Notas da Autora: Oi! Primeiro agradeço os comentários, os favoritos, os pedidos de atualização e todo o carinho recebido no capítulo anterior. Muito obrigada. Aqui está o novo capítulo, espero que gostem. Bjs :D

S.L.

Capítulo 40

Conversa entre Mãe e Filho

Terminaram o almoço e Fleamont os convidou para a sala de estar, que era tão espaçosa como a de jantar. Tinha no teto um candeeiro de velas, que iluminava tudo em seu redor, produzindo sombras nas paredes. Havia também um sofá bege, circular, com almofadas de várias cores, onde podiam caber cerca de vinte pessoas, uma mesa circular, com um jarro de rosas de cristal.

Se levantaram, os elfos de imediato se afastando de seus postos – encostados à parede – para levantarem tudo o que estava na mesa.

– Hum, Fleamont… – Começou Eilleen, hesitante, vendo todos os olhares pousando nela – Eu precisava de conversar com meu filho, a sós. A gente precisa de se retirar por uns momentos, espero que não se importem.

– Com certeza, Eilleen. – Disse Fleamont, se sentando no sofá. Um elfo rapidamente se dirigiu para ele, na mão trazia uma bandeja com vários copos de cristal. Severus trocou um olhar confuso com seu namorado e amigos, antes de segui-la. Saíram da sala e subiram as escadas, o Slytherin sentindo o nervosismo de sua mãe, e não sabendo como quebrá-lo.

Eilleen respirava fundo várias vezes, tentando se acalmar. O que iria contra a seu filho, iria mudar sua vida, para sempre. Sua mão trêmula tocou no puxador da porta, entrando no quarto que tinha sido preparado especialmente para si. Severus mal teve tempo de observar as pinturas a óleo com telas douradas que decoravam as paredes. Seguiu sua mãe, reparando que o quarto era mais espaçoso do que a casa de Spinner´s End.

Uma cama queen size estava no meio do quarto, com belos lençóis de seda brancos e dois grandes e felpudos travesseiros. O chão estava forrado com um tapete negro e as paredes decoradas de tons pastel. Um enorme armário se encontrava junto à parede, mesmo ao lado dos criados mudo. Em um deles, percebeu, havia um romance bruxo e frascos de poções de sono sem sonhos e outras para a saúde – ainda – frágil de sua mãe.

Perto da janela havia um belo toucador do século XIX, de madeira escura, com um banco almofadado, de cor vermelha. O espelho era oval, com duas gavetas e prateleiras laterais trabalhadas, tal como as pernas de encaixe. O tampo, em mármore branco, estava repleto de perfumes e produtos de maquiagem tão diversos, que ele nem sabia para que serviam.

Em frente à lareira, onde o fogo crepitava, aquecendo o quarto, se encontravam dois pequenos sofás cinzas claros. Se sentaram, sentindo sua pele contra a maciez do tecido e o calor do fogo os aquecendo.

Severus se virou para sua mãe, vendo como ela retorcia nervosamente suas mãos no colo. Pegou nelas, sentindo como estavam macias e bem cuidadas, e as beijou vendo ela fechando momentaneamente os olhos, antes de voltar a abri-los.

– Meu amor. – Começou ela, com os olhos marejados de lágrimas – Porque você nunca me contou?

Severus engoliu em seco, ao ver a dor em seus olhos, tão semelhante aos seus.

– Eu não quis lhe preocupar. – Respondeu – E Tobias podia aparecer a qualquer momento e nos machucar caso nos ouvisse falando de magia.

– Eu nunca pensei… – Murmurou ela, as lágrimas escorrendo por seu rosto, retirando a camada de base. – Pensei que você estava seguro, feliz na escola. E os professores, não faziam nada para evitar?

– Muitos deles ignoravam o que estava acontecendo. – Admitiu o Slytherin, tentando esconder sua tristeza – James e seus amigos são bons alunos, populares achavam que era brincadeira de crianças. Que não estavam machucavam ninguém.

– Você sofreu bullying! – Exclamou Eilleen, um brilho furioso passando por seus olhos negros – E ninguém o ajudou, eu…

– Agora está tudo bem, mãe. – Disse ele, a interrompendo. – James me pediu perdão por tudo, pode não apagar toda a dor que senti mas, pelo menos, sei que não irá mais acontecer. E isso é o que importa.

Abraçou sua mãe, sentindo como os soluços faziam tremer seu frágil corpo. Chorou toda sua dor, sabendo que tinha sido uma mãe negligente. Tentara de tudo para protegê-lo em casa, que não se importara se seu filho estaria seguro em Hogwarts. Severus, ignorando o rumo dos pensamentos de sua mãe, deixou que ela chorasse, sentindo seu ombro ficando molhado pelas lágrimas, mas não se importou. Era bom sentir os braços em seu redor, o acarinhando.

Demorou um pouco para que ela se acalmasse mas, por fim, se afastou dele com o rosto molhado e vermelho. Tirou a varinha de dentro do bolso, convocando um lenço. Snape observou, espantado, nunca a tinha visto fazer magia em casa. Limpou as lágrimas e se assoou.

– Você é feliz com James? – Escutou a pergunta hesitante de sua mãe.

– Muito. - Respondeu. – Ele faz o possível para que eu seja feliz. Sinceramente, nunca pensei ser tão amado como sou nesse momento.

– Oh, meu amor. – Tocou com a mão trêmula no rosto pálido de seu filho, vendo como ele se aconchegava contra ela – Você merece toda a felicidade do mundo.

Severus sentiu seus olhos marejados de lágrimas e piscou para afastá-las, enquanto dizia:

– Obrigado, mamãe. – Eilleen sorriu e pediu para que ele pousasse a cabeça em suas coxas. Ele assim o fez, e sentiu os finos dedos lhe fazendo um cafuné, tal como quando era criança, e Tobias não estava em casa. Sorriram um para o outro, Eilleen beijando sua testa e aproveitando um pouco daquela tarde, só os dois.

OoOoO

– Eu preciso lhe contar uma coisa, querido. – A voz suave de sua mãe o despertou de seus pensamentos. Não sabia há quanto tempo ali estavam, em silêncio, aproveitando a presença um do outro, sem medo de represálias. A lareira continuava lhes fornecendo calor, os deixando confortáveis. Pensava como sua vida tinha mudado em tão pouco tempo, que tudo o que estava vivendo era um sonho.

Se ergueu da confortável posição e a olhou nos olhos, vendo o mesmo receio de quando Tobias estava no mesmo espaço que eles. Preocupado, perguntou:

– Que aconteceu, mamãe? – Eilleen respirou fundo, o medo a consumindo. Não queria contar, mas precisava. Seu filho tinha o direito de saber quem realmente era. Precisava mesmo de saber, antes que fosse tarde demais e descobrisse por si mesmo. Ai, o choque seria muito pior. E ele nunca mais a perdoaria. Mas ela o tinha feito por amor, não podia permitir que seu bebê, quem mais amava na vida, fosse mais machucado do que tinha sido. Se Tobias tivesse descoberto a verdade sobre Severus, nem queria pensar no que ele lhe faria.

– Existe um segredo de família, – Começou ela, trêmula – Minha mãe tinha tanto receio de que meu pai descobrisse, que só me contou por carta, antes de falecer. É um segredo que percorreu toda a linhagem masculina. Nossos antepassados, os Tugwood, conseguiram esconder de todo o mundo quem realmente eram, com sucesso, graças a poções, encantamentos de ocultação e, muitas vezes, glamour. Durante muito tempo não sabiam como poderiam ser chamados, sabiam que eram diferentes das outras pessoas.

Severus não compreendia o que sua mãe lhe queria dizer. Mas percebia que era grave por sua postura tensa e suas mãos retorcidas no colo.

– Mas, que segredo é esse? – Perguntou, preocupado – Porque eles eram diferentes dos outros?

Eilleen queria gritar, mas se controlou.

– No meu tempo eram chamados de hermafroditas. – Severus empalideceu, reconhecendo o termo lido em um livro antigo, há muito tempo atrás. Hermafroditas, também conhecidos por intersexuais, eram indivíduos que possuíam os dois órgãos sexuais, do que já tinha lido, intersexuais muggles não podiam engravidar, mas os bruxos sim.

– Porque você está me contando tudo isso? – Perguntou, sentindo seu coração batendo descompassadamente contra seu peito. A palavra "aberração", tão gritada por seu pai, surgiu em sua mente. – Porque eu preciso de saber sobre intersexuais?

Vendo que ela não respondia, se levantou de um salto, se afastando de sua mãe de rosto branco como papel. Eilleen se ergueu, vendo os olhos marejados de seu filho, sabendo que ele já tinha compreendido o que queria lhe dizer:

– Porque você é um. – Viu o choque atravessando seu rosto, juntamente com as lágrimas que não tinha conseguido conter. Severus caiu no chão, sem forças, puxando o ar para seus pulmões e sussurrando para si mesmo a mesma palavras: "aberração".

Eilleen, desesperada com sua reação, correu até ele e se ajoelhou a seu lado, vendo como ele tapava os ouvidos e se balançava para a frente e para trás. Tentou tocá-lo, mas não teve coragem, temia que sua magia se descontrolasse e os machucasse aos dois.

– Meu amor, por favor. – Implorou – Se acalme!

– Como! – O grito rouco ecoou pelo quarto insonorizado e Eilleen pensou no bem que tinha feito em lançar feitiços silenciadores no quarto antes de ir almoçar. Nem queria pensar nos convidados ouvindo o grito de seu filho e querendo saber o que estava acontecendo. Viu mágoa nos olhos negros, como se ela o tivesse traído com o pior dos pecados – Como você quer que eu me acalme!? Tobias tinha razão! Eu sou uma maldita aberração, eu…

– Você não nada do que está falando, Severus Prince Snape! – Exclamou ela, agoniada – Você não é uma aberração! Seu pai nunca soube ver suas melhores qualidades, ele sim era uma aberração! Você não é o único intersexual do mundo! Quatro a cinco porcento da população também o é! – Tentou pensar com coerência, e perguntou – É tão comum como pessoas ruivas, meu amor. Sua amiga Lily é ruiva e ela não é uma aberração, ou é?

– N-não. – Murmurou ele – Ela não é.

– Então você também não é. – Tocou em seu ombro, vendo ele se acalmando aos poucos – Você não é uma aberração, você é diferente dos outros. Tal como eu, seu namorado, seus amigos, ninguém é igual a ninguém. Mesmo os gêmeos têm características diferentes. E é bom sermos diferentes. Que graça teria o mundo se fossemos todos loiros de olhos azuis, altos e bonitos? A diversidade é o que nos atrai.

Severus ficou em silêncio, escutando as palavras de sua mãe.

– Porquê? – Perguntou, pouco depois – Porque você escondeu a verdade de mim?

– Porque eu tive medo. – Eilleen suspirou – Medo que seu pai o matasse, o vendesse para uma rede de tráfico humano ou, até, o estuprasse. Eu não aguentaria ver seu sofrimento, nenhuma mãe que ama seu filho ou filha aguentaria ver a dor de seu filho. Eu tentei protegê-lo da melhor forma que consegui. Lhe dava todos os anos uma poção que escondia sua verdadeira aparência, não queria que você tocasse em nada que fosse feminino, não queria que ninguém desconfiasse.

Lentamente, se aproximou de seu filho, que tentou se afastar de seu toque, mas ela o puxou para si, permitindo que ele chorasse em seu ombro.

– Shhhh… – Consolou, acariciando seus cabelos, enquanto tentava não chorar – Me perdoe por tudo, meu amor. Eu fiz o que achava melhor para você. Eu nunca quis que sofresse, me perdoe.

Severus se deixou chorar, sua mente ainda processando a notícia. Pensou em James, no que seu namorado iria dizer. Se ele o aceitaria, ou o abandonaria. Sua cabeça doía e sua mente estava confusa.

– Mãe, e se James me deixa pelo que sou? – Perguntou, olhando para sua mãe, não tendo coragem de se desfazer do abraço.

– Tenho certeza de que James irá amá-lo do jeito que você é. - Eilleen olhou nos olhos de seu filho. Hesitou por uns momentos, mas continuou – Mas, se ele não te aceitar, é porque não te merecia. – Inspirou fundo, antes de continuar – Não pense mais nisso, meu bem. Você é uma pessoa maravilhosa, não importa como nasceu. Você é meu bebê. – Deixou escapar um sorriso – Ainda me recordo do dia que você nasceu. Quando puseram você em meus braços, tão pequenino e enrugadinho, chorando em plenos pulmões, toda a dor e cansaço que tinha sentido durante o parto desapareceram como por magia. Foi o dia mais feliz de minha vida.

– Foi? – A insegurança era palpável em sua voz.

– Claro que sim. – Ela o apertou contra si – Nunca duvide disso.

Se deixaram ficar abraçados, se consolando, Eilleen aliviada por ter revelado, finalmente, a verdade e Severus temeroso. Que James iria pensar dele quando lhe contasse? Iria ficar com ele, tal como prometera, ou abandoná-lo-ia?

Continua…

Nota da Autora: Oi! Espero que tenham gostado do capítulo. Lamento muito ter demorado, mas não consegui – mesmo – atualizar a fanfic.

Intersexualidade é um tema muito complexo e que quase não é abordado em fanfics, pelo menos, não encontro tantas. Estive fazendo várias pesquisas, e espero não cometer nenhum erro durante o desenrolar da história.

Gostaria mesmo de saber o que vocês acharam do capítulo. Se quiserem dar ideias, estou disposta a lê-las.

Me digam nos comentários, por favor. Bjs :D