora, olhando para ele e Zoe trocando cochichos e rindo no ouvido um do outro, ela desejava tanto ter outro momento com ele, como tiveram no dia da festa. Apenas sentar, conversar, olhar nos olhos um do outro, apenas estar perto dele novamente.
_ Hermione, por que o Elliot não veio?_ Gina perguntou, a tirando de seus pensamentos.
_ Está de plantão no St. Mungus.
_ Como vão os preparativos pro casamento?_ Ron perguntou repentinamente.
_ Estão andando. Vamos fazer algo bem simples, então não temos muito com o que nos preocupar. E na verdade, é a mãe dele que está cuidando da maioria das coisas…
_ Você vai se casar? Parabéns._ Zoe falou com um sorriso.
_ Sim. Parabéns_ Danna falou_ Deve ser emocionante estar noiva.
_ Obrigada. E sim, é muito emocionante_ pelo tom dela, não parecia tão emocionante assim. E aparentemente as pessoas na mesa, perceberam, pois depois que ela falou, houve um silêncio meio constrangedor.
_ Eu preciso buscar uma coisa lá dentro. Vem comigo, Hermione?_ Gina perguntou a encarando.
Hermione conhecia Gina o suficiente para saber que aquilo era um código para alguma outra coisa. Então ela assentiu e as duas caminharam juntas em direção à casa.
_ O que está acontecendo?_ Gina perguntou a ela, quando já estavam na cozinha, longe dos olhares de qualquer outra pessoa.
_ Nada_ Hermione cruzou os braços, defensivamente.
_ Ah, por favor, Hermione. Eu te conheço muito bem. Estou vendo essa sua cara de cachorro sem dono e o esforço que você está fazendo pra parecer natural desde que chegou aqui. Mas é óbvio que não tá dando muito certo.
Hermione trocou o apoio de um pé para o outro, desconfortavelmente. Ela olhou na direção da porta. Era possível ver apenas um pedaço da mesa lá fora. Felizmente, não o pedaço onde Ron e Zoe estavam.
_ É só que… É estranho, sabe… vê-los juntos.
_ Você tá falando do Ron e da Zoe?
_ Sim.
_ O que te incomoda exatamente?
_ Eu não sei. É que… eles parecem tão próximos.
_ Bom, é claro. Eles são namorados. Além do mais, eles moraram juntos nos últimos quatro anos_ Gina disse num tom óbvio.
_ Sim, sim… É só que…_ Hermione não conseguiu finalizar. Ela desviou o olhar da amiga e o fixou numa vassoura que varria sozinha o chão da cozinha naquele momento.
_ Você ainda o ama?_ Gina ergueu uma sobrancelha para ela.
_ Gina, eu vou me casar_ Hermione respondeu, voltando a olhar para a amiga. Ela tentou dar a Gina o seu olhar mais ofendido, mas em vez disso, ela apenas pareceu um pouco desesperada.
_ Não foi o que eu perguntei.
_ Não sei o que você espera ouvir.
_ Que tal a verdade? Sabe que pode confiar em mim, não é?
Elas se encararam por alguns instantes, até Hermione dar um suspiro de cansaço.
_ Achar que tinha perdido o Ron, foi definitivamente a pior coisa que me aconteceu… Eu achei que em algum momento eu morreria de tanta tristeza. E o Elliot foi como um sopro de esperança em mim, sabe? Ele me faz muito bem, eu posso dizer com segurança que ele me salvou…
_ Mas…?
_ Mas eu sinto como se não fosse o suficiente, como se nunca fosse ser o suficiente… Porque no fundo eu nunca deixei de pensar no Ron, de sentir todas essas coisas, mesmo quando achava que ele estava morto. E agora que ele tá aqui, vivo na minha frente… Eu só… Eu não sei, é só que parece que alguma coisa dentro de mim ressuscitou.
_ Então, isso é um "sim", você ainda o ama_ Gina finalizou_ Como eu já imaginava.
_ Eu não quero me sentir assim. Eu não quero sentir isso_ Hermione disse e olhou para o anel de noivado em seu dedo.
_ Bom, não é como se você pudesse escolher. Esse tipo de coisa, infelizmente, está muito além da nossa vontade.
_ Eu vou me casar_ Hermione repetiu e agora havia definitivamente desespero em sua voz_ E uma parte minha quer muito isso, ser feliz ao lado de Elliot e fazê-lo feliz também.
_ Eu tenho certeza que sim_ Gina falou, olhando para a amiga com carinho_ E acho que é exatamente por isso que você tem que ter certeza do que está fazendo. Se você tem dúvidas, não se case.
_ O que você está dizendo?_ Hermione a olhou horrorizada_ Eu não posso simplesmente não casar, eu não posso simplesmente chegar pra ele e dizer "Elliot, não podemos nos casar, porque embora eu te ame, eu também ainda amo meu amigo que eu achava que estava morto".
_ Pois é, ainda ama_ Gina ergueu a sobrancelha para ela_ Isso meio que é um grande motivo pra você repensar esse casamento.
_ Gina, por favor…
_ Eu estou falando sério, Hermione.
_ Eu também… Eu não vou cancelar o meu casamento só porque eu estou confusa.
_ Confusa? Você acabou de dizer que…
_ Eu não disse nada_ Hermione a interrompeu_ Você não ouviu nada, apenas esqueça, ok?
_ Eu sou complemente capaz de esquecer isso, mas você é?
Houve um silêncio no qual Hermione voltou a encarar a vassoura. É claro que ela não poderia esquecer, mas ela também não poderia fazer nada em relação aquilo. Porque fazer alguma coisa, significaria magoar alguém, magoar Elliot. Magoar a si mesma. E apenas não era justo. E não era como se Ron fosse, de repente, decidir que sentia algo de volta por ela. Ele nem sequer lembrava dela. E mesmo que eles tivessem compartilhado um momento dias atrás, ela ainda era uma estranha. Ela não era Zoe, não era a garota que dividira o teto com ele nos últimos anos, a garota com quem ele estrava grudado durante todo o almoço. E não era o direito dela querer aquilo.
Por mais que doesse e realmente doía, Hermione precisava admitir que tudo tinha mudado. Ron esteve ausente por quatro anos inteiros. Quatro anos em que ambos viveram outras coisas e nada mudaria isso, não havia como voltar de onde pararam, até porque eles não haviam sequer começado nada quando ele desapareceu.
Então, se sua cabeça estava ciente disso, por que seu coração não podia estar?
oooooooooooooo
_ Eu não entendo porque você não mora aqui_ Ron comentou com Harry alguns dias depois.
Os dois estavam numa das salas da antiga casa de Sirius Black, padrinho de Harry, no Largo Grimmald.
O Ministro de Magia havia dado autorização a Harry para ensinar alguns feitiços básicos a Ron, numa tentativa de ajudá-lo a se adaptar ao Mundo Bruxo. Então eles se reuniram naquela tarde no casarão e Harry enfeitiçou uma das salas para que parecesse um grande salão acolchoado no chão e nas paredes. O feitiço que estavam treinando era o de desarmar. Expelliarmus, Harry disse.
_ É grande demais para apenas uma pessoa, prefiro meu apartamento_ Harry respondeu, enquanto segurava a mão de Ron, tentando ajudá-lo a empunhar a varinha da maneira certa_ Não precisa deixar o braço tão rígido.
_ Você não tem nenhuma namorada, ninguém que possa trazer aqui de vez em quando?_ Ron relaxou o braço fazendo o que Harry pediu e imitando o gesto que o amigo o havia ensinado alguns minutos antes.
Harry deu um sorriso meio sem graça.
_ Eu costumava namorar a sua irmã.
_ Gina? Sério?_ Ron arregalou os olhos.
_ Sim, mas faz tempo.
_ E o que aconteceu?
_ Bom, você morreu_ Harry disse com simplicidade indo para o outro lado do salão_ E meu mundo meio que entrou em colapso… Eu não conseguia mais estar com ela.
_ Sinto muito_ Ron disse com sinceridade_ Eu não tinha ideia de que tudo isso te afetou assim.
_ O negócio é que foram anos difíceis… Meus sentimentos por ela não tinham morrido, mas a vontade de estar com ela, sim.
_ E agora que estou de volta? Sente que pode recuperar essa parte da sua vida?
_ Eu não sei, Ron. Muita coisa aconteceu… Eu nem sei mais se me sinto da mesma forma em relação a ela… Agora tenta me desarmar.
Ron apontou a varinha para ele e gritou "Expelliarmus" atingindo o peito de Harry em vez da mão que estava com a varinha. Harry voou batendo na parede acolchoada e caiu. Ron correu até o amigo.
_ Você está bem?_ ele perguntou, reprimindo a vontade de rir.
_ Sim, sim_ Harry respondeu meio atordoado_ Vamos tentar de novo.
Eles ficaram mais uma hora fazendo aquilo, e Ron o atingiu em diferentes partes do corpo até que conseguisse finalmente desarmá-lo pela primeira vez. No fim, o cabelo de Harry estava mais bagunçado do que nunca.
_ Até que você foi bem_ Harry disse, depois que os dois estavam sentados no chão fofo comendo sanduíches e bebendo suco de abóbora.
_ Será que alguma das minhas tentativas atingiu a sua cabeça? Porque você deve estar delirando_ Ron zombou_ Eu fui péssimo.
_ Não, não foi_ Harry deu uma mordida em seu sanduíche_ Tudo isso é muito novo pra você… É questão de tempo até você tirar tudo de letra.
Ron deu de ombros. Não conseguia acreditar naquilo, pois segundo Harry aquele feitiço era simples e mesmo assim, ele achou bem difícil. Talvez não estivesse concentrado o suficiente ou talvez a sua nova versão, apenas não servisse para aquilo. Então, ele olhou para Harry distraído bebendo suco e resolveu tocar no assunto que ele estava protelando durante toda a tarde para mencionar.
_ Eu preciso te pedir uma coisa_ Ron disse a Harry, tentando soar o mais casual possível.
_ Claro.
_ Preciso que me leve até o lugar onde eu fiquei com os Comensais da Morte.
Harry franziu a testa para ele.
_ O quê?
_ Você me ouviu.
_ Eu ouvi, eu apenas não estou entendendo.
_ É claro que está. Eu quero ir até a caverna onde os Comensais me mantiveram refém.
_ Por quê?_ Harry perguntou e seu tom era de confusão.
_ Bom, eu pensei que talvez isso me ajudasse a lembrar. Sabe, algumas pessoas que têm contato diretamente com o trauma que viveram, acabam se lembrando… É como se fosse uma memória forçada.
_ Você leu isso em algum lugar?
_ Não, Harry, eu só quero tentar.
_ Não sei se é uma boa ideia… E de qualquer forma, o lugar é proibido. Só os Aurores têm permissão para irem lá.
_ Você é um Auror.
_ Mas você não.
_ Sim, mas eu sou a pessoa mais interessada nisso.
_ Ron…
_ Harry, tem uma parte minha, uma parte da minha vida que está naquele lugar, entende? A minha vida inteira, na verdade, foi deixada ali. É um direito meu recuperá-la.
_ Eu sei, mas não tenho certeza de que devo fazer isso.
_ Você não entende, ninguém entende como eu me sinto_ Ron o olhou com olhos suplicantes_ É como se tivesse um vazio dentro de mim do qual eu não consigo fugir. Eu só quero lembrar…
_ E se ir até lá não te ajudar em nada?
_ Se não me ajudar, eu pelo menos, vou ter a desculpa de que tentei.
Harry deu um longo suspiro. Era difícil dizer não a Ron, especialmente depois de tudo que o amigo já havia passado. Mas ao mesmo tempo, fazer aquilo era ir longe demais. Era quebrar regras do Ministério que poderiam ter consequências seríssimas para sua carreira profissional.
_ Eu… eu vou pensar, ok?
_ Já é alguma coisa. Eu te agradeço por isso.
Os dois continuaram sentados, comendo e bebendo suco e Harry começou a falar de algumas coisas da época em que estudaram em Hogwarts, e Ron soube que o amigo só queria desviar do assunto. Ele se deixou levar, deixou Harry falar, fingiu interesse, mas sua cabeça estava a mil. Ele sentia um frio na barriga só de pensar em voltar no lugar onde aparentemente conseguiu todas as cicatrizes que estavam espalhadas por seu corpo. Mas mesmo que ir até lá fosse assustador, ele precisava. Sentia que as respostas para sua amnésia estavam ali. E ele precisava acabar com isso de vez ou nunca poderia ser Ron, e também não conseguiria continuar sendo Michael. Porque ele não poderia continuar vivendo naquele vazio. Naquele vazio ele não era ninguém.
oooooooooooooo
As aulas de Ron com Harry continuaram durante toda a semana e agora era a vez de Hermione. Assim como Harry, ela pediu uma autorização especial ao Ministro para ensiná-lo a aparatar e desaparatar. Ron precisava admitir que aquilo o deixou ansioso. Não só pelas aulas, porque gostou muito da ideia de sumir num lugar e aparecer em outro, mas também porque seria ela a ajudá-lo. Eles não tiveram muita oportunidade de conversar depois da festa de boas vindas, então Ron gostaria de passar um tempo com ela.
Então agora os dois estavam ali, como dois cúmplices, prontos para começar.
Hermione havia tirado os sapatos e colocado a cerca de dois metros de distância de onde ela e Ron estavam parados no meio do jardim d'A Toca. Ela explicou a ele todos os conceitos, todos os perigos de uma aparatação mal feita e depois que estava tudo bem entranhado na mente dele, eles puderam finalmente começar a praticar.
_ Então eu quero que você faça do jeito que eu disse. Imagina o lugar onde meus sapatos estão_ ela apontou para os sapatos_ Segura a varinha com força e vai em frente.
Ron fez o que ela disse. Ele sentiu o solavanco no umbigo e a próxima coisa que soube era que estava em cima dos sapatos dela. Ele quase comemorou, mas desistiu ao ver Hermione rindo um pouco. Ela segurava numa mão um grande tufo de cabelo ruivo.
_ Acho que isso é seu_ ela riu se aproximando dele. Ron levou a mão até a cabeça e pôde sentir que um pedaço do seu cabelo estava faltando.
_ O que aconteceu?
_ Você estrunchou. Conseguiu desaparatar, mas deixou uma parte para trás, lembra? Eu te expliquei isso.
_ Imagino que minha aparência não deve ser das melhores agora_ ele também riu.
_ Você continua ótimo.
Eles sorriram um para o outro e se encararam por alguns instantes, e antes que aquilo se tornasse algo que não devia, Hermione fez um gesto indicando os cabelos dele.
_ Olha, já está crescendo de novo.
Ron passou a mão nos cabelos e ele os sentiu exatamente como antes, um pouco abaixo do queixo, como se nada tivesse acontecido.
_ Vantagens de ser bruxo, não é mesmo?
Hermione fez que sim com a cabeça e distraidamente passou a mão pelo cabelo dele. Quando percebeu o olhar de Ron sobre ela, Hermione se afastou muito corada.
_ Desculpe.
_ Tudo bem.
_ Hum, vamos continuar?
_ Sim, vamos.
A medida que Ron ia conseguindo aparatar sem estrunchar nenhuma parte do corpo, Hermione ia aumentando a distância. Três metros, quatro metros, cinco metros, de um extremo ao outro do jardim, do galpão de coisas velhas até a colina mais próxima. Então depois de um longo dia de muito treino, eles se sentaram debaixo da árvore do jardim e descansaram.
_ Você é pior que o Harry_ Ron disse, olhando para ela_ Ele não é um professor tão rígido.
_ Você ainda não viu nada_ Hermione riu_ Na escola, eu costumava botar vocês dois para estudar… Mas às vezes você apenas copiava o meu exercício na maior cara de pau.
_ É, isso parece com algo que eu faria_ ele deu uma risada_ Aliás, você tem visto ele? O Harry...
_ No Ministério todos os dias.
_ Hum…
_ Por quê?
_ Por nada, só preciso falar com ele.
Ron tinha mandado para Harry, cartas através de corujas_ como Gina havia lhe mostrado_ mas o amigo sempre lhe respondia vagamente e quando Ron perguntava se eles iriam na caverna ou não, Harry sempre dizia que estava pensando. Mas já havia se passado uma semana e Ron estava começando a achar que o amigo apenas não sabia como dizer "não" a ele. Se era assim, ele teria que recorrer a outros meios.
_ Quer que eu dê algum recado a ele?
_ Não, deixa pra lá.
Houve um silêncio e eles se encararam novamente por um tempo e Hermione sorriu sem graça.
_ Eu sinto falta, sabia? Da época da escola_ Hermione disse, se encostando no tronco da árvore.
_ É? Do que sente falta exatamente?
_ Não dos problemas. Acredite, nós passamos por poucas e boas… Mas eu digo, da cumplicidade, de tudo que fazíamos juntos, das tardes na cabana do Hagrid, tantas coisas…
_ Parece ter sido uma época boa_ Ron suspirou_ Eu gostaria de lembrar.
_ Você vai, apenas tenha paciência.
_ Paciência é o que eu tenho tido nos últimos quatro anos, não é fácil.
_ Eu suponho que não seja, não consigo imaginar tudo que você passou todos esses anos sem lembrar de nada, de ninguém.
Ron não disse nada. Ele fixou o olhar numa flor que solitária que crescia perto da árvore e apoiou o corpo num dos cotovelos e ficou arrancando pedacinhos da grama na qual estavam descansando.
Dizer que foi difícil era um eufemismo. Os últimos quatro anos foram como estar preso dentro de um grande buraco onde não havia nada. Ele podia sentir a vida passando acima do buraco, mas era como se ele não participasse dela. E mesmo agora que sabia quem era, ainda sentia como se a vida passasse por ele, e ele estivesse parado no mesmo lugar.
_ Você pode conversar comigo se quiser, sabe… Sobre isso_ Hermione disse, o olhando_ Não sei, às vezes é bom a gente apenas pôr para fora.
Ron tinha seu próprio jeito de pôr seus demônios para fora. Não que ele nunca falasse com ninguém sobre o que sentia, mas nunca de verdade, se aprofundou nisso. E ele não sabia se as pessoas o ajudariam. Mas beber o ajudava. Era isso que ele fazia, era assim que ele sabia como se curar. Mesmo que a cura fosse apenas momentânea. Imaginou a cara de Hermione se ele dissesse isso a ela. Ron não lembrava, mas pelo pouco que esteve com ela desde que se reencontraram, pôde perceber que ela era uma pessoa crítica. Provavelmente tentaria convencê-lo de que beber não era a resposta… Como se ele não soubesse disso.
_ Obrigado. Eu vou lembrar disso_ ele disse finalmente.
_ O que você vai fazer mais tarde?_ Hermione perguntou repentinamente_ Pensei que você, Harry e eu poderíamos fazer alguma coisa juntos. Só nós três, como antes.
_ Seria legal, mas eu meio que já tenho um compromisso.
_ Hum, com Zoe?_ ela perguntou, tentando parecer desinteressada.
_ Com o Malfoy.
Hermione arregalou os olhos.
_ Malfoy?
_ Sim. Ele me mandou uma coruja hoje de manhã, me chamando pra jantar.
_ Não entendo como pode ser amigo dele. Draco Malfoy é uma pessoa horrível.
_ Harry também disse isso… Mas eu apenas não consigo ver assim. Quer dizer, ele tem sido legal comigo.
_ Claro, porque o Mundo Bruxo inteiro odiou ele depois da sua "morte"_ ela fez um sinal de aspas com os dedos_ Ele só quer ficar bem com todo mundo… Muita gente acredita que ele deixou você lá e fugiu.
_ Essa foi outra coisa que Harry também disse.
_ E você não acredita?_ ela perguntou vendo a expressão um pouco ferida no rosto de Ron.
_ Não quero acreditar.
_ Ron…
_ Por favor, vamos mudar de assunto_ ele pediu e arrancou a grama com mais força dessa vez.
Hermione concordou e o assunto foi para Zoe e Elliot. Ela lhe contou como conheceu Elliot e ele contou como conheceu Zoe, depois que a garota o encontrou desacordado na praia. Foi estranho falar sobre isso, mas de alguma forma Ron se sentiu mais conectado a Hermione do que antes, como se pudesse falar com ela sobre qualquer coisa. Era bizarro se sentir tão próximo assim de alguém de quem ele não lembrava. Mas de maneira alguma, era ruim.
Ron não sabia, mas Hermione se sentia da mesma maneira. Como se pudesse apenas sentar com ele e conversar por horas e horas. E embora houvesse coisas das quais ela não podia falar_ como seus sentimentos, por exemplo_ ela sentia que podia confiar nele como antes, como se ele nunca tivesse ido embora. E de certa forma, agora era até um pouco mais fácil, mesmo que nada daquela situação fosse fácil. Mas talvez o fato dele não se lembrar de nada, trouxesse aquela leveza entre eles. Ela apreciava isso. A leveza entre eles.
E estar ali, debaixo daquela árvore, conversando com seu melhor amigo e primeiro amor, depois de todo o sofrimento que ela viveu achando que ele estava morto, era mais do que Hermione poderia ter sonhando. Porque mesmo nos seus melhores dias, depois da "morte" dele, tudo que ela pedia era um sono tranquilo, era poder passar um dia sem sentir saudades dele. E agora olhando para Ron, enquanto ele contava como havia conseguido o emprego no bar trouxa onde trabalhava, Hermione percebeu que ela tinha sorte. Sorte por seu melhor amigo estar vivo. Sorte por poder ver os olhos azuis dele brilhando à luz do sol. Sorte porque o amor da sua vida estava de volta.
oooooooooooooo
_ Sua casa é assustadora_ Ron disse naquela noite, enquanto olhava ao redor da sala da mansão de Draco Malfoy.
Malfoy o lançou um olhar desafiador.
_ Assustadoramente linda ou assustadoramente gigante e chique?
_ Não, cara. Só assustadora mesmo. É muito escura e todas essas criaturas andando por aqui, me dão um pouco de medo.
_ São elfos domésticos, Weasley_ Draco disse, revirando os olhos_ São meus criados.
_ Eles não parecem muito felizes.
_ Pois deviam estar. Recebem salário e só trabalham 10h por dia… Anos atrás, eles não tinham isso, acredite.
Malfoy sentou em seu grande sofá de couro de Rabo Córneo Húngaro e fez um gesto para que Ron se sentasse também. Mas em vez disso, Ron caminhou até uma grande bancada cheia de bebidas do outro lado da sala. Ele começou a se servir sem nem sequer perguntar se podia.
_ Fique à vontade, Weasley, desfrute das minhas coisas_ Draco disse sarcasticamente.
Ron apenas o ignorou e se serviu de rum e deu um grande gole. Ele preparou um outro copo e o levou até Malfoy.
_ Eu desfruto sim, mas também sei servir_ ele deu um sorriso, entregando o copo para o outro_ Por que não foi na minha festa de boas vindas?
_ Porque tinha uma concentração muito grande de pessoas que me odeiam e que eu odeio também.
_ É, aparentemente você é uma pessoa horrível_ Ron se sentou na outra extremidade do sofá.
_ Você não faz ideia_ Draco debochou, dando um gole em sua bebida_ Você não sabia? Eu sou um filho da mãe, a última pessoa em quem você pode confiar.
_ Essas foram as exatas palavras de algumas pessoas.
_ Aposto que daquele Potter cabeça rachada.
_ Por que você o odeia?
Draco se mexeu desconfortavelmente no sofá. Houve um momento, num passado muito distante, quando era apenas uma criança, em que cogitou uma amizade com Harry Potter. Mas fora desprezado e desde então, ele dedicou boa parte de sua estadia em Hogwarts a atazanar a vida de Potter e de seus amigos idiotas. Mas agora ele era um adulto e tanta coisa aconteceu… Uma guerra, muita gente morta, ele mesmo fora sequestrado e quase morreu, então quando ele parava pra pensar no motivo de odiar Potter, não conseguia encontrar nenhum que não fosse os da sua infância. A verdade é que agora em sua vida adulta, ele não tinha reais motivos para o odiar. Talvez o odiasse apenas por costume.
_ Porque ele acha que é melhor do que eu_ Draco disse simplesmente.
_ Não me parece ser do feitio dele, mas eu não saberia dizer… Assim como não sei dizer se tudo o que dizem de você é verdade ou não.
_ Ah, é? E o que dizem de mim, além do fato de eu ser uma pessoa horrível?_ ele revirou os olhos dramaticamente.
_ Que você fugiu e me abandonou com os Comensais da Morte.
Draco o encarou fazendo uma careta. Sim, ele conhecia bem aquela história. Era a história que rolava no Mundo Bruxo há anos. As pessoas acreditavam que ele era monstruoso assim e nunca nem sequer lhe deram a chance de se defender. Mas ele não era esse ser humano horrível e sem escrúpulos que todo mundo pintava. Se lhe o conhecessem de verdade, saberiam que ele passava as noites de sábado jogando baralho com seus elfos domésticos_ sim, esse era o fundo do poço_, saberiam que ele gostava de colecionar pedras com formatos estranhos que encontrava pelos lugares onde ia, saberiam que em seu quarto ele tinha um grande quadro de um unicórnio que ele mesmo pintou. E principalmente, saberiam que ele não abandonou Weasley para morrer.
_ O que você acha?_ ele perguntou a Ron.
_ Eu não saberia dizer_ Ron respondeu com sinceridade.
_ Mas você confia no Potter, não é? E na Granger… Se alguém dissesse que um deles fez isso, você não acreditaria.
_ Ninguém falou deles e sim de você, Malfoy. Sem contar que tudo o que eu ouço é que eles eram meus melhores amigos. Você mesmo me disse isso antes de me contarem quem eu sou. Você disse que eu podia confiar no Harry como se fosse meu melhor amigo.
_ É, eu disse…
_ Então, você fez isso ou não?
_ Não, eu não fiz. Você quer saber o que aconteceu?
_ Sim, por favor.
Draco suspirou. Não era exatamente fácil falar sobre aquilo, mas ele achava que Ron merecia saber.
_ Nós ficamos naquele lugar por duas semanas… E tivemos uma oportunidade de fugir quando desarmamos um dos comensais que foi nos levar a comida. Eu peguei a varinha dele e bom, tentamos escapar… Mas você tava muito machucado, bem mais que eu. Acho que por você ser um traidor do sangue e principalmente por ser amigo do Potter, eles pegaram mais pesado com você… O negócio é que você mal conseguia andar, eu tive que te ajudar a maior parte do caminho dentro da caverna… Então_ Malfoy engoliu em seco_ Então você me disse para ir buscar ajuda… E eu não quis, Weasley, eu juro que não quis, mas eu não tive opção… Eu sei que é difícil de acreditar, mas ir embora e deixar você pra trás, foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida.
Ron ficou olhando para seu copo de bebida por um tempo. Ficou imaginando os três meses que passou com os Comensais da Morte, apenas porque foi deixado para trás. Mas ele acreditava em Malfoy, acreditava que o loiro não quis deixá-lo. Talvez não devesse, porque tudo que tinha ouvido dele, eram coisas ruins, mas não sentiu como se ele estivesse mentindo naquele momento. Um mentiroso não falaria com tanta urgência daquela forma, não pareceria tão ferido.
_ Eu acredito em você_ Ron disse_ Mesmo com todas as coisas que as pessoas falam… E saiba que eu deixei de sair com Harry e Hermione para vir aqui jantar com você.
Draco riu.
_ Ah, eu daria tudo pra ver a cara do cabeça rachada agora.
Nesse momento um dos elfos domésticos de Draco entrou na sala, e anunciou que o jantar estava na mesa.
_ Vamos, Weasley. Você vai comer a melhor refeição que já fez na vida.
_ Essa eu quero ver_ Ron zombou e antes de entrarem na sala de jantar, ele impediu Malfoy de continuar_ Preciso de um favor.
_ Eu não empresto dinheiro_ Malfoy disse rápido e Ron revirou os olhos.
_ Não seja idiota, não é nada disso.
_ Então o que é?
_ Quero ir até a caverna onde nós ficamos presos com os Comensais da Morte.
_ O quê?
_ Olha, eu pedi ao Harry tem quase uma semana, mas ele não me deu resposta e tenho certeza que está me evitando, porque não quer me levar lá. Então agora estou pedindo a você.
_ Claro, porque com certeza eu estou morrendo de vontade de voltar naquele lugar_ Malfoy disse com ironia.
_ Se não quiser ir, apenas me dê a localização. Eu vou de qualquer jeito.
_ Por que você quer fazer isso?
_ Porque eu preciso.
_ Precisa?
_ Sim. Se ir até lá não me fizer lembrar, eu acho que nada mais vai fazer.
_ Não há lembranças boas naquele lugar, Weasley. Só as ruins…
_ Você não entende. Não só as lembranças ruins estão lá, mas simplesmente todas as minhas lembranças… É como se eu tivesse deixado a minha vida lá, e eu a quero de volta. Você não precisa ir comigo, apenas me diga como fazer pra chegar lá.
Draco deu um grande suspiro. Ele entendia, é claro que entendia. Não conseguia imaginar como seria ter um passado em branco. Draco sabia como era não se encaixar, como era sentir que não fazia parte de nada, que não pertencia a lugar nenhum. Afinal, foi assim para ele nos últimos quatro anos. Não que isso se comparasse ao que aconteceu com Weasley, de jeito nenhum. Mas ele entendia. E se era assim, então ele poderia ser a pessoa que iria ajudá-lo.
_ Ok, Weasley, eu vou com você.
Ron arregalou os olhos de surpresa.
_ Sério?
_ É o que você quer, não?
_ Nesse momento é o que eu quero mais que tudo. Mas Harry disse que só os Aurores podem ir lá. Não tem medo de se envolver em problemas?
_ Eu sou o cara que encontrou você, e você é o herói perdido que voltou pra casa. O máximo que vão fazer é nos dar um sermão daqueles... Bom, quando você quer ir?
_ Amanhã?
_ Ok… Agora vamos comer, pelo amor de Deus.
Ron o seguiu para a sala de jantar, e parecia que uma onda de eletricidade percorria seu corpo. A antecipação tomou conta dele, mesmo sem ele ter certeza de que ir a tal caverna o ajudaria. Só que alguma coisa dentro dele, lhe dizia para tentar, lhe dizia que as respostas que procurava estavam naquele lugar, que lá tudo se resolveria.
E mesmo que a ideia fosse assustadora, não podia ser mais assustadora do que continuar vivendo no nada. Sim, as respostas talvez não fossem as que ele queria, mas isso não o impediria de procurar por elas.
Só mais um dia. Amanhã.
oooooooooooooo
N/A: Ok, não vou mais dar desculpas para a demora na atualização. A essa altura, vocês que acompanham a fic, já sabem que não sou muito pontual (acho que o fato de que já ter demorado três anos pra atualizar essa fic, deixa isso bem claro). E minha saúde mental não anda bem, gente. De verdade. Mas como eu disse, não vou dar desculpas. Só posso dizer que apaguei e reescrevi esse capítulo umas cinco vezes e acho que ele só ficou regular. Mas prometo que a partir do próximo capítulo as coisas vão começar a ficar um pouco mais emocionantes, digamos assim. Será que isso se caracteriza como spoiler? E gente, quero dizer que não vou abandonar a fic. Sei que às vezes dá essa impressão pela minha demora em atualizar, mas não vou abandonar, só pra esclarecer.
Aline Barros1: Eu não sei bem o que eu sinto em escrever sobre esse casal, Ron e Zoe, mas eu gosto da Zoe. Bom, de qualquer forma, esse relacionamento vai servir pra alguma coisa. Sim, admito que está demorando para ele lembrar, mas é porque eu quero fazer isso de um jeito bem específico, do jeitinho que eu imaginei desde o começo. Então só um pouquinho de paciência que já, já isso acontece. Só não sei se você vai gostar, porque... Bom, as coisas vão ficar um pouco pesadas. Olha eu dando spoiler. Haha! Muito obrigada por ler e comentar. Bjks.
Penelope M. Jones: Dessa vez, você pode ver que eu demorei bastante, mas não foi intencional, juro. Eu ando sofrendo com um surto de falta de criatividade. E embora eu saiba exatamente os rumos que eu quero que a fic tome, tenho tido dificuldade para transcrever, o que acaba afetando a qualidade da minha escrita. Não tem ficado como eu quero, mas vamos torcer para melhorar. E eu vou ficar bem, muito obrigada. E obrigada também por comentar, bjks.
BelinhaZpears: Não foi fácil escrever uma "não conexão" entre Harry e Ron, já que os dois são tão ligados. Mas acho que isso já está parcialmente resolvido. Harry dizendo que Malfoy não é boa pessoa, é como eu imagino que seria. Porém, eu adoro escrever uma "amizade" entre Ron e Draco, acho que isso dá pra notar nas minhas fanfics. Eu não sei o motivo, mas a ideia dos dois serem amigos ou pelo menos tolerarem um ao outro, me atrai. Sim, a dualidade de sentimentos está vindo, especialmente com o que pretendo para o próximo capítulo. As coisas estão meio mornas, mas vão melhorar ou piorar, depende do ponto de vista.
O abuso do álcool é realmente algo que quero tratar nessa fic, espero que não fique muito pesado nem forçado.
Sim, essa questão de "menina boa" e "menina má" a gente vê sempre em séries, filmes, novelas. É tão chato que mostrem mulheres ou completamente boas ou completamente loucas. E às vezes, isso acaba nos influenciando. Já me influenciou bastante em fics antigas. Hoje, sendo mais velha e com uma noção maior de sororidade, eu não escreveria algo assim novamente.
Sim, também percebo o esgotamento mental das pessoas ultimamente, digo com propriedade, pois estou assim. No meu caso, não sei se é apenas a pandemia ou o acúmulo de trabalho ou todas as outras coisas ou se é tudo isso junto. Mas sim, as coisas estão difíceis para todos. E infelizmente ainda estamos longe de voltar a normalidade. Gostaria que algumas pessoas entendessem isso. Mais uma vez, obrigada por comentar. Se cuide também. Bjks.
Amanda: Ah, é tão legal ver novos leitores por aqui. Ainda mais com uma fic que já vem se estendendo há tanto tempo. Olha, eu jamais conseguiria escrever uma fic onde o Fred está morto, não consigo nem pensar. Haha! Que bom que esteja gostando tanto e seu comentário tão empolgado realmente me deixou feliz. Obrigada mesmo por comentar, bjks.
N/A 2: Espero que todos vocês estejam bem e se cuidando. Continuem assim. Até a próxima, bjks.
