Hibari disse que seguiria o ditado de seu pai e optaria por esperar.

Mas ele não é seu pai.

Então resolveu apressar alguns de seus próprios planos que tinha planejado para o futuro, como também dá um empurrãozinho na situação da carnívora que finge ser herbívora.

E quem diria que os resultados seriam tão satisfatórios. Deixar aqueles herbívoros forasteiros entrarem em seu território para se juntar ao mutirão patético, como fazer Kusakabe manipular esses fracos a se juntarem para se vingar da garota carnívora foi uma ideia bastante lucrativa.

Mas o que realmente deu o toque final, foi o líder do rebanho de herbívoros machucar um membro da família da carnívora. Se Hibari soubesse que só precisaria fazer isso para ela mostrar suas presas, ele teria feito a alguns meses.

Embora, ver toda essa violência e brutalidade fez seu sangue esquentar de ansiedade para se lutar com alguém digno de verdade.

-x-

Sakura pode sentir a sede de sangue que vinha do garoto à sua frente, que ela tem certeza que tem dedo metido nessa situação.

Se fosse a alguns meses atrás, ela apenas desviaria a atenção dele e sairia. Contudo, uma pequena parte escura dela, a qual ela enterrou profundamente, voltou a surgir clamando por violência e sangue.

Esse clamor não seria ignorado, muito menos quando a oferenda é entregue em uma bela bandeja de prata.

- Como presidente do comitê disciplinar… vou mordê-la até a morte por perturbar a paz.

Hibari se aproximou lentamente, ninguém podia o deter por estar fazendo seu trabalho. Afinal, foi com esse propósito que o DC foi criado.

Ele iria implementá-lo primeiro apenas quando fosse para Namimori Middle School, mas a garota carnívora o fez antecipar seus planos.

- Então… é bom lutar melhor do que eles.

Sakura disse com um sorriso malicioso no rosto e olhos brilhando em desafio.

Hibari sorriu com mais sede de sangue que antes e aceitando o desafio imposto tão abertamente.

-x-

O céu já tinha escurecido quando Sakura entrou pela janela do seu quarto.

Mesmo com alguns machucados e uns dois ossos fraturados, não se sentia tão viva a muito tempo. Embora não tenha deixado barato para o garoto, que no final da luta disse que se chamava Hibari Kyoya.

Pelo olhar em seus olhos, não seria a última vez que lutariam. Isso iria aliviar seu tédio e sua sede de sangue e violência. Nada melhor do que uma boa adrenalina para dar cor a sua vida pacata.

Afinal, não é porque tem uma nova vida, um novo corpo e vive em outro mundo que é bem diferente do seu original, que sua alma deixará de ser o que era antes e o que é de verdade… uma shinobi.

E shinobis nunca vivem por muito tempo na monotonia.

Para viver essa vida, Sakura concordou em seguir as regras desse mundo. O que significa… nada de chakra por um bom tempo.

No início, pensou que esse mundo não possui nada semelhante ao chakra, mas provou estar errada.

Lentamente, levantou sua mão direita em frente ao seu rosto, a qual estava com o pulso fraturado.

Uma chama bruxuleante de cor amarela apareceu.

Sakura não cansa de brincar e olhar para algo tão belo, como essa chama.

No quarto escuro e silencioso. O brilho da chama era a única fonte de luz.

-x-

O pirulito que a enfermeira da escola deu tinha um sabor fantástico.

A moça a deu dizendo que merecia, porque foi uma garotinha muito corajosa. Ela tinha completa razão, Kyoko não derramou uma só lágrima enquanto a enfermeira bonita cuidava do seu arranhão no joelho.

Se soubesse que se machucar ganharia doces, teria feito isso antes !

A porta do quarto da sua irmã apareceu em sua frente.

Kyoko estava com pressa para jantar e queria terminar logo o que sua mãe mandou fazer, então entrou no quarto da sua irmã sem bater na porta ou se anunciar.

- SAKURA-NEE !

Sua irmã estava no meio do quarto de costas para ela.

O quarto estava escuro, então Kyoko acendeu a luz, embora ela tenha certeza que viu um brilho amarelo quando entrou, mas não tem nenhum agora.

- Você deveria bater na porta Kyoko-chan.

Sua irmã comentou enquanto se virava para olhar em sua direção, tinha um sorriso brincalhão no rosto e seus olhos verdes brilhavam com carinho. Então Kyoko sabia que não falava seriamente ou irritada por sua intromissão.

- Hun.. pensei ter visto uma luz amarela quando entrei.

- Deve ter sido sua imaginação confundindo com a luz da lua que vem da janela.

-Você deve ter razão !

Agora que a habitação estava mais iluminada, Kyoko deu uma verificada em sua irmã.

As roupas escuras que ela sempre usa estão um pouco amassadas, não tinha nada fora do comum e…

- Sakura-nee… por que tem algumas manchas vermelhas nas suas roupas ?

Um silêncio percorreu a sala.

Verdes indecifráveis e dourados curiosos se encaravam.

Como dois leopardos analisando o outro, esperando alguma brecha ser mostrada.

Ambas com sorrisos afiados estampados no rosto. Toda a tensão imposta na sala não durou mais do que cinco segundos.

Acabou com a mesma rapidez com a qual iniciou.

- É tinta vermelha da aula de arte na escola, eu fiz a bandeira do nosso país !

Sua voz era macia e casual, assim como sua postura.

- Tenho certeza que ficou muito bonita, nee-chan !

Kyoko disse radiante, mas sabe que com a sua irmã as coisas estão longe de ser tão simples assim.

- Mãe me pediu pra chamar para o jantar.

- Ok, vou com você agora. O que houve com o seu joelho ?

Sakura perguntou com uma cara preocupada.

- Eu caí e ralei com a queda na escola, mas ganhei um pirulito da enfermeira ! - Kyoko contou alegre enquanto as duas saiam do quarto. - Acredita que o menino que me empurrou foi pedir desculpas no final da aula ?

- Realmente ?

- Juro ! Ele até me pediu perdão de joelhos e jurou que foi um incidente que se arrependerá pelo resto da vida.

- Que estranho… afinal, não foi intencional.

- O mais estranho é que ele estava todo machucado e com o braço numa tipóia, quando hoje de manhã ele tava bem. Mas o perdoei e ele saiu chorando enquanto dizia obrigado.

Elas chegaram na sala de jantar, a mesa já estava posta e seus pais conversavam animados. Ambas se viraram uma para a outra antes de se separarem.

- Ele deve ser daqueles que se sentem muito mal por machucar alguém.

- Eu também pensei o mesmo.

As duas seguiram seus caminhos separadas, cada uma de um lado da mesa. Mas, ambas com sorrisos no rosto.

Embora por motivos diferentes.

Kyoko prometeu que amaria sua irmã independente de tudo que a tornava diferente das outras crianças de Namimori. Isso ainda não mudou, como sua irmã disse... era apenas tinta vermelha.

-x-

Seus encontros com Hibari se estabeleceram em uma rotina.

Quando um deles ficava entediado ou irritado com algo, procuravam o outro para se divertir através da violência de suas lutas. Fora isso, mantinham uma distância considerável.

Cada um em seu território.

A rotina deles durou cerca de oito meses.

Nesse espaço de tempo, cada um deles começou a ganhar certa popularidade e reputação, entre os moradores de Namimori.

Todas as crianças e muitos adultos, já ouviram falar ou tiveram a infelicidade de conhecer pessoalmente, o garoto que é apelidado e temido como Demônio de Namimori.

Hibari Kyoya.

O mesmo, que por algum milagre demoníaco, porque não teria explicação para muitos dos delinquentes que ele mesmo espancou, agora o segue como um deus.

Isso é conhecido como masoquismo.

Ele até formou um grupo que tem uma alta possibilidade de ser uma futura yakuza, que só continua a crescer com o tempo. Mesmo que todos sejam crianças, no futuro serão adultos, certo ?

A outra criança que está no meio dos holofotes, que ganhou a reputação de Princesa de Namimori. Embora o apelido esteja muito longe da realidade.

Sasagawa Sakura.

As notas perfeitas, sorriso dócil, belos cabelos rosa floral e lindos olhos verdes. A imagem de uma princesa tirada de um conto de fadas, pela sua aparência exótica e delicada.

Uma parte que é logo esquecida, quando ela facilmente pode derrotar crianças e adultos com o dobro de seu tamanho. Conhecida por frequentar muitos dojos da cidade e mostrar que não é tão frágil diante daqueles que a confrontam. Ganhando muitos admiradores com suas habilidades e beleza.

A única diferença entre os dois, é que um é temido e a outra admirada.

Mas, no decorrer da semana, essa rotina que se instalou, começou a ficar monótona e tediosa para Sakura. Esses eram seus pensamentos enquanto caminhava para a escola com sua irmã.

- As férias estão chegando.

- Hun.

- Você vai ficar se encontrando com seu amigo, mesmo sem ter aula ? - Kyoko perguntou, prestando bastante atenção a reação da sua irmã.

- Amigo ?

Sakura se virou para Kyoko com olhos confusos.

Amigo.

Sakura não tinha amigos, como também não pretendia. As crianças de sua idade eram todas muito ingênuas, inocentes e não tinham as mentes mais brilhantes do mundo. O que as tornava absurdamente tediosas e sem graça para ela.

Embora sua irmã saiba de seus pensamentos em relação a essa questão. Mesmo que nunca foram ditos, por isso, não entendia de onde vinha a pergunta.

Kyoko poderia supor o que estava passando pela bela cabecinha de sua irmã, e não podia deixar de sorrir com esse fato.

O simples fato que sua adorável irmã, não perceber ou não querer reconhecer que acabou ficando amiga do temido Demônio de Namimori, Hibari Kyoya.

Isso a divertia.

- Mamãe disse uma vez, que existem diferentes tipos de amizade. Mas, aquela que é mais importante, é a que completa.

- Completa ?

Sakura não entendeu essa parte.

- Eu também não tinha entendido essa parte no início, então mamãe explicou que é quando duas pessoas aceitam o outro com todos os seus defeitos e imperfeições. Mas que continuam juntos mesmo assim.

Imagens de rostos familiares surgiram na mente de Sakura. Rostos pertencentes a entes queridos que não estão mais com ela, e nunca mais estarão.

-Hun.

Kyoko pensou que sua irmã ficaria um pouco mais emocionada. Mas suas feições não demonstraram nenhuma emoção e seus olhos verde perderam um certo brilho, ficaram um verde opaco.

Nesse momento, Kyoko percebeu que tocou em um assunto que não deveria.

- Não pretendo ter amigos.

A rua que antes estava cheia de sons, agora parecia ter se apossado de um silêncio mortal.

Kyoko parou em seus passos, olhou com surpresa e espanto para a declaração espontânea de sua irmã. Declaração dita com uma casualidade, convicção e um toque de frieza em suas palavras, que chegou a dar calafrios em seu corpo.

Quando sua irmã fala assim, significa que o assunto está encerrado. Só restava fazer o que sempre fazia nessas raras ocasiões.

- Que tal comemos sorvete no caminho de volta ?

Mudava de assunto, mas deixava na memória para não esquecer e analisar quando vier à tona outra vez.

-x-

O telhado da escola infantil de Namimori tinha a melhor vista para o pátio do recinto. Era silencioso e tranquilo, foi por esse motivo que o lugar virou o local preferido de vigia e descanso do presidente do DC, ou como todos conhecem como Demônio de Namimori.

Ainda faltavam trinta minutos para os portões fecharem e Hibari ir disciplinar aqueles que tiveram o infortúnio de chegarem atrasados. Contudo, o mesmo se encontrava de pé perto da grade de segurança, observando os alunos com olhos de águia.

Como um predador esperando sua presa.

Isso era o que passava pela mente de Kusakabe ao observar seu líder parecer tão… ansioso. Normalmente, Kyo-san só iria tirar uma soneca e no último minuto iria se levantar e seguir sua rotina.

Mas Kusakabe tinha a sensação que esse dia fugiria da normalidade.

Um movimento de seu líder se aproximando mais da grade, chamou sua atenção e o despertou de seus devaneios.

Toda a postura de Kyo-san mudou, seus olhos que antes pareciam de uma águia, agora estava mais com a aparência de uma faca bem afiada antes de ser usada para matar. Esse era o sentimento que Kusakabe estava sentindo nesse momento.

Junto com um mau presságio.

Um ponto rosa passando pelo portão chamou sua atenção. Era a mesma direção pela qual Kyo-san continuava olhando com grande intensidade.

Kusakabe não precisava se aproximar para ver o que era, ou melhor, quem era.

Só existia uma criança com cabelo rosa em toda a cidade de Namimori, Sasagawa Sakura. O objeto de obsessão de seu líder.

Uma garota.

Garota que também é a única que bate de frente contra Hibari Kyoya.

A mesma que não apenas conseguiu chamar a atenção do seu líder, como de grande parte de todos os dojos da cidade. Ela era a própria definição da garota perfeita.

Bonita, inteligente, educada e com habilidades incríveis em luta.

Se fosse qualquer outra pessoa ingênua, só iria enxergar essas definições em Sasagawa Sakura. Mas Kusakabe não é ingênuo, como também sabe ver a verdade do que estar bem escondido.

Kusakabe também sabe que é o mesmo para Kyo-san, como tem certeza que é um dos motivos por ele a achar interessante.

Por trás daquele sorriso feliz e dócil, existem presas bem afiadas.

Por trás daqueles olhos verdes cheios de inocência e curiosidade, existe uma mente calculista e fria.

Por baixo daquelas mãos macias e gentis, são as mesmas usadas para quebrar os ossos de crianças a alguns meses atrás.

O que Kusakabe vê, diferente dos demais… é uma garota perigosa, mortal e cruel. Alguém que ele prefere ter ao lado de seu líder do que contra. Porque sabe que esses dois amam e buscam a emoção da violência e do perigo.

Porém, ambos são o sinônimo desses dois.

Um movimento lá embaixo o fez parar seus pensamentos, uma multidão estava se formando ao redor de duas crianças. Ele estranhou Kyo-san não ter partido para disciplinar os responsáveis por essa aglomeração.

Sua curiosidade levou melhor dele e Kusakabe se aproximou da grade para ver melhor, mas manteve uma distância respeitável ao seu líder, esse que não tirava os olhos da cena que se desenrolava lá no pátio.

Havia no círculo feito pelos alunos, três crianças. A primeira que estava se curvando com as mãos estiradas, segurando flores. A segunda que era a Sasagawa mais nova, essa que estava olhando com espanto e parecia estar em choque como todas as outras. E por último, a terceira que era nada menos que aquela que ele estava pensando anteriormente, Sasagawa Sakura.

Que pelo que pude perceber a essa distância, parece confusa e surpresa também.

Pelo que Kusakabe pode deduzir com a imagem total da situação, é que o garoto se declarou. Parece mais provável que tenha sido para Sasagawa Kyoko, a idol da escola, não seria a primeira vez que algo como isso ocorre.

O que torna a situação estranha pela reação dada pelos demais ao redor. A outra provável resposta seria uma que estava caminhando por um caminho perigoso.

Kusakabe só espera que não tenha acontecido o que sua mente traiçoeira está sugerindo.

Para tirar esses pensamentos da cabeça, Kusakabe se virou em direção a Kyo-san com o objetivo de perguntar o que deveria fazer com essa aglomeração.

Foi uma péssima ideia, seu líder tava com olhos brilhando perigosamente e mais frios e sanguinários do que nunca. Kusakabe jamais viu Kyo-san assim.

- Kusakabe.

Sua voz estava mais fria e vazia do que o normal.

- Sim, Kyo-san ?

Kusakabe perguntou firmemente, mesmo que já tenha um palpite do que será pedido, e teme por isso.

- O que você vê dessa situação ?

Ele teve apenas milésimos de segundos para analisar tudo, antes de responder com imenso cuidado e cautela que a situação que se encontrava exigia.

Porque nesses milésimos de segundos, Kusakabe conseguiu perceber que seu líder, conhecido por não falar frase completas, não apenas acabou de fazer uma, como mesmo com uma grande aglomeração em sua autoproclamada escola, Hibari Kyoya ainda não tinha se movido um centímetro para ir disciplinar todos os responsáveis.

Kusakabe estava em uma situação perigosa e sabia que deveria agir com calma.

- Parece que um garoto se declarou para Sasagawa Kyoko, não é algo fora do comum.

Um silêncio tomou conta do lugar por dois segundos.

- Mesmo ?

- Sim, Kyo-san!

- Hun.

Gotas de suor começaram a surgir, mas Kusakabe continuou firme e conseguiu responder as perguntas tranquilamente, sem mostrar que tinha um pequeno pânico surgindo dentro dele.

Só esperava que não piorasse mais do que já estava. O que não durou muito, porque o garoto com as flores se aproximou das meninas.

Três segundo foi o tempo que a desgraça demorou para acontecer, o garoto no meio do caminho, tropeçou para frente e acabou tombando com Sasagawa Sakura e a beijando acidentalmente.

Uma pressão gigantesca tomou conta do telhado, causando não apenas arrepios, como o congelado no lugar devido a sede de sangue que vinha do seu lado.

Hibari Kyoya estava com raiva.

Nenhuma palavra foi dita quando ele se virou e caminhou calmamente para fora do telhado, as tonfas nas mãos e uma sede de sangue o acompanhando.

Pobre de todos que tiverem a infelicidade de cruzar o seu caminho, principalmente o garoto que acabou de assinar sua sentença de morte.

Porque é de conhecimento de todos da cidade, que a família Hibari é composta por criaturas possessivas, extremamente possessivas. Principalmente com algo que eles consideram exclusivamente deles.

E seu líder acabou de perceber que Sasagawa Sakura, tinha mais valor do que ele achava.

Kusakabe olhou lá para baixo e percebeu que as crianças começaram a ir para as aulas, ele tentou encontrar Sasagawa e a encontrou já entrando no prédio da escola, mas parou em seus passos e se virou em sua direção.

Tinha um sorriso malicioso e olhos verdes brilhando cheios de travessura e diversão. Ela logo tomou seu caminho e ele não a viu mais.

Kusakabe não estava errado em suas hipóteses de que Sasagawa Sakura era perigosa, fria e calculista. Pois com apenas um sorriso e um olhar, ela foi capaz de insinuar que manipulou toda a situação para receber o resultado que queria.