18. Algo Maior

O corpo de Ron estava pegando fogo. Não literalmente, mas ele tinha certeza de que ser queimado vivo era exatamente assim: com uma dor excruciante percorrendo cada centímetro da pele dele, fazendo com que seu sangue fervesse por dentro de suas veias. Tanto, que entre os gritos que soltava, ele pedia para que o matassem de uma vez.

Ron podia ouvir os comensais rindo, debochando dele, enquanto assistiam a Maldição Cruciatos fazer o seu trabalho. E se a dor que ele sentia não fosse tão desconcertante, talvez ele reagisse, mas tudo que ele conseguia fazer era gritar e se contorcer no chão de concreto da caverna…

Braços o empurraram contra algo fofo debaixo dele, e ele ainda estava gritando. Gritando e socando quem quer que o estivesse prendendo.

_ Ron, pelo amor de Deus!_ uma voz desesperada dizia acima dele.

Não eram mais eles, os Comensais da Morte. Então Ron abriu os olhos, que ele sabia agora que estavam embaçados de lágrimas. Seu pai pairava sobre ele, o segurando com força contra o colchão da cama. Ele parou de lutar, porque entendeu que a pessoa que estava ali, não o machucaria. Fora um pesadelo. Ou melhor, uma lembrança, ele sabia agora.

O aperto de seu pai contra ele, afrouxou, até que o homem o soltou. Aquilo não fez com que o corpo de Ron parasse de tremer, muito menos com que ele se sentisse menos acuado. Ele se sentou na cama, suando feito alguém que havia acabado de correr uma maratona e olhou na direção da porta. Sua mãe e Gina estavam paradas, agarradas uma a outra, o olhando com expressões assustadas.

_ Filho, você estava gritando, acho que você teve um pesadelo_ seu pai disse, se afastando, enquanto massageava as próprias costelas, provavelmente foi onde Ron o socou, enquanto achava que estava sendo atacado.

Ron não disse nada. Ele se encolheu contra a cabeceira da cama, as lembranças vívidas inundando sua mente, como se tudo aquilo tivesse acontecido segundos antes. Seu corpo doía, como se tivessem acabado de torturá-lo. Provavelmente uma dor fantasma de tudo que ele havia sofrido naquela caverna anos atrás.

_ Eu te machuquei?_ ele perguntou a Arthur.

Era uma pergunta idiota, porque ele sabia que o havia machucado. Assim como havia machucado Jorge, quando o chutou, enquanto o irmão tentava acalmá-lo de outro pesadelo.

_ Está tudo bem_ seu pai respondeu_ Só fiquei preocupado com você, todos ficamos.

O homem olhou para a esposa e para a filha que ainda estavam paradas na porta do quarto, parecendo atordoadas. Então, Arthur olhou de volta para ele.

_ Ron, esses pesadelos não são normais_ Arthur disse com cautela_ Talvez você devesse conversar com alguém.

_ O que você quer dizer?_ Ron, ainda encolhido contra a cabeceira, perguntou. Sua voz estava trêmula e rouca, e ele ainda podia sentir os olhos embaçados pelas lágrimas que derramou enquanto sonhava_lembrava_ da tortura que sofreu.

_ Eu não sei, alguém_ seu pai tentou acariciar os cabelos dele, mas Ron se afastou, como um animal com medo de ser ferido.

Arthur recolheu a mão, parecendo um pouco machucado pela recusa do filho, mas Ron não conseguiu se importar.

_ Querido_ sua mãe começou, se aproximando devagar. Ela se sentou na beirada da cama, como se temesse que Ron fosse avançar nela a qualquer momento, e Ron não podia culpá-la_ Estamos preocupados… Você tem tido esses pesadelos constantemente agora… E nós… Bom, nós não sabemos o que fazer.

Ron desviou o olhar. Ele ficou encarando a coberta que estava embolada no meio da cama, provavelmente saiu de cima dele enquanto ele esperneava durante o sono. Ele ponderou se deveria contar ou não a sua família que havia recuperado a memória. Talvez se ele contasse, eles entendessem todo o trauma pelo qual ele vinha passando. Seria mais fácil deles verem que uma parte de Ron foi destruída naquela caverna e que ele não sabia se havia conserto. E talvez eles não o olhassem como o olhavam agora: como se ele fosse alguém prestes a pular de uma ponte ou algo do tipo.

Mas ele tinha medo de que com a verdade, outras coisas viriam. Perguntas que ele não estava pronto para responder, explicações que ele não poderia dar. E principalmente, a pena com a qual ele não sabia se poderia lidar. Porque tudo que Ron menos queria, era lidar com mais um fardo, com mais alguma coisa que o desestabilizaria.

Ainda assim, o interior dele gritava para que ele se abrisse, que contasse a eles a verdade. Mas em vez disso, ele foi por outro caminho.

_ Eu quero ficar sozinho_ ele pediu, puxando a coberta e se encolhendo debaixo dela.

Gina, que ainda estava parada à porta, soltou um bufo de impaciência.

_ Não!_ ela disse, e os outros três olharam para ela_ Tem semanas que você vem tendo esses pesadelos e nunca quer falar a respeito… Você acorda a casa inteira todas as noites, Ron… Você acabou de dar socos no papai…

_ Gina!_ Arthur a interrompeu, mas isso não a abalou.

_ Não, pai. É sério_ Gina continuou com a voz firme_ Desde que o encontramos, ele se recusa a compartilhar qualquer coisa com a gente, age como se fôssemos nada…

_ Vocês não me encontraram_ dessa vez foi Ron que a interrompeu_ Vocês nem sequer me procuraram.

Alguma coisa despertou dentro dele naquele momento. Raiva por Gina falar demais. Raiva por terem desistido dele, enquanto ele passou anos achando que sua existência era um desperdício.

_ Ron, não diga isso_ foi Molly que falou. Ela parecia magoada_ Nós procuramos, procuramos muito…

_ Não procuraram o suficiente_ Ron retrucou. A cabeça dele doía, e ele só queria que seus pais e sua irmã saíssem.

Gina então se aproximou, o olhando com irritação.

_ Não procuramos o suficiente?_ ela quase cuspiu_ Você não tem ideia de como foi… De tudo que nós… _ Gina então, respirou fundo_ Nós nunca imaginamos que você estava no mundo trouxa. Como poderíamos? Você nunca vai saber o tanto que sofremos todos esses anos.

Ron a encarou. Uma parte dele quis falar do vazio que ele sentiu nos últimos quatro anos, sem memória e achando que estaria sozinho para sempre. Essa mesma parte queria falar sobre os meses na caverna e dizer que Gina não poderia comparar o que eles sentiram com o que Ron sentiu, com o que ele ainda sentia. Mas sua parte mais racional, que era a que estava cansada, queria apenas que eles fossem embora, que o deixassem sozinho, para que ele pudesse pegar a garrafa de vodca debaixo da cama e beber em paz. Essa foi a parte que falou mais alto.

_ Eu quero ficar sozinho_ ele disse novamente, reunindo toda a calma que conseguia acumular.

Gina bufou.

_ Quer saber de uma coisa? Se você quer passar por essa merda sozinho, seja o que for, é problema seu.

Ela então caminhou para fora do quarto sem olhar para trás, e Ron se sentiu um pouco culpado, mas não o suficiente para impedi-la de ir.

Seus pais então se levantaram quase que ao mesmo tempo de onde estavam sentados na cama, e olharam com consternação.

_ Eu vou preparar uma poção para você_sua mãe disse com uma delicadeza que não era típica dela_ Vai te ajudar a passar a noite.

Ron não disse nada. Ele esperou que ela saísse, então olhou para o pai.

_ Desculpe_ Ron falou, esperando que seu pai entendesse que Ron não quis machucá-lo e que realmente sentia muito.

_ Está tudo bem, filho_ Arthur falou, cansado_ Eu só queria que você sentisse que pode confiar em nós… Eu sei que não é fácil. Para você nós ainda somos estranhos, mas somos sua família e te amamos tanto…

Ron desviou o olhar, porque teve medo de que aquilo fosse demais para ele.

_ Quando achávamos que você estava morto, Harry sofreu muito… E uma vez eu disse a ele que ele não precisava passar por aquilo sozinho, que poderíamos sofrer junto com ele… E agora eu te digo o mesmo, você não precisa passar por nada sozinho, filho. Estamos aqui, eu estou aqui_ Arthur finalizou dando um pequeno aperto no pé de Ron, sob a coberta.

Seu pai então suspirou, percebendo que não obteria resposta e lentamente caminhou para fora do quarto.

Ron se apressou e pegou a garrafa de vodca debaixo da cama e bebeu tudo o que pôde, antes que sua mãe voltasse com a poção. Ele então a escondeu novamente debaixo da cama, e ficou sentado olhando na direção do pôster do Chudley Cannons na parede de seu quarto. Um pôster que estava ali desde que ele era um garotinho. Ele encarou aquele pôster até que sua mãe voltasse e tentou se desligar do pesadelo que havia tido. Um tempo depois, ela finalmente apareceu com a poção e Ron tomou o líquido sem reclamar ou dizer qualquer coisa.

Quando ele se deitou na cama novamente, Ron imaginava que ela fosse sair, que fosse o deixar ali esperando a poção fazer efeito, mas em vez disso, Molly se sentou na beirada da cama e acariciou os cabelos dele.

Era um toque conhecido, algo que Ron sentiu falta todos esses anos sem saber. Ele olhou para a mãe, sentada ali, deslizando seus dedos enrugados pelos cabelos dele, e sentiu um amor tão súbito, que o sufocou. Então, a culpa novamente o invadiu por não dizer a verdade, por não dizer que havia recuperado a memória há semanas. E foi naquele momento que Ron sentiu que não seria o fim do mundo ser sincero. Ele ainda tinha medo das perguntas, sempre teria medo de respondê-las. Mas se tinha uma pessoa com quem ele podia contar nesse mundo, era sua mãe. Afinal, as mães sempre entendem.

_ Mãe_ ele chamou baixinho.

Molly, que tinha os olhos fixos nele e o olhava como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo, deu um pequeno sorriso.

_ Sim, querido.

Ron apertou os olhos, buscando dentro dele uma coragem que ele havia duvidado que tinha, mas surpreendentemente estava lá.

_ Eu lembro_ ele disse, com a voz meio trêmula_ Eu lembrei de tudo, recuperei a memória.

E contrariando tudo que Ron pensou que veria, sua mãe não arregalou os olhos, não começou a chorar, nem nada disso. Não havia nenhuma surpresa na expressão dela.

_ Eu sei_ Molly disse simplesmente.

E assim, foi Ron que ficou em choque. Ele se sentou na cama, o cobertor caindo de seus ombros, e a encarou com um olhar de total espanto.

_ O quê?

Molly sorriu e segurou uma das mãos dele.

_ Desde que você voltou, é inegável dizer o quanto está mudado_ ela deu um pequeno sorriso, mas parecia cansada_ Tudo o que eu sabia era que precisava me acostumar com o novo Ron, porque bom, você estava de volta e isso tinha que bastar… Mas aí, você mudou de novo. A maneira como você nos olhava mudou. Não era mais um olhar vazio, como se fôssemos intrusos na sua vida… E pela primeira vez desde que você voltou, eu te reconheci… Então, meu filho_ Molly cobriu a mão dele com a outra mão e apertou_ Eu soube que você estava realmente de volta… Não totalmente, é óbvio, mas ainda assim, estava de volta.

Ron esfregou a mão livre nos olhos, espantando as lágrimas que começavam a se formar.

_ Me desculpa não dizer nada, eu não sabia como… Eu estava… Estava com medo das perguntas.

Molly suspirou. É claro que ela tinha milhares de perguntas. O primeiro instinto dela ao perceber que Ron havia recobrado a memória, era o de abraçá-lo e perguntar tudo o que estava preso na garganta dela, desde que ele havia sido encontrado. O que aconteceu enquanto ele esteve preso na caverna? Como ele conseguiu fugir? Se ele a perdoava por não ter procurado o suficiente… Molly esperava que sim, embora ela mesma tivesse dificuldade de se perdoar, mesmo sabendo que fez o que pôde.

Todas essas questões estavam ali, rodopiando sem parar na mente dela. Mas ela entendeu uma coisa, quando percebeu que Ron não se abriria com eles: que ela não poderia forçá-lo. Era totalmente contra a natureza dela não tomar nenhuma ação, ficar quieta, enquanto um de seus filhos passava por algo tão difícil. Molly era mãe em todos os sentidos. Uma mãe escandalosa, se necessário. Brigona, se preciso. Mas principalmente, ela era uma mãe amorosa. Ela amava seus filos mais do que qualquer coisa no mundo. E foi enquanto pensava no quanto queria que Ron a procurasse, que confiasse nela, que ela se deu conta de que as perguntas que ela queria fazer, o afastariam mais do que o traiam para os braços dela novamente. Então, ela esperou.

_ Eu sei, filho. Por isso eu decidi que não faria pergunta alguma e que esperaria você dizer, o que quer que quisesse dizer_ ela deu uma pequena risada_ Você não imagina o quanto isso está me custando… A minha necessidade de me intrometer na vida de vocês é quase física.

Os dois riram, e Molly passou as mãos pelo próprio rosto, limpando as lágrimas que começaram a escorrer.

Enquanto a olhava limpar as próprias lágrimas, Ron se sentiu mal por ter achado que ela de todas as pessoas, mão entenderia. De achar que sua mãe saber que ele havia recuperado a memória, mais atrapalharia do que ajudaria. Ela era a pessoa que ele mais teve medo de se abrir, e no entanto ali estava ele, sendo sincero, e também sendo surpreendido pela serenidade dela. Algo tão atípico de Molly Weasley.

_ Eu… Por favor, não conte ainda pro papai ou pros meus irmãos_ Ron pediu, a urgência em sua voz, era evidente_ Eu vou contar, eu só preciso… Só preciso saber como. Mas eu prometo, eu vou contar.

_ Eu não escondo nada do seu pai, querido_ Molly suspirou_ Mas tenho mantido isso há semanas, acho que mais algum tempo, não vai fazer diferença.

_ Obrigado.

Molly sorriu, deu um beijo na testa dele, e gentilmente o empurrou de volta para a cama. Talvez ela tenha percebido que os olhos dele estavam começando a ficar pequenos e sonolentos, a poção finalmente fazendo efeito.

_ Agora descanse, querido_ ela pediu, subindo a coberta de modo que o cobrisse até os ombros_ Falaremos sobre isso depois se você quiser.

Ron apenas acenou lentamente, a cabeça já começando a ficar muito pesada sobre o travesseiro.

Mais nenhuma palavra foi dita até que ele dormisse. A única coisa que restava era a estranha e nova sensação de paz que Ron sentiu por ter sido capaz de conversar, pelo menos um pouquinho, com sua mãe. Fazia tempo que ele não se sentia protegido e ele sentiu aquilo naquele momento. Então, Ron fechou os olhos e tudo que sentiu, foi o suave e amoroso toque dela em seus cabelos. Carinho de mãe. Ron sempre soube que precisou daquilo, mesmo quando ele não tinha memória. E assim, ele teve a sensação de pegar no sono, com a certeza de que havia sentido falta daquele toque.

oooooooooooooo

_ Quando você me convidou para jantar, eu imaginei que você fosse cozinhar, Harry_ Hermione disse, enquanto ela e Harry caminhavam em direção ao restaurante japonês, que Harry costumava frequentar perto do Largo Grimmald.

Harry riu um pouco, apreciando o ar gelado que tocava as bochechas dele naquela noite de inverno.

_ Você realmente se arriscaria a comer alguma coisa feita por mim?

Hermione o olhou de rabo de olho, mas ele estava certo. A última vez que Harry havia cozinhado, ele quase botou fogo na cozinha de sua casa no Largo Grimmald, quando queimou as simples almôndegas que tentou fazer. Isso rendeu muitos resmungos de Monstro, o elfo doméstico de Harry, que não perdeu tempo em dizer o quanto Harry era ruim em tudo que fazia.

_ Pensando bem, eu tenho amor ao meu estômago_ Hermione concordou e os dois riram.

_ Acho que o Ron é o único que se arriscaria a comer alguma coisa que eu faço_ Harry observou, mas o sorriso dele vacilou. Ele não via, nem falava com Ron desde o dia que estiveram em Hogwarts. Isso já fazia algumas semanas.

Bom, não era como se Harry não tivesse tentado. Ele mandou corujas para o amigo perguntando se Ron não gostaria de fazer algo, como almoçar juntos ou jogar quadribol nos arredores d'A Toca ou visitá-lo no Largo Grimmald para que eles pudessem jogar conversa fora, mas Ron sempre respondia com "estou ocupado com algumas coisas", então Harry resolveu apenas não pressioná-lo. Ele sabia que o amigo ainda estava lidando com suas lembranças recém recuperadas, mas Harry estaria mentindo para si mesmo, se dissesse que não estava chateado por não estar ao lado de Ron nesse momento que provavelmente era muito difícil para o outro rapaz.

_ Falando nele_ Hermione começou, colocando as mãos dentro dos bolsos do longo sobretudo beje que usava_ Você tem falado com ele?

_ Não realmente_ Harry respondeu. Os dois haviam chegado ao restaurante e entraram juntos, caminhando até o balcão. Eles já haviam combinado que pediriam a comida para viajem e comeriam na casa dele_ Na verdade, eu o chamei para jantar com a gente hoje, mas ele nem respondeu… Acho que tudo que tem acontecido tem sobrecarregado ele… Sabe, as memórias, a viagem a Hogwarts…

_ O beijo_ Hermione o interrompeu. Ela evitou olhar para o amigo nesse momento e manteve os olhos fixos no cardápio sobre o balcão, mesmo sabendo que Harry a encarava agora.

_ Beijo?_ Harry franziu a testa.

Hermione finalmente olhou para ele. Se tinha uma coisa que ela sabia, era que Harry jamais a julgaria. Ela podia falar com ele sobre qualquer coisa, que ele entenderia. Quer dizer, quando ela lhe contou sobre seu noivado com Elliot, a reação de Harry não foi das melhores, mas ele foi amigo o suficiente para se desculpar e apoiá-la depois. Então, Hermione não acreditava que Harry a criticaria por beijar outro cara, mesmo estando noiva.

_ Harry, Ron e eu nos beijamos.

Harry arregalou os olhos.

_ O quê?_ Harry exclamou, um pouco alto demais. Algumas pessoas, inclusive o atendente que esperava o pedido deles, os olharam.

_ Fale baixo_ Hermione o instruiu.

_ Tanto faz, ninguém aqui conhece você_ então Harry, a puxou para fora do restaurante, murmurando um "já voltamos" para o atendente e logo os dois estavam fora, no frio de Londres mais uma vez_ Agora, pode repetir, por favor?

Hermione suspirou, se encolhendo contra o próprio sobretudo. Estava mais frio do que ela tinha percebido.

_ Em Hogwarts, na Sala Comunal_ ela então explicou tudo, enquanto Harry ia arregalando seus olhos verdes mais ainda.

_ Por isso vocês estavam estranhos quando eu voltei dos dormitórios… Eu achei que fosse por causa da nostalgia, mas era porque vocês estavam se agarrando na Sala Comunal_ Harry disse, quase rindo.

_ Não estávamos nos agarrando_ Hermione o corrigiu depressa_ Foi só um beijo… Ou dois, mas não importa.

_ Sei…_ Harry disse meio cético. Ele ainda tinha um sorriso no rosto.

_ Posso saber o porque dessa expressão?_ Hermione perguntou meio indignada. Por que Harry estava achando tão engraçado que ela fosse infiel?

Harry então a observou bem e fez o possível para ficar sério.

_ Você ainda o ama?

_ Harry, pelo amor de Deus_ Hermione disse meio exasperada.

_ Eu estou perguntando sério.

Hermione bufou, cruzando os braços na frente do corpo. Por que as pessoas insistiam em perguntar aquilo a ela? Tudo bem, tudo bem, não é como se ela não tivesse dado motivos. Mas não era exatamente uma resposta fácil de dar. Não porque ela não soubesse o que sentia. Ela sabia, ela tinha certeza agora. Mas sim, porque admitir aquilo tornava todos os medos e incertezas dela, muito reais.

Mas por outro lado ali, era Harry, seu melhor amigo. Aquele que esteve ao lado dela desde sempre. Se ela não pudesse se abrir com ele, com quem mais faria isso?

_ Sim_ ela respondeu juntando a pouca coragem que tinha.

_ Sim?

_ Sim, Harry, eu o amo.

Harry sorriu. Ele não estava surpreso. A maneira como Hermione parecia sempre desconcertada quando Ron estava por perto desde que ele havia voltado, mostrou a Harry que ainda existia algo ali. Na verdade, não era tão difícil de perceber assim. Repentinamente ele se lembrou de Elliot e sentiu pena dele.

_ E o Elliot?_ ele perguntou.

_ Eu contei a ele_ Hermione respondeu com sinceridade.

Ela havia contado a Elliot sobre o beijo no mesmo dia. É claro que não foi uma decisão fácil. Aquilo martelou a cabeça dela durante toda a volta para Londres no Expresso de Hogwarts. Ela ponderou se contaria a ele ou não, pensou em todos os prós e os contras. Os contras eram muitos, e Hermione sabia que para Elliot aquilo seria difícil de aceitar, especialmente faltando poucos meses para o casamento, mas no fim, sua consciência venceu, e ela optou por ser sincera.

Como ela previu a reação dele não foi boa. Elliot ficou verdadeiramente magoado e Hermione não podia culpá-lo. O que ela não imaginou era que Elliot iria juntar suas coisas no dia seguinte e ir para a casa do irmão dele, alegando que precisava pôr os pensamentos em ordem. Mas o que Hemione pensou que aconteceria? Elliot havia perguntado a ela, assim que Ron retornou, se isso mudava alguma coisa, e ela disse que não. Ele deu a ela a chance de escolher, e ela o escolheu. Mas não era o que seu coração queria de verdade. Hermione tinha certeza agora.

_ Isso é loucura_ Harry disse, balançando a cabeça, surpreso_ Como você conseguiu?

_ Eu não podia mentir para ele, Harry. Que tipo de pessoa eu seria se fizesse isso?

_ Bom, não seria mentir…_ Harry deu de ombros.

_ Mas seria enganar de qualquer forma.

_ É, presumo que sim_ Harry olhou para dentro do restaurante sem realmente prestar atenção no lugar, então voltou a olhar para Hermione_ Ele ficou muito bravo?

_ Bom, levando em consideração que ele foi embora do nosso apartamento, acho que sim.

Harry arregalou os olhos mais uma vez. Ele se sentiu culpado por não ter disfarçado sua felicidade ao saber que seus dois melhores amigos tinham se beijado agora que se deu conta das consequências disso para a vida de Hermione.

_ Oh, Hermione, eu sinto muito_ ele disse, a puxando para um abraço.

_ Obrigada, Harry_ Hermione disse, o abraçando de volta.

Eles se separaram e Harry a encarou, franzindo um pouco a testa. Ele esperava uma Hermione chorosa e triste, mas essa Hermione a sua frente, não parecia nada com uma mulher que talvez tivesse acabado um noivado.

_ Você parece bem…

_ Porque eu estou bem_ Hermione admitiu, e se sentiu um pouco envergonhada, culpada até.

Quando Elliot foi embora foi um choque para ela. Hermione passou a noite chorando e pensou em várias maneiras de tentar fazê-lo voltar. Mas depois que se acalmou, ela ponderou todas as coisas. Por que pedir a Elliot que voltasse, se ela sabia que não poderia se doar totalmente a ele? Não agora que seus sentimentos por Ron estavam tão claros. Uma vez que ela aceitou isso, a partida de Elliot não doía mais tanto, não fazia sentido insistir que ele ficasse.

_ Sinto falta dele, Harry, e me faz mal pensar que o magoei tanto, mas acho que foi melhor assim… Acho que nós precisamos pensar em como as coisas vão ser daqui pra frente_ ela ainda estava de braços cruzados, mas sua postura não era mais defensiva.

_ E o casamento?_ Harry perguntou.

_ Eu não sei, eu realmente não sei…_ Hermione suspirou. Ela nem sequer sabia se ainda estava noiva_ Por enquanto acho que as coisas estão canceladas, sei lá, eu não faço ideia…

_ Hermione, eu sinto tanto_ Harry repetiu. Ele colocou as mãos nos ombros dela, carinhosamente_ Por que você não me contou antes? Nós almoçamos juntos algumas vezes essa semana e você não disse nada… Eu poderia ter ido até a sua casa e você desabafaria comigo ou sei lá, eu poderia fazer uma lasanha pra você… Eu vi uma receita muito boa esses dias.

_ Você quer me ver triste e passando mal, é isso?_ ela zombou, mas estava rindo_ Você me odeia?

_ Bom, pelo menos te fiz rir_ eles sorriram um para o outro e Harry se sentiu à vontade para fazer a pergunta que o estava deixando curioso desde que soube do beijo_ Hum, mas então o Ron e você…

_ O Ron e eu nada_ Hermione suspirou. Sua expressão mudou para uma meio exasperada_ Não nos falamos depois do beijo. Ele não me procurou e eu também não o procurei.

_ Por que isso?

Hermione mudou então o peso de um pé para o outro e mordeu o lábio inferior.

_ Eu estou insegura_ ela disse_ Admito que pensei que talvez… Bom, pensei que talvez ele fosse me procurar e pudéssemos acertar as coisas_ Hermione disse isso sem olhar diretamente para Harry. Será que era horrível demais ela ter pensado em começar algo com Ron sem nem sequer definir sua situação com Elliot?_ Não sei o que esperar e não sei o que ele realmente quer. E bom, ele tem uma namorada.

_ Mas se ele quisesse… Digo, se ele decidisse que quer tentar com você, o que você faria?

O que Hermione faria? Aquela era uma boa pergunta. Ela só havia decidido contar a verdade a Elliot e aceitar as consequências. Um futuro com Ron, depois de toda a merda, toda a dor, parecia um sonho, algo irreal demais. Talvez fosse algo maravilhoso, mas talvez fosse um grande erro. Ela não sabia, só sabia que havia considerado a possibilidade. Na verdade, ainda considerava.

_ É tudo tão confuso_ Hermione suspirou_ Tanta coisa aconteceu.

_ É, eu sei_ Harry suspirou_ Mas seria incrível, não?

_ Sim, seria_ ela precisou concordar, mas não achava que poderia pôr sua cabeça muito fundo naquela ideia. Não enquanto ela e Ron não sentassem para conversar sobre o que aconteceu. Não sem também pôr um fim definitivo em seu relacionamento atual, se é que ele ainda existia. Era muita coisa para ela pensar agora, e naquele momento Hermione só queria poder jantar em paz e conversar banalidades com seu melhor amigo. Hermione então, voltou a olhar para dentro do restaurante_ Vamos pedir a nossa comida? O atendente está nos olhando feio desde que saímos.

Harry olhou para o atendente do outro lado do balcão, através da posta de vidro e tentou prender a risada. Ele então ofereceu um dos braços para Hermione e os dois voltaram para dentro.

Enquanto Harry pedia a comida deles para viagem, Hermione não conseguiu evitar que sua mente voltasse ao beijo que ela e Ron trocaram semanas atrás, provavelmente o melhor beijo que ela já havia dado. Momentaneamente, ela imaginou como seria uma vida com ele se os dois quisessem isso. Seria como um sonho para ela. E isso que era assustador, porque as pessoas tendem a acordar dos sonhos e a realidade é quase sempre menos promissora.

Ainda assim, ela não conseguia parar de imaginar. De sonhar um pouco. Se Ron ao menos a procurasse. Se eles pudessem novamente olhar nos olhos um do outro, Hermione sabia que não haveriam mais tantas dúvidas. Ela precisava ver Ron de novo. Precisava saber se ele sentia e queria o mesmo que ela. Precisava saber se valeria à pena.

oooooooooooooo

Para surpresa de Harry, Ron apareceu para jantar aquela noite. Ele e Hermione estavam colocando a mesa do jantar, quando Monstro apareceu resmungando, com Ron o seguindo de perto.

_ Harry Potter, seu amigo traidor do sangue está aqui_ Monstro disse, com desprezo_ Nunca vi uma pessoa voltar dos mortos, se minha Sra. Black estivesse aqui, já teria expulsado esses intrusos…_ ele continuou dizendo baixinho.

_ Monstro!_ Harry exclamou irritado_ O que eu já disse sobre xingar os meus amigos?

Monstro não disse nada, ele lançou a Harry um olhar de escárnio e saiu se arrastando para fora da sala de jantar.

_ O que acha que libertar esse merdinda se uma vez por todas?_ Ron perguntou de onde estava parado. Ele tinha uma garrafa de vinho nas mãos.

_ Eu já tentei. Já dei a ele meias, camisas, até um moletom. Ele se recusa a ir embora. Disse que não sai da casa da senhora dele_ Harry revirou os olhos, então olhou para Hermione e depois voltou a olhar para Ron_ O que está fazendo aqui?

_ Achei que tivesse me convidado para jantar_ Ron respondeu.

_ Sim, mas você não respondeu a coruja, achei que não viesse.

_ Bom, mas eu estou aqui_ Ron falou e então olhou para Hermione, que estava parada na ponta da mesa, com dois copos nas mãos_ Oi, Hermione.

_ Oi!

Os dois ficaram se olhando por um tempo, e Hermione percebeu o quanto Ron parecia cansado. Ele tinha algumas olheiras e seus cabelos estavam meio desgrenhados. Como se ele tivesse acabado de acordar e ido até lá, ou o contrário disso, como se ele realmente não dormisse há muito tempo.

_ Posso ficar?_ Ron perguntou, e até a voz dele soou cansada agora.

_ É claro que sim_ Harry confirmou, se aproximando de Ron e tirando a garrafa de vinho das mãos dele.

_ Tentei gelar ela_ Ron falou, apontando para a garrafa que Harry havia colocado sobre a mesa_ Usei um feitiço assim que cheguei, mas como não uso feitiço há anos, estou meio enferrujado.

_ Não tem problema. Íamos beber suco, mas já que você trouxe vinho… Bom, vou procurar onde ficam as taças_ Harry disse, e saiu da sala de jantar, mas antes de sumir pelo portal, ele lançou um olhar para Hermione.

_ Você está bem?_ Ron perguntou a Hermione, assim que estavam os dois sozinhos.

_ Sim. E você?_ ela perguntou, devolvendo os copos para dentro do armário e se virando para Ron. Hermione pensou em se aproximar, talvez sentar ao lado dele, mas achou mais seguro se encostar no armário e manter distância_ Você não parece bem.

Ron sorriu sem vontade.

_ Tenho dormido mal.

_ Pesadelos?

_ Sim, alguns_ ele respondeu.

_ Quer conversar sobre isso?

_ Na verdade, não_ Ron respondeu_ Já é difícil viver isso nos pesadelos e nas lembranças, não quero pensar quando tenho a oportunidade de não fazer isso.

_ Ok_ Hermione entendia. É claro que entendia. E ela jamais o pressionaria a falar sobre algo que não o fazia bem. Quando ele estivesse pronto, ela o ouviria_ Podemos falar sobre qualquer outra coisa.

Ron se perguntou se ela estava disposta a falar sobre o beijo. Ele estava, mas tinha medo de abrir alguma porta e deixar sair algo com o qual nem ele nem Hermione poderiam lidar. Ele não queria puxá-la para sua bagunça, mas ao mesmo tempo haviam algumas coisas que ele precisava saber. Então, seu lado egoísta falou mais alto.

_ Você tem pensado em mim?_ Ron perguntou do nada.

Hermione engoliu em seco. Ela não esperava por aquilo. De todos os assuntos que ela imaginou que Ron poderia começar, aquele não era um deles.

_ Ron…

_ Eu tenho pensado em você_ Ron disse muito direto. Ele se levantou e se aproximou dela, se encostando à mesa, enquanto ela continuava onde estava, com as costas contra o armário da cozinha_ Zoe e eu terminamos_ ele disse do nada.

Hermione tentou não parecer muito surpresa, mas imaginou que assim como ela não podia omitir o beijo de Elliot, Ron também não conseguiria fazer isso com Zoe.

_ Você contou a ela?

_ Sim… Ela descobriria que alguma coisa está diferente, de qualquer forma.

_ E o que está diferente?_ quando Hermione perguntou aquilo, ela tentou soar o mais casual possível, mas seu coração estava disparado.

_ Meus sentimentos mudaram. Ou talvez eles tenham voltado, não sei dizer.

_ Seus sentimentos em relação a ela?

_ Em relação a tudo_ Ron cruzou os braços na frente do corpo e a observou_ Algumas vezes, mesmo me sentindo confuso e perdido, Zoe era uma espécie de certeza pra mim, algo constante, sabe? Só que agora não é mais assim. Eu odeio ser a pessoa que destruiu as expectativas dela, odeio isso… Mas não posso fingir algo que eu não sinto.

_ Você não a ama?

_ Amo, mas não como ela merece.

_ Você me ama?_ foi a vez de Hermione ser direta. Ela estava assustada, mas ela precisava saber até onde ela e Ron poderiam ir juntos. E ele tinha terminado com Zoe, e estava ali na frente dela falando sobre isso. Tinha que significar alguma coisa para ele. E bom, isso meio que mudava algumas coisas, certo? E se o beijo não tivesse sido importante para ele, como foi para ela, os dois provavelmente não estariam tendo aquela conversa agora.

_ Sim.

A resposta saiu dos lábios de Ron, sem que ele se desse conta realmente, como se estivesse esperando para ser livre há muito tempo. E talvez estivesse, ele apenas não sabia disso antes. E todas as coisas que ele já havia ouvido falar sobre como ser sincero tirava um peso das costas, faziam sentido agora. Realmente, a verdade, era libertadora. Ron finalmente podia aceitar que amava Hermione. Mesmo que essa sua versão não fosse a ideal para ela.

Hermione soltou a respiração que ela nem sabia que estava prendendo. Ela não sabia que resposta esperar dele, mas a resposta que ele deu, era exatamente a que ela, intimamente, queria ouvir. Deus, Ron a amava. A amava. E ela… Bom, ela o amava também. O amava mesmo quando pensou que ele estava morto. Ela tentou negar, esconder aquela realidade de si mesma, mas sempre esteve ali, apenas esperando o momento certo para emergir. Então, ela fez o que qualquer pessoa em sua situação faria: levou as mãos até o rosto e começou a chorar.

_ Meu Deus, Hermione_ Ron disse se apressando em abraçá-la_ Me desculpe, eu não devia ter dito nada disso… Minha cabeça não anda muito boa, por favor, me desculpe.

Parecia mentira que há menos de uma hora, ela havia decidido que precisava se resolver com Ron, que precisava saber o que ele sentia, e agora ele estava ali, dizendo que a amava de volta. Chegava a ser engraçado que às vezes as pessoas desejam algo com tanta força, que acaba acontecendo. Como se o universo respondesse esse desejo. Era isso, o universo estava dando a resposta que ela queria.

_ Não, não_ Hermione o interrompeu entre lágrimas. Ela ergueu a cabeça e o olhou_ Eu só… Eu não sei, eu pensei sobre nós ainda hoje, há poucos instantes e agora você… _ ela disse sem fazer sentido.

Ron fez uma expressão confusa.

_ Você pensou sobre nós?

_ Sim. Desculpe, eu só não sabia que você viria e que tudo que eu estava pensando fosse acontecer assim_ ela continuou o olhando, ainda com os braços ao redor dele, as lágrimas escorrendo por suas bochechas_ Eu achei que só viria comer com o Harry, e que talvez resolveríamos isso depois…

_ Me desculpe, eu sei que não fui justo_ Ron se afastou um pouco, apenas para limpar as lágrimas dela_ Você está noiva…

_ Não estou mais_ ela disse rápido_ Quer dizer, eu não sei… Eu também contei ao Elliot sobre o beijo e ele foi embora.

Ron se sentiu mal ao ouvir aquilo. Não que fosse uma notícia inteiramente ruim, mas por outro lado, ele não conseguia não pensar que estava bagunçando a vida de Hermione. E isso era o que ele menos queria. Ele, na verdade, só queria passar pelo fim da sua amnésia sem mais danos colaterais. Infelizmente, ele não estava sendo bem sucedido nisso aparentemente.

_ Eu achei que nunca ouviria isso, que nunca teríamos essa oportunidade…_ Hermione disse com a voz trêmula_ Quando achávamos que você estava morto, eu achei que fosse morrer também…

_ Hermione, você não precisa falar sobre isso.

_ Eu preciso sim_ ela o cortou_ Porque foram muitos anos tentando enterrar algo que não tinha como ser enterrado, não de verdade. Eu achei que você estava morto, e tentei matar você dentro de mim também… Mas eu nunca pude, eu nunca pude…

Agora que ela sabia como Ron se sentia, e que também sabia como ela mesma se sentia, muitas perguntas nadaram pela mente de Hermione. "O que vai acontecer com a gente? O que nós somos? Nós somos alguma coisa?"

_ Por que está me dizendo essas coisas?_ Ron perguntou meio atordoado. Ele não tinha certeza se podia lidar com os sentimentos dela, ele mal podia lidar com os dele.

_ Porque eu ainda quero você. Eu também te amo, Ron, e agora não tem mais nada entre nós_ Hermione finalmente disse. Deixou sair aquelas palavras que tanto a assustavam.

Ela sabia que aquilo era uma loucura. Sabia que existia Elliot com quem ela não havia terminado formalmente, sabia que haviam expectativas sobre ela sempre ser perfeita, nunca cometer erros, sobre ela ser o cérebro daquele trio. Mas às vezes ela precisava seguir o seu coração, e aquele era um desses momentos. Se Ron quisesse, ela também queria.

Ron ficou paralisado, porque Hermione estava errada. Havia uma coisa muito importante entre os dois: ele mesmo. Ele, que não sabia para onde estava indo, nem se estava indo para algum lugar. Ele, que agora tinha pesadelos todas as noites, traumas que ele não sabia como superar, e que sim, tinha muitos problemas com álcool_ Malfoy estava certo, afinal. Se Ron realmente a amava, ele não podia dar a Hermione menos do que ela merecia, e ela não merecia aquilo.

_ Você não quer isso_ ele disse, se afastando.

_ Não quero o quê?_ Hermione perguntou, confusa.

_ Isso_ Ron apontou para si mesmo.

E Hermione odiou a maneira como ele se referiu a si mesmo, como se fosse algo que não valesse à pena. Doía, porque ela mais do que ninguém sabia que Ron sempre valeria à pena.

_ Eu quero você_ Hermione repetiu.

_ Eu tenho pesadelos todas as noites_ Ron falou, como se aquilo fosse o suficiente para que ela desistisse dele.

_ Eu não me importo_ ela disse com firmeza.

_ Eu acordo gritando e suado e assustado. E às vezes eu nem sequer reconheço onde eu estou.

_ Então, quando isso acontecer eu vou te abraçar até você se acalmar_ Hermione rebateu.

_ Draco Malfoy acha que u sou alcoólatra e ele provavelmente está certo_ Era isso. O golpe de misericórdia, ele sabia. Ninguém em sã consciência se envolveria com um alcoólatra. Hermione perceberia que ele não era bom para ela.

Ron viu o rosto de Hermione perder a cor por um instante, como se a informação fosse mais do que ela poderia aguentar, mas então a expressão firme dela voltou, e ela cobriu a distância que Ron havia colocado entre os dois.

_ Então, vamos passar por isso juntos_ os olhos dela brilhavam. Não de lágrimas, mas de determinação.

_ Hermione, eu não sou bom pra você. E eu não digo isso da boca pra fora… Se você tivesse ideia de tudo que passa pela minha cabeça, você nunca iria querer isso para a sua vida.

_ Então, me conta_ Hermione pediu_ Eu estou aqui e você pode se abrir comigo.

Como? Ron pensou. Como ele poderia pôr para fora tudo o que ele estava sentindo? Como ele explicaria o que foi tirado dele no tempo que passou naquela caverna?

_ Eu não sei como fazer isso_ Ron suspirou.

Hermione se aproximou mais ainda, e agora definitivamente, eles estavam muito perto um do outro. Ela então envolveu as mãos grandes dele com as suas, e o olhou nos olhos. Do jeito que ela imaginou que precisaria fazer. E quando olhou dentro dos olhos azuis dele, ela soube. Soube que Ron também queria aquilo. Aquela era a verdade. Os dois queriam. Ela não fingiria mais e não permitiria que ele fingisse.

Toda a verdade só valia realmente à pena, quando era dita olho no olho. Era nisso que Hermione acreditava. E ela precisava que Ron visse que cada pedacinho dela queria ser honesta com ele.

_ Ron, eu sei o que você está pensando_ Hermione começou_ Você está pensando que vai destruir a minha vida, que eu não vou aguentar estar ao seu lado por causa de tudo o que você viveu… Mas eu não sou tão frágil assim… Eu já enfrentei Comensais da Morte, e durante muitas vezes estive cara a cara com situações que pareciam ser o fim… Droga, você também tava lá, você sabe, você lembra. E em nenhum desses momentos eu desisti, porque eu estava lutando por algo muito maior. Eu estava lutando por paz, para que nós pudéssemos crescer e envelhecer num mundo melhor… E agora, Ron, eu estou disposta a lutar por algo maior de novo, porque eu sou muito mais do que você tá vendo. Eu sou forte e eu quero ser forte ao seu lado. Você é o meu algo maior dessa vez.

Ron teve vontade de chorar. Ele definitivamente sentiu aquele aperto no peito, que antecedia suas crises de choro. Hermione era inacreditável. Ela ainda batia o pé quando queria alguma coisa. Ela ainda lutava pelo que ela acreditava. E Hermione acreditava nele.

_ E o Elliot?_ Ron perguntou, porque não queria começar algo sem resolver o que estivesse pendente.

_ Vou conversar com ele e resolver as coisas…

_ E se você se arrepender?

_ Eu não vou_ Hermione respondeu ainda firme. Ela apertou as mãos dele, como se quisesse mostrar que não o soltaria mais.

_ E se você e eu juntos não formos o que você espera?_ Ron tentou mais uma vez. Ele precisava que Hermione soubesse no que ela estava se metendo.

_ Bom, só tem um jeito de saber.

O movimento seguinte dela, foi o de se jogar em cima dele, e colar seus lábios juntos. Foi um beijo parecido com o primeiro que eles deram, no meio da guerra, quando eles se beijaram com tanta força, que Ron a ergueu do chão. Dessa vez era igual. Eles também ainda estavam no meio de uma guerra, não como a que o Mundo Bruxo enfrentou anos atrás, mas sim a guerra que Ron travava contra ele mesmo.

Os braços dela estavam presos ao redor do pescoço dele, os dele estavam enroscados à cintura dela e ela estava na ponta dos pés. E os lábios de Hermione continuavam quentes e macios e ainda se encaixavam aos de Ron, como se fossem feitos para aquilo. Foi perfeito e assustador ao mesmo tempo.

E Ron estava apavorado com a possibilidade de estragar tudo. Então, antes que ele começasse a surtar, o som de alguém limpando a garganta, fez com que os dois encerrassem o beijo.

Os dois olharam na direção da entrada da sala de jantar, ainda abraçados, e Harry estava lá segurando duas taças em uma mão e uma terceira na outra mão. Ele estava vermelho e seus olhos estavam arregalados de surpresa.

_ Eu achei as taças_ ele disse desnecessariamente. Então coçou a nuca e saiu da sala de jantar sem dizer nada e levando as taças de volta com ele.

Hermione apenas sorriu para a situação, e então voltou a olhar para Ron. Sem dizer nada, ela apenas se afastou um pouco dele e entrelaçou seus dedos juntos.

_ Só tem um jeito de saber_ ela repetiu, esperançosa.

_ Estou com medo_ Ron admitiu. O lábio inferior dele tremia.

_ Eu também_ Hermione admitiu, mas ela sorria_ Mas o medo é bom, nos faz lutar com mais força.

_ Você tem certeza de que lutar por um cara bêbado e traumatizado é a coisa certa?

Hermione franziu a testa para a pergunta, e pela maneira como Ron se depreciava, mas ainda assim, ela estava firme em sua decisão.

_ Eu não tenho nada a perder, Ron. O pior que poderia acontecer comigo, já aconteceu.

Não foi preciso que Hermione verbalizasse que esse pior, era a morte de Ron. E então pela primeira vez desde que chegou ali, Ron sorriu com sinceridade.

Ele sabia que talvez estivesse sendo egoísta ao envolver Hermione na confusão que estava sua vida, mas mais do que isso, ele sabia que subestimá-la era o pior que poderia fazer. Porque Hermione não se quebraria se o visse tendo uma de suas crises enquanto dormia, ela também não correria quando o visse bêbado. Ela não viraria as costas para ele, por mais bandeiras vermelhas que Ron levantasse. Hermione era mais do que isso. Sempre fora, e sempre seria.

Não, Ron não esperava que ela o salvasse, e ele jamais colocaria essa responsabilidade sobre ela. Mas saber que ela ainda via nele, o Ron que existiu antes de toda a merda da guerra, dava a ele um pouco de esperança. Esperança de um dia ser bom o suficiente para ela. E principalmente, esperança de um dia ser capaz de se curar, de que um dia suas feridas se costurassem, não por Hermione, mas por ele mesmo.

Talvez fosse daquilo que Ron precisasse, alguém que confiasse nele. Que o mostrasse que por mais ferido que ele estivesse, ainda havia salvação.

Se Hermione estivesse disposta a lutar por ele, Ron também estaria.

oooooooooooooo

N/A: Olha eu aqui com a cara de pau de sempre. Mas eu sempre volto, né? Isso importa. :)

Ninebp: Sim, o Ron tem um carma, definitivamente. Pelo menos nas minhas Fanfics. Ah, vi você em outro lugar. Hahahaha! Muito obrigada por me acompanhar aqui e lá. Bjks!

Lid20: Você queria tanto que a Hermione pulasse de cabeça, então acho que esse capítulo vai te deixar feliz. :) Obrigada por comentar; Bjks!

Mickky: Digamos que sim, tudo isso que você falou vai acontecer. Mas coisas boas também. Obrigada por comentar. Bjks!

Areta: Olá, nova leitora. Fico feliz que goste da minha escrita e da minha Fic. Eu sou bem inconstante para atualizar, então espero que você não tenha desistido. Obrigada pelo comentário. Bjks!

N/A 2: É isso, gente. Não falta mais tanto para acabar, mais uns poucos capítulos e teremos a conclusão.

Então, até a próxima, bjks e se cuidem.