17. O que vem depois

Ron tinha certeza que seria estranho encontrar Zoe, depois de ter beijado Hermione. Mais do que isso, seria estranho encontrar com ela agora que ele se lembrava de quem era. De qualquer forma, ele sabia que precisava ser sincero com ela. O problema é que quando Ron mandou uma coruja_ que Zoe não respondeu_ dizendo que a visitaria no domingo, o plano dele, era contar que havia recuperado a sua memória. Então, não havia um adicional de um beijo em outra mulher. Mas agora, não era como se ele pudesse não contar. Porque ele não era assim, ele não traía e ele não mentia para Zoe. O ruim de tudo é que a verdade a magoaria.

Então, lá estava ele em frente a casa dos Bennett, olhando para a porta de entrada, mas sem realmente se sentir corajoso para entrar.

O que ele diria a ela? E como ele faria isso?

Quando Ron se decidiu por bater à porta, a mesma abriu meio bruscamente e Zoe apareceu na entrada, o olhando meio séria.

_ Quanto tempo você pretendia ficar parado na porta da minha casa?_ ela perguntou, se encostando ao batente da porta.

_ Você me viu?_ Ron perguntou e sentiu suas orelhas queimarem.

_ É claro_ Zoe saiu do caminho e permitiu que ele entrasse. Ron a seguiu_ Estava no sofá lendo e vi pela janela você chegando, esperei você bater, mas nada aconteceu… Fiquei me perguntando quanto tempo você demoraria para bater ou para ir embora.

Ron se mexeu inquieto. Ele esperava que Zoe pulasse nos braços dele como sempre, o abraçasse, o beijasse, aí ele se sentiria culpado e a afastaria e então, diria a verdade. Mas não foi assim que aconteceu. Não houve abraço, muito menos beijo, apenas ela parando no meio da sala e o encarando. Zoe era inteligente demais para que Ron a enrolasse. Ron deveria saber que era óbvio que ela saberia que tinha alguma coisa errada, quando ele simplesmente sumiu por mais de uma semana, logo depois dos dois começarem a namorar oficialmente.

_ Bom, eu acabaria batendo na porta de qualquer forma_ ele respondeu, enfiando as mãos nos bolsos do casaco que usava.

Zoe estava de braços cruzados, o olhando. É claro que ela sabia que o sumiço dele, e depois o aparecimento repentino, significava alguma coisa, que provavelmente não seria boa para ela.

_ Você sumiu.

_ Eu sinto muito_ Ron disse com sinceridade.

_ Eu te mandei cartas pela coruja que o Ministério emprestou.

_ Eu sei.

_ Você não respondeu nenhuma_ ela estava começando a ficar brava.

_ Eu sinto muito_ Ron repetiu.

_ Eu achei que algo ruim tivesse acontecido.

_ Zoe, eu sinto muito…

_ Você só sabe dizer isso?_ Zoe sentiu seu coração disparado. Ela o amava, mas estava com um pouco de raiva dele.

_ Não, eu… Eu tenho muita coisa para te explicar_ Ron olhou na direção do sofá_ Podemos sentar?

Aquele pedido era ridículo, levando em consideração todas as vezes em que eles usaram aquele mesmo sofá de cama, para fazer tudo, menos sentar e conversar.

_ É claro.

Os dois se sentaram, cada um numa ponta do sofá e ficaram em silêncio. Zoe o encarando, esperando que ele falasse, e Ron, olhando para as próprias mãos. Então, finalmente ele olhou para ela.

_ O que aconteceu?_ Zoe perguntou.

Ron não podia e não queria dar a ela, menos do que a verdade. Por tudo que haviam vivido juntos, pelo tanto que ele se importava com ela, aquilo era o mínimo. Então, ele a olhou nos olhos.

_ Eu me lembro, recuperei minha memória_ ele apertou as mãos uma na outra, observando a expressão de Zoe passar de irritada, para surpresa.

_ Oh, meu Deus_ ela se sentou mais perto dele, de olhos arregalados_ Como? Quando foi isso?

_ Há pouco mais de uma semana. Malfoy e eu fomos a caverna onde tudo aconteceu, e foi quando eu lembrei… Basicamente foi por isso que sumi e não respondi suas cartas. Eu precisava de um tempo, eu acho.

_ E você lembra de tudo agora?_ Zoe segurou as mãos dele.

_ Acho que sim.

_ Lembra do que aconteceu… enquanto esteve na caverna, quero dizer…

_ Sim, mas eu prefiro não falar disso_ Ron se mexeu inquieto. Aquele era um lugar onde ele não queria ir. Ele não podia controlar que seus pensamentos o levassem até lá, mas podia controlar o que saía de sua boca. E verbalizar os três meses que passou sendo torturado, não parecia ser uma boa ideia. Pois uma vez que tudo saísse, ele não tinha certeza se sua mente se recuperaria.

_ Ok_ ela disse, tentando ser compreensiva.

Ron ficou olhando para ela, esperando algo mais, então aconteceu. Ela se jogou em cima dele e o abraçou com força.

_ Oh, Michael_ Zoe disse, contra seu pescoço_ Por que você não me disse nada? Eu poderia estar lá pra você, cuidar de você, poderia estar cuidando de você agora… Deve ser tão difícil lembrar de tudo assim, do nada.

_ Acredite, eu não tenho sido a melhor das companhias ultimamente_ Ron acariciou as costas dela_ Ainda está tudo muito confuso… Todas as lembranças. Sabe, é muita coisa.

Eles se afastaram, mas apenas o suficiente para que pudessem se olhar.

_ Sim, eu imagino. E eu sinto tanto_ ela passou uma das mãos em seu próprio rosto, enxugando lágrimas que Ron nem sabia que ela tinha derramado_ Gostaria muito que você me deixasse ficar ao seu lado nesse momento.

Ron suspirou. Aquela ideia pareceria perfeita, se não houvesse tantas outras coisas entre eles agora.

_ Zoe, eu sinto que as coisas mudaram_ ele falou com sinceridade.

_ É claro que mudaram_ Zoe concordou_ Agora você é Ron Weasley de novo_ Ela disse aquilo com um sorriso, mas não foi um sorriso que atingiu seus olhos. De certa fora, Zoe sabia que quando ele se lembrasse de quem era, tudo mudaria.

_ Sim, mas não é só isso_ Ron disse_ Eu estou tão confuso… É como se eu estivesse no meio de alguma coisa, entende? E não soubesse para onde ir. Já faz uma semana e eu nem sequer contei a minha família que recuperei a memória. Eu mal consigo olhar para eles… Como se eles ainda fossem pessoas estranhas.

_ Michael… Digo, Ron_ ela se corrigiu quase imediatamente_ Não esconda isso deles, eles vão ficar tão felizes quando souberem.

_ Eu sei. Mas eu conheço minha família, e eles não vão entender porque eu não voltei imediatamente a ser o Ron de antes, especialmente a minha mãe.

_ Não diga isso. Acha que eles não entendem por tudo o que você passou? Dê mais crédito a eles.

_ Eles iam gostar de ver você tendo tanta fé neles_ Ron conseguiu dar um pequeno sorriso mesmo em meio a confusão que sentia_ Eu vou fazer isso, vou contar a eles, assim que me sentir pronto… Quer dizer com Harry e Hermione foi mais fácil…

Ron mal acabou de falar e Zoe soltou as mãos dele. A testa dela estava meio franzida e Ron soube que havia dito algo errado.

_ Eles sabem?

_ Sim. Bom, eu contei a eles.

_ Hum, quando?_ Zoe perguntou.

_ Um pouco depois de lembrar.

A sala caiu num silêncio estranho, enquanto Ron olhava para Zoe e ela olhava para o chão. Zoe deveria saber que ela nunca seria a primeira pessoa para quem Ron contaria aquilo, mesmo que tenha sido ela a pessoa que esteve ao lado dele nos últimos quatro anos. Porque talvez ela fosse a primeira escolha, se ali diante dela, estivesse Michael Bennett, mas Ron Weasley nunca faria dela a sua prioridade. Os melhores amigos de Ron Weasley eram Harry Potter e Hermione Granger. E mesmo que ela fosse a namorada de Michael, Zoe não sabia o quanto de Michael ainda restava no rapaz a sua frente.

_ Bom, eles são seus melhores amigos_ ela se esforçou para dizer, para parecer que entendia, mas sua voz saiu um pouco quebrada mesmo assim_ Eu entendo.

_ Eu queria te contar desde o começo, é só que…

Ron não conseguiu terminar. Só que o quê? Que desculpa ele poderia dar para não ter dito a ela, sua namorada, que havia recuperado a memória? A verdade é que ele não tinha nenhuma desculpa, e é claro que Zoe percebeu isso.

_ Por favor, Ron, nós sabemos que você provavelmente não pensou em mim quando se lembrou de tudo_ Zoe falou_ E eu disse que entendo.

_ Eu sinto muito_ foi só o que Ron disse.

Então ela deu um grande suspiro.

_ Não tenho a intenção de ser Harry Potter e muito menos, Hermione Granger na sua vida. Eu sei que eles vieram primeiro e isso não vai mudar. Também sei que vocês passaram por muitas coisas juntos, embora eu não saiba de toda a história_ E tentando demonstrar que estava ao lado dele, ela continuou_ Mas eu quero um lugar na sua vida, se você ainda deixar.

Aquilo era algo bom de se ouvir, Ron pensou. Mas ele não tinha certeza se Zoe ainda iria querer aquilo, depois que ele contasse tudo que foi ali para contar.

_ É claro que eu quero, seja como for_ Ron afirmou e dessa vez foi ele que segurou as mãos dela entre as dele. Elas eram pequenas e quentes e segurá-las, costumava dar a Ron um certo arrepio, mas ele não sentiu nada dessa vez. Talvez os últimos acontecimentos apenas o tivessem entorpecido.

_ Seja como for? O que isso quer dizer?

Ron respirou fundo. Só tinha um jeito de fazer aquilo e era indo em frente.

_ Hermione, Harry e eu fomos a Hogwarts ontem. Eles acharam que era importante me levar até lá.

_ Hogwarts? A escola de bruxos onde você estudou?_ Zoe esboçou um sorriso. Ela não sabia quase nada sobre Hogwarts, só o que o Ministro da Magia e Kingsley haviam contado a ela e sua família quando revelaram quem Ron realmente era. Ron também havia tentado contar a ela alguma coisa, depois de entender um pouco de tudo que Harry lhe contou, quando ainda estava sem memória_ Como foi?

_ Nostálgico, foi bom rever tudo. Sabe, lá foi como meu lar durante o fim da minha infância e minha adolescência inteira_ Ron respondeu e sua mente vagou para o dia anterior, para a cabana de Hagrid, o corujal, o lago, os corredores, escadarias e salões de Hogwarts. Vagou para a sala comunal da Grifinória e finalmente parou no beijo que ele e Hermione trocaram_ Hermione e eu nos beijamos.

Não era daquela forma que Ron pretendia dizer aquilo, não era assim que ele queria contar. Ele havia se imaginado preparando Zoe, sendo mais gentil, tendo um pouco mais de tato. Mas talvez ter tato fosse algo de Michael, porque definitivamente não era algo de Ron. Mas ainda assim, ele se odiou por ter dito daquela forma, por mais honesto que tenha sido.

Zoe puxou pela segunda vez suas mãos das dele, e dessa vez, ela parecia realmente ferida.

_ Vocês… Vocês se beijaram?_ a voz dela saiu tremida. Ron pensou que talvez ela fosse se levantar, se afastar dele, mas ela continuou no mesmo lugar, sentada no sofá, o encarando.

_ Sim_ ele respondeu e se sentia a pior pessoa do mundo_ Me desculpe, Zoe. Nós não planejamos, apenas aconteceu… Hermione e eu, nós… nós…

_ Você se amavam_ Zoe disse, antes que ele pudesse concluir_ Ainda se amam, aparentemente.

Ron ponderou aquilo, mas a verdade é que ele não sabia exatamente o que sentia. Desde que ele e Hermione se reencontraram, mesmo quando Ron ainda não tinha recuperado a memória, ele se sentiu conectado a ela. E agora que ele lembrava, ele não sabia o quanto ainda existia daquele sentimento dentro dele.

Sem pensar muito, Ron levou a mão até o pingente pendurado em seu pescoço. Ele passou o polegar pelo objeto gelado e sentiu as pequenas elevações formadas pelo H que havia sido gravado ali.

_ Eu não sei o que eu sinto_ Ron admitiu_ Eu estou confuso sobre muitas coisas, e essa é uma delas. Mas eu sei que eu a amava muito e nós não vivemos isso… não foi possível.

_ Porque você foi sequestrado_ Zoe disse, olhando na direção do chão e sentindo seus olhos se encherem de lágrimas.

_ Sim. Eu fui sequestrado.

Os dois ficaram em silêncio depois disso, e Ron quis abraçá-la, porque realmente as lágrimas começaram a rolar pelas bochechas dela, mas ele não sabia se devia, não sabia se seria rejeitado.

Doeu em Zoe perceber que o lugar que ela ocupava no coração de Ron, era bem diferente do lugar que ele ocupava no coração dela. Ela o amava, o amava muito, e sempre soube que os assuntos mal resolvidos de sua vida anterior estariam entre eles. Mesmo quando ele a pediu em namoro, ela sabia disso. E a parte egoísta dela, desejou que ele nunca tivesse se lembrado de nada.

_ Você me ama?_ Zoe perguntou e pegou Ron de surpresa. Ela finalmente olhou para ele.

Ron a amava, ele sabia que sim. Mas antes ele achava que era o suficiente, só que agora, ele não conseguia evitar de comparar esse sentimento com o que um dia sentiu por Hermione.

_ Sim_ ele respondeu com sinceridade_ Mas eu estou confuso, Zoe. Meus sentimentos por ela ainda estão aqui, eu não posso mentir para você. Eu a amei muito, e eu achei que terminaríamos juntos… Mas aí tudo aconteceu.

Zoe acenou devagar. Ela entendia. Por pior que fosse, ela entendia.

_ Eu acho que você deve ir embora_ ela pediu.

_ Zoe, eu não quero te magoar…

_ Eu sei, mas eu preciso mesmo que você vá embora_ ela disse se levantando.

_ E eu preciso que a gente converse sobre isso_ Ron insistiu_ Eu preciso explicar.

_ Explicar o quê, Michael? Merda!_ ela levou as mãos ao rosto, se sentindo estúpida_ Não consigo me acostumar…

_ Você pode continuar me chamando de Michael.

_ Mas esse não é o seu nome_ Zoe passou as mãos pelos olhos_ E eu não quero conversar, por favor. Eu já entendi, ok? Sei que você está confuso, que não sabe o que quer… Só que eu sei o que eu quero. Eu quero você, eu te amo. Mas não quero assim. E no fundo você também não quer.

Zoe respirou fundo depois de dizer tudo aquilo. Se eles iam fazer aquilo, ficar juntos, ela o queria inteiramente. Só parte dele não servia. Nenhum dos dois merecia aquilo. Ela não merecia alguém que não a amasse da mesma forma, assim, como Ron não merecia ficar se perguntando como teria sido se ele e Hermione Granger ficassem juntos.

Ron a entendia, é claro que a entendia. Ela não queria que ele prometesse um futuro, que provavelmente ele não poderia dar. E Ron jamais pediria por isso.

_ Talvez eu deva mesmo ir_ Ron disse baixinho.

_ Sim_ Zoe concordou ainda limpando as lágrimas. Quando Ron estava quase na porta, ela o chamou_ Ron?

Ele se virou e sentiu um pouco de esperança. Esperança que ela não o odiasse.

_ Por favor, quando você souber o que quer, eu gostaria de saber.

_ É claro_ foi só o que Ron disse, por que o que mais ele poderia dizer?

oooooooooooooo

Uma coisa que Ron havia gostado das poucas vezes que esteve na casa de Draco Malfoy, era a quantidade absurda de bebidas. Não só bebidas bruxas, mas muitas trouxas também. Então, ele se sentiu no paraíso quando teve a possibilidade de escolher.

Assim que saiu da casa dos Bennett, ele ficou se perguntando o que fazer. Ele não queria ir para A Toca, pois não queria ter que explicar porque estava com aquela cara de cachorro sem dono, também não queria ir até Harry e muito menos, Hermione. Pelo menos, não agora. Ron ainda não sabia o que fazer com sua vida, com todas as informações que havia reconquistado, e não parecia justo arrastá-la para sua confusão. E de qualquer forma, ela estava noiva. Não era como se Hermione fosse largar tudo para se enfiar no que quer que a vida de Ron fosse agora. Então, com todas essas cosias na cabeça, o único lugar onde ele pensou em ir, era a mansão de Draco Malfoy. Obviamente não era sua primeira opção, mas estranhamente era a única que parecia plausível.

_ Bebendo minha bebida sem a minha autorização de novo, Weasley?_ Ron se virou quando ouviu a voz de Malfoy_ Isso tá virando um costume.

O loiro estava parado, encostado no portal que levava até a sala de estar, vestindo um roupão roxo de cetim e o encarando com uma expressão entediada.

_ Bom, seu elfo doméstico me disse para ficar à vontade enquanto ia te chamar_ Ron deu de ombros, bebendo de uma vez do copo que havia enchido de gim. Ele estava parado em frente ao bar, olhando todas as opções de bebidas do lugar.

_ Mas não tão à vontade assim_ Malfoy disse, mas não fez nada para impedi-lo de continuar atacando suas preciosas bebidas. Em vez disso, Malfoy se juntou a Ron e se serviu de whisky de fogo, indo em direção ao sofá em seguida, se sentando ali.

Ron se virou para ele. O copo cheio novamente.

_ Por que ainda está assim?_ ele fez um gesto indicando o roupão de Malfoy.

_ Porque estou na minha casa e posso usar o que eu quiser.

_ Claro_ Ron revirou os olhos e deu um gole em sua bebida.

_ O que está fazendo aqui, Weasley?_ Malfoy perguntou o encarando. Ele não perguntou aquilo de maneira grosseira e não estava incomodado, mas pela maneira como Ron havia ficado depois que foram a caverna, ele imaginou que não o veria tão cedo_ Não nos vemos desde o dia da caverna.

_ Sim_ foi só o que Ron respondeu antes de engolir o resto da bebida de uma vez só. Era seu segundo copo desde que havia chegado ali. Ele então se virou para o bar e encheu um terceiro copo com mais gim.

_ Se você vai se embebedar na minha casa, eu quero saber porquê.

_ Não tenho para onde ir_ Ron admitiu.

_ Não?_ Malfoy perguntou com um certo deboche_ E quanto a casa do Potter cabeça rachada? E a sua própria casa? Minha casa não é santuário ou templo, Weasley, pra você vir aquilo pensar na sua vida.

_ Eu não vim pra pensar, eu vim pra beber. Mas eu vou embora, eu não sabia que você ia ser tão babaca_ Ron disse irritado.

Malfoy revirou os olhos e deu um pequeno suspiro.

_ Eu não disse pra você ir embora.

_ Bom, você também não está sendo a pessoa mais receptiva.

Draco então se aproximou e para surpresa de Ron, o serviu com mais bebida.

_ Eu não sou receptivo, parece que você não me conhece_ Malfoy disse, voltando outra vez para o grande sofá de couro. Ele indicou a outra ponta do sofá, como se dissesse para Ron se sentar ali, e assim, o ruivo fez_ E então?

_ Então o quê?_ Ron evitou olhar para Malfoy. Ele entrelaçou as duas mãos ao redor do copo de vidro e ficou encarando o líquido transparente ali dentro.

_ Você surtou_ Malfoy disse, o olhando com certa cautela_ Você surtou quando estávamos na caverna, não disse coisa com coisa depois que chegamos aqui, e depois simplesmente foi embora e eu fiquei sem saber o que tinha acontecido.

Ron ficou em silêncio ponderando sobre aquela situação e sobre o que ele poderia ou gostaria de falar com Draco Malfoy. Agora ele lembrava quem era Malfoy, o tanto que ele infernizou sua vida e a de seus amigos na escola, lembrava de todas as agressões verbais, o desprezo que Malfoy sempre sentiu por ele. Se lembrava do quanto o outro rapaz o fez se sentir inferior. Se lembrava que Malfoy foi um Comensal da Morte. Mas Ron também lembrava que as três semanas que eles passaram juntos na caverna, mudou muita coisa entre os dois.

Lá dentro, eles viveram as mesmas coisas, pelo menos até Malfoy conseguir fugir. E eles se conectaram. Ninguém no mundo poderia entendê-lo da maneira que Malfoy poderia. Isso nunca mudaria, porque nenhuma outra pessoa no mundo havia estado naquela caverna junto dele. E agora que ele lembrava, Ron sabia que Malfoy não o havia abandonado.

_ Eu recuperei minha memória, Malfoy_ Ron disse ainda encarando a bebida em seu copo.

Para sua surpresa, Malfoy não teve a reação que ele esperava. Ron achou que veria no rosto dele, as mesmas expressões de choque que viu em Harry, Hermione e Zoe, mas não havia nada disso.

_ Eu sei_ foi a resposta de Malfoy.

_ Sabe?

_ Sim. A maneira como você ficou quando entramos lá… Bom, deixou tudo muito claro_ Draco respondeu_ Eu imaginei que se você não tivesse lembrado de tudo, pelo menos, havia lembrado de alguma coisa.

_ Talvez você me conheça melhor do que eu imaginei_ Ron disse e bebericou o gim em seu copo.

_ Não é que eu te conheça bem, Weasley. Mas nós voltamos aquele lugar pra tentar te ajudar a recuperar a sua memória, então era meio óbvio pela sua reação que alguma coisa muito forte tinha acontecido.

Aquilo fazia mais sentido, Ron pensou. Muito mais sentido do que Draco Malfoy conhecê-lo melhor do que seus melhores amigos.

_ Como foi pra você?_ Ron perguntou_ Digo, estar lá… Sabe, quando fomos sequestrados.

Malfoy deu um grande suspiro. Durante os últimos anos, ele nunca conversou com ninguém sobre como foi sua experiência nas semanas que passou na caverna. Primeiro, porque não sobrou ninguém. Seus amigos na época de Hogwarts, eram mais capachos do que amigos de verdade, e não era como se ele pudesse falar sobre isso com seu pai, uma vez que haviam cortado relações há anos. E segundo, ele não achava que alguém o entenderia. A única pessoa que viveu aquilo com ele, foi dada como morta. Mas Ronald Weasley não havia morrido, ele estava ali. Carne e osso, traumas e toda a merda que veio junto com as lembranças. Draco se deu conta de que finalmente tinha com quem falar sobre aquilo.

_ Eu achei que fossemos morrer_ Draco respondeu com sinceridade_ E algumas vezes eu desejei isso.

_ Eu também_ Ron admitiu.

Draco olhou para Ron. Ele se sentia uma pouco culpado pela sua dor, afinal, ele só passou três semanas naquele lugar. Para Ron, foram meses. Mas ainda assim, ela estava lá, as lembranças estavam lá e mesmo depois de quatro anos, voltar aquela caverna não foi menos difícil.

Ele observou enquanto Ron bebia de seu copo num gole só, e observou quando em seguida, Ron andou até o bar e se serviu com rum, dessa vez. Ele bebeu dois copos um atrás do outro, como se sua vida dependesse disso. E então, Draco entendeu. Da mesma maneira que Draco frequentava a vida noturna trouxa para fugir de sua realidade, Ron também tinha o seu escape. Ele bebia. Bebia muito.

_ Você é alcoólatra_ Draco disse do nada.

Ron se virou para ele, as bochechas vermelhas e os olhos azuis começando a diminuir de tamanho, provavelmente pela bebida em excesso. Ele se perguntou como eles haviam ido de falar sobre a caverna para Malfoy o chamando de alcoólatra.

_ Eu bebo, mas eu não sou um alcoólatra_ Ron rebateu e virou o copo mais uma vez.

_ Você bebe para fugir das coisas que te ferem_ Draco continuou_ E sim, Weasley, você é um alcoólatra.

Ron olhou para o copo vazio em sua mão, e a única coisa que passou por sua cabeça, foi enchê-lo novamente, então ele o fez. Dane-se o que Draco Malfoy pensava dele. Ron havia ido ao inferno e voltado. Esteve no inferno por meses, e depois no limbo por anos. E agora que tudo deveria estar bem, porque ele finalmente lembrava, ele ainda se sentia no meio termo. Entre o inferno e o limbo. Sentia que se fizesse um movimente em falso, cairia em um dos dois lados, e nenhum era bom. Então, ele merecia a droga de uma bebida.

_ Vai pro inferno_ foi a resposta de Ron.

Diferente do que Ron pesou, Malfoy não disse nada. Não revidou, não o agrediu verbalmente, não debochou. Ele apenas ficou sentado no sofá, o olhando com pena. Então, depois de muito tempo e de muitos copos que Ron virou, Malfoy levantou.

_ Se você vai ficar, pode ir para um dos quartos de hóspedes. Tenho certeza de que vai ser melhor do que o sofá ou do que aquela coisa que vocês chamam de Toca.

Ron se apoiou na bancada do bar_ porque estava tonto demais_ e observou Malfoy sair da grande sala e sumir pelo caminho que levava às escadas.

Bom, ir para casa, provavelmente não seria uma boa ideia. Lá ele teria que responder perguntas. Ele teria que explicar seu estado, porque ele tinha a completa noção de que estava muito bêbado. Se fosse para o Largo Grimmald passar a noite na Mansão Black, onde Harry morava, ele também teria que se explicar. Então, não era como se ele tivesse muitas opções. Talvez ele realmente devesse ficar na casa do cara que havia acabado de chamá-lo de alcoólatra, mesmo Ron não sendo um.

Ok, ele sabia que às vezes exagerava. Ele sabia que bebia um pouquinho demais e que talvez, isso não fosse completamente saudável. Mas ele não era um alcoólatra. Qualquer pessoa que passasse por tudo que ele havia passado, precisaria de um refúgio. E esse era o refúgio dele. Era o que fazia com que ele segurasse as pontas e não desmoronasse de vez. Então, Malfoy não sabia de nada, ele podia não ser mais o valentão da escola que fazia bullying com os outros, mas ele continuava sendo o idiota de sempre.

Eu não sou um alcoólatra, Ron disse para si mesmo em pensamento.Mas eu mereço uma dose, ele continuou. Eu acabei de terminar um relacionamento que poderia ser bom para mim, porque provavelmente ainda amo a minha melhor amiga, então eu mereço sim uma bebida, ele foi dizendo mentalmente enquanto subia as escadas para um dos quartos de hóspedes. A minha vida tem sido uma merda por anos, então que se dane, eu mereço uma dose.

Quando ele entrou no quarto, se deu conta de que havia levado a garrafa de rum, que estava quase cheia, com ele. Ron também se deu conta de que não havia tomado uma dose, como vinha repetindo para si mesmo. Foram muitos, muitos copos além disso. Mais do que ele poderia contar.

Ele se sentou na cama e olhou para a garrafa em sua mão, sentindo que não aguentaria mais alguma coisa para se preocupar. Mas parando para pensar, não era normal beber às 6h da manhã, não era normal ter uma garrafa de whisky debaixo de sua cama, não era normal correr para beber toda vez que as coisas o sobrecarregavam.

Então, talvez, apenas talvez, Draco Malfoy tivesse aberto dentro de Ron, mais um questionamento que ele não estava pronto para cutucar. Eu sou um alcoólatra? Ron se deu conta, de que qualquer que fosse a resposta para quela pergunta, ele não queria descobrir.

oooooooooooooo

N/A: Então, eu estava relendo os capítulos anteriores e reparei que cometia muitos erros na escrita. Me desculpem. Em minha defesa, eu era mais nova e nunca tive ninguém para revisar os capítulos, então alguns erros sempre passavam. Acho que melhorei, mas se vocês verem algo errado, por favor, me avisem. ;)

Lid20: Poxa, nem fala. A vida adulta às vezes pode ser um saco e a gente precisa organizar nossas prioridades, então outras coisas acabam ficando para depois. Mas fico feliz que tenha gostado do último capítulo e do desenvolvimento dele. Me dei conta de que demorei muito para escrever esse beijo. Dezesseis capítulos foi demais. Hahaha! Obrigada pelo comentário. Bjks!

Ninebp: Que bom que você não desistiu, você está aqui desde o começo e agradeço por isso. :) Eu fiquei ansiosa para escrever essa interação do nosso trio, queria muito escrever esse capítulo em Hogwarts e, na verdade, ele seria bem maior, mas na edição cortei algumas coisas. E sim, Ron e Hermione se merecem tanto… Meu shipp da vida. Obrigada pelo comentário. Bjks!

Mickky: Que bom que você ainda lembra do enredo dessa Fic mesmo depois de um ano sem atualização. Isso me deixa feliz com o meu trabalho. Muito obrigada por comentar. Bjks!

Brunasw: Hahaha! Tentei voltar em grande estilo e estou muito feliz que tenha gostado dessa minha retomada. E sim, eu não vou abandonar essa Fic. Nunca teria coragem. Obriga pelo comentário. Bjks!

N/A2: O capítulo 16 teve mais comentários do que eu achei que teria. Como fiquei muito tempo sem atualizar, na verdade, achei que não teria nenhum. Por isso, quero agradecer a vocês que ainda estão aqui. Obrigada mesmo.

N/A3: Gente, uma das coisas que mais me arrependo é de ter colocado títulos nos capítulos, porque é difícil demais de pensar num título legal. Toda vez que penso num título, faz sentido para mim na hora, com o que está acontecendo no capítulo, mas depois eu fico "que bosta". Hahaha! Então, por favor, relevem.

Até o próximo capítulo e se cuidem. 3