Nota da Autora: Oi! Primeiro agradeço os comentários, os favoritos, os pedidos de atualização e todo o carinho recebido no capítulo anterior. Muito obrigada. Aqui está o novo capítulo, espero que gostem. Bjs :D

S.L.

Capítulo 44

A Transformação

Severus subia as escadas, trêmulo. Tinha muito medo da reação de seu namorado quando lhe contasse a verdade. James tinha mostrado muita maturidade desde o início do sétimo ano, nunca mais provocando seus colegas nem os humilhando, entre muitas mais atitudes.

Sempre tinha sido visto com garotas e garotos, se agarrando nos corredores do castelo, embora se recordasse da ultima vez que o tinha flagrado com outra pessoa: tinha sido no final do quinto ano, depois do incidente no Lago Negro. Era de noite, quase na hora de recolher, e ele estava descendo as escadas em direção ao Salão Comunal, depois de ter passado uma boa parte de seu tempo na biblioteca, estudando. Mesmo as aulas estando terminando, não queria deixar de rever a matéria, pois sabia que seria muito mais difícil para fazer seus deveres e estudar em Spinner´s End. Virou a esquina e estacou, surpreso. Potter, com a camisa atirada de qualquer jeito no chão, prensava contra a parede um Hufflepuff mais velho, que não reconhecia. Se beijavam com vigor, o garoto mais velho acariciando o traseiro do Maroto, gemidos abafados escapando de seus lábios. Desviara de imediato o olhar, tentando eliminar de sua mente a imagem dos músculos bem delineados, e voltara atrás, se decidindo por um caminho mais longo.

Durante suas férias, sonhara com o Maroto, como seria bom estar em seus braços, e se odiava por isso. Só quando regressara a Hogwarts é que voltara a odiá-lo novamente. Enquanto estivera sozinho no compartimento, durante a viagem, os Marotos tinham aberto a porta e lançado uma bomba de bosta, o deixando momentaneamente sem ar com um odor fedido. Mas, não tinha sido o único. Todas as carruagens tinham recebido o mesmo tratamento. Só se recordava das expressões enojadas dos professores e Mc Gonagall retirando cinquenta pontos aos quatro deixando a Casa de Gryffindor com pontuação negativa. Os Marotos nem se tinham importado, sabendo que rapidamente recuperariam esses pontos nas aulas.

Não gostava de se recordar desse ano. Sem Lily, sua vida tinha ficado mais vazia. Fizera seus deveres sozinho, trabalhara sozinho, não conversara com ninguém, à excepção de Regulus, mas ele também tinha seus amigos e, por isso, não ficava, juntos durante muito tempo. Seus pensamentos foram interrompidos por James, que murmurava:

– … Torre de Astronomia?

– Quê? – Perguntou, se virando para ele. Seu namorado repetiu:

– Penso que devemos ir para uma sala que não seja utilizada para ficarmos sozinhos. Ou para a Torre de Astronomia.

– Preferia ir para o banheiro do Monitores. – Falou, pensando nas palavras de sua mãe, não reparando na expressão de estranheza de seu namorado. Que iria sentir muita dor durante a transformação. Pensou em uma banheira grande com água morna e uma cama fora para se deitar. Tinha tomado a decisão de tomar a poção. Não queria ficar o resto de sua vida se arrependendo de não tê-lo feito. Só tinha receio de que James não o quisesse mais.

Um estalido ecoou no corredor e os garotos saltaram, assustados. Olharam para a parede ao lado deles, vendo uma porta de mogno castanho.

– Mas que droga…? – Murmurou o Maroto, intrigado. Severus hesitou, mas avançou até à porta, sua mão virando cautelosamente a maçaneta e empurrando, ficando sem reação.

Parecia um quarto, de paredes brancas e lisas. Uma enorme banheira – tal como tinha imaginado – de mármore branco se encontrava no meio do lugar, cheia de água e espuma. Um pouco mais afastado, havia uma cama king size, com dois grandes travesseiros e lençóis negros tapados por um grosso edredom branco. Havia uma grande janela, que mostrava os flocos de neve caindo suavemente para os terrenos da escola.

– Uau! – Escutou seu namorado exclamar, atrás de si. Severus se afastou para deixá-lo entrar, observando aquele lugar e se perguntando o que era. Nunca tinha ouvido falar de uma sala assim. Talvez fosse mais um dos segredos de Hogwarts. Sentiu seu namorado rodeando os braços em seu corpo e se afastou, como se tivesse levado um choque. James o observou, não sabendo porque ele estava reagindo daquele jeito. Sabia que não tinha feito nada de errado, mas não estava entendendo porque estava sendo repudiado.

– Sev, o que aconteceu? – Viu como ele tremia, não conseguindo lhe responder. – Porque você não quer que te toque? O que fiz de errado?

– Na-nada. – Respondeu, hesitante – Você não fez nada, James.

– Então, porque você não me olha. – Insistiu, preocupado. Seu namorado era um Slytherin, mas não costumava se esquivar tanto tempo de uma conversa – Sev?

– Porque tenho medo. – A revelação foi feita com voz sufocada, vulnerável.

– Medo de quê?

– Medo de que você me abandone. – Severus caminhou pela sala, tentando se livrar de algum de seu nervosismo, mas sem sucesso. James deixou se ficar no mesmo lugar, não querendo pressioná-lo. Não entendia o que estava acontecendo, porque seu namorado estava reagindo tão estranhamente.

– Minha mãe me contou um segredo, – Começou ele – que escondeu de mim desde que nasci.

– Um segredo? – Perguntou James, intrigado – Que segredo é esse que está te deixando tão nervoso?

– É…tão difícil de contar. – Respondeu o Slytherin, o sofrimento sendo notado em sua voz. O coração batia contra seu peito, sem saber como continuar, e tremendo de medo. Respirou fundo, se preparando para revelar o segredo que tinha alterado, para sempre, sua vida. Murmurou:

Eu sou intersexual. – Fechou os olhos, temendo sua reação. James franziu o rosto e falou, se aproximando dele, dizendo:

– Não entendi. – O Slytherin tentou falar novamente, mas as palavras não saiam. Abriu os olhos, se virando e olhando para os de seu namorado, que possuíam uma bela cor avelã.

– Não tenha medo. – Incentivou seu namorado – Eu estou aqui, para você.

Trêmulo, Severus retirou do bolso a poção que sua mãe lhe tinha dado, lhe mostrando e James a observou, não sabendo para que servia.

– Minha mãe me deu uma poção, que não é essa. – Explicou, baixando o olhar – Esse é o antídoto. Me dava todos os anos em meu aniversário. Nunca tinha percebido o porquê. Mesmo quando entrei em Hogwarts não deixei de tomá-la. Estava sempre em meu malão, pronto para bebê-la. Como a bebia desde pequeno, nunca me perguntei para que servia. Pensei que fosse uma poção nutricional, ou algo do gênero.

– Mas, porquê? – Perguntou James, não entendendo – Porque você tomava essa poção?

– Para criar uma ilusão em meu corpo. – Escutou sua voz trêmula, não entendendo o motivo de implementar uma ilusão no corpo de uma pessoa. O que poderia ser tão grave para ser escondido?

– Minha mãe me disse que, – Continuou, abanando o frasquinho com tristeza – se desejar ser como dantes, só preciso de bebê-la.

– E quem você era dantes? – Severus ergueu a cabeça, o olhando nos olhos e respondeu:

– Um intersexual. – Viu como seu namorado arregalava os olhos, chocado, e abria a boca. Ficou silencioso, tentando perceber repulsa ou nojo em seu olhar ou gestos, mas nada viu. Se afastou dele, tentando normalizar o tom de sua voz:

– Entendo se você não quiser mais nada comigo. – Seu olhar vagueava pelo local improvisado – Afinal, porque iria querer um relacionamento com alguém como eu? Todo o mundo tinha razão. Sou um anormal, uma aberração da natureza…

Aquele silêncio o estava incomodando tanto, que só desejava que James saísse dali e o deixasse chorando. Sentiu braços fortes a calorosos o abraçando por trás. Seu namorado se tinha aproximado dele sem que se apercebesse.

– Você não é uma aberração, nunca mais se chame assim. Intersexuais são tão comuns como veelas e não são repudiadas, pelo contrário, são muito bem aceites.

– Mas, Veelas são criaturas mágicas. – Respondeu o Slytherin – Intersexuais, não.

– Veelas tem um dom, são especiais, tal como você. – Começou ele, os lábios encostados em seu ouvido – Eu nunca te abandonaria por ser intersexual. Meu amor por você é tão grande que mal cabe em meu peito. Nem tenho palavras para descrever o que sinto por você.

Sentindo Severus tremendo em seus braços, o virou para si. Se olhando nos olhos, continuou, angustiado pela dor que via – Nunca deixaria você passar por um momento tão difícil como esse, sozinho. Não merece, principalmente depois de tudo o que passou com seu pai. Mas, a decisão é sua. Sinta-se livre para escolher o que realmente quer para si. O mais importante para mim é sua felicidade e bem estar. Eu te amo.

Olhando em seus olhos avelã, Severus viu todo seu amor. Todo o receio que sentia pelo possível nojo, receio, desapareceu depois dessas palavras. Seu coração – que batia rapidamente pela adrenalina – sem que se tivesse apercebido, regressou, aos poucos, ao normal. Com os olhos marejados de lágrimas, respondeu, com voz embargada:

– Eu também te amo, James. – Vendo o Gryffindor estreitando seu abraço, deitou a cabeça no peito, não conseguindo esconder o sorriso de alívio que se formou em seus lábios, ao se sentir tão protegido. Sabia que, se alguém descobrisse sua condição, seria desprezado por todos, afastado da sociedade. Naquele momento, percebeu que bruxos e não mágicos eram mais parecidos do que pensara. Tinha consciência de que seria tudo diferente dali para a frente. Em pleno século XX, o tema intersexualidade era tão tabu como o do sexo, e muitos mais. Muitas famílias não conversavam com seus filhos sobre relacionamento sexual, o que poderia acontecer entre duas pessoas entre quatro paredes. Com a intersexualidade era o mesmo, só que ainda havia a questão da discriminação, do medo da diferença.

Ele só tinha ouvido falar desses temas através de livros de Hogwarts, que se encontravam em uma pequena estante no fundo da biblioteca. Como passara a maior parte do tempo ali, conhecia quase todos os livros. E todos os temas abordados eram educativos, mas muito vagos.

Talvez, com o livro que sua mãe lhe tinha oferecido, aprendesse um pouco mais sobre sua situação.

Olhou para James, tendo a certeza de que iria fazê-lo. Suas palavras tinham sido fundamentais para afastar grande parte de seu receio, embora não todo.

– Eu quero fazê-lo. – Revelou, um pensamento lhe surgindo de repente, ficando assustado – Mas tenho medo. Minha mãe me falou que seria muito doloroso e… se não conseguir aguentar?

– Você vai conseguir. – Disse James, com firmeza, não querendo sequer pensar nessa possibilidade – Você é forte, e eu vou te ajudar com o que precisar. Posso não ser medibruxo, mas sei alguns feitiços de cura. Não vou deixar que nada de ruim lhe aconteça, tá bom? Vamos fazê-lo juntos.

– Tá bom. – Concordou o Slytherin, confiando – mais uma vez – em seu namorado. Se despiram, James retirando de cada vez uma peça de roupa de Severus, sendo imitado por ele. Tentava demonstrar o amor e carinho em cada gesto, para que ele percebesse que não estava sozinho. As roupas caíam, amontoadas, no tapete fofo que se encontrava a seus pés, naquele momento descalços. Despidos, o colar dos Prince balouçando em seu pescoço, se dirigiram para a banheira de água morna, a mão onde trazia o frasco tremendo ligeiramente. O Gryffindor foi o primeiro a entrar na água, se encostando no mármore e soltando um gemido de satisfação. Seu namorado entrou a seguir, se sentando à sua frente e se encostou a ele, de pernas abertas.

– Pronto? – Perguntou, beijando seus cabelos.

– Sim. – Respondeu o Slytherin, abrindo a tampa. Deixou escapar um suspiro e, encostando o frasco nos lábios, bebeu toda a poção. Sentiu um sabor adocicado descendo por sua garganta e fechou o frasco, o pousando no chão, enquanto esperava pelos sintomas.

– Como você está se sentindo? – Escutou o tom ansioso de seu namorado.

– Bem. – Respondeu, se sentindo normal, os braços do Maroto o segurando com carinho – Pensei que…

Parou de falar, sentindo uma pontada aguda em seu baixo ventre e soltou um gemido de dor.

– Sev? – Perguntou James, preocupado – Que foi?

Tentou responder, mas sentiu novamente dor, mas mais intensa. Viram, espantados, sangue saindo do meio de suas coxas. O Slytherin se encolheu em seus braços e fechou as pernas o mais forte que conseguiu, sua respiração ficando cada vez mais acelerada pelas dores cada vez mais frequentes e intensas. Apertou com força o lábio inferior para não gritar, ignorando o sangue que sentia na boca. Lágrimas escapavam de seus olhos, se misturando ao suor que se formava em sua pele.

Não sabendo o que fazer, o Maroto sussurrava palavras tranquilizadoras em seu ouvido, enquanto o prendia contra si para que não se afogasse, mas ele não as escutava. Todo seu corpo parecia estar em chamas. Um grito de choque escapou de seus lábios ao ver a água ficando totalmente vermelha. Estava perdendo muito sangue. Tentou gritar por ajuda, para que James tentasse, pelo menos, estancar o sangue ou chamar Madame Pomfrey. Sua mãe lhe tinha falado das dores excruciantes, mas de nada mais.

Antes que pudesse, sequer, raciocinar coerentemente, todo seu corpo explodiu em tanta dor, que perdeu a consciência.

Continua…

Nota da Autora: Oi! Espero que tenham gostado do capítulo.Escrever sobre um tema como a intersexualidade é muito delicado e tenho receio de ferir a susceptibilidade de alguém. Espero que, se tal acontecer, que me perdoem. Não vou fazê-lo por mal.

Mas, o que acharam do capitulo? Gostaram, ou não? Espero receber muitos comentários vossos. Prometo postar o próximo capítulo antes do final do ano, se não tiver nenhum imprevisto. Eu revi o capítulo e emendei os erros mas, se vocês encontrarem algum, me digam, por favor, ok? Bjs :D